CORDEL
NA EDUCAÇÃO
MICHEL PÊCHEUX E A POESIA
Moisés
Monteiro de Melo Neto
José
Nogueira da Silva (Revisão)
PREFÁCIO
Profa. Dra. Dirce Jaeger (UPE)
Prof. Dr. Erasmo da Silva Ferreira
(UPE)
Prof. Dr. Jomson Teixeira da Silva
Valoz (UPE)
“Nada
da poesia é estranho à língua, – nenhuma língua pode ser pensada completamente,
se aí não se integre a possibilidade de sua poesia.” (Pêcheux, 2012 [1983])
Michel Pêcheux
(1938-1983) foi um filósofo francês que nos deixou um legado de grande
envergadura intelectual. Leitor atento de Gottlob Frege e de Ferdinand de
Saussure, Pêcheux foi, até o fim, um visionário ligado ao Materialismo
Histórico e, sobretudo, ao pensamento de Marx, Lacan e Althusser. O pensador desenvolveu
um edifício teórico-metodológico e epistemológico-filosófico que tem em sua
base de sustentação os processos que se coadunam na constituição da Teoria do
Discurso que empreende: o sujeito, a ideologia, a língua, a história e a
prática política.
Apaixonado pela
informática e pelas máquinas, iniciou suas pesquisas, no início da década de
1960, como membro do centro de excelência acadêmica – a Escola Normal Superior
(ENS – École Normale Supérieure) – da Rua d’Ulm, momento em que
passou a ser aluno de Louis Althusser e abraçou a ideologia como
problema axial de suas pesquisas, além de refletir sobre a história das
ciências, da epistemologia, da filosofia do conhecimento empírico, saindo,
assim, na defesa da transformação do modo de fazer ciência no âmbito das
Ciências Humanas e Sociais, principalmente quando instaura – através de uma
forte aliança teórica e política com Canguilhem, Bachelard, Paul Henry e Michel
Plon (1966), no Laboratório de Psicologia Social do Centre National de la Recherche Scientifique
(CNRS) –, uma ruptura epistemológica com o psicologismo social vigente à época
e se postula a investigar, por meio de um projeto de pesquisa inovador, a
“transmissão de mensagens com conteúdo não usual” (1966).
Em 1966 e 1967, sob o
pseudoanônimo de Thomas Herbert, Pêcheux escreve dois artigos emblemáticos para
a revista científica francesa Cahiers pour l’Analyse: Reflexões
sobre a situação teórica das ciências sociais e, especialmente, da psicologia
social (1966) e Observações para uma teoria geral das ideologias
(1967). Nessa direção, Pêcheux continua a sua aventura teórica e elabora um
modo próprio de fazer análise do discurso: ao se distanciar da abordagem
foucaultiana, por ser marxista até as últimas consequências, o filósofo comunga
com as teses do Althusser para evidenciar o caráter discursivo e material do
fenômeno ideológico, isso pode ser visto como ponto nodal em Por uma
Análise Automática do Discurso (1969) e Semântica e Discurso: uma
crítica à afirmação do óbvio (1975), por exemplo.
Diante disso, ao firmar uma aliança “de nunca
acabar” com linguistas francesas, como, por exemplo, Françoise Gadet, Catherine
Fuchs, Claudine Haroche, bem como valorizar o trabalho de Antoine Culioli e de
Milner, o autor passa a interrogar a Linguística da imanência relativizando a
autonomia de seu objeto por primazia [a língua] propondo, para isso, a
desconstrução das teorias linguísticas e elege, portanto, o discurso como
espaço por excelência para o confronto do político com o simbólico, da
historicidade com o ideológico, do imaginário com o social.
Com efeito, ao longo da
trajetória teórica de Pêcheux, observamos a formulação de uma crítica aguda às
evidências do sentido através das verdades de La Palice (Les vérités de La Palice – 1975), bem como
a um sujeito idealista (intencional, plenamente consciente, cartesiano,
empírico, o Adão mítico) que se reconheceria como a origem dos sentidos. Para o
autor, ainda, a língua(gem) é um sistema sujeito à falha e à ambiguidade;
propondo, com isso, que é na discursividade que podemos analisar a relação
entre a língua e a história, inclusive os jogos das relações imaginárias, de
poder na sociedade e que nos ligam ao outro através do discurso. Daí a metáfora
do Witz e do joke, do atravessamento do equívoco, dos furos da/na
língua, daquilo que só existe diante da presença de uma ausência, dos pontos de
deriva, da falta estruturante, do chiste, do Real que irrompe sem pedir
licença, do poder fundador da incompletude, do inatingível da língua e que se
inscreve mesmo no impossível do sentido ser UM.
Firmando-se na tese de
que prefere intervir filosoficamente pelo fogo de um trabalho crítico, em
detrimento do “fogo incinerador que só produz fumaça”, Pêcheux não se curvou
perante os caprichos da Linguística, do Marxismo e nem da Psicanálise (campos
de interlocução e de confrontos da Análise de Discurso Materialista); muito
pelo contrário, fomentou duras críticas a estes lugares teóricos através do que
denominou de “Tríplice Entente”: Saussure, Marx, Freud e propôs, portanto, uma
teoria que se instaura em torno de um novo objeto: o discurso.
Defende, assim, que a
ideologia é um fenômeno que se inscreve nas práticas discursivas – práticas
políticas – dos sujeitos que são, ao mesmo tempo, interpelados por formações
ideológicas, por formações discursivas e pelo inconsciente. Logo, entendemos
desde cedo com o Pêcheux que a materialidade singular da ideologia é o discurso
e a materialidade específica deste último é, por excelência, a língua. O
discurso torna-se, em última instância, a esteira onde se pode observar o
funcionamento da relação língua-ideologia, sujeito-história,
ideologia-inconsciente.
Por isso, de saída,
Pêcheux já define a Análise de Discurso como um campo profícuo para a leitura e
a interpretação dos discursos através do dispositivo idealizado por ele e das
próprias condições de produção dos discursos, ao mesmo tempo em que sustenta a
ruptura com o pensamento científico e a ortodoxia da época ao propor um
batimento teórico-analítico voltado para a consolidação de uma Teoria do
Discurso que estava intimamente associada à ideologia, ao funcionamento do
inconsciente e à luta de classes.
Como
podemos formar leitores críticos que saibam usufruir os deleites de um texto
literário a partir da sala de aula? Como
apresentar caminhos que valorizem inclusive as raízes populares da sua terra
(como o cordel)? Lembremos que a leitura
do mundo precede a leitura da palavra, como disse Paulo Freire. O
texto literário oferece várias possibilidades interpretativas e o leitor tem
que estar ativo nas construções de sentidos para o texto. Muitos professores
querem que a culpa seja só do aluno, mas cabe a nós abrirmos novas trilhas
neste sentido, sempre: buscar o prazer
de texto, o que significa ir além da transmissão da norma culta, como se busca
até os anos 1970 e buscar nos textos mais contemporâneos novos reforços e
estímulo nesta jornada com nossos alunos, na sua formação. Lembrando que também
os professores podem ter tido formação precária.
Já
se foi, tempo de ensinar literatura através a história literária e autores
canônicos, apenas. Não cabem mais em sala e aula certo tipo de avaliação como
as fichas de leitura de antigamente. O que precisamos é leitura crítica e
transformadora, prazer de ler e escrever, buscar novas propostas didáticas,
inclusive através das ferramentas tecnológicas, meios de comunicação. Levar a sério os problemas do nosso mundo que
são expressos na literatura (que também tem o seu lado estético a ser
desfrutado pelos aprendizes). Não apresentar a literatura de forma solta nem
impositiva, mas compartilhada, na compreensão global do texto, refletindo e
debatendo.
Evitar
o reforço de estereótipos e o leitor passivo, sem a imposição do docente ou do
material didático (muitas vezes de múltiplas escolhas nas questões da
interpretação do texto), sufocando as perspectivas dos discentes na sua
capacidade interpretativa, seu nível e seus interesses. Também a fragmentação
excessiva dos textos literários nos livros didáticos gera limitações
prejudiciais ao aluno, que pode nunca ter contato com uma produção literária
completa, apenas trechos de textos.
