Lucas Santos de Assis
Orientador: Prof. Dr.
Moisés Monteiro de Melo Neto (UNEAL/ UPE)
1 Uma
pequena aventura: o percurso homoafetivo em solo brasileiro
Levando em consideração a
necessidade de compreender como a relação entre indivíduos do mesmo sexo eram
tidas nos mais diferentes contextos históricos, neste primeiro capítulo, apresentamos
um pequeno panorama sobre as práticas homoeróticas presentes no meio social ao
longo da história brasileira, e como/quando passou a ser retratada no campo
literário. No tópico 2.1 A
homoafetividade da Colônia ao século XXI, discorremos sobre o tratamento
designado às relações homoafetivas pelas leis governamentais e clericais que
ordenavam no Brasil, desde o período colonial ao nosso tempo atual. O ponto 2.2 Literatura brasileira: homoafetividade
em foco, traz um apanhando de obras de autores consagrados que se propuseram
a escrever sobre relações homo, apresentando produções precursoras responsáveis
por trazer esse tema à corrente literária brasileira, bem como as
contemporâneas que firmam cada vez mais a necessidade dessa discussão.
No período medieval, dominado pela
teologia da Igreja Católica, a homoafetividade era considerada como um dos
maiores pecados cometidos, referindo-se a ela como peccatum nedandum (pecado
nefasto). Com a chegada dos portugueses às terras que então seriam batizadas de
Brasil, foram notados nas tribos indígenas costumes que alarmaram os colonos
adaptados ao modo de vida europeu. Apesar de possuir terras férteis e paisagens
deslumbrantes, como Pero Vaz de Caminha veio descrever em uma carta ao então
rei de Portugal, o que chamava a atenção dos viajantes de além-mar eram as “criaturas”
que viviam nessas terras como animais, andavam nus e não tinham o menor senso
de pudor, as tornando difíceis de serem consideradas como humanas, pois não
portavam hábitos como tal.
Dentre vários costumes que os
habitantes nativos dessa nova terra possuíam, o que mais veio chocar os colonos
portugueses, principalmente os mais ligados à religião, foi por praticarem
entre si a relação sexual entre indivíduos do mesmo sexo, que tinham como
termos a “sodomia/pederastia” para designar a relação homoafetiva na época.
Posteriormente, como foi comprovada por diversos antropólogos, a relação
homoafetiva entre índios era tida como normal em diversas tribos.
Em 1859, ao viajar pelo Nordeste brasileiro, o
pesquisador Avé-Lallement tentava uma explicação ao escrever que, entre os
índios Botocudo, não havia homens e mulheres mas homens-mulheres e
mulheres-homens [...] (TREVISAN, 2018, p.64).
Os papeis sociais do gênero
feminino e masculino impostos pela sociedade branca europeia da época não
existiam nas tribos dos povos indígenas, ou seja, a idealização da “mulher
frágil” e do “homem forte” não prevalecia sobre esses povos, uma vez que,
atividades que de certa forma eram direcionadas aos homens por exigir certo
grau de força, tanto eram realizadas por índias ou índios. E os traços físicos
não variavam muito de um sexo para outro.
O alemão Karl von den Steinen,
fazendo uma excursão pelo Brasil central em 1894, pode testemunhar que dentro
do baito (casa dos homens) os rapazes de determinada tribo mantinham
relações homoeróticas entre si. Tais relações não se estendiam somente aos
membros masculinos, mas também aos femininos. Encontram-se relatos de mulheres
indígenas que seguiam firmemente o papel dos homens, por assim dizer, caçavam,
pescavam e chegavam a casar com outras mulheres.
Durante o período colonial, vigorava
na Europa a Inquisição, e valendo da aceitação de certas manifestações devassas
que prevaleciam nas terras brasileiras, os emigrantes da Europa encontraram
aqui uma forma de manifestar seus desejos proibidos. Desde o Recife ao Rio de
Janeiro, as ruas estavam abarrotadas de prostitutas e prostitutos. Os bordeis eram
locais comumente frequentados por soldados, marinheiros e autoridades
administrativas do corpo colonial. Viajantes que aqui aportavam se referiam ao
Brasil como uma terra onde o clima tropical incitava nas pessoas as práticas
mais sórdidas que se possa imaginar.
Por volta da segunda metade do
século XVII a Inquisição chega ao Brasil para colocar sua população nas rédeas
e começar uma verdadeira caça as bruxas. Punido severamente, o pecado da
sodomia foi perseguido e farejado por todos os lados:
[...] Pierre Moreau reportou a grande incidência de
incestos e pecados contra a natureza “pelos quais muitos portugueses foram
condenados à morte”. Ele menciona ainda o caso de um capitão holandês que, por
prática de sodomia, foi primeiro degredado para a Ilha de Fernando de Noronha e
depois para os cárceres de Amsterdam. (TREVISAN, 2018, p.68).
Com uma variedade de métodos
punitivos bastante sádicos, as vitimas não eram medidas por classe social,
todas eram castigadas de acordo com o nível do pecado cometido. Afogamento,
empalamento, banimento da cidade ou do país, prisão, pagamento de multa,
confisco de bens, açoite, castração, amputação das orelhas, marca com ferro em
brasa e morte na fogueira. Eram um dos caminhos para o sodomita.
Mesmo com tais medidas punitivas
postas em vigor pela Inquisição, era comum membros da aristocracia cometerem o
tal “pecado nefasto”. Comumente alguns estudiosos contestam a homossexualidade
de alguns artistas europeus como Shakespeare, Leonardo da Vinci e Michelangelo.
Que provocavam inquietações por dedicarem suas obras a amantes e a ostentarem
os seus fetiches.
No Brasil colônia, os julgamentos
eram regidos pelo Tribunal do Santo Oficio da Inquisição, que era o braço
direito da Igreja Católica e possuía total apoio da realeza. Para medir os
pecados e checar se tudo estava nas devidas ordens, era solicitado pelas
autoridades de cada província um membro visitador do Conselho Português. Com a
chegada do membro designado começava então as confissões de testemunhas que
presenciaram pessoas cometendo algum tipo de desvio pecaminoso, caso a
testemunha não denunciasse imediatamente esses atos, também viria a sofrer as
devidas punições.
Submissos aos seus senhores, os
escravos eram nitidamente assediados, tanto sexualmente como por outros meios.
Podemos dá como exemplo as amas de leite, que amamentavam os filhos de seus
patrões desde o momento do nascimento. Chegando a vida adulta do menino, muitas
vezes, sua iniciação sexual se daria com uma escrava. Nesse meio de domínio
entre patrão e escravo a homoafetividade não escapou, como relata Trevisan (2018):
[...] o mais contundente depoimento de estupro e
sadismo contra escravos consta no Livro da Visitação do Santo Ofício ao Estado
do Pará, em 1763, no qual um escravo de nome Joaquim Antonio, negro solteiro da
nação Angola, entre 25 e 26 anos, contou como fora obrigado ao pecado da sodomia
por Francisco Serrão de Castro, filho do seu senhor [...]
Amedrontados e intimidados pelo
chicote, os escravizados não possuíam muitas opções a não ser sucumbirem aos
desejos e caprichos de seus donos. Mesmo com a denuncia feita, o mal visto no
final das contas era o negro pois, seu patrão, por possuir dinheiro e uma
posição elevada na sociedade, não recebia as piores punições, muitas vezes
chegando a pagar apenas uma pequena multa.
Durante o período inquisitorial
brasileiro, diversas punições por sodomia foram realizadas nas mais distintas
camadas sociais da época: membros do alto escalão social, meros camponeses e escravos.
Banidos do país e condenados à pena de morte. A Inquisição então começou a
esfriar até chegar ao seu fim total.
Proclamada a independência
brasileira e a consolidação do Império do Brasil, novas ordens e leis foram
promulgadas para regulamentar a nova nação ocidental e seus habitantes. Mesmo
com essas mudanças legislativas, o código penal ainda vigente eram as
Ordenações Filipinas, que foram adotadas ainda no tempo da colônia e adaptadas
para o Império em 1823. Nesse conjunto de códigos era determinado que a pessoa
apontada e acusada como “sodomita” deveria ser transformada em pó pelo fogo,
para que de seu corpo não existisse o menor índice de lembrança, e seus bens
confiscados pela Coroa, impedindo seus descendentes de usufruir, sendo assim
condenados a infamidade.
Havia também a penalidade para o
travestismo, o homem que usasse trajes de mulher ou a mulher trajes de homem,
seria punido (a) variando entre açoite, expulsão do país e o pagamento de multa
para a pessoa denunciante. Nas punições
de sodomia eram delimitadas certas diferenças peculiares, uma delas era que o
ato ocorrido sem penetração (a sodomia imprópria), nesses casos as mulheres
eram as sua maioria, sua pena seria apenas o degredo de três anos e a pena
pecuniária estabelecida pelas quantidades de provas.
Diante desses pretextos é notório
que a homoafetividade era tratada como algo “anormal” e não pertencente à natureza
humana. Tratando o indivíduo homoafetivo como um ser asqueroso e repulsivo,
merecedor do tratamento mais horrendo possível.
Na França, em 1810, Napoleão
estabelece novos códigos penais, os então “Códigos Napoleônicos”, que retirava
o crime do homossexualismo da sua listagem de delitos. Inspirado no que havia
de mais recente e considerado avançado na jurisdição da época, o Império do
Brasil atualiza as Ordenações Filipinas no ano de 1830. Nessa nova atualização
o delito da “pederastia” deixa de existir e passa a integrar uma nova
categoria, as de crimes por ofensa á moral e aos bons costumes.
... o Artigo 280 do Código brasileiro punia atos
públicos de indecência com dez a quarenta dias de prisão e uma multa
correspondente à metade do tempo de reclusão. Essa provisão deu margem para que
a polícia pudesse determinar o que constituía um ato de indecência. Deu-lhe
também o poder de extorquir dinheiro daqueles ameaçados de detenção ou reclusão.
(GREEN, 2019, p. 67)
Trevisan (2018, p.164) afirma que
com a chegada da Republica um novo código penal foi estabelecido em 1890, tais
crimes ainda eram determinados como atentado e ofensa à moral, nomeados de
“crimes contra a segurança da honra e honestidade das famílias” e também como
“ultraje publico ao pudor”. Entretanto, sua penalidade era mais rígida que a
adotada pelo Império, variando de um a seis meses de reclusão social.
É nesse momento, com um acréscimo
de cinco anos após a elaboração do novo código penal republicano, que é
publicado o primeiro romance inteiramente homoerótico da literária brasileira, Bom-Crioulo.
Logo, a obra foi massacrada pela critica e pelas personalidades de maior poder.
Com seu tema centrado na relação homoafetiva entre dois homens, especificamente
da Marinha Brasileira, esse trabalho do cearense Adolfo Caminha foi
classificado como atentando aos bons costumes das “famílias de bem” do final do
século XIX.
O Código Penal Republicano sofre
pequenas alterações nos anos de 1932 e 1940. Essas modificações não foram tão
relevantes, apenas diminuíam o tempo de prisão do crime contra os “bons
costumes” e repudiavam a divulgação de matérias midiáticos que trouxessem
ofensa aos mesmos.
Todavia, em 1964 com a ditadura
instaurada em todo o território nacional, a censura vem para sufocar as
manifestações dos grupos minoritários da sociedade. A Lei n. 5250, de 9 de
fevereiro de 1967, que ficou conhecida como Lei de Imprensa, punia severamente
qualquer tipo de atentado ao pudor nos meios comunicativos do país. Amparado de
tal lei, o governo ditatorial crava com força as garras da censura na imprensa
brasileira, reprimindo qualquer tipo de apoio aos direitos de pessoas
homoeróticamente inclinadas.
Nas décadas de 60, 70 e 80, mesmo
sobre o tenaz olhar dos militares da ditadura brasileira, diversos artistas das
diversas ramificações da arte conseguiram driblar a censura e manifestar, em
suas produções, conteúdos até então “proibidos”, mesmo que para isso fizessem o
uso de figuras de linguagem para não deixarem de forma tão explicita seus
temas.
Finalmente as ruas da cidade se tornam espaço de
visibilidade de personagens gays, seja numa tônica entre libertário e o
panfletário, reveladores até do lado odara de tantos super-homens, seja
simplesmente com um tom neo-naturalista, que mescla as questões de sexualidade
com as mazelas sociais, econômicas e políticas de um país que implementa cada
vez mais um projeto modernizante excludente, às sombras de um regime
autoritário. (LOPES, 2002, p.135)
O meio musical foi um dos mais
efervescentes críticos do regime ditatorial. Esses artistas denunciavam as
políticas adotadas pelos governantes e as péssimas condições em que as classes
sociais menos favorecidas eram submetidas, foram acusados de causarem desordem
e tumulto contra a pátria, sofrendo severamente com prisões e exílios em outros
países. Caetano Veloso, grande compositor e cantor, conseguiu quebrar as
barreiras com seu estilo único de fazer música. Junto com seu amigo/colega
Gilberto Gil, idealizaram o movimento Tropicália, que visava criar músicas com
um modo bem brasileiro. Essa nova estética artística buscou suas inspirações no
Movimento Antropofágico de Oswald de Andrade, que pretendia “canibalizar”
elementos da cultura internacional e mistura-los com os brasileiros, para assim
surgir algo considerado legitimamente brasileiro.
As referências ao homoerotismo não
foram excluídas nesse meio, emergindo nas letras das músicas de talentosos
cantores, não só nas letras como também em seus modos de se apresentarem. O já
citado Caetano Veloso, em algumas de suas músicas, perceptivelmente traz traços
homoeróticos, exemplo disso é a canção Menino do Rio, que vem tratar de
certo fascínio pelos rapazes que frequentam as ensolaradas praias cariocas.
[...]
Menino vadio
Tensão flutuante do Rio
Eu canto pra Deus proteger-te
O Havaí seja aqui
Tudo o que sonhares
Todos os lugares
As ondas dos mares
Pois quando eu te vejo eu desejo o teu desejo
Menino
do Rio
Calor que provoca arrepio
Toma esta canção como um beijo. (VELOSO, 1979).
Aspectos homoeróticos são
identificados em composições de outros notáveis artistas, como Ney Matogrosso.
Que se tornou um dos verdadeiros precursores desse aspecto. Com o seu jeito de
se vestir em apresentações com maquiagens chamativas e roupas bem exóticas,
quase beirando a nudez em alguns momentos, Ney é uma figura onde a
homoidentidade é palpável, como discorre Green:
Na condição de superastro do rock, a forma aberta
com que Ney Matogrosso abordava sua sexualidade ofereceu um novo modelo para
muitos homossexuais. Ele falava com orgulho do modo como provocava desejo tato
em homens quanto em mulheres. (GREEN, 2019, p. 423).
Suas músicas balançavam entre o
ser masculino e o homoafetivo: “Diz que vai dar, meu bem/ Seu coração pra mim/
Eu deixei aquela vida de lado/ E não sou mais um transviado”.
Indiscutivelmente é de suma
relevância o grupo teatral Dzi Croquettes, que colocaram em cena o
travestismo. Composto por um grupo de homens que se vestiam de mulher, vieram
transgredir com a forma a qual os gêneros sexuais eram retratados nos palcos
brasileiros. As vestimentas utilizadas nas apresentações eram uma verdadeira
mistura de peças masculinas e femininas, que muitas vezes fazia duvidar se de
fato eles eram “eles” ou “elas”.
Os anos 60 e 70 marcaram com seu
modo de emergir na sociedade o então tema do grupo LGBT. Todavia, com o
aparecimento da AIDS nos anos 80, é instaurado certo pânico nessa comunidade,
uma vez que, seu surgimento e sua proliferação foram atribuídos às relações
intimas entre pessoas do mesmo sexo. O indivíduo de inclinação homoafetiva foi,
mais uma vez, marginalizado e massacrado por toda a comunidade, onde ser “gay”
agora era sinônimo de algo doentio e contagioso.
A AIDS veio a configurar-se como
uma mazela punitiva ao grupo LGBT pelo motivo de não seguirem com o estigma
normativo da sexualidade humana, “... a Aids é não só um elemento de afirmação
da condição estrangeira do homossexual mas de redefinição de sua afetividade,
de reencontro. ” (LOPES, 2002, p.144).
Tratando-se de uma nova doença, o
conhecimento acerca de seus sintomas era quase inexistente. Sem métodos
adequados que pudessem impedi-la de se expandir e sem tratamentos eficientes,
ela contaminou e matou milhares de pessoas em um curto período de tempo. O
publico gay então se viu acuado e amedrontado.
Grandes nomes de figuras publicas
foram vitimas de tal pandemia, podemos citar o grande Cazuza que veio a falecer
com as sequelas da nova doença. Diante de tal caos, grupos e organizações LGBTs
de vários estados do Brasil começaram a informar e conscientizar o publico
sobre métodos de prevenção da doença.
A Parada do Orgulho LGBT,
popularmente conhecida como “Parada Gay”, teve sua primeira edição no ano de
1997 na cidade de São Paulo, com a participação de apenas 2.000 pessoas. Entretanto,
seus números vieram a crescer no decorrer dos anos. Considerada a maior
concentração de domínio LGBT, foi e ainda é o maior evento de luta pelos
direitos homossexuais no Brasil. Sua realização acontece anualmente e atrai
pessoas de diversas regiões do Brasil e do mundo. É através de manifestações
como essa que possibilitam as pessoas expressarem seus desejos e pedirem que os
outros respeitem seus valores e sua forma de amar.
No decorrer dos anos 1990, após a
queda da ditadura, o tema da homoafetividade já estava enraizado nas correntes
publicitárias. Grandes meios comunicativos como revistas, jornais e programas
já debatiam e divulgavam temas como sexo e sexualidade. Um grande exemplo disso
é a revista G Magazine, a primeira revista em território nacional a
tratar explicitamente do nu masculino. Seu publico alvo foi os homens gays, mas
também cativou a atenção das mulheres heterossexuais.
Com seus nus radicalmente sexuais, a G
Magazine abriu portas nunca sonhadas pelos militantes da visibilidade
homossexual: através de tiragens médias de 90 mil exemplares, que chegaram a
atingir o pico de 150 mil, o país inteiro podia conferir seus ídolos em poses
explícitas ao gosto de outros homens, numa revista assumidamente guei (sic).
(TREVISAN, 2018, p. 347).
Chegando a vender milhares de exemplares
mensalmente, seu sucesso foi absoluto. Em suas edições, modelos masculinos
posavam totalmente sem nenhuma vestimenta, ostentando seus membros viris
rígidos no chamado “mostrando tudo pra valer”. Os ídolos escolhidos para tal
proeza variavam desde jogadores de futebol, modelos, atores e cantores. A
revista encerrou suas atividades no ano de 2013.
Mesmo com esses novos ares do novo
milênio que favoreciam a representatividade homoafetiva, o primeiro beijo gay a
ser exibido em rede nacional brasileira, só veio acontecer em 2014, na Rede
Globo com a novela do horário nobre Amor à Vida. Os atores
responsáveis por contracenar esse marco na história televisiva brasileira foram
Mateus Solano (no papel de Félix) e Thiago Fragoso (no papel de Niko).
Já no meio internacional tais feitos
já tinham ocorrido há algum tempo. Em 2006 o filme Brokeback Mountain
abordou nas grandes telas do mundo todo o amor homoafetivo entre dois cowboys,
foi aplaudido de pé por numerosos críticos e indicado à vários prêmios
incluindo oito indicações ao Oscar, saindo vencedor de três estatuetas, das
quais Ang Lee levou a de Melhor Diretor. Mais recentemente temos o filme Call
Me By Your Name de 2017, baseado no romance de mesmo nome escrito por André
Anciman, onde vem narrar o calor da primeira paixão entre dois jovens gays.
Os anos de 2010 foram de enormes
conquistas para esse grupo da sociedade tão marginalizado e massacrado em
épocas anteriores. O contexto da homossexualidade agora é mostrado em todo o
seu esplendor, desde o cinema a televisão, a exploração de personagens LGBTs é
notável. E como não comentar o grande “BOOM” da carreira da cantora drag queen
Pabllo Vittar no cenário musical contemporâneo? Vittar iniciou sua trajetória
artística quebrando barreiras para inserir de forma bombástica a sua estética e
forma de ser, possibilitando a imersão de novos nomes com o mesmo estilo, conseguindo
se firmar como a drag queen mais famosa do mundo.
Atualmente, a classe LGBT desfruta de direitos
melhores que em épocas anteriores. Todavia, tais direitos ainda precisam de
incentivo político para que sejam postos em prática no meio social, não somente
para estar escrito em um papel legislativo. Devemos essa evolução da abordagem
de tais temas que envolva sexo, sexualidade e afetividade, à coragem das
numerosas figuras do passado que ousaram em trazer esses novos conteúdos para
uma discussão mais ampla e social, atribuindo-lhes a devida importância.
A luta não acaba aqui. Em diversos
países contemporâneos não existem leis defensoras da população gay, a homoafetividade
ainda é condenada como anormal, até mesmo nos lugares que existem leis
defensivas para esse grupo. Nesses locais, os índices de homicídio de pessoas
LGBTs são extremamente altos. E com esses horizontes sombrios, onde os valores
conservadores estão surgindo novamente, de forma espantosa, cabe à nova geração
de ativistas LGBTs que lutem e continuem lutando por seus direitos, para que
não retrocedam as épocas obscuras da história da comunidade humana.
No meio literário do Brasil são
raras as obras que narrem o afeto homoerótico, sobretudo nos séculos
anteriores. Já na atualidade, com as conquistas da classe LGBT, essas obras
passaram a se destacar consideravelmente. Ao investigar o acervo histórico da
literatura brasileira, é possível encontrar produções de ilustres autores que descrevem
laços homoafetivos/homoeróticos.
É evidente que os primeiros traços
de uma produção literária dotada em fatos homoafetivos se dá no período
Real-naturalista. No ano de 1888, Raul Pompeia publica seu único romance, O
Ateneu, contemplando os acontecimentos de uma escola interna de rapazes. No
decorrer da obra, é perceptível trechos que fazem alusão às relações
homoafetivas mantidas pelo grupo discente, como fica compreensível na seguinte
citação referente a um diálogo entre os personagens Sérgio e Rebelo:
Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente,
provocando-me com surriadas.
“Viu aquele da frente, que gritou calouro? Se eu
dissesse o que se conta dele... aqueles olhinhos úmidos de Senhora das Dores...
Olhe; um conselho aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se.
“Isto é uma multidão; é preciso força de cotovelo
para romper. Não sou criança, nem idiota; vivo só e vejo de longe; mas vejo.
Não pode imaginar. Os gênios fazem aqui dois sexos, como se fosse uma escola mista.
Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo
da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo.
Quando, em segredo dos pais, pensam que o colégio é a melhor das vidas, com o
acolhimento do mais velhos, entre brejeiro e afetuoso, estão perdidos...
Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admitir protetores. (POMPEIA, 2013, p.
40).
No diálogo, Rebelo orienta o
novato Sérgio a ser um garoto forte pois, os que não conseguiam se proteger, se
sentiam na obrigação de arranjar um protetor, consequentemente mais experiente
nas vivencias do colégio. E que acabava por submeter o indefeso a seus
caprichos, que no caso do referido romance, nos faz a alusão da submissão do
mais fraco aos desejos eróticos do mais forte. “Mesmo as práticas sexuais não
sendo narradas, as posições sociais dentro do espaço eram bem configuradas, o
forte sempre seria considerado como macho, enquanto o fraco seria visto como um
sujeito feminino. ” (CASTRO, 2017, p. 8-9).
Em O Cortiço (1890), do
real-naturalista Aluísio Azevedo, o narrador traz o caso da prostituta Léonie
que seduz Pombinha, uma moça virgem residente do cortiço. Mesmo se esquivando, Pombinha
se entrega sexualmente, e ao abandonar seu noivo começa a viver com Léonie, passando
a se prostituir também. No trecho abaixo é narrado o início da relação intima
entre as duas personagens que transcorre durante uma visita de Pombinha à casa
da prostituta.
Bem! Agora estavam perfeitamente a sós!
- Vem cá, minha flor!... disse-lhe, puxando-a
contra si e deixando-se cair sobre um divã. Sabes? Eu te quero cada vez
mais!... Estou louca por ti!
E adorava-a de beijos violentos, repetidos,
quentes, que sufocavam a menina, enchendo-a de espanto e de um intuitivo temor,
cuja origem a pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era.
(AZEVEDO, 2011, p. 127).
Mesmo com essas duas obras
predecessoras, é em 1895 que chega ao acervo literário brasileiro o primeiro
romance inteiramente voltado para a relação homoerótica, o Bom-Crioulo.
Alguns estudiosos afirmam que a obra vem a se concretizar não só como o
primeiro romance de caráter homoafetivo do Brasil, mas também, do Ocidente.
Tendo como autor o cearense Adolfo Caminha, que bebeu da vertente
Real-naturalista para todos os seus três romances, a história de Bom-Crioulo
segue os personagens Amaro (apelidado de Bom-Crioulo) e Aleixo, que passam a
viver uma relação amorosa em alto-mar na Marinha Imperial Brasileira.
No seu tempo de publicação o
romance sofreu com forte censura da crítica literária vigente. Que além de
trazer um tema tido como tabu e patologia humana, a relação sexual entre dois
homens, indo contra as diretrizes dos ditos “bons costumes” que vigora na
sociedade oitocentista, o fato de ter um negro (Amaro) ditando ordens à um
jovem branco (Aleixo), veio contribuir para maior repreensão do livro no meio
editorial, e de seu autor no meio social. Outros aspectos do livro, que se
configura como objeto de estudo do referido trabalho, são desenvolvidos em
especial na 4ª seção.
Green, em sua renomada obra Além do Carnaval, discorre sobre uma
figura que conseguiu almejar uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras,
João do Rio. Bastante jovem quando adentrou os círculos literários de sua
época, seu principal ramo era o jornalismo, entretanto, se aventurou pelos
gêneros literários como o conto. Em suas produções, João menciona os pontos de
prostituição masculina do Rio de Janeiro na primeira década dos anos 1900.
Segundo Green, as explorações de João do Rio nessas localidades deixam marcada
a sua sexualidade, além de outras menções feitas por outros autores e figuras
do meio jornalístico às predileções sexuais de João.
A preferência sexual evidente de João do Rio por
outros homens nos leva a especular a respeito dos sentidos múltiplos de sua
celebração da arte de passear. Embora pouco se conheça dos detalhes de suas
aventuras eróticas, suas andanças noturnas pelas ruas da capital à procura de
materiais jornalísticos inovadores podem também ter-lhe proporcionado a
oportunidade de desfrutar da companhia sexual de marinheiros, soldados e
figuras comuns, que eram personagens de seus artigos e relatos. (GREEN, 2019,
p. 107).
Desse modo, é possível inferir que
João do Rio tenha se relacionado com tais indivíduos, uma vez que, nesses
locais de prostituição masculina da então Capital brasileira, soldados e
marinheiros eram assíduos frequentadores. Green (2019) ainda afirma,
posteriormente, que Lima Barreto faz uma caricatura de João do Rio no
personagem Raul de Gusmão, que contrata um fuzileiro naval para relações
sexuais, em seu romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909).
Considerado como um dos maiores
nomes do cânone literário do Brasil, se não o maior, Machado de Assis publica
em 1906 uma coletânea de contos intitulada Relíquias da Casa Velha.
Nessa compilação está o conto Pílades e Orestes, narrando a história de
dois amigos homens, Quintanilha e Gonsalves, que vivem harmoniosamente juntos.
No decorrer do texto, a forte relação entre os dois, que não passava
despercebida dos olhos da sociedade é discutida de forma explicita: “A união dos dois era tal,
que uma senhora chamava-lhes os “casadinhos de fresco”, e um letrado de Pílades
e Orestes. ” (ASSIS, 1906).
O título do conto faz alusão à
peça teatral Ifigénia entre os Tauros, do grego Eurípedes. Onde a dupla
de amigos, Pílades e Orestes, compartilhava de sentimentos homoafetivos
mutualmente, cuidando um do outro, e ao serem capturados e levados ao
sacrifício, Pílades oferece sua vida no lugar da de Orestes. Vale também fazer menção
que tal dupla já foi retratada na pintura e escultura, e aparecem agindo de
forma afetuosa um com o outro. Assim, se dá o referencial, por parte do autor,
da relação afetiva entre os indivíduos.
Adentrando o contexto literário do
Modernismo encontramos um bom conjunto de obras que discutem a relação afetiva
e sexual entre pessoas do mesmo sexo. A sexualidade de Mário de Andrade sempre
foi bastante discutida, mesmo que o autor não tenha exposto as relações sexuais
que matinha com outros homens, é algo que já foi afirmado por seus
contemporâneos colegas escritores, e pesquisadores da sua vida e obra. Em seu
conto Frederico Paciência, presente na coletânea Contos Novo (1947),
publicada dois anos após sua morte, assim como no romance de Raul Pompeia, vem discorrer
sobre uma amizade bastante afetuosa entre dois garotos, Frederico e Juca, que
surge no colégio.
No decorrer da narrativa, Juca e
Frederico passam a se envolver cada vez mais, mantendo-se juntos, defendendo e
ajudando um ao outro. Bem como fazerem planos futuros de nunca se separarem, o
que não ocorre. Vejamos um trecho da obra, com destaque à afetividade que
envolviam os dois garotos:
Em um jogo de cabeças unidas quando sentávamos para
estudar juntos, de mãos unidas sempre, e alguma vez mais rara, corpos enlaçados
nos passeios noturnos. E foi aquele beijo que lhe dei no nariz depois, depois
não, de repente no meio duma discussão [...] Dei o beijo, nem sei! [...]
Frederico Paciência recuou, derrubando a cadeira. O barulho facilitou nosso fragor
interno, ele avançou, me abraçou com ansiedade, me beijou com amargura, me
beijou na cara em cheio dolorosamente. (ANDRADE, 2017, p. 104).
Na Primeira Fase Amadiana, ou Fase
Proletária, com uma produção voltada para o meio socialista político do Brasil
da década de 1930, Jorge Amado concebe o romance Capitães da Areia
(1937). A trama gira entorno de um grupo de meninos moradores das ruas de
Salvador, que faz do roubo seu único meio de sustento. Focando na extrema
marginalização social a que eram submetidos e aos maus tratos, exercidos a
eles, pelas instituições educacionais, policiais e clericais da época.
O título do romance nomeia esse
grupo de garotos de rua exclusivamente composto de figuras masculinas,
possuindo apenas como identidade feminina a personagem Dora, que sempre se
entretinha nas atividades denominas “masculinas” do bando, como a capoeira. Na
trama é mostrada a relação homoafetiva entre dois personagens integrantes desse
espaço predominantemente homossocial, Almiro e Barandão.
O Sem Pernas notou que ele se dirigia para o outro
extremo do trapiche, onde a areia era mais fina ainda. Foi então pelo outro
lado e chegou a tempo de ver Barandão que se encontrava com um vulto. Logo o
reconheceu: era Almiro, um do grupo, de doze anos, gordo e preguiçoso.
Deitaram-se juntos, o negro acariciando Almiro. O Sem Pernas chegou a ouvir
palavras. Um dizia: "meu filhinho", "meu filhinho". (AMADO,
1937, p. 61).
Os dois mantinham seus atos
afetivos em segredo, longes do demais, que ao terem conhecimento do caso, o
chefe do grupo, o então Pedro Bala, os proíbe de continuarem. Além dessa
referida passagem do romance, existem outras que aludem a esse relacionamento
homoerótico.
Seguindo essa linha de ralações
que fogem da regra hegemônica heteronormativa, Guimarães Rosa em sua
prestigiada obra Grande Sertão: Veredas (1956), resgata a situação do
cenário árido do Nordeste brasileiro e seus contracenantes (vaqueiros, cangaceiros,
jagunços etc.). Tido como um espaço majoritário da personificação dos papeis
estritamente masculinos, o autor faz o uso de Diadorim, uma mulher travestida
de homem, para construir a idealização total de um homem jagunço, dotado de
qualidades exclusivamente direcionadas à indivíduos másculos, como a coragem. E
que nutria sentimentos amorosos recíprocos, por seu companheiro, o também
jagunço Riobaldo, que o considerava como um verdadeiro guerreiro.
Desse modo, o autor prestigia em
seu romance, ao construir a personagem Diadorim e a afetividade enlaçada com
Riobaldo, os “reflexos de uma masculinidade que foge aos padrões sociais, que
questiona as fraquezas e as crises enfrentadas pelos homens ao lidarem com suas
masculinidades ...” (CASTRO, 2017, p.10).
Já no meio da dramaturgia, Nelson
Rodrigues se firma como um dos maiores nomes. O Beijo no Asfalto (1961),
é uma de suas peças que vem discutir sobre os sentimentos homoafetivos. O drama
gira entorno do beijo que o personagem Arandir dá em um homem que, ao ser
atropelado pede por um beijo. Tal cena é presenciada por inúmeras pessoas e
passa a ter enorme repercussão por meio dos jornais e da polícia que persegue
Arandir para mais revelações acerca da situação que envolve os dois
protagonistas do beijo. O desfecho se dá de forma surpreendente, ao ser
revelado, por Aprígio (sogro de Arandir), seus sentimentos amorosos ao
assassina-lo por ciúmes.
ARANDIR (atônito e quase sem voz) - O senhor me
odeia porque. Deseja a própria filha. É paixão. Carne. Tem ciúmes de Selminha.
APRÍGIO (num berro) - De você! (estrangulando a
voz) Não de minha filha. Ciúmes de você. Tenho! Sempre. Desde o teu namoro, que
eu não digo o teu nome. Jurei a mim mesmo que só diria teu nome a teu cadáver.
Quero que você morra sabendo. O meu ódio é amor. Por que beijaste um homem na
boca? Mas eu direi o teu nome. Direi teu nome a teu cadáver. (Aprígio atira, a
primeira vez. Arandir cai de joelhos. Na queda, puxa uma folha de jornal, que
estava aberta na cama. Torcendo-se, abre o jornal, como uma espécie de escudo
ou de bandeira. Aprígio atira, novamente, varando o papel impresso. Num espasmo
de dor, Arandir rasga a folha. E tomba, enrolando-se no jornal. Assim morre)
APRÍGIO Arandir! (mais forte) Arandir! (um último
canto) Arandir! (RODRIGUES, 2012, p. 58).
Até aqui, uma produção literária,
voltada para o tema homoafetivo/homoerótico, é em certo grau significativa.
Mesmo que, segundo alguns pesquisadores, é apenas no início dos anos 1980, que os
estudos acerca de tais temáticas começam a serem discutidos no âmbito
acadêmico. Adentrando diversas universidades do Brasil, ganhando espaço ao
serem abordados por pesquisadores que seguiam os pensamentos de teóricos já
consagrados, para analisar as representações de gênero, sexualidade e como se
identificavam no meio social.
Era um tempo de efervescências
políticas, com o iniciar do declínio do governo ditatorial, o estourar de
diversos movimentos sociais por todo país, pedindo por melhores condições de
trabalho, igualdade social e saneamento básico. As metrópoles brasileiras se
viam com um crescente índice de pobreza, que obrigavam inúmeros membros das
classes marginalizadas, que não conseguiam arranjar emprego, se prostituírem
nas ruas, mesmo amedrontados com a AIDS, para conseguirem sua subsistência.
Acabando por comercializar o sexo, possibilitando o encontrar fácil dos mais
variados desejos sexuais e eróticos.
Tendo esse panorama da sociedade
de 1980, o dramaturgo Zeno Wilde decide retratar, em sua peça Blue Jeans
(1980), a classe dos prostitutos masculinos da noite carioca, e as situações sórdidas
à que eram submetidos. Trazendo quatro personagens, michês (outra palavra para
designar prostitutos), estigmatizados pelo drama da prostituição, e que juntos
narram, quase que em uma única voz, suas vivências e os desafios encontrados
nesse meio.
Como profissionais do sexo, esses
personagens se dispunham a práticas tanto homoeróticas como heterossexuais.
Entretanto, o autor traz em exclusividade a homoafetividade dessas figuras,
tanto no travesti Gracinha, como nos demais (Marcos, Serginho e Reguintem). Que
viam no sexo homo mais uma possibilidade de aumentar sua renda, como afirma o personagem
Marcos, em uma das passagens da peça:
Mas quem é profissional não escolhe sexo. O que
cair na rede, é peixe! Quer ver só? Se eu sair com um senhor, às sete, oito
horas, e transar com ele numa só de passivo... se aparecer outro cliente, lá
pelas madrugada, eu posso faturar com ele também... porque eu me poupei da
primeira vez, não me gastei... Com mulher não dá... elas querem que a gente
goze sempre... e com mulher só dá pra ser ativo. Aí eu acabo tendo prejuízo.
(WILDE, 1980).
Perseguido pela Ditadura Militar,
que perdurou de 1964 a 1985, Caio Fernando Abreu é um dos vários nomes da leva
de autores contemporâneos. Com uma produção que abrange diversos gêneros
literários, veio direcionar grande parte de suas obras às relações de cunho
homoafetivo/homoerótico, fortemente prestigiada em seus inúmeros contos.
Morangos Mofados (1982),
possivelmente sua antologia de contos mais famosa, traz um dos seus textos fortemente
marcado pela revelação de uma sexualidade homoerótica, Sargento Garcia.
Transcorrendo o encontro de desejo e intimidade sexual entre um militar, o
então Sargento Garcia, e um adolescente que se apresenta ao exército. Os dois
se dirigem à um motel, já conhecido pelo sargento, e se entregam aos seus
devaneios eróticos.
Deitei de costas. Fechei os olhos. [...] Então um
corpo pesado caiu sobre o meu e uma boca molhada, uma boca funda feito poço,
uma língua ágil lambeu meu pescoço, entrou no ouvido, enfiou-se pela minha
boca, um choque seco de dentes, ferro contra ferro, enquanto dedos hábeis
desciam por minhas virilhas inventando um caminho novo. (ABREU, 2018, p. 373).
Já no conto Caçada, da
coletânea Pedras de Calcutá (1977), é contada a violência e o
preconceito direcionado às pessoas de inclinação homoerótica, e que mesmo
integrantes da classe LGBT, por muitas vezes serem reprimidos em revelar seus
desejos eróticos, acabam por direcionar sua fúria violenta aos que são
assumidos publicamente.
