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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

JOMARD MUNIZ DE BRITTO MORREU HOJE, NO RECIFE. 12 de outubro de 2026/ O FUNERAL DE JOMARD MUNIZ DE BRITTO. Por Moisés Monteiro de Melo Neto

 

 

Os abismos da poeticidade em Jomard Muniz de Britto

Do Escrevivendo aos Atentados Poéticos

Por Moisés Monteiro de Melo Neto

 

Conheci Jomard em 1968. Fomos para uma noitada depois do show e passamos a madrugada bebendo, conversando… aquela coisa muito, muito animada. Na volta, antes de cruzarmos a ponte que liga o Pina ao centro do Recife, paramos e eu disse: “Recife parece Paris”. Quando eu conheci Paris, eu disse: “parece o Recife”. Eu próprio, hoje em dia, não acho mais. Era algo que você sentia em Paris e sentia no Recife e não sentia em Salvador. (Caetano Veloso, em depoimento ao filme JMB, o famigerado)

 

 “A Pernambucália desvairada do tropicano independente Jomard Muniz de Britto legou à cidade do Recife, nos últimos anos, um estilo denominado Abismos” (João Denys Araújo Leite)

 

“Fora da luta não há descanso merecido, não existe despertar” (Alberto Cunha Melo)

 


 

Vou ao velório de JOMARD MUNIZ DE BRITTO, meu querido, agora. Ele morreu hoje, 12 de outubro de 2026, no Recife, o filósofo, cineasta, crítico cultural, Jomard José Muniz de Britto (ele nunca usa o José, mas ali está, como um toque drummondiano), nascido em 08/04/1937, na Rua Imperial, bairro de São José, Recife, traz consigo a história viva dos que ousam questionar (se). Admirador de Michel Pêcheux e sua Análise do Discurso. Escrevi minha tese de doutorado sobre ele, publicada , em 2025, pelo SESC-PE.

Moisés Monteiro de Melo Neto:  último carnaval que brinquei com Jomard Muniz de Britto, no Pátio de São Pedro, Recife (2020)


JMB e a cultura brasileira: reaproximando arte em economia vivencial e economia política, intuição e rigor, crítica cultural e poeticidade,  ele desmitificou, através do “veneno do novo”, fez a crítica à alienação, sugeriu estratégias para uma nova visão do fazer cultural, do ser e estar no mundo, numa negação positiva por uma existência melhor.

Sua poeticidade-experiência:  humor e horror em voz cosmopolita, de constituição firme, político-humanista, verso em crise, invenção constante que não coloca em primeiro plano rigorosas concepções racionais de estrutura, mas aposta em plurivalência semântica, estrutura poemática de linha construtiva.

O óbvio e o abismo enfrentam-se numa linguagem sem garantias, nos seus textos , publicados, desde seu primeiro livro (“Contradições do homem brasileiro”), de 1964, recolhido pela Censura política) onde se encontra o dessujeitamento em relação à opressão promovida pelos discursos do poder. Propôs a transformação do que se é: eis sua produção literária, que  solicita como condição para o ser verdadeiro, não a morte do sujeito, mas o seu desaparecimento diante de singularidades plurais.

Esteve ligado ao Paulo Freire, compondo a primeira equipe do querido Educador e foi preso, ao lado de Gregório Bezerra, no Recife.

pensador da cultura, um antilírico a apreender vozes antes dispersas.

Este recifense trata, através dos seus textos, da interpretação e/ou compreensão da cultura brasileira, revelando através de perguntas as dimensões submersas, invisíveis, recônditas, complexas, múltiplas do conhecimento.

JMB faz parte de uma neovanguarda literária que surgiu no Brasil nos anos 1960 (leia-se vanguarda permanente).

O diálogo estudo buscando o limite possível entre aproximação e distanciamento, como contracanto e intersecção, quando devorou e foi devorado) na movimentação tropicalista, ou, antes, com a pedagogia de Paulo Freire

 sempre detectou o medo, o autoritarismo, as classes encarceradas, a dependência antropofágica, o jogo da arrogância e astúcia, a transgressão da liberdade. De pai paraibano de Itabaiana e mãe  pernambucana: José e Maria Celeste; estudou no Ginásio Pernambucano, depois na Faculdade de Filosofia da Universidade de Recife (hoje UFPE).

O que caracteriza a poesia em JMB e como ela dialoga com o tempo e lugar em que foi produzida? Nossa resposta-tese : Trata-se de um pensador da cultura que contribui com a possibilidade de uma sociedade mais conhecedora de si mesma. 

A  performance linguística de JMB, onde o sucesso é o do ouvinte/leitor,

Literatura como metáfora da teatralização em desafios de classes e gêneros, comportamento restaurado, teatro, te-ato, refazendo o caminho, exibindo o sujeito fragmentado, depois da “perda” da origem, significativamente pós-moderno, semiótico, ênfase no jogo.

Lançando-se entre comportamento (tudo que acontece) e conduta (normas), operando na ressocialização efetiva, no comportamento alternativo, suposições alternativas. Literatura performática no sentido que Mar “dentro de cada cultura, pode ser descoberta uma espécie de atividade, separada de outras atividades por espaço, tempo, atitude ou por todos eles juntos, que pode ser analisada como performance”

Trata-se de uma abordagem poética contextual, uma estratégia para englobar o momento e que se ergue acima do seu conteúdo referencial. Performance linguística enquanto prazer presente, ato de expressão em si (resultado do contexto no qual é feito), metacomunicação entre humor e seriedade, exibindo interações mútuas, incomum exibição da fragilidade do virtuosismo, corpo presente e vivo frente ao drama social, amplo de manifestações.

Essa escrita jomardiana é registro, projeto e práxis de um arquiteto de memórias, feito à base de cortes, fusões, colagens, imagens superpostas, closes e planos gerais (como na edição cinematográfica); é exercício no trato das situações-limite

É obra que se apresenta como reinvenção e surpresa, em peculiar rede de significantes. Sua base teórica vem desde os pré-socráticos, como Heráclito de Éfeso e sua tese do “tudo é fluxo”, do desprezo aos bens materiais, ao “poder”, a relação do ser com o devir, a crítica ao princípio de identidade (coisas iguais a si mesmas) enquanto ilusão, pois só a mudança e o movimento seriam reais (de Heráclito viria também a doutrina dos contrários, pivô no texto de JMB, que presenta interdependência entre conceitos opostos, porém sem a exclusão do terceiro (na dialética do ser ou não ser).

O texto jomardiano toma das bases teóricas, vários aspectos e os contrasta com outros vários, pondo-os em abismo; poética caosmótica, pop-filosófica, sempre desejante, jamais reificadora no registro e revisão de uma memória plural: identidade que vai se processando em alteridades  inesgotáveis,  imprevisíveis.

 Do em-si-para-os-outros, eis o jogo de memórias em nós múltiplos, espelhos, espantos, esperanças, desesperos, suavidades, “quimeras de felicidade coletiva; muito além dos carnavais”; “nós, outros, qualquer dia todos”, como ele sugere num dos seus atentados poéticos.

É como se a língua fosse tirada das garras do poder e JMB livra-a da chapa da generalidade, moralidade, indiferença (do peso do discurso coletivo).

Dá-se deste modo o caráter apofático (rejeição de uma crença) neste texto, numa relação não-servil, espécie de exegese enquanto interrogação que busca esclarecer, desconstruindo os topoi, os lugares comuns, ou mesmo os detectando e provocando descolamentos e deslocamentos, mergulhando a palavra em sua fonte para que ela surja rejuvenescida, rica de parentescos perdidos ou esquecidos, plena de conotações e ambiguidades, na cintilação do sentido, em  poeticidade patchwork, poeticidade puzzle. Dura escritura (escrita literária), ciente de que nada pode fazer de dois, o Um.

No horizonte impossível da anarquia linguageira, em JMB a língua tenta escapar a seu próprio poder, à sua própria servidão: nossa tese é de que algo aí se relaciona com o teatro, com a performance.

 Nos moldes do distanciamento brechtiano, provocando estranhamento, subvertendo ideologias, esta escritura, “fora do lugar”, se faz coringa ou morto no jogo de baralho, o “grau zero”, no combate às repressões ideológicas e libidinais.

Sem jamais se desculpar, jamais se explicar, a poeticidade jomardiana flerta com o leitor, sem saber onde ele está, na possibilidade de uma dialética do desejo, imprevisão do desfrute, contra a neurose, no limite da loucura possível.

É escritura enquanto fruições (gozos) da linguagem, pondo o nobre e o trivial em contato.

O prazer do texto na produção jomardiana se dá na linguagem redistribuída por corte: de um lado está a língua no seu estado canônico e do outro fica a margem móvel, entre as duas, barthesianamente, a poesia deste autor aproxima-se da fenda, que se torna erótica entre uma e outra. Seu texto é semelhante a este instante insustentável  que o transgressor aprecia no final de uma maquinação atrevida.

O texto jomardiano também é uma combinação delicada, de elementos biográficos, sociológicos, psicológicos (educação, classe social etc.) 

sujeito em fruição [gozo]; tudo é desconstruído; é como se o vestuário da linguagem se entreabrisse e, de repente, em vislumbre, oferecesse uma fonte de prazer.

Ali: entre a forma e o conteúdo a “esfoladura”, o convite ao mergulho.

 O texto-limite, o interstício, a redescoberta em face ao ideológico e ao imaginário, texto que faz vacilar bases históricas, psicológicas, culturais, evidenciando a crise do homem com a linguagem.

Texto que trata da problemática relação entre crítico e leitor comum e discute a relação da parte com o todo, pondo em interface a função social e o prazer particular na literatura e na vida.

Agindo contra a alienação na sociedade, numa espécie de tomada de posição para a frente, trabalhando certa linguagem antiga enquanto imediatamente comprometida,

toda linguagem se torna “antiga” desde que é repetida, todas as instituições oficiais de linguagens são “máquinas repisadoras” e o estereótipo é um fato político, a figura-chave da ideologia.

A poeticidade jomardiana faz a análise socioideológica, não sendo pejorativamente datada, trata de temas que, paradoxalmente, estão ligados à sua época e lugar, mas são também universais e atemporais (na crítica),

estão, no instante já, presas em Devir. Em relação ao achatamento de massa, por exemplo, ligado à repetição da linguagem, ele propõe desrecalcar o gozo sob o estereótipo, busca a ideia gerativa; assim o texto jomardiano se faz, se trabalha através de um enlaçamento perpétuo e o sujeito se desfaz nele “qual uma aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia”,

Jogando com o corpo anônimo de seu ator (autor falante), na orelha de quem o “lê”. É o “grão da voz”, misto erótico de timbre e de linguagem “atapetada de pele”, “pátina das consoantes”, “voluptuosidade das vogais”, “estereofonia da carne profunda”, “escritura em voz alta. Escritura vocal, a exprimir indignação, compaixão etc.”

JMB, antes de mais nada, agencia as diferenciações da cultura nacional e seus vieses em intensa conversação.

A poeticidade dele mune-se de espelhos e perspectivas a observar interesses ideológicos, “culturais”, políticos, sociais, sexuais, estéticos.

Ele traz, na sua antilira reflexões estético-políticas em forma de síntese, registradas entre o som e o sentido, a lutar, festejar, com a palavra (indomável?), num poliédrico fruir poético-existencial.

Rompe com o esquema do poema fechado em nome do processo questionador, instala, dentre outras coisas, a suspeita da linguagem e a busca incessante de parcerias, numa espécie de criatividade coletiva. Alguns dos seus livros contam com parceiros de “intervenção visual” na quase recusa à solidão do texto.

Dentro da cultura nacional JMB detecta um estoque disparatado de subculturas (uma em divergência com as outras) é é aí que ele problematiza os universos e a linguagem objetiva e subjetivamente em experiência fenomenológica, lança um olhar reflexivo sobre um objeto qualquer do vivido, do cotidiano e desta visão da transitoriedade extrai perguntas.

 O espírito em tais textos é a ação e até esta ação é também objeto desta escritura que questiona o que é imposto como verdade. Se é literatura excêntrica, talvez para ela não houvesse outro caminho possível.

 Colocando em interface o ser e sua existência histórico-social, essa poética leva a questão da memória (lembremo-nos aqui da vita contemplativa versus vita activa, até o abissal reflexo de outros discursos, lugares, personagens, desejos, mistérios, em polifonia.

Pode-se ler na sua obra reflexões sobre os processos de produção cultural, sobre o ensino-aprendizagem, ou ainda a problematização das classes sociais, gêneros, poder, sexualidade, etnicidade.

É trabalho de expansão da significação da palavra (às vezes até a opacidade), utilizando-se de intertextualidade, neologismos, trocadilhos, chiste, dentre outros recursos na busca de uma consciência possível. É poética de reflexão, a dialogar com fatores culturais de forma lúdica.

Vejo a obra-vida JMB enquanto forma de ação político-pedagógica.

JMB  em redemoinho (que ele mesmo suscita ao fragmentar o realismo na sua “pop  filosofia” que  resgata o prazer do texto).

discurso cravejado de chistes

 contrasta as ideias impostas imprimindo nelas o desconcerto; pede esclarecimentos; desautoriza-as, provoca-as.

Expõe o discurso opressor de modo cômico, caricatura-o. Faz o chiste e provoca no seu leitor um súbito relaxamento da tensão intelectual.

Ataca o recalcamento (partilhado socialmente com prazer) de maneira pujante, ágil, em associações estonteantes dentro de um campo que faz flutuar os sentidos no mar tantalizador da linguagem, evidenciando a múltipla cognição dos signos.

Nos sintagmas (frases) desse discurso as relações associativas burlam assim o controle do paradigma ideológico e exibem nova seleção vocabular. Deslocando o “lugar da verdade” pondo o homem como articulador da sua existência, a essência humana como construção livre.

O leitmotiv da obra jomardiana, seu ritornello se dá no desvio de toda intenção reguladora, programática, teorizante nos seus espelhos multifacetados de uma plural realidade, escritura fragmentada em várias vertentes (abismos).

 

Do interior da língua, teatralidade, o jogo de palavras. Afastando-se da “orientação documental-nacionalista, dominante na América Latina, o pensador da cultura, JMB, lê o Brasil, a partir de Pernambuco, mas com visão universal, não-ortodoxa, não fetichizando nenhum saber específico, dando a estes saberes lugar indireto na diversidade entre a fala social (socioleto-enquanto trama do sistema ideológico, a linguagem vem sempre de algum lugar) e a do sujeito (idioleto).

São versos permeados de um inacabamento perdurante contra definições programáticas. Sugerem um fazer coletivo, antidiscurso e criatividade (compartilhada com o leitor), rompendo as fronteiras entre o poético e a crítica da cultura criando algo novo, intempestivo em texto que segrega a poesia .

Entre paradoxos e identidades, sugerindo uma produção de sentidos menos opressora, tem-se uma voz poética num lócus anticonvencional que já se anuncia no livro Escrevivendo, por exemplo, no qual ele, qual o avesso de outro dantesco Virgílio, conduz o leitor num labirinto de instâncias provisórias, os abismos, de efeito inacabado em um nível de intelecção e de conceituação bastante problemáticos (desde as coisas exteriores até os labirintos da solidão e da solidariedade, a vida autêntica e o cotidiano imprevisível)

 

 

§  Estabelece relações entre literatura, memória e sociedade, na obra do pensador JMB.

§  Caracteriza esta experiência literária da segunda metade do século XX no Recife e que se desenvolve até o século XXI trabalhando a representação da cultura brasileira em seus vieses e perspectivas.

§  Escreve em tom satírico, em busca de uma sonoridade contemporânea, sua exposição hipertextual.

§  rompe fronteiras entre prosa e poesia (poiesis cheia de contradicções- contradições do falar/escrever) em situações-limite que geram tensões e distensões criadoras.

§  No seu texto ambiguidades dialogam com as tensões e como esta poética se apresenta em relação aos homens com o seu destino, com a vida, como discute temas/ problemas fundamentais da sociedade e expõe o desamparo dos sujeitos modernos literariamente.

§  Investiga o modo lúdico de operação na sua escritura entre vários polos, em contraposição às conveniências e aparências que regem o jogo social.

§  a literatura de JMB evita o lugar-comum dos discursos de autoridade e se faz campo de experiência compartilhada de forte interpenetração imaginária (ao mesmo tempo em que interpela diretamente o indivíduo em seu isolamento) em ruptura, apóstrofe, apelo aos sujeitos mergulhados no vazio, na ausência de sentido, na ameaça de aniquilamento e de diluição das identidades.

