MANGUEBEATNIK!
“Emoções baratas”
Um contensaio dramocinematográfico
de Moisés
Monteiro de Melo Neto
Woodstock, hoje
Vi
o fogo nas brechas
Das
cascas de pedra
Sabedoria
que não se diz
Sonho
maravilhoso paz & amor
Flor
selvagem unissex
A
roçar o céu
Fita
azul, nova estação
Despedida
inconsistente, hey Joe
Laços
nunca enfraquecidos
Hoje,
40 anos depois
Pós-lisérgico
Imperialismo?
Castelo
de nuvens
Palavras
profanam lembranças
Manguebeatnik
Joplin
música ao longe
Pulso
dos invisíveis
Amor
que muda de cor
Tempo
de sono
Cair
mudo das estrelas
Circo,
pão e lágrimas
Liberdade
é não ter o que perder?(M.N.)
- Tédio! Eis porque fazíamos tudo aquilo: por
puro... tédio!
- Eu tinha uma proposta...
- Ah, é? Qual era? Ficar chapado. Bem
chapado. Não era ? Uaaaaaaau!
- Lembra a primeira vez que viemos neste
bar?
- Foi a primeira vez que eu vi a serra das
Russas. Um barato.
- Estava chovendo. Igual a hoje.
- Sim e nós quatro estávamos indo
exatamente para Fazenda Nova, como estamos fazendo agora. Só que era para uma
festa e agora é para um funeral.
- Pobre Daniel. Os leões não o pouparam
desta vez. Mas pelo menos ele morreu chapado.
- Sim. Foram várias cervejas e ele morreu
nos braços de quem amava e trepando!
- Aquele safado. Morreu me devendo mil
dólares. A grana que eu ia usar em Amsterdã.
- Parece a morte do Neal Cassady...
- Lembra quando fundamos nosso primeiro
grupo?
- Eu tinha 17 anos e tinha acabado de ler On
the Road, O Uivo
e Almoço Nu!
- A gente curtia Led Zeppelin pra caralho.
Janis Joplin, Deep Purple,
- O jazz, as drogas, as viagens, as
iluminações beat. Éramos como uma nova espécie de anjos...
- Não exagera, cara!
- Nossa alma era múltipla e densa, como um
solo de guitarra de Jimmy Page! Afiada como a voz de Robert Plant! Ou um solo
de Charlie Parker. Lembra do filme Bird?
- Do mesmo diretor do filme The Wall.
Não foi? Do Pink Floyd?
- Acho que não. Que importa?
- E agora nós quatro bem aqui onde quase tudo começou...
- Só falta o quinto mosqueteiro...o
Daniel, my brother...(começa a cantarolar a música “Daniel”)
- Não! Elton
John, não. Please.
- “When
are you gonna come down? When are you going to land? I should have stayed on
the farm. I should have listened to my old man. You know you can hold me
forever I didn´t signe up with you!”
- Oh
yeah,man! The yellow brick road. The long and winding road...
- E
aquele dia de Lucy in the sky with diamonds?
-
Beat...Beatles...os beatles eram beatiniks. Bob Dylan
era beatnik.
- Delinquência, orgias. O consumismo
materialista não saciava a nossa fome. Eu queria ser escritor e já tinha lançado
um livro pelas edições Piratas.
- Lembra do dia em 77 quando chegou o
disco do Sex Pistols?
- Cara, eu pirei com aquele som. O
Burroughs mandou uma carta para eles, elogiando o trabalho dos caras.
- Acho melhor a gente esperar esta chuva
passar.
- Também acho.
- Garçom, traz mais duas! E coloca este
CD, por favor.
- Que CD é este?
- Coltrane.
- A gente tinha ideologia. A gente
pensava. Tinha, mesmo dentro daquela porra de ditadura, mais liberdade do que a
gente tem hoje. Essa juventude de hoje é muito careta.
- E a meditação? As dicas que Augusto dava
pra gente? Ele traduziu Gary Snyder pra gente.
- Kerouac queria ver o rosto de
Deus...morreu em 69! Tinha encaretado? Sei lá. Vivia na casa da mãe. Hemorragia
estomacal...Ginsberg bateu as botas em 97 e Burroughs ainda tirou onda com Sting
e o U2.
- A visão desses caras iluminou nosso
caminho. Não foi?
- Não seja tão sentimental, cara. Isso não
leva ninguém a lugar nenhum.
- Destruir a literatura acadêmica, as generalizações
taxativas, a linguagem dos certinhos...
- Minha vida é bem parecida com a de Gregory
Corso...
- Eu sei um pedaço de um poema dele
decorado
- Você mistura poemas dos outros com os
seus...
- É assim: “Parado na luz fria da rua
deserta/ Olho pra cima pra minha janela, ali nasci/As luzes estão acesas;
outras pessoas andam por lá/ Estou vestindo jeans, cigarro na boca/ Cabelos nos
olhos, mão na garganta./Atravesso a rua e entro no prédio./As latas de lixo
continuam cheirando mal”. Casa Natal Revisitada, Gregory Corso, um beatnik
do caramba!