Um mapeamento da homotextualidade na literatura
brasileira passa pela identificação de categorias estéticas articuladoras, como
o campo de estudos de gêneros literários, como cartas e diários, ou de obras
que encenam mais direta ou enviesadamente elementos biográficos; pelos estudos
de espaços, das instituições mais fechadas, totais, para usar o termo de Erving
Goffman, como o internato e as forças armadas, dos lugares mais interditados,
como pensões ou casas noturnas, ou dos lugares mais privados, como o quarto,
até a conquista do espaço ao ar livre, das ruas da cidade, da expressão na
esfera pública e da eventual ressignificação da casa para além da opressão
familiar; pelos estudos de figuras (a ambiguidade do adolescente tímido, do
travesti, da mulher masculinizada, do solteirão/solteirona, do bissexual,
associados à construção do olhar e do desejo... (LOPES, 2002, p. 124)
Como afirma Lopes, na literatura
brasileira, ao serem abordados o tema da homoafetividade/homoerotismo, maioria
dos autores fazem o uso de cenários predominantemente tidos como masculinos
como o meio militar (Bom-Crioulo e Sargento Garcia), o colégio (O
Ateneu e Frederico Paciência). Além de outros espaços, evidenciando
que a inclinação homo de indivíduos não está ligada única e exclusivamente à um
determinado contexto, mas, que se estendem a todos compartimentos e épocas da
sociedade.
Privilegiando uma literatura de
aspecto biográfico, com uma relação homoerótica, temos o romance, baseado em
fatos, O Terceiro Travesseiro (1997), de Nelson Luiz de Carvalho. Que se
propõe a narrar a relação homoafetiva entre dois jovens da classe média
paulista, e as intempéries, como o preconceito e sentimentos conturbados, à que
são submetidos no decorrer da união homoafetiva dos dois e ao passarem para uma
relação bissexual à três com uma garota.
São obras que se tornaram cânones
ao demonstrar sua importância ao revelar fatos históricos e desenvolver como a
homoafetividade/homoerotismo eram tidos em tempos variados. E mesmo nas épocas de
forte reprimenda para os indivíduos de inclinação homoafetiva, eles sempre
estavam ali, desde o alto patamar da sociedade até as classes inferiores. E que
precisamos levar em consideração todo o caráter sócio-político que engloba a
obra “... os sistemas de signos, significados linguísticos e culturais, as
redes que abarcam as figurações de gênero e identidade, e também a função
estética, para não perpetuarmos a valorização de obras apenas pelas nossas
crenças e preconceitos. ” (CASTRO, 2017, p.8).
Ainda é um campo da literatura um
tanto desafiador para o escritor se aventurar, em virtude da repreensão que o
tema possui, mesmo após as conquistas da causa LGBT. Entretanto, nas primeiras
décadas do século XXI, a produção de narrativas homoafetivas/homoeróticas de
diversos autores nacionais e internacionais, passaram a ganhar mais destaque.
Se estendendo além do meio literário, passando para o cinematográfico, o
teatral e o televisivo.
Podemos concretizar que, as obras de cunho
homoafetivo predecessoras ao nosso tempo são de suma importância. E que em sua
maioria, tais produções podem se configurar como crítica social ao mostrarem o
desprezo, o preconceito, a violência e ignorância à que os indivíduos
homoafetivos estavam sujeitos, desde tempos longínquos. Contribuindo para a
quebra das normas que sujeitavam a relação homo a patologia humana e levando o
tema, menosprezado pelo meio editorial e social, à discussão.
Nesta segunda seção, expomos o contexto
sócio-histórico e o movimento literário onde veio surgir os primeiros indícios
de uma produção dotada de caráter homoafetivo presente na literatura
brasileira. No item 3.1 O Real-naturalismo brasileiro, é
apresentada as características de duas escolas literárias, o Realismo e o
Naturalismo, que são tratadas, por diversos teóricos, como uma só, o
Real-naturalismo, por apresentarem traços semelhantes. Ressaltando suas
divergências e os autores patronos que as vieram introduzir. Em 3.2 As aventuras de Adolfo Caminha por
Sânzio de Azevedo, apresentamos uma biografia do cearense Adolfo Caminha,
autor do primeiro romance inteiramente homoerótico do país que, também é
considerado, por alguns estudiosos, como a primeira obra que narra as relações
sexuais entre pessoas do mesmo sexo do Ocidente.
Nos dois últimos decênios de 1800 é
introduzido no meio literário brasileiro dois estilos literários, o Realismo e
o Naturalismo. Nascidos na Europa, mais precisamente em uma França conturbada
politicamente, ambos são movimentos que andaram de mãos dadas por apresentarem
características convergentes, tanto que alguns críticos literários os analisam
de forma conjunta, os nomeando de “Real-naturalismo”.
Entretanto, optamos por analisar alguns
aspectos separadamente, mesmo que possuam, no Brasil, o mesmo contexto de
estreia e período abrangente, apresentam traços divergentes como no caso de
seus escritores patronos.
Fica a cargo da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880), do ilustre Machado de
Assis, o grande expoente do Realismo no Brasil, que veio quebrar de vez com os
vieses do Romantismo. Deixando de lado o retratar das marcas melancólicas e
subjetivas do ser, para representar a sociedade em sua plena realidade.
O Naturalismo, além de fazer essa
representação fiel da sociedade, pretende ir um pouco mais à fundo. Introduzido
na literatura brasileira pelo maranhense Aluísio Azevedo, com sua obra O Mulato (1880), a vertente naturalista
influenciada pelos ideais científicos e filosóficos como o positivismo e o
darwinismo, passa a analisar os comportamentos do indivíduo influenciados por
sua natureza animal e o meio ao qual está inserido.
Enquanto o Realismo objetivava-se em fazer uma
representação da superfície da realidade social, demonstrando as vivencias
rotineiras do humano, o Naturalismo se aprofundava mais. Além de retratar a
realidade em sua plenitude, fazia uma análise detalhada daquilo que,
costumeiramente, ficava nas beiradas ou no pano de fundo da sociedade, ou seja,
os autores adeptos da corrente naturalista propunham-se a apresentar em suas
obras os aspectos considerados sórdidos encontrados no meio social. Como
relações inter-raciais, relações homoafetivas, questões de sexualidade, a
miséria, a violência, a doença, adultério etc.
Em um período onde tais questões sociais eram
duramente reprimidas pelos seus governantes e líderes religiosos, o Naturalismo
demonstrava sem medo e sem dó a realidade banal da era oitocententista. Sem a
preocupação do choque que suas obras provocavam na sociedade da época.
Conquistando inúmeras críticas árduas à medida que ganhava repercussão no meio
literário, e consequentemente virando uma literatura do meio marginal.
No Realismo o ser era demonstrado em sua carga
humana simples, na ramificação naturalista o indivíduo é descrito em seu
aspecto mais bestial, mais brutal. Descortinando a verdadeira essência do
humano, sendo um animal regido pelo seu meio de convívio e as ditas “leis da
natureza” e como tal, agia da forma que lhe convinha melhor, sem o pensar das
consequências que podiam surgir mediante suas ações realizadas. Segundo Bosi
(2017):
O Realismo se tingirá de naturalismo, no romance e no conto, sempre
que fizer personagens e enredos submeterem-se ao destino cego das “leis
naturais” que a ciência da época julgava ter codificado ... (BOSI, 2017, p.
178)
Assim, é perceptível as diferenças encontradas
nas duas escolas literárias. Mesmo que por diversas vezes venham a serem
tratadas de forma conjunta, nomeada de escola ou período Real-naturalista, é de
suma importância trazer em discussão as particularidades de cada uma,
ressaltando o viés mais científico e a descrição das patologias humanas,
encontradas nas produções de cunho naturalista. Todavia, concordamos com o
pensamento teórico de prestigiar ambos estilos literários em conjunto pois,
nasceram no mesmo contexto sócio-histórico brasileiro, com a mútua preocupação
em fazer uma pintura fiel da realidade.
Sucessor do Romantismo, a era Real-naturalista
surgiu de grandes efervescências políticas e sociais brasileiras, que foram as
grandes responsáveis pela ruptura entre os estilos. Trazendo em cena a
preocupação das classes sociais inferiores a monarquia, que reivindicavam um
governo democrata e pedia o fim do sistema escravocrata.
... acelera-se a decadência da economia açucareira; o deslocar-se do
eixo de prestígio para o Sul e os anseios das classes médias urbanas compunham
um quadro novo para a nação, propício ao fermento de ideias liberais,
abolicionistas e republicanas. (BOSI, 2017, p. 173)
Nutridos desses campos ideológicos em
proclamar a República e a aniquilação da escravidão do território brasileiro,
emerge uma grande gama de autores defensores de tais ideais. Os disseminando
por meio de grupos intelectuais, revistas, jornais, periódicos etc., fundados
pelos mesmos, que por diversas vezes alfinetavam a monarquia e seus apoiadores.
Dos quais podemos destacar Aluísio Azevedo e Adolfo Caminha.
A ânsia de rebeldia presente no espirito do
jovem, com a pretensão de desconstruir as idealizações arcaicas sem
comprovações concretas, vem se fazer presente na alma dos escritores
naturalistas. Pois, esses escritores começaram sua carreira em plena juventude,
procurando construir um mundo com percepções futurísticas de formas governamentais
inovadoras e abandonar as imposições da realeza e do clero.
Escritores como o paulista Julio (sic) Ribeiro, o maranhense Aluísio
Azevedo e o cearense Adolfo Caminha entendiam, como Zola, que a política do
romance naturalista só poderia ser republicana. Todos eles eram homens de
imprensa e, como tais, combatiam pelas causas da liberdade e da República nos
jornais das cidades, especialmente no Rio de Janeiro, num trabalho intenso de
construção de um dissenso político, moral e estético que corria paralelo (e de
muitos modos de maneira independente) à construção do republicanismo ligado aos
cafeicultores do oeste paulista. (MENDES e CATHARINA, 2009, p. 115 – 116)
Predominantemente nordestinos, os adeptos
naturalistas vinham da província para tentar levar a vida na corte.
Encontrando, por diversas vezes, dificuldades em se sustentar financeiramente,
fazendo de sua produção literária o meio pelo qual passavam a sobreviver de
forma limitada. Destinando a pouca renda que obtinham para manterem o tom de vida
boêmio. Como discorre os já citados Mendes e Catharina (2009, p. 119 – 120):
Os boêmios garantiam a sobrevivência com um trabalho irregular nos
jornais do Rio. A renda, magra e intermitente, mal dava para pagar o aluguel.
(...)
Embora não fizessem parte dos desvalidos e excluídos da sociedade
carioca do final do século XIX, os boêmios (naturalistas, parnasianos ou de
outras denominações) às vezes compartilhavam com eles a fome e a penúria,
trocando versos, crônicas e artigos de fundo por comida.
No Brasil de 1880, pluralizado etnicamente, os
romancistas, contistas, cronistas etc., do período Real-naturalista, construíam
um panorama da realidade social brasileira mostrada por meio de um olhar
periférico, ou seja, “viabilizou o ingresso na literatura de uma população
considerada (...) indigna de representação social e literária: negros, pobres,
mulatos, capoeiras, desocupados, gays e lésbicas. ” (BUENO, 1992 apud MENDES
2008, p. 200).
Com uma narrativa que buscava prestigiar os
oprimidos, retratar as mazelas e patologias humanas, mostrar a veracidade de
fatos comprovados cientificamente através das teorias desenvolvidas por
renomados pesquisadores, e afirmar a ilegalidade do Império, os
real-naturalistas conseguem a atenção da massa populacional e provoca o grupo
clerical, a família real e a alta burguesia. Ganhando a perseguição e crítica
de assíduos defensores de tais instituições.
Essa escrita se mostra adequada à um período
reboliço onde maioria da sociedade procurava se libertar das amarras opressivas
das classes dominantes, buscando almejar a igualdade e maior participação nas
escolhas governamentais. Se tornando uma literatura populacional por tratar de
temas banais do cotidiano, ganhando grande apresso das páginas dos meios de
divulgação ao construir situações escandalosas que envolviam o mundo burguês.
Adolfo
Caminha e Aluísio Azevedo sãos dois grandes exemplos da literatura
Real-naturalista que, ao descortinar o estilo de vida dos prestigiados pelo
sistema político-social das últimas décadas dos anos 1800, revelava que esses
defensores dos ditos “bons costumes” da sociedade também os transgredia e
mantinham ligações um tanto sórdidas.
Na obra A
Normalista (1893), do senhor Caminha, o narrador expõe a relação incestuosa
entre João da Mata e Maria do Carmo, sua afilhada, e acaba a engravidando.
Deixando claro as subversões escandalosas que ocorriam por baixos dos panos da
sociedade provinciana do Ceará. Já em O
Cortiço (1890), de Aluísio, as entrelinhas nos trazem o tema do adultério
na figura de Estela, que traía seu marido o Barão Miranda com um homem bem mais
jovem.
Os romances da trajetória real-naturalista
brasileira se apresentam como uma produção ligada à representação da classe
marginalizada socialmente. Com a autoria de figuras nordestinas que, mesmo após
a desvalorização da região, com a transição da produção agrícola voltada para o
sul do país, conseguiram feitios marcantes em suas terras natais e se
entretiveram a se aventurarem pela corte para proliferarem suas ideias no ponto
central da sociedade para onde todas as coisas convergiam.
