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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

BIOGRAFIA DE MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO

 







BIOGRAFIA DE

MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO






JOSÉ NOGUEIRA DA SILVA e MÔNICA DA SILVA NASCIMENTO (Org.)

João Augusto Lira Robson Silva Salomão Fonseca

Moisés Monteiro de Melo Neto








1ª Edição Editora Coqueiro Recife I PE I 2024

 













Dados Internacionais de Catalogação na Publicação(CIP)




Bibliotecária : Viviane Bento Calão Rodrigues - CRB7 5515

 







SUMÁRIO


1 - Prefácio, 5

2 - Prólogo, 19

3 - As raízes de Moisés Monteiro de Melo Neto, 35

4 - Lembranças da infância, adolescência e juventude, 45

5 - William Shakespeare: vem Hamlet no olhar de Moisés, 71

6 - Autores que influenciaram Moisés Monteiro de Melo Neto, 75

7 - TAP (Teatro de Amadores de Pernambuco), 78

8 - Início da trajetória no teatro, 81

9 - Ilusionistas Corporação Artística, 85

10 - Trinta anos de dramaturgia, 108

11 - O Ser ator para Moisés Neto, 112

12 - Dramaturgia e inclusão social, 120

13 - Cinema, televisão e produção de show, 122

14 - Depoimentos e entrevistas, 128

15 - Docência: Ser professor, 136

16 - Doutorado: Moisés fala um pouco sobre sua tese, 147

17 - Personalidades falam sobre o Teatro de Moisés Monteiro de Melo Neto, 160

18 - Livros e Outras Publicações. Opiniões e análises, 200

19 - A Poesia de Moisés Neto, 206

20 - Alguns dos Prêmios recebidos por Moisés Neto, 228

21 - New York, 230

22 - Epílogo, 239

 


 

1- Prefácio

A avó materna de Moisés o chamava de “bandoleiro”, porque ele gostava de chegar e partir sem avisar a ninguém, quando era criança. A palavra “bandoleiro” vem do italiano “bandito”, significa aquele que é banido, afastado do convívio dos outros, sentido semelhante a sua etimologia mais remota, do latim “bannire”, sempre remetendo a alguém afastado da sociedade. Como falar de Moisés Monteiro de Melo Neto é mergulhar em um mar de subversões, parece que até mesmo essa etimologia foi subvertida. Seu bisavô veio da Itália, mesmo torrão do termo supracitado, chamado pela avó carinhosamente de “bandoleiro”, não parece ter sido banido, ao contrário, acolhido, mas não da maneira formal como comumente podemos imaginar. Sua infância foi dividindo seu tempo na casa dos pais, tios e avós, em todos esses lares, ele tinha seu espaço, por um lado foi acolhido por muito, por outro, talvez isso tenha dificultado produzir aquilo que se chama de lar e também o ajudado a não se apegar a espaços, rótulos ou identidades pré-delimitadas, tornando-se cidadão do mundo, um recifense cosmopolita.

Do lado paterno, o nome “Monteiro” veio das terras lusitanas, traz a ideia de alguém que mora no monte, caçador. Se reunirmos a ideia de um caçador em lugares altos e cosmopolita, faz todo sentido o primeiro nome ser “Moisés”, obstinado por libertar os hebreus da escravização, mesmo que tivesse que abrir o mar e vagar no deserto pelas décadas seguintes. Caso eu “desmetaforize” tais imagens para compreendermos melhor essa relação com a sua história, veremos que os relatos dos seus alunos, colegas de teatro e de profissão deixam claro que ele é incansável leitor e generoso ao compartilhar os “manás” frutos de suas leituras, o que também contribuiu para fertilizar ainda mais o terreno dos saberes.


Moisés aos 2 anos de idade, na casa da bisavó, Maria de Belli

 

O diálogo elaborado por Platão, no qual elabora um diálogo entre Fedro e Sócrates, traz a seguinte afirmação de Sócrates: “Toda arte levada ao sumo grau deve basear-se em pesquisas e meditações sobre a natureza, disso é que parece advir-lhes a perfeição” (Platão, p. 112). Sem querer adentrar filosoficamente nos conceitos de perfeição ou até mesmo questionar se poderíamos aventar uma interpretação acerca das várias naturezas que podemos classificar, irei recorrer ao anacronismo para o mesmo me ajudar a compreender a biografia aqui colocada.

Ao falarmos da sua infância, é perceptível sua dedicação a produzir narrativas desde os primeiros passos na escola, quando produziu seus primeiros textos aos 9 anos, na qual dois palhaços se separam, um deles vai para outro país. Caso interpretemos esses dois palhaços um alter ego do autor, isso numa fase em que fantasia e realidade ainda não estão claramente delimitadas.

Do ponto de vista da psicanálise, a separação entre fantasia e realidade fatual é feita pela consciência a partir de uma certa idade, apesar de haver suas relatividades nisso. Porém, a dissolução dessas fronteiras colabora para o surgimento do efeito chamado freudianamente de unheimlich, no qual há pontes relativamente sólidas entre a fantasia e a realidade, construindo um encontro com a própria imagem, o que pode remeter à noção de “duplo”, um estranho que me observa, um indivíduo sendo objeto do olhar de outro, como alguém que se olha seu reflexo no espelho e enxerga um estranho vindo de fora de si. No caso da narrativa produzida pelo Moisés “criança”, temos a produção de dois personagens em um romance monofônico, mas enganosamente polifônico, posto que os dois mostram uma das características que o mesmo levou para a vida adulta, o desejo cosmopolita latente e a busca por ainda ficar e gozar ainda mais do espaço que habita.

Assim, se compreendermos o umheimlich, descrito por Freud, como o efeito do encontro com a imagem de um sósia. Décadas depois, a releitura de Jacques Lacan permitiu refletir acerca da constituição do indivíduo a partir de tempos lógicos em um contexto dialético sobre si mesmo, como renovados ou recalcados, mas nunca deletados. Esse aspecto dialético, hoje, é perceptível pelo nosso biografado, como podemos ver na carta por ele enviada no dia 10 de fevereiro de 2024, escrita em parágrafo único.

 

Carta ao professor Nogueira


Recife, janeiro de 2024


“Minha escrita é essencialmente dialógica, se choca com qualquer monologismo, faz críticas aos costumes vigentes e atinge a intratabilidade na sua busca radical. Não admite concessão, nem cumplicidade. Quer partejar o real embutido, disperso em tempo e discurso. Faz-se sátira, paródia, para tornar patente o ser. Atinge os nódulos. Não é feita para ser adulada; para ganhar dinheiro. Cavar seu espaço na mídia é busca pessoal, terrorista, libertina, masturbatória, de compreensão e interferência na existência, é dialógica, fragmentar, polidimensional, hipertextual (na forma e no conteúdo). Organiza o que está disperso no confronto de ideias, no conflito das multiplicidades, nos devires da virtualidade. Faz-se flexível, mutável, interpenetra os gêneros: presença com o riso é paródia que não teme o grotesco nem as limitações espaço-temporais, da história, observa a dimensão jornalística do imediato (livre do convencional memorialístico): não se quer verossímil, ataca até a si mesma, não se deixa atingir pelo bairrismo. Reordena, usa o palimpsesto, a técnica cinematográfica, pós-surreal-cubista-futurista, é interferência e substituição, reorganização virótica. Mistura fala, substitui elementos, desdobra o que está dobrado e dobra o desdobrado. Condensa, exagera, desloca, permuta, monta, corta, separa, une, junta planos, reestrutura cenas, cria continuações nos vazios, esvazia os cheios, corta e recompõe em colagens visíveis e invisíveis e o novo sentido é construído em tempo reordenado nas pontes do novo texto com outros, texto sobre texto em escreviver. Viola discursos. É inoportuno desmascaramento, profanação, desrespeito, contrastes, brusquidão, gêneros intercalados, multiplicidade de estilos, perfuração de limites tornando a estabilidade relativa aonde tudo é levado ao extremo. Parodia os tons opressores levando-os até seu limite, contradicções, temporalidades viciadas, câncer. É encontro com a própria consciência, com outras na luta contra crenças, desejos, naturalizações, explorações, humilhações, pois quer clara consciência, Ironia aí, não é jogo engraçado e sutil, porém demolição. Não é catarse, espiritualidade, mas expressão do turvo, equívoco, doloroso, quer a revolta em vez do pastoreio. Exige o escravo, a escravidão, as explorações, os preconceitos, execra as monofonias, recusa a aquiescência, a passividade é incômoda. Não tem partido,

 

sua razão é contra todos. Não tolera vencidos ou vencedores na sua ácida cólera, indignação, ataque aos racionais e irracionais, direitas e esquerdas, modernistas e antimodernos, comunistas e capitalistas, nazistas e antinazistas, negros e brancos, judeus e árabes, homens e mulheres, amigos e inimigos, teístas e ateus, pós-modernistas e nacionalistas. Nessa mistura de sério com cômico, atinge representação literária de estados psíquicos intrigantes num sensualismo que zomba maliciosamente dos ridículos do mundo. Tem função corrosiva de busca radical da verdade e não quer se acostumar com as negociações, arranjos, dribles, acertos, os ideais dos senhores, o que eles gostam, querem, desejam, sonham. Não quer comungar com o ridículo. Não teme ofender ninguém e demonstra autonomia, liberdade. Vai além do nacionalista quando reconhece a máscara dos senhores, dentes dos senhores. E não rir para eles, não faz parte dos que ficam parados suspirando nas trevas, coniventes com a opressão. Quer o instante instaurador como eixo”.

Após pisar levemente no terreno de Freud, sua carta me puxou para o espaço epistemológico de Bakhtin, nos estudos do Círculo de Bakhtin, a ratificada o viés dialógico da linguagem, diálogos que não se repetem de forma absoluta, mas são completamente novos a cada enunciação, reiterando marcas históricas e sociais em dados contextos e culturas específicas. Ele também citou a conversa que manteve com Tiago Salazar que é um escritor e jornalista português, também conhecido por ser um viajante assíduo. Nasceu em Lisboa em 1972 e estudou relações internacionais. Desde cedo, ele escreveu para vários jornais e revistas como o Diário de Notícias, Expresso e Correio da Manhã. Ele também trabalhou para a televisão.


Moisés e Tiago Salazar, na capital portuguesa

 

Cabe lembrar que essa carta supramencionada, ao se declarar acertadamente como dialógica, não o faz apenas de maneira metafórica em suas elucubrações, após a transposição de uma energia semântica de um espaço discursivo para outro, pois, trata-se de levar em conta a dimensão dialógica da linguagem em sentidos estritos e amplos, experimentados no dia a dia, estabilizados, desestabilizados, institucionalizados, contra-hegemônicos, ou seja, sem ficar iludido com as sensação de fixidez em uma existência metamorfoseada constantemente pelo tempo.

Há uma fábula de Esopo que trata do susto que os homens tiveram quando viram um camelo pela primeira vez. Contudo, o tempo os mostrou que o animal era dócil e se aproximaram dele. Depois, começaram a tratar o camelo com tal descaso e ponto que colocaram um cabresto e permitiram até mesmo que as crianças conduzissem o animal. A moral da história é que o hábito faz arrefecer o medo. Esse exemplo pode ser encontrado na biografia de Moisés, o qual foi um jovem que se aproximou da arte, das leituras, do teatro e não se entregou ao convencionalismo de uma vida medíocre, entregando-se a escrever romances, peças teatrais, filmes e cordéis, além de encenar peças escritas por ele mesmo, não satisfeito em encenar nos palcos, encenou em espaços noturnos em Recife, enfim, a aproximação com seus interlocutores, imitando, metaforizando, transformando.


Na foto acima, temos o jovem Moisés nos anos 1980, nessa fase, já era um ator com experiência, além de diretor e roteirista e começando a escrever romances. Ressaltando que essa avidez de liberdade foi realizada em plena época de ditadura militar, é compreensível que o mesmo tenha se indignado e ao ver pessoas inocentes presas, não é por acaso que não suportou tamanha injustiça e protestou contra soldados prendendo um inocente em via pública. Em consequência foi preso e a mobilização de outrem conseguiu sua liberdade

 

pouco depois, trata-se de um solitário que nunca está sozinho. Após a ditadura, muitos utilizaram, justamente, a luta contra a ditadura, torturas e prisões, como um símbolo de resiliência. Apesar disso, Moisés preferiu não revelar esse fato por anos e não se prender a rótulos, mesmo que tenha se engajado com o movimento estudantil nessa época, viajado por vários países da América, tal qual Che Guevara, enfim, estamos falando de uma geração ávida pela liberdade que o mesmo não abriu mão ao conhecer saberes e sabores em suas danças e andanças.

Estamos falando do Moisés que aos 18 anos foi morar no centro de Recife, após uma adolescência em Boa Viagem, onde além de surfar dentro e fora das ondas, frequentou espaços que constituíam um caldeirão cultural, desde peças teatrais subversivas a poesias mimeografadas gritando contra o sistema.



Moisés ainda arrisca umas ondas sobre a prancha


Nessa época, adentrou no curso de teleator da TV Universitária e até participou do especial “A Cartomante”, além de outros cursos, fazendo contato com grandes nomes do meio como Antônio Cadengue, José Francisco Filho, Buarque de Aquino, Luís Mendonça, Carlos Bartolomeu, Luiz Maurício Carvalheira, além de outros.

Na literatura, influenciado por nomes como Rimbaud, Edgar Allan Poe, Agatha Christie, Carlos Drummond, Clarice Lispector, William Shakespeare, entre outros, O curso de Ciências sociais/antropologia na década de 80 colaborou para realizar uma verdadeira arqueologia dos saberes. No curso de letras quase uma década depois, sistematizou leituras e vivências, a exemplo da peça “Para um amor no Recife”, com direção de Carlos Bartolomeu (1999),

 

colecionando quatro prêmios da Associação de Produtores Teatrais de Pernambuco. Podemos dizer que essas produções são frutos de leituras literárias, experiências teatrais, afetivas, diálogos com o papel, a caneta, a máquina de escrever. Por isso, essa biografia conta também a trajetória de uma bibliografia da literatura de Pernambuco e, logicamente, brasileira.

Em uma realidade pós-moderna, a pluralidade literária é inabarcável por manuais de crítica, como fora anteriormente romances como Palimpsesto (2023), roteiro e direção de espetáclos como “Recife Paralelo 8”, vencedora do Prêmio Klaus Vianna em 2007, ou o texto “Anjos de Fogo e Gelo”, o qual conta a vida de Rimbaud. A leitura permite constatar o fato de que todo mundo escritor, ator, professor, e outras capacidades mais, não tem suas habilidades instaladas como se estivesse programando um robô, as competências são construídas com leitura, reflexão, escrita, ação e paixão por se dedicar sem lamentar abrir mão dos convencionalismos da vida cotidiana dentro da média.

Nos anos 90, a graduação permitiu a entrada em uma nova fase, a acadêmica, fora dos padrões como sempre, colaborou na rede pública e privada, conviveu com inúmeros perfis, assim como fazia na adolescência, conciliou o teatro e a literatura, conheceu de perto as mazelas educacionais e as possíveis contribuições para amenizar o caos estrutural nesse sistema. Na década seguinte, o mestrado e o doutorado possibilitaram um embasamento teórico e uma sistematização mais complexa das ideias sempre latentes, resultado em obras-primas como “Chico Science e o Movimento Mangue” (2022), leitura obrigatória para quem deseja maiores compreensões do movimento Manguebeat e como o mesmo reverberou no cenário cultural de Recife, no Brasil e internacionalmente.

Nessa fase mais atual, como Professor, Mestre, Doutor e docente na Universidade de Pernambuco e na Universidade Estadual de Alagoas, também adentrou na produção de Literatura de Cordel, além de permanecer cultivando os outros gêneros e constituindo uma produção farta e rica para leitores que desejam conhecer essa parte da produção contemporânea de nossa literatura.

 

Em 2023, Moisés tem o seu romance Palimpsesto lançado pela editora Paradoxum.


A biografia que escreveu sobre José Francisco Filho, a convite do SESC, causou certo frisson entre os iniciados na história do teatro no Recife e nos cursos de formação do trabalhado em cênica na UFPE e na produção teatral nos últimos 50 anos. Esta obra não irá abarcar a totalidade do biografado, porém, irá compor narrativas nas quais a vida pessoal, literária, teatral e docente compõe um mosaico biográfico rico em reflexões crítico-literárias e filosóficas.

 


José Manoel, Mônica Lira, Moisés Cida Pedrosa e JFF, lançamento de Caleidoscópio, na UFPE, em Congresso Internacional. Abaixo entrevista sobre os lançamentos, com o jornalista Manoel Constantino, Rádio Frei Caneca (Recife)

 


 

Moisés concedeu entrevista ao jornalista Manoel Constantino sobre os lançamentos

Sobre Moisés, JFF nos deu o seguinte depoimento:

“Recife, 17/04/2024. Olhe, é falar sobre Moisés, sobre o que ele faz, sobre o processo criativo dele. Não é uma tarefa fácil. Mas assim eu vou puxar pela memória, já que eu não escrevi nada. Tudo está saindo espontaneamente. É a partir do momento que eu vou me lembrando das coisas, mas assim, o que me lembra em princípio lógico, de cara assim, pensando na vida de Moisés, é como teatrólogo, como ator, como escritor, é como cordelista. Afinal de contas, é que em 1980, precisamente no início do ano, janeiro, é eu estava com a montagem de Frei Caneca em comemoração aos 400 anos da chegada das carmelitas ao Brasil. Foi um espetáculo maravilhoso. Viajamos muito, demos espetáculo na Paraíba, aqui acho que fomos até Salvador, não tenho certeza. Mas enfim, precisamente 1980. Isto é, exatamente do mesmo ano em que eu fiz o concurso e entrei como professor da UFPE. Então, Moisés participava dos ensaios e do movimento todo. Participava do movimento todo da montagem de Frei Caneca e ele, se eu não estou enganado, fazia uma figuração ou participava da contrarregragem do espetáculo quando nós estávamos na igreja do Carmo de Olinda. E eu me lembro que em determinado momento, faltando 1 hora para começar o espetáculo, alguém faltou do elenco. Eu não me lembro de exatamente quem era. Talvez fosse um personagem bom, principal, mas que não tivesse fala. E então eu não sabia o que fazer, porque aquele personagem era muito importante. E aí eu lembrei que Moisés estava sempre por lá, todos os espetáculos, e eu saí correndo, procurando. Ele estava lá pela frente da igreja, qualquer coisa, e eu não pedi. Eu dei uma ordem: entre vá vestir tal roupa que você vai fazer o espetáculo agora. Eu acredito que ele tomou um grande susto.

 

Ele ficou muito espantado com a situação e também não tenho certeza, mas eu acredito que talvez tenha sido o primeiro espetáculo que ele participou integralmente da ação, não da montagem, mas do espetáculo propriamente dito. Ele poderá depois dizer se isso é verdade ou não. Mas isso ele era muito novo. Ele tinha acho que 16 ou 17 anos. Ele sempre circulou nesse meio teatral, no meio do cinema, do teatro, da dança, os bares, as conversas. Em suma, ele sempre foi uma pessoa muito curiosa. Usar pelo menos no início de tudo, ele era muito curioso, ele prestava atenção a tudo, ele ia para os ensaios, ele via os espetáculos. Ele estava sempre é rodeado de pessoas de teatro que já tinham 10 anos a mais do que ele, já eram pessoas formadas em direção em ator, atriz, contrarregra. Enfim, ele sempre conviveu nesse meio. Então eu acho que aí ele foi absorvendo, né? Foi triturando, foi separando o que era proveitoso para ele, o que não era proveitoso, e daí ele seguiu a carreira dele. E assim eu me identifico muito com esse começo dele, porque foi isso que eu fiz em 1960. Final de 60, começo de 70, quando eu ia ver os ensaios. É do teatro popular do Nordeste, o TPN, com direção de Hermilo Borba Filho, depois de Rúbia Alchafilho, depois de Benjamim Santos que dirigiram o TPN. Eu me lembro que eu ficava, pedia licença para ver o ensaio e ficava lá, sentadinho, quieto. Eu achava aquilo tão bonito, eu achava lindo, dirigindo um espetáculo, uma coisa tão linda, aqueles atores já prontos, já profissionais, recebiam o seu cachê pelos espetáculos. Eu achava aquilo uma maravilha, eu ficava encantado e então o Hermílo vez por outro, ele pedia alguma coisa, exemplo: Para eu pegar uma dose de uísque num barzinho ao lado do TPN, Teatro Popular do Nordeste. Eu ia pegar, perguntava se ele queria mais alguma coisa. Em resumo, eu procurava estar do lado dele, como se eu estivesse bebendo, comendo o que ele dizia, o que ele fazia, forma que ele dirigia.

Quer dizer, a minha escola foi uma escola de aprendizado, no sentido do visual, não do prático. Eu acho que Moisés foi a mesma coisa. Ele começou vendo, estando presente nos locais até que, definitivamente, ele enveredou para a dramaturgia, para escrever o que ele faz com a propriedade única. Eu, às vezes brincando, digo que as coisas são psicografadas, porque se você pedir para escrever um texto hoje, amanhã ou depois de amanhã, o texto está pronto. Pode ser a temática que você quiser, pode ser sobre uma grande personalidade brasileira ou Internacional, pode ser uma comédia, pode ser uma tragédia. Por fim, ele tem uma facilidade de jogar com as palavras, com as ideias, e ele faz

 

isso muito bem feito. Eu como sou um diretor. E já dirigir uns 4 textos dele. Um dos quais o Bento Teixeira. Depois eu dirigi Anjos de fogo e gelo. E eu dirigi A Nova Branca de Neve. O dirigi em A última noite de Kafka, um texto de Cláudio Aguiar, e também como Pilatos em Paixão de Cristo, texto de José Pimentel, enfim, a partir daí, ele sempre esteve presente no meu trabalho profissional de diretor.

E ele como escritor, ele como teatrólogo, os textos dele? Ah, então, eu vejo muita semelhança nesse nosso começo. Só que isso tem um tempo de 20 anos, no mínimo. Não é entre o meu começo e o começo dele. Evidente que ele é. Tem bem menos idade que eu e bem menos tempo. Ele começou muito cedo. Ele começou a vida artística dele vendo, fazendo, bebendo. Era como se aquilo fosse um alimento para ele conviver com aquelas pessoas toda, viver todos os espetáculos. Conseguia um convite e entrava por detrás, entrava pela frente do teatro. Mas ele estava presente, tanto é que hoje em dia, quando eu converso com ele, que é um prazer, nós conversamos muito aqui em casa ou por telefone. Ele me lembra de coisas que eu não me lembro, não me lembrava. E ele lembra com a memória privilegiada que tem. Ele lembra de espetáculos de Zé Celso, é de espetáculos que estiveram aqui em Recife e que eu devo ter visto, vi naturalmente e que não me lembro. É evidente, né, que eu tenho 56 anos de teatro, estou fazendo esse ano, e ele deve ter uns 35. Então há um hiato de tempo entre o meu começo e o começo dele.

O que me surpreende é, não é só a facilidade que Moisés tem de escrever, seja poema, seja cordel, seja um texto teatral, seja um conto, seja um romance. Ele tem uma facilidade, é mediúnica. Eu diria assim, eu digo até brincando, mas é porque é impressionante a facilidade como ele joga com as palavras. É de uma maneira rápida, eficaz e eficiente.

Agora eu só tenho a dizer que cada dia mais os meus laços de amizade, de afeto com Moisés, continuam crescendo cada dia mais, porque ele é agradabilíssimo para uma conversa, para um papo. Ele tem sempre coisas novas e engraçado que sempre que eu converso com ele eu aprendo alguma coisa nova. Deveria ser, por uma questão de tempo, o contrário, né? Mas também eu acredito que ele sabe, através dessas nossas conversas, muita coisa da década de 60, de 70, que talvez ele desconheça. Como eu sei muitas coisas através dele que eu também desconheço. Então, essa troca de saberes entre mim e ele faz com que os nossos papos, além de divertidos, sejam papos de saberes,

 

de troca de saberes. Então, é basicamente o que eu tenho que dizer: Moisés é uma pessoa rápida no que faz. Ele é uma pessoa muito objetiva nos textos dele. E eu acho que os diretores pernambucanos deveriam montar mais, embora que muitos já o tenham feito, como Carlos Bartolomeu, Rudimar Constâncio, Carlos Sales, Augusta Ferraz, Adriano Marcena, para citar apenas esses. Nem que fosse os contos dos cordéis. Então eu só quero dizer que Moisés é muito importante para a dramaturgia pernambucana, brasileira e espero que ele seja também para a dramaturgia internacional. São os votos que eu faço pra quem está com esse livro. Quando tendo esse grato prazer de escrever a biografia de Moisés, que não é algo fácil, é muito difícil pela quantidade de coisas que ele faz ao mesmo tempo, pela quantidade de lugares que ele circula, pela quantidade de palestras, sem falar na parte acadêmica dele, que ele gosta muito, ele tem um prazer muito grande em ensinar, em passar o conhecimento dele, os saberes dele. Então eu acho isso fantástico, porque ele transita por todas as áreas, ele transita em todas as tribos. Ele vê tudo o que acontece de teatro, de cinema na cidade. Então a biografia dele acredito que vai ser muito farta e vai ser muito importante para as pessoas que estão começando agora, ou mesmo as que já começaram um pouco antes, mas que desconhecem. Sim, é essa versatilidade que Moisés tem. Um abraço em que está lendo e nos que escreveram esta bio de Moisés”.

 


O homem que se anuncia


A ventania, que viola as frestas das inúmeras janelas que se abrem para o contar da história-estória desenhada nestas páginas revoltas, carrega em torvelinho uma profusão de ventos imemoriais.

A pergunta primeira que se arqueia, sobre o halo que ilumina o turbilhão de tantas palavras juntas, delata uma busca de incalculáveis matizes: como fazer caber em uma urna maciça de papel escrito, a que chamamos de livro, tudo aquilo que descreve tanto a construção (e desconstruções) quanto o caminho (e descaminhos) da vida de um homem?

Eis a anunciação assustadora e inquestionável que se pronuncia como germe de resposta: um homem é uma fenda gigantesca, um rasgo no tecido espesso do existir, um rompimento do lacre do possível, e por consequência disto, a personificação do jorro latente de possibilidades sobrepostas que vão se costurando umas às outras em um frenesi de inícios, fontes, raízes, ramos, rumos, referências, assombros, influências, que vão moldando e remoldando a crueza do barro sanguíneo que as mãos misteriosas e invioláveis do tempo esculpem aquilo a que chamamos de gente. Eis o homem.

 


 

2- Prólogo


A voz que ressoa nessas páginas traça um fio condutor capaz de narrar a longínqua trajetória de Moisés Monteiro de Melo Neto. As palavras, aqui expostas, omitem, escondem, revelam, fazem aparecer e disfarçadamente margeando a imaginação tenta transpor a experiência vivida pelo exímio ser humano que ousaremos apresentar nessa biografia. São ecos, vozes, imagens, cores, gestos, atitudes e pensamentos deslizando nas memórias desses que escrevem. São reminiscências. E há um silêncio... Este livro é um convite para o mergulho profundo sobre biografia, autobiografia, ficção e autoficção.

Assim, essas palavras procuram alcançar sentimentos, pensamentos e expressões identificados no palco da vida. É lá no palco, aqui, nessas páginas e certamente no seu próprio pensamento leitor que está vivo Moisés Monteiro de Melo Neto, homem das letras que foi enterrado vivo e aqui se eternizará sua memória. Logo, este livro traz a tentativa de capturar sua voz, suas raízes mais profundas e mostrar um pouco da sua mundividência, transmitir a experiência real de estar vivo, movendo-se pelo tempo.

Como declara Moisés: “E o que parece gritar nas falas estes relatos é o ritornelo; biografia exige imaginação! O autor vai se engalfinhar na personagem, o que não deixa de ser tocante a qualquer ser humano, tão cheio de histórias, cada indivíduo, observar os entrecruzamentos na estrada da vida, pois on the road estamos todos, sempre, ao mesmo tempo, caçador e caça. A biografia dá o senso de grandeza? O que fazem com suas marcas ideológicas? Será possível encerrar um ser humano num livro? A biografia e o biografado são coisas semelhantes?”

O ser humano é incompleto. A falta é parte fundamental para a existência. Qual é a sua maior falta? Ausência? Tudo no universo é incompleto, talvez mais o Humano, porque pensa sobre si. É o único ser que faz isso. Aonde Moisés vai, vai completo. A catedral dentro dele está sempre pronta para mais uma prece. Sua Literatura o afasta de uma solidão pela incompletude.

 


 

Moisés com um professor e escritor que ele gosta muito: Rildo Cosson, que trata como poucos a literatura ao apresentar o letramento literário, daí propõe a sequência de leitura considerando quatro etapas: motivação, introdução, leitura e interpretação.

Acompanhado por muitas referências, pessoas influentes e de poder na sociedade, sua vida é resultado ou processo de múltiplas ideias, experiências. Qual o princípio/valor que defende que mais se confronta com o outro? Liberdade. Confronta-se sempre com MAIS LIBERDADE para fruir melhor tudo que há e não há, shakespearianamente falando, é claro. Digressões e rupturas compõem Moisés que pisa nos astros refletidos na areia da praia. Distraído. A praia que nasce com ele, essa água que falta e logo é recuperada, ou sempre esteve e se afogou nesse mar em tempestade.

Afável, intenso, dialético, dilacerador e impermanente. Sabe-se muito pouco sobre sua identidade. Mas o que diria sobre si mesmo frente ao espelho que cristalizaria sua imagem, numa captura que eternizaria o conhecimento de si? “Meu Deus, minha Virgem Maria, meu Jesus, como começou a vida no Universo? Por que Moisés você tem que ler e escrever tanto? Por que você ama tanto o teatro? O que você mais gosta no sexo e por quê? Por que você pensa tão rápido sobre si e sobre os outros? Por que cria tanta ficção? Por que ama tanto os estudos sobre literatura e os grandes autores da Literatura? Por que não trata as coisas de modo mais simples, como Alberto Caeiro, por exemplo? Para que tanta sede de saber? Tanta ânsia? Se todo o mistério pode ser explicado com um simples 'amanhã eu penso sobre isso'?”, assim declara Moisés.

Sabe-se muito de nós mesmo quando conhecemos a nossa herança genética e nossa educação familiar. O que tens a nos dizer sobre sua genitora

 

(mãe)? “A mãe tinha uma inteligência primorosa”, segundo ele nos disse. Neta de italianos, casou-se com neto de uma indígena. Ele a viu, quintal com quintal, em Campo Grande, bairro do Recife e pensou, aos 17: “Uau, que loirinha linda!”. A mãe de Moisés era de uma displicência cósmica, ele afirmou, intuitivamente de uma religiosidade tão intensa que o salvou, quando ele nasceu para a devoção e prática da fé, aos 22 anos, conduzido por sua mãe-princesa Célia de Lourdes Peixoto (antes do casamento: Célia de Lourdes de Belli Peixoto, órfã de pai militar, sangue italiano de Nápoles, por parte de mãe). A mãe de Moisés, depois dos 20 dele, passou a orar muito por ele. Faleceu em 2016, por um erro médico, no Hospital da UNIMED (na Praça da Chora Menino, no Recife).

Sempre visível em meio a manadas, sua presença atrai interesses diversos. O que (a)guarda no coração um homem que já escreveu várias estórias e viajou o mundo? Pulsa amor? Nem guarda, nem aguarda nada, o tal Moisés. Ele usa o instante-já como sua ferramenta mais preciosa. Ele faz a hora, pouco espera o acontecer. Superando as armadilhas do amor, ele o pratica em cada coração que pulsa junto ao seu. Com gotas da pop filosofia Andy Warhol (um dos seus artistas favoritos, dentre os que recebe influências, até hoje), com algumas ideias sartrianas (etc.), Moisés, um globe trotter assumido, não se refestela no comodismo. Moisés sabe que se você souber porque ama alguém, não é mais amor, é interesse. Moisés ama intuitivamente, e se entrega quase completamente a novas e mesmo antigas relações, renovando as afinidades eletivas no seu espírito. Seu “casamento” aberto durou cerca de 14 anos e deixou marcas oníricas estranhas, canais, espirituais, cênicas, ficcionalizadas por ele, um poeta da Paixão mais ardente e frases que guardam sempre muitas informações em poucas palavras (este, aliás, é o seu lema favorito: o máximo com o mínimo de palavras; mas ele fala muito, prega no deserto, na maior parte das vezes, como nos declarou em entrevista para essa biografia).

Longe do Clube dos 27 (seu número favorito), que já contava com membros como Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain, lá o encontraremos agora, nos topos de Delfos, ao redor do que era o oráculo mais famoso da Grécia, Moisés Monteiro de Melo Neto, com aquele enviroment, passou por uma espécie de epifania nos moldes claricelispectorianos: pela manhã fora

 

agredido nas redes sociais por duas pessoas de seu grupo e recebera advertências muito desagradáveis do seu diretor. Os dois colegas, um deles chegara a frequentar à casa para ensaios. O que trouxera Moisés de volta à condição de ator, fora o personagem e o molde de montagem. Pilatos, como antes acontece com o personagem Kafka, fascinava Moisés havia muito tempo.

A viagem a Delfos fazia unirem-se todos os retalhos dos personagens que Moisés interpretara na TV, cinema, teatro. Sua alma convulsiva, sua inquietação permanente, os milhares de livros, peças e aulas na sua cabeça; amores e desamores. O escândalo maior de descobrir que, no casamento, houve ameaças de morte. E esse amor que não morria no coração de Moisés, pela aventura, pela busca do saber acadêmico ou mundano.

Era como se Moisés respirasse a Vida naqueles ares onde antes o vapor que saía do interior da terra avisava aos gregos sobre o futuro e o que fazer para evitar desgraças maiores, ou, até, como apreciar as coisas boas que venceu. Aquela palavra viajava rápido na mente de Moisés: traição! Teria ele mesmo se traído ao se entregar sem reservas? Às pessoas com as quais simpatizava? Ah, mundo velho!

O que fazer? Vingar-se? Não. Sabia que a vingança tem preço mais alto do que ele poderia pagar, se quisesse. Como agir? Várias possibilidades, decidiu continuar no grupo, ensaiar o resto dos dias e fazer temporada. O semestre na universidade onde ensinava estando próximo do fim; viagem marcada para o Passageiro 27. Hora de se reinventar. O conhecimento por empirismo. Férias! Olhando o imenso anfiteatro, sentiu-se, no centro do palco como ator, naquele palco nu, sem urdimentos, pano, nada, milenar. Lembrou-se das cortinas, como no dia da sua estreia, se abriram no Teatro Valdemar de Oliveira, Recife, e ele fizera uma temporada de sucesso ao lado de Geane Bezerra, Augusta Ferraz, sob a direção de Buarque de Aquino; logo a seguir o teatro foi incendiado numa peça de Paulo Baixinho (de Castro) “Maria Minhoca”, no ano que John Lennon foi assassinado. Moisés já tinha saído de Boa Viagem e morava no Edifício Marajó, Rua João Lira, Boa Vista, ao lado do Parque 13 de Maio.

Delfos lhe trouxe de volta sua alma original. Moisés rejuvenesceu e sentiu-se como mármore. Registrou suas emoções no gravador de phone.

 

Falava consigo mesmo como se fosse um amigo. Exercício este que ele usava sempre na hora das ausências fatais daqueles que deveriam ajudá-lo. Há um duplo nos maiores escritores e artistas do mundo, não poderia ser diferente com essa personalidade que estamos conhecendo.

Se a moderna filosofia começou com Descartes, que quase já foi ao Recife, terra de Moisés, convidado por Maurício de Nassau, mesmo depois com Locke, Berkeley, Hume, Kant, Hegel e o endiabrado Schopenhauer, foi nos velhos gregos que Moisés mais encontrou consolo feroz, uma maneira mais sua de ver o mundo, como o que Platão contou sobre Sócrates. Tudo estava ali, naquela metonímia ocidental: Delfos. A acrópole e sem pontos afastados, uma misteriosa revelação.

A personalidade de Moisés formulava saídas, não buscar, mas encontrar e saber que o caminho é cheio de oráculos e devemos decifrar os enigmas da vida. Espirituoso, perspicaz, demolidor de fraudes, sarcástico, agressivo, risonho, brincalhão intelectual e erótico, com amor asséptico e ao mesmo tempo gorduroso pelas coisas tanto mais simples quanto mais sofisticadas da vida, ali está no nosso biografado: com todos os instantes que viveu, os que lembrava e os que, nem momentaneamente, esquecia. Carregando sua morte e o que da sorte ele fazia. Um futuro distante aguardava, bem sabia. A efemeridade era sua velha companheira. Moisés parece considerar o mundo uma piada de mau gosto ou uma viagem cósmico-materialista? Cenas do próximo ato da peça trágico-bufa.

Lembrou-se das aulas de Luiz Maurício Carvalheira e Cadengue sobre o teatro grego, e em Buarque que fez parte do coro na montagem de Prometeu Acorrentado, dirigido por José Francisco Filho. Em Suzana Costa, Sônia Bierbard, Isa Fernandes, que, dirigidas por Cira Ramos, interpretaram Fedra, Elektra e Antígona, na versão moisesnetiana, em “Três tristes gregas”.

O chão de Delfos; aqueles picos gelados de janeiro. O antigo apogeu e as ruínas monumentais e preservadas ao sabor dos milênios. A miséria da humanidade presa à terrível vontade de viver, Moisés admirava em alguns poetas antigos a sofisticada indiferença, como em Byron que lutou pelos gregos contra os turcos, como Moisés vira, dias antes, entalhado no mármore do templo de Netuno, à beira-mar, próximo a Atenas.

 


 

Goethe e o suicídio de Werther, tão inspirador... ah, quantas cenas da vida de Moisés passavam na cabeça dele. Batidas de porta, estreias, aulas magnas. Até as bancas da primeira escola, com sua tia Maria de Melo e Dona Tereza Andrade a primeira em Boa Viagem, a segunda Campo Grande, bairros da sua infância, agora como professor, há algum tempo, na Universidade de Pernambuco. Tudo se completava ali como se a memória fosse um gigante entre os minutos anões.


Colégio onde Moisés estudou o Fundamental 1, na rua São Félix, bairro de Campo Grande, Recife (PE)


“Saia da ingenuidade, amigo, desperte!”, parecia-lhe o oráculo lhe aconselhar. A vontade universal é cega. Destituída de objetivo! Resta-lhe, Moisés, a renúncia expressa na compaixão por nossos irmãos sofredores. Toda a miséria e sofrimento de mundo só podem terminar com a morte. Moisés sentou-se na imensa plateia daquele teatro ao ar livre, onde milhões de pessoas sentaram-se, milênios antes. E assistiu à peça sobre sua vida com atores imaginários onde ele e outros dramaturgos teriam as tramas sobre a sua existência encenadas: Shakespeare, Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna,

 

Eurípedes, Sófocles, Plauto, Aristófanes, Luiz Marinho, Plínio Marcos...


Moisés, no velório do famoso escritor, no Palácio do Governo de Pernambuco. A foto estava na edição digital do importante jornal, Diário de Pernambuco, no dia 23 de julho de 2014.

A compaixão por nossos irmãos sofredores. O teatro como forma de arte mais elevada. Suave música envolveu a alma de Moisés e lhe trouxe um pensamento sinistro: “Deveria um músico sentir-se lisonjeado com o aplauso entusiasta da plateia, se soubesse que eram quase todos surdos (?)”.

Moisés algumas vezes irritava certo tipo de gente com as opiniões provocativas dele. Pensar nisso lhe provocava uma espécie de indignação silenciosa, permeada tanto por ornamentos metafóricos como por omissões personificadas.

As excentricidades artísticas moisesnetianas misturavam-se, naquele instante-já as lembranças de Fernando Pessoa, poeta-maior para Moisés, o Zaratustra, de Nietzsche. Havia tempo que nosso biografado estava preso à sua rotina, permanecia excêntrico, como sempre; vibrava em segredo, seu humor corrosivo teria deixado mais uma vez seus colegas de trabalho enfurecidos? Ter tido tão pouco tempo para os ensaios? Não. Não deviam ter falado com ele daquele modo. Ser crítico num mundo de alienação perversa é propor uma abertura para desfazer da convicção que assola a dureza da verdade. Eles não prestavam.

Perdoá-los? Com certeza: perdoar os outros era, para ele, perdoar a si mesmo por qualquer falta de um afeto maior. Delfos fez Moisés, como tantas

 

vezes acontecera ver além do mundo das aparências, olhando para dentro de si mesmo. A efeito desagregador do que Moisés diz já seduziu muitos leitores, espectadores, seu ponto de vista contamina certo tipo de pessoa. Moisés difere de todos os autores do Recife. Nunca se pensou em termos nacionais ou internacionais. Parece uma Hamlet- Quasímodo recifense? Delfos dizia que não. Que não era assim, mesmo. E a poesia, drummondianamente se debatia com força dentro dele, ali, num movimento turning point.

Um niilismo anárquico de lavra semelhante ao Fausto, e Thomas Mann, artista enquanto jovem, de James Joyce, Vladmir e Estragon à espera de Godot, de Samuel Beckkett ou ainda mais misterioso: o dramaturgo trágico em “A gaivota”, de Tchekhov; gritava-lhe soluções para as questões tanto sociais quanto individuais. Pensava que a única forma de resolver o problema dos pobres era dar-lhes tudo que quisessem: isso logo os convenceria da frivolidade de tantas coisas, a frivolidade da vida e aí encarariam o problema da existência individual; coisa perigosa

O que fazer para não sofrer tanto na vida? Poderia estar se perguntando, como se pode ler nos diários transcritos e a partir do ouvir dos áudios que ele gravou em Delfos; no vídeo também, percebe-se pelas expressões dele nas fotos. Ele parece subverter sua ideia de vontade; em vez de o mundo ser conduzido por um mal cego que só poderia ser combatido como recolhimento ascético, ele decidiu-se, novamente, por uma vontade de potência, e assim em festa alguém, o dramaturgo, pesquisador e professor Moisés Monteiro de Melo Neto, ariano do dia 27 de março, nascido na Avenida Conde da Boa Vista, na capital pernambucana se decidiu: Moisés misturou a sua inquietante leitura de Wittgenstein, que estava ali, na mochila, acomodado de modo místico num impactante e dúbio pessimismo, escreveu no seu diário digital: “sobre aquilo que não posso falar, devo calar”. Deu um giro de 360º, segurando uma maçã, que seria o seu lanche, retraiu-se em obscura e invisível vontade, e supôs-se permanecer para sempre além do nosso entendimento. Vida, esse mistério inescrutável, apesar do que a ciência nos ensina, enigma ao qual a Natureza não responde.

Se a natureza não dá resposta, o que fazer? Reformular a pergunta?

 

Moisés não aceitava hipóteses limitadas e combinava as suas, principalmente nas que eram contraditórias em si mesmas. Pensava assim sobre os que o agrediam, punha-os em cadeia de fundamentos e consequências, tentando sondá-los, era na esfera deles que Moisés procurava respostas, eles representavam outros tantos que o prejulgavam. A coisa em si era a vontade, ele queria jogá-la neles. O filme da sua vida passou no seu cérebro frenético, em detalhes que fariam a relatividade de Einstein parecer tartaruga de fábula. Contra a representação ele buscava o ponto dentro de si, sabia que até o seu corpo era representação.

Estar consciente dos anseios que dão origem a essa representação, isso era sua vontade, apenas dentro dele, ali, no interior da Grécia Antiga, ele sentia esse duplo conhecimento de vontade e representação. Moisés sentiu que precisando de mais uma chave para abrir as portas do conhecimento sobre o caráter humano, teria que ter consciência de maneira dupla. Abolindo o corpo como representação o que restaria do teatro humano? Algo como aquele palco grego ao ar livre, como o teatro de Delfos, imenso? Pegou a garrafa de água e tomou um gole de vinho caseiro da região. Proibido. Transgressor vivo.

Fora até o fim do projeto com seus colegas. Sentiu pouco prazer e demorou para extrair daquilo algo de útil. O que é unir os fatos da existência de uma pessoa? É o que me pergunto enquanto biógrafo de Moisés Monteiro de Melo Neto. Peguei muita coisa no site dele, no blog, no que tem na net, li parte dos seus diários. Ele foi meu professor, prefaciei livro dele, conversei com ele, mas não o conheço, não, ele apaga rastros decisivos. Eu não sei, há algo que me perturbou, por isso fiz dele o meu primeiro livro. Um exercício cubo-dadaísta, talvez; a vida é curta, nosso conhecimento dela é dramaticamente limitado; antes do nascimento e depois da morte: o que há? Quis acender uma centelha passageira no meio da noite, lutar feito São Jorge contra o dragão que quer limitar nossa sede de saber e se regozija com nossa inquietação

Naquele fim de tarde, em Delfos, Moisés se levantou, seguiu rumo ao carro, com passos firmes como se rumasse ao resto da sua vida naquele primeiro dia, sabendo, que o mundo não foi criado por um intelecto, que é, sim, incognoscível, ou melhor, inconcebível? A morte nos restitui a nosso estado

 

natural. Compadeça-se de quem lhe ofende. Sejamos peculiares à nossa essência verdadeira, diferente do fenômeno que é viver como homem. Ah, se pensássemos sempre no bem de todos! Eu gosto de Moisés Monteiro de Melo Neto e vou contar a história dele passando por seu trabalho, agora. Apertem os cintos, é uma leitura sacudida.

Será Moisés o herói da sua própria trajetória? Não precisamos responder nada aqui, logo no começo, caberá ao leitor, que se debruçar sobre estas páginas, decidir se essa previsão se confirmou ou se desmentiu, pois nada pode demonstrar melhor que sua própria história.

Para conhecer Moisés, talvez seja bom conhecer a cidade onde ele viveu a maior parte da vida, e nasceu, a famigerada Recife, cidade anfíbia, cidade com possibilidades mínimas para absorver imigrantes. Aliás, o proletariado ainda era mínimo no início do século XX. Cidade autofágica. Capital do escárnio com concentração excessiva de população “amontoada” em mendicância e criminalidade, onde o bem e o mal não podem se separar na gritaria dos espetinhos com som a toda altura na madrugada adentro e camelôs bloqueando as calçadas da maior avenida do centro, a do Shopping Boa Vista. De cosmopolitismo pré-capitalista, sem política sanitarista ou habitacional adequada e com demora a ter literatura urbana, por exemplo. No auge de reforma urbana (década de 1920), morava nela Clarice Lispector (até a adolescência, desde a infância); a Manguetown de Chico Science que até os anos 90 relutava em aceitar a ruptura com o passado; melancolia e “frege” (fogo interior acentuado) num só corpo marcado por doidice e sabedoria ancestral.

Cantada pelo poeta Manuel Bandeira, que ficou dos 11 as 41 sem visitá-la; foco de nostalgia de um tempo perdido em vão, patriarcal só na fachada, cheia de um distanciamento que nem Brecht conseguiria definir. Recife e seus intelectuais de província ainda de vinculação telúrica que veem nela admirável harmonia agridoce. Cidade com história pitoresca onde o símbolo mais forte é a pisada frevo e do maracatu (atômico?) que chega até ela vindo de carnaval delirante; aridez sendenta na maré seca que faz o Rio Capibaribe exalar o fedor do meio dia.

É bom lembrar: Moisés adora passear pelo Recife nos dias de carnaval. Manhã, tarde ou noite. Shows, desfiles ou simples rolê. Sua cidade se reveste de

 

pura magia e estrelas. Abaixo temos algumas fotos do carnaval de 2024.




Dançando ao som de Cataria Dee Jah, China e Cassio Sette, no Pátio de São Pedro. O ex- Sheik Tosado trouxe um show incrível e ela operando a galera na batida ácida, numa trilha meio lisérgica, pop, rock etc.

Cidade esplendor, a do recifense Moisés Monteiro de Melo Neto, também. Rios, praias (cheias de tubarões por causa do porto de Suape). Defeca-se, urina-se e cospe-se muito nas ruas do centro. A população mais pobre joga lixo, muito, nas ruas, calçadas, e ensina às suas crianças este horror.

Cidade das revoluções e batalhas históricas. De holandeses e outros povos, indígenas, africanos, chineses, árabes... Todos os povos no jogo, cabo de guerra entre permanência e transformação, nesta cidade de sobrevivência, transcarnavalesca, tragicômica, frenética e intelectual, cidade de muitos teatros. Mundo em dissolução, coqueiros, amoródio. Terra da evocação e penúria; ostentação e sacanagem pesada, assassina e solidária, extremamente simples em sua inextrincável complexidade pós-barroca do Deus me livre e a Virgem Maria me proteja. Machista com apoio e repulsa interna. Homofóbica onde pulula a homoafetividade. Voluptuosa na procura de si mesma. Solta e bárbara, nas suas bases psicossociológicas; instintos libertos do império da razão. Recife cheio de conveniente amnésia, memória, tradições, metrópole-caranguejo pós-moderna para trás, para os lados, para o futuro digital mais ousado e inesperado, talvez.

 

Os que habitam e circulam nos espaços públicos de Recife de Moisés Monteiro de Melo Neto trazem o orgulho dos mocambos que Gilberto Freyre teve (30 mil, em 1920). O coração recifense se retrai de vaidade “Diabo leve quem pôs bonita a minha terra”, disse Manuel Bandeira. Ah! E as gotas de som? Os gritos de metal o silêncio da treva? O pátio de São Pedro? O mar de sonhar? O desequilíbrio burguês recifense? As sacadas dos antigos sobrados? Os fantasmas? Os úmidos véus? As fantasias pregadas à cruz? As madrugadas frenéticas dos guetos? Os casarões de Casa Forte, coberturas, luxo da avenida Boa Viagem? Recife zumbi? Moisés Monteiro de Melo Neto vaga, anda apressado, ensina, encena/vive ainda, muito, ali. A rua Mamede Simões dos artistas. E a macumba que o turista não vê. A atmosfera do maravilhoso, as máquinas, o conflito, guerra do dia a dia. O abismo, a consciência da crise, a secreta arquitetura, o modo surrealista, o grito dos camelôs pela sobrevivência na malvadeza linda e feia?

A cidade poética longe das regiões sul e sudeste, que a menosprezam, do Norte, que não a justifica, ainda. A modernização desta cidade parece não lhe afetar o âmago feroz/ carinhoso dos seus habitantes. Recife é Moisés Monteiro de Melo Neto; enérgica saúde, enfermidade coletiva, duro na guerra sutil. De olho em quem se aproxima, indiferença ao se revelar na autobiografia coletiva. Recife tem corpo e alma. Nos seus becos tortuosos, suas amplas avenidas, sem cheiro de fruta passada, sentimentos afetivos; gozo e dor, assombrações e rezas. Seus escravos e senhores; o amaciamento da dominação. Luz, calor e sol. Lamentos e exaltações. Cidade híbrida gerada nos trópicos, conciliação de tantos contrários, etnias, classes, culturas. Militância e alienação. Furor. Em 1968 já eram 80 mil mocambos.

A bonita Recife busca estado conciliatório aos duros golpes que sofre em meio a uma tradição forjada no purgatório pré-cosmopolita, ainda? Se reconstituíssemos o passado sentiríamos os odores mortíferos dos pântanos; se caminhássemos por suas velhas ruas, ou talvez na Valdi Correia e Almirante Tamandaré (Setúbal da mítica infância/ adolescência de Moisés), Jerônimo Vilela (em Campo Grande, primeiros anos de Moisés que conheceu ali os cinemas Éden e Vera Cruz, cinemas de bairro), João Lyra (quando Moisés se

 

mudou para o centro da cidade, 1981), Bispo Cardoso Aires (onde fundou o grupo de teatro Ilusionistas com Augusta Ferraz e outros companheiros), rua Gervásio Pires (onde tem um apartamento), Rua Jangadeiro, em Candeias (onde participou do grupo Trapézio de teatro), na avenida Cláudio Gueiros (no Janga), talvez víssemos por ali Moisés meio Augusto dos Anjos na Ponte Buarque de Macedo, tudo torvelinho do tempo, que desfigura, reconstrói e questiona qualquer intimidade protegida na cidade rede de intrigas onde quase sempre é verão.

(II) Os homens de antes


O vento costuma soprar sereno em manhãs de mar calmo. O dia estava claro naquela manhã de outono, como se ainda se despedisse do verão. Não havia tantas expectativas no ar além da brisa corriqueira com suaves lufadas vindas do Mediterrâneo.

Felici de Belli mirava o horizonte. O silêncio esperançoso cintilava no frescor dos seus jovens olhos. Firmes, fixos, e nada titubeantes, mesmo com toda a balbúrdia ao redor, típica dos portos em dias de partida. O seu irmão mais jovem perfilava-se ao seu lado com a determinação e lealdade que somente os laços de sangue permitem.

As preparações costumeiras de viagem já tinham sido arranjadas. Umas poucas peças de roupa que tinham, um punhado de poucos objetos que poderiam precisar, alguma provisão de comida e bebida. Os irmãos Belli haviam decidido que iriam se aventurar de qualquer forma, e que enfrentariam as dificuldades que tivessem de enfrentar para conseguir chegar no destino pretendido e atingir os objetivos que tinham determinados a si mesmos. Eles iriam.

Eles estavam prontos para tudo. E não hesitariam em lidar com as situações mais adversas que eles fossem colocados à prova. E assim haveria de ser. E assim foi. Sem muito dinheiro, mas cheios de esperança. Era só o que lhes restava. E não pensaram duas vezes em empreender aquele sonho que já os consumia fazia tempo.

 

O Brasil. A pátria da esperança. O lugar onde todos os sonhos se realizavam. As narrativas que se ouvia dos que haviam se aventurado e tinham obtido sucesso só aumentavam as expectativas e esperanças. A terra da fartura e do sucesso. Muito diferente do que deixariam para trás.

Não havia aquele que houvesse tentado e tivesse conseguido prosperar e construir uma história de realizações cujas conquistas só beneficiavam e salvavam das imensas dificuldades as famílias que deixavam à espera de notícias redentoras. E estas vinham em sua grande maioria. Eis o que motivava a coragem e a incerteza de aventurar-se na imensidão do mar e das suas adversidades. Cruzar todo um oceano era como cruzar o mundo inteiro.

E assim não foi diferente para Felice Di Belli. Acompanhado de um irmão mais jovem, para que não morresse sozinho na solidão do mar bravio. Eles eram de uma família grande. E que estavam passando necessidades extremas, e pouquíssimas possibilidades e oportunidades de melhora.

Ali não podiam ficar. Do jeito que as coisas estavam, eles enfrentariam cada vez mais privações. E os mais jovens e dispostos eram os únicos que podiam lhes tirar daquela situação extrema. Naquela época, a travessia do atlântico levava um tempo mais do que necessário para imaginarem, entre planos e sonhos, o que poderiam realizar e construir além do horizonte que vislumbravam.

A saída de Nápoles os levaria até o estado da Paraíba, pois era o ponto mais próximo de se aportar vindo da Europa. Esta foi a porta do Brasil para os Belli. O ponto de partida onde começariam a trilhar caminhos no seu “novo mundo” e desenhar novas histórias, fazer florescer novos começos, plantar novas sementes. E assim foi.

Felici fora desde sempre bom para os negócios e não demorou para se destacar como um promissor mascate, que nas chamadas “terras de dentro” era uma atividade de lucro certo e retorno garantido. E ele vinha com a determinação para trabalhar e dar o máximo de si mesmo no que dependesse para prosperar. E ele estava certo. Ele logo prosperara em inúmeras atividades como negociante, até que abriu um ateliê de uniformes para funcionários de fábricas e funcionários de diversos tipos de empresas. Esta foi a atividade que o

 

levou a fazer fortuna e se tornar um homem respeitável como próspero empreendedor, tendo a cidade de Cabedelo no interior do estado da Paraíba o local onde estabeleceu o centro de sua reconhecida e respeitada prosperidade, o que o leva – entre outros méritos e famas –, a ser uma a autoridade máxima e representante oficial do seu país de origem, quando assume o consulado da Itália na Paraíba. Aquele jovem sonhador, que mirava o horizonte no porto de Nápoles ao embarcar para o Brasil, havia superado as suas próprias expectativas. Ele vencera. Os Belli ficaram raízes na nova pátria e logo expandiram os horizontes dos seus destinos.

Na trilha da genealogia do “homem em si” a se tornar a figura central de toda esta nossa narrativa, nós partimos de Felici que casou com Henriqueta, cujo filho mais novo – dos nove que tiveram –, chamado Diocleciano casa com Maria (Iaiá), que tiveram três filhas, dentre as quais, Diomar, que casa com o garboso militar Mário, e que vêm a ser os pais de Célia. Guardem bem este nome, pois ela será o fruto da linhagem dos Belli que se fará raiz materna daquele a quem perseguimos.

 


 

3- As raízes de Moisés Monteiro de Melo Neto


Família Belli: o bisavô materno de Moisés, Felici, veio de Nápoles, o nome BELLI tem origem na região do Tyrol. A Itália teve dificuldade em seu território, depois do Império Romano, foi ocupada por muitos povos sob fortes poderes políticos e religiosos. Criada como nação em 1860, com a exclusão da Áustria de Nápoles (por Garibaldi).





À esquerda, os bisavós de Moisés Monteiro de Melo Neto com as três filhas: Terezinha, Diomar e Henriqueta de Belli






A história de Moisés Monteiro de Melo Neto começa com a chegada ao Brasil de Felice de Belli, que se estabeleceu na Paraíba para trabalhar como vendedor. À custa de muito trabalho, ele enriqueceu e se tornou Cônsul da Itália na Paraíba. Casando-se com Henriqueta da Silva, gerou os filhos: Nicola, Felice Júnior, Dante e Beatriz (gêmeos); Carmela, Elvira, Júlia, Galileu e o caçula Deocleciano (bisavô de Moisés Monteiro de Melo Neto).

Com talento para negócios, o marido de Carmela, João Petrucci, possuiu uma das primeiras lojas de automóvel do Brasil. A tia Elvira casou com um italiano da família Grizzi, ele faleceu, e a tia Elvira casou-se com Braz, o irmão dele. É importante ressaltar que o ofício de escritores na família de Moisés Monteiro de Melo Neto começou com seus dois tios: Osíris e João de Belli, poetas paraibanos, e também alguns membros desta família estavam envolvidos com o teatro na capital da Paraíba.

Pelo lado paterno, a família de Moisés Monteiro de Melo Neto tem interessante trajetória: A FAMÍLIA MONTEIRO é descendente de Rui Monteiro, aristocrata português, também do tempo de Dom Afonso Henriques, que residia na região de Penaguião, onde possuía inúmeros bens. Monteiro

 

casou-se com Elvira Gonçalves, filha de D. Gonçalo Moniz e Maria Anes. Tiveram muitos filhos, que continuaram com o sobrenome e, com certeza, nos legaram além-mar.

Abaixo temos uma colagem fotográfica feita por um amigo que entrevistou Moisés sobre suas duas famílias (materna e paterna).


Os Monteiro de Melo e os Belli


(III) As terras de dentro

A barra do dia ainda começava a se elevar no horizonte quando a parteira saiu do quarto onde uma das mulheres de Pai Neco, uma índia de quem não se lembram o nome, estava dando à luz a mais uma de suas crianças. A parteira encontrou o mítico fazendeiro de Sanharó em pé frente a uma janela por onde ele mirava a claridade do dia tomando conta de tudo ao redor. Ele ficara naquela mesma posição por horas. Lá fora, a frieza da noite típica do agreste pernambucano duelava com a quentura que a terra e as pedras guardavam do sol.

- É um menino.

Pai Neco ouviu a breve frase dita pela parteira como um recado trazido a galope pelo vento soprado através das longínquas pastagens do tempo. Um menino. Mais um Monteiro no mundo. No seu pensamento, aquilo ecoava como as vozes silenciadas de todos os Monteiros que viveram antes dele, e que no choro daquela criança que chegara pareciam voltar juntos, como se nascessem de novo, e continuassem a nascer sempre. E assim nascera Moisés Monteiro de Mello, que viria a casar com a formosa Elisa, que por infortúnio do destino morreria jovem, deixando ainda criança o seu filho caçula, o pequeno Mário. Guardem também este nome, pois ele será a semente dos Monteiro que fará germinar a raiz paterna daquele que vemos brotar neste chão semeado de verbos.

 





Avô e avó de Moisés Monteiro de Melo Neto; ele, Mário, é da família Peixoto Vasconcelos, de judeus paraibanos





Em 1877, dois irmãos saíram da região de Piancó, na Paraíba, com o intuito de fixar residência em outro lugar, por conta de uma grande seca que assolara o Nordeste. Com o dinheiro adquirido da venda dos bens, comprou uma fazenda, numa região de lagoa; o local passou a se chamar “Lagoa do Monteiro”, tempos depois. O segundo irmão, de nome Honório Monteiro de Mello, galgou outros horizontes. Acostumado a fazer parada nesta região, como almocreve que fora, resolveu fixar residência no Recife. Casou com Luzia Monteiro, uma prima. Tiveram vários filhos, dentre eles, José Honório Monteiro de Mello (que, por título comprado, que era comum, passou a Capitão José Honório Monteiro de Mello), Manoel Monteiro (bisavô de Moisés), Ernesto Monteiro, Maria Rita – matriarca dos Monteiro de Arcoverde – Amélia Monteiro, responsável pelo matriarcado dos Monteiro de Lagoa dos Gatos e Caruaru; ainda, Maria Monteiro (prima legítima do avô, José Honório; um verdadeiro emaranhado familiar muito comum, naqueles tempos).

O casal teve nove filhos, criando-se apenas um: Quiterinha Monteiro. Afeiçoado aos amores clandestinos, o bisavô de Moisés Monteiro de Melo Neto efetuou muitas proezas. Dos vários ímpetos a que se expôs, surgiram descendentes outros. A alguns nos achegamos, e outros, disfarçaram tão secretamente a procedência que, ainda nos nossos tempos, permanecem em segredo total. Exímio nadador, o bisavô expunha-se às maiores enchentes do Ipojuca. Em 1914, numa dessas façanhas, contraiu febre amarela, tendo morte instantânea. Deixou razoável legado. Além da casa na cidade, todas as terras banhadas pelo rio que iam, do início da Rua da Lingueta até o terreno dos Vital – que fora seu – formando um “S” invertido, cortando toda a cidade. Sem o menor tino administrativo, a família não soube conduzir o patrimônio, desfazendo-se da maioria dos bens.

 






Moisés Monteiro de Melo Neto: aulas de poesia popular com o avô paterno, em Sanharó (PE)









Moisés e seu avô em Sanharó (PE), década de 1980




O escritor e professor Moisés Monteiro de Melo Neto esclarece: “Por parte do meu pai, Mário Monteiro, eu tenho sangue de índio Xucuru. Meu avô, Moisés Monteiro de Melo, era filho de uma índia com o fazendeiro mais próspero de Sanharó (Pernambuco)”.


(IV) Os trilhos que levam ao Recife


Não levava mais do que quinze minutos para fazer o caminho até a estação de trem de Sanharó, saindo da casa onde Mário morava com o seu pai Moisés e a segunda esposa dele, Nazaré, com quem ele casara não muito tempo depois da morte da mãe de Mário, sua primeira esposa, a formosa Elisa. Não havia mais nada na casa que lembrasse a sua presença, além de uma fruteira de vidro azulado que ficava no canto direito de um móvel comprido e lustroso, já moderno para a época, que ocupava uma das paredes da sala.

Nazaré havia caprichado para que não restasse qualquer vestígio da falecida. A fruteira tinha sido salva de desaparecer porque a nova dona da casa vira nela algum proveito que de alguma forma a agradava. O que já não

 

acontecia em relação ao pequeno Mário, que para ela representava a presença viva da mãe. E por causa disto, ela tinha de se livrar dele. E assim o fez. Na saída para a estação, Mário ainda teve tempo de olhar para trás e ver a fruteira sobre o móvel. Da forma como estava posta, os raios de sol que entravam por uma janela lateral, fizeram refletir na superfície do vidro uma luz azulada que alcançou os olhos de Mário antes que a porta se fechasse nas suas costas.

- Engula o choro.

Estas foram as únicas palavras que ele ouviu do pai antes de embarcar no trem para Recife. A partir de então, ele iria morar na casa de um tio com a desculpa de que a capital do estado tinha muito mais oportunidades a lhe oferecer para ter sucesso e prosperidade na vida. A velha e costumeira ilusão.

O menino de apenas 12 anos seguiu para Recife no mais profundo silêncio. Apenas as lágrimas que escorriam pelo seu rosto contavam uma história infantil que somente ele conhecia as personagens, os seus atos, as suas vozes, os seus sorrisos, as suas aflições, as suas dores, as suas saudades. Como ele não sabia encontrar as palavras que poderiam descrever o que vivera até ali, as lágrimas falavam por ele, tanto ao vento quanto aos trilhos sobre os quais deslizava o trem que o levaria rumo ao futuro.

Ninguém poderá dizer que ele não tentou. Como o tempo não cansa de passar, logo ele tomou corpo de um jovem homem, magro, esguio, de andar manso, saliente, e olhar cativante; que desfilava a sua juventude ao bel prazer do acaso. Ter sido despachado para a casa do tio José Muniz, tendo lá crescido e assim virado homem, não fora de todo ruim como de início ele imaginava ao sair de Sanharó. Muito pelo contrário. Mário iria descobrir cores, prazeres, e sabores, que o ajudariam a tentar preencher um vazio oculto, uma falta sem nome mas presente, que ele tentaria compensar das mais variadas formas.

Zé Muniz, como todos o chamavam, era um homem singular. Ele era delegado de polícia e ao mesmo tempo era dono de um cabaré na Rua da Guia, conhecida zona de prostituição e boemia no chamado Recife Antigo, região cheia de sobrados e edificações de épocas anteriores, marco zero do surgimento de um povoado que, com o passar dos séculos, viria a se transformar em uma das cidades mais proeminentes não apenas do nordeste brasileiro como também de todo o país.

 

(V) O muro dos quintais alheios


Diomar não era uma mulher de muitas palavras. Mesmo tendo ascendência italiana - ela era neta de Felici Di Belli, outrora cônsul italiano no estado da Paraíba -, se tem algo que não se pode falar dela é que era uma mulher falastrona, comparando-a ao típico e exagerado estereótipo de uma mama italiana, que falava muito e quase sempre gritando.

Filha de um comerciante próspero e respeitável, Diomar enamorara-se por um garboso militar que a cortejava em eventuais encontros sociais. Mário era o nome dele. Paixão arrebatadora, permeada de sentimento genuíno, que resultaria em casamento. O destino é muitas vezes impiedoso com o amor em demasia. Mário não viveria muito. Seis anos depois de casados, e a morte o rouba de Diomar. A sua sólida viuvez de Diomar perduraria até o fim de sua vida. Mulher de um único homem. Amor para um homem apenas. Para Diomar, dele restaria a saudade e os filhos, dentre os quais eles, nascera Célia.

O acaso costuma surpreender com o emaranhado de fios dos seus bordados. No entrelaçar dos novelos de suas linhas multicores, o acaso iria aproximar o Mário – sobrinho de Zé Muniz – e a filha Célia de Diomar. Se o fato de Mário ter o mesmo nome do pai e marido morto destas duas, respectivamente, facilitou a aproximação dos dois, somente elas poderiam dizer, mas até onde se sabe, isto permaneceu guardado no secreto silêncio.

O fato é: a casa de Diomar e a casa de Zé Muniz tinham seus quintais um voltado para o outro, tendo apenas entre eles um muro delimitador que os separava. Isto seria um detalhe mais do que casual se este não fosse o muro específico dento do foco da nossa narrativa. Pois este muro, mesmo sendo algo separador por natureza, veio a ser a fronteira violada, o limite ultrapassado, que foi bordando e costurando o tecido sobre o qual se estamparia o destino e os frutos da união entre Mário, o dos Monteiro, e a doce Célia, a dos Di Belli.

Célia, uma jovem moça com 17 anos; Mário já com uns 18 para 19. Assim começaram os olhares roubados em circunstâncias cotidianas, as curiosidades inocentes da juventude. E pouco a pouco, a aproximação, os primeiros contatos, os cumprimentos respeitosos, sempre breves, delicados apertos de mão com sorrisos contidos, e nenhum maior entusiasmo explícito.

 

Mas assim foram se aproximando.

Pouco a pouco, dia a dia. No ritmo do tempo natural dos encontros. Eles já se viam. Eles já se sabiam. Eles cada vez mais se conheciam; e inevitavelmente se queriam. Por que não? E a resposta dada foi um assertivo SIM. O destino os colocaria cada vez um mais próximo do outro. As condições cada vez mais facilitavam. E desta forma, a coisa foi naturalmente progredindo.

A proximidade das casas, das famílias, levava a um natural contato mais próximo, junto com uma certa vontade de chegar mais perto, e que aos poucos vai naturalmente ensaiando atrações e desejos.

Depois vieram os primeiros encontros familiares; e aí foram passando semanas, meses, o namoro, o noivado, e finalmente o enlace nupcial, o casamento. Célia e Mário casaram em um domingo de abril com muito festejo e alegria por parte das famílias de ambos. Um futuro se anunciava. Uma nova família plantava a sua semente. A esperança correspondia às expectativas de todos. Compromisso e celebração. Dois jovens sem maiores certezas e objetivos. O casar-se como uma consequência natural das conformidades estabelecidas e esperadas.

Tudo fora como esperado. E assim a união se consumara. Felizes eles esperavam ser como todo casal que selam tal promessa de se manterem juntos “até que a morte os separe”. E mesmo trilhando caminhos tortuosos, assim foi. Apenas a morte iria separar definitivamente Célia e Mário, por mais penosa e sofrida que a vida de casados tenha sido para ambos; por um conjunto de motivos adversos.

Deles ficaram os filhos, os netos, os bisnetos. E no ponto inicial desta linhagem ramificada, a atenção da nossa narrativa se volta para o primogênito fruto desta união, urdida por sobre o muro dos quintais alheios. E o tempo gira qual um caleidoscópio fragmentário e vemos a porta de uma casa se fechando e Mário pequeno descendo os degraus da entrada de mãos dadas com velho Moisés, o seu pai; e depois o vemos adulto no balcão de um cartório de registro, proferindo em tom oficial, como se a sua voz ecoasse de uma cicatriz, firmando o nome de seu primeiro filho: Moisés Monteiro de Mello NETO.

 

(VI) A chegada do menino


Desde sempre e até quando ainda houver mundo habitável, crianças nascem aos milhares a cada dia no passo certeiro do tempo inexorável. E o Moisés menino foi mais uma destas crianças lançadas no respirar dilacerante da presença de vida, caído como todos no chão da existência.

Dor. Eis a nossa primeira experiência ao adentrarmos no mundo enquanto gente, pequeninos e indefesos. Um rasgo brutal de ar irrompendo e dilatando os nossos frágeis e resguardados pulmões. Eis o choro dos bebês ao nascerem. Uma dor rasgada que nos faz gritar anunciando a nossa chegada. Um grito de dor é a nossa senha de entrada.

E naquele final de março do ano da graça de 1961, ouviu-se nas portas do bairro da Boa Vista – em uma maternidade que tempos depois abrigaria um manicômio –, o Moisés menino gritando a plenos pulmões que havia chegado a sua hora de ser e cumprir o termo que o destino viesse a lhe reservar.

As adversidades da vida não têm data certa e nem idade para nos alcançar. Elas vêm silenciosas qual serpentes sorrateiras em qualquer. Quando dar-se conta, já estamos acometidos pelos seus males e lutando para sobreviver.

O Moisés menino teve de enfrentar tais adversidades muito cedo, ainda nos primeiros meses de vida. A inexperiência de sua mãe no cuidado materno, decorrente de um despreparo sem culpa e muito menos intenção proposital, acabou por levar o pequeno filho a um estado de desidratação, que por pouco não causara a sua morte.

Faltara-lhe água no seu corpo imaturo e isto resultou em severas complicações, principalmente respiratórias. Água e ar. Duas faltas capitais que lhe infligiram as primeiras marcas do sofrimento, mas cujo trato de salvá-lo delas iria conduzir o menino a um elemento que passaria a fazer parte de modo essencial, indispensável, e indissociável de toda a sua vida: o Mar.

Por recomendação médica, o Moisés menino fora entregue a uma de suas tias que morava próximo ao mar, pois o iodo matinal era um bálsamo curativo ideal para as suas complicações de saúde. Esta foi uma das razões que fizeram do mar um elemento tão presente em sua vida. O mar passa a ser uma constante não somente na sua infância e adolescência, como também extremamente marcante no início de sua vida adulta.

 

3- Lembranças da infância, adolescência e juventude


Ele disse que a primeira lembrança, no bairro de Campo Grande, Recife, era amarrando uma panela na outra, com panos como as antigas fraldas, que eram feitas num tecido apropriado e puxando feito trenzinho. Ele deveria ter um ano e meio, dois, sabe lá Deus se ele lembra mesmo, ou foi o que contaram. A casa tinha o quintal ensolarado e dona Carminha era a lavadeira que contava histórias, ela usava turbante, fumava cachimbo e só queria ferro à base de carvão. Tinha medo de eletricidade. Fazia bolinhos de feijão, arroz, farinha e c a r n e e d a v a p r a e l e c o m e r . P o r q u e c o l h e r , f a c a , g a r f o ele não preferia isso. Atrás da casa dele tinha uma pitombeira, no pé de pitombas havia aqueles cachos imensos que o impressionavam.

Havia uma casa frente a dele que nunca alugavam e lá atrás tinha um quintal sombrio onde morava um duende de olhos verdes. Um dia esse duende apareceu a ele e brincou de maneira malvada, prazerosa e inocente. Uma criança sem imaginação não pode voar, talvez tenha mais dificuldades para resolver problemas na fase adulta, mas Moisés desde pequeno dava saltos imensos, divagando em contos e causos que fascinam crianças com grande sensibilidade.

As primeiras lembranças incluem uma estrela que ele encontrou atrás de uma placa de cimento, resto de fantasia de carnaval, para mente dele. E era justamente perto de um córrego que só se formava com água de chuva, quando chovia muito; vinha lá do fim da rua e passava pela frente da casa dele. Ele como uma criança viva foi ao fundo da vila e colocava o barquinho de papel que fazia, justamente com os outros garotos que esperavam embaixo os tais barquinhos, numa espécie de corrida de barquinhos.

Havia mercearias, como a venda de seu Haroldo, onde vendia bacalhau e charque em caixas de madeira. Havia também o Caramanchão do Walter, lá na frente. Era um bar que tinha um caramanchão. Uma coisa circular com grades de ferros e plantas nas grades, flores, o teto era como se fosse um coreto. Exatamente nesse lugar o pai de Moisés gostava de beber cerveja. Ao lado tinha o cachorro-quente de Guilhermino. Guilhermino tinha uma ferida na perna, além disso tinha uma gaze cobrindo que ele trocava e o cachorro-quente dele era todo de carne moída com não se sabe o quê. Moisés disse que se lembra do gosto

 

desse cachorro-quente e da primeira vez que experimentou cerveja, deveria ter uns oito anos. Seu pai bebia muito numa farra atrás da casa da bisavó Maria de Belli. Mãe da sogra do pai, avó materna de Moisés. Cerveja Brahma, ele lembra por causa do rótulo. Assim, tomou um gole e achou amarga. E todos sorriram da careta que ele fez.




Mário Monteiro

(Pai de Moisés Monteiro de Melo Neto)

 

A casa da bisavó também é um lugar de lembranças. Ela guardava um penico embaixo da cama e apesar de decadente brigou com a própria filha, a avó de Moisés, Diomar de Belli Peixoto. Já a mãe, Maria, brigou com Diomar e esta não quis mais morar com ela. Ela morava só e quem pagava o aluguel dela era a outra filha, a irmã da avó de Moisés, a tia Therezinha de Belli, que é o nome da família italiana de Moisés.

O bisavô veio de Nápoles mascatear na Paraíba. Moisés pegou esse bonde todo andando. Moisés foi o primogênito, depois vieram Fátima, Mário Filho e Luciana. A era Célia de Belli Peixoto, antes de se casar com Mário. Havia também a tia Maria de Lourdes Peixoto de Belli. Ficou o nome da mãe de M o i s é s .   E s s a   t i a   M a r i a   d e   L o u r d e s de Belli casou com um remador do Clube Náutico Capibaribe, que era representante da Hoechst, uma indústria química alemã, e depois dedicada ao ramo farmacêutico, que após fundida com a Rhône-Poulenc em 1999 foi denominada Aventis. Com a fusão desta última com a Sanofi-Synthélabo em 2004, tornou-se subsidiária do grupo farmacêutico Sanofi-Aventis. Em 2011 voltou a adotar o nome Sanofi.

Então, Moisés encontrou a primeira vez a morte. A mãe de Moisés, Célia de Lourdes, inexperiente com seus dezoito anos, quando o leite dos peitos secou, parou ali de dar água, o suficiente ao bebê Moisés. Só o alimentava com mingau, feito com leite em pó e lhe dava pouca água. Chovia muito e as fraldas eram lavadas, um pouco de preguiça talvez, ou mesmo por não saber que o bebê precisava beber mais água e fazer xixi ocasionou, esse incidente.

Moisés chegou ao hospital na última hora e o médico disse: “nossa, um pouco mais ele teria morrido”. O pequeno Moisés tinha uns oito meses. Talvez esse pânico de morrer, logo um bebê que mal conhecia as palavras, tenha causado uma certa pressa, uma certa ansiedade de querer fazer tudo rápido porque a vida lhe escapava, o ar lhe escapava. Essa desidratação geraria consequências e o médico disse à família de Moisés, ao pai, à mãe e à avó, que aquele garoto tinha que ficar sempre perto do mar.

Era o final dos anos 60, e sua infância foi marcada por crises respiratórias e madrugadas a base de remédios fortíssimos. Mas nem tudo foi dificuldade, também havia diversão: existiam acampamentos de ciganos e de hippies próximo à casa de Moisés.

 

Na esquina da rua havia um cinema chamado Éden, que Moisés e os amigos frequentavam aos domingos ou às vezes à noite durante a semana sem saber qual era o filme que estava passando. Na frente desse cinema Éden, esquina com Jerônimo Vilela, havia o Colégio Jesus Crucificado. Mais adiante, havia uma praça e o girador dos ônibus elétrico de Campo Grande que até hoje perdura. O prédio é muito bonito, havia também outro cinema chamado Vera Cruz. Moisés se encantava menos por esse cinema. O ônibus elétricos fazia curva ali, havia duas sorveterias, ou pelo menos uma. Duas padarias, Santa Lúcia e Treze de Junho na estrada de Belém que ainda hoje se mantém em pé.

O cinema Vera Cruz era o que Moisés frequentava menos, e o Éden frequentava mais. Havia também a Igreja do Bom Parto que é a segunda igreja de quem vem na encruzilhada pela estrada de Belém, a primeira era a Igreja de Belém, a segunda na estrada de Belém e a terceira era a do Bom Parto. Havia uma bomboniere na frente da igreja, a Cobal à esquerda de quem entra na Rua São Félix, que é na frente da igreja, na Rua São Félix, na qual, terceira ou quarta casa à direita localizava-se o Instituto Andrade, que foi onde a mãe de Moisés estudou, ele e seus irmãos, com a mesma professora Dona Teresa e outra professora Dona Zilda. Nessa escola Moisés cursou o Fundamental I, marcou muito a vida dele. Ele depois quis encontrar os coleguinhas porque logo a seguir, Maria de Lourdes, quando o médico disse assim: “Moisés sempre tem que ir ao mar”, a tia Maria era quem o levava a Olinda, quase todos os dias para tomar banho de mar, respirar o ar da praia. Quando ela se casou, a avó de Moisés deu um terreno em Boa Viagem ao casal, quando ela desposou Aldair Menezes Loureiro. Loureiro como a planta de Apolo.

Era, ainda, um lugar ermo, Boa Viagem ali próximo a Escola Americana. No Recife, a tia de Moisés foi morar distante do vento. Trem passando lá longe, o trem guia pro Cabo passando próximo ao aeroporto num primeiro andar, mas tinha térreo também. Moisés ficava até os seus sete anos, jamais pensou que a vida pudesse ser assim: praia deserta, campina com areia branca, não era assim. Campo Grande: era um bairro de trabalhadores. Embora houvesse casas muito bonitas. Havia em Campo Grande casas com jardins, com chorão nos jardins. Aquela árvore que derrama o galho e as folhas.

Moisés ficou impressionado, Goiás não tinha ali onde ele morava, né?

 

Não tinha cinema. Quando vinha do centro da cidade entrando na Av. Conselheiro Aguiar é que tinha um cinema, ele lembra que passou por lá e havia nos letreiros: Paixão de Cristo, com Fernanda Montenegro. Hoje em dia, lá é onde criou-se o Teatro Barreto Júnior. O teatro foi inaugurado em 1985, mas a entrada é pela rua de trás a Rua Jeremias Bastos. Então, Moisés vai morar em Boa Viagem um tempo com essa Maria de Lourdes, tia dele. Moisés começou a estudar no Colégio Santos Dumont, um colégio público na Av. Barão de Souza Leão, Setúbal, Recife, onde havia um centro esportivo com piscina de cinquenta metros. Era uma escola pública gerida pela aeronáutica. Moisés fez um concurso quando tinha dez anos que saiu do fundamental I, do Instituto Andrade, tirou em segundo lugar e foi classificado para a escola onde concluiu o Fundamental II.

Tereza Andrade, professora que marcou o seu ensino fundamental I,

por ser muito severa e por ter sido a mesma professora que ensinara à sua mãe, nas festas juninas, tocava ritmos diferentes em seu piano: baião, cateretê e quadrilhas. Aos seus alunos, ensaiava danças e músicas; as apresentações eram num clube luxuoso (o Internacional). Eram momentos belíssimos, Moisés declara: “havia a dança do pau-de-fitas, dança dos arcos, também o chula e o vira, danças portuguesas. O São João era muito comemorado em Portugal e foi repassado de forma lírica e prática.”

 




Mário, Fátima e Moisés Monteiro de Melo na festa de São João,no Clube Internacional do Recife, quando crianças.



Ainda no período de infância, Moisés começa a compor seus primeiros textos. Um deles é uma história infantil ambientada no circo, protagonizada por palhaços. É um grande exercício perceber como um menino (de apenas 9 anos) já articulava as ideias e transformava todas elas em uma estrutura narrativa. Para completar seu grande feito, ele emociona professora e ganha o primeiro lugar no concurso. Assim, a arte de escrever nasce com ele.

Moisés lembra o fato: “Criei uma vez a história de dois palhaços que

formavam uma dupla num circo e um deles recebe uma proposta de morar noutro país. Eles tinham que se despedir, e eu, com apenas 9 anos tive que resolver esta situação.”

Nessa escola, ele ganhou o primeiro beijo, uma garota muito bonita, Vilma, o chamou para uma calçada no intervalo. Então, essa garota chama Moisés, que tinha uns doze anos, ela tinha uns treze ou quatorze. Vilma, bonita, lábios grossos, já com os seios, tudo... Chama Moisés pra sentar, deu um beijo na boca dele e passou o sorvete de morango. Ele se apaixonou por ela, mas ela só queria um beijo mesmo, diferente de Moisés que parece ter gostado do morango adoçando sua boca e os seios juvenis da donzela acariciando sua pele. Depois, ela namorou com um fortão que era atleta. Eugênio. Um dia Moisés foi tentar brigar com o Eugênio por ciúme. Os amigos de Moisés fizeram uma roda e colocaram os dois no meio. Só que o Eugênio era quase o dobro do corpo de Moisés. Moisés ainda deu alguns socos nele, mas foi dissuadido: a briga parou com o diretor do colégio chegando. Foi uma confusão e houve até quem fizesse aposta. Isso tudo aconteceu em frente aos prédios do colégio, onde todos cantavam hinos antes de entrar nas salas, hinos da marinha, exército, aeronáutica e Pernambuco. O maestro era ótimo, ensinava música a Moisés e os outros alunos. A farda era igual a farda da aeronáutica.

 

Assim chegamos à adolescência de Moisés, quando os treze, quatorze anos foram bem difíceis para o nosso escritor. Essa transição de final de adolescência com a explosão dos hormônios, pelos e uma turma muito boa de amigos com o mesmo ímpeto. Enfim, começa a adolescência do Moisés, e sai aquela depressão dos treze, quatorze, quinze que quase o mata. Ele sofreu uma espécie de bullying, por gostar tanto de ler. As crianças diziam que estava lendo demais e queriam jogar futebol com ele, mas às vezes o Moisés não queria. Então, Moisés virou surfista, porque era um esporte individual, uma atividade aeróbica, mas com um diferencial delicioso, era melhor pra ele. Embora houvesse os companheiros de surfe não era uma competição em equipe, o contato com a natureza, o mar sobressaia.

Ele morava na Rua Valdi Corrêa, Boa Viagem, hoje Setúbal, onde morou a mãe e o pai dele também na Rua Valdir Correia porque os pais de Moisés, em determinado período foram morar em Boa Viagem e alugaram a casa de Campo Grande. Moisés lembra sempre das canjas de galinha, das noites de tempestade. Boa viagem era muito areal ali atrás da Escola Americana. Foi ali também, em Boa Viagem/ Setúbal que eles foram morar, porém o pai e a mãe voltaram para Campo Grande. A tia de Moisés Maria de Lourdes sofreu um aborto, o que talvez tenha prolongado mais ainda a entrada de Moisés na casa dela. Então, Moisés morou na casa de Maria de Lourdes e Aldair. Ela o tratava como filho, mas o marido dela não gostava daquela relação. Então, Moisés se sentia um pouco intruso naquela casa, mas estava próximo ao mar como um médico receitou. O pai e a mãe concordaram, mesmo quando se mudaram, deixaram Moisés lá, na casa da tia.

Nesse contexto, nasceu o filho da tia, o André. O marido da tia disse que Moisés já estava grande e poderia ir à praia sozinho. Logo depois, vai morar na Rua Almirante Tamandaré, esquina com a Rua Padre Cabral, uma espécie de cruzamento. De uma rua que sai da Av. Barão Souza Leão, que hoje é diferente, mas o prédio que Moisés morou continua o mesmo. A vizinhança está a mesma, ao lado há um colégio para crianças. Uma casa depois do colégio descendo para uma espécie de riacho tem um canal: o canal de Setúbal. Antes se chamava a beira do rio, havia também a casa do tio Célio de Belli Peixoto que casou com a primeira professora de Moisés, Maria José de Melo, que ele conheceu quando o buscava na escola.

 

Maria era quase uma adolescente, ela tinha muita grana, porque ela não tinha mãe e o pai era dono daqueles terrenos todos à margem do canal de Setúbal, que cruza a Av. Barão Souza Leão, pela Jequitinhonha. Ela era proprietária também dos terrenos à beira do canal. Mas, só poderia tomar posse da grana, de tudo aquilo, quando se casasse, e casou com um dos tios de Moisés. Essa tia que morava próximo a ele foi a primeira professora dele, que iria a seguir estudar no Instituto Andrade.

O bairro onde eles moravam era Campo Grande, os pais de Moisés moraram também no Barro. Mas a infância de Moisés seria mesmo em Campo Grande, até os oito anos, próximo ao bairro da Encruzilhada, no litoral, já chegando a Olinda. A rua que Moisés morava era a Rua Doutor Machado, transversal da Jerônimo Vilela, na esquina da Jerônimo Vilela, uma das principais do bairro, chegava-se a ela pela estrada de Belém. Essa Rua Jerônimo V i l e l a e r a c h e i a d a q u e l a s á r v o r e s fl a m b o y a n t , que as folhas parecem confetes e dá flores amarelas e vermelhas de tom berrante até flamboyant, francês (os ingleses usam esse nome para designar uma pessoa extravagante ou algo extravagante).

Aos cinco anos, ele foi morar em Boa Viagem, levado pela tia, que havia se casado e tinha medo de morar num lugar deserto como era as imediações da Escola Americana do Recife. Logo, sua mãe mudou-se para lá também! Foi um período maravilhoso, pois a casa tinha campos enormes, várias árvores, flores e animais. O ano era 1966, imagina uma criança com um casarão inteiro para se divertir? Era tudo isso que o pequeno Moisés poderia desfrutar.

Moisés lembra: “à tardinha passava ao longe o trem que ia para o Cabo. O nascer e o pôr-do-sol eram magníficos. Minha primeira professora casou-se com meu tio. Ela era muito rica, mas, só quando se casasse colocaria a mão na grana. Casou-se e eu também passei um tempo na casa dela. Seu apelido era “bandoleiro”, pois desde pequeno ele tinha pelo menos três endereços. Vivia sempre com mochilas cheias de coisas para cima e para baixo, como um pequeno cigano.”

Moisés sempre foi uma pessoa ligada ao mar, e naquela época, a praia de Boa Viagem era encantadora. Havia na Avenida Beira-mar, próximo ao Hotel

 

Boa Viagem, o Castelinho, também uma casa que parecia um barco; a Casa Navio, lugares muito frequentados por ele e sua turma, o calçadão de Boa Viagem também era um dos pontos de encontro.


(VII) A porta da rua


O nome da cidade do Recife traz escondido, por entre os barbantes alinhavados que amarram as suas letras, o fantasma de um velho guardião marinho, que não cansa de soprar, para muito além dos corais vigiados, a brisa salgada da sua antiga alma de praia. Arrecifes. Muralhas milenares esculpidas de conchas, areia, e revestidas de corais ornados com verdes algas.

O nosso menino febril, que crescera correndo e brincando sobre a maciez da areia fina e branca das praias, sabia dos segredos que os arrecifes guardavam, e que a todos exibiam – embora somente alguns conseguissem vê-los –, toda a vez que a maré baixava formando piscinas naturais de águas verde-claras.

O universo praieiro e marinho que povoava a imaginação e o corpo salgado do jovem Moisés era um mundo inteiro que gravitava ao seu redor, repleto de detalhes próprios e componentes fascinantes.

Na praia da Boa Viagem dos primórdios da sua juventude, soprava um vento caseiro que só existia lá. O som daquele vento preenchia todos os espaços da grande casa em que Moisés morava. Parecia falar uma língua própria e sussurrante que apenas ele entendia.

Para o jovem Moisés, tudo aquilo era muito mais dele do que de qualquer outra pessoa. Aquela fora a primeira grande porta por onde os seus pés descalços tomaram o rumo da rua, que levava à descoberta de diversos caminhos mundo afora.

E estes eram muitos. Com a acuidade e perspicácia com que os seus olhos atentos, o seu sentir aflorado, e a sua imaginação sem rédeas – qual a força indomável das correntes marinhas –, ele se lançou no oceano das possibilidades, oportunidades e perplexidades que os quereres da sua juventude estavam ávidos para abarcar. Braços e coragem não lhe faltavam para a incessante busca do que a vida teria para a lhe ofertar.

 

Além da praia de Boa Viagem, outro ponto marcante foi a Escola Americana do Recife. Moisés costumava passar as tarde lá, e nos fins de semana, ele conseguia usufruir de várias coisas na escola, fato que torna a instituição tão importante para sua história.

Moisés comenta: “É interessante observar aqui como era realmente fascinante a Casa Navio e como havia tranquilidade em Boa Viagem naquela época. Eu mesmo fugi do Colégio Militar do Recife, em 1974, para passear com um colega de classe que morava em frente à praia”.

Aos onze anos, Moisés decidiu morar com a tia e com a avó Diomar de Belli.

Ele ficou em Boa Viagem, mas seus irmãos voltaram para Campo Grande.


Com a irmã Fátima, no caminho que vai a Petrópolis (RJ), em 1973

Seu irmão Mário Filho formou-se em Medicina e foi o laureado da turma. Mas achou que tal trabalho era mal-remunerado no Brasil. Hoje, ele tem um cargo melhor no governo e não quer que diga a ninguém que ele é médico. Os mestres ficaram chocados, porque ele era o queridinho da UFPE. Mário concluiu também o curso de direito na UFPE. Sua irmã Fátima fez Letras e tem dois filhos: Leonardo (Direito) e Rafaela Amaral (Publicidade).


Confraternização de fim de ano com avó, pai, mãe, irmãos, tios e primos de Moisés

 

Um fato engraçado são suas lembranças da Jovem Guarda: as minissaias e perucas usadas por sua mãe e tias. Todas as mulheres tinham seus visuais baseados nas artistas que eram referências naquela época para as mulheres. Outra lembrança foi seu primeiro contato com uma artista de televisão, a atriz Regina Duarte. Uma coincidência engraçada é que um dia antes, ele e sua mãe assistiram ao “Auto da Compadecida”, com Regina Duarte, interpretara a própria.




A mãe, a avó e a sobrinha de Moisés, em Matéria do Jornal do Commercio (14/05/1995)




Moisés lembra: “um dia fomos buscar titia no aeroporto, no dia anterior, tínhamos assistido no cinema ao Auto da Compadecida, com Regina Duarte e quem desce do avião com minha tia? Ela mesma: a Regina.”

Uma das apresentações de Moisés, no Clube Internacional do Recife, deu-se em 1970. A lembrança acontece por causa do período da Copa do Mundo. Junto à Tia Linda, além de cantar uma canção do repertório de Roberto Carlos, expôs para a câmera uma série de desenhos de Moisés. São de 1976, os seus poemas dos 15 anos, publicados em jornal e muito depois em sua página na Internet (www.moisesneto.com.br). Em 1979, ele estava com a trupe de “O Suplício de Frei Caneca”, de Cláudio Aguiar.

A arte entrou na vida de Moisés Monteiro de Melo Neto a partir da infância: na escola, com as canções que ele ouvia, no grupo de amigos. É perceptível que sua educação o levou ao amor pelas artes, e que o gosto pela leitura o incentivou às peças escolares, aos musicais, e posteriormente ao artista que ele se tornou.

 

(VIII) As estradas da vida


Anos 70. Uma década que adentrou na avenida do tempo como que orquestrando uma sequência de “alas de liberdade”, ainda que camufladas com a finalidade de ter alguma chance no enfrentamento contra a opressão, a censura, e as diversas formas de intolerância impostas pela ditadura militar, que havia sido implantada no Brasil a partir de 1964, impondo inúmeras restrições às liberdades individuais, entre tantas outras.

Atos de resistência e transgressão proliferavam entre os jovens brasileiros. Para muitos, tornara-se um tanto desafiador e excitante, a circunstância de violar o que se tornara proibido. Emergira como o tema de uma música de Caetano, uma geração do “É proibido proibir!”.

O mundo estava às voltas com o desabrochar de uma juventude libertária sob a crescente influência da contracultura e dos movimentos sociais da época. O movimento hippie, por exemplo, trouxe consigo valores de liberdade individual, autenticidade e experimentação, que ditavam os preceitos de um liberalismo comportamental cada vez mais presente, que abraçava uma abordagem que enfatizava a liberdade individual, a diversidade e a tolerância.

Tal preceito ideológico defendia a autonomia dos indivíduos para fazerem escolhas pessoais, inclusive em questões como sexualidade, religião e estilo de vida, promovendo críticas às normas sociais tradicionais e ao conservadorismo vigente, buscando uma sociedade mais aberta e plural.

Nesse contexto, surgiram diversas expressões culturais que refletiam essas ideias, como a música popular brasileira engajada, o teatro de resistência, o cinema alternativo e a literatura contestatória. Artistas e intelectuais jovens utilizavam esses meios de expressão para questionar as normas estabelecidas e promover valores como liberdade, igualdade e justiça social.

Anos 70. Este foi o cenário dentro do qual o jovem Moisés apressou os seus passos na multifacetada realidade que o cercava. Desde a infância, ele já mostrava precocidade de saberes e de maturidade. Quando avançou pelas raias da adolescência, ele já agia como um homem feito.

E a natureza do seu espírito “bandoleiro” revelara qual dos lados da balança lhe pesava mais, o que determinava claramente de que lado ele estava

 

na batalha entre conservadorismo e liberalismo. Ele era um inconformista com alma de revolucionário. Pelas particularidades da sua sensibilidade abrangente e cosmovisão aguçada, a Arte viria a ser a seara que lhe identificava e o colocava presente e senhor da sua vida perante o mundo.

Grande parte disto tudo, ele descobrira e lhe fora revelado através das amizades que foi construindo ao longo deste tempo e dos laços que foram se firmando junto aos pares com quem ele se agregara, sendo estas relações e afinidades comportamentais bastante representativas e influenciadoras da sua formação enquanto artista e intelectual.

“Diga-me com quem andas e eu te direi quem tu és!”. O famoso ditado lhe caía bem como uma luva. Não poderia haver nada mais significativo e pertinente em relação ao jovem Moisés e seus amigos mais próximos. A sua turma de amigos adolescentes era um verdadeiro agrupamento de pluralidade. Entre outros, havia um gótico que estudara em um colégio militar; um estudante de geologia que também era artista plástico; um surfista mochileiro que o apresentaria o mundo do surf e todo o seu conjunto de particularidades, e um músico multimídia criativo e inovador; enfim, um grupo composto de originalidade e pulsão pelo novo, pelo diferente, pelas perplexidades que a juventude lhes oferecia.

Sem nenhuma sombra de dúvida, aquele que mais o influenciou neste período de descobertas foi o primeiro citado na lista mencionada. O singularmente gótico, irreverente, antenado com o que acontecia no mundo em termos de música pop, literatura, cinema, e artes em geral. O seu nome era Paulo. O seu sobrenome era Barros. O jovem Moisés o tinha como um verdadeiro guru. Foi o amigo Paulo que apresentou os grandes ícones do Rock & Roll e os outros grandes mitos da música e da cultura Pop, personas e estilos que influenciariam o jovem Moisés, a partir de então, em tudo que viria fazer em sua vida, principalmente em se tratando de criação e do fazer artístico.

Um outro amigo da sua adolescência que o marcou de forma significativa coincidentemente também se chamava Paulo. O seu sobrenome era Smith. Este fora o surfista que lhe apresentou as maravilhas das praias ao sul da cidade do Recife. O jovem Moisés já era íntimo da tríade elementar mar, praia e água.

 








Moisés em Gaibu, na adolescência








2024: Moisés, verão, Porto de Galinhas





Diferente de Porto de Galinhas, hoje em dia consagrada internacionalmente pelo “colosso” turístico em que se transformou, as praias de Gaibú e Calhetas ficam antes do gigantesco Porto de Suape, cujas obras de expansão prejudicou drasticamente todo o ecossistema do estuário do Rio Ipojuca, uma das causas principais que transformou a formosa Praia da Boa Viagem, na área urbana de Recife, na primeira colocada no ranking mundial de ataques e mortes causadas por ataques de tubarões.


Gaibu, segunda metade dos anos 60

 

Mas voltando para as pequenas, charmosas, e paradisíacas praias de Gaibú e Calhetas nos anos 70 e 80, elas eram o destino favorito de uma juventude alternativa, cheia de surfistas, campistas, hippies, artesãos, artistas, e andarilhos de várias partes do mundo, que tinham em comum o fato de serem amantes da natureza e da liberdade.





Na foto acima: Moisés, aos 16, na casa do faroleiro, do século XIX, chamada “Casa do holandês”






Se o jovem Moisés já era um amante íntimo do mar, a estrada que o levou para as praias do sul, para as evoluções performáticas da prática do surf, tornara plena esta intimidade. A comunhão entre a natureza e a cultura do surf, enquanto um tipo de filosofia do natural, somado aos amigos que tinha, o conhecimento desbravador que compartilhavam, as atitudes transgressoras de pessoas que assumiam as rédeas do seu destino, as músicas que ouvia, os livros que lia, os filmes inovadores que assistia; todo este conjunto de experiências foram moldando a personalidade e os talentos do jovem Moisés já nesta fase de transição entre a adolescência e a vida adulta; e tiveram uma importância lapidar e essencial em todos os papéis e ações que ele viria desempenhar a partir de então.

Na adolescência, em Setúbal, Moisés conhece José Souto, artista plástico, também, geógrafo hoje em dia que era grande amigo do Moisés naquela rua. Moisés participou de uma turma de adolescentes: tinha Paulo Barros que veio da escola militar e foi seu grande guru. Também se ligaria ao teatro, como Moisés. Um amigo que marcou a sua adolescência foi Paulo Barros. Através dele, Moisés descobre Andy Warhol; David Bowie; Blondie; Rolliing Stones; Bob Dylan. Paulo mostrou um universo diferenciado, fato que

 

fez Moisés aumentar sua admiração por ele, apesar de Paulo ter um lado um pouco agressivo. O lado rock n' roll Moisés preserva até hoje e se sente em casa quando assiste a shows como os do Rolling Stones, que assistiu no Maracanã, Rio, em 2016, dos quais sempre guarda alguma lembrança física, como o ticket de lanchonete:



Moisés com os amigos Dulce Serpa e Fernando Oliveira, no Maracanã, para assistir ao show dos Rolling Stones







Paulo Barros, amigo-guru, que mudou a vida do nosso biografado, e a irmã de Moisés, Fátima Amaral




“Paulo Barros: ele adorava vestir preto. Usava casacos, óculos escuros e sempre uma bolsa como se estivesse pronto para ir embora para um lugar bem distante. Foi com esse cara que eu conheci Andy Warhol (Andy dava um suspiro em 78, lá em New York e Paulo já sabia e nós comentávamos), David Bowie (Paulo me explicou Ziggy Stardust e Major Tom e me deu uns toques sobre androginia), Blondie, Rolling Stones (na época do lançamento de Black and

 

Blue nós ficamos chapados várias vezes escutando a bolacha de vinil), Bob Dylan (nesta época eu li o romance dele chamado “Tarântula” e comecei a fazer traduções das letras das suas músicas. Eu adorava Lay Lady Lay), Paulo também curtia sons como Marlui Miranda e Mutantes (foi ele que me apresentou isso também, eu já conhecia Rita Lee, que tinha barbarizado com o lançamento de Fruto Proibido e depois Entradas e Bandeiras). Aliás, alguns dos amigos gostam muito da Rita”.


Rita Lee e Rosalia Calsavara, com quem Moisés escreveu alguns musicais

A lanchonete Fruto Proibido, por trás da igrejinha de Boa Viagem, era um dos pontos de encontro da turma. Lá acontecia muita paquera e todos mostravam sua desenvoltura na arte da azaração. A lanchonete era um point onde se falava dos surfistas de Olinda, das cocotas, de tudo e de todos.

Moisés ficou ligado naquele som, ele gostava também do Kiss. Um dia a turma foi assistir ao documentário “Woodstock”, foi como se eles estivessem indo ao próprio festival. Era esse o clima! Eles também foram ao lançamento do filme “Janis”. O grupo todo reunido, foi uma grande caravana. Eram mais ou menos uns vinte, só havia dois carros, alguns foram espremidos no carro, outros pegaram ônibus. Eles se vestiam de acordo com a ocasião. Seus pais não tardaram a entender o que se passava com eles. Algumas garotas como Miriam Pimentel, que mais tarde trabalharia como atriz em duas peças de Moisés, eram como “musas” para a turma, elas levavam um estilo de vida bem San Francisco. Alguns dos caras começaram a usar drogas injetáveis. Moisés nunca usou drogas, sua mente sempre foi cósmica demais, ele não, nunca precisou. Poderia existir droga maior que a arte? Outros tomaram chá de cogumelo de zebu e comiam a tal coisa em viagens delirantes. Um deles se deu tão mal que até hoje nem álcool bebe. Stairway to Heaven era o hino da turma, a ponto de atualmente quando Moisés escuta esta música, lembra daqueles dias. Houve uma tarde em

 

que eles foram assistir The Song Remains the Same, filme sobre o Led Zeppelin, muitos deles resolveram ficar zanzando numa lancha de aluguel pelos rios da cidade e curtindo o pôr-do-sol no dique do porto, ali, sobre os arrecifes que deram nome à nossa cidade, tendo como perfil a ilha do Recife Antigo. As conversas eram sobre estados alterados da mente, filosofia, literatura, música e andanças pelo mundo.

Moisés pensava em fundar um grupo de teatro, queria morar em Nova York ou Londres, Smith passar temporadas no Havaí, Nazaré, queria ser um campeão de surf e um músico com talento reconhecido. Eles cantavam e dançavam. A vida iria juntá-los no palco, no futuro: compuseram alguns musicais de sucesso.

Paulo e a mãe dele, Ivone Smith, ao lado de Moisés, Igreja da Madre de Deus, Recife Antigo, véspera de natal de 23, um concerto que eles apreciaram.


Certo dia uma das garotas tirou a roupa e alguém a fotografou, seios duros e sensuais, pelos pubianos atraentes e pele cheirando a sexo. Assim, deu problema. A turma tinha assistido a um show de Robertinho do Recife numa cela da Casa da Cultura, antigo presídio, em seguida eles saíram com o pessoal da banda e então comentavam o assunto. Aqueles jovens tinham um pensamento revolucionário, apoiavam os Panteras Negras e torciam pela libertação de Ângela Davis. É desta época um poema de Neto chamado “Tarântula” (dedicado a Paulo Barros):

Tarântula: Em qualquer canto da casa existe uma tarântula/ Com suas patas curvas, peludas e débeis,/ Trêmulas de emoção e veneno/ Em qualquer canto, o murmúrio dos ventos/ Quando se encontram num portal,/ Nas brechas das janelas, corredores/ Atrás dos velhos quadros/ Sacudindo os vidros/ A tarântula se move como um Pégaso/ na neblina do sonho de alguém que depois

 

da festa/ parece despreocupado com os estilhaços/ que são soprados pela ventania.

O surf entrou na vida de Moisés na adolescência. Em 1976, o lema era mochilas e muito Surf. Na casa de um amigo, em Maracaípe, Porto de Galinhas, era só curtição. Não tinha energia elétrica e a geladeira funcionava na base do gás. A cozinheira preparava refeições deliciosas com pão assado embebido no

leite de coco e canela. Aos 15 anos, a grande preocupação era surfar e aproveitar as maravilhas que a juventude oferecia. Também nesta época, Moisés ganhou um concurso sobre os Beatles, promovido pela revista Pop. Aos 16 anos, ele conseguiu viajar de graça pelo avião do Correio, o pai de alguém do grupo era da aeronáutica, e foi assim que Moisés, um jovem aventureiro, conseguiu uma autorização especial dos seus pais para ir à Fortaleza e Belém. Desta época, alguns dos seus melhores amigos foram: Paulo Smith, com quem comporia algumas trilhas sonoras para teatro; Paulo Barros, amigo que Moisés dirigiria no teatro e que fez parte do revolucionário grupo de teatro o TUBA (de O Guarani com Coca-Cola); Rogério; Glória Smith; o DJ Nelinho; a artista plástica Elúsia; a futura jornalista e dona de boates, Rejane Leandro (dona das boates Status, em Piedade, e Leandro's, em Boa Viagem). Amigos com quem Moisés curtiu até a exaustão sua fase dancing days. Também o milico José Souto; o multimídia Ricardo Valença; e muitos outros fizeram parte de sua adolescência.


Paulo Smith, amigo irmão de Moisés Monteiro de Melo Neto, companheiro de várias ondas e estradas, aparece aqui no Pier 60, em Clearwater Beach, Estados Unidos, onde morou.

 

Moisés aderiu a contracultura por influência de Paulo Barros que apresentou Clarice Lispector, David Bowie, Janis Joplin e Rolling Stones. Entretanto, Moisés conheceu Clarice através do seu professor de literatura Pedro Américo de Farias, um poeta muito conhecido no Recife.

Moisés estudou, no Ensino Médio, em dois colégios do Recife. Um deles era o Contato, que era estava começando na Rua Dom Bosco. Engraçado que Moisés depois iria ensinar no colégio da frente, ele nem notava que era um colégio clássico enorme, o Colégio Americano Batista, defronte do Contato. Moisés foi para o Contato por causa do Paulo Smith, que também foi para lá, mas não deu certo, estudavam à tarde, viraram preguiçosos. Nesse contexto, Moisés saiu de lá e foi para o 2001, onde ele conheceria a poeta Rejane Leandro, cuja família era dona de duas discotecas, boates, night clubs.

Moisés tinha dezesseis, dezessete anos justamente na época que Clarice Lispector veio dar uma palestra no Recife e sua professora de história no ensino médio, Sueli Galvão, foi a essa palestra e o convidou. Quem trouxe Clarice foi o poeta José Mário Rodrigues. Essa história de Clarice no Recife, Benjamin Moser conta com detalhes. Dessa maneira, Moisés foi apresentado à obra da Clarice Lispector, a de Drummond, Fernando Pessoa, Shakespeare, à revista Veja e ao O Diário de Pernambuco, isso mudou muito a cabeça dele. Curiosamente, décadas depois, passaria a morar próximo à casa onde ela passou a infância, Clarice parece ser um espectro presente em toda sua trajetória.

Moisés gostava muito de comprar um jornal chamado Pasquim e uma revista chamada POP. Havia muitas revistas de rock também, pois era época de esquerda política, devia-se colocar na mídia de maneira penetrante. Moisés conheceu ali o Rock: Raul Seixas, Mutantes, Gal e aquela turma que fazia também Led Zeppelin, Deep Purple, Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd.

Então, Moisés, às dez da manhã do sábado, fora assistir aqueles filmes que a anistia estava liberando, por exemplo, O encouraçado Potenkin. Viu os filmes de Fellini, tanto no Teatro do Parque como no cinema. Art Palácio, na Rua da Palma (Recife) também exibia filmes de arte. O Cine São Luís também exibia filmes às dez da manhã. Lá, Moisés viu Suzan e Jeremy, Romeu e Julieta, Um dia de sol, a programação era mais Pop que Art Palácio. Moisés emocionava-se

 

sempre, a história desses amores de adolescentes terríveis, a música Blue balloon marcou sua vida, marcou a lembrança do seu primeiro beijo de língua, assim como a música Forever, do grupo brasileiro Pholhas. Assim como também aquela música do Romeu e Julieta, de Zefirelli, a trilha sonora desse filme. Com o passar do tempo Moisés se apaixonou pela prima, Deise de Belli, mas não deu certo, porque aconteceram coisas muito estranhas entre Moisés e essa família da Deise, filhos de Carminha e Roberto de Belli. Houve um problema muito sério.

Atrás das Lojas Americanas tinha o cinema Veneza, Moisés foi assistir, falsificou a carteira de estudante e assistiu Laranja Mecânica e também Noivo neurótico, Noiva nervosa, de Woody Allen. Aquilo fez a cabeça dele: tantas coisas que estava vendo. Do outro lado continuando aquela rua do hospício tinha o Teatro do Parque onde Moisés leu no jornal que iria passar uma peça muito doida chamada Trate-me leão, com o grupo carioca Asdrúbal, cujo trombone era um dos instrumentos musicais. Moisés adorou a peça, foi aos bastidores, conversou com Regina Casé e com Luiz Fernando, eles estavam hospedados no Hotel Quatro de Outubro. Nesse período, Moisés tinha quinze anos, ainda alcançou a Casa da Cultura quando era presídio. Ele viajava sozinho de Campo Grande para Boa Viagem, aos oito anos. Tinha que pegar dois ônibus e margear o Rio Capibaribe pela Rua do Sol, Aurora, cruzar pontes e mais pontes para chegar ao terminal do ônibus para Boa Viagem que era na Praça Joaquim Nabuco, onde tinha outro cinema o Moderno, que também frequentava. Lá viu por exemplo o filme Tubarão com aquela trilha sonora que era o sensurround round, Terremoto que foi para o espectador ter a sensação de ver o Tubarão lá, também.

Certo dia, depois de assistir ao “Trate-me Leão”, com o Asdrúbal, trouxe o Trombone, Moisés decidiu que faria teatro a “qualquer custo”, sua família tomou um susto. Teatro? No Recife? Moisés estava fascinado pelas fotos de artistas de teatro no Recife. Suzana Costa em Cordélia Brasil. Ela, as propagandas na TV: a Práxis Dramática, de José Mário Austregésilo (Galileu Galilei).

Havia concertos gratuitos de música clássica no Teatro de Santa Isabel, que Moisés frequentava com seu amigo Rogério. Ele estava fascinado com os intelectuais. Duas figuras marcam o final da sua adolescência: sua namorada Mirna Hélia e atriz Augusta Ferraz. Moisés comenta: “Eu tive algumas namoradas, como a terrível Mirna que me seduziu e abandonou aos treze anos

 

(com um beijo de língua coberta com sorvete de nata com morango), mas Mirna mudou a minha vida: queríamos ter um filho e comprar camisinha em 1979 era um drama. Curtíamos Clarice Lispector e Fellini. O relacionamento acabou de forma terrível. Nesta época, eu tinha entrado para UFPE e queria ser antropólogo”.

No final da sua adolescência, Moisés tinha terminado de ler “O Capital” de Karl Marx, e o Júnior, um dos rapazes da turma, que era filho de General, falava que “O Capital” era uma obra datada. Moisés tinha pedido a Adriana que ilustrasse o seu livro de poemas, ela fez ali mesmo, meio que intuitivo, no improviso mesmo! Foi tão marcante que ele guarda até hoje. Rogério, aos berros, começou a recitar uns poemas; eles estavam próximos à barra onde ficavam dois faróis, e de repente surgiu um barco, mas a guarda do porto pediu para que eles parassem com aquilo. Eram tempos difíceis, tempos de ditadura militar, e todos do grupo tinham que manter uma postura imposta pelo sistema político da época. Em 1979, veio a abertura e todos trabalharam para a esquerda. Moisés aproveitou a oportunidade e vendeu camisas e broches para Arraes, Francisco Julião e Gregório Bezerra. Participou de reuniões com estes políticos e ajudou na organização e divulgação de vários comícios.

Fernando Gabeira lançou o livro “O que é Isso Companheiro?”, que Moisés leu com entusiasmo. Depois viria “O Crepúsculo do Macho”, outro best seller. Um dos seus amigos inventou de usar uma tanga de crochê igual a do Gabeira na praia de Boa Viagem, era um período de abertura sexual, a turma achou meio engraçado. Moisés Monteiro de Melo Neto conheceu Gabeira pessoalmente numa das palestras que Gabeira conferia. Já em 1985, Moisés escreveu uma peça sobre as aventuras e desventuras de Gabeira, este texto ainda permanece inédito.

 


 

Moisés Monteiro de Melo Neto e Fernando Gabeira: debate acirrado


Ele assistia a muitos filmes quando tinha quinze anos porque possuía assinatura do jornal e tinha acesso a programação no jornal. Foi ali, na Almirante Tamandaré, que Moisés lia a revista Veja, ganhou também a sua primeira vitrola, fez seus primeiros amigos, que virariam homens ao seu lado: Júnior, seria engenheiro que o pai era militar; Mauri, era um baiano que morava perto. Seus amigos foram muito importantes na vida do Moisés porque ele tinha amigos que vinham da Inglaterra e mostraram o disco punk no Sex Pistols: Never mind the bollocks, here are the sex pistols.

Aos 18 anos, Moisés Monteiro de Melo Neto foi morar no centro do Recife, foi um momento difícil, ele se distanciou de Boa Viagem, o bairro que era sinônimo da sua adolescência, das suas amizades, o palco de tantos acontecimentos que influenciaram sua vida. Ele começou beber, se envolveu em algumas confusões e quase enlouqueceu. Nesta mesma época, ele entrou no curso de teleator na TV Universitária, participando do especial “A cartomante”. Depois fez alguns cursos de teatro e entrou em contato com mestres como Luiz Mendonça, Antônio Cadengue, Carlos Bartolomeu, José Francisco Filho, Luiz Maurício Carvalheira e muitos outros. Fazer contato com essas pessoas deu a ele a oportunidade de participar de algumas produções locais como “Suplício de Frei Caneca”, de Cláudio Aguiar.

Neste mesmo ano, também assistiu ao filme O Império dos Sentidos que mexeu muito com a cabeça dele. Os Beatles tinham se separado e Moisés começou a curtir muito John Lennon, principalmente um disco chamado Walls and Bridges e Mind Games. Começou a se interessar muito, obviamente, o Led Zeppelin também que adorava e aquele Led Zeppelin. O Led Zeppelin II, III e IV (o do velho). Ele os ouvia muito nos acampamentos. Nessa época Moisés conheceu uma praia chamada Calhetas. Era muito selvagem. Não é o que é hoje de jeito nenhum. Gaibu, uma praia próxima, mas de difícil acesso. Era muito selvagem. Não tinha conjuntos residenciais, ainda, nada disso: era uma aldeia de pescadores.

 


 

Havia fazendas no meio do caminho. Também sítios, era uma coisa completamente diferente de Boa Viagem, onde ele morava. Ele acampava com os outros surfistas, o Júnior, o Zé, Fábio, Abelardo, Paulo Smith, Sérgio Smith, Gilvan. Eram amigos de Moisés.

As garotas também frequentavam, e havia luau nesses momentos de socialização. Algumas pessoas tiravam a roupa, bebiam vinho, tomavam banho de mar nuas etc, eram adolescentes que testemunharam um cenário político de repressão, estavam ávidos por liberdade, isso na mesma época e que a pílula anticoncepcional estavam se popularizando e implantando uma verdadeira revolução sexual entre as mulheres.

(IX) Uma vertigem chamada Teatro

Quando alguém dá os primeiros passos no mundo do teatro, o coração é como um pássaro recém-liberto da gaiola. Cada passo em direção ao palco é uma jornada rumo ao desconhecido, uma aventura que desperta os sentidos e acende a imaginação.

Há uma sensação de liberdade que invade a alma, uma sensação de que, ali, no palco, os limites se dissolvem e a pessoa pode ser quem quiser. É como se um mundo novo se abrisse diante dos olhos, cheio de possibilidades e promessas de descoberta. Esta sensação de liberdade e descoberta era tudo que o jovem Moisés mais almejava no trato com a arte.

Mas também há o medo. Medo do julgamento, medo de esquecer as falas, medo de não estar à altura das expectativas. No entanto, esse medo é como um combustível que alimenta a chama da paixão pelo teatro, impulsionando o indivíduo a superar seus próprios limites e a se entregar de corpo e alma à arte da interpretação. Mas logo este sentimento de medo se transforma em energia, em adrenalina pura, que alimenta cada gesto, cada palavra, cada emoção. É uma experiência intensa, visceral, que toca a essência do ser e o conecta com algo maior do que si mesmo.

 

Há uma mistura de nervosismo e excitação, como borboletas frenéticas dançando no estômago. O ar parece eletrificado, carregado com a energia palpável da antecipação. Cada músculo está tenso, cada sentido aguçado, enquanto o ator se prepara para a jornada que está prestes a empreender.

Quando as cortinas se abrem e a luz dos refletores banha seu rosto, uma sensação de vertigem o envolve, como se estivesse prestes a mergulhar em um abismo de possibilidades infinitas. É um instante mágico, irreal, em que o tempo parece congelar e o mundo desaparece, deixando apenas o ator e sua arte, flutuando no éter do palco.

E então, num piscar de olhos, a música começa a tocar, as falas são pronunciadas, e o ator se lança de cabeça no turbilhão de emoções e sentimentos que é a performance teatral. É uma experiência visceral, intensa, que transcende as barreiras do tempo e do espaço, conectando o ator com algo maior do que si mesmo.

É como se, naquele momento, ele se tornasse um instrumento nas mãos de algo divino, uma ferramenta através da qual a magia do teatro pode se manifestar e tocar as almas dos espectadores. E é essa sensação, essa conexão profunda com a arte e com o público, que faz com que cada apresentação no palco de um teatro seja uma experiência verdadeiramente única e inesquecível.

Este caleidoscópio de impressões vertiginosas reflete bem a sensação de pertença e a atitude de entrega que o jovem Moisés viria experimentar ao entregar-se ao teatro de corpo e alma; de sangue pulsante nas veias, e imaginação profícua; de carne e verbo na transcendência do espírito dramático e na reverberação das palavras ditas na pujança da verdade cênica.

(X) O encontro com Shakespeare

Como adentrar na seara do teatro sem falar em William Shakespeare, e particularmente, tendo sido esta a primeira grande influência (quiçá a maior) das vivências teatrais do jovem Moisés? Shakespeare é a figura central na história do teatro ocidental e sua importância é imensa. Ele revolucionou a forma como as peças teatrais eram escritas e encenadas. Ele introduziu técnicas como a complexidade das personagens, o desenvolvimento de tramas intricadas e a exploração profunda dos temas humanos, o que elevou o teatro a novos patamares de sofisticação e profundidade.

Shakespeare escreveu peças que abrangem uma ampla gama de gêneros, incluindo tragédias como "Hamlet" e "Macbeth”, comédias como "Sonho de uma Noite de Verão" e "Muito Barulho por Nada", e dramas

 

históricos como "Henrique V" e "Ricardo III". Essa diversidade demonstra a sua versatilidade como dramaturgo e sua capacidade de explorar a variedade de inúmeros temas e emoções humanas.

Ele é amplamente reconhecido por sua maestria no uso da linguagem. Ele enriqueceu o inglês com uma vasta quantidade de novas palavras e expressões, muitas das quais ainda são usadas hoje em dia. O seu domínio da linguagem poética e a sua habilidade em criar diálogos memoráveis e solilóquios poderosos são aspectos fundamentais da sua contribuição para a literatura e o teatro. Talvez este domínio e maestria da linguagem tenha sido o aspecto que mais tenha influenciado o jovem Moisés na sua formação enquanto homem de teatro.

A importância de Shakespeare foi tamanha, que as suas peças continuam sendo amplamente encenadas e estudadas em todo o mundo, mais de quatro séculos após sua morte. As suas obras transcenderam barreiras culturais e linguísticas, sendo traduzido para diversos idiomas e adaptado para diferentes contextos culturais. A sua influência pode ser vista em todas as formas de arte, desde o teatro e o cinema até a literatura e a música.

Uma das marcas registradas do trabalho de Shakespeare é sua profunda exploração da natureza humana. Suas peças abordam temas universais como amor, ódio, inveja, ambição, traição e redenção, proporcionando insights valiosos sobre a complexidade e a profundidade da experiência humana.

O que podemos chamar de “o grande encontro” do jovem Moisés com a obra de Shakespeare foi através da obra sobre o destino do jovem príncipe da Dinamarca, cujo nome dá título à tragédia “Hamlet”. Considerado a personagem mais emblemática da dramaturgia ocidental, a identificação do jovem Moisés com os dilemas existenciais do jovem Hamlet foi tão profunda, que fez com que o jovem dramaturgo Moisés criasse a sua própria versão da tragédia shakespeareana, feito este que se configurou como um verdadeiro divisor de águas, não apenas na trajetória de sua criação dramatúrgica e artística como um todo, mas também na sua própria maneira de encarar o mundo, a existência do homem, e o sentido da vida. A famosa frase proferida pelo príncipe dinamarquês, “Ser ou não ser, eis a questão!”, viria a ter um significado muito mais visceral e metafísico, além de sua explícita e popularizada conotação existencialista.

 

4- William Shakespeare: vem Hamlet no olhar de Moisés

Moisés lembra: "Tenho dez anos, acabei de cruzar a ponte de ferro (feita com trilhos de trem?) que liga a Rua da Imperatriz à Rua Nova, Recife. É uma tarde chuvosa e eu venho do dentista, como recompensa me levaram à minha sorveteria favorita: Confiança (que também era uma fábrica de biscoitos, na Rua da Imperatriz); ao dobrar à esquerda em direção à Praça Joaquim Nabuco, onde tomaríamos o ônibus para Boa Viagem, onde eu morava, paramos numa banca de revista; enquanto a pessoa que estava comigo escolhia uma revista, eu fixei meu olhar sobre um livro com capa verde limão, havia seis letras douradas que me chamaram a atenção. Abri-o.”


Cartaz da peça HAMLET, Moisés interpretou o protagonista

"Li a palavra Espectro, perguntei o que significava e me disseram: fantasma. Pedi o livro e a pessoa que estava comigo comprou para mim. Começou assim o meu envolvimento com Shakespeare. A peça era Hamlet, que eu interpretaria durante dois anos, algum tempo depois, dirigido por Paulo Falcão e pelo argentino Alberto Gieco. Tragédia maior, em vários sentidos. Sonho de uma noite de verão foi outra peça que acompanhei uma montagem luxuosa bem de perto; dirigida por Antônio Cadengue, tendo Susana Costa como Titânia, Buarque de Aquino como Oberon e Augusta Ferraz como Puck (na época fazíamos parte do grupo Ilusionistas). Também interpretei Mercúcio, personagem de Romeu e Julieta (numa adaptação de Rubem Rocha Filho, dirigida por José Francisco Filho). Aos quinze anos ganhei a obra completa de Shakespeare, presente de um primo mais velho, da nossa família, os Belli. Com prazer devorei peça por peça. Depois desta maratona eu nunca mais fui o mesmo. Faz 400 anos que William Shakespeare morreu, mas continua a perseguir com carinho todos os atores, diretores e muitos autores.

 


 

Moisés interpretou e adaptou outros textos criados pelo bardo inglês

Sobre sua vida, sabemos pouco. Embora haja uma enxurrada de livros sobre sua produção e até a lenda sobre a autoria de parte dos seus textos. Shakespeare estudou até os 7, retornou até os 11. Conheceu, ainda adolescente o teatro e se apaixonou, foi para Londres e cavou seu caminho quase até o topo. Christopher Marlowe (teria sido ele, que forjara a própria morte e escrevia tudo de Shakespeare?) estava no seu caminho; Thomas Kyd e outros protegidos da rainha. Mas ele chegou até Elizabeth; o resto se mistura com lenda, o que é ótimo, para quem curte a produção deste bardo. Suas comédias, dramas históricos, tragédias (Macbeth, Rei Lear, Otelo) são joias de valor incalculável. Da sua forte herança latina brotaram as tragicomédias ou romances. Teve a glória em vida, mas acho que nem no sonho mais louco imaginou até aonde iriam as projeções da sua sombra e da sua luz. O Mercador de Veneza, A Comédia dos Erros, Os dois fidalgos de Verona, Muito barulho por nada, Noite de reis, Medida por medida, Conto do Inverno, Cimbelino, Megera Domada, A Tempestade, Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Julio César, Antônio e Cleópatra, Coriolano, Timon de Atenas, Henrique IV, Ricardo III, Henrique V e outras peças como Henrique VIII, fascinam com sua genialidade enigmática sublime; 400 anos depois do desaparecimento físico do misterioso bardo inglês, que tratou tão apropriadamente temas tão fortes, com um colorido (forma e conteúdo) tão cheio de som, riso, siso e fúria da alma humana, ainda dá muito o que falar. Uma vez, em Londres, eu parei diante da estátua dele no Museu de cera de Madame Tussaud e me perguntei: qual seria a figura exata de Shakespeare? Há tantas representações diferentes dele. Voltei no tempo, ao dia em que ganhei aquele Hamlet, e o li numa noite cheia de chuva, relâmpagos, trovões, ventos uivantes, próximo ao mar de Boa Viagem.”

Em 1988, Moisés ganha grande notoriedade no teatro interpretando

 

Hamlet, papel título do drama shakespeariano. Ao lado de Heitor Dhália, Bruno Garcia e outros atores, a peça era uma adaptação porque ela foi transformada num grande musical pop, sendo apresentada em boates. Disse Moisés, no dia da estreia da peça Hamlet, em que atuava como protagonista: “Nunca tive medo do palco e gostava de provocar reações na plateia; mas sempre registrei mentalmente que não se tratava de interpretar nada. Como se o ator fosse uma espécie de soldado: era preciso se sacrificar em nome de um bem maior. Era preciso acreditar na causa. Só que eu não tenho vontade de sacrificar o bastante para ser ator.”


Nos anos 80, o grupo Ilusionistas causou escândalo propondo uma temática ousada e se apresentando em Boates

 


 

5- Autores que influenciaram Moisés Monteiro de Melo Neto


Rimbaud, Edgar Allan Poe... influências. Agatha Christie e Edgar Walace, Maurice Leblanc (romances policiais...) na adolescência (mais de bem, com a vizinha que emprestava). Drummond e Clarice Lispector. Moisés era místico e pragmático, seus paradoxos. Seu primeiro poema, publicado no Jornal do Comércio, fala sobre lobos que os seus olhos, seu humor fugindo do depressivo. Adolescência agia, filhas caem, é árvore, mas se renova no delírio da vida: ele se movimenta, a partir daí, numa galáxia artística, na qual orbita até agora. Conhece quase todos os “astros” do teatro no Recife, desde 1980.

Dono de uma arte obsessiva que traz a carne e a magia da transcendência. Em 1980, ele vai morar na Boa Vista, bairro boêmio. Havia Boate Misty, o Bar Mustang, o Savoy, Os Três por Quatro, o Moreno, o Depois do Escuro, o Cantinho das Graças muitos abriram em 1982/3. Em 1982, juntou-se ao Grupo Trapézio, na casa de Buarque de Rufino, foi quando conheceu Marco Hanois, que seria seu parceiro, vários roteiros para ele (“What shit is this?”; “A última terça”; “Cassino Americano” e “ODOYÁ”) e mais. Eles falavam do tempo dos holandeses no Recife, da época da 2ª Guerra, quando Recife foi entregue para os norte-americanos. Com Hanois, que era um agregado da Ilusionistas, como Miriam Juvino e Manoel Constantino (na época de montagem da peça cubana “A noite dos assassinos” de José Triana e dirigido por Augusta Ferraz.) Moisés procurou por ele, quando foi à Havana, não o encontrou.

Eles eram estrelas e montavam coisas ousadas como “Andy Warhol está morto”, que se apresentou apenas uma vez no Teatro Barreto Júnior e abalou o teatro local, colocando seus astros numa performance que pediria uma motocicleta pilotada por Lucinda Frota, no elenco estavam “todas as tribos”: Aramis Trindade, Moisés, Bruno Garcia, Chico Acioly, Black Escobar, Ivonete Melo. Na produção Fefé, o dono da Misty, e Pedro Celso Marconi, o “Pedrinho”. Era o ano de 1987, ele estava no elenco da maior, da maior produção local em cartaz: Viva o Cordão Encarnado, de Luís Marinho, com direção de Luiz Mendonça.

 


 

Temporada longa no Teatro de Santa Isabel, Recife: Moisés como ator no musical Viva o cordão encarnado!


Todos eram revolucionários, 24 horas por dia. As festas se multiplicavam. Candeias foi o seu 3º paraíso (depois de Campo Grande e Boa Viagem); o fez esquecer a incômoda posição na Boa Vista de 1980 a 1982. Só faria as pazes com a Boa Vista em 1984, quando conseguiu um bom apartamento e voltou à faculdade e cursou Letras, formou-se em 1992, ele ama o curso que iniciou em 1989, depois da terrível montagem de Hamlet, na qual se envolveu por mais de um ano, com um diretor argentino, Alberto Gieco. Hamlet quase que o leva à depressão, Paulo Falcão, Bruno Garcia, Heitor Dhália, Paulo Barros, seus colegas, como Ana Célia Bandeira e o resto da equipe passaram pelos pobres momentos do teatro pernambucano, foi uma maldição que levou Moisés à Brasília (1988); uma montagem (caríssima que teve apenas 8 apresentações, por causa de um escândalo que chocou tudo e todos). Eles que pensavam em Alfred Jarry; Augusta Ferraz (que fazia Gertrude) saiu do elenco, depois de um ensaio no Barreto Júnior.

O grupo adorava o expressionismo, certo dia, eles assistiram a uma mostra na UFPE com dezenas de filmes das décadas de 20 e 30 alemãs; mostra que foi coordenada por Miriam Juvino, que então coproduzia Hamlet. Eles Adoravam Peter Lorre, Bete Davis, Liz Taylor, Ingrid Bergman, Hitchcock, Sartre, Bowie, B 52, Blondie, Cida Moreira, Lobão, Barão Vermelho, Catherine Deneuve... Em Moisés aquilo produziu uma metamorfose. Teatro era como no sonho verdadeiro. Ele se sentia meio Humphrey Bogart. Frequentavam os bares até altas horas. Ele ia constantemente ao Rio e São Paulo, ver teatro etc. Sua vida íntima era o teatro. Ele pensava que não ia envelhecer. Em 1990, as pensionistas montam Frankenstein (“O Horror”), que bombou na mídia e tinha no elenco Black Escobar, Henrique Amaral e Maria

 

Paula Costa Rego (que pouco depois seria musa de Ariano Suassuna, seu professor), foi nesta época que ele conheceu José Vidal e Gerald Thomas, que viraram ícones para ele (1985-1987). Moisés esteve nos bastidores da montagem do “O Navio Fantasma” (ópera de Wagner, no Teatro Municipal do Rio, direção de Gerald. Thomas conversou com Bárbara Heliodora sobre sua montagem de Hamlet (ela leu o texto e não gostou). Moisés disse: “Dona Dina de Oliveira me apoiou, ela era a matriarca do T.A.P. (Teatro de Armadores de Pernambuco)”.




Moisés, que já teve o escritor paraibano como professor, ensinava no Americano Batista, local onde estudou Ariano Suassuna.








Moisés e seu amigo Miró de Muribeca






A estreia do “Hamlet” foi um escândalo! Começaram a se desenvolver os seus dons de violência. Havia noites que ele sonambulava, mas não dormia; ainda hoje Moisés tem pesadelos com esta fase. Para montar peças, eles até tinham apoio de poder público, de empresas e amigos. A TV Jornal, TV Globo, TV Manchete, Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio, porque eram notícias, sempre. O grupo se sentia na cadência, na concepção dinâmica do Teatro. O teatro e seu duplo. Como ensinou Antonin Artaud, Teatro da Crueldade.

 


 

6- TAP (Teatro de Amadores de Pernambuco).


Sempre discreto, é muito raro ver Moisés falar sobre sua família. Aliás, é uma característica de quem produziu teatro nos anos 70 e 80, porque durante um longo período, o mundo do teatro pernambucano se misturou com o universo dos bares e boates do Recife. Existia a mística de que um bom jantar e muita bebedeira contribuíram para o processo criativo. Nas décadas 70 e 80, todos fumavam e bebiam; alguns até se drogavam. Para muitos artistas daquela época, a bebida funcionava como um estimulante, um relaxante, e era nas mesas dos bares, em reuniões dos grupos, que surgiam muitas das ideias para novos projetos. Mas as famílias sempre foram resguardada,s os artistas sempre tiveram a preocupação de não expor os seus familiares, aconteciam comentários, fofocas, mas o ambiente familiar sempre foi protegido. O TAP (Teatro de Amadores de Pernambuco) sempre foi o diferencial, a sua estrutura e a formação familiar contribuíram para outro tipo de comportamento.





Dona Dinah de Oliveira (Prima Donna do TAP, Teatro de Amadores de Pernambuco) foi assistir algumas montagens

de Moisés Monteiro de Melo Neto




No que diz respeito a Moisés, o uso de substâncias nunca foi necessário, pois ele sempre teve a mente muito cósmica, criativa e aberta demais, nunca precisou fazer uso de substâncias químicas para explorar a sua criatividade. Hoje em dia, tudo é diferente! Os artistas, produtores, técnicos, acabam o espetáculo e querem voltar para casa, querem comemorar com os seus familiares; o importante é o trabalho bem feito.

 

(XI) O mergulho nos palcos


Anos 80. Dos anseios e descobertas da flor de sua juventude, desabrochada em vários sentidos na década anterior – quando se deu o avanço da sua adolescência desbravadora e sagaz – a década de 80 chegaria com o emergir do jovem adulto Moisés, criativo, místico e multifacetado; explodindo em vigor e efervescência a pluralidade de seus desejos e da sua imaginação.

A primeira vez que Moisés subira em um palco, para proferir uma única fala, parece uma dessas estórias que se vê apenas no cinema. No dia da apresentação de um espetáculo, no qual ele trabalhava apenas como contrarregra de cena, um dos atores do elenco tivera algum imprevisto e não foi possível estar presente. Eis que as musas da arte e do acaso, juntas conspiraram a favor do nosso Moisés.

- Vista-se! Você vai entrar em cena. Agora é contigo!

A lembrança deste momento mágico, e daquelas palavras ditas como que sopradas pelos doces lábios das musas, nunca foi abandonada pela sua memória. Ele havia sido iniciado e aquela força que sentira, sendo um outro em seu próprio corpo sob o fulgor das luzes dos refletores ardendo em sua pele, foi uma sensação que lhe acometera de uma forma tão intensa, ainda que apenas durante o tempo breve de uma simples fala, que transformaria a sua vida para sempre.





A primeira trupe à qual Moisés se integrou, na montagem da peça Suplício de Frei Caneca. Aqui Moisés encena com atriz, gestor cultural e psicóloga Zélia Sales,

a farsa do príncipe, uma piada interna.

 

No cenário da atividade teatral na cidade do Recife, ao longo dos anos 80, era muito comum haver apresentações de sketches teatrais que aconteciam de forma constante em boates e bares diversos. Abria-se espaço para performances mais experimentais, ousadas, transgressoras, e predominante autorais.

Nesta época, Moisés, o nosso jovem homem de teatro, escreveu e dirigiu muitos destas sketches apresentadas nas então, e ainda, irreverentes noites recifenses. Ele capitaneava um grupo de atores, atrizes, e outros artistas da cena como cenógrafos, figurinistas, iluminadores. O grupo foi inspiradamente denominado de Ilusionistas, e normalmente causava certo “escândalo” ao propor temáticas bastante ousadas nas apresentações que aconteciam noite adentro.

A década de 1980 foi feérica para o nosso Moisés. O Teatro havia lhe tomado de assalto em várias frentes. Ator, idealizador, dramaturgo, compositor, diretor, produtor. Muitas foram as produções em série. Comédias, musicais, dramas, espetáculos infantis. Parcerias, criação em grupo, comunhão de companhias. Temporadas encadeadas. Viagens. Prêmios. A demanda pelo seu talento criador era incessante, e ele correspondia de uma forma quase obsessiva, que é próprio da sua natureza e personalidade.

Quando ele é cativado por alguma ideia, uma proposta, um desafio, uma epifania criadora, ele se joga com disposição incansável, com todas as suas forças, artilharias e munições. E esta garra o acompanhou em muitas outras coisas que ele se determinou a fazer. E assim o fez.

 


 

7- Início da trajetória no teatro


Tudo começou quando o jovem Moisés Monteiro de Melo Neto foi chamado a participar da peça “Suplício de Frei Caneca”; na verdade, Moisés conta que sua entrada para o elenco foi meio de supetão, no susto mesmo!

Com um texto de Cláudio Aguiar, a peça “Suplício de Frei Caneca” foi encenada na Igreja do Carmo, Olinda. Era a celebração do IV Centenário dos Carmelitas no Brasil. Moisés, que trabalhava como contrarregra, foi chamado para substituir um ator que tinha faltado.


Moisés era contrarregra e fez uma turnê pelo Nordeste, eles se apresentavam nas igrejas (centenárias) dos Carmelitas, (era o IV Centenário dos Carmelitas no Brasil). Houve algumas brigas e um dos atores subiu num altar barroco. Assim foi a estreia de Moisés como ator: “Suplício de Frei Caneca”, texto de Cláudio Aguiar, direção de José Francisco Filho.

Moisés comenta: “Aprendi muito sob a direção de José Francisco Filho e estreei como ator substituto na Igreja do Carmo de Olinda numa noite daquelas. Eu havia subido para a torre do sino para ver a lua nascer à beira-mar. Antes tomara uns cálices de um porto sensacional e andara num brinquedo tira-prosa, num parque de diversão na frente da igreja. Já tinha feito o meu serviço e esperava a peça começar. Foi quando vieram procurar-me com a boa nova: eu deveria substituir um ator que faltou. Meu primeiro texto em cena foi: “Enforcai-o! Eu era um dos algozes de Frei Caneca.”

No mesmo ano, ele estreou numa peça infantil que foi um sucesso, mas foi interrompida, acontece que o teatro onde a peça era encenada pegou fogo (“Dona Patinha vai ser miss”, sob a direção de Buarque de Aquino).

 


   

A terceira produção em que Moisés atua foi em 1980, “Muito pelo Contrário”, que estrearia em 1981, e mudaria sua vida para sempre. No elenco estavam: Ana Célia; Augusta Ferraz; Buarque de Aquino; Cláudio Ferrário; Diana Fontes e Eduardo Almeida (Coreografia); Ivonete Melo; Jandira Airam; José Ramos; Magdale Alves; Marcus Vinícius; Miguel Ângelo (Iluminação); Moisés Monteiro de Melo Neto; Paulo Falcão; Rutílio de Oliveira; Sandra Mascarenhas. Pela Skene Produções Artísticas- Susana Costa.

O musical “Muito pelo Contrário” é a primeira peça do dramaturgo e encenador João Falcão. Elaborado por um grupo de jovens artistas recifenses, o espetáculo mostra o olhar de uma geração sobre sua cultura e sua realidade, buscando desconstruir, com humor e ironia, ideias e imagens cristalizadas a respeito da Região Nordeste, frequentemente associada à seca, à fome e ao folclore. Com realização da Skene Produções, da atriz e produtora Suzana Costa, a peça reúne integrantes de vários grupos teatrais do Recife, procurando se diferenciar da hegemônica estética regionalista. No palco, o elenco apresenta

o próprio universo afetivo-social, o cotidiano do Recife e de Olinda reflete sobre

o modo como a cultura pernambucana, sobretudo, a arte popular, é pensada e representada dentro e fora do Estado.




Moisés Monteiro de Melo Neto, 1º à esquerda, e parte do elenco do musical de João Falcão: Muito pelo Contrário

 

A montagem faz diversas temporadas na capital pernambucana - com sucesso de público e satisfatória recepção crítica - e também se apresenta em festivais e excursiona por diversas cidades brasileiras, como Vitória, Rio de Janeiro e São Paulo. Participa do 7º Festival de Inverno de Campina Grande, Paraíba; do 9º Festival Nacional de Teatro de Ponta Grossa, Paraná, em que Suzana Costa é premiada como melhor atriz e Augusta Ferraz, como melhor atriz coadjuvante; do 1º Festival de Teatro do Recife, que, além dos prêmios de melhor atriz e atriz coadjuvante, recebe os prêmios de melhor direção e música para João Falcão; e do Mambembão 1982.

Neste período, Moisés Monteiro de Melo Neto deixou o curso de (Ciências sociais / antropologia) na UFPE. A peça foi um estrondoso sucesso e ficou em cartaz durante um ano e meio em Recife. Depois partiram para uma turnê pelo Brasil que deu a eles a oportunidade de participar de temporadas no Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória do Espírito Santo, Paraná e várias outras capitais brasileiras, além de conviver com a nata da intelectualidade “pop” recifense. João Falcão e sua turma eram absurdos e Moisés ficou fascinado com aquilo tudo.

Em um dos intervalos da turnê, Moisés decidiu voltar a morar próximo aos seus pais. Sua avó, Diomar de Belli, ainda tinha uma casa em Campo Grande, então ele mudou-se para lá. Não foi uma boa ideia! Ele e seu pai começaram a se desentender um dia, na hora do almoço, houve uma discussão que chocou toda a família; sua mamãe caiu em lágrimas. Sua vida no teatro o ensinou a usar máscaras no palco e a não usá-las fora dele.

Nesta mesma semana, ele encontrou o dramaturgo Eugene Ionesco, que viera ao Recife a convite da Fundação Joaquim Nabuco. Seu encontro aconteceu em Casa Forte, bem perto da casa de Gilberto Freyre. Moisés fez algumas perguntas e Ionesco respondeu. Eram conselhos, pois ele estava pensando em publicar o seu primeiro romance. Em 1982, Moisés terminou o livro e decidiu participar de um grupo teatral Trapézio. Todos eles foram morar numa região deserta da praia de Candeias, um lugar que é descrito como quase virgem, com um visual que incluía montes azulados e uma lagoa, algo que quase não existe mais na paisagem recifense.

 






O artista plástico Ismael Portela, Moisés e Buarque de Aquino, Candeias, anos 80









Buarque de Aquino; Moisés Monteiro de Melo Neto; Geane Bezerra; Romildo Moreira; Tereza Meira; Henrique Amaral; Albemar Araújo; Zélia Sales; Manoel Constantino:

equipe de A vila dos mil encantos (Grupo Teatral Trapézio), 1983



"Fomos todos morar numa região deserta da praia de Candeias, um lugar ainda quase virgem com um visual que incluía montes azulados e uma lagoa”, afirma Moisés que estreou no teatro como ator profissional dirigido por José Francisco Filho e Buarque de Aquino, e com o diretor/autor João Falcão. Entre 81 e 83, participou do Grupo Trapézio de Teatro, ao lado de Geane Bezerra; Zélia Sales; Romildo Moreira; Manoel Constantino; Tereza Meira; Henrique Brito e Buarque de Aquino, este coletivo montou “A Vila dos Mil Encantos” (texto de Geane e direção de Buarque).




Zélia Sales e Moisés Monteiro de Melo Neto em “A Vila dos Mil Encantos” (Grupo Trapézio)

 

8- Ilusionistas Corporação Artística


Atores da Ilusionistas Corporação Artística, Henrique Amaral, Moisés Mozart Guerra (cenógrafo) e Vladmir Combre de Sena (sentado)na primeira sede (Rua da Hora, Espinheiro, Recife - PE)

O grupo Ilusionistas foi formado por jovens que viveram intensamente a década de 80. Naquela época, o Brasil passava por diversas transformações políticas, econômicas, sociais e culturais. Foi um período de uma produção cultural vasta, existia um movimento que alguns definiam como pós-modernista, outros como marginal, ou vanguardista.


O movimento cultural nos anos 80 está completamente ligado aos acontecimentos das décadas de 60 e 70. Neste período, a cultura foi marcada por violentas transformações causadas pela política e economia, (pós-68, AI5, etc.). Tais acontecimentos contribuíram para criação da chamada poesia marginal, uma literatura quase artesanal.

 

Escritores mimeografavam seus textos e se reuniam para vendê-los nos bares, boates, paradas de ônibus, cinemas, teatros, etc. Aqui no Recife, diversos locais foram pontos e/ou sede desses produtores culturais. Tais como-Cervejaria 7 (R. Sete de Setembro – No local funcionava um complexo de Cervejaria, Discoteca, Livraria e Teatro. Ali reuniam-se muitas pessoas dos meios culturais da cidade: artistas plásticos, atores, diretores teatrais, bailarinos e notívagos em geral. Tudo era uma vitrine, onde vários produtos estavam expostos, e a cultura o prato principal.

É neste período que Moisés Monteiro de Melo Neto aparece entre os jovens intelectuais do Recife. Junto a ele, encontramos Manoel Constantino e Rejane Leandro; grande amiga e dona de duas boates na Zona Sul do Recife. Vale salientar que a Boate Status era soberana na década de 70.

É neste contexto que jovens compartilhavam do mesmo pensamento criam o grupo Ilusionistas; (Henrique Amaral; Mísia Coutinho; Paulo Barros; Augusta Ferraz; Simone Figueiredo; Rivaldo Casado; Buarque de Aquino; Beto Vieira; Adeilson Amorim – este desenvolvendo um trabalho fotográfico com o grupo -, entre outros). Outros artistas importantes também tiveram participação no grupo, entre eles estão: Vladmir Combre de Senna, Fátima Barreto, Ivonete Melo – esta com suas experiências “Vivencialescas”. Ivonete era madrinha de teatro de Moisés. Ela o adotou na fonte da sua carreira, ele era um menino, quase, ainda, e ela era uma estrela tropicalista, na sua essência.


 


 

Com Mísia Coutinho, Tuca Andrada. JFF e Ivonete, após o espetáculo de Tuca inspirado nos poemas de Torquato Neto, 2023, Teatro Hermilo Borba Filho


Brindando com Ivonete no Bar Tatu Bola, à beira-mar no Pina, Recife. Logo a seguir, no primeiro de janeiro de 2024, ela faleceria.


É importante dizer que não havia um líder, todos tinham direitos e deveres, e tudo era criado a partir do que todos liam. A literatura universal era a referência para criação, mas eles também estudavam muito sobre técnicas de teatro, diversos textos de inúmeros autores; tudo para ter conhecimento e domínio sobre o que estavam fazendo. Moisés e todos os integrantes do grupo buscavam desvendar a essência das obras.

Goethe, Cervantes, Shakespeare, O´Neil, Shaw, Ionesco, Becket, Nélson Rodrigues, Plínio Marcos, Artaud, entre outros; o interesse era o aprofundamento, eles iam além da análise crítica, buscavam posicionamento cultural, social e histórico das obras. Viajavam por todos os cantos deste país, e também para o exterior, porque o interesse deles era saber as novidades que

 

aconteciam no campo das Artes: música, literatura, artes plásticas, artes cênicas; tudo influenciava o grupo, e a ideia era adquirir conhecimento para transformá-lo em arte.

Foi um processo de grande aprendizado, o grupo percebeu que no teatro a expressão corporal era essencial, e ao mesmo tempo, eles entenderam a necessidade de se desprender. Mas claro, um bom texto dramatúrgico sempre será um grande aprendizado. Moisés viajou muito pelo Brasil e pela América Latina; em uma dessas viagens, ele conheceu o grupo El Galpon (convivendo por dias em Montevidéu com os integrantes do grupo). Um grupo com tendências pós-modernas e que viria a lhe mostrar muita versatilidade na montagem de três textos de Tchekhov.

O grupo Ilusionistas trouxe uma nova perspectiva de fazer teatro nos anos 80, a ideia era fazer algo fora do padrão, uma forma alternativa de representação teatral. Eles buscavam algo novo, espaços diferentes; então a ideia foi sair dos palcos e se apresentar em boates e bares, algo que quebrasse a forma ou a fôrma de representar. Era uma maneira de não repetir, de trazer o inusitado através de diferentes espaços.

Com a chegada de Vladmir Combre Senna, no grupo, eles perceberam a necessidade de trazer textos sobre improvisar (Escola Alemã), saber zombar e rir, era uma tentativa de dizer as coisas e brincar com a realidade. Em suas viagens pelos festivais nacionais e internacionais, o grupo debatia sobre como fazer teatro, e para aprimorar suas técnicas, contratavam professores locais e de outros estados para ministrar cursos ao grupo e para o público interessado, mantendo-se sempre bem atualizados sobre os acontecimentos culturais do momento. Também era uma filosofia que tinha como proposta levar literatura, arte ao público, e ao mesmo tempo, trocar informação.

O humor cáustico, irônico de Moisés nem sempre foi compreendido. "Faustina", adaptação de “Fausto”; a obra do imortal Goethe, não foi tão bem recebida pelos críticos. Moisés foi muito criticado e mal compreendido na sua intenção de levar os espetáculos aos bares e boates. O grupo Ilusionistas sempre produziu textos com temáticas muito diversificadas, o objetivo era refletir o cotidiano das pessoas, criando uma interação entre a plateia e o palco.

 


 

Cena de Faustina, na boate Misty

No fim dos anos 80, a fórmula se desgastou. Em 1988, a ilusionistas passou a trabalhar com outros produtores culturais que não partilhavam da ideologia do grupo, foi o primeiro golpe. Em 1982, Moisés escreveu um livro chamado “A incrível noite”, produzido e editorado pela Ilusionistas em abril de 1983. O livro é uma ficção que se passa dentro de um apartamento. Para o autor; representa Recife, seus hábitos e costumes.

“La cumparsita”, de 1991, deu início a uma pausa de cinco anos nos trabalhos da Ilusionistas, Moisés deixou as produções teatrais, passou uma temporada na Europa e nos Estados Unidos, também terminou seu curso de letras e fez uma pós-graduação em literatura brasileira. Em 1999, a Ilusionistas Comparação Artística retorna aos trabalhos com o espetáculo "Para Um Amor no Recife", que conta a história de um amor conflituoso, suas questões sexuais e ambiguidades. O espetáculo mostra o jovem recifense dos anos 90, sua solidão, seus anseios. É o reflexo de uma sociedade e suas agruras, talