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sexta-feira, 17 de junho de 2016

Os últimos dias no Recife...

Recife vive ressaca assustadora:
perigo ronda milhões de pessoas



um conto de moisesmonteirodemeloneto


"Os últimos dias do Recife? Quem acredita nisso? Vaso ruim não quebra!" Juci está quase bêbada. "Estou com medo", disse a amiga, "meu apartamento... as ondas estão batendo na proteção. A empregada está tremendo". "Pare com essa idiotice. As ondas que estão atingindo o litoral do Recife logo vão baixar. Esse papo que a cidade vai ser inundada é alarme falso". Sua amiga rebateu com força: "Eu vou arrumar minhas coisas, logo. Dizem que vai inundar tudo; escute; é verdade, mesmo: a defesa civil alertou. O negócio é muito sério. Você não sabia? Está desconectada, é?". O rio Capibaribe corria junto do restaurante, em curva generosa e, inesperadamente perfumada naquele final de tarde chuvosa no Recife, mas o nível subia e arrastava parte das encostas do calçadão e os finos e fofos olhavam para aquilo com um misto de desdém e certa preocupação  enquanto a mulata se perguntava: “Com que roupa eu vou?”. Nisso Aninha voltando do toalete parou e falou com uns caras no piano-bar e gargalhou com algo que um daqueles sujeitos disse. Era um tipo meio durão, sinhozinho mandão de corte canavieiro topetudo. Quando Aninha veio, Juci mostrou um retrato de um jovem despido para ela. “É esse, o tal fulano com quem estou... me... relacionando há três semanas. É o aniversário dele e a festa promete. Eu serei a dancing queen, entendeu? Desde que contei a ele a história daquela escrava de Minas Gerais, ele só quer me chamar de minha Xica da Silva. Ele fala coisas tipo assim: que os estrangeiros, como ele, aqui no Recife, vêm apenas comprovar a força positiva do neocolonialismo dos americanos e que ele veio nos `salvar´ da inundação; por mim tudo bem, eu respondo. Que ele é o salva-vidas que eu precisava. Tenho mais escrúpulos não. Tomei ele daquela fulana porque senti firmeza na promessa de mudança. O cheiro de atitude que ele traz”. Aninha olhou para ela ,chocada: “A fulana é afilhada do prefeito”. Juci  rebateu: “Dane-se! Se o Recife ficar debaixo d´água, aí eu quero é ver esse povo boiando!  Eu estou é preocupada com minha roupa, o estilista da Paulinha aprontou comigo. Vá confiar! Mas pelo menos o meu assessor cuidou muito bem da divulgação do negócio. Gostou da minha foto na coluna social?”. “Não dou importância a essas coisas, você sabe. Aliás, detesto aquela gentalha, aquelas joias me dão um abuso triste, se é que você me entende. Mas diga: você não sabe dos escândalos com os norte-americanos.? Este seu casinho, o tal engenheiro do Tio Sam, pode lhe custar muito caro, essa ganância dos gringos”.  Juci gargalhou. “Nunca que eles vão! Americanos, depois que colocas o olho numa coisa que querem, não dão mole enquanto não tomam! Não estou dizendo? Nunca vi nada como esse homem. è uma máquina! Uau! Saber e sabor. Olha! Olha essas fotos”. Aninha olha bem a foto. “Pelo menos ele é competente, não é não? Parece que construção do dique está bem adiantada. Será que vai funcionar? Sabia que ele já me deu uma... cantada?”. Juci aquiesceu: “não se preocupe, honey, eu também não sou totalmente fiel, se é que você me entende; sou moderna; não banque a desentendida,  Eu nunca fui, sei lá, ar-mo-ri-al! A minha vida é uma loucura, desde jovem. Já vi de tudo. E andar pelo mundo fez de mim uma pessoa bem experiente. Nas festas, muitas, que vou também dá para entender como é que os negócios são feitos. Fui criada à beira-mar de um bairro bom e se essa porcaria de cidade vai pro beleléu é problema dela. Meu dinheiro está bem guardado. Minha xácara em Aldeia... duvido que a enchente chegue lá! Não vou me ligar se meu homem ficou ou não ficou com alguém, eu quero é me dar bem. Estou cansada das falsas promessas deste novo milênio. Já empacotei tudo que eu tenho. Vou bem ficar esperando a onda chegar aqui. Sei lá se o tal dique aguenta, o dique que os americanos fizeram, quero dizer. Mas não preciso nem esperar. Vou morar no Texas, bem sequinha. Meu amor tem um rancho lá. Passamos quatro dias inesquecíveis no Novo Éden, é o nome do nosso lugarzinho vermelho branco e azul, cansei de verde-amarelo. Essa ressaca agora é fichinha do que vem por aí. Esses desgraçados ficam construindo essas torres à beira-mar, em locais absurdos; vão aterrando tudo... essa cidade abaixo do nível do mar. Isso não ia dar certo. De repente: olha aí a bagaceira!” Aninha riu tranquilizando-se: “Eita, neguinha abusada!”. Juci pediu um capuchino ao garçom. “Você quer mais alguma coisa, Aninha?” Esta fez biquinho e disse: “Um sorvete de menta com chocolate.”


quarta-feira, 15 de junho de 2016

Carta de Londres




Um conto de moisesmonteirodemeloneto



Caro amigo,

Você bem o sabe, nunca consegui fitar a morte; para mim é a mesma coisa que tentar fitar o sol fixamente. Desculpe-me por não ter escrito antes, mas tudo foi tão repentino que, confesso, fiquei horrorizado. Não se deve ter saudades de como as coisas boas eram nem rancor pelos maus momentos, não é? A imagem da mulher que amei (enquanto estava com ela eu não sabia disso), morta daquele modo tão... tão... bárbaro, eu vi as fotos, devastou minha estabilidade emocional; só agora, não posso mais estar com ela novamente em meus braços, começa a vê tudo que aconteceu conosco por um ângulo mais sóbrio.
Antes, a maneira covarde como os amigos se omitiram, do mesmo modo como alguns bandearam para o lado dela, com seus interesses mais escusos em evidência, ou mesmo do modo fortuito, aleatoriamente... tudo isso somado a uma falta de fé cada vez maior, quase me levou à depressão.
Você deve estar estranhando uma carta, em vez de um telefonema. Eu havia jurado evitar qualquer narrativa escrita. Prometi abandonar de vez a literatura. Mas... aqui está: bem na sua frente, o meu primeiro desabafo depois da maior dor da minha vida (ainda dói). A traição dela foi uma coisa tão perfeita que até agora me pergunto como pude ser tão idiota e não prever que ela estava alimentando aquela vingança. Não imaginava a espécie de feitiço que me aguardava nem, muito menos, nada parecido com o que a vitimou, pobre mulher.  Ela nunca foi feliz. Eis a verdade. Sempre tramando, manipulando as pessoas. Sem contar o caso de abuso na infância, tudo fazia dela uma mulher marcada. Brigamos muito, mas eu nutria um sentimento profundo por nossa falecida. Pobrezinha. Fosse eu um tipo especial de cardiologista, pronto para operar aquele coração doentio dela... eu o teria feito.
Ela tinha 57 anos, mas era como se tivesse começando a viver naquele momento, tal era a vitalidade dos gestos, que até hoje se debatem na minha memória, desde que fugi do Recife e vim para cá.
Os mortos falam? Será que existe vida após a Morte? Talvez sim, mas muito provavelmente só através das mentes dos vivos.
Tento lembrar dos momentos com ela, lá em Notting Hill, mas é inútil, há coisas que não podem ser refeitas nem nos labirintos do cérebro humano. Ontem, passeando por Portobello Road, prestei mais atenção ao som do reggae, discordante e ao mesmo tempo harmônico, na letra e na música. Distraí-me, com jornais e revistas de um bar, tentava, naquele lugar, fugir do palácio mal assombrado onde parte das minhas lembranças moram. Pensei nos cabelos da morta, lembrei-me da propaganda de tintura barata.
Uma noite, recordo como se fosse hoje, ela me disse mais ou menos assim: sinto-me como Satã, sendo condenado a vagar, em sua condição de anjo, num tipo de império de água e ar. Parte de sua punição era não ter local fixo onde pudesse descansar os pés. Também eu, agora, não tenho lugar fixo para colocar os pés. Londres, Nova York; minha trajetória tem sido assim: bom humor, mistério, fábulas, alegorias, jogo de palavras, amor e... provocação. E essa minha sede de ver a vida como mistura da unidade e continuidade da cultura ocidental é condimentada com tempero do Oriente. Às vezes eu me sinto como num romance à clef, numa história codificada, onde personagens reais aparecem com nomes falsos e transfiguradas, e, bem sabemos, eu tenho essa minha ideia sobre nossas almas.]
