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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O PALIMPSESTO DE MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO

 



Neste  artigo,  propomos  uma  análise  da  complexidade  narrativa  de Palimpsesto,  com  foco  nas  técnicas  literárias  que  o  autor  emprega  para  criar uma  obra  em  que  o  passado  e  o  presente  coexistem  de  maneira  sobreposta, refletindo a experiência humana de lembrar, esquecer e reescrever suas próprias histórias. O romance é caracterizado por múltiplas camadas de narrativas, em que  cada  personagem  carrega  traumas,  memórias  e  experiências  que  se sobrepõem, como textos parcialmente apagados em um palimpsesto.

Palimpsesto   remete   a   questões   contemporâneas   de   identidade   e memória,    baseado    em    como    nossas    histórias    pessoais    podem    ser ressignificadas ao longo do tempo. Escrito por Moisés Monteiro de Melo Neto, o romance pernambucano traz uma percepção atual de si mesmo. A obra captura a essência da vida pernambucana, refletindo suas tradições, costumes e a luta constante por identidade e reconhecimento. Sob esse viés, este trabalho objetiva compreender, em um primeiro olhar, a  forma  com  que  Moisés  Monteiro  de  Melo  Neto  articula  suas  memórias  e vivências na ficção, ou seja, como sua vida é organizada em relação com seu imaginário,  resultando  numa  criação  estilizada  e  fictícia.  Como  destaca  Iser (2002),  o fictício  e  o  imaginário  caminham  juntos    que um  se  eleva  ao  outro dentro do texto pois, segundo autor, “o fictício possibilita a compreensão de um mundo   reformulado,   e   o   imaginário   permite   que   tal   acontecimento   seja experimentado. ”Por conseguinte, acreditamos que cada indivíduo tenha uma história de vida única. Os fatores que marcam a existência são cruciais para a trajetória e podem ser utilizados como elementos para a construção de uma obra, seja ela fictícia ou não. Salientamos que a pesquisa é de natureza qualitativa, centrada a partir de um estudo bibliográfico. Nessa perspectiva, a obra "Palimpsesto" é esboçada de forma peculiar, onde  várias  esferas  de  histórias  e  memórias  sobrevêm,  gerando  uma  trama complexa e multifacetada. O autor tece uma teia complexa de ficção e realidade, desafiando o leitor a distinguir entre o que é real e o que é imaginário. A narrativa gira em torno dos traços da vida na azucrinada metrópole chamada Recife e dos que vivem nela, dos que vivem com ele próprio, dos que marcaram sua cena, deixando a dúvida do que é ficção e do que foi realidade na década de 1990, onde ecoavam os Movimentos Manguebeat, um dos períodos mais vibrantes e revolucionários   da   cultura   pernambucana,   conhecido   por   sua   mistura   de tradições locais com influência na música, na arte e na identidade da região.

Destacamos,   assim,   que   os   personagens   de   "Palimpsesto"   são abordados  com  profundidade  e  realismo,  cada  um  representando  diferentes aspectos da vida em Pernambuco. O romance destaca temas como a identidade, a memória, a resistência cultural e a transformação social. Na obra, utilizam-se metáforas  e  simbolismos,  para  que  a  obra  tenha  uma  profundidade  literária significativa,  este  romance  não  é  apenas  uma  narrativa  literária,  mas  um documento cultural que celebra a riqueza e adversidade de Pernambuco. Sendo uma leitura indispensável para quem deseja compreender a complexidade e a beleza da vida recifense e do Movimento Mangue, que continua a influenciar e inspirar gerações.2. A Trajetória de  uma Indígena Chamada Michelle  nos Percalços de  um Mundo Urbano Reinventado

A trajetória de Michelle, uma indígena navegando pelos desafios de um mundo  urbano  reinventado,  é  uma  narrativa  que  pode  explorar  temas  de identidade,    resistência    e    adaptação.    Em    um    ambiente    urbano    que constantemente  se  transforma,  Michelle  enfrenta  uma  série  de  percalços  que refletem  tanto  sua  luta  pessoal  quanto  às  questões  sociais  e  culturais  mais amplas  como  a  identidade  e  o  pertencimento.  Michelle,  tendo  raízes  em  uma comunidade indígena, traz consigo uma rica herança cultural que contrasta com as demandas e pressões da vida urbana.

A  sua  busca  por  identidade  e  pertencimento  se  torna  um  tema  central, explorando como ela equilibra suas tradições com a necessidade de se adaptar à nova realidade com muita adaptação e resiliência. O processo de adaptação de  Michelle  ao  mundo  urbano  foi  algo  repleto  de  desafios,  o  preconceito,  a discriminação e a alienação cultural fizeram com que os dias se passassem com dificuldade,  no  entanto,  sua  resiliência  e  a  capacidade  de  superar  esses obstáculos podem serviram de inspiração para que outros pudessem enfrentar situações semelhantes.