- A vida me transformou num poeta. É o
poeta e não o poema que deve se transformar numa obra de arte.
- Eu era um HIPSTER... uma geladeira
pifando que funciona com barulho, calor e incrível violência apenas para manter
a sua finalidade que era manter-se fria...É preciso manter-se frio e tentar
salvar o motor.
- Sempre achei que você tinha cara de
geladeira doida
- Vai pro inferno! Vamos brindar ao
Daniel! Garçom: bota a faixa número 7. Por favor. Ele adorava esta música. Ele
tentou ficar frio
- Como a geladeira doida...
- É. Mas o motor dele pifou
- Motor de máquina velha quando pifa, é
fogo.
- Ei, cara.
- Ã...?
- Tem uma remela no teu olho e estás com
uma cara de ressaca da murrinha! Vai no banheiro e vê se dá um grau, falou?
Vamos chegar no enterro do Daniel com a cara limpa.
-
Pacifistas, anarquistas, zen bundistas...
- Bundistas desbundados...
- Pluralismo cultural, sexual, individual.
Um basta aos mitos do progresso. Queríamos um novo tipo de família relaxada e
festiva!
- O mundo exterior não se altera se
continuarmos os mesmos. Depois do que fizemos, revolução no Brasil, pra quê?
- Malditos autômatos.
- E essa porra de Manguebeat? Cadê? E o
teu livro? Vendeu tudo em três meses. E daí? Eu soube que o Fred reclamou de um
lance...
- Manguebeat ou Beat? Fenômeno
comportamental, musical ou literário?
- Só um esquizofrênico divide arte da
vida.
- Pelo menos Chico rompeu com aquela
caretice de Geraldo Azevedo e aquelas morenas tropicanas na tarde de domingo
azul nas praias encoqueiradas de Alceu Valença. Que saco. Vou tomar dois goles
de uma vez por causa disso.
- Falando sério: por que você escreveu
aquele livro sobre Chico Science?
- Porque eu quis. Merda. Eu conheci o
cara. Eu achei legal tudo que ele fez. Aquilo foi beatnik puro. Foi como a cena
da Califórnia nos anos 6 0 ...The Doors, essas coisas. Vocês mesmos
iam aos shows também. A gente se encontrava na Soparia. Agora é que dez anos
depois ficam tirando onda com a minha cara.
- Liga não. Acho até que Chico era uma
espécie de... não riam! Profeta contra a repressão: Afrociberdelia!
- Se os beatniks tiveram que enfrentar o Macarthismo,
nós tínhamos a herança maldita do governo militar a assombrar nossa geração,
nossas vidas e até a nossa arte! Manguebeatnik: a marijuana é uma panacéia pacifista.
- A arte é vida. Chico curtiu a vida. E
fez sucesso quase imediato.
- No meio do axé, do brega,
sertanejo...Voz própria sem concessão demagógica. Estabeleceu-se uma verdadeira
comunicação por necessidade inconsciente e coletiva. Abalando os hábitos
esterilizantes dos amadores solitários e sacudindo a massa. Um hipster:
típico das esquinas, dos bares, das festas, uma criatura dos aglomerados
humanos enlouquecidos
- Só falta dizer que ele era um novo Rimbaud.
Faça-me o favor...
- Eu dei uma lida em tudo isso ultimamente
e me pareceu bastante vazio. Não acredito que o Manguebeat vá virar história.
Ele já parece ter chegado a um ponto de refluxo.
- “Qual a sua estrada, homem? – a estrada
do místico,/a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada da droga,
qualquer estrada...Há sempre uma estrada em algum lugar, pra qualquer pessoa,
em qualquer circunstância”, um brinde ao Neal Cassady!
- Um brinde! Aquele é outro: morreu
chapado e só perto dos trilhos do trem.... Será que foi suicídio?
- Foi o que eu me perguntei a respeito do
nosso amigo Daniel também.
- As drogas deram aos beats o que eles
mais precisavam: relaxamento do corpo e ampliar a imaginação. Mergulho fora do
tempo na tranquilidade...
- Como eu dizia do Manguebeat: uma prosódia baseada na fala popular, o
antiacademicismo e aparente antiintelectualismo. Conciliou o maldito e o
olímpico, produzindo influência musical e comportamental. Com ele aprendemos a
amar novamente nossa cidade, nosso estado, nossa loucura e nossa sanidade!
- Se Chico tivesse continuado vivo, será
que a MTV ia continuar dando apoio a ele e a revista americana Spin? E os jornais?
- Vamos mudar de assunto.
- Nós fazemos parte do Romantismo, do
mesmo jeito que Alencar e Castro Alves.
- Como assim?
- Nada na vida se acaba.
- Você está bêbado...desde ontem. Não é,
meu filho?
