Os abismos da poeticidade em Jomard Muniz de Britto
Do Escrevivendo aos Atentados Poéticos
Por Moisés
Monteiro de Melo Neto
Conheci
Jomard em 1968. Fomos para uma noitada depois do show e passamos a madrugada
bebendo, conversando… aquela coisa muito, muito animada. Na volta, antes de
cruzarmos a ponte que liga o Pina ao centro do Recife, paramos e eu disse:
“Recife parece Paris”. Quando eu conheci Paris, eu disse: “parece o Recife”. Eu
próprio, hoje em dia, não acho mais. Era algo que você sentia em Paris e sentia
no Recife e não sentia em Salvador. (Caetano Veloso, em depoimento ao filme JMB, o famigerado)
“A Pernambucália desvairada do tropicano
independente Jomard Muniz de Britto legou à cidade do Recife, nos últimos anos,
um estilo denominado Abismos” (João Denys Araújo Leite)
“Fora
da luta não há descanso merecido, não existe despertar” (Alberto Cunha Melo)
Vou ao velório de JOMARD MUNIZ DE BRITTO, meu querido,
agora. Ele morreu hoje, 12 de outubro de 2026, no Recife, o filósofo, cineasta,
crítico cultural, Jomard José Muniz de Britto (ele nunca usa o José, mas
ali está, como um toque drummondiano), nascido em 08/04/1937, na Rua Imperial,
bairro de São José, Recife, traz consigo a história viva dos que ousam
questionar (se). Admirador de Michel Pêcheux e sua Análise do Discurso. Escrevi
minha tese de doutorado sobre ele, publicada , em 2025, pelo SESC-PE.
JMB e a cultura brasileira: reaproximando
arte em economia vivencial e economia política, intuição e rigor, crítica
cultural e poeticidade, ele desmitificou,
através do “veneno do novo”, fez a crítica à alienação, sugeriu estratégias
para uma nova visão do fazer cultural, do ser e estar no mundo, numa negação
positiva por uma existência melhor.
Sua poeticidade-experiência: humor e horror em voz cosmopolita, de
constituição firme, político-humanista, verso em crise, invenção constante que
não coloca em primeiro plano rigorosas concepções racionais de estrutura, mas
aposta em plurivalência semântica, estrutura poemática de linha
construtiva.
O óbvio e o abismo
enfrentam-se numa linguagem sem garantias, nos seus textos , publicados, desde
seu primeiro livro (“Contradições do homem brasileiro”), de 1964, recolhido
pela Censura política) onde se encontra o dessujeitamento em relação à
opressão promovida pelos discursos do poder. Propôs a transformação do que se
é: eis sua produção literária, que solicita como condição para o ser verdadeiro, não
a morte do sujeito, mas o seu desaparecimento diante de singularidades plurais.
Esteve ligado ao Paulo Freire,
compondo a primeira equipe do querido Educador e foi preso, ao lado de Gregório
Bezerra, no Recife.
pensador da cultura, um antilírico a apreender vozes antes dispersas.
Este recifense trata, através dos seus textos, da
interpretação e/ou compreensão da cultura brasileira, revelando através de
perguntas as dimensões submersas, invisíveis, recônditas, complexas, múltiplas
do conhecimento.
JMB faz parte de uma neovanguarda literária que surgiu no Brasil nos anos 1960 (leia-se vanguarda permanente).
O diálogo estudo buscando o limite possível entre
aproximação e distanciamento, como contracanto e intersecção, quando devorou e
foi devorado) na movimentação tropicalista, ou, antes, com a pedagogia de Paulo
Freire
sempre detectou
o medo, o autoritarismo, as classes encarceradas, a dependência antropofágica,
o jogo da arrogância e astúcia, a transgressão da liberdade. De pai paraibano
de Itabaiana e mãe pernambucana: José e
Maria Celeste; estudou no Ginásio Pernambucano, depois na Faculdade de
Filosofia da Universidade de Recife (hoje UFPE).
