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terça-feira, 18 de agosto de 2026

CONTRACULTURA & HISTÓRIA Palestra do Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto na XVI Semana de História da UPE

 

 

CONTRACULTURA & HISTÓRIA

Palestra do Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto

(Professor adjunto de literatura na Universidade de Pernambuco e na Universidade Estadual de Alagoas)

 

 

Agradeço o convite do CAHIS da UPE,  Centro Acadêmico de História Maria Giseuda, que organizou a  XVI Semana de História da UPE (Campus Garanhuns),  e cumprimento esta mesa intitulada "Teoria da História, Cultura e Arte: reflexões sobre modernos e pós-modernos", composta pelos professores Joachin de Melo Azevedo Sobrinho Neto, Professor Adjunto de História Contemporânea na Universidade de Pernambuco e Professor Gervácio Batista Aranha, da Universidade Federal de Campina Grande.

 


A Contracultura, um fenômeno efervescente por liberdade e transformação. Não se trata de fazer mera compilação de fatos históricos, mas sim de  dar uma espécie de mergulho em atitude, através dos tempos,  nos quais as normas foram questionadas, dogmas foram desafiados e a criatividade floresceu em novas e inesperadas direções. A contracultura: um caleidoscópio de ideias, práticas e aspirações que se manifestaram em diversas esferas: da arte à política, da arte à vida cotidiana.

Faremos referências às vozes, às imagens e às ideias que moldaram essa “emergência” singular. Aqui aqueles cuja força motriz por trás dessa revolução silenciosa, buscando alternativas para um mundo que parecia conformista e restritivo investiram no legado duradouro na sua potencialidade expansiva. Quais sementes foram plantadas? Que ideais sobreviveram ao teste do tempo? E, mais importante, o que podemos aprender hoje com a coragem e a resiliência daqueles que se atreveram a sonhar com um mundo diferente. História, e micro-história e contracultura nos lembram que o conformismo é uma escolha, e que a busca por uma sociedade mais justa, livre e criativa é um caminho contínuo de libertação.

Eis o poder da dissidência, a beleza da expressão individual e a eterna busca humana por um sentido maior. Que esta fala convide a questionar o estabelecido e a encontrar uma voz própria, da mesma forma que tantos o fizeram na contracultura que, em sua essência, pode ser vista como um "experimento perigoso" em um sentido alegórico, não tolhedor ou preconceituoso, por diversas razões que exploram os limites da sociedade, da identidade e da liberdade.

O perigo alegórico reside no fato de que a contracultura, ao desafiar as estruturas políticas, econômicas e sociais dominantes, tendia a gerar instabilidade e incerteza, como um “terremoto cultural” abalando alicerces, forçando uma reavaliação do que é considerado "normal" ou "aceitável". Esse “abalo”, embora potencialmente transformador, pode ser percebido como ameaçador por aqueles que se beneficiam ou se sentem seguros nas estruturas tradicionais predominantes.

A busca por novas formas de viver e pensar muitas vezes envolve a experimentação com a consciência e a percepção, incluindo a adoção de estilos de vida que fogem do convencional.

A contracultura, esse rompimento, embora muitas vezes necessário para a evolução, pode ser visto como um "perigo" para a coesão social, especialmente por aqueles que acreditam na importância da ordem e da hierarquia. É como um barco que se liberta das amarras do porto e se lança ao mar aberto, enfrentando as tempestades, mas buscando novos horizontes.

O INÍCIO O FIM E O MEIO

A contracultura é coisa que sempre existiu? Sim, na mitologia grega temos, por exemplo, Prometeu; no Éden, Satã, mitos quase incomparáveis. Na filosofia, a gente, como Sócrates, nos leva a ver que o que não muda é a mudança. Continuamos a surfar no caos, que é a realidade perturbada pela revolução, como um meme que se multiplica na internet. Resumindo, contracultura é tão velha quanto a civilização. Líderes como Jesus são exemplo: um catalisador de mudanças. Na psicanálise, talvez Jung seja o exemplo mais claro da contracultura. Da Grécia até chegar em 1922 com James Joyce, o escritor irlandês, temos um notável exemplo de uma linguagem alternativa que o contraculturalismo evolui. Até o pós-Hiroshima e muito além. Contracultura só existe como vivida. Eis o seu resumo enquanto possibilidades. Enquanto expressão dinâmica. Sócrates é exemplo da contracultura.

Os mitos e a contracultura se abraçam. Esta é quase sempre vanguarda. Nietzsche dizia que eles criavam uma conexão espiritual negada pela história, raramente mítica .

No Velho testamento Abraão sai de Ur, rica e importante cidade-estado da antiga Suméria, no sul da Mesopotâmia, localizada no atual Iraque, em busca de Canaã, lugar de mudança, exílio. Ele disse aos seus irmãos: “vivo entre vocês, mas sou um estrangeiro, aqui em Ur, como pastor”. Uma atitude contracultural, em dropout. Ele se torna líder de uma pequena minoria dissidente. Ele não era um alienado. Em Canaã, ele propõe coletivismo voluntário. Ele foi um revolucionário há 4 mil anos. Um pioneiro espiritual. Ele saiu do sul do Iraque, Ur, e foi para Israel e Jordânia, Canaã, em processo contracultural. Lá se tornam os habirus, raiz da palavra hebreu, possivelmente, portanto, um fundador de uma subcultura, cultura alternativa, onde ele chegou, rompeu com a cultura do local estrangeiro, onde chegou, e com o consenso social de lá. Ele era fruto de uma cultura nômade.

O Zen rejeita a metafísica, dessimboliza o mundo e tudo nele. A contracultura faz ressalvas, mas ambos são anti-autoritários. A única autoridade sobre nós vem do nosso espírito, não da vida cívica, digamos assim, ou da sobrevivência pessoal

No Brasil, Recife e Salvador, Gregório de Matos, poeta do século XII, usava até pornografia na sua contracultural poesia, expondo trapaças e falsidades, o que nos traz à mente a região da Aquitânia, do trovadorismo, Provença, e seus liberalismos para a época, claro. Sim, a contracultura pode também distrair e fascinar, amenizar o meio conservador da tradição. Das empoderadas contraculturalistas, lembremos de Eleonor da Aquitânia  (século XII), que conseguiu ser rainha. Ela apoiava os trovadores até em suas gozações de livres-pensadores, alguns de origem árabe. Daí veio também que os casamentos não fossem apenas acordo entre famílias, mas as pessoas escolhessem seus parceiros em amor desligado da ideia de reprodução da espécie, isso com poesia ao som da rabeca, instrumento bem popular no nordeste do Brasil, também. A elite cristã debochava da linguagem das ruas, fator contracultural, mas alguns jovens gostavam muito disso, eles refinaram esta linguagem como forma de diversão até para a corte. A igreja, desde a idade média, buscava desinfetar o conceito de amor e a catolicizar a poesia. A inquisição estava de olho na contracultura, embora os trovadores fossem utilizados pelo clero.

As comunidades hippies, na virada dos 1960, 1970, que o digam, o que inclui choque de personalidades, há sobre isso uma visão poética de indiferença. Walt Whitman retratou Nova Iorque na sua poesia, que incluía a vagabundagem e o trabalho pesado, em prosa e verso, livre, em bissexualidade implícita, cheia de presença de espírito, esprit de corps, servindo de modelo para o uivo de Allen Ginsberg, judeu. Ambos gostavam de auto-afirmação, cada um em sua época e ao seu modo.

A tela da consciência é caleidoscópica, impressões a mudar, como em palimpsesto, resíduos de impressões passadas em jogo entre consciente e subconsciente, em múltipla exposição.

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Não importa o que aconteceu, e sim o que somos. Tal impulso contracultural integra a raça humana no mito e sua disposição à rebeldia, humanismo revolucionário. Em meio a tantos significados sem sentido, a contracultura é desafio à história. Ela busca novos territórios conceituais, não por ser exótica, não quer a história como narrativa continuada, visão hegemônica do potencial da humanidade. Recordar é repetir? Era assim há cinco minutos, diria Geração X. Contracultura. Fácil de reconhecer, difícil de definir. Esta Geração também dizia que a tecnologia nos libertaria da miséria humana. Foi? Está sendo? Os hippies, como na peça HAIR, anunciavam a Era de Aquarius. Houve? Há? O zeitgeist contracultural ainda se estica desde a socrática Grécia.

O contracultural é livre da certeza. Não é fácil viver verdadeiramente livre. Defender mudanças sociais e individuais parece ser uma das respostas a isto. O livre pensar parece repleto de riscos levando a solidão existencial e a falta de compaixão. Faça o que quiser com a lei, disse o bruxo Aleister Crowley. Mas temos que saber bem qual a nossa vontade.

Hoje, a cultura mundial é uma confusão de valores. Desordem mundial. Parece que há um vácuo ético. Relativismo moral. Cidadãos perdidos. Sócrates nunca questionou a escravidão negra ou branca e o oráculo de Delfos o apontou como o homem mais sábio de todos. Com sua filosofia dialética. Sem doutrina, na emocionante busca sobre a verdade. Que é pensar sobre o pensamento. Ele foi o primeiro indivíduo. Até ele o coletivo era lei. Sócrates teria sido o primeiro a sugerir conhece-te. Arrancando o indivíduo do seu contexto histórico. Questionava todos os sistemas. Interessava-lhe o processo não a burocracia. Já seu aluno Platão imagina uma república quase fascista. Como um lugar utópico quase perfeito. Meritocrático. Onde apenas os ricos podiam ter tempo para o autoconhecimento. O governo por expertise (competência).  

Assim, a contracultura é tão antiga quanto à própria cultura, e, neste sentido, os autores fazem uma “viagem” pela história mundial, a fim de evidenciar esta afirmação. A contracultura seria uma “ruptura” e também uma espécie de tradição. É a tradição de romper com a tradição, ou de atravessar as tradições do presente de modo a abrir uma janela para aquela dimensão mais profunda da possibilidade humana.

A contracultura é a representação do que há de verdadeiramente novo e verdadeiramente grandioso na expressão e no esforço humano. No entanto eles destacam que nem todos os movimentos culturais e políticos que se opõem com ideias inovadoras são por si só contracultura.

A contracultura foi certamente propiciada pelas próprias doenças de nossa cultura tradicional. Tais doenças condicionaram seu surgimento, como um antídoto, ou anticorpo, necessário à preservação de um mínimo de saúde existencial, que passou a ser socialmente exigido pelo próprio instinto de sobrevivência de nossa vida em comum. Nossa cultura é, ela própria, uma doença. Uma arte mórbida. O pensamento do século XIX tentou diagnosticar essa doença de diferentes maneiras. Chama-se “alienação”, em Marx — e “neurose”, em Freud.

Este é o fim desta fala. Apenas o fim. O fim, deste modo, como naqueles filmes, com uma cena bem chocante no final. Mas como se fosse uma esperança. Um plot twist, no que seja a contracultura e suas propostas. Misturando utopia e distopia, relaxamento e aceleração. O que eu te escrevo continua.

O que nos resta nesta reta final? Amanhãs...

O que te escrevemos continua: em histórica contracultura.

 


 

 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

CORDEL NA EDUCAÇÃO . MICHEL PÊCHEUX E A POESIA. Autor: Moisés Monteiro de Melo Neto

 

 

 

 







CORDEL NA EDUCAÇÃO

 MICHEL PÊCHEUX E A POESIA

 

 

 

 

 

 

 

 

Moisés Monteiro de Melo Neto

José Nogueira da Silva (Revisão)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




































 

PREFÁCIO

 

Profa. Dra. Dirce Jaeger (UPE)

Prof. Dr. Erasmo da Silva Ferreira (UPE)

Prof. Dr. Jomson Teixeira da Silva Valoz (UPE)

 

“Nada da poesia é estranho à língua, – nenhuma língua pode ser pensada completamente, se aí não se integre a possibilidade de sua poesia.” (Pêcheux, 2012 [1983])

 

Michel Pêcheux (1938-1983) foi um filósofo francês que nos deixou um legado de grande envergadura intelectual. Leitor atento de Gottlob Frege e de Ferdinand de Saussure, Pêcheux foi, até o fim, um visionário ligado ao Materialismo Histórico e, sobretudo, ao pensamento de Marx, Lacan e Althusser. O pensador desenvolveu um edifício teórico-metodológico e epistemológico-filosófico que tem em sua base de sustentação os processos que se coadunam na constituição da Teoria do Discurso que empreende: o sujeito, a ideologia, a língua, a história e a prática política.

Apaixonado pela informática e pelas máquinas, iniciou suas pesquisas, no início da década de 1960, como membro do centro de excelência acadêmica – a Escola Normal Superior (ENS – École Normale Supérieure) – da Rua d’Ulm, momento em que passou a ser aluno de Louis Althusser e abraçou a ideologia como problema axial de suas pesquisas, além de refletir sobre a história das ciências, da epistemologia, da filosofia do conhecimento empírico, saindo, assim, na defesa da transformação do modo de fazer ciência no âmbito das Ciências Humanas e Sociais, principalmente quando instaura – através de uma forte aliança teórica e política com Canguilhem, Bachelard, Paul Henry e Michel Plon (1966), no Laboratório de Psicologia Social do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) –, uma ruptura epistemológica com o psicologismo social vigente à época e se postula a investigar, por meio de um projeto de pesquisa inovador, a “transmissão de mensagens com conteúdo não usual” (1966).