Eu
sou aquela barata bêbada de Kafka, do comercial de inseticida, de
O Processo, do Admirável Mundo Novo, de Huxley, do Orwell de
1984, de Carlos Castañeda.. A musiquinha era assim: “A
baratinha, iaiá, a baratinha, ioiô. A baratinha bateu asas e voou!”.
- Maconheiro.
- Gerente de banco multinacional...
- Hoje eu quero celebrar os velhos tempos.
Hoje eu sou um anti-herói.
- Nossas errâncias aventurescas. Euforia psicodélica. Coisa de piratas. Monges
medievais. Índios Xucurus.
- Outro dia eu reli o Visions of Cody,
do Kerouac. É puro jazz. Prosódia bop!Escrita espontânea. Ioga das palavras. A
persona do Neal Cassady até hoje me fascina.
Há características que só aparecem na leitura em voz alta.
Pensar
que T. S. Eliot queria uma literatura, uma poesia impessoal. Os
beat barbarizaram.
- Mas não esqueça que o lance do
texto-colagem a gente encontra tanto no Wasteland, quanto em
Kerouac e Ginsberg. E também nas letras do Manguebeat.
- Os mangueboys ficaram famosos mais por sua temática e
linguagem do que pelo seu estilo. Linguagem das ruas, surrealismo, teoria do
caos. Tudo isso eu já falei no meu livro. - A oralidade, a fala do nosso tempo.
Foi isso que me chamou atenção nas letras do Chico. Sabia que o Daniel tinha
uma entrevista exclusiva, e inédita com Science?
- Eu já vi.
- “Portanto, poetas, descansem um pouco
& calem-se: Nada jamais surgiu do nada”, já dizia o velho Kerouac no poema
“Rimbaud” de 1960.
- Sabe outra coisa que os beatniks têm em
comum com o pessoal do Mangue? E até com nós outros?
- Sei: nenhuma mulher fez parte do grupo.
E o livro que Daniel deixou para publicar?
- Os escritos psicosensoriais...
ele disse que rapsodiaria a nossa
realidade. Seja lá o que for, ele escrevia bem.
- Da última vez que eu o vi ele me
mostrou. O texto era um choque térmico entre forma e fundo: límpido, frio,
plano, regular, quase sem estilo.
- E o assunto? Do que trata o tal texto do
Daniel?
- É a história da nossa geração e é uma
homenagem ao Movimento Mangue e aos Beatniks.
- A namorada do Daniel me lembra aquela
mulher do herói do “Almoço Nu” de Burroughs...
- A Joan...
- É. Lembra quando ele brinca com ela? Em
vez de colocar uma maçã na cabeça dela para dar uma flechada, ele coloca um
copo e tenta acertar com um tiro e acerta é a cabeça dela?
- Como assim?
- Ele pirou a cabeça daquela menina.Ele
era doido e pagou com a própria vida os anos de loucura que viveu.
- Like
a Rolling Stone.
- Os Rolling Stones pegaram tudo
dos beatniks e dos negros. Por que não teve nenhum negro beatnik?
- E quando a gente inventou aquela banda?
Uau! Pode não ter dado muito certo, mas foi uma loucura. Ah, cara A poesia
sempre só tem a ganhar quando se junta com música. Os poemas de Homero foram
recitados assim.
- Cá estamos: num dia de chuva, indo para
o enterro de um grande amigo que morreu de overdose em pleno século vinte e um!
E estamos com o pé na estrada, exatamente como fazíamos há mais de vinte anos.
A diferença é que hoje só fazemos nos fins de semana e nas férias...
- Aquilo está no nosso sangue para sempre.
- E aquela briga
- Ele veio falar mal do Brasil.
- Você estava era muito doido...
- Foi o meu último ato como delinquente
juvenil.
- Esta é a velha estrada: suja e
misteriosa, ao mesmo tempo tão óbvia...só faltam as anfetaminas e a
marijuana...
Por
falar nisso...
- Não!
- “Ó estrada minha e de todos não tenho
medo de deixá-la. Hás de ser para mim mais que o meu poema”, Walt Whitman...
- Sabia que ele era homossexual?
- Não. Só contaram para você.
- Eu às vezes penso em fazer como Thoreau.
Ficar isolado da civilização. Oito anos e meio vivendo numa cabana. Sem contas,
eletricidade, nada. Do alto da colina vendo as construções. O homem e seus
negócios me irritam: igreja, Estado, comércio, agricultura, política- folgo em
ver o espaço insignificante que ocupam na paisagem.
- Eu queria ir pra o México. O peiote, os
índios, as pirâmides
Pobre México,
tan lejos de Dios, tan cerca de Norte América!
- Manguebeatnik: máquina que mata
fascistas!
- Fascista é a puta que lhe pariu!
- Eu não estava me referindo a você!
- Então por que olhou para mim? Seu idiota!
- Calma: todos querem pão e rosas, não é
verdade?
- Quando eu era mais moço diziam que esta
minha ansiedade iria passar. Agora que vou completar quarenta vejo que isso é
mentira. A estrada me fascina cada vez mais. Sem viajar eu não sou ninguém,
cara. A estrada é o meu SATORI, meu súbito despertar...