O que caracteriza a poesia em JMB e como ela dialoga
com o tempo e lugar em que foi produzida? Nossa resposta-tese : Trata-se de um
pensador da cultura que contribui com a possibilidade de uma sociedade mais conhecedora
de si mesma.
A performance linguística de JMB, onde o
sucesso é o do ouvinte/leitor,
Literatura como metáfora da teatralização em desafios
de classes e gêneros, comportamento restaurado, teatro, te-ato, refazendo o caminho, exibindo o sujeito fragmentado, depois
da “perda” da origem, significativamente pós-moderno, semiótico, ênfase no
jogo.
Lançando-se entre comportamento (tudo que acontece) e
conduta (normas), operando na ressocialização efetiva, no comportamento
alternativo, suposições alternativas. Literatura performática no sentido que
Mar “dentro de cada cultura, pode ser descoberta uma espécie de atividade,
separada de outras atividades por espaço, tempo, atitude ou por todos eles
juntos, que pode ser analisada como performance”
Trata-se de uma abordagem poética contextual, uma
estratégia para englobar o momento e que se ergue acima do seu conteúdo
referencial. Performance linguística enquanto prazer presente, ato de expressão em si
(resultado do contexto no qual é feito), metacomunicação entre humor e
seriedade, exibindo interações mútuas, incomum exibição da fragilidade do
virtuosismo, corpo presente e vivo frente ao drama social, amplo de
manifestações.
Essa escrita jomardiana é registro, projeto e práxis
de um arquiteto de memórias, feito à
base de cortes, fusões, colagens, imagens superpostas, closes e planos gerais
(como na edição cinematográfica); é exercício no trato das situações-limite
É obra que se apresenta como reinvenção e surpresa, em
peculiar rede de significantes. Sua base teórica vem desde os pré-socráticos,
como Heráclito de Éfeso e sua tese do “tudo é fluxo”, do desprezo aos bens
materiais, ao “poder”, a relação do ser com o devir, a crítica ao princípio de
identidade (coisas iguais a si mesmas) enquanto ilusão, pois só a mudança e o
movimento seriam reais (de Heráclito viria também a doutrina dos contrários,
pivô no texto de JMB, que presenta interdependência entre conceitos opostos,
porém sem a exclusão do terceiro (na dialética do ser ou não ser).
O texto jomardiano toma das bases teóricas, vários
aspectos e os contrasta com outros vários, pondo-os em abismo; poética caosmótica, pop-filosófica, sempre
desejante, jamais reificadora no registro e revisão de uma memória plural:
identidade que vai se processando em alteridades inesgotáveis, imprevisíveis.
Do
em-si-para-os-outros, eis o jogo de memórias em nós múltiplos, espelhos, espantos,
esperanças, desesperos, suavidades, “quimeras de felicidade coletiva; muito
além dos carnavais”; “nós, outros, qualquer dia todos”, como ele
sugere num dos seus atentados poéticos.
É como se a língua fosse tirada das garras do poder e
JMB livra-a da chapa da generalidade, moralidade, indiferença (do peso do
discurso coletivo).
Dá-se deste modo o caráter apofático (rejeição
de uma crença) neste texto, numa relação não-servil, espécie de exegese
enquanto interrogação que busca esclarecer, desconstruindo os topoi, os
lugares comuns, ou mesmo os detectando e provocando descolamentos e deslocamentos, mergulhando a palavra em sua fonte
para que ela surja rejuvenescida, rica de parentescos perdidos ou esquecidos,
plena de conotações e ambiguidades, na cintilação do sentido, em poeticidade
patchwork, poeticidade puzzle.
Dura escritura (escrita literária), ciente de que nada pode fazer de dois, o
Um.
No horizonte impossível da anarquia linguageira, em
JMB a língua tenta escapar a seu próprio poder, à sua própria servidão: nossa
tese é de que algo aí se relaciona com o teatro, com a performance.
Nos moldes do
distanciamento brechtiano, provocando estranhamento, subvertendo
ideologias, esta escritura, “fora do lugar”, se faz coringa ou morto no jogo de
baralho, o “grau zero”, no combate às repressões ideológicas e libidinais.