A história pode apresentar conflitos internos e externos, onde Michelle se depara com escolhas difíceis que testam seus valores e crenças. A reinvenção

do mundo urbano pode ser um reflexo de sua própria reinvenção pessoal, onde ela  encontra  novas  formas  de se  afirmar  e  prosperar.  Para  Ricoeur,  (2000,  p. 177-194), as “histórias da vida” tornam-se  mais  inteligíveis  quando  lhes  são aplicados modelos narrativos –por exemplo, as intrigas, extraídas da história e da  ficção  (drama  ou  romance).  Para  tanto,  a  sua  autobiografia  destaca  essa afirmação:[...]  parece,  pois,  plausível  ter  como  válida  a  cadeia  seguinte  de asserções:  o  conhecimento  de  si  próprio  é  uma  interpretação -a interpretação de si próprio, por sua vez , encontra na narrativa, entre outros  signos  e símbolos,  uma  mediação  privilegiada  , -esta  última serve-se tanto da história como da ficção, fazendo da história de uma vida  uma  história  fictícia  ou,  se  se  preferir,  uma  ficção  histórica, comparáveis às biografias dos grandes homens em que se mistura a história e a ficção (RICOUER, 2000, p. 2).A narrativa também pode abordar a interação de Michelle com diferentes grupos  sociais  e  culturais,  destacando  como  sua  presença  e  participação contribuem para a diversidade e enriquecimento do ambiente urbano. Isso pode incluir  sua  luta  por  direitos,  justiça  social  e  reconhecimento  cultural.  Michelle pode  encontrar  ou  criar  espaços  de  resistência  e  conexão,  onde  ela  e  outros indivíduos de origens diversas se apoiam mutuamente.

Esses   espaços   podem   ser   físicos,   como   centros   comunitários,   ou simbólicos,  como  movimentos  sociais  que  lutam  por  igualdade  e  inclusão.  A trajetória de Michelle, portanto, não é apenas uma jornada pessoal, mas também uma reflexão sobre as complexidades do mundo contemporâneo e a importância de  manter  viva  a  diversidade  cultural  em  um  ambiente  urbano  em  constante mudança.3. Um Romance de Miscigenação e os Anos 90Dos  aspectos  autobiográficos  no  romance:  Michelle  ser  neta  e  filha  de indígena por parte de pai, também sendo neta e filha de italianos por parte de mãe, causaram um “acidente”, do qual a heroína sobrevive que é inspirado na vida de Jim Morrison, cantor do grupo The Doors, ícone do rock. O assassinato

de  Emerson  é  baseado  num  famoso  crime  que  houve  em  Pernambuco, envolvendo  uma  pessoa  famosa.  Michelle  chega  ao  Recife  no  início  do Manguebeat, objeto de estudo de Moisés, que foi um "mangueboy". O jornalista e  narrador,  Lucas,  foi  inspirado  em  dois  jornalistas  recifenses  do  Jornal  do Commercio.

A parte do livro que se passa no Egito é inspirada na temporada do autor naquele país, onde conheceu a prostituta Saloá, entre 99 e 2000. Também foi assim nas passagens em Jerusalém e em outros países citados na obra. A cena da briga de Michelle com o homem que ela iria se casar, a cena do carro no baile de carnaval, isso tudo, de fato, existiu. Dentre outras passagens do romance que foram tiradas da vida real e racionalizadas por Melo Neto, muitas, inclusive, em Alagoas. Ela navega por um mundo onde a modernidade e as tradições se chocam, enfrentando  discriminação  e  dificuldades  de  acesso  a  serviços  básicos.  Ao mesmo tempo, Michelle busca encontrar seu lugar na cidade, contribuindo para a  diversidade  cultural  e  promovendo  um  diálogo  intercultural.  A  história  de Michelle é um exemplo de resiliência e adaptação, mostrando como é possível preservar  a  identidade  cultural  mesmo  em  meio  às  adversidades  de  um ambiente. “Palimpsesto”,  como  um  romance  de  formação  (ou  Bildungsroman). Segundo  a  professora  Wilma  Patrícia  Maas  (2000),  o  termo  Romance  de Formação indica   dois   conceitos   fundamentais   de   significação   própria.   O substantivo Formação aponta para a necessidade de aperfeiçoamento do jovem burguês e seu amadurecimento como homem que vivencia a cidadania alemã, seria  a  transição  do  mérito  herdado  para  o  mérito  pessoal  adquirido.  Nesse contexto,  a  personagem  (Michelle) segue  a  trajetória  de  desenvolvimento pessoal  e  amadurecimento, enfrentando  os  desafios  de  viver  em  um  mundo urbano  reinventado.  O  conceito  de  romance  de  formação  se  concentra  na evolução  interna  do  personagem  principal,  explorando  as  experiências  que moldam sua identidade, valores e visão de mundo ao longo do tempo. No contexto de “Palimpsesto”, Michelle inicia sua jornada com uma forte conexão   com   suas   raízes   indígenas,   mas   se      confrontada   pelas