- A carroça de maçãs como um anjo numa
vassoura. Rua louca sem nome, estadias estradeiras de Ferlinghetti,
homens sanduíches, banhistas antiquados, imagens surrealistas, labirinto da
solidão. Percorrendo este mundão real
com meu coração irreal. Puta merda. Eu estou bêbado pra caralho, cara. Tô até
com vontade de chorar.
- Minha gente: vamos embora. É melhor.
- Mas a conversa está tão boa...
- Quando chegar ao topo da montanha
continue subindo. Você e seus nós mentais. Para o inferno!
- Esta sua insatisfação visceral, este seu
interesse pelo Zen, esta história de que toda a vida é sofrimento isto mais
parece aquele livro de Kerouac: The Dharma Bums. Dharma significa
“Verdade”, o que é. Karma...
- Você parou no tempo e no espaço. A única
merda que você conhece de literatura são esses escrotos desses beatniks, é?
- Nós éramos os representantes deles no
Brasil no começo dos anos 80. Como é que eu posso esquecer?
- Porque já faz 20 anos.
- O tempo é uma ilusão. Ainda detenho os
direitos autorais de duas das obras beat.
- Venda para a Globo. É o melhor
que você faz.
- Eu ainda vou filmar aquelas histórias.
- Você é um péssimo cineasta. Eu não
gostei daquele seu curta- metragem...
- Você é um pulha...
- Eu vou rezar por você
- Ora...Guarde suas orações para quem
precisa delas, não para mim. Seu fracassado!
- Pensar que eu já estudei japonês e
chinês, e agora não passo de um candidato a monge, bêbado!
- A saída de todos os problemas é beber
leite.
- O Zen é antiintelectualista:
aceita a vida sem teorias explicativas, que a tornam chata, impedindo o seu
fluir descontínuo...
- Meu irmão: você é um gênio.
- Isto não é meu. Eu li em algum lugar
- Mesmo assim: é uma honra ser seu amigo,
sabia?
- Os japoneses fundiram duas grandes
tradições da China e da Índia surgiu o Zen! Somos ajudados pelo que não é a
usar o que é.
- Isso é mais confuso que Confúcio.
- Trocadilho é a pior forma de literatura.
- Zen quer dizer meditação. Contemplação,
sabedoria.
- Todas as religiões contém noventa por
cento de fraude, já dizia Gary Snyder.
- E daí...Que conversa mais doida!
- Deixem-me recitar um haicai de
Moritake..
- Não. Por favor. Nos poupe.
- “Uma flor caída/Voltando para o galho?/ foi
uma borboleta”
- Que comovente.
- O músico oriental aprende imitando o
professor, não pela leitura das notas...
- Eram outros os tempos, não?
- A espontaneidade, cara, é o que une o
Zen, à escrita automática dos surrealistas e à prosa espontânea de Kerouac.
- Você está obcecado. Pare. Tome um copo
d´água. Você está parecendo um hippie maluco.
- Ao contrário dos beatniks, os hippies
eram filhos mimados de uma sociedade próspera...
- Ou enjeitados em busca de paraísos
artificiais...
- Sabia que o Allen Ginsberg namorou o Bob
Dylan?
- Você disse...
- Você parece um palhaço com a terceira
visão piscando.
- O ácido lisérgico destruiu sua noção do
que se deve ou não falar. Você está é muito doido.
- Lembra daquele filme que a gente
assistiu no cinema da Aeronáutica nos anos 70? Os assassinos do raio azul.
Sobre uma turma que tomava ácido e anos depois vieram estranhos efeitos...
- Aquele cinema era ótimo. Não tinha
censura.
- Proponho mais um brinde para o Daniel. A
ele, que não sobreviveu!
- O filho da mãe. Como é que ele pôde,
através desse escândalo cósmico, morrer?
- Nós, filhos da contracultura, somos
todos uns maus perdedores.
- Eu sou um vitorioso: eu não choro pelo
passado. Faço como David Bowie fez nos bons tempos: lamento pelo
futuro. Estes jovens de hoje não estão com nada!
- Nossa geração foi importante: promovemos
a revolução na linguagem e nos valores. A liberdade numa época em que ou você
era de esquerda ou de direita, estabelecemos uma nova relação entre a poesia e
a vida. Deixamos a lava e cinza da poesia espalhadas pelo Recife...Selvageria
extraliterária. A gente curtiu pra caralho. Orgia pura, meu.
- Eu trouxe uma cópia do email que o
Daniel mandou para mim pouco antes de morrer. É uma parte do estudo dele que
compara o movimento Manguebeat com os autores beat.
- Quantas páginas?
- Seis.
- Lê um pedaço dessa porra enquanto a
gente acaba a merda desta bebida e paga a conta.
- Lá vai:



“MANGUEBEATNIK:
A INTERZONA!