Sem jamais se desculpar, jamais se explicar, a
poeticidade jomardiana flerta com o leitor, sem saber onde ele está, na
possibilidade de uma dialética do desejo,
imprevisão do desfrute, contra a neurose, no limite da loucura possível.
É escritura enquanto fruições (gozos) da linguagem, pondo o nobre e o trivial em contato.
O prazer do
texto na produção jomardiana se dá na linguagem redistribuída por corte: de
um lado está a língua no seu estado canônico e do outro fica a margem móvel, entre
as duas, barthesianamente, a poesia deste autor aproxima-se da fenda, que se
torna erótica entre uma e outra. Seu texto é semelhante a este instante
insustentável que o transgressor aprecia
no final de uma maquinação atrevida.
O texto jomardiano também é uma combinação delicada,
de elementos biográficos, sociológicos, psicológicos (educação, classe social
etc.)
sujeito em fruição [gozo]; tudo é desconstruído; é como
se o vestuário da linguagem se entreabrisse e, de repente, em vislumbre,
oferecesse uma fonte de prazer.
Ali: entre a forma e o conteúdo a “esfoladura”, o
convite ao mergulho.
O texto-limite,
o interstício, a redescoberta em face ao ideológico e ao imaginário, texto que
faz vacilar bases históricas, psicológicas, culturais, evidenciando a crise do
homem com a linguagem.
Texto que trata da problemática relação entre crítico
e leitor comum e discute a relação da parte com o todo, pondo em interface a
função social e o prazer particular na literatura e na vida.
Agindo contra a alienação na sociedade, numa espécie
de tomada de posição para a frente, trabalhando certa linguagem antiga enquanto
imediatamente comprometida,
toda linguagem se torna “antiga” desde que é repetida,
todas as instituições oficiais de linguagens são “máquinas repisadoras” e o
estereótipo é um fato político, a figura-chave da ideologia.
A poeticidade jomardiana faz a análise socioideológica, não sendo pejorativamente datada, trata de
temas que, paradoxalmente, estão ligados à sua época e lugar, mas são também
universais e atemporais (na crítica),
estão, no instante
já, presas em Devir. Em relação ao achatamento de massa, por exemplo, ligado
à repetição da linguagem, ele propõe desrecalcar o gozo sob o estereótipo, busca
a ideia gerativa; assim o texto jomardiano
se faz, se trabalha através de um enlaçamento perpétuo e o sujeito se desfaz
nele “qual uma aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas
de sua teia”,
Jogando com o corpo anônimo de seu ator (autor falante),
na orelha de quem o “lê”. É o “grão da voz”, misto erótico de timbre e de
linguagem “atapetada de pele”, “pátina das consoantes”, “voluptuosidade das vogais”,
“estereofonia da carne profunda”, “escritura em voz alta. Escritura
vocal, a exprimir indignação, compaixão etc.”
JMB, antes de mais nada, agencia as diferenciações da cultura nacional e
seus vieses em intensa conversação.
A poeticidade dele mune-se de espelhos e perspectivas
a observar interesses ideológicos, “culturais”, políticos, sociais, sexuais,
estéticos.
Ele traz, na sua antilira
reflexões estético-políticas em forma de síntese, registradas entre o som e
o sentido, a lutar, festejar, com a palavra (indomável?), num poliédrico fruir poético-existencial.
Rompe com o esquema do poema fechado em nome do processo questionador, instala, dentre outras
coisas, a suspeita da linguagem e a
busca incessante de parcerias, numa espécie de criatividade coletiva. Alguns
dos seus livros contam com parceiros de “intervenção visual” na quase recusa à solidão do texto.
Dentro da cultura nacional JMB detecta um estoque
disparatado de subculturas (uma em divergência com as outras) é é aí que ele
problematiza os universos e a linguagem objetiva e subjetivamente em
experiência fenomenológica, lança um olhar reflexivo sobre um objeto qualquer
do vivido, do cotidiano e desta visão da transitoriedade extrai perguntas.
O espírito em
tais textos é a ação e até esta ação é também objeto desta escritura que
questiona o que é imposto como verdade. Se é literatura excêntrica, talvez para
ela não houvesse outro caminho possível.