O romance naturalista brasileiro, que também vem do nordeste, do mesmo
modo se apresenta como um romance sem Deus. O romance naturalista era então a
ficção de um grupo emergente no país: aqueles que não acreditavam em Deus,
aqueles que achavam a monarquia e o imperador ilegítimos, aqueles que não eram
da Corte, aqueles que tinham que trabalhar para viver. (MENDES, 2008, p. 201)
Como Mendes (2008) afirma, os romancistas
real-naturalistas abdicavam da autoridade religiosa da época, que era
fortemente enraizada na população, e sustentavam seus pensamentos com o
alicerce do cientificismo e da filosofia, que passava a ganhar prestigio e
valorização por todo o mundo. Enfrentando a reprimenda do meio editorial da
época e suas críticas ásperas esses autores conseguiram se firmar como um dos
principais meios revolucionários da época, procurando transgredir com os
valores vigentes do período oitocentista.
Dessa forma o Real-naturalismo rebuliu com os
pilares do Brasil Imperialista, contribuindo para a disseminação dos ideais
republicanos e abolicionistas. É notório que contribuiu para direcionar a nação
ao caminho do pensamento cientifico e filosófico, trazido da Europa, adentrando
o país à uma nova era de liberdade e amplitude democrática.
Para este tópico, acerca dos aspectos da vida
e produção literária de Adolfo Caminha, é seguido como aporte teórico Sânzio de
Azevedo (1999). O qual dedicou uma obra completa unicamente para discorrer
sobre esse autor Real-naturalista do Ceará.
No dia 29 de maio de 1867 nasce na cidade de
Aracati, no Ceará, Adolfo Caminha, que viria se firmar como um dos autores
canonizados da literatura brasileira, em especial do movimento Real-naturalista.
Adolfo, assim como seus irmãos, eram frutos de uma relação avuncular, ou seja,
a união entre tios (as) e sobrinhas (os).
Com a morte de sua mãe, a Dona Maria Firmina
Caminha, Adolfo é mandado para a capital cearense aos cuidados de alguns
parentes. Ao completar 13 anos é enviado junto com seu irmão Abdon para o Rio
de Janeiro, onde passa a ser responsabilidade de Álvaro Caminha, que
compartilhava laços parentescos peculiares com os meninos, pois era tio pelo
lado materno e primo pelo lado paterno.
A sua formação educacional de cunho militar
adquirida na Escola da Marinha marcaria sua vida pessoal e profissional. Uma
vez que, o cotidiano abordo de embarcações e o árduo treinamento das normas
vigentes da Marinha Brasileira Imperial, rodeiam grande parte de suas obras e
tematiza o seu romance de maior sucesso, Bom-Crioulo
(1895).
Segundo Azevedo (1999), Adolfo Caminha era um
aluno de temperamento difícil, preferindo os estudos a companhia dos amigos. E
desde cedo demostrava apoio a Abolição da Escravatura e a República, como é
percebido no trecho:
Ainda como aluno da Escola de Marinha, em junho de 1885 – e não em
1884, como registram Sabóia Ribeiro e Lúcia Miguel-Pereira -, numa sessão
solene em homenagem a Victor Hugo, falecido um mês antes, Adolfo Caminha,
representando a Fênix Literária, faz um discurso na Escola, na presença dos
colegas, de pessoas da sociedade carioca, do Diretor, Almirante Fortunato
Foster Vidal, e até do Imperador D. Pedro II. É então que, ao lamentar o
desaparecimento do grande poeta e romancista francês, exclama, a certa altura:
“Ah, não poder ele assistir à nossa marcha triunfal para a Abolição e a República!
” (AZEVEDO, 1999, p. 22)
A referida Fênix
Literária era um grupo cultural da Escola da Marinha, que elaborava uma
revista de mesmo nome, para a publicação de textos de autoria dos alunos. É
nessa revista que Adolfo começa a escrever seus primeiros textos. No mesmo ano
do discurso a favor da Abolição que Caminha pronunciou na presença do próprio
D. Pedro II, Adolfo revolta-se contra o castigo da chibata, que vigorava em
toda a Marinha da época, chegando a produzir um manifesto publicado em um
jornal de grande amplitude, o Gazeta de
Notícias. Causando grande desconforto no diretor da escola, que o ameaçou
de expulsão, porém sem realizar tal punição.
Em 1887 são concebidos ao público seus
primeiros livros nomeados Vôos Incertos
(conjunto de poesias) e Judite e Lágrimas
de Um Crente (novela romântica). São livros raríssimos, que se perderam no
decorrer do tempo e nunca chegaram a ser reeditados para a contemporaneidade.
Sobre a coletânea de poesias reunidas em Vôos
Incertos, Azevedo (1999, p.28) opina o seguinte:
O problema é que Adolfo Caminha, cuja verdadeira vocação seria o
romance, se nos versos que ainda haveria de compor, na década de 1890, jamais
se alçaria à condição de poeta apreciável, muito menos nesses poemas da
juventude.
As produções poéticas de Adolfo, tanto da fase
jovem como da adulta, nunca conseguiram firmar o nome do autor no meio
literário da poesia. Em Judite e Lágrimas
de um Crente são narrados dois contos distintos. Judite discorre sobre uma jovem que é forçada pelo seu irmão, de
nome Alberto, a se casar com um comendador, que já se encontra na fase da
velhice. Certo dia, o velho comendador é induzido a sair de casa para resolver
um conflito entre seus escravos. Nesse interim, Alberto convida seu amigo
Edmundo à casa, pelo qual Judite acaba se apaixonando perdidamente. Ao
regressar para casa, o comendador encontra a moça aos beijos com Edmundo e
dispara o revolver, Judite se estatela no chão e Edmundo consegue fugir. Judite
sobrevive, sendo expulsa da casa junto com Alberto, e passam a viver com um
padre. Já Edmundo embarca para os Estados Unidos.
Lágrimas de um Crente vem abordar a história de um homem que no hospital começa a discorrer
sobre sua infância, ao ser adotado por uma prostitua, a qual amou como uma
verdadeira mãe. Relatando sua decepção amorosa por uma moça, filha de família
rica, da qual é impedido a manter relações por ser um rapaz desprovido de
riquezas. Triste, para mostrar seu valor, parte para a Guerra do Paraguai, da
qual, ao voltar todo dilacerado, é notificado de que seu amor havia se tornado
freira e falecido.
Com 21 anos, Adolfo é promovido a segundo
tenente, e em 1888, ao alegar motivos de saúde perante a Marinha, consegue uma
transferência para Fortaleza. Ao chegar à capital cearense começa a participar,
junto com alguns amigos, do Centro Republicano. Nesse momento, Adolfo começa a
manter relações com uma mulher de um oficial do exército, provocando polêmica
entre militares e civis, que viria complicar sua vida. Sendo convocado uma vez
a prestar presença ao Ministro da Marinha, no tempo da monarquia, e outra vez
perante o novo Ministro da Marinha, já na República, que pretendiam separar
Caminha de sua amada, que atendia pelo nome de Isabel Jataí de Paula Barros.
Enfurecido pelas medidas implementadas por seus superiores, Adolfo Caminha pede
demissão da Marinha e é designado como manuseador da Tesouraria da Fazenda em
Fortaleza.
GUILHERME Studart, ao tratar do ano de 1891 no tocante ao jornalismo,
diz, a respeito de um periódico que circulou nesse ano: “Revista Moderna” –
publicação mensal, fundada em Fortaleza no mês de janeiro por Adolfo Caminha.
(AZEVEDO, 1999, p. 39)
Caminha ao fundar esse periódico pretendia
criticar obras de caráter literário no Ceará, pois ele jugava que ainda não
existia uma crítica especializada em determinados assuntos. Essa revista foi
palco de uma acalorada polêmica entre Adolfo e Antônio Sales, que ao redigir
artigos criticando o livro de poesias de Sales, intitulado Versos Diversos, rendeu uma série de repostas e trepicas entre
ambos os autores.
Algum tempo depois, mais precisamente um ano
após essa polêmica, Antônio Sales convida Caminha para fazer parte de um grupo
relacionado aos temas das Letras e das Artes, batizado como Padaria Espiritual. Curiosamente, os
aspectos que regiam a organização desta instituição seriam concebidos por seus idealizadores
como as funções trabalhistas exercidas dentro de uma padaria por cada um de
seus componentes, assim opina Sânzio de Azevedo:
[...] a Padaria Espiritual se destinava, como é dito no seu Programa
de Instalação, a “fornecer pão de espírito aos sócios em particular e aos povos
em geral”; os sócios eram chamados de “padeiros”, sendo “amassadores” os demais
componentes da sociedade. As sessões se chamavam “fornadas” e se realizavam
naturalmente no “Forno”. O jornal dessa alegre “sociedade de rapazes de Letras
e Artes” seria batizado, coerentemente, de O Pão. (AZEVEDO, 1999, p. 59)
Adolfo foi expulso em definitivo dessa
organização ao falar que o grupo teria se desgastado e consequentemente se
tornado decadente.
Decidido a voltar de vez para o Rio de Janeiro
no ano de 1892, Caminha ainda é um funcionário público da República, e decide
nortear sua vida através da literatura. Fazendo sua grande estreia no pilar
romanesco da literatura brasileira ao publicar em 1893 o seu primeiro romance A Normalista. Que chamaria atenção dos
grandes críticos literário da época, onde muitos viram uma retratação indecente
da cidade de Fortaleza. Caminha se inteira totalmente do Naturalismo para
abordar os aspectos considerados imorais contidos na obra. Ao ser feita sua leitura
notamos como a estética naturalista contribui para a exposição aprofundada dos
costumes tidos como “vulgares” dos personagens. A exemplo do principal desfecho
da trama que é a relação quase que incestuosa, que resulta em uma gravidez,
entre os personagens João da Mata e Maria do Carmo, esta última sendo afilhada
de João da Mata.
Escrito anteriormente que A Normalista, entretanto editado no Rio de Janeiro somente em 1894
como afirma Azevedo (1999), No País dos
Ianques é um relato da viagem que Adolfo Caminha realizou abordo do
cruzador Almirante Barroso em 1886. O autor, nessa obra quase como um diário de
bordo, objetiva-se em narrar os acontecimentos e as localidades visitadas
durante o percurso da viagem que teria como ponto final os Estados Unidos.
Como já foi visto anteriormente, Adolfo se
aventurou na poesia, no conto e estreado no romance. Todavia, cria uma nova
polêmica ao adentrar mais uma vez na crítica, agora com um livro titulado Cartas Literárias, publicado em 1895.
Que reunia artigos do autor comentando favoravelmente ou contraditoriamente
acerca de outros escritores. Dentre as principais críticas, destaca-se a
opinião de Caminha sobre os adeptos do Simbolismo, o taxando como um movimento
estranho e vago.
No mesmo ano de Cartas Literárias, Caminha traz à tona a obra que se consagraria
como a sua principal e uma das mais importantes do movimento Real-naturalista,
nomeada Bom-Crioulo. Rodeada de
polêmicas e alvo de críticas maliciosas, foi etiquetada como literatura
“nojenta” e pornográfica, por ter como tema norteador a homoafetividade entre
dois seres masculinos. Embora o contexto de práticas homoafetivas já tinham
sido tratadas anteriormente em obras brasileiras, dentre os principais exemplos
vale citar O Cortiço (1890), de
Aluísio Azevedo, e O Ateneu (1888), de
Raul Pompeia. Um dos motivos para maior tom de alarde da sociedade recém
pós-abolicionista da época, foi mostrar uma relação inter-racial, apresentando
um negro no papel de ativo, que tinha como objeto de desejo um jovem branco,
que exercia o lugar de passivo.
Com a má recepção que o romance recebeu,
através das críticas feitas por renomadas personalidades da época, recaiu sobre
o autor a afirmação de que ele compartilhava das predileções sexuais dos
personagens principais, Amaro e Aleixo. E que também nos reporta a hipótese de
que Adolfo estava narrando fatos presenciados por ele no seu período de
trabalho na Marinha Imperialista pois, os dois personagens começam a manter a
relação homoafetiva no ambiente de uma corveta em alto mar.
Um ano após a publicação de Bom-Crioulo, começa a circular no Rio de
Janeiro a Revista Moderna, com
direção exclusiva de Adolfo Caminha. A revista durou por um curto período,
mantendo-se ativa por nove meses. Em 1897, nessa mesma cidade, no primeiro dia
do mês de janeiro, vem a falecer esse ilustre escritor com apenas 29 anos de
idade, acometido pela tuberculose, doença que contagiou e levou à morte vários
outros nomes da literatura, não só brasileira como mundial.
Depois de sua morte, começa a circular seu último
romance Tentação, mesmo sendo datado
de 1896 e não 1897. Nessa última obra, como diversos estudiosos opinam, o autor
deixa o Naturalismo um pouco de lado, e investe no Realismo. A narrativa
circula em torno de um casal, Evaristo de Holanda e Adelaide, que vivem em
Coqueiros na província e sentem o desejo de começarem uma nova vida na Corte.