complexidades e pressões da vida urbana. O romance captura seu processo de autoconhecimento   e   desenvolvimento   pessoal,   desde   a   luta   inicial   para encontrar seu lugar na cidade até a construção de uma identidade que concilie suas tradições com a modernidade.

Michelle   enfrenta   uma   série   de   desafios,   desde   preconceitos   e discriminação até conflitos internos sobre sua identidade. Esses percalços são essenciais para seu crescimento, forçando-a a confrontar suas próprias crenças e valores. Cada obstáculo superado contribui para sua transformação, ajudando-a a desenvolver resiliência, adaptabilidade e uma compreensão mais profunda de si mesma e do mundo ao seu redor. Influência de Outros Personagens: Em um romance de formação, a interação com outros personagens desempenha um papel  crucial  no  desenvolvimento  do  protagonista.  Em  Palimpsesto,  Michelle encontra  mentores,  amigos  e  adversários  que  influenciam  sua  jornada.  Essas interações  proporcionam  lições  importantes  e  momentos  de  reflexão  que catalisam seu crescimento pessoal.

O   romance   aborda   temas   universais   de   busca   por   identidade, pertencimento  e  a  luta  pela  autoaceitação.  Michelle  representa  a  jornada  de muitos  que  precisam  equilibrar  tradições  culturais  com  as  demandas  de  uma sociedade  em  constante  mudança.  A narrativa  oferece  uma  reflexão  sobre  a importância  da  diversidade  cultural  e  da  inclusão,  destacando  a  riqueza  que diferentes  perspectivas  trazem  para  a  experiência  humana.  Ao  longo  de  sua trajetória, Michelle passa por uma metamorfose que a leva a um estado de maior maturidade e autoconfiança. O final do romance tipicamente reflete um ponto de equilíbrio   e   aceitação,   onde   Michelle   abraça   plenamente   sua   identidade multifacetada  e  encontra  seu  lugar  no  mundo  urbano  sem  perder  suas  raízes indígenas.

“Palimpsesto”, como um romance de formação, oferece uma narrativa rica e  multifacetada  sobre  o  desenvolvimento  pessoal  de  Michelle  em  meio  aos desafios do mundo urbano. Através de sua jornada, o romance explora temas de identidade, resistência e adaptação, proporcionando uma visão profunda sobre as  complexidades  da experiência  indígena  contemporânea e  a  importância  do autoconhecimento e da resiliência.

4. A Bioficção no Contexto Literário Nota-se que a bioficção apresenta-se como uma alternativa de narrativa com  tons  de  expressão  e  provocação  em  diversos  âmbitos  da  Literatura Contemporânea,  situando-se  como  uma  espécie  de  ponte  entre  o  que  é considerado  documental  e  imaginário.  Trata-se,  no  entanto,  de  uma  maneira literária  e  ousada  que,  na  tentativa  de  considerar  figuras  reais,  a  exemplo  de escritores,  grandes  artistas,  líderes  políticos  ou  personagens  históricos,  como protagonistas  de  grandes  ficções,  passa  a  convidar  o  leitor  a  obter  uma perspectiva de pensamento a partir das fronteiras que seria, de fato, documental e  imaginária,  caracterizando  memorização  e  imaginação,  causando,  inclusive, dúvidas  acerca  da  permanência  do  fenômeno  em  diversos  momentos  da construção da narrativa. Na  perspectiva  literária,  podemos  ousar  em  considerar  a  bioficção  um gênero  e,  ao  mesmo  tempo,  um  fenômeno  de  investigação.  Reiteramos  essa dupla  conceituação  a  partir  das  suas  próprias  características.  O  gênero,  ou fenômeno, como queira chamar, caro leitor, situa-se a partir do seu próprio pacto de ambiguidade: do mesmo modo que passa a fazer uma espécie de resgate de aspectos de reconhecimento da trajetória de figuras públicas ou não, oferece um olhar romanceado e subjetivo da sua vida em diferentes sentidos, interpretando, assim, complicações internas que, notavelmente, afastam-se do que se poderia alcançar da história oficial.