Colocando em
interface o ser e sua existência histórico-social, essa poética leva a questão
da memória (lembremo-nos aqui da vita
contemplativa versus vita activa,
até o abissal reflexo de outros discursos, lugares, personagens, desejos, mistérios,
em polifonia.
Pode-se ler na sua obra reflexões sobre os processos
de produção cultural, sobre o ensino-aprendizagem, ou ainda a problematização das classes sociais, gêneros,
poder, sexualidade, etnicidade.
É trabalho de expansão da significação da palavra (às
vezes até a opacidade), utilizando-se de intertextualidade, neologismos,
trocadilhos, chiste, dentre outros recursos na busca de uma consciência
possível. É poética de reflexão, a dialogar com fatores culturais de forma
lúdica.
Vejo a obra-vida JMB enquanto forma de ação
político-pedagógica.
JMB em redemoinho (que ele mesmo suscita ao
fragmentar o realismo na sua “pop
filosofia” que resgata o prazer
do texto).
discurso cravejado de chistes
contrasta as
ideias impostas imprimindo nelas o desconcerto; pede esclarecimentos;
desautoriza-as, provoca-as.
Expõe o discurso opressor de modo cômico,
caricatura-o. Faz o chiste e provoca no seu leitor um súbito relaxamento da
tensão intelectual.
Ataca o recalcamento (partilhado socialmente com
prazer) de maneira pujante, ágil, em associações estonteantes dentro de um
campo que faz flutuar os sentidos no mar tantalizador da linguagem,
evidenciando a múltipla cognição dos signos.
Nos sintagmas (frases) desse discurso as relações
associativas burlam assim o controle do paradigma ideológico e exibem nova
seleção vocabular. Deslocando o “lugar da verdade” pondo o homem como
articulador da sua existência, a essência humana como construção livre.
O leitmotiv da obra jomardiana, seu ritornello se dá no desvio de toda
intenção reguladora, programática, teorizante nos seus espelhos multifacetados
de uma plural realidade, escritura fragmentada em várias vertentes (abismos).
Do interior da língua, teatralidade, o jogo de
palavras. Afastando-se da “orientação documental-nacionalista, dominante na
América Latina, o pensador da cultura, JMB, lê
o Brasil, a partir de Pernambuco, mas com visão universal, não-ortodoxa, não
fetichizando nenhum saber específico, dando a estes saberes lugar indireto na
diversidade entre a fala social (socioleto-enquanto
trama do sistema ideológico, a linguagem vem sempre de algum lugar) e a do sujeito (idioleto).
São versos permeados de um inacabamento perdurante contra definições programáticas. Sugerem um
fazer coletivo, antidiscurso e criatividade (compartilhada com o leitor), rompendo
as fronteiras entre o poético e a crítica da cultura criando algo novo, intempestivo em texto que segrega
a poesia .
Entre paradoxos e identidades, sugerindo uma produção
de sentidos menos opressora, tem-se uma voz poética num lócus anticonvencional
que já se anuncia no livro Escrevivendo,
por exemplo, no qual ele, qual o avesso de outro dantesco Virgílio, conduz o
leitor num labirinto de instâncias provisórias, os abismos, de efeito inacabado em um nível de intelecção e de
conceituação bastante problemáticos (desde as coisas exteriores até os
labirintos da solidão e da solidariedade, a vida autêntica e o cotidiano imprevisível)
§ Estabelece relações entre literatura, memória e
sociedade, na obra do pensador JMB.
§ Caracteriza esta experiência literária da segunda
metade do século XX no Recife e que se desenvolve até o século XXI trabalhando
a representação da cultura brasileira em seus vieses e perspectivas.
§ Escreve em tom satírico, em busca de uma sonoridade
contemporânea, sua exposição hipertextual.
§ rompe fronteiras entre prosa e poesia (poiesis cheia de contradicções- contradições do falar/escrever) em situações-limite
que geram tensões e distensões
criadoras.