Por intermédio de um amigo de Evaristo, o então Luís Furtado, eles se mudam
para a capital do então Império de D. Pedro II, passando a viver na casa de Luís.
Decorrendo a história, Evaristo arranja um
emprego, e Adelaide passa o tempo com a esposa de Luís Furtado, ainda na casa
deste último. Evaristo sente apatia pela monarquia, e começa a frequentar um
grupo pró-república (Seria um traço característico do próprio autor? Que também
era pré-republicano?). Ambos os casais, Evaristo Holanda e Adelaide; e Luís
Furtado e D. Branca, vivem juntos durante um bom tempo. Determinado dia, ao
irem passear pelo Jardim Botânico, Luís Furtado e Adelaide ficam para trás, e se
beijam, vale lembrar que Luís Furtado já vinha seduzindo Adelaide desde o
momento que esta passa a morar em sua casa. O romance termina com Adelaide
sentindo alguns males e assim, seu marido, que não tem conhecimento do
ocorrido, decide retornar à Província.
Adolfo Caminha teve uma vida curta, obras que
não receberam a devida atenção na época de publicação e críticas fervorosas,
tanto sobre sua vida pessoal como profissional. Com um caráter bem rebelde,
para os padrões de seu tempo, posicionou-se contra as diretrizes da Marinha e
da Monarquia. Inúmeras de suas produções, que variavam entre contos, poesias e
romances nunca chegaram aos nossos dias, se perdendo no infinito túnel do
tempo. Mesmo assim, conseguiu se consagrar como um dos grandes nomes da nossa
literatura. E hoje, suas obras acessíveis, configuram como um valoroso objeto
de estudo.
Neste
terceiro capítulo, buscamos refletir sobre o erotismo humano como um todo, que
abarca as mais diversas predileções eróticas. Mostrando o aderir de consciência
do instinto erótico do ser humano, que conseguiu distinguir o lado prazeroso da
relação sexual, do lado unicamente reprodutor. Em 4.1 O erotismo segundo a ótica Batailliana, é seguido os
pressupostos teóricos de Georges Bataille sobre a erotização humana,
transcorrendo desde sua evolução do passado animal da espécie, onde o sexo
ocorria de forma livre, à construção dos interditos que levaram a repreensão da
sexualidade. No item 4.2 Sobre o erotismo sagrado,
discorremos sobre as convulsões da carne, que se configura como das
características marcantes do erotismo, e a interligação do sacrifício das
oferendas sagradas ao momento de cópula sexual do Homem. Já no tópico 4.3 O Homoerotismo/Homoafetividade,
discutimos os termos inovadores que vieram desvincular a carga pejorativa
embutida na palavra homossexualismo, para se referir às relações entre
indivíduos do mesmo sexo. Mostrando o caráter erótico e afetivo envolvidos na
relação homo e sua construção sociocultural como uma das mais variadas formas
de erotização humana.
A questão do jogo erótico que enlaça as
pessoas da vida real ou personagens fictícios da literatura, cinematografia ou
qualquer outro tipo de meio artístico, vem quebrando fronteiras, ganhando
espaço entre os estudos acadêmicos que envolvem tal tema, considerado por
diversos, como algo polêmico.
Bataille em sua célebre obra O Erotismo vem conceber esse aspecto
presente em todos os seres humanos como uma manifestação cultural, variável no
tempo e no espaço. Abordando como esse jogo de sensações passa a ganhar
diversos significados nos mais diversos momentos, seja ele sagrado, corporal ou
do coração. Mostrando também sua evolução desde os remotos tempos do homem das
cavernas ao período que o homem ganhou consciência de si e do que o circunda
como um todo.
Vários estudiosos comentam que o homem
primitivo/animal deixou sua animalidade de lado no momento que começou a
fabricar ferramentas que garantiam sua subsistência, evoluindo com o decorrer
do tempo, para realizar finalidades simples. E logicamente atribuíram o
contexto do trabalho, onde os utensílios produzidos por esses homens, facilitavam
as atividades rotineiras atribuídas a eles. Bataille nos revela que ao idealizar
o trabalho, ao possuir consciência da morte e de sua sexualidade, o homem
forjou os chamados interditos, em uma linguagem mais simples, proibições. “Esses
interditos recaíram essencialmente – e certamente – sobre a atitude para com os
mortos. É provável que tenham tocado ao mesmo tempo – ou à mesma época – a
atividade sexual. ” (BATAILLE, 2017, p. 54).
O referido autor, explica que o erotismo
humano decorreu desse momento de transição de animalidade humana para o ser
humano consciente. Pois, ele emergiu do ambiente animalesco com a “sexualidade
envergonhada”, ou seja, começando a cobrir suas genitálias. Estabelecendo um
iniciar para os interditos no instante em que os homens primitivos passaram a
tratar seus mortos de modo particular, os atribuindo interdições, ao começar a
sepulta-los como forma de protege-los da violência dilaceradora dos animais
carniceiros e da violação por outros humanos, que figura como um interdito para
com esses mortos. No caso, passa a ocorrer a proibição em violar o corpo do
morto.
Ao estabelecer a prática trabalhista, que veio
se configurar como forma de interdito contra a violência humana que predominava
no tempo livre dos homes, onde estes passariam a gastar seu tempo trabalhando
para conseguir alimentos e abrigos, deixando de adquirir esses recursos através
da força física imposta a outros.
Nesse momento, o homem passou a reprimir sua
sexualidade, concretizando o interdito da liberdade sexual. Tendo em vista que
a total autonomia de uma vida sexual desprovida de reprimendas, onde a prática
poderia ser realizada a qualquer momento e lugar, passaria a atrapalhar sua
vida trabalhista. Assim, os humanos começaram a procurar por momentos e locais
propícios para acasalarem.
Mais tarde, no tempo de dominação da religião
cristã, como sabemos, a prática sexual humana, sem a pura finalidade de
reprodução, foi proibida pelo cristianismo. E como consequência, inúmeros
casais tiveram complicações em sua união conjugal, uma vez que o prazer de um
ou de outro não era levado em questão. Acarretando, muitas vezes, na satisfação
sexual de apenas um indivíduo, que geralmente acabava sendo o homem. Que via
sua esposa somente como fonte geradora de seus filhos, e por ser o ativo da
relação, daria por encerrado o coito sexual, assim que derramasse seu sêmen,
sem se preocupar com a satisfação prazerosa da mulher.
Mas, de qualquer maneira que se a tome, a sexualidade humana só é
admitida dentro de limites para além dos quais ela é interdita. Há, finalmente,
em todos os lugares, um movimento da sexualidade em que a sordidez entra em
jogo. A partir de então, não se trata de sexualidade benéfica “desejada por
Deus”, mas sim de maldição e de morte. (BTAILLE, 2017, p. 257).
Para punir as pessoas que se desviavam do
“caminho virtuoso” da sexualidade “desejada por Deus”, aquela que tem como
único objetivo a reprodução, o cristianismo instaurou uma série de interditos.
Esses interditos que normatizavam a atividade sexual, detalhava como e com quem
era permitido manter relações sexuais. Logo, práticas homoafetivas, monogamia,
orgias e sexo antes ou fora do casamento foram rigorosamente proibidas. Sendo
uma questão religiosa, essas interdições serviram para a religião cristã punir
diversas religiões que mantinham costumes diferentes. Assim, esse sexo normatizado,
é concebido como o dos animais, que copulam unicamente para a sustentação da
espécie.
O erotismo em seu conjunto é infração à regra dos interditos: é uma
atividade humana. Mas ainda que ele comece onde termina o animal, a animalidade
não deixa de ser seu fundamento. (BATAILLE, 2017, p. 118).
O homem sentiu fascinação ao transgredir os
interditos de cunho sexual, passando a sentir nessa transgressão mais prazer
por estar infligindo algo altamente proibido. Isso nos leva a imaginar a
possível origem para nossa tendência por relacionamentos proibidos. Também
evidencia que somente pela transgressão, principalmente quando essas práticas
concebidas como sórdidas começaram a ser realizadas mais explicitamente, certos
tabus caíram por água a baixo.
O ser humano, como o único animal consciente
que conseguiu fazer da sua sexualidade algo erótico, ligou o erotismo a
consciência do ser que deseja satisfazer sua necessidade voluptuosa de chegar
ao orgasmo, necessidade que não está presente nos animais inconscientes. Em seu
conceito mais puro, os indivíduos conscientes em uma rede erótica, pretendem
atingir o prazer de ambas as partes por intermédio da relação sexual. Nesse
coito sexual, que conscientemente não visa a reprodução de uma espécie, os
pilares que a regem estão presentes na crise do ser, que correspondem a
continuidade e descontinuidade.
A continuidade e a descontinuidade sendo dois
dos pilares que regem o erotismo, encontrados mais precisamente na crise do
ser, correspondem da seguinte maneira: o ser descontinuo é aquele que se
encontra sozinho, e o ser continuo é a fusão resultante entre dois seres
descontínuos. Para exemplificar imaginemos nas células reprodutoras, o
espermatozoide e o óvulo, sozinhos eles são descontínuos, todavia, ao se fundirem,
eles deixam de existir e dão origem a algo novo, pois estarão dando
continuidade a uma nova forma de vida.
Entretanto, no que tange à uma relação sexual
que não tem como finalidade a reprodução da espécie ou sua continuidade, tendo
como puro objetivo a sensação de prazer, os seres descontínuos tornam-se
contínuos no momento de cópula sexual, na trama de possuir e ser possuído.
Passando a ocorrer a dissolução do eu, que diz respeito a um único indivíduo se
juntar sexualmente com outro, para que assim deixem de serem partes
independentes e individuais, se tornando uma única parte envolvida em uma
sensação propensa a atingir o gozo sexual recíproco. E ao se separarem do corpo
um do outro, tonam-se novamente descontínuos.
Segundo Bataille (2017, p. 41) “Toda a
operação erótica tem por princípio uma destruição da estrutura do ser fechado
que é, no estado normal, um parceiro do jogo. ” Antes de se conectarem um ao
outro sexualmente, o desnudamento é a porta primordial que se abre para esse
momento de fusão, onde o ato de tirar a roupa seria como está disposto a
mostrar seu eu interior a esse alguém para em seguida ser preenchido por ele,
deixando de ser um ser fechado para se abrir ao outro.
O ato em si de possuir o outro se concretiza
com um certo grau de violência. Uma violência ligada a convulsão das carnes,
favorecida pela busca do prazer que exclui a personalidade sã dos indivíduos,
dando lugar a uma nova que procura incontrolavelmente pelo gozo prazeroso. Essa
violência prazerosa associada a convulsão das carnes provoca uma desordem, que
por sua vez é correlacionada com a violência da morte. Salientando que
experimentar do desfalecimento recorrente do chegar ao clímax do coito sexual,
é relativamente igual a experimentar do último suspiro de vida. Bataille define
esse conceito da seguinte forma:
A atividade erótica não tem sempre abertamente esse aspecto nefasto,
não é sempre essa fissura; mas,
profundamente, secretamente, essa fissura, sendo aquilo que é próprio à
sensualidade humana, é a fonte do prazer. O que, na apreensão da morte, retira
o fôlego, de alguma maneira, no momento supremo, deve cortar a respiração.
(BATAILLE, 2017, p. 129).
Essa fissura se representa justamente o
momento de corte de fôlego da morte e o do chegar ao clímax do gozo sexual. Daí
o paradoxo entre morte e erotismo, que corresponde ao cessar da respiração no
auge dos dois momentos. E nos permite fazer a hipótese, que em nossos devaneios
eróticos, toda vez que atingimos o deleite prazeroso do ato sexual,
experimentamos um pouco da morte. Pois, essa fonte prazerosa decorreria do
cessar o fôlego no momento voluptuoso do gozo.
Entretanto, como se apresenta a estrutura de
um ser que se propõe ou é alvo do desejo de outro? Nas regras que tangem o
erotismo, o objeto de desejo ou objeto desejável são termos que nomeiam esse
ser, que se caracteriza como o condutor do nascer de uma ação erótica. Pois,
sem esse objeto, o erotismo não existiria. Ao falar no objeto de desejo,
ligeiramente nos induzimos a pensar que esse ser é dotado de uma beleza
excedente. Todavia, o que seria a beleza para você e um ele? Bataille concebe a
beleza como algo subjetivo, variável de um para outro. O que pode ser bonito
para você, pode ser feio para um outro e vice e versa.
Os objetos de desejo procedem como “objeto
desejável” e “objeto que se propõe ao desejo de outro”. O objeto desejável
seria aquele que cativou a atenção e suscitou o desejo de alguém sem se exibir
explicitamente, conseguindo chamar a atenção desse outro sem o uso de
ornamentos que o deixaria mais desejável. Já o objeto que se propõe ao desejo é
caracterizado pelo uso desses ornamentos para torna-se mais desejável. Desse
modo, tentando minuciosamente a seduzir o outro, transformando-se no objeto de
desejo deste.