A necessidade da bioficção está intrinsicamente relacionada às principais mudanças que vêm ocorrendo no ambiente das narrativas e da representação da   realidade.Em  tempos  em  que    uma  crescente  “desconfiança”  na  objetividade  de  discursos  históricos  e  de  certas  autoridades  documentais,  a Literatura, como um todo, encontrou, na bioficção, uma maneira de questionar, dentre tantas articulações, o que seria considerado estatuto da verdade. É nítido observar  que  a  bioficção  concede  ao  escritor,  poeta  e  romancista,  uma determinada   licença   poética   no   ato   de   imaginar   aquilo   que   não   está documentado, assim como o direto de revisitar o que, inclusive, já foi registrado e/oudocumentado, mas sob novas perspectivas.

A  ressignificação  do  passado  é  caracterizada  como um dos  campos  de atuação  da  bioficção.  Essa  interpretação,  no  entanto,  não  deve  ser  associada apenas aos termos de conteúdo, considerando, também, a sua forma/estrutura: diversos  romances  considerados  como  bioficcionais  incorporam  as  chamadas “estratégias metanarrativas” e mesclam registros discursivos, tirando o foco do “fato” para ideias subjetivas. A partir daí, reforça a perspectiva de que toda narrativa, até mesmo histórica, é uma construção. Deve haver uma certa maturidade do leitor quanto ao reconhecimento de que a bioficção não deve ser confundida com a biografia tradicional. Esta procura uma   reconstituição   factual   da   vida   de   uma   personagem/personalidade, amparada  à  fontes  documentais.  No  caráter  da  pesquisa  historiográfica,  a bioficção  abre-se  e  permite  criar  especulações  e  preencher  certas  lacunas, quando   necessário.   Além   disso,   reescreve   eventos   sob   diversas   óticas, perspectivas  e  lógicas  narrativas.  A  tensão  criada  entre  fidelidade  poética  e liberdade criativa centra-se como um dos elementos-chave da bioficção.O tema da autobiografia talvez seja um dos principais pontos de contato da  literatura  com  a  biopolítica.  Entendida  a  autobiografia  como  a  vida  de  um indivíduo  contada  por  ele  mesmo,  a  prática  de  se  escrever  assume  então  um interessante  lugar  que  pode  servir  de  subserviência  ou  resistência  ao  poder constituído, dependendo da função que essa escrita exerce. Na medida em que a  subjetividade  se  narra,  ela constrói  para  si  uma  história  paralela  à  oficial  e afirma a própria experiência, em contraste com a submissão imposta pelo poder gestor. A particularidade da autobiografia é a tensão que lhe é inerente entre o “real” e o “ficcional”. Em certa medida, é impossível  narrar  qualquer  memória sem que intervenha alguma dose de fabulação. Tendo em vista as controvérsias e dificuldades que a definição de autobiografia, em particular, gerou ao longo dos tempos na literatura, os estudos literários, a partir da segunda metade do século XX,  adotaram  o  conceito  de  autoficção,  visando  abordar,  de  maneira  mais específica,  as  diversas  escritas  de  si  e  as  narrativas  autobiográficas  que escapavam às teorizações tradicionais. (Souza, 2020, p. 14).É  fundamental  observar  que  o  prestígio/ascensão  da  bioficção  está  em total  sintonia  com  a  demanda  literária  contemporânea  a  fim  de  manifestar  a

complexidade  das  experiências  humanas.  Vivemos,  atualmente,  num  mundo destacado  pela  fragmentação  das  certezas  e  pela  grande  valorização  da subjetividade.  Por  essa  vertente, a  bioficção  oferece  uma forma  de  linguagem em que os diferentes lados da ambiguidade da vida são transformados em arte, consolidando-se, assim, como um espaço fértil e propício para a mágica literária, provocando emoções, pensamentos complexos e propósitos comunicativos. Nesse contexto, utilizamos fragmentos da própria narrativa, reiterando as discussões aqui realizadas:[...] meu nome é Lucas, sou jornalista, estou morrendo e resolvi contar a tumultuada história do meu amorpor Michelle. A literatura foi a forma que encontrei para fazer meu testamento. Como não tenhocondições de  narrar  o que  aconteceu comigo no Egito,  pedi  a um amigo, como Hamlet  fez  com  Horácio,  que  “contasse  minha  história”,  o  que fatalmente deverá compor o que imagino ser o final deste “romance”. Trata-se de uma história de amor não muito convencional (Melo Neto, 2023, p. 13).[...] sou o segundo narrador deste “romance”. Conheci o poeta Lucas no Egito, pouco antes de sua morte. Ele pediu-me que contasse sua história. A história  do seu  amor  por sua esposa, Michelle,  e por  uma garota  egípcia,  Saluá.  Ora,  eu  nunca  escrevi  uma  história,  meu trabalho nada tem a ver com literatura, sou um comerciante. Lucas leu a biografia do meu bisavô napolitano que eu escrevi a pedido da minha avó. Imaginem. Mas vamos deixar esta apresentação acabar por aqui (Melo Neto, 2023, p. 68).Por essa esteira, nota-se a presença dos elementos da bioficção a partir da narrativa exposta, objeto de estudo, discussão e análise desta seção teórica.