Em 1966 e 1967, sob o pseudoanônimo de Thomas Herbert, Pêcheux escreve dois artigos emblemáticos para a revista científica francesa Cahiers pour l’Analyse: Reflexões sobre a situação teórica das ciências sociais e, especialmente, da psicologia social (1966) e Observações para uma teoria geral das ideologias (1967). Nessa direção, Pêcheux continua a sua aventura teórica e elabora um modo próprio de fazer análise do discurso: ao se distanciar da abordagem foucaultiana, por ser marxista até as últimas consequências, o filósofo comunga com as teses do Althusser para evidenciar o caráter discursivo e material do fenômeno ideológico, isso pode ser visto como ponto nodal em Por uma Análise Automática do Discurso (1969) e Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio (1975), por exemplo.

 Diante disso, ao firmar uma aliança “de nunca acabar” com linguistas francesas, como, por exemplo, Françoise Gadet, Catherine Fuchs, Claudine Haroche, bem como valorizar o trabalho de Antoine Culioli e de Milner, o autor passa a interrogar a Linguística da imanência relativizando a autonomia de seu objeto por primazia [a língua] propondo, para isso, a desconstrução das teorias linguísticas e elege, portanto, o discurso como espaço por excelência para o confronto do político com o simbólico, da historicidade com o ideológico, do imaginário com o social.

Com efeito, ao longo da trajetória teórica de Pêcheux, observamos a formulação de uma crítica aguda às evidências do sentido através das verdades de La Palice (Les vérités de La Palice – 1975), bem como a um sujeito idealista (intencional, plenamente consciente, cartesiano, empírico, o Adão mítico) que se reconheceria como a origem dos sentidos. Para o autor, ainda, a língua(gem) é um sistema sujeito à falha e à ambiguidade; propondo, com isso, que é na discursividade que podemos analisar a relação entre a língua e a história, inclusive os jogos das relações imaginárias, de poder na sociedade e que nos ligam ao outro através do discurso. Daí a metáfora do Witz e do joke, do atravessamento do equívoco, dos furos da/na língua, daquilo que só existe diante da presença de uma ausência, dos pontos de deriva, da falta estruturante, do chiste, do Real que irrompe sem pedir licença, do poder fundador da incompletude, do inatingível da língua e que se inscreve mesmo no impossível do sentido ser UM.

Firmando-se na tese de que prefere intervir filosoficamente pelo fogo de um trabalho crítico, em detrimento do “fogo incinerador que só produz fumaça”, Pêcheux não se curvou perante os caprichos da Linguística, do Marxismo e nem da Psicanálise (campos de interlocução e de confrontos da Análise de Discurso Materialista); muito pelo contrário, fomentou duras críticas a estes lugares teóricos através do que denominou de “Tríplice Entente”: Saussure, Marx, Freud e propôs, portanto, uma teoria que se instaura em torno de um novo objeto: o discurso.

Defende, assim, que a ideologia é um fenômeno que se inscreve nas práticas discursivas – práticas políticas – dos sujeitos que são, ao mesmo tempo, interpelados por formações ideológicas, por formações discursivas e pelo inconsciente. Logo, entendemos desde cedo com o Pêcheux que a materialidade singular da ideologia é o discurso e a materialidade específica deste último é, por excelência, a língua. O discurso torna-se, em última instância, a esteira onde se pode observar o funcionamento da relação língua-ideologia, sujeito-história, ideologia-inconsciente.

Por isso, de saída, Pêcheux já define a Análise de Discurso como um campo profícuo para a leitura e a interpretação dos discursos através do dispositivo idealizado por ele e das próprias condições de produção dos discursos, ao mesmo tempo em que sustenta a ruptura com o pensamento científico e a ortodoxia da época ao propor um batimento teórico-analítico voltado para a consolidação de uma Teoria do Discurso que estava intimamente associada à ideologia, ao funcionamento do inconsciente e à luta de classes. 