Moisés Monteiro de Melo
Neto, é membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Análise de Discurso Pêcheutiana da
Universidade de Pernambuco Campus Garanhuns- GEPAD/UPE,
cordeliza (neologismo que significa transformar
histórias, temas ou textos em literatura de cordel) tudo isto em frenéticos versos, usa a
redondilha maior (heptassilábicos), rimando apenas os versos pares; o cordel
moisesnetiano revisa a obra de Pêcheux em associações inusitadas neste tipo
de literatura que veio de Portugal e se tornou marca registrada do Nordeste e
se espalhou pelo Brasil.
Moisés põe em prática uma
proposta de ensino utilizado a Literatura de Cordel produzida no Brasil e traz,
nesta obra, Pêcheux e seu pensamento como leitmotif (tema recorrente, associado
a um personagem, lugar, ideia ou objeto específico em uma obra artística, isso
levando em consideração a tradição e as possíveis rupturas ideológicas das
produções literárias desse gênero.
UPE -
Garanhuns, maio de 2026
CORDEL Michel Pêcheux e a poesia
Autor: Moisés Monteiro de Melo Neto
1 Um destacado filósofo
Trinta e oito- oito três
na Análise do Discurso
destacou-se o francês
de linha materialista
como Althusser, o fez
2 Em teoria linguagem
História, ideologia
Ele propôs que o sujeito
É discurso em toda via
E nas ciências humanas
Isso em muito influencia
3 Sua Vida e sua Obra
Vou contar a quem quiser
Escola superior
professor ao que vier
E também pesquisador
Da obra de Althusser
4
Não estuda a linguagem
apenas como instrumento
Para comunicação
Mas propôs outro fomento
nas formações discursivas
Ideológico assento
5
Conceitos-Chave: Sujeito
Logo digo, interpelado
A formação discursiva
interdiscurso, ligado
Estuda ideologia
Esquecimento formado
6
Ele é fundamental
Entendendo a relação
Entre o dito e o não dito
Condições de produção
Com Marx, Freud, Lacan
Em qualquer ocasião
7 A afirmação do óbvio
Criticou em seu percurso
De linha francesa, a base
Ele analisa o Discurso
Sem sentidos transparentes
Nos mostra um novo recurso
8
Rompe com o Tradicional
E o SENTIDO citado
Nunca é autoevidente
porque não fica parado
E enquanto é argumento
Está sendo observado
9
A Formação Discursiva
É conceito a se expandir
As formações discursivas
Ensinam a definir
O que pode e deve ser
dito, e ele resistir
10
Sujeito, ideologia
Pela via da linguagem
Eles materializam
Numa inédita abordagem
toca no assujeitado
Construindo uma mensagem
11
Trata também
do poético
Em específicos lugares
reúne formulações
recortes, juntando pares
unidades discursivas
de fontes preliminares
12 Junções e também memória
Ideia
interdiscursiva
A
teia vai se firmando
Com
plateia e narrativa
Tornando
alguém imortal
Mesmo sem matéria viva
13 Na ordem do eliminável
Este
homem se afoitou
Onde
o poético irrompe
meu
coração conquistou
em
relação, tão fundante
tais
versos proporcionou
14 O equívoco e o político
Junto
ao real da história
Sempre
acaba afetando
engano
não tem vitória
Na
produção a matéria
Nunca é aleatória
15 Campo discursivo que
Sai
do estruturalismo
E
se (re)formula, sim
pelo
materialismo
as ferramentas teóricas
Pêcheux?
Sem reducionismo
16 Teorias da linguagem
psicanálise em Lacan
Fazendo
um retomo a Freud
Numa
escuta sem divã
Estudado
via Marx
Ontem, hoje e amanhã
17 O inconsciente intervém
Centramento no sujeito
evidência do sentido
linguística vê o imperfeito
Linguagem, funcionamento
mas a linguagem, tem jeito?