[...] a nudez de um ser definido, mesmo se essa nudez anuncia o
instante em que seu orgulho dará lugar ao monturo indistinto da convulsão
erótica. Inicialmente, dessa nudez, é a beleza possível e o charme individual
que se revelam. É, numa palavra, a diferença objetiva, o valor de um objeto comparável
a outro. (BATAILLE, 2017, p. 155)
Mesmo com o uso de adereços para despertar o
desejo em alguém, o que prevalece em quentão é o corpo. Ao entregar-se a nudez,
despojando-se desses artigos de beleza utilizados, restará somente o corpo, que
agora passa a ser o centro do desejo, fascinando o outro com o seu valor
subjetivo que o difere dos demais como objeto de desejo desse outro.
Despertado o desejo do outro, esse objeto
passa ser alvo de investidas para ser conquistado pelo sujeito desejante, ou
seja, aquele que deseja. E caso as investidas não surtam efeito, acontecendo a
renegação do sujeito desejante pelo objeto desejo, pode acarretar em uma paixão
violenta, que Bataille nomeia como “erotismo do coração”.
Geralmente, no erotismo do coração ocorre uma
paixão tão ardente, tão excessiva, que a renegação pelo indivíduo gerador dessa
paixão, desperta no outro uma tristeza que pode virar ódio. Ódio pelo fato de
não poder possuir seu ser amado e preferir mata-lo do que perde-lo para outro.
“Se o amante não pode possuir o ser amado, pensa em matá-lo: muitas vezes preferiria
mata-lo a perde-lo. Deseja em outros casos sua própria morte” (BATAILLE, 2017).
Desenvolvido esses conceitos que englobam o
erotismo em si, concebido como erotismo do corpo, que corresponde a prática
sexual dos seres envolvidos no deleito sexual, e o erotismo do coração,
comumente relacionado a paixão avassaladora. É cabível fazer algumas
considerações sobre um outro determinado tipo de erotismo que está ligado ao
mundo religioso ou sagrado. Que se estabelece por uma inter-relação entre o
mundo do divino e do nefasto, com as características que regem o erotismo em si
como um todo.
O
erotismo como manifestação sagrada nos reporta ao sacrifício religioso, que o
assassinato sendo um interdito/proibição severa, encontrava nesse meio uma
brecha pela qual era permitida. Comumente as oferendas para o rito sacrifical
eram animais, não tão obstante, os humanos já foram. Esses seres escolhidos
para o rito eram ovacionados, pois, ao ser selecionado, a população os adoravam
como o objeto escolhido por um deus a uma causa maior.
No
momento de destruição da vida dessa vítima, enquanto os demais estão envoltos
nessa cerimônia, há a revelação do sagrado. Mostrado no instante em que a
oferenda deixa a vida terrena para adentrar ao mundo divino. Nesse momento ela
deixa para trás sua descontinuidade, representada pela sua existência mortal no
mundo dos humanos, para adentrar a continuidade imortal do mundo divino.
O sagrado é justamente a
continuidade do ser revelada aos que fixam sua atenção, num rito solene, sobre
a morte de um ser descontínuo. Há, em decorrência da morte violenta, ruptura da
descontinuidade de um ser: o que
subsiste e que, no silêncio que cai, experimentam espíritos ansiosos, é a
continuidade do ser, a que a vítima é devolvida. (BATAILLE, 2017, p. 45).
Estabelecendo
essa conexão com os conceitos de continuidade e descontinuidade do erotismo de
cunho sexual, remetendo a relação existente nas definições de deixar de ser
descontinuo pela convulsão das carnes, que ocorre no ritual sacrifical pela
violência infringida ao destruir o corpo da vítima, e a consequência dessa
convulsão das carnes da vítima deixando seu corpo terreno para trás, resulta no
adentrar do espirito da oferenda ao mundo divino, conquistando a continuidade
do ser no meio eterno.
As
orgias possuem sua ramificação originária dentro desse meio do erotismo
sagrado, que ao serem realizadas, eram atribuídas ou oferecidas a divindades.
Acarretando a rotulação, por intermédio do poderio da religião cristã, como
cultos a Satã e bruxaria. Seu percurso parte de duas perspectivas, a dos Sabás
(ligados aos rituais considerados pagãos) e de festivais agrários (ligados aos
povos arcaicos).
Nos
festivais agrários, a orgia, se configura como um estilo de dança pelos
movimentos exercidos pelo corpo, seria como uma grande festa organizada pelos
camponeses de determinado local. Julgando que essa “dança” que contagiava as
pessoas com seus gracejos e seus movimentos, e as levava ao ato sexual que
simboliza o crescimento da espécie humana, também era capaz de enlaçar a
natureza e incentiva-la ao crescimento tal qual o correlacionado a reprodução
humana.
Ao
serem demonizadas pela igreja cristã e concebidas como bruxaria, essas orgias
passaram ser chamadas de Sabás. O foco no prazer mútuo de um amontoado de
pessoas, acarretou por uma reprimenda maior do meio eclesiástico, lembrando que
a igreja se opunha fortemente a qualquer manifestação erótica. Assim, foram
designados, pelo meio religioso, juízes que se encarregaram de investigar essas
práticas e punir seus envolvidos.
No que
tange o erotismo em si, as orgias mantêm seu teor erótico por apresentarem a
perca da consciência sã do indivíduo para chegar ao momento de volúpia do
clímax sexual, porém em um excesso demasiado acarretando no envolvimento de
várias pessoas, que consequentemente leva a uma violência exacerbada. Onde seu contágio explosivo ameaça
indistintamente todas as possibilidades de vida (BATAILLE, 2017).
Os
conceitos de erotismo sagrado e erotismo sexual ou do corpo, juntos
complementam-se para entendermos como essa aptidão exclusiva da espécie humana
se transforma no tempo e no espaço. Permitindo suas diversas interpretações em
cada aspecto cultural humano existente.
Em uma
época um tanto obscura da espécie humana, a relação entre pessoas do mesmo
sexo, como visto anteriormente, foi alcunhada como perversão e crime hediondo
contra as doutrinas sagradas do cristianismo, passando a ser nomeada, por volta
do século XIX, como homossexualismo. Fundando cientificamente a caricatura do
ser homossexual, e este passa a receber toda uma carga psicológica que o
concluía como indivíduo portador de traços doentios que o desviava da
heterossexualidade.
Com o caminhar da carruagem do tempo, e devido
as inúmeras conquistas almejadas por esse grupo marginalizado na sociedade
global, as expressões “homossexualismo” e “homossexual” estão tendendo a cair
em desuso. Sobretudo, pelos estudos acadêmicos inovadores que enlaçam esses
temas, começando os nomear como “relações homoafetivas”, “homoafetividade” ou
ainda os revolucionários termos “homoerotismo” e “homoerótico”.
Para Costa (1992), “Homoerotismo é um termo
usado por Sandor Ferenczi, psicanalista húngaro, contemporâneo de Freud, para
discutir o tema da homossexualidade. ” O autor discorre que o termo
“homoerotismo” é preferível a homossexualidade, ao conseguir ganhar um embarcamento
maior, desrotulando toda a carga pejorativa, desenvolvida na sociedade
oitocentista, embutida na expressão homossexualidade, mostrando a relação
homoafetiva como algo natural da espécie humana. Principalmente quando visa
estudos literários de obras homoeróticas, onde o erotismo circundante no
interior da obra, muitas vezes, se configura como recurso estético.
Já Lopes (2002), prefere designar a relação
homo, como “homoafetividade”, o relacionando não somente com a relação sexual
entre pessoas do mesmo sexo, mas com as relações de amizade existentes dentro
das entidades homossociais, ou seja, organizações inteiramente compostas por
indivíduos de um único sexo. Os interligando da seguinte maneira:
Uma política da homoafetividade busca alianças para desconstruir
espaços de homosociabilidade homofobicos ou heterofóbicos, ao mesmo tempo que
pensa, num mesmo espaço, as diversas relações entre homens (ou mulheres), como
entre pai e filho, entre irmãos, entre amigos, entre amantes. (LOPES, 2002,
p.38).
Ao discutir sobre homoafetividade, não estamos
explanando unicamente a prática do sexo “gay”, mas analisando um campo bem
maior, que enlaça reações afetivas/sentimentais entre pessoas de um mesmo sexo.
E ao ser bem desenvolvido e compreendido, contribui para desconstruir a noção
dominante de que as relações afetivas sem o intuito sexual entre seres humanos
de um mesmo sexo, principalmente o masculino, são inexistentes ou que não
possuem certo grau de sentimentalidade. Algo que sempre foi estruturado pelo conservadorismo
da sociedade patriarcal, de que para ser portador de um “verdadeiro caráter
másculo”, o indivíduo masculino, em hipótese alguma deveria nutrir laços
afetivos com outro.
Todavia, como opina Souza (2010), o termo
homoerotismo também engloba a designação proposta por Lopes, tendo em vista
que, “erotismo” vem do mito grego de Eros, o deus da erotização e do amor. “Eros
é o impulso que leva o homem a unir-se a outra pessoa, não só sexualmente ou
por outras modalidades de amor, mas nele excitando a ânsia do conhecimento,
impelindo apaixonadamente a procurar a união com a verdade”. (MAY, 1978, p. 86 apud SOUZA, 2010, p. 46).
Dentro dessa visão, da figura grega de Eros, a
relação homoerótica não é algo unicamente sexual, podendo ser associada entre
as noções de sentimentalismos que não visam o coito sexual, como a relação
entre amigos, a afetividade mantida entre pai e filho etc. “Provavelmente, uma
eventual rejeição ao termo pode estar associada ao fato de que o erotismo, no
senso comum, é fortemente relacionado a questões sexuais. (SOUZA, 2010, p. 46).
” Assim, o uso dos termos homoafetividade e homoerotismo, neste trabalho, se dá
de forma sinônima. Ambos, podem ser utilizados para se referir a relação sexual
ou afetuosa, que envolvem pessoas de um mesmo sexo.
Localidades homossociais como colégios
internos ou quarteis militares/policiais, mesmo encobertos por uma paisagem
estritamente heterossexual, sempre favoreceram o florescer de relações
homoafetivas. A exemplo, das obras literárias citadas na primeira seção deste
trabalho, Sargento Garcia e O Ateneu. Dentro desses cenários, vemos
o desenvolver de uma relação de homossociabilidade ou no popular “camaradagem”,
que influenciaram a prática de prejulgamentos contra minorias, resultando nos
crimes de ódio, em especial a homofobia.
O indivíduo que se assume total ou
parcialmente homoeróticamente inclinado, a sociedade sempre o taxou de não
possuir masculinidade suficiente para se construir no meio social como
“indenitário de homem”. Mesmo para aqueles que se assumem bissexuais, capazes
de manter atividade sexual com os dois sexos, sempre restou o mesmo olhar
perverso e preconceituoso da maioria das pessoas de não ser merecedor dos
atributos referenciativos masculinos. Explicando o motivo pelo qual inúmeros
sujeitos mantem sua sexualidade reprimida, principalmente nos ambientes
exclusivamente homossociais preconceituosos.
[...] a prática do homoerotismo é incompatível com as relações
heteroeróticas. Ou seja, faz-se coincidir todas as possibilidades de expressão
homoerótica com uma de suas figuras, qual seja, a do homem cuja atração por
outro homem exclui a capacidade de manter relações sexuais com mulheres. Isso
entretanto é uma caricatura. Não é verdade que todos os homens com aptidão para
se relacionar homoeróticamente sejam incapazes de se relacionar sexualmente com
mulheres. (COSTA, 1992, p. 26).
Ao conceber
o homoerotismo, não é desenvolvido unicamente as relações de cunho sexual ou
afetivo entre indivíduos de um mesmo sexo, e sim a habilidade que o ser humano
possui em sentir desejo erótico pelos dois sexos. Pois, temos o conhecimento da
capacidade de um homem ou uma mulher em manter relações bissexuais.
Determinando o desejo erótico como algo transitório de corpo para corpo, e não
possuidor de marcas estereotipadas que designam o que é ser um indivíduo
homoafetivo. E ao criar o interdito na relação sexual entre pessoas do mesmo
sexo, os grupos dominantes das diferentes épocas de nosso passado, objetivavam-se
na repreensão do desejo erótico humano como fonte de prazer.
Ao investigar, historicamente, as relações
homoafetivas, encontramos o modelo de práticas homoeróticas presente na
sociedade grega clássica, atribuído como um estilo particular de educação.
Consistindo em um homem mais velho, nomeado de erastes, em escolher um jovem, conhecido por erômenos, para educa-lo nos moldes vigentes da época, e por
consequência, introduzi-lo na iniciação sexual, como afirma Andrade (2017):
Na Grécia Antiga, era comum um homem adulto ter relações sexuais com
um jovem. Nessa concepção, Dover (2007) apresenta o filósofo grego Sócrates, o
qual era adepto ao amor homossexual e afirmava que o coito anal correspondia a
melhor forma de inspiração. A visão do filósofo quanto ao sexo heterossexual,
era a de que servia apenas para procriar. Para a educação dos jovens
atenienses, esperava-se que os adolescentes aceitassem a amizade e os laços de
amor com homens mais velhos, para absorver suas virtudes e seus conhecimentos
de filosofia. (ANDRADE, 2017, p.59).