 Eu não gosto da cultura animalesca que domina o planeta Terra. Essa cachorrada com a qual ela se envolveu, eu sabia que não ia acabar bem. Eu procurei lidar com moderação nos casos dela de amoralidade, ironia, violência cômica, sadismo, mas não deu certo;  ela era muito atrevida, mas nem nos sonhos mais selvagens eu a imaginei trucidada por alguém a quem ela desgraçou, ou pelo menos tentou isso.
No fundo eu achava que ela era uma mulher, digamos assim, boa. Como uma atriz dramática que queria se especializar em comédias do tipo Almodóvar, uma espécie de anti-heroína, mas ela se metamorfoseou num demônio típico, na mente de muitos dos seus inimigos, de pêlos, chifres e rabo. Depois que recebi a notícia do crime, imaginei, com horror profundo que sinto pela violência, um narrador a estilhaçar a trama da nossa existência, em várias unidades e voyeuristicamente observando tudo com uma sensualidade lambuzada de malícia obsessiva. 
Eu continuo o mesmo, meus defeitos continuam intactos. Preciso sair desta letargia, rápido. Meu espírito busca a paz. Estou disposto a pagar o que for necessário por isso. Detesto me sentir preso ao que já passou.
A lembrança dela cruza a minha memória. Se o Grande Arquiteto do Universo fosse um narrador, sua conversa com o leitor, com certeza, dinamizaria toda a narrativa,  na qual nossa maliciosa leitura reescreve, através da percepção, tiradas cômicas.
Não volto tão cedo à nossa cidade. Há muito tempo eu tirei da minha mente o sonho de um retorno glorioso.
Hoje veio uma frase na minha cabeça: “Que artista teria sido Disney se não tivesse coração. Esta foi sua falha trágica." Mas o erro dela foi justamente a frieza, a dissimulação.
Como disse à sua irmã, tenho ido a todos os lugares que visitamos juntos, eu e ela, há alguns anos atrás. Tudo parece agora puro acaso, o amor, a fala, o pensamento, eu como escritor não consigo reproduzir, não. Por mais que eu tente. Também não vou lançar meu barco ébrio num rio de lágrimas. Isso, não. O tempo recriado é como um castelo de cartas. O que é o nada? É tudo que está do lado de cá do espelho. Eu vou me fundindo com o que não consigo compreender, nessa sonolência hipnótica que toma conta de mim, na busca da “verdade” desta estranha situação, contra a qual eu quase nada posso, além do exercício repetitivo desta carta que lhe mando.
Agora vamos falar de outra coisa. Certo?
O meu amigo, com quem estou dividindo as despesas de uma casa aqui na Inglaterra, ensina Literatura e tem contatos que você nem imagina. Temos conversado muito. Ele é budista, é tudo tão surpreendente e tão possível que eu, de certa forma, estou superando esta minha maldita ansiedade e encontrando um caminho para remendar meu coração partido e ensiná-lo a ser feliz novamente, neste quase verão londrino.
Há uma atitude que não depende da sorte. É uma espécie de escolha que parece nos destinar às grandes causas. Como um prêmio que damos a nós mesmos; algo que nos faz assumir as diferenças dos outros, e que, às vezes nos coloca num patamar superior, não superior ao outro, mas a nós mesmos enquanto seres de angústia.
Sei que perdi dinheiro com a venda do apartamento. Mas, somando tudo, tenho grana para passar dois anos sem trabalhar, penso em fazer o meu pós-doc  por aqui, você sabe. As coisas são mais fáceis do que pensávamos. Tem também aquele lance de passar seis meses no Tibet. Ah, caríssimo! O exílio é um país sem alma.
E o Recife, como está?

domingo, 12 de junho de 2016

A noite do Gato. Um conto invernoso de Moisés Monteiro de Melo Neto




Recife, início do século XXI. Os limpadores dispersavam a água do vidro. Ela atravessou a Ponte Giratória no meio da neblina. Fumaça dentro do carro, lágrimas nos olhos. Um retrato rasgado sobre o assento do passageiro. Tocava “Holding back the years”, do Simply Red, no potente e suave som do carro. Uma ilha: o Recife Antigo. Um revólver no porta- luvas, pílulas, uma garrafinha de prata. Uma retocada básica na maquiagem e no cabelo, uma ajeitada nos anéis, no colarzinho, no sutiã. Um perfume, Dolce & Gabanna. Uma mulher respira fundo. É hoje.
O flanelinha com imenso guarda-chuva até a porta da boate. Sorriso do porteiro, abraço do promoter. Faíscas de luz vinham do primeiro dancing. Direto para o Mexican bar. Tequila. Olhos ansiosos. Bebeu a dose de um gole só. Classe média recifense. Poucos ricos à meia-noite. Partiu uma unha quando meteu a mão na bolsa em busca de um cigarro. E meu benzinho? Cadê o meu gato? O garçom não soube explicar. Diz pro Fred que eu já volto. A senhora manda. Cruzou o lounge como um espírito e saiu entorpecida.
Uma rajada de vento frio deu-lhe um arrepio na nuca. Num dos velhos casarões duas prostitutas velhas gargalharam na varanda Alguns vagabundos trocavam insultos numa birosca suja. Ao longe o barulho do show. Olhou à direita para a praça do Marco Zero. A Torre de cristal, arquitetada por Brennand, espécie de culto ao falo, cintilava esverdeada, meio translúcida, e uma criança dançava alucinadamente, enquanto outros jovens patinavam na lama.
Na Rua do Bom Jesus as folhas das árvores balançavam e as calçadas dos bares estavam vazias. Lá dentro alguns buscavam calor. Ela entrou numa espécie de pub. Sentou-se. Pediu mais tequila e ligou para o seu Gato. Muito barulho. Mandou uma mensagem por escrito: no Panquecas, em 15 minutos, que logo passaram. Quando ele chegou, ela tinha tomado mais uma dose. Queria ver o resto do show... na Praça do Arsenal. Show do Manu Chao.  Eu sou o show! Ou vai me trocar também por aquele toin oin oin do Manu Chao? Você não merece uma mulher como eu! Gato, sinceramente! Olhe: o que você fez, tirando tudo que é seu do apartamento e jogando a chave por debaixo da porta...  depois de tudo... é im-per-do-á-vel! E comigo! Quem você pensa que é? Hein? Eu acabo com você! Foi aquela cachorra, não foi? Vamos diga! Se você não se acalmar, eu vou embora. Pois vá! Você não tem jeito. Vamos andando. Pague esta porcaria. Eu lhe espero na esquina. Levantou-se. Ela deixou uma nota de 50 e disse que depois pegava o troco. Seguiu-o.
A chuva havia parado e uma lua cheia ensaiava iluminar as ruas lamacentas. Ela alcançou-o. Gato, seu canalha! Vou denunciar vocês todos. Pensa que não tenho provas? Eles matam você. Sem você, é melhor morrer! Eu te amo demais. E sei que você me ama. Ninguém manda em mim. Ela segurou o rosto dele e deu-lhe um prolongado beijo na boca. Parecia querer sugar-lhe a alma. Ele desvencilhou-se e continuou a andar em direção ao cais. Passaram uns rapazes vestidos de preto e com caras de mortos-vivos. Um deles pediu um cigarro. Ela disse que não. Pegou um e acendeu. Isso ainda vai te dar um câncer. Que feio! E o seu vício é tão bonitinho... Escute: semana que vem estou indo para Londres. Não! Me deixe ir! O Recife está me sufocando. Uma nuvem passou rápida pela lua. Eles chegaram na frente do prédio enorme do Ministério da Fazenda. Ela encostou-se numa das colunas. Olhou para um navio que estava atracado. Observou o nome. Parecia russo. Vai largar a faculdade? Vai trancar? E o dinheiro que eu gastei? Ele não respondeu. O telefone dele tocou. Ele se afastou pra atender. Estou com ela agora... Sua vagabunda! Deixe o meu homem em paz! Não estrague o futuro dele! Pare! Depois eu falo com você! Ai, meu Deus. Você está me destruindo. Depois de tudo que eu fiz por você! Saiu andando cambaleante em direção ao envidraçado Armazém 12; ele a seguiu.
Um trem de carga se aproximava. As lágrimas atrapalhavam a visão e ela imaginou-se estraçalhada sobre os trilhos. Desistiu.
Pois vá! Vá mesmo. Vá logo.
Ele afastou-se indeciso, olhou para trás, cheio de outras vidas, e foi embora. Talvez para sempre. 
Ela pensou: era forte. Já aguentara muita coisa e venceu na vida, sozinha. Maldito desmantelo blue! A lua brilhou intensamente. Ela esboçou um sorriso. Olhou para os prédios da Praça do Marco Zero. O chão molhado, as avenidas. Sozinha naquela ilha! Encaminhou-se para o carro. Morrer não adiantava. Tinha que continuar lutando e tentar ficar mais forte e mais... bonita...





arte: Ricardo Soares, sobre fotos de Gustavo Túlio

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Suíça ,Dilma e os governos estaduais que pedem clemência ao Governo Federal


Suíça, em plebiscito,  rejeita uma espécie de bolsa salário mínimo, cerca de nove mil reais por mês, alegam que não ficou claro de onde viria esse dinheiro, como o governo de lá pagaria a conta.

 Já no Brasil, o Supremo vai decidir data para início do julgamento de Dilma. Enquanto isso, os governos estaduais pedem dois anos para negociar suas dívidas com  o Governo Federal. Esse imbróglio tem complexidades que vão muito além do óbvio. Fico pensando no que eu poso colaborar.

A nossa situação é inquietante porque apesar de sermos um país com potencial incrível, vivemos à mercê de certo tipo de negociação que não tem nos beneficiado muito, ou pelo menos no que toca a estabilidade financeira.

O mundo, como um todo, tem agido de modo irresponsável em relação ao plano global. É cada um por si e pronto. Mas existem homens conectados co  a mudança. Disso estou certo.

Vida é construção permanente.

domingo, 5 de junho de 2016

Volta, querida. No show de Zeca Baleiro

por moisesmonteirodemeloneto




“Assim ele canta, no seu novo CD:
 “ Era domingo
Era do mundo
Meu olhar perplexo
Na voz navalha
Vida, migalha
E eu quero mais que isso
Toda beleza
Na fortaleza
De um céu cheio de azuis
Música bela
Pela janela
Soava feito um blues
E eu tão só
Tão sem ninguém...”



Os professores Telma Virgínia e Moisés Neto, no show de Zeca Baleiro
 



Zeca Baleiro é um cara legal. Este aprece ser o slogan favorito para  o marketing desse maranhense que conquistou o Brasil abençoado por Gal Costa, nos anos 90,  numa releitura de Vapor barato (“ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar...”); hoje Zeca está com a cabeça quase toda branca, o que não deixou de chocar alguns recifenses que acreditavam que ele era um vampiro e nunca envelheceria; bobagens à parte o show deste senhor é um barato; mas ele tem uma queda inevitável, ou incontornável, para o brega; regional, pop, blues, rock, também para o underground (meio beatnik, pronto, já disse!).

Cabala na agulha, para criar um trocadilho, 

pecado acadêmico, que Zecadora





Eu poderia citar o cenário, que lembrava tanto um canavial nordestino quanto um bambuzal chinês, prático e muito bom, poderia dizer que a iluminação arrojada contribuiu para a formação de um clima, que entorpecia o espectador já ritmado com o maranhense querido; mas prefiro falar do que aconteceu, também na audiência e tratar um pouco sobre cruzamento de ideias. Zeca traz elementos cinematográficos, filosóficos, televisivos, algo da composição pictórica, transporta tudo em letras e atitudes que dispensam tecnologias exibicionistas, consegue fazer o espetador imagine, e o faz como um estranho sacerdote.
 Assisti ao show no dia 4 de junho de 2016, ao lado da minha grande amiga Telma Cunha, uma guerreira que luta pelas causas sociais, principalmente as causas do feminino. Zeca cantou músicas do novo CD (Era domingo), mas passeou (só um pouco) pelos hits (toca Raul!). Sentamos bem pertinho dele  e eu dei um livro com as crônicas do cantor para minha caríssima Telma. Ficamos encantados quando ele cantou O CHAMADO (música do repertório de Marina Lima).  Mas o negócio de Zeca é mesmo o ócio criativo e o espetáculo, ele sabe como conduzir muito bem. Então foi rolando o tempo com a inclusão do clássico de Belchior (que eu encontrei usando uma cozinha como camarim, quando estive em Miami) “Apenas um rapaz latino americano” e mais. Ele começou a conversa com a plateia, que é bicho que uma vez desperto é capaz de criativa interação. Disse que preferia o Nordeste ao esquema do Sudeste. Por isso veio logo ao Recife. Também não teceu grandes loas Manguetown.
Quando ele saiu de cena se despedindo, antes do bis, alguém gritou “volta, querida” (numa atitude cheia de múltiplos sentidos, numa mistura notável, de entonação, intenção e recado/ maldição, bênção, teatro, lembrou-me algumas ideias de Dick Higgins, do meu caríssimo Grupo Fluxus, que já teve nas suas hostes membros como Yoko Ono e nosso Paulo Brurcsky, obra de arte em interseção, dinâmica entreambiente, transformando a plateia em espaço performático,  e sabe-se lá o que mais), aí o público deu aquele riso involuntário, bateu palmas e só uma voz arriscou um “tchau, querida” (para Zeca?), ouviu-se até certo "nãotemerpordilma", parecia canto gregoriano. Ele voltou e  durante aquela parte da sua performance, ele comentou muito sutilmente a opinião dele sobre o atual momento político, o fez com poesia e refinamento, continuaou a encantar uma plateia que estava nas suas mãos, mas não estava passiva. Ele concluiu o show pela segunda vez.Saiu, os espectadores iam retirar-se quando...  ele entrou, pela terceira vez.
Não vi ninguém que valesse a pena destacar  na plateia, também não procurei muito. Zeca é poeta, no sentido vivencial do termo. Adorável, mesmo, sim, com seus trocadilhos. Sua voz é xamanística, seu ritmo cativante e sua presença reconforta nossos corações solitários de artistas da palavra...

sábado, 4 de junho de 2016

De JUNHO para JULHO quantos ABISMOS?


Jomard Muniz de Britto, JMB
 



Nossa tragédia cotidiana não tem hora.
Meio dia de sol ao luar dos sertões.
Miragens citadinas com todas as
T E M E R I D A D E S. JUNHO-JULHO.
Cinco letras entre U e O.
U de ultrapassagens. Ultimatum.
O de ontem com filmes de terror.
AcrObacias no concreto armado
pelos espigões e outras torres gêmeas
de tão cúmplices e degeneradas.
Conjugando presença dos deuses e
demônios do Kapital sem Kafka.
Todos percebemos que o mundo continua
pleno e carente de metáforas. 
Repetindo como outrora: metamorFOME.
De amor, aventuras, mutações.
Passeatas. Procissões. Ocupações.
Junho e Julho embelezando
barbudos híbridos e gatas afrodisíacas.
Miragens talvez mirabolantes.
PSOLUAR. Que partido é este?!
Boi Neon para todos.
Sejamos leitores entre abismos.
Peregrinos. Passionais. Polivalentes.
Nem prosa poética nem poesia didática.
Sejamos coautores de exercícios falados,
rabiscados, caligráficos, bricolados
que ainda continuamos a chamar
a t e n t a d o s poéticos.
Anti-heróis e trans-românticos.
Sem TEMER nem temor dos que
consideram BOBAGEM os projéteis
de contemporaneidade por CUQUINHA.
Sejamos indomáveis entre Junho
e Julho das poliafetividades.
Pela errância dos desejos.
Atentos atentados da amorosidade.
 