§  Averigua o exercício de autonomia ética contra as racionalizações dos autoritarismos (religiosos, políticos etc.) e seus zeladores.

§  aonde pode nos levar esta estrutura aberta, mesmo diante dos abismos da pergunta: de que e em que o poema vive?

 

O ser do sujeito-poético em interlocução com a outridade, combate a mímesis individualizadora e a representação de cenas e personagens em figuração mítica. Propõe a desdramatização, sem psicologismos, no ludismo como prova dos nove da modernidade brasileira (com olhos livres).

Assim  essa escritura jomardiana não se preocupa em nomear coisas, antes dissolve nomes, funde termos multiplicando possibilidades da realidade e da linguagem (pondo a referencialidade em constante deslizamento).  Seu primeiro livro de ficção poética é o Escrevivendo

No segundo O Inventário então indica (e vai subverter) pulsações entre a energia libidinal jubilosa, incessante, indomável e o contexto social em saber substantivo, em surpresas e suspeitas, interpenetrações que põem tudo em crise (e gozo), em travessia flagrante, balas no vitral da literatura edulcorada e propõe convivência sem conivência. Isso se dá em crueza poética, lirismo de crueldade artaudiana, sem subserviência ou subterfúgio, com verbos diretos, sem vacilar ou se envergonhar, em abrangência  temática e problemática, ciente de que o medo diminui os homens. Foge assim do intelectualismo como ausência de paixão existencial e não se entrega ao antirracionalismo intuicionista.

No apelo à libido, intensifica-se a visão da transitoriedade, do desassossego, da confrontação como no inconsciente, onde os opostos não se anulam. Os ditos espirituosos, humor (sem buscar semelhanças nem abolir diferenças) querem desestagnação (e também rigor, para se livrar do aniquilamento).

A pulsão (poeticizada) busca aqui a energia que rege a dinâmica do eu-poético e, por paradoxal que pareça, a dessubjetivação, no sentido de despojamento da ancoragem que a subjetividade promove. A relação do sujeito com seu “sofrimento” não obstrui os canais para obter satisfação, gozo: prazer e dor se entrelaçam. E aí a problemática do sujeito ultrapassa a posição queixosa, pois o texto empreende o trabalho de abrir caminho na avalanche de vivências.

O trabalho de JMB com a forma nunca esvazia o conteúdo. Ele desenreda-se do lírico, dos mitos, utilizando seu peculiar humor ácido (o que talvez prejudique a exposição da sua análise, e transforme em clownesca sua postura investigativa) enquanto operador temporal que se articula nas inconclusões, nas contradições abissais de outros tempos, perguntando-se “quem falafalafalafala.../quem escreve o que terá para dizer?/ (que a fala é uma fada e a escridura uma bruxa?) / quem consente, quem escreve, cala?/ Ou é calado?”65.

DE ALGUNS LIVROS DE JOMARD MUNIZ DE BRITO (JMB)

 

terceira aquarela do brasil (1982)

 

No poema TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO, publicado no terceira aquarela do brasil. Vejamos:

 

TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO

Ou ainda sou macunaíma

EU TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO COMO VOCÊS.

Eu também já fui jeca tatu pela democracia

Racial como vocês.

PONTEEI VIOLA, GUIEI FORDE

E APRENDI NA MESA DOS BARES

QUE O NACIONALISMO É UMA VIRTUDE.

Cantava ponteio no meu calhambeque em disparada

E decorei na mesa (universidade) dos bares que

Tudo começou com jk.

MAS HÁ UMA HORA EM QUE  OS  BARES FECHAM

E TODAS AS VIRTUDES SE NEGAM.

Mas há um instante em que os bares (pensões) se calam

E descansam as invenções (inversões) do homem.

EU TAMBÉM JÁ FUI POETA.

BASTAVA OLHAR PARA MULHER,

PENSAVA LOGO NAS ESTRELAS

E OUTROS SUBSTANTIVOS CELESTES.

MAS ERAM TANTAS, O CÉU TAMANHO,

MINHA POESIA PERTURBOU-SE.

Eu também já nasci geração 64 (ou 69?).

Bastava contemplar as vivis de nabuco. Pensava logo em fenos, canários,

Sapotis e outros alimentos terrestres

Mas eram tantas, o céu da boca tão sedento,

Minha poesia pirateou-se.

EU TAMBÉM JÁ TIVE MEU RITMO.

Eu ainda tenho impulsos.

FAZIA ISTO E DIZIA AQUILO.

Comia isto, contradizia aquilo.

E MEUS AMIGOS ME QUERIAM.

MEUS INIMIGOS ME ODIAVAM.

E meus amigos me odiavam,

Mas meus inimigos me queriam.

EU IRÔNICO DESLIZAVA

SATISFEITO DE TER MEU RITMO.

Eu tragi-gay dis-corria

Contente de ter meu rito

               de ser meu grito

MAS ACABEI CONFUNDINDO TUDO.

Mas comecei permitindo tudo.

HOJE NÃO DESLIZO MAIS NÃO,

NÃO SOU IRÔNICO MAIS NÃO.

NÃO TENHO RITMO MAIS NÃO.

Hoje não disparo mais não,

Não sou sutil mais não,

Não tenho medo mais não. 91

 

O diálogo paródico dá-se com o poema de Drummond que aparece na íntegra, escrito só com maiúsculas (Também já fui brasileiro, do livro Alguma Poesia, 1930).

 

Bordel BRASILírico Bordel (1992)

 

Deslocando fronteiras: proezia ensaística

 

Todo substantivo é verbo./ Toda verborragia é substitutiva. / Vale quanto pesa no papel um adjetivo ou advérbio? Palávoras, palavrações, palimpsestos: / línguas como fêmeas [...] Poesia, Política e Pedagogia? Sambistas bastardos da Filosofia e dos filosofemas [...] (ainda) querem salvar as glórias nacionais das pipocas modernas? / Poesia banida bandida bandoleira [...] Fogosos canibais. Orgia como panaceia? [...] poeta bandido, poética bandoleira, poemas brincantes querem [...] tropicanalizar tudo [...] todos. / Revisitando tropos, figuras,  figurões de nossas machadianas ou macunaímicas /  (anti) bra-si-li-da-des sonâmbulas [...] porque já renascemos desenganados desta  sopa de farelos40

 

 

JMB pode desconstruir até a contradição, até a fantasmagoria, como se vê neste trecho do Bordel:

 

Cavando buracos na lama do Capibaribe

os pescadores de siri ignoram a trama

espacial da nebulosa do caranguejo

6000 anos luz da terra.

mas o poeta continua tentando

tapar buracos

[...] duplo vínculo e doída identidade,

salto e queda para o alto;

abismo de horizontes

[...] girassol de nossa eternidade

[...] se embriaga, delira, periga,

associa inutilmente ideias, impressões,

depressões de viagem, memórias digressivas

[...] interminável exercício

[...] o buraco danifica o trabalho escravo e

dignifica o ócio proletário,

o gozo marginal,

o cacete desempregado58

 

 

 

Pop-filosofia

 

No CD Pop-filosofia, por exemplo, o sonoro e o semântico buscam antes o “sabor da linguagem”, seu frescor, o movimento inteligente, um léxico de in(ter)venção, cheio de palavras novas, mais densas ou mais brilhantes sem trazer ou reduzir  um pensamento ao limite exato de um metro.

Encontra-se aqui o a linguagem dos 3ppp: política, pedagogia e poesia. O passado e o presente se entrelaçam em malemolente sonoridade:

 

Outrora colônia de pescadores sobreviventes

em putas meninas e portuários d’OS NAVIOS,

técnicos e empresários, desesperados,

triunfantes  burocratas,

eficazes  restauradores.

Ó cidade  noturna de gregos de passagem,

baianos, japoneses, coreanos, apátridas e

sempre mais pernambucanos de paragem.

Quanta gente esquecida e abandonada

entre-lugares

vômitos da Rua do Bom Jesus e

vontades do Cais do Porto ao Corpo.

Destroços da Cruz do Patrão.

Favela do Rato.

Fumaças gustativas da Fábrica Pilar

Alimentando, marinheiros  e fazendários.

Interregnos de poetas otários no cio.

Ó cidade noturna onde tudo é museal

como qualquer outra documentada

em véus de biografemas

e discursos dissonantes

Enquanto museu de tudo e nonadas76.