§ No seu texto ambiguidades dialogam com as tensões e
como esta poética se apresenta em relação aos homens com o seu destino, com a
vida, como discute temas/ problemas fundamentais da sociedade e expõe o
desamparo dos sujeitos modernos literariamente.
§ Investiga o modo lúdico de operação na sua escritura
entre vários polos, em contraposição às conveniências e aparências que regem o
jogo social.
§ a literatura de JMB evita o lugar-comum dos discursos
de autoridade e se faz campo de
experiência compartilhada de forte interpenetração
imaginária (ao mesmo tempo em que
interpela diretamente o indivíduo em seu isolamento) em ruptura, apóstrofe,
apelo aos sujeitos mergulhados no vazio, na ausência de sentido, na ameaça de
aniquilamento e de diluição das identidades.
§ Averigua o exercício de autonomia ética contra as
racionalizações dos autoritarismos (religiosos, políticos etc.) e seus zeladores.
§ aonde pode nos levar esta estrutura aberta, mesmo
diante dos abismos da pergunta: de que
e em que o poema vive?
O ser do sujeito-poético em interlocução com a outridade, combate a mímesis
individualizadora e a representação de cenas e personagens em figuração mítica.
Propõe a desdramatização, sem psicologismos,
no ludismo como prova dos nove da modernidade brasileira (com olhos livres).
Assim essa
escritura jomardiana não se preocupa em nomear coisas, antes dissolve nomes,
funde termos multiplicando possibilidades da realidade e da linguagem (pondo a
referencialidade em constante deslizamento). Seu primeiro livro de ficção poética é o Escrevivendo
No segundo O Inventário
então indica (e vai subverter) pulsações entre a energia libidinal jubilosa,
incessante, indomável e o contexto social em saber substantivo, em surpresas e
suspeitas, interpenetrações que põem tudo em crise (e gozo), em travessia
flagrante, balas no vitral da literatura edulcorada e propõe convivência sem
conivência. Isso se dá em crueza poética, lirismo de crueldade artaudiana, sem
subserviência ou subterfúgio, com verbos diretos, sem vacilar ou se
envergonhar, em abrangência temática e
problemática, ciente de que o medo diminui os homens. Foge assim do
intelectualismo como ausência de paixão existencial e não se entrega ao antirracionalismo
intuicionista.
No apelo à libido, intensifica-se a visão da
transitoriedade, do desassossego, da confrontação como no inconsciente, onde os
opostos não se anulam. Os ditos espirituosos, humor (sem buscar semelhanças nem
abolir diferenças) querem desestagnação (e também rigor, para se
livrar do aniquilamento).
A pulsão (poeticizada) busca aqui a energia que rege a
dinâmica do eu-poético e, por paradoxal que pareça, a dessubjetivação, no
sentido de despojamento da ancoragem que a subjetividade promove. A relação do
sujeito com seu “sofrimento” não obstrui os canais para obter satisfação, gozo:
prazer e dor se entrelaçam. E aí a problemática do sujeito ultrapassa a posição
queixosa, pois o texto empreende o trabalho de abrir caminho na avalanche de
vivências.
O trabalho de JMB com a forma nunca esvazia o
conteúdo. Ele desenreda-se do lírico, dos mitos, utilizando seu peculiar humor
ácido (o que talvez prejudique a exposição da sua análise, e transforme em clownesca sua postura investigativa)
enquanto operador temporal que se articula nas inconclusões, nas contradições
abissais de outros tempos, perguntando-se “quem falafalafalafala.../quem
escreve o que terá para dizer?/ (que a fala é uma fada e a escridura uma bruxa?) / quem consente, quem escreve, cala?/ Ou é
calado?”65.
DE ALGUNS LIVROS DE JOMARD MUNIZ DE BRITO (JMB)
terceira aquarela do brasil (1982)
No poema TAMBÉM
JÁ FUI BRASILEIRO, publicado no terceira
aquarela do brasil. Vejamos:
TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO
Ou ainda sou macunaíma
EU TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO COMO VOCÊS.
Eu também já fui jeca tatu pela democracia
Racial como vocês.