(“Manguebintik
Generation”)
50 Anos da Beat
Generation
10 Anos de Manguebeat
APOSTANDO A ÚLTIMA FICHA NA JUKE
BOX DA SOPARIA
Se não houvesse um Deus, seria
necessário inventá-lo.
Voltaire.
Reunidos em lugares como o Cantinho
das Graças ou na lendária Soparia do Pina, ou do Bar do Caranguejo em Candeias,
alguns amigos trançaram os rumos que abalariam os alicerces das concepções
artísticas no Recife no início dos anos 90.
O termo Manguebeat logo seria
conhecido pelo Brasil inteiro e viraria marca registrada de artistas que dentre
outras coisas admiravam a geração beat principalmente os autores como Kerouac e
William S. Burroughs. O livro “On The Road” tivera sua 1ª ed. em português nos
anos 80 e a editora Brasiliense havia relançado vários autores da Geração Beat,
que voltavam a influenciar os autores brasileiros. “Pergunte ao Pó”, de John
Fante, mostra um herói que tem tudo a ver com os personagens marginais que
pululam nas letras de Chico Science e Fred Zero Quatro, dois poetas, líderes do
Manguebeat.
Science vinha desde os anos 80
“Antenado” com a cultura Underground norte-americana. O Rap e o Funk
faziam a cabeça daquele rapaz que aqui no Recife não esquecia suas raízes
culturais, como o Maracatu, por exemplo, nas percebeu que alguns artistas
ianques da classe menos favorecida, que ficava às margens do mainstream, aprenderam a transformar
em poemas, e no caso dos beatniks, também em romances, as aventuras das ruas,
dos bares, dos guetos.
O momento chegou para a geração mangue
quando em 93 Science assina com a Sony Music e os mangueboys invadem São
Paulo.
Se
o movimento, que havia lançado seu 1º manifesto – release em 91 e já se
articulava bem com a mídia e com os produtores independentes a mundiais, a
partir do lançamento do CD “Da Lama ao Caos”, a geração Manguebeat dava seu
passo mais largo em direção à batida perfeita que eles perseguiam.
Do mesmo modo como nos romances “Pergunte ao Pó” de Fante, o
herói do mangue vive o universo dos bares, dos esquecidos da sociedade, da
busca da emoção mais verdadeira, da vida bandida que Bukowsky mostraria nos seus
textos.
Do mesmo modo que “Beat Generation” foi
inventada por Kerouac em 1948 e foi apresentada ao público no artigo que o
amigo dele John Clellon Holmes escreveu para o The New York Times Magazine em
1952 (“This Beat Generation”), Fred e Science contaram com o apoio do Jornal do
Commercio do Recife para começar o “Movimento Manguebeat”, que evoluiria em
muitas direções durante uma década.
O Manguebeat, nos moldes da beat generation (que tinha este
nome porque, dentre outra coisas, por significar “derrotado, ou, como queriam
alguns, beatitude), usava palavras que normalmente só eram usadas por pessoas
das classes menos favorecidas. Por exemplo, na letra da música “Banditismo por
uma questão de classe” o poeta Science usa a palavra “Fodido”, só para citar
uma pequena exemplo.
A “Batida” (Beat) se espalhou entre aqueles que buscavam a
critica social e desprezavam as afetações burguesas. Então, nos moldes dos
beathiks, a geração mangue usou criminosos, como Lampião, Biu do Olho
Verde, Galeguinho do Coque, e outros, como modelos a serem incorporados ao
eu-lírico. Como os marginais do romance “Almoço Nu” de Burroughs, as
barbaridades são sublimadas em nome da doidice generalizada da sociedade.
Para o mangue chegaram, com os anos 90: Os CD’s. A MTV, a
McDonald e a Internet traziam o estilo americano para o seio de Recife. O Grunge
explodia como movimento em Seattle(EUA). Começava a última década de um século
que presenciou grandes transformações. Os poetas cansados, ergueram mais uns
copos de cerveja e começaram algo que a poeira do esquecimento nunca encobrirá
totalmente.
Ficção ou poesia, o drama social de homens
que buscaram descrever o cotidiano da estrada, da rua, com sua linguagem dura,
sua falta de dinheiro. Em livros ou em CDs, que importa? Era Manguebeatnik!
Pronto.
Trocar idéias, discos, revistas e livros
faziam partido Grupo Mangue (Fred, Chico, Renato L, Mabuse, Helder Aragão e
Jorge du Peixe). Algo que lembrava
os tempos do Village, onde os beats se reuniam para “segurar a onda” uns
dos outros, ler seus novos textos, fazer performances (Como o grupo recifense
que elegeu o Espaço Oásis, em Olinda, o Arteviva e a Soparia
do Pina, Recife, para exibir seus trabalhos),
encontrar novas pessoas e se interessar por elas, fortalecendo assim uma
corrente de pensamento. Fortalecendo uma atitude grupal. É claro que, como
Burroughs, haveria mangueboys de primeira instância que negariam no futuro
qualquer ligação maior com o movimento. Mas isto é outra história.