Recife, 2016
atentadospoeticos@yahoo.com.br
Digitação translúcida: Pedro Celso Lins

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Sobre a escrita de MOISESMONTEIRODEMELONETO

Minha escrita é essencialmente dialógica, se choca com qualquer  monologismo , faz críticas aos costumes vigentes e atinge a intratabilidade na sua busca radical. Não admite concessão, nem cumplicidade. Quer partejar o real embutido, disperso em tempo e discurso. Faz-se sátira,  paródia, para tornar patente o ser. Atinge os nódulos. Não é feita para ser adulada; para ganhar dinheiro. Cava seu espaço na mídia é busca pessoal, terrorista, libertina, masturbatória, de compreensão e interferência na existência, é dialógica, fragmentar, polidimensional, hipertextual (na forma e conteúdo).  Organiza o que está disperso no confronto de ideias, no conflito das multiplicidades, nos devires da virtualidade. Faz-se flexível, mutável, interpenetra os gêneros: presença com o riso é paródia que não teme o grotesco nem as limitações espacio-temporais, da história, observa a dimensão jornalística do imediato(livre do convencional memorialismo) : não se quer verossímil ataca até a si mesma.Não se deixa atingir pelo bairrismo. Reordena, usa o palimpsesto, a técnica cinematográfica, pós-surreal-cubista-futurista, é interferência e substituição, reorganização virótica. Mistura fala, substitui elementos, desdobra o que está dobrado e dobra o desdobrado.  Condensa, exagera, desloca, permuta, monta, corta, separa, une, junta planos, reestrutura cenas, cria continuações nos vazios, esvazia os cheios, corta e recompõe em colagens visíveis e invisíveis e o novo sentido é construído em tempo reordenado nas pontes do novo texto com outros, texto sobre texto em escreviver. Viola discursos . É inoportuno desmascaramento,  profanação, desrespeito, contrastes brusquidão, gêneros intercalados, multiplicidade de estilos, perfuração de limites tornando a estabilidade relativa onde tudo é levado ao extremo . Parodia os tons opressores levando-os até seu limite, contradicções, temporalidades viciadas, câncer. É encontro com a própria consciência, com outras na luta contra crenças, desejos, naturalizações, explorações, humilhações pois quer clara consciência. Ironia aí,  não é jogo engraçado e sutil, porém demolição. Não é catarse, espiritualidade, mas expressão do turvo, equívoco, doloroso , quer a revolta em vez do pastoreio. Exibe o escravo, a escravidão, as explorações, os preconceitos Execra as monofonias recusa a aquiescência, a passividade, é incômoda. Não tem partido, sua razão é contra todos. Não tolera vencidos ou vencedores na sua ácida cólera , indignação, ataque aos racionais e irracionais, direitas e esquerdas, modernistas e antimodernos, comunistas e capitalistas, nazistas e antinazistas, negros e brancos, judeus e árabes, homens e mulheres, amigos e inimigos, teístas e ateus, pós-modernistas e nacionalistas. Nessa mistura de sério com cômico atinge representação literária de estados psíquicos intrigantes num sensualismo que zomba maliciosamente dos ridículos do mundo.  Tem função corrosiva de busca radical da verdade Não quer se acostumar com as negociações, arranjos, dribles, acertos, os ideais dos senhores, o que eles gostam, querem, desejam, sonham. Não quer comungar com o ridículo. Não teme ofender ninguém e demonstra autonomia, liberdade. Vai além do nacionalista quando reconhece a máscara dos senhores, dentes dos senhores. E não rir pra eles, não faz parte dos que ficam parados suspirando nas trevas, coniventes com a opressão.  Quer o instante instaurador como eixo.

MOISESMONTEIRODEMELONETO