18 Suas Práticas linguageiras
real da língua? Pois é...
real? E inconsciente?
palavras gorjeiam, até
desenhos verbais de imagens
Pêucheux aplaude de pé
19 Pêcheux
na última obra
Conferência: “Marxismo
e Interpretação da Cultura
Limites”? Lições, civismo
enunciado desloca
contra
o determinismo
20 E o lugar da poesia?
Voltamos a perguntar
Privilégio
é cessação?
vamos, sim, reafirmar
princípio saussuriano
A p o e s i a tem lugar
21 Determinado na língua
Ela é literalmente
coextensiva
a esta última
Pois o equívoco, sente
Corrompe univocidade
Como um princípio na mente
22 Língua não localizável
nela: o equívoco aparece
exatamente o ponto
Que o impossível acontece
O (linguístico) e o (histórico);
língua e fato, esclarece
23
A Lalíngua (lalangue
em francês) é o conceito
Lacan, descreve linguagem
Estruturada de um jeito
Que antes de estruturada
O impacto sonoro é feito
24
Possui dimensão de gozo
A nossa língua materna
Com balbucio, ranhura
O Id às vezes governa
na clínica psicanalítica
Um Ponto-chave em Lalíngua:
Tradicional e moderna
25 Se não se diz tudo, pois
há o impossível a dizer
Dicionário não dá
conta de Shakespeare, se ler
Formações imaginárias
Poucas irão perceber
26 Se transpõe em termos de
Um todo
qualitativo
exige perfeição,
mas
A gramática é um crivo?
Um total sem fragmento
Do total, eu não
me privo
27 Quanto à língua, ela adquire
Consistência
própria, sim
Imaginário total
Uma fantasia,
enfim
não positivismo, aí
Diz Bachelard,
bem, assim
28 Forma-sujeito um conceito
Que Pêcheux faz
discussão
Diz que vem de
Althusser
Essa importante
expressão
Que o sujeito é
social
E agente de uma ação
29 Poético e poesia
A poética e o
poema
São formulações
distintas
Mas, correlatas
no tema
E a espessura
semântica
Envolve todo o
sistema
30 A poesia e poética
Na textualização
Por si se
referenciam
mas não façam confusão
Efeito e traço
poético
São partes da
expressão
31 Metáfora e formas poéticas
Prática poética e
razão
Formulações como
imagem
Numa teorização
Pêcheuz traz a
AAD
Meia-nove em
atenção
32 Poética ou filosofia
As práticas estão
sujeitas
Com as
interpretações
Estruturais sendo
feitas
reanimam obras
novas
simbólicas fontes,
colheitas
33 Nesse sentido, observo
Retificar
erros, sim
Para a visão de
ciência
Estuda a A.D.
assim
Com as noções de Pêcheux
Bachelard
e outro (s) afim
34 O papel do erro e da
Correção na
construção
Dos saberes
científicos
Bachelard deu
atenção
como já lhe
disse, antes
ter do errado a noção
35 Verdade é categoria
Coisa sempre
provisória
Em Pêcheux isso
sustenta
De uma forma
notória
Pois é uma posição
De trabalho e de
história
36 Temos no campo teórico
A reformulações centrais
Indagações nesse campo.
Estão tão
essenciais
Que ao relembrar
Pêcheux
estabelece algo
mais
37 Relação fundamental
sobre o lugar da
poesia
entre poético e
equívoco
Isso não
privilegia
Cessação
Saussuriana
Langue e parole,
eu diria
38 Poesia é sem lugar
Na língua
determinado
Ela é coextensiva
Como o equívoco
formado
ela afeta e
corrompe
Sem código
neutralizado
39 Não localizável nela:
o equívoco
aparece
mesmo é igual ao
ponto
Impossível (a
língua) tece
Alia-se à
contradição
Língua à história
apetece
40 Não parece perigosa
A tal da
ambiguidade
De acordo com a
AD
Não muda a identidade
Equivalência e princípio
Valor,
volatilidade
41 Jogo referencial
Quem critica a posição
Pêcheux faz ponderações
processo e
transformação
do simbólico e o
ideológico
excepcional
função
42 Teórico e poético: Marx
Mallarmé; extraordinário
Com as discursividades
Voltadas ao
proletário
Mas, não
estabilizadas
Num jogo não arbitrário
43 Querer classes dominadas
Essa tensão é
clichê
Nas lógicas
absorvidas
Aonde, quando e
por quê?
proletários,
massas, povo
E a revolução,
cadê?