Como podemos formar leitores críticos que saibam usufruir os deleites de um texto literário a partir da sala de aula?  Como apresentar caminhos que valorizem inclusive as raízes populares da sua terra (como o cordel)?  Lembremos que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, como disse Paulo Freire. O texto literário oferece várias possibilidades interpretativas e o leitor tem que estar ativo nas construções de sentidos para o texto. Muitos professores querem que a culpa seja só do aluno, mas cabe a nós abrirmos novas trilhas neste sentido, sempre:  buscar o prazer de texto, o que significa ir além da transmissão da norma culta, como se busca até os anos 1970 e buscar nos textos mais contemporâneos novos reforços e estímulo nesta jornada com nossos alunos, na sua formação. Lembrando que também os professores podem ter tido formação precária.

Já se foi, tempo de ensinar literatura através a história literária e autores canônicos, apenas. Não cabem mais em sala e aula certo tipo de avaliação como as fichas de leitura de antigamente. O que precisamos é leitura crítica e transformadora, prazer de ler e escrever, buscar novas propostas didáticas, inclusive através das ferramentas tecnológicas, meios de comunicação.  Levar a sério os problemas do nosso mundo que são expressos na literatura (que também tem o seu lado estético a ser desfrutado pelos aprendizes). Não apresentar a literatura de forma solta nem impositiva, mas compartilhada, na compreensão global do texto, refletindo e debatendo.

Evitar o reforço de estereótipos e o leitor passivo, sem a imposição do docente ou do material didático (muitas vezes de múltiplas escolhas nas questões da interpretação do texto), sufocando as perspectivas dos discentes na sua capacidade interpretativa, seu nível e seus interesses. Também a fragmentação excessiva dos textos literários nos livros didáticos gera limitações prejudiciais ao aluno, que pode nunca ter contato com uma produção literária completa, apenas trechos de textos.

Moisés Monteiro de Melo Neto, é membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Análise de Discurso Pêcheutiana da Universidade de Pernambuco Campus Garanhuns- GEPAD/UPE, cordeliza (neologismo que significa transformar histórias, temas ou textos em literatura de cordel)  tudo isto em frenéticos versos, usa a redondilha maior (heptassilábicos), rimando apenas os versos pares; o cordel moisesnetiano revisa a obra de Pêcheux em associações inusitadas neste tipo de literatura que veio de Portugal e se tornou marca registrada do Nordeste e se espalhou pelo Brasil.

Moisés põe em prática uma proposta de ensino utilizado a Literatura de Cordel produzida no Brasil e traz, nesta obra, Pêcheux e seu pensamento como leitmotif (tema recorrente, associado a um personagem, lugar, ideia ou objeto específico em uma obra artística, isso levando em consideração a tradição e as possíveis rupturas ideológicas das produções literárias desse gênero.

 

UPE - Garanhuns, maio de 2026

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                  CORDEL Michel Pêcheux e a poesia

                                                                      

Autor: Moisés Monteiro de Melo Neto

 

 

1 Um destacado filósofo

Trinta e oito- oito três

na Análise do Discurso

destacou-se o francês

de linha materialista

como Althusser, o fez

 

2 Em teoria linguagem

História, ideologia

Ele propôs que o sujeito

É discurso em toda via

E nas ciências humanas

Isso em muito influencia

 

3 Sua Vida e sua Obra

Vou contar a quem quiser

Escola superior

professor ao que vier

E também pesquisador

Da obra de Althusser

 

4        Não estuda a linguagem

apenas como instrumento

Para comunicação

Mas propôs outro fomento

nas formações discursivas

Ideológico assento

 

5        Conceitos-Chave: Sujeito

Logo digo, interpelado

 A formação discursiva

interdiscurso, ligado

 Estuda ideologia

Esquecimento formado         

 

6        Ele é fundamental

Entendendo a relação

Entre o dito e o não dito

Condições de produção

Com Marx, Freud, Lacan

Em qualquer ocasião

 

7 A afirmação do óbvio

Criticou em seu percurso

De linha francesa, a base

Ele analisa o Discurso

Sem sentidos transparentes

Nos mostra um novo recurso

 

8        Rompe com o Tradicional

E o SENTIDO citado

Nunca é autoevidente

porque não fica parado

E enquanto é argumento

Está sendo observado

 

9        A Formação Discursiva

É conceito a se expandir

As formações discursivas

Ensinam a definir

O que pode e deve ser

dito, e ele resistir

 

10    Sujeito, ideologia

Pela via da linguagem

Eles materializam

Numa inédita abordagem

toca no assujeitado 

Construindo uma mensagem

 