O Manguebeat desponta no Brasil no final
dos anos de chumbo, do mesmo modo que os Beatniks enfrentaram o McCarthismo
pós-guerra nos EUA e abrir as portas para novas percepções.
A psicodelia, que Ginsberg e Timothy Leary propagaram
já nos anos 60, influenciou Chico de tal forma que ele criou a estética afrociberdélica,
letras psicodélicas, cibernéticas, estética afro, diluída num som cheio de
efeitos.
O desconforto, a ruptura com a velha
realidade e a criação de um novo modo de ver as coisas desnudando-as. Era o
espírito dos rapazes que queriam aventuras e se posicionavam contra aqueles que
queriam roubar dos pobres seu bem mais precioso: a liberdade.
Artistas criando seu próprio universo: os beats mostravam que
não eram só as grades das prisões que mereciam uma revisão. Os valores sociais
precisavam de novo padrão, este fatalmente iria de encontro ao consumismo, não
o respeitando, mas negociando numa dialética bem particular, nova, diferente.
Havia muita gente sem
trabalho, sem segurança e sem felicidade, tanto nos EUA Beatnik quanto
no Recife Manguebeat. Mas tanto a águia americana quanto o gigante deitado
eternamente em berço esplendido (Brasil) na terra dos altos coqueiros
(Pernambuco) fincados no mangue (Recife) tinham no seu colo alguns artistas
desvalidos que pediam uma vida menos bandida, logo! E foram buscar na música
negra, quer fosse o jazz dos beatniks ou no maracatu, funk, rap, soul
dos manguebeats. Queriam a chance de gritar poesia e clamar por liberdade.
Andar num mundo mais livre.
Valia a pena para isso
correr vários riscos.
“Freedom is just another
word for nothing left to lose” disse Kristoferson na letra de “Me and Bob
Mcgee”, interpretada por Janis Joplin no seu álbum –
testamento (Pearl), uma canção pra lá de beat. Janis que levara às últimas
consequências os ideais de sua geração beat/hippie. Viajar, em todos os sentidos,
é o que propuseram os manguebeatniks, também.
E o esforço anárquico manteve a chama acesa excitando e
aquecendo quem deles se aproximar até hoje.
II
DROGAS, CRIMES, SEXO E LITERATURA, O BIZARRO COMO UM ESTILO
DE VIDA
O que Allen Ginsberg enfrentou, desde
outubro de 1955,
Na intrigante expressão facial de Chico
Science, no seu jeito de cantar, no que ele dizia sobre a malandragem e o
trabalho, sobre a condição de vida na Manguetown (modo como a geração
manguebeat chamava Recife) e dos mangueboys, vemos estampada a atitude,
o desafio.
Rotular “Mangue”, ou “Beat”, uma geração é
fazer dela parâmetro, farol. Conseguir transformar um conjunto de
comportamentos, num adjetivo. Uma poesia crua, nua, apostando a última ficha numa juke Box de
um bar como foi a lendária
Soparia do Pina, de Roger
de Renor, onde a geração manguebeat
se encontrou, naquele início dos 90.
Viver na boemia e sendo ágil como um
caranguejo. Não ter medo do excêntrico, do tedioso, do ceticismo, do cinismo,
de reconhecer que a paz nas ruas era apenas para disfarçar o cansaço diante da
injustiça social transformada em máquina de explorar pobre e que cara pobre
desses tinha, ou poderia expressar, sua visão diferente do mundo. Uma idéia na
cabeça e um bom canal de expressão à mão.
Se o beco não tinha saída, o lance seria
dar meia volta e cair na estrada novamente. Pois estar na estrada é não
estar perdido, é estar procurando.
O
que o Manguebeat procurava era a atitude certa, coisa que a passividade
recifense havia esquecido de fazer desde os anos 70, quando grupos como Ave Sangria, capitaneados pelo poeta
Marco Pólo, e os escritores publicados pela “Edições Piratas”, como o
poeta Manuel Constantino, criavam novas perspectiva nos meios intelectuais dos bares, das ruas,
da mídia.
O mergulho no álcool, na brincadeira, e até mesmo a visão das
drogas, o trabalho alternativo, ou nenhum, a produção independente ou o
respaldo de uma grande editora, uma gravadora, tudo ia circulando ao redor dos
manguebitniks. A desilusão se transformando na vontade de curtir uma nova experiência,
psicodélica, africana, cibernética, existencialista, uma viagem para dentro da
própria sua condição e curtir várias possibilidades do ser.
Como no filme “The Wild One”, com Marlon
Brando, onde um motoqueiro “Beat” e sua turma chegam para tomar cerveja e
agitam numa cidade americana. Ele tem até um troféu, mas a vontade de desafiar
o sistema é bem mais importante. Foi assim com Jim Morrison, com James Dean
(ícone beat), com Cazuza e Renato Russo(rock dos 80) e com Chico Science e Fred
Zero Quatro, da manguebeat generation.