5. Considerações Finais

Palimpsesto,  como  romance  de  formação,  oferece  uma  narrativa  rica  e multifacetada  sobre  o  desenvolvimento  pessoal  de  Michelle  em  meio  aos desafios do mundo urbano. Através de sua jornada, o romance explora temas de identidade, resistência e adaptação, proporcionando uma visão profunda sobre as  complexidades  da experiência  indígena  contemporânea e  a  importância  do autoconhecimento e da resiliência.

Em contraposição ao apagamento, a obra também trata da reescrita das histórias de vida. Os personagens de Melo Neto constantemente reavaliam suas experiências e  tentam  recriar  suas  identidades  a  partir  de novas  perspectivas, escrevendo suas próprias versões dos eventos. Essa dinâmica de reescrever a própria história reflete a natureza fluida da identidade humana, que nunca é fixa, mas está em constante processo de transformação. Assim, Palimpsesto explora a  intersecção  entre  o  que  é  lembrado  e  o  que  é  apagado,  e  como  ambos  os processos moldam a compreensão que os personagens têm de si mesmos. A  complexidade  narrativa  de  Palimpsesto  é  intensificada  pela  estrutura fragmentada  do  romance,  que  reflete  a  própria  natureza  da  memória  e  da história. O livro é construído a partir de múltiplas perspectivas, em que diferentes narradores  revelam  suas  versões  dos  acontecimentos,  criando  uma  narrativa multifacetada.  Cada  camada  de  narrativa  é  como  uma  página  reescrita  sobre uma  anterior,  com  o  leitor  precisando  desvendar  as  diferentes  versões  para chegar a uma compreensão mais profunda da obra como um todo. Para concluir, a narrativa de “Palimpsesto” constrói uma reflexão profunda sobre a condição humana, memória e identidade. Moisés Monteiro de Melo Neto utiliza   a   metáfora   do   palimpsesto   para   investigar   as   complexidades   da experiência humana, mostrando como o passado, por mais que tentemos apagá-lo, sempre deixa marcas que influenciam o presente e o futuro. Através dessa narrativa rica em camadas e significados, a obra nos convida a questionar o que é realmente esquecido e o que é constantemente reescrito em nossas histórias pessoais.

REFERÊNCIAS

ISER, Wolfgang. Os atos de fingir ou o que é fictício no texto ficcionalIn: LIMA, Luiz Costa. Teoria da Literatura em suas fontes, 2002.MAAS, Wilma Patrícia. O cânone mínimo: o Bildungsroman na história da literatura. São Paulo: Editora UNESP, 2000.MELO NETO, Moisés Monteiro de. Palimpsesto: umromancepernambucano. Recife, Paradoxum, 2023.

RICOEUR, Paul. Aidentidade narrativa e o problema da identidade pessoal. Trad. Carlos João Correia. Arquipélago, n. 7, p. 177-194, 2000.SOUZA, Bruno Henrique Alvarenga. O conceitodebioficção. Revista de Estudos Literários da UEMS, [S. l.], v. 2, n. 22/2, p. 19–38, 2020.

 

sábado, 4 de outubro de 2025

Mais uma obra sobre a dramaturgia de Moisés Monteiro de Melo Neto será lançada. Leia ENTREVISTA




Entrevista concedida por Moisés Neto a Thalita Gadêlha dia 22 de Maio de 2025

 

1. Como se dá a construção das suas personagens femininas?

 

M – A construção das minhas personagens femininas, faço-as, em acordo com o que vejo sobre o gênero feminino. Não só no diferencial em relação ao masculino, mas as possibilidades e perspectivas do empoderamento das mulheres. A alma feminina, para mim, é um mistério constante. Não acredito que uma mulher possa entender um homem e um homem possa entender uma mulher. Acredito na transição, digamos, de algumas pessoas que... se representam, se caracterizam, do sexo que antes seria oposto e você assume; o caso de uma pessoa trans, por exemplo. As minhas, mulheres, elas são todas empoderadas, digamos assim, destemidas e atrevidas. Eu não gosto de criar mulheres submissas. Eu não gosto de pessoas submissas.

 

2. Nem mocinhas nem vilãs: você vê assim também as suas personagens? Seriam Manguegirls?

M – Sim, sim, nem mocinhas nem vilãs. Manguegirls não porque o movimento mangue, ele não caracterizou muito bem as mulheres. É um movimento machista. É um movimento de homens. Você tem, por exemplo,  a Stela Campos que tem um disco excelente “Mustang Bar”, não é, que... para mim... é excelente, mas é um movimento masculino. Eu não acredito que existam mocinhos e vilões. Do mesmo modo que eu não acredito em mocinhas nem vilãs. Existem pessoas que exercitam o poder; a maior parte das pessoas. E outras que gostam de...é... receber ordens.

 

3. Qual a influência da cultura norte-americana na sua dramaturgia, na sua escrita?

M- A cultura norte-americana na minha dramaturgia se dá através da minha admiração por certos escritores.  Tem a questão do movimento ‘beatnick’; Jack Kerouac, Alen Ginsberg, Willian Burroughs, que foram do final dos anos 1950 e influenciou o movimento hippie dos anos 1960. Bob Dilan, por exemplo, é... ele se inspirou muito no ‘On the road’, ‘Na estrada’, romance do Jack Kerouac – que eu até estou lançando um cordel sobre ele. Então... é... no teatro, na dramaturgia norte-americana, você tem Eugene O’Neill, não é, que tem peças como ‘Longa jornada noite adentro”, que eu adoro, e outras peças do O’Neill; como tem Tennenssee Williams, que eu adoro, essas na dramaturgia. Na arte pop, que também é cineasta, que também é, digamos assim, filósofo, é Andy Warhol: o pai da pop art, que me influenciou bastante. Bob Dylan, é... Jim Morrison, do The Doors, essas coisas da cultura norte-americana. Agora, não suporto o imperialismo norte-americano, eu não suporto. E também é... eu quando era criança vi muito a questão dos desenhos norte-americanos – pode parecer uma bobagem isso, não é- mas, eu ficava meio impressionado com a maneira como os norte-americanos trabalhavam com as crianças. Os desenhos animados para crianças... E também as séries da Fox, por exemplo, eu gostava muito de ‘viagem ao fundo do mar’, não é, ‘túnel do tempo’, essas coisas assim me influenciaram quando eu era criança e adolescente. E, óbvio, o cinema norte-americano como um todo. Os grandes diretores, não?, norte-americanos; ou mesmo as produções de Hollywood com os estrangeiros como  Alfred Hitchcock, que é inglês. Eu sempre fui muito... um voraz leitor e... hã... isso me influenciou bastante... da cultura estadunidense e a maneira como eles produziam os roteiros de filmes... tah...

 

4. Quais textos deste livro já foram encenados e quais você gostaria que se transformasse num espetáculo?

Desses roteiros acima, muitos foram encenados...somente é... ‘Essa coisa nossa’ é que não foi. ‘Sertão’ teve uma encenação na universidade que me emocionou bastante; eu gosto muito do texto ‘Sertão’. ‘A Farsa’, é... a ideia original é... o centro, o cerne né... eu gosto muito... acho muito interessante... que beira o teatro do absurdo, que me influenciou bastante tá... o teatro do absurdo que é mais europeu... me influenciou muito: Ionesco...Pirandello... tá... Beckett...não é... que é... que são guias na minha vida também. Gostaria muito de ver ‘Sertão’ e ‘Essa coisa nossa’, dos textos meus encenados.

 

5. Qual o futuro da dramaturgia de Moisés Neto?

Agora... quanto ao que eu estou produzindo agora, que eu estou escrevendo novas peças... meus cordéis... meu cordel ele tem um tempo teatral também... tá... eu não uso heteronímia... mas é... Jomard Muniz de Britto, ele me disse uma vez assim, eu tava escrevendo o meu doutorado, né... a minha tese, que eu transformei em livro também... foi publicado pelo SESC, ele disse: Moisés, você tem uma presença muito forte nas coisas que você escreve, a gente vê... não sua vida, mas o seu estilo, não é... há uma espécie de autoficção na criação das suas peças. Como por exemplo: “Para um Amor no Recife”, tem uma projeção muito grande não é, tudo muito difícil não é, os remédios para a aids eram muito terríveis e a gente tinha visto Cazuza fazer aquilo, morrer na frente das câmeras... praticamente... nós sabíamos de Renato Russo que não se entregou diante das câmeras... então, o futuro da minha dramaturgia, eu acho que vai ser ver seres humanos como eu... Eu sou uma pessoa muito diferente desde criança; é difícil porque eu não combino muito com essa coisa de.. de panelinhas de querer agradar. Eu escrevo quase coo se fosse uma guerra!