11    Trata também do poético

Em específicos lugares

reúne formulações

recortes, juntando pares

unidades discursivas

de fontes preliminares

 

12    Junções e também memória

Ideia interdiscursiva

A teia vai se firmando

Com plateia e narrativa

Tornando alguém imortal

Mesmo sem matéria viva

 

13    Na ordem do eliminável

Este homem se afoitou

Onde o poético irrompe

meu coração conquistou

em relação, tão fundante

tais versos proporcionou

 

14    O equívoco e o político

Junto ao real da história

Sempre acaba afetando

engano não tem vitória

Na produção a matéria

Nunca é aleatória

 

15    Campo discursivo que

Sai do estruturalismo

E se (re)formula, sim

pelo materialismo

 as ferramentas teóricas

Pêcheux? Sem reducionismo

 

 

16    Teorias da linguagem

 psicanálise em Lacan

Fazendo um retomo a Freud

Numa escuta sem divã

Estudado via Marx

Ontem, hoje e amanhã                            

 

17    O inconsciente intervém

Centramento no sujeito

evidência do sentido

linguística vê o imperfeito

Linguagem, funcionamento

 mas a linguagem, tem jeito?

 

18    Suas Práticas linguageiras

real da língua? Pois é...

real? E inconsciente?

palavras gorjeiam, até

desenhos verbais de imagens

Pêucheux aplaude de pé

 

19     Pêcheux na última obra

Conferência: “Marxismo

e Interpretação da Cultura

Limites”? Lições, civismo

 enunciado desloca

 contra o determinismo

 

 

 

20    E o lugar da poesia?

Voltamos a perguntar

 Privilégio é cessação?

vamos, sim, reafirmar

 princípio saussuriano

A p o e s i a tem lugar

 

21    Determinado na língua

Ela é literalmente

coextensiva a esta última

Pois o equívoco, sente

Corrompe univocidade

Como um princípio na mente

 

22    Língua não localizável

nela: o equívoco aparece

exatamente o ponto

Que o impossível acontece

O (linguístico) e o (histórico);

língua e fato, esclarece

 

23    A Lalíngua (lalangue

em francês) é o conceito

 Lacan, descreve linguagem

Estruturada de um jeito

Que antes de estruturada

O impacto sonoro é feito

 

24    Possui dimensão de gozo

A nossa língua materna

Com balbucio, ranhura

O Id às vezes governa

 na clínica psicanalítica

Um Ponto-chave em Lalíngua:

Tradicional e moderna

 

25    Se não se diz tudo, pois

há o impossível a dizer

Dicionário não dá

conta de Shakespeare, se ler

Formações imaginárias

Poucas irão perceber

 

26    Se transpõe em termos de

Um todo qualitativo

exige perfeição, mas

A gramática é um crivo?

Um total sem fragmento

Do total, eu não me privo

 

27    Quanto à língua, ela adquire

Consistência própria, sim

Imaginário total

Uma fantasia, enfim

não positivismo, aí

Diz Bachelard, bem, assim

 

28    Forma-sujeito um conceito

Que Pêcheux faz discussão

Diz que vem de Althusser

Essa importante expressão

Que o sujeito é social

E agente de uma ação

 

 

29    Poético e poesia

A poética e o poema

São formulações distintas

Mas, correlatas no tema

E a espessura semântica

Envolve todo o sistema

 

30    A poesia e poética

Na textualização

Por si se referenciam

mas não façam confusão

Efeito e traço poético

São partes da expressão

 

31    Metáfora e formas poéticas

Prática poética e razão

Formulações como imagem

Numa teorização

Pêcheuz traz a AAD

Meia-nove em atenção

 

32    Poética ou filosofia

As práticas estão sujeitas

Com as interpretações

Estruturais sendo feitas

reanimam obras novas

simbólicas fontes, colheitas

 

33    Nesse sentido, observo

Retificar erros, sim

Para a visão de ciência

Estuda a A.D. assim

Com as noções de Pêcheux

Bachelard  e outro (s) afim

 

34    O papel do erro e da

Correção na construção

Dos saberes científicos

Bachelard deu atenção

como já lhe disse, antes

ter do errado a noção

 

35    Verdade é categoria

Coisa sempre provisória

Em Pêcheux isso sustenta

De uma forma notória

Pois é uma posição

De trabalho e de história

 

36    Temos no campo teórico

 A reformulações centrais

 Indagações nesse campo.