“Only
the most bitter among them would call their reality a nightmare and protest
that they have been indeed lost something, the future”. Disse John Clellon
Holmes no artigo “This is the beat generation”, in the New York Times Magazine
Não era falar sobre o cansaço e sim em
como se tornar mais ativo e ativista: o manguebeat foi o plano que todos esperavam.
Nem se conformar nem destruir: antenar-se
e relaxar, parecia ser o melhor caminho para ambas as “gerações”.
Se a guerrilha que Zeroquatro e Chico exaltavam não podia ser uma revolução armada, então
seriam poesia e som com “gosto de gás” (com toda vontade) como “Bala que já
cheira a sangue” (Trecho de uma letra de Science).
Zeroquatro parecia com o narrador do
romance “On The Road” (“Pé na estrada” na tradução para o Brasil), Sal
Paradise, que parte de New Jersey para San Francisco, antes parando na casa de
um amigo, Dean Moriarty uma espécie de Chico Science, que mora em Denver, e
curte a vida. (Dean é inspirado no Beatnik Neal Cassady). Em Dever ele encontra
Dean e Carlo Marx (inspirado
Dean
e Sal precisavam de um lugar para ficar e ainda pensam dar um salto para a
Itália. Mas a estrada americana é tudo que a realidade lhes oferece. Chico,
Fred, Renato, Helder, du Peixe e Mabuse aqui no Recife armavam as estratégias
de ataque. O manifesto em 91, o CD e o lançamento do movimento
Digo sem
receio que conheço esse meio / entre os balões onde repousam garrafas / com
mesa servindo pra bancadas / se respondem as batidas com os calcanhares / é
sempre aí que não deixo sobrar nada // a lâmina corria / a vista escurecia / e
a multidão nem via / se espremia toda a cidade / caranguejo em praia, não faz
bondade // pisou macio com esperteza gravitacional / pisou macio com leveza pra
não se dar mal // os ecos sentavam ao lado dos barracões / e as donas
reverberando, virando os olhos / com opiniões // nas quebradas com sua
pastorinha no bolso / o caranguejo na praia das virtudes // sem medo, sem
medo...
(Jorge
Du Peixe em “Caranguejo na Praia das Virtudes” do CD “Rádio S. Amb.A (Madame
Satã”). Serviço Ambulante do Afrociberdélia”. (YBRAZIL?MUSIC,2000) a INTERZONA,
Inc. Nação Zumbi.
Carne preta seca em pó da lacraia
aquática gigante brasileira, citada por Burroughs em “Naked Lunch”, a interzona
que este autor sugeriu neste romance. Americanos gostam de viajar, mas só
querem encontrar outros americanos para reclamar da dificuldade que é achar um
hamburger decente para comer. Ah, os rapazes da Interzona!
Humor Afrodisíaco : agente interzonal.
Esporádicas alucinações?
Bem-vindo ao clube! Ele está cheio de máquinas
escrever mutantes e dopadas.
Penitência?
Ansiedade?
Psicodelicanálise?
Há em tudo isso um paradoxo ético
(étnico)? Transestético!
Todos saem do ar na interzona.
Foi algo assim que eu quis criar,
comparando Manguebeat com Beatnik.
Uma filosofia de uso de drogas em relação
ao trabalho artístico. Algo que está além de tal “carne preta” de Burroughs, da
estrada de Kerouac, da lama e dos caranguejos de Science e Zeroquatro.
E que ao mesmo tempo unisse todos num mar
de letras: seguidores e autores, norte-americanos (funk, rap, soul, jazz,
literatura beat) e brasileiros(maracatu, cavaquinho & muito mais), numa
mesma batida!
Vamos questionar os princípios básicos do
que se convencionou chamar realidade.
Nossa América não é um Mundo Novo!
Ela já era velha, suja e má, como disse
Burroughs, “mesmo antes dos colonizadores e dos índios”.
Esta Interzona Manguebeatnik também
é meio suja e cheia de surpresas. Fugir dela hoje em dia é omitir parte da
nossa história, decepar parte do nosso corpo cultural.
Mesmo perdendo os canais de expressão, o
sofrimento do cérebro, que transparece nos olhos tristes, dá ao rosto do que
são obrigados a se calar, um jeito de caranguejo parado no asfalto quente.
Patas na estrada! Podemos não saber aonde estamos indo, mas
chegaremos lá!
Interzona Manguebeatnik: metáfora da ligação política, da nova
ordem.
- A gente devia editar isso como aqueles
livrinhos mimeografados do início dos anos 70...
- Temos que juntar com o resto que ele
deixou. Estas seis páginas a gente podia tentar publicá-las num suplemento
cultural desses como o do diário oficial...
- Eu me lembro de vocês vendendo aqueles
livrinhos mimeografados pelos bares. Era ridículo! Aqueles panfletos
revolucionários. Se não fosse o pai do Júnior ser general, esta hora vocês
estariam mortos. Esquerdistas de Boa Viagem. Leitores medíocres do Pasquim
e de Millôr Fernandes. Adeptos de Chico Buarque sem champanhe Veuve Clicquot...de
Costa Gravas de A até Z. Mais doidos que
os discos dos mutantes e de Gil, juntos. Sacudindo genitais e manuscritos.