 

Texto hermético? Talvez

 

Pós-terra-de-ninguém. Arrecifes do Brasil.

Brasiliricamente.

Pós monocultura-dos-bagaços-da-cana

[...] buracão sem plumas:

ou é o desejo do Outro?

[...] Baco no beco da fome?87

 

 

 

 

Outros Orf’Eus (1995)

 

No livro de Jomard, o mito se converte em arquétipo e nasce brasileiro, para se tornar eterno e defrontar-se com ideais muitas vezes conflitantes- o coletivo e o individual- como também com tragicômicas contradições, de que o nosso país é tão rico. O escritor questiona os outros eus, inclusive seus, generosamente metamorfoseando sua criação, pessoal numa obra coletiva, sem cair, porém, na armadillha de só estar voltado para o outro, como o Orfeu da lenda (Leila Mícollis, na apresentação de Outros Orf´Eus).

 

“Não há amor à vida sem  desespero  de viver”  (Camus)

 

 

            O sexto livro da poética jomardiana, Outros Orf´eus tem capa, ilustrações e projeto gráfico de João Denys Araújo Leite.

 

 

ATENTADOS POÉTICOS (2002)

 

Com a publicação do livro Atentados Poéticos, JMB reafirma que o pensamento sem a intuição estaria vazio, e esta tem que negociar com os “conceitos”, pois a sensibilidade que não pensa e o entendimento que não intui têm que de algum modo se complementar. Entendemos que o fator decisivamente socializador da memória é a linguagem e que tanto a literatura de imaginação quanto os escritos científicos ou filosóficos dependem do mundo e ao mesmo tempo contribuem para o fortalecimento de uma sociedade, por assim dizer, imaginária e habitada por leitores do amanhã e autores do passado.

Apresentaremos nossas constatações sobre a poética jomardiana desenvolvidas até agora:

            1. O isolamento dos poetas nos dias de hoje pode ser quebrado. A atitude jomardiana em poesia não se destina a um passatempo sem utilidade numa sociedade que cada vez mais se deixa fascinar pelo tecnicismo (estranha a educação que transmite mecanicamente o saber).

            2.  Instaurando o olhar renovado a cada texto, no sentido heraclitiano, é poesia que se alia à Educação, no que diz respeito ao processo de aprendizagem. Trabalha com o papel de aprendiz/ensinante. Estimula competências e uma cumplicidade através de uma interlocução mais ampla com o leitor.

            3. Flerta com a fenomenologia. Observa o ato. Valoriza o modo de ver, a competência imaginativa (ato cognitivo aliado à imaginação, enquanto forma de conhecimento objetivo) que não quer se  iludir (“não me engane,  nem se engane”). Questiona, dentre outras coisas, a arrogância da ciência, da doxa e do militante.

            4. É poesia que negocia a excentricidade, discute a questão da tábula rasa praticada pelos que detém o poder diante de certos problemas. Neste sentido é antirreducionista. Impede que a palavra coagulada domine o discurso.

            5. Transcreve  novidades, mesmo antigos temas  tornam-se provocantes. Promove diálogo entre estilos: vem desde o cinema novo, contracultura (contra a Kultura), concretismos, tropicália, fazendo-se independente.

            6. Nega privilégios a uma casta de intelectuais conservadores. Valoriza mais o conhecer, do modo paulofreiriano, através da ‘disponibilidade’. Trata o gregarismo com cuidado, valoriza o indivíduo.  O homem não é “peça” da engrenagem capitalista.  É ser pensante que pode desestabilizar tiranias (que se mantêm no poder através  da farsa).

            7. O olhar poético jomardiano aponta o novo a partir do reconhecido.  O abismo essencial seria o buraco diante da certeza absoluta, da obviedade, da dissimulada  barbárie urbana,  da tecnocracia e política de certos projetos que otimizam resultados, mas deixam o cidadão alienado ou impossibilitado de escolher.

            8. É a voz de um sujeito-poético  eclético no exercício da liberdade em relação à responsabilidade, satisfação, superação das desigualdades, que não hesita em repartir estratégias de conhecimento e dar acesso à verdade, ou pelo menos a uma análise fenomenológica através do questionamento de certos padrões comportamentais (ou governamentais) em poesia que não subestima o seu leitor, que é não-sectária e inclusiva e que com sua imageria questiona o estado de inquietante familiaridade imposto a certas situações. Trabalha com a fusão de vários gêneros textuais.