Quando eu sento ao computador... ou mesmo quando eu tô escrevendo a mão... eu gosto muito de escrever a mão, né,  e depois transcrever... a... ao digital assim.... ao computador, ao notebook.. e digitar... eu... parece... eu ganho uma força tão grande e eu acho tão bom. Eu sei que é de mim porque a literatura me salvou muitas vezes, e eu também procuro salvar a literatura. A minha vida inteira é esse exercício delicioso e o teatro para mim é essa perspectiva linda e colocar o sim e o não. Eu acho que eu não sou tão polifônico, mas eu procuro ser. Se você perguntar a qualquer aluno de Moisés, eles vão ter uma opinião forte sobre mim: ódio, simpatia, porque eu não sou uma pessoa... como é que eu posso dizer... eu não estou querendo dizer que eu sou especial não, mas é... há a poucos homens aqui.. no Recife... como eu. Eu as vezes... quando eu era adolescente eu queria ser monge, não é... a minha família toda, muitos da minha família, tem essa coisa... de... de... meu pai trouxe aquelas coisas lá é... dos indígenas, não é... tanto é que ele pertenceu ao Vale do Amanhecer que tem uma corrente meio indígena também, de espiritismo... a minha mãe também... ela estava ligada a isso. A minha avó Diomar, os Belli, a família italiana Beli, que era muito religiosa, então eu procuro misturar essa coisa da fé... é... eu sou uma espécie de caçador solitário, não é. Eu sou, eu gosto muito das pessoas, eu gosto muito de conversar com as pessoas, mas eu sei que  a gente não pode... como é que eu posso dizer, eu nem sei... o meu teatro procura fazer isso. Eu convivo com os meus personagens com um amor tão grande, eu construo os meus personagens com um amor tão grande... Quando eles estão em cena... ontem mesmo houve uma leitura de ‘São Bernardo’, mesmo quando eu adapto, eu fico fascinado com a maneira como eu dialogo com... é... uma narrativa, um romance de Graciliano Ramos como ‘São Bernardo’ e eu transformo isso. A minha Branca de Neve, o que eu fiz... a relação da mãe com a filha, da relação  do operário... que tem um anão que é o Banana, com o poder, e essa questão... como eu misturo... o príncipe... com... ah... um Zé Ninguém... e como eu transformo. Eu desde criança, eu entendi muito bem os vilões; acho que a maior parte das pessoas gostam quando tem um antagonista, vilão, eu não sou fã de vilões mas eu acho interessante como a maldade humana se constitui. Eu busco muito isso nos meus textos. Falar e viver intensamente, que é o que eu faço. A minha vida é um jogo muito intenso... Eu faço de cada dia, das 24 horas, 24 milhões de horas. Eu sou um ser muito múltiplo. Eu não sei como eu consigo amarrar tantas personalidades em mim... eu já estudei... muito sobre teorias, principalmente as literárias é óbvio. [...] os meus textos são psicanálise selvagem! Eu faço comigo, eu procuro... eu me atrevo a dialogar comigo. Eu acho que é por isso que a solidão nunca foi uma estranha pra mim e que o amor sim sim sim sim sim, o amor sempre esteve ao meu lado. [...] Então o que será minha dramaturgia no futuro; será tudo isso sempre! [...] Eu gosto de textos fortes, eu conheço textos fortes. Quanto ao futuro, eu não sei o que é que o futuro me trará...

 


 

domingo, 28 de setembro de 2025

XV BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE PERNAMBUCO lança livros do Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto

Dia 4 DE OUTUBRO DE 2025, NA EDIÇÃO DE 2025, XV BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE PERNAMBUCO, que celebra os 30 anos do maior evento literário do Nordeste, serão lançados, NO STAND NA EDITORA COQUEIRO, às 19h, livros do Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto: 1) O LIVRO DOS CORDÉIS (com dezenas de cordéis da sua autoria, ver lista abaixo), 2) CONTRACULTURA: UM EXPERIMENTO PERIGOSO e também (3)o seu “CORDEL UM DEFEITO DE COR”. Este cordel trata poeticamente do romance UM DEFEITO DE COR, romance metaficcional da escritora brasileira Ana Maria Gonçalves, publicado em 2006. A obra figurou na sétima posição da lista dos 200 livros mais importantes para entender o Brasil, divulgado pela Folha de S.Paulo em 2022, no âmbito do projeto "200 anos, 200 livros". A XV Bienal Internacional do Livro de Pernambuco ocorre no período de 03 a 12 de outubro de 2025, no Centro de Convenções de Pernambuco.

 


O recifense Moisés Monteiro de Melo Neto é escritor, professor universitário (ADJUNTO NA UPE, UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO e na UNEAL, UNIVERSIDADE ESTADUAL DE ALAGOAS), autor de peças teatrais, artigos, já publicou dezenas de cordéis e livros, como CHICO SCIENCE E O MOVIMENTO MANGUE. O livro dos cordéis, uma do autor com dezenas de cordéis da sua autoria, como: O LIVRO DOS CORDÉIS como:

1.      Enterrado vivo: O Homem que virou Cordel

2.       Vampiro no Cordel de Pernambuco

3.      O Cordel da Estrela Janis Joplin

4.      Cordel do Dom Quixote para Jovens

5.      Cordel da Ilíada: Poemas de Homero sobre a Guerra de Tróia

6.      Cordel das Bonecas Enforcadas

7.      Cordel da História do Teatro

8.      Cordel da História da Língua Portuguesa 

9.      Cordel: Tradição, Ruptura e Proposta de Ensino

10.  Cordel da Literatura Brasileira de Autoria Indígena

11.  Cordel da Visão Indígena sobre a Literatura Portuguesa

12.  Cordel do Lobisomem na Corte de Maurício de Nassau

13.  Cordel da Compadecida II

14.  Sherlock e o Cão dos Baskervilles

15.  Cordel das Famílias Belli e Monteiro de Melo

16.  Mitologia no Cordel

17.  A Peleja de Chico Science e Ariano Suassuna

18.  Cordel do Gato Preto

19.  Cordel do Terror Acadêmico

20.  Cordel do Terror em Pernambuco

21.  Cordel do Natal de Hilda Hilst

22.  Cordel do Estrangeiro Camus

23.  Romance de Palmeira dos Índios: Lenda e Luta

24.  Quem Matou o Pai do Pop?

25.  Cordel do Artigo de Opinião

26.  Cordel de Clarice Lispector: Personagem e Aurora

27.  Cordel de São João

28.  História da Comunidade de São Pedro 

29.  Cordel de Gerald Thomas

30.  Indígenas versejam mulheres na Lit. Brasileira

31.  Três vezes teatro: Besame mucho, Aurora da minha vida, Trate-me Leão!

32.  Cordel com Lampião

33.  Cordel do Assum Preto

34.  Indígenas comentam Literatura Brasileira

35.  Cordel da Literatura Infantil e Juvenil

36.  Cordel de São Francisco

37.  Cordel de Rita Lee

38.  Cordel da estrela Madonna

39.  Hiroshima Cordel

40.  Cordel de Tolkien: Senhor dos Anéis

41.  Cordel de Caetano Veloso

42.  Cordel de os Lusíadas

43.  Cordel de Chico Buarque: menino em Roma

44.  Assombração de Vaqueiro

45.  Cordel de Florence Nightingale

46.  Cordel Lembranças Kariri-Xocó

47.  Bob Dylan Cordel

48.  Cordel Oswald de Andrade

49.  Pé na Estrada com Jack Kerouac

50.  Cordel do Pai Messias

 

 

 

 Sobre Moisés, um dos autores da sua Biografia, Prof. Dr. José Nogueira, afirma: “O escritor recifense Moisés Monteiro de Melo Neto, descendente de italianos (bisavô materno) indígenas (avô paterno) Graduado em Letras, é  Mestre e Doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), atualmente é professor da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL) e da Universidade de Pernambuco (UPE). Em sua trajetória, além de ávido leitor, é autor de ensaios, poemas. Esta antologia contém 50 dos seus de cordéis, com destaque para o “Cordel Oswald de Andrade” e “Hiroshima Cordel”, além de conto e peças de teatro e romances, como a obra “Palimpsesto”, biografias e artigos científicos. Como intelectual, lidera o Grupo de Pesquisa em Literatura Popular (GPLITPOP) da UNEAL e o grupo de Extensão TUPI (Teatro Universitário em Palmeira dos Índios, além de ser membro permanente do NEAB (Núcleo de Estudos sobre África e Brasil). Nosso autor também atua nas áreas de dramaturgia, literatura comparada, estudos culturais, produção textual, literaturas de língua portuguesa, representações de gênero, bioficção, história e cinema, além de autor do roteiro de “Dança Paralelo 8”, espetáculo vencedor do maior prêmio de dança no Brasil, o Klaus Vianna, oferecido pela FUNARTE em 2007. Participou da equipe de “Incenso”, que venceu alguns prêmios, Dezenas das suas peças foram montadas com sucesso, por renomados diretores, das quais destacamos “Delmiro Gouveia”, pela qual recebeu o prêmio de melhor autor, conferido pelo Governo de Pernambuco, “Anjos de Fogo e Gelo” (2008), “Para um amor no Recife” (1999), “Bruno e o Circo” (2010), “Vivencial” (2025) “Quincas Borba, o musical” (2024)”, além de assinar o dramaturgismo na peça “Um minuto para dizer que te amo” (2017), sucesso em temporada que se estende por seis anos em cena. Enfim, trata-se de um autor polivalente, múltiplo e único”