Estão tão essenciais

Que ao relembrar Pêcheux

estabelece algo mais

 

37    Relação fundamental

sobre o lugar da poesia

entre poético e equívoco

Isso não privilegia

Cessação Saussuriana

Langue e parole, eu diria

 

38    Poesia é sem lugar

Na língua determinado

Ela é coextensiva

Como o equívoco formado

ela afeta e corrompe

Sem código neutralizado

 

39    Não localizável nela:

o equívoco aparece

mesmo é igual ao ponto

Impossível (a língua) tece

Alia-se à contradição

Língua à história apetece

 

40    Não parece perigosa

A tal da ambiguidade

De acordo com a AD

 Não muda a identidade

Equivalência e princípio

Valor, volatilidade

 

41    Jogo referencial

Quem critica a posição

Pêcheux faz ponderações

processo e transformação

do simbólico e o ideológico

excepcional função

 

42    Teórico e poético: Marx

Mallarmé; extraordinário

Com as discursividades

Voltadas ao proletário

Mas, não estabilizadas

Num jogo não arbitrário

 

43    Querer classes dominadas

Essa tensão é clichê

Nas lógicas absorvidas

Aonde, quando e por quê?

proletários, massas, povo

E a revolução, cadê?

 

44    Mas, não os concerniriam?

Aí o teórico poético

De estruturalistas é

Insuportável (ao estético)?

Pois, por não ter discernido

Poesia e humor: ético?

 

45    O traço poético não é

Domingo do pensamento

mas pertenceria aos meios

Vitais ao discernimento

A inteligência política

e teórica ao argumento

 

46    Os proletários não têm

o tempo de se dar

ao luxo da poesia?

Isso é bom destacar

O poético na construção

materialista a pensar

 

47    Domingo do pensamento

Guimarães Rosa, a sério

pelas “horas de descuido

doce severo mistério

o descuido de Saussure

Poético é mais que o etéreo

 

48    Não só uso especial

De uma linguagem, mas uma

Propriedade mais intrínseca

da língua, permite, em suma

o deslizar de sentidos

os conceitos desarruma

 

49    Lida com o "inefável"

Onde equívoco e não-dizer

No sujeito dividido

São centrais, se aparecer

E a Língua Inatingível

É proteção ao poder

 

50    Maiakovski, operário

Poeta, palavra e pena,

profissão: fala e escreve

pensar gerativo encena

Girar as mós dos discursos

Não deixa a palavra amena

 

51    Sentido que nunca é

Imediato ou transparente

Pechêux diz que a "evidência"

Não se torna autoevidente

Vira efeito ideológico

Sem máscaras na nossa frente

 

52    O Histórico da linguagem. 

 "Evidência do Sentido”

 Ilusão Ideológica

Igual rio comprido

não há um sentido único

Objetivo e entendido?

 

53    Quando a evidência é

Secreta e subjetiva

ocultando os mecanismos

De uma língua forte e viva

Na qual sentidos históricos

Assujeitam-se aos “ismos”

 

54    Sentido de enunciado

não na palavra isolada

Porque ele se encontra

Em uma formação dada

Com o seu exterior

Na conjuntura formada

 

55    Mas, a "Transparência" é Falsa

Pêcheux não deixa iludir 

Questiona a "transparência

da língua", junto ao devir

interdiscurso atravessa

o "sempre dito" a rugir

 

56    Aqui o cordel se acaba

Sem fixar os sentidos

Dirce, Erasmo, Jomson, Kevin

Lembro aqui meus queridos

Que eu dedico a vocês

Os versos por aqui lidos.

 

Fim

 

Prof. Dr. Erasmo da Silva Ferreira, Profa. Dra. Dirce Jaeger, Prof. Dr. Jomson Teixeira da Silva Valoz  e o Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto (Universidade de Pernambuco- UPE)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POSFÁCIO

 

 

Até aqui tudo bem,

literatura é isto

e muito mais, também.