44 Mas, não os concerniriam?
Aí o teórico
poético
De estruturalistas
é
Insuportável (ao
estético)?
Pois, por não ter
discernido
Poesia e humor: ético?
45 O traço poético não é
Domingo do
pensamento
mas pertenceria
aos meios
Vitais ao
discernimento
A inteligência
política
e teórica ao
argumento
46 Os proletários não têm
o tempo de se dar
ao luxo da
poesia?
Isso é bom destacar
O poético na
construção
materialista a
pensar
47 Domingo do pensamento
Guimarães Rosa, a
sério
pelas “horas de descuido
doce severo
mistério
o descuido de
Saussure
Poético é mais que o
etéreo
48 Não só uso especial
De uma linguagem,
mas uma
Propriedade mais intrínseca
da língua,
permite, em suma
o deslizar de
sentidos
os conceitos desarruma
49
Lida com o
"inefável"
Onde equívoco e
não-dizer
No sujeito dividido
São centrais, se
aparecer
E a Língua
Inatingível
É proteção ao
poder
50
Maiakovski,
operário
Poeta, palavra e
pena,
profissão: fala e
escreve
pensar gerativo
encena
Girar as mós dos
discursos
Não deixa a
palavra amena
51
Sentido que nunca é
Imediato ou transparente
Pechêux diz que a "evidência"
Não se torna autoevidente
Vira efeito ideológico
Sem máscaras na nossa frente
52
O Histórico da linguagem.
"Evidência do Sentido”
Ilusão
Ideológica
Igual rio comprido
não há um sentido único
Objetivo e entendido?
53
Quando a evidência é
Secreta e subjetiva
ocultando os mecanismos
De uma língua forte e viva
Na qual sentidos históricos
Assujeitam-se aos “ismos”
54
Sentido de enunciado
não na palavra isolada
Porque ele se encontra
Em uma formação dada
Com o seu exterior
Na conjuntura formada
55
Mas, a "Transparência" é
Falsa
Pêcheux não deixa iludir
Questiona a "transparência
da língua", junto ao devir
interdiscurso atravessa
o "sempre dito" a rugir
56
Aqui o cordel se acaba
Sem fixar os sentidos
Dirce, Erasmo, Jomson, Kevin
Lembro aqui meus queridos
Que eu dedico a vocês
Os versos por aqui lidos.
Fim
Prof. Dr. Erasmo da Silva Ferreira, Profa. Dra.
Dirce Jaeger, Prof. Dr. Jomson Teixeira da Silva Valoz e o Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto
(Universidade de Pernambuco- UPE)
POSFÁCIO
Até aqui
tudo bem,
literatura
é isto
e muito
mais, também.
Lá os
tijolos das casas
são de
cristal e marfim
as
portas barras de prata
fechaduras
de rubim
as
telhas folhas de ouro
e o piso
de cetim
[...] as pedras em São Saruê
são de queijo e rapadura
as cacimbas são café
já gado e com quentura
de tudo assim por diante
existe alguma fartura
[...] o povo civilizado
[...] sem priorizar trabalhar
tem dinheiro à vontade
[...] o trigo em vez de semente
[...] bota pão e manteiga lá cai
das nuvens
[...] os peixes [...] saem do mar
[...] é só pegar e comer
pois todos vivem guisados
[...] as canas [...] canas de mel
outras [de] açúcar refinadas
[...] sítios de pés de dinheiros
[...] pode-se tirar à vontade
[...] quando nasce um menino
[...] já é falando e já sabe
ler, escrever e contar
[...] ao sair de lá me deram
[...] dinheiro
[...] imita [...] a terra
[...] onde Moisés e Abraão
conduzia o povo de Israel
[...] Posso ensinar o caminho,
porém só ensino a quem
me comprar o folhetinho
(Manuel Camilo dos Santos
[1905-1979], autor paraibano de "Viagem a São Saruê" (que teve até
tradução para o francês) traz como mito que "São Saruê" "feijão
brota sem chover", para ir para lá torna-se o "carro da brisa",
passa-se pela Alvorada pela imagem matutina, aí se encontra o "dia risonho
na primavera imponente o espaço incandescente”.)