Foder, é o que vocês queriam, e faziam, em todo lugar. Seus filhos bastardos do
dólar heterossexual.
- Hei! Isso é Ginsberg, cara. O
Uivo: “Caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue
esperando que uma porta se abrisse. Jogaram seus relógios do telhado fazendo
seu lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo & despertadores caíram em
suas cabeças por todos os dias da década seguinte. Cortaram seus pulsos sem
resultado três vezes seguidas. Mandaram brasa pelas rodovias do passado
viajando pela solidão da vigília.Abraçamos os Estados Unidos sob nossas
cobertas. Os Estados Unidos
que tossem a noite toda e não nos deixam dormir. Despertamos eletrocutados do
coma..eles vieram jogar bombas angelicais. Ó legiões esqueléticas, correi fora.
Ó choque da misericórdia- salpicado de estrelas, a guerra eterna chegou. Ó
vitória, esquece tua roupa de baixo, estamos livres.
- Nós atravessamos o inferno. Muitos de nossa
geração ficaram malucos.
- Vejam o Smith: um anjo ansiando pelo
antigo contato celestial.
- Nos meus sonhos, todos os nossos que
foram derrotados ou estão lutando em vão até hoje, caminham gotejantes de uma
viagem marítima até a porta da minha casa, nesta incrível noite.
- Emoções baratas, cara. Emoções baratas.
-
Garçom. A conta!
And this is the
end. Only “the end”, myfriend, only THE END...
Os últimos dias do
Recife
Jove está completamente bêbada. O rio
Capibaribe correndo junto do restaurante, em curva generosa e ligeiramente
perfumada naquele final de tarde no Recife. Que bairro era aquele? Jaqueira?
Casa Forte? Dois Irmãos? A negra se perguntava: “Com que roupa eu vou?”. Nisso Aninha, voltando do toalete, parou
e falou com uns caras no piano-bar e gargalhou com algo que um daqueles
sujeitos disse. Era um tipo meio durão, sinhozinho mandão de corte canavieiro
topetudo. Quando Aninha veio, Jove mostrou um retrato de um jovem despido para
ela. “É esse, o tal fulano com quem
estou... me... relacionando. É o aniversário dele e a festa promete. Eu serei a
dancing queen, entendeu? Ele me chama de minha imperatriz, só porque eu
disse que estrangeiros como ele aqui no Recife vem apenas comprovar a
prepotência do neo-imperialismo ianque, mas também disse que já que ele veio
nos `salvar´ da inundação, tudo bem. Tenho mais escrúpulos não. Tomei ele
daquela fulana porque senti firmeza na promessa de mudança. O cheiro de atitude
que ele traz”. Aninha olhou para ela chocada: “A fulana é afilhada do prefeito”. Jove rebateu: “Dane-se! Se o Recife ficar debaixo d´água
aí eu quero ver o prefeito boiando! Estou é preocupada com minha roupa, o
estilista da Paulinha aprontou comigo. Vá confiar! Mas pelo menos o meu
assessor cuidou muito bem da divulgação do negócio. Gostou da minha foto na
coluna?”. “Não dou importância
a essas coisas, você sabe. Aliás, detesto aquela gentalha, aquelas jóias me
ofuscam, se é que você me entende. Mas diga: você não sabe dos escândalos com
os norte-americanos? Este seu casinho, o tal engenheiro do Tio Sam, pode lhe
custar muito caro depois que acabar a ocupação”. Jove gargalhou: "Nunca que eles vão! Estes depois que
colocam o olho num, tomam! Não estou dizendo? Nunca vi nada como esse homem”.
Aninha devolveu a foto. “Pelo menos
ele é competente? A construção do dique está bem adiantada. Sabia que ele já me
deu uma cantada?”. Jove aquiesceu: “Não se preocupe honey. Eu não sou armorial! Fui criada na beira-mar de
Boa Viagem e se essa porra de cidade vai pro beleléu, é problema dela. Não vou
me ligar se meu homem comeu ou deixou de comer alguém, eu quero é me dar bem.
Estou cansada das falsas promessas deste novo milênio. Já empacotei tudo que eu
tenho. Vou bem ficar esperando a onda chegar aqui? Sei lá se o tal dique
agüenta! Não preciso nem esperar. Vou morar no Texas, bem sequinha. Meu amor
tem um rancho lá. Passamos quatro dias inesquecíveis no Novo Éden, é o nome do
nosso lugarzinho vermelho, branco e azul, cansei de verde-amarelo.”
Aninha riu tranqüilizando-se: “Eita
neguinha abusada!” Jove pediu um capuchinho ao garçom. “Você quer mais alguma coisa, Aninha?”
Esta fez biquinho e disse: “Um sorvete
de menta com chocolate.”.