Lá os tijolos das casas

são de cristal e marfim

as portas barras de prata

fechaduras de rubim

as telhas folhas de ouro

e o piso de cetim

 

[...] as pedras em São Saruê

são de queijo e rapadura

as cacimbas são café

já gado e com quentura

de tudo assim por diante

existe alguma fartura

 

[...] o povo civilizado

[...] sem priorizar trabalhar

tem dinheiro à vontade

[...] o trigo em vez de semente

[...] bota pão e manteiga lá cai das nuvens

[...] os peixes [...] saem do mar

[...] é só pegar e comer

pois todos vivem guisados

[...] as canas [...] canas de mel

outras [de] açúcar refinadas

[...] sítios de pés de dinheiros

[...] pode-se tirar à vontade

[...] quando nasce um menino

[...] já é falando e já sabe

ler, escrever e contar

[...] ao sair de lá me deram

[...] dinheiro

[...] imita [...] a terra

[...] onde Moisés e Abraão

conduzia o povo de Israel

 

[...] Posso ensinar o caminho,

porém só ensino a quem

me comprar o folhetinho

 

(Manuel Camilo dos Santos [1905-1979], autor paraibano de "Viagem a São Saruê" (que teve até tradução para o francês) traz como mito que "São Saruê" "feijão brota sem chover", para ir para lá torna-se o "carro da brisa", passa-se pela Alvorada pela imagem matutina, aí se encontra o "dia risonho na primavera imponente o espaço incandescente”.)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este cordel, desenvolvido pelo cordelista recifense, pesquisador, teatrólogo, escritor Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto (UPE/ UNEAL), ao propor relacionar as discussões de Michel Pêcheux às da poesia mobiliza questões fundamentais à Análise do Discurso e à construção poética em que não há completude em nenhuma destas.

Moisés teve encenadas dezenas das suas peças, com excelente produção, cordelista com mais de 50 títulos nesta categoria, é também romancista (“Palimpsesto: um romance pernambucano”, elogiado por um dos maiores romancistas do Brasil, Raimundo Carrero) e possui graduação em Letras (1992), mestrado e doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (2011). É professor da Universidade Estadual de Alagoas) e da UPE (Universidade de Pernambuco). Atua no Magistério desde 1992. É coordenador do GPLITPOP: Grupo de Pesquisa em Literatura Popular. Especialista em: Dramaturgia, Literatura Comparada, Estudos Culturais, Produção Textual, Literaturas em Língua Portuguesa, Cordel, Literatura Indígena, Representações dos Gêneros na Literatura, Bioficção, Literatura e História, Literatura e Cinema. Autor de livros e artigos nestas e outras áreas. Faz parte do Programa de Mestrado em Letras (ProfLetras/UPE), oferecido em rede nacional, também do também faz parte do NEAB que é um órgão suplementar da Universidade de Pernambuco, formado por um conjunto de professores voluntários com a mais elevada formação e titulação, do GEPAD, Grupo de Estudos e Pesquisa em Análise de Discurso Pêcheutiana, da Universidade de Pernambuco, UPE, e é coordenador do TUPI, Grupo de Extensão em Teatro Universitário na UNEAL, Universidade Estadual de Alagoas.. Como profissional de teatro, desde 1980, já atuou em mais de 40 produções, como ator, diretor, dramaturgo. Algumas das suas peças receberam prêmios, outras, peças radiofônicas, foram ao ar pela Rádio Folha de Pernambuco.

Compreendemos que a Literatura de Cordel no Brasil constitui um gênero literário, o que a difere da do cordel produzido em Portugal, o que constitui um suporte através do qual diversos gêneros eram veiculados em terras lusitanas. No Brasil, o Cordel como literatura produzida e consumida predominantemente pelas classes populares, principalmente na região Nordeste, carrega também os valores e ideologias de seus cordelistas.

A construção do trabalho simbólico no âmbito de um posicionamento ideológico foi sempre um empecilho para a análise de uma obra artística que se enquadre no engajamento social. Tanto ideias quanto representações tendenciosas, as quais demonstrem versões romantizadas ou distorcidas do sistema social, com o intuito de persuadir os consumidores ao ponto de aliená-los e manter os mesmos acomodados com condições enraizadas na sociedade como a heteronormatividade ou a exploração do trabalhador, isso em uma nação cuja desigualdade social faz necessária uma reflexão quanto aos valores alheios às condições nas quais os indivíduos excluídos se inserem.

Desse modo, como é visto aqui, um texto com a linguagem e com a língua é sempre feito por aproximações em que nem o poeta nem os sujeitos no mundo dizem e/ou expressam o todo do que querem dizer. Neste cordel, feito com métrica e rimas, o autor aproxima do leitor discussões que se dão em círculos de literatura e do meio acadêmico. Convido o interlocutor para que, ao adentrar na leitura, deixe-se transformar por ela e, assim, compreender-se, seja poeticamente ou socialmente, como um sujeito da falta, mas também de ruptura.

 

John Kevin Lopes de Araújo da Silva (UFAL)