            9. Com o falso e verdadeiro trabalhado ludicamente, até com argumentos irrecorríveis, o poeta-filósofo ergue-se na urbe, aposta nas mudanças incessantes. É insubmisso. Rejeita o utilitarismo social em seu grau de descartabilidade do homem  enquanto coisa.  Estabelece conexões entre o novo e o conhecido. Propõe a ação.

            10.  Vai além do empírico e faz o registro da intuição (através da poeticidade). Defende-se e se oferece ao mesmo tempo.

            11.  A memória se dá no registro poético do fato desconstruído, na escritura jomardiana. Memória entre o antes e o depois, memória-devir, onde a face do todo se renova.

            12. Esta literatura trabalha com ansiedades,  busca ressaltar as  finalidades humanas em oposição  ao imediatismo urbano na virada do século. Aí sim é que ela repensa a relação social em termos de linguagem (poética).

            13. Acompanha várias vanguardas, mas não se deixa aprisionar por programas. Faz-se vanguarda  permanente (ruptura  de si mesma), corre riscos não teme o ridículo, autoquestiona-se.

            14. Lança a hipótese de uma nova poética, explorando vários estratos na totalidade  da sua representação, potencializando  seu escreviver, esse termo que sugere novas fruições do poema (não só sensações ou emoções, poema-veículo contestatório e não exercício unilateral,  reafirmando o  que todos já sabem). Sugere poeticidade performática (Abismos da Pernambucália, Tal e qual, nada igual, Arrecife de Desejo, Inventário de um feudalismo cultural e outros textos de JMB que já se transformaram em teatro, performances, enfim: registrados em película, vídeo, CD, confirmam esse caráter, como já discutimos) alargando as possibilidades de produção e recepção do discurso e das formas poéticas.





                    PARTE 2: O FUNERAL DE JOMARD MUNIZ DE BRITTO


 

A LÁPIDE 

O ENCONTRO NA PORTA COM O SOBRINHO DE JMB RODRIGO GALINDO

CERIMÔNIA DE ADEUS A UM GÊNIO DA CULTURA BRASILEIRA:  JOMARD MUNIZ DE BRITTO (JMB)

(Fotos de Moisés Monteiro de Melo Neto: DIREITOS RESERVADOS- PROIBIDA A REPRODUÇÃO)

NO CENTRO DA CAPELA NEOGÓTICA DO CEMITÉRIO DE SANTO AMARO, RECIFE, DESENHADA PELO ARQUITETO VAUTHIER: JOMARD MUNIZ DE BRITTO MORTO (Foto de Moisés Monteiro de Melo Neto: DIREITOS RESERVADOS- PROIBIDA A REPRODUÇÃO)

PEDRO CELSO MARCONI, JOSÉ MANOEL SOBRINHO E O POETA DELMO MONTENEGRO (DE COSTAS). O padre que celebrou a cerimônia de adeus e abençoou o corpo (Foto de Moisés Monteiro de Melo Neto: DIREITOS RESERVADOS- PROIBIDA A REPRODUÇÃO)

o ator João Augusto Lira, despedindo-se de JMB (Foto de Moisés Monteiro de Melo Neto: DIREITOS RESERVADOS- PROIBIDA A REPRODUÇÃO)







Jomard Muniz de Britto morto (Foto de Moisés Monteiro de Melo Neto: DIREITOS RESERVADOS- PROIBIDA A REPRODUÇÃO)
Cineasta Luci Alcântara na despedida de JMB





A Capela onde aconteceu o Funeral: Cemitério de Santo Amaro (Recife). 12/ 10/ 2026

(Foto de Moisés Monteiro de Melo Neto: DIREITOS RESERVADOS- PROIBIDA A REPRODUÇÃO): Ronaldo Correia de Britto e Kleber Mendonça Filho, atrás de Moisés Monteiro de Melo Neto e Suzana Costa
(Fotos de Moisés Monteiro de Melo Neto: DIREITOS RESERVADOS- PROIBIDA A REPRODUÇÃO)