PONTEEI VIOLA, GUIEI FORDE
E APRENDI NA MESA DOS BARES
QUE O NACIONALISMO É UMA VIRTUDE.
Cantava ponteio no meu calhambeque em disparada
E decorei na mesa (universidade) dos bares que
Tudo começou com jk.
MAS HÁ UMA HORA
E TODAS AS VIRTUDES SE NEGAM.
Mas há um instante em que os bares (pensões) se calam
E descansam as invenções (inversões) do homem.
EU TAMBÉM JÁ FUI POETA.
BASTAVA OLHAR PARA MULHER,
PENSAVA LOGO NAS ESTRELAS
E OUTROS SUBSTANTIVOS CELESTES.
MAS ERAM TANTAS, O CÉU TAMANHO,
MINHA POESIA PERTURBOU-SE.
Eu também já nasci geração 64 (ou 69?).
Bastava contemplar as vivis de nabuco. Pensava logo em
fenos, canários,
Sapotis e outros alimentos terrestres
Mas eram tantas, o céu da boca tão sedento,
Minha poesia pirateou-se.
EU TAMBÉM JÁ TIVE MEU RITMO.
Eu ainda tenho impulsos.
FAZIA ISTO E DIZIA AQUILO.
Comia isto, contradizia aquilo.
E MEUS AMIGOS ME QUERIAM.
MEUS INIMIGOS ME ODIAVAM.
E meus amigos me odiavam,
Mas meus inimigos me queriam.
EU IRÔNICO DESLIZAVA
SATISFEITO DE TER MEU RITMO.
Eu tragi-gay dis-corria
Contente de ter meu rito
de ser meu grito
MAS ACABEI CONFUNDINDO TUDO.
Mas comecei permitindo tudo.
HOJE NÃO DESLIZO MAIS NÃO,
NÃO SOU IRÔNICO MAIS NÃO.
NÃO TENHO RITMO MAIS NÃO.
Hoje não disparo mais não,
Não sou sutil mais não,
Não tenho medo mais não. 91
O diálogo paródico dá-se com o poema de Drummond que
aparece na íntegra, escrito só com maiúsculas (Também já fui brasileiro, do
livro Alguma Poesia, 1930).
Bordel BRASILírico Bordel
(1992)
Deslocando fronteiras: proezia ensaística
Todo substantivo é verbo./ Toda verborragia é
substitutiva. / Vale quanto pesa no papel um adjetivo ou advérbio? Palávoras,
palavrações, palimpsestos: / línguas como fêmeas [...] Poesia, Política e
Pedagogia? Sambistas bastardos da Filosofia e dos filosofemas [...] (ainda)
querem salvar as glórias nacionais das pipocas modernas? / Poesia banida
bandida bandoleira [...] Fogosos canibais. Orgia como panaceia? [...] poeta
bandido, poética bandoleira, poemas brincantes querem [...] tropicanalizar tudo
[...] todos. / Revisitando tropos, figuras,
figurões de nossas machadianas ou macunaímicas / (anti) bra-si-li-da-des sonâmbulas [...]
porque já renascemos desenganados desta
sopa de farelos40
JMB pode desconstruir até a contradição, até a fantasmagoria, como se vê
neste trecho do Bordel:
Cavando buracos na lama do Capibaribe
os pescadores de siri ignoram a trama
espacial da nebulosa do caranguejo
6000 anos luz da terra.
mas o poeta continua tentando
tapar buracos
[...] duplo vínculo e doída identidade,
salto e queda para o alto;
abismo de horizontes
[...] girassol de nossa eternidade
[...] se embriaga, delira, periga,
associa inutilmente ideias, impressões,
depressões de viagem, memórias digressivas
[...] interminável exercício
[...] o buraco danifica o trabalho escravo e
dignifica o ócio proletário,
o gozo marginal,
o cacete desempregado58
Pop-filosofia
No CD Pop-filosofia, por exemplo, o sonoro e o semântico buscam antes o
“sabor da linguagem”, seu frescor, o movimento inteligente, um léxico de
in(ter)venção, cheio de palavras novas, mais densas ou mais brilhantes sem
trazer ou reduzir um pensamento ao
limite exato de um metro.