Este
cordel, desenvolvido pelo cordelista recifense, pesquisador, teatrólogo,
escritor Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto (UPE/ UNEAL), ao propor
relacionar as discussões de Michel Pêcheux às da poesia mobiliza questões
fundamentais à Análise do Discurso e à construção poética em que não há
completude em nenhuma destas.
Moisés
teve encenadas dezenas das suas peças, com excelente produção, cordelista com
mais de 50 títulos nesta categoria, é também romancista (“Palimpsesto: um
romance pernambucano”, elogiado por um dos maiores romancistas do Brasil,
Raimundo Carrero) e possui graduação em Letras (1992), mestrado e doutorado em
Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (2011). É
professor da Universidade Estadual de Alagoas) e da UPE (Universidade de
Pernambuco). Atua no Magistério desde 1992. É coordenador do GPLITPOP: Grupo de
Pesquisa em Literatura Popular. Especialista em: Dramaturgia, Literatura
Comparada, Estudos Culturais, Produção Textual, Literaturas em Língua
Portuguesa, Cordel, Literatura Indígena, Representações dos Gêneros na
Literatura, Bioficção, Literatura e História, Literatura e Cinema. Autor de
livros e artigos nestas e outras áreas. Faz parte do Programa de Mestrado em
Letras (ProfLetras/UPE), oferecido em rede nacional, também do também faz parte
do NEAB que
é um órgão suplementar da Universidade de Pernambuco, formado por um conjunto
de professores voluntários com a mais elevada formação e titulação, do GEPAD, Grupo de Estudos e
Pesquisa em Análise de Discurso Pêcheutiana, da Universidade de Pernambuco,
UPE, e é coordenador do TUPI, Grupo de Extensão em Teatro Universitário na
UNEAL, Universidade Estadual de Alagoas.. Como profissional de
teatro, desde 1980, já atuou em mais de 40 produções, como ator, diretor, dramaturgo.
Algumas das suas peças receberam prêmios, outras, peças radiofônicas, foram ao
ar pela Rádio Folha de Pernambuco.
Compreendemos que a
Literatura de Cordel no Brasil constitui um gênero literário, o que a difere da
do cordel produzido em Portugal, o que constitui um suporte através do qual
diversos gêneros eram veiculados em terras lusitanas. No Brasil, o Cordel como
literatura produzida e consumida predominantemente pelas classes populares,
principalmente na região Nordeste, carrega também os valores e ideologias de
seus cordelistas.
A
construção do trabalho simbólico no âmbito de um posicionamento ideológico foi
sempre um empecilho para a análise de uma obra artística que se enquadre no
engajamento social. Tanto ideias quanto representações tendenciosas, as quais
demonstrem versões romantizadas ou distorcidas do sistema social, com o intuito
de persuadir os consumidores ao ponto de aliená-los e manter os mesmos
acomodados com condições enraizadas na sociedade como a heteronormatividade
ou a exploração do trabalhador, isso em uma nação cuja desigualdade social faz
necessária uma reflexão quanto aos valores alheios às condições nas quais os
indivíduos excluídos se inserem.
Desse
modo, como é visto aqui, um texto com a linguagem e com a língua é sempre feito
por aproximações em que nem o poeta nem os sujeitos no mundo dizem e/ou
expressam o todo do que querem dizer. Neste cordel, feito com métrica e rimas,
o autor aproxima do leitor discussões que se dão em círculos de literatura e do
meio acadêmico. Convido o interlocutor para que, ao adentrar na leitura,
deixe-se transformar por ela e, assim, compreender-se, seja poeticamente ou
socialmente, como um sujeito da falta, mas também de ruptura.
John Kevin Lopes de Araújo da Silva (UFAL)