Essa relação só era aceita desde que o mais
jovem se relacionasse unicamente com um homem mais rico, detentor de posses
significativas, este exercendo, unicamente o papel de ativo, e o outro de
passivo, ambos membros livres da sociedade grega. Caso o jovem relaciona-se com
um homem pobre, sem poder aquisitivo, a relação decaia aos baixos níveis da
sordidade. Segundo Costa (1992), esse método veio cair em desuso após valores
religiosos pagãos e cristãos crescerem de forma fervorosa e começarem a exercer
forte influência na vida social, passando a reestruturar e rever os valores
anteriormente erguidos.
Diante desses aspectos históricos e teóricos
abordados sobre o homoerotismo e a visão de George Bataille acerca do erotismo
como um movimento de sensação exclusiva da espécie humana, é determinante
concluir que o homoerotismo é apenas mais uma manifestação erótica do desejo
humano. Com a junção de dois seres descontínuos, enlaçados em um devaneio de
sensações, tornando-se contínuos, e ao atingirem o gozo sexual de ambas as
partes, tornem-se novamente descontínuo.
Caracterizando o objeto de desejo como a
escolha marcada pela subjetividade do indivíduo desejante. Nessa perspectiva, é
válido concretizar que a atração sexual por pessoas do mesmo sexo não é algo
degenerado, como afirmaram e ainda afirmam alguns, e sim apenas uma forma de
atração que cada homem ou mulher desenvolve no seu eu interno de se juntar a um
outro. Uma vez que, “o sentido do erotismo é a fusão, a supressão dos limites.
” (Bataille, 2018, p. ..)
No que tange as características que a
sociedade atribui ao ser homoeróticamente inclinado do sexo masculino,
geralmente considerados como efeminizados ou sem portes másculos, é um todo
errado. Visto que, é evidente a existência de pessoas homoafetivas que se
portam inteiramente com as diretrizes estabelecidas pelo meio social cabíveis a
um homem heterossexual. Não tão obstante, nos deparamos com casos particulares
de indivíduos homoeróticamente inclinados que exercem funções trabalhistas
comumente associadas a exclusividade dos dotes masculinos como soldado,
policial, bombeiro, jogador de futebol, etc. E vemos toda uma jornada por onde
essas entidades passam para se manterem firme dentro de um desse ambientes,
normalmente escondendo sua inclinação sexual por medo de ser alvo de
preconceito por parte de seus colegas ou superiores.
Assim, a normatização de uma identidade
masculina estabelecida pelos modos conservadores entra em colapso. Pois ao se
assumir homoeróticamente inclinado, o indivíduo não está abandonando seus
portes físicos ou características masculinas. Apenas afirmando que seu objeto
de desejo sexual é distinto da maioria que se assume heterossexual e que veio
se estabelecer, durante um longo período, como a “normal”. E que a
“normalidade” ou “natural” são aspectos que mudam conforme o tempo e o local,
com é compreensível ao se estudar a prática homoafetiva em diversas culturas e
eras.
Publicado em 1895, o romance Bom-Crioulo, com autoria do cearense
Adolfo Caminha, está inserido no movimento literário Real-naturalista iniciado
em 1880. Ao ser descrita uma relação homoafetiva entre dois homens, chamou
bastante atenção da população e do meio literário crítico da época de
publicação.
Sua narrativa gira entorno dos personagens
Amaro (Bom-Crioulo), Aleixo e Dona Carolina. Com as ações desenvolvendo-se
principalmente nos cenários do alto-mar, abordo de uma corveta, e na pensão de
Dona Carolina, situada na Rua da Misericórdia, subúrbio do Rio de Janeiro,
então capital do Império Brasileiro durante o reinado de D. Pedro II. Além de
outros ambientes secundários, como o hospital onde Amaro chega a ser internado
e flashbacks do seu passado.
A obra inicia-se com a descrição da corveta
cortando o mar, apresentando-se decadente, sem o seu esplendor de outrora.
Agora encontrando-se gasta pelo tempo “singrando águas da pátria, quase lúgubre
na sua marcha vagarosa; ela aí vinha, não já como uma enorme garça branca
flechando a líquida planície, mas lenta, pesada, como se fora um grande morcego
apocalíptico ...” (CAMINHA, 2012, p. 13).
Os marinheiros circulavam livremente pela
embarcação, até que ao toque da trombeta, convidando a todos, o capitão ordena
que tragam os presos para receberem a devida punição, na época, ministrada em
chibatadas. Herculano que, ao ser pego pelo Sant` Ana se masturbando, se
envolvem em uma briga. E Bom-Crioulo que violentou impiedosamente um dos seus
companheiros marinheiros que tinha ofendido o seu estimado Aleixo.
Bom-Crioulo, era um ex-escravo que conseguira
sua alforria ao entrar à Marinha Imperial Brasileira, preferindo as punições
exercidas neste ambiente do que na fazenda onde era servo. Desenvolvia seus
atributos como marinheiro de forma satisfatória, tanto que ganhara o apelido de
Bom-Crioulo, seu verdadeiro nome era Amaro. Entretanto, ficava demasiadamente
violento quando exagerava em bebidas alcoólicas, metendo medo em qualquer um que
o ousasse enfrentar. Principalmente por portar um físico avantajado,
consequência dos trabalhos braçais de sua profissão que exigia o constante
manusear de objetos pesados.
A bordo todos o estimavam como na fortaleza, e a primeira vez que o
viram, nu, uma bela manhã, depois da baldeação, refestelando-se num banho
salgado – foi um clamor! Não havia osso naquele corpo de gigante: o peito largo
e rijo, os braços, o ventre, os quadris, as pernas, formavam um conjunto
respeitável de músculos, dando uma ideia de força física sobre-humana,
dominando a maruja, que sorria boquiaberta diante do negro. Desde então
Bom-Crioulo passou ser considerado um “homem perigoso”. (CAMINHA, 2012, p. 27).
Já Aleixo era um rapaz de 15 anos que entrara
para o corpo naval quando a corveta navegava pelas águas marítimas da província
de Santa Catarina. A partir do momento que Amaro põe os olhos no jovem, começa
a sentir um forte impulso de desejo sexual que nunca sentirá em sua vida por
nenhum outro ser.
Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas
de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa
atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies
impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao
cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho. (CAMINHA, 2012, p. 29).
Desse momento em diante, Amaro passou a
orientar o rapaz nos afazeres do cotidiano da embarcação e a defende-lo das
brincadeiras de mal gosto dos demais companheiro. E após resistir fortemente ao
castigo de 150 chibatas, Aleixo começa a desenvolver traços afetivos por
Bom-Crioulo, se entregando aos poucos aos desejos deste.
Decorrido o primeiro contato sexual entre os
dois, ainda em alto-mar, Amaro planeja uma vida juntos quando aportarem no Rio
de Janeiro. Ao ancorar da corveta, alugam um quartinho na pensão de D.
Carolina, uma portuguesa, velha conhecida de Amaro, situada na Rua da
Misericórdia. Passando a viverem em uma exclusiva relação homoafetiva, ora
realizando os serviços na embarcação, ora em terra firme na pensão. Essa
convivência durou por um ano inteiro, até que Bom-Crioulo é designado a outra
embarcação e passa a se desencontrar com Aleixo, pois os horários de serviço de
ambos não conhecidiam.
Nesse momento, sem a presença de Amaro, D.
Carolina, mesmo tendo conhecimento da relação homoerótica que envolvia os dois
marinheiros, já vinha sentindo um desejo pelo jovem Aleixo, e começa a
seduzi-lo até o conquistar para si.
Era uma esquisitice como qualquer outra: estava cansada de aturar
marmanjos. Queria agora experimentar um meninote, um criançola sem barba, que
lhe fizesse todas as vontades. Nenhuma melhor que Aleixo, cuja beleza
impressionara-a desde a primeira vez que se tinha visto. Aleixo estava mesmo a
calhar: bonito, forte, virgem talvez... (CAMINHA, 2012, p. 60).
Bom-crioulo desolado por não manter mais
contato com seu amado, fica bêbado e se envolve em uma briga, sendo punido
severamente por seu atual comandante e chega a ser mandado ao hospital em decorrência
das mutilações sofrera na punição. Nesse interim, Aleixo passa a viver uma
relação heterossexual, bastante acalorada, com D. Carolina na pensão.
Esquecendo dos sentimentos que dividia com seu antigo companheiro.
No hospital, Amaro, enfermo, começa a entrar
em desespero, imaginando o motivo pelo qual Aleixo não o procurou. Fantasiando
ideias em que o seu amado esteja se relacionando com outras pessoas. Até que,
ao ser surpreendido pelo Herculano, antigo companheiro da primeira embarcação
em que prestara serviço, suas hipóteses acabam por ser confirmadas. Vindo a seu
conhecimento a relação amorosa entre Aleixo e uma determinada mulher.
Conseguindo fugir do hospital durante à noite,
Bom-Crioulo encaminha-se para a pensão que outrora fora seu lar com Aleixo. Lá
acaba por concluir que, a tal amante de seu estimado grumete, era a portuguesa
D. Carolina. Amaro se depara com seu ex-companheiro, “Aleixo ia saindo porta
fora, tranquilamente, apertado na sua roupa azul e branca de marinheiro, a
camisa decotada, a caça justa. ” (CAMINHA, 2012, p. 107). E enraivecido, com
uma profunda dose colérica de ciúmes “... esbarrando com o grumete, fintou-o
pelo braço. ” (CAMINHA, 2012, p. 107).
acabando por assassiná-lo com um corte de navalha no pescoço.
Mesmo
publicado após a abolição da escravatura, Bom-Crioulo (1895), do senhor
Caminha, conseguiu chocar uma população ainda adaptada e sustentada pelos
moldes do capitalismo escravocrata. Tornando-se algo bastante avançado para os
idealismos de tal período.
O
referido romance ao tratar de uma relação de poderio entre branco e negro que
ocorre controversamente, onde Amaro é o ativo da relação e Aleixo o passivo,
aquele submetendo este aos seus caprichos sexuais, vem colaborar junto com o
seu tema homoafetivo/homoerótico para dar status a essa obra real/naturalista
como algo transgressor e revolucionário para o seu tempo de escrita. Logo
Aleixo, branco e de olhos azuis (um verdadeiro exemplo da personalidade
colonizadora europeia da época), é submisso aos caprichos do negro Amaro (o
indivíduo colonizado e marginalizado na sociedade).
Para
afirmar tal recepção é de suma relevância destacar o comentário do crítico José
Veríssimo sobre a obra:
Bom-Crioulo é pior do
que mal livro: é uma ação detestável, literatura à parte. Se fosse um professor
de composição literária, fazendo abstração do tema escolhido, que era
“baixamente repugnante”, aplaudiria certas partes pelo estilo vigoroso e claro,
embora por vezes incorreto, e lhe daria uma nota de progresso. Teria aconselhado
o autor, contudo a destruir o livro porque o sentimento popular atribui às
obras uma semelhança com seu autor. Como quer o Sr. Adolfo Caminha que seja
respeitado e estimado um homem que, sem utilidade alguma social, passou longos
dias ocupados em analisar e discutir a psicologia improvável de nauseantes
crimes contra a natureza e tente depois com isso despertar em nós o arrepio da
curiosidade impura e mórbida? ” (VERÍSSIMO, 1895 apud HOWES, 2005,
p.174).
Nesse
fragmento da crítica feita é perceptível que ela não está apenas direcionada a
obra em si, mas também ao seu escritor. Que por escrever um romance
centralizado em um tema considerado como tabu para os padrões da época, não é
digno de receber o respeito que um verdadeiro escritor. Vemos também que o
crítico se refere à relação homoafetiva dos personagens como “baixamente
repugnante”, enfatizando a não normalidade de tal relação, a classificando como
algo que vai contra o natural do ser humano.
Mesmo
que Caminha não tenha sido condenado à prisão, ele sofreu com a não aceitação e
banalização, não só dessa obra como de outras, no meio literário. Pois,
centrava em revelar os acontecimentos sórdidos que ocorriam nas beiradas da
sociedade, característica não só de suas obras como de todos os outros autores de
sua escola literária. Sem dúvidas, Caminha é um autor de temperamento
desafiador e inovador para as diretrizes presente em sua época.
A questão do erotismo é um jogo de emoções que afeta todos os
indivíduos conscientes de si mesmo e do próximo, como discutido na seção três.
Desestabilizando o estigma da relação sexual vista somente como forma de
reprodução da espécie, onde está passa agora a ser uma das ações para o
indivíduo conseguir almejar o orgasmo voluptuoso e consequentemente o ápice do
prazer sexual.
Em toda situação
erótica há um objeto de desejo, responsável pelo despertar do desejo erótico do
indivíduo desejante, que passa a exercer investidas para o conquistar seu tão
estimado ser desejável. Na referida obra, que aqui se apresenta como objeto de
estudo, notamos o despertar do desejo avassalador de Amaro por Aleixo no
seguinte trecho: (Para finalizar)
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