Encontra-se aqui o a linguagem dos 3ppp: política, pedagogia
e poesia. O passado e o presente se entrelaçam em malemolente sonoridade:
Outrora colônia de pescadores sobreviventes
em putas meninas e portuários d’OS NAVIOS,
técnicos e empresários, desesperados,
triunfantes burocratas,
eficazes restauradores.
Ó cidade noturna de gregos de
passagem,
baianos, japoneses, coreanos, apátridas e
sempre mais pernambucanos de paragem.
Quanta gente esquecida e abandonada
entre-lugares
vômitos da Rua do Bom Jesus e
vontades do Cais do Porto ao Corpo.
Destroços da Cruz do Patrão.
Favela do Rato.
Fumaças gustativas da Fábrica Pilar
Alimentando, marinheiros e
fazendários.
Interregnos de poetas otários no cio.
Ó cidade noturna onde tudo é museal
como qualquer outra documentada
em véus de biografemas
e discursos dissonantes
Enquanto museu de tudo e nonadas76.
Texto hermético? Talvez
Pós-terra-de-ninguém. Arrecifes do Brasil.
Brasiliricamente.
Pós monocultura-dos-bagaços-da-cana
[...] buracão sem plumas:
ou é o desejo do Outro?
[...] Baco no beco da fome?87
Outros Orf’Eus (1995)
No livro de
Jomard, o mito se converte em arquétipo e nasce brasileiro, para se tornar
eterno e defrontar-se com ideais muitas vezes conflitantes- o coletivo e o
individual- como também com tragicômicas contradições, de que o nosso país é
tão rico. O escritor questiona os outros eus, inclusive seus, generosamente
metamorfoseando sua criação, pessoal numa obra coletiva, sem cair, porém, na
armadillha de só estar voltado para o outro, como o Orfeu da lenda (Leila
Mícollis, na apresentação de Outros Orf´Eus).
“Não há
amor à vida sem desespero de viver”
(Camus)
O
sexto livro da poética jomardiana, Outros Orf´eus tem capa, ilustrações e
projeto gráfico de João Denys Araújo Leite.
ATENTADOS
POÉTICOS (2002)
Com a publicação do livro Atentados Poéticos, JMB reafirma que o pensamento sem a intuição
estaria vazio, e esta tem que negociar com os “conceitos”, pois a sensibilidade
que não pensa e o entendimento que não intui têm que de algum modo se
complementar. Entendemos que o fator decisivamente socializador da memória é a
linguagem e que tanto a literatura de imaginação quanto os escritos científicos
ou filosóficos dependem do mundo e ao mesmo tempo contribuem para o
fortalecimento de uma sociedade, por assim dizer, imaginária e habitada por leitores do amanhã e autores do passado.
Apresentaremos nossas constatações sobre a poética
jomardiana desenvolvidas até agora:
1. O isolamento dos poetas nos dias
de hoje pode ser quebrado. A atitude jomardiana em poesia não se destina a um
passatempo sem utilidade numa sociedade que cada vez mais se deixa fascinar
pelo tecnicismo (estranha a educação que transmite mecanicamente o saber).
2.
Instaurando o olhar renovado a cada texto, no sentido heraclitiano, é
poesia que se alia à Educação, no que diz respeito ao processo de aprendizagem.
Trabalha com o papel de aprendiz/ensinante.
Estimula competências e uma cumplicidade através de uma interlocução mais ampla
com o leitor.
3. Flerta com a fenomenologia.
Observa o ato. Valoriza o modo de ver, a competência imaginativa (ato cognitivo
aliado à imaginação, enquanto forma de conhecimento objetivo) que não quer se iludir (“não me engane, nem se engane”). Questiona, dentre outras
coisas, a arrogância da ciência, da doxa
e do militante.
4. É poesia que negocia a
excentricidade, discute a questão da tábula rasa praticada pelos que detém o
poder diante de certos problemas. Neste sentido é antirreducionista. Impede que
a palavra coagulada domine o discurso.
5. Transcreve novidades, mesmo antigos temas tornam-se provocantes. Promove diálogo entre
estilos: vem desde o cinema novo, contracultura (contra a Kultura), concretismos,
tropicália, fazendo-se independente.
6. Nega privilégios a uma casta de
intelectuais conservadores. Valoriza mais o conhecer, do modo paulofreiriano,
através da ‘disponibilidade’. Trata o gregarismo com cuidado, valoriza o
indivíduo. O homem não é “peça” da
engrenagem capitalista. É ser pensante
que pode desestabilizar tiranias (que
se mantêm no poder através da farsa).
7. O olhar poético jomardiano aponta
o novo a partir do reconhecido. O abismo essencial seria o buraco diante da certeza absoluta, da
obviedade, da dissimulada barbárie
urbana, da tecnocracia e política de
certos projetos que otimizam resultados, mas deixam o cidadão alienado ou
impossibilitado de escolher.
8. É a voz de um
sujeito-poético eclético no exercício da
liberdade em relação à responsabilidade, satisfação, superação das
desigualdades, que não hesita em repartir estratégias de conhecimento e
dar acesso à verdade, ou pelo menos a uma análise fenomenológica através do
questionamento de certos padrões comportamentais (ou governamentais) em poesia
que não subestima o seu leitor, que é não-sectária e inclusiva e que com sua
imageria questiona o estado de inquietante familiaridade imposto a certas
situações. Trabalha com a fusão de vários gêneros textuais.
9. Com o falso e verdadeiro
trabalhado ludicamente, até com argumentos irrecorríveis, o poeta-filósofo
ergue-se na urbe, aposta nas mudanças incessantes. É insubmisso. Rejeita o
utilitarismo social em seu grau de descartabilidade
do homem enquanto coisa. Estabelece conexões entre o novo e o
conhecido. Propõe a ação.
10.
Vai além do empírico e faz o registro da intuição (através da
poeticidade). Defende-se e se oferece ao mesmo tempo.
11.
A memória se dá no registro poético do fato desconstruído, na
escritura jomardiana. Memória entre o antes e o depois, memória-devir, onde a
face do todo se renova.
12. Esta literatura trabalha com
ansiedades, busca ressaltar as finalidades humanas em oposição ao imediatismo urbano na virada do século. Aí
sim é que ela repensa a relação social em termos de linguagem (poética).
13. Acompanha várias vanguardas, mas
não se deixa aprisionar por programas. Faz-se vanguarda permanente
(ruptura de si mesma), corre riscos não
teme o ridículo, autoquestiona-se.
14. Lança a hipótese de uma nova poética,
explorando vários estratos na totalidade
da sua representação, potencializando
seu escreviver, esse
termo que sugere novas fruições do poema (não só sensações ou emoções, poema-veículo contestatório e não
exercício unilateral, reafirmando
o que todos já sabem). Sugere poeticidade
performática (Abismos da
Pernambucália, Tal e qual, nada igual, Arrecife de Desejo, Inventário de um feudalismo cultural e outros textos de JMB que já
se transformaram em teatro, performances, enfim: registrados em película,
vídeo, CD, confirmam esse caráter, como já discutimos) alargando as
possibilidades de produção e recepção do discurso e das formas poéticas.
PARTE 2: O FUNERAL DE JOMARD MUNIZ DE BRITTO
NO CENTRO DA CAPELA NEOGÓTICA DO CEMITÉRIO DE SANTO AMARO, RECIFE, DESENHADA PELO ARQUITETO VAUTHIER: JOMARD MUNIZ DE BRITTO MORTO (Foto de Moisés Monteiro de Melo Neto: DIREITOS RESERVADOS- PROIBIDA A REPRODUÇÃO)
Jomard Muniz de Britto morto (Foto de Moisés Monteiro de Melo Neto: DIREITOS RESERVADOS- PROIBIDA A REPRODUÇÃO)
A Capela onde aconteceu o Funeral: Cemitério de Santo Amaro (Recife). 12/ 10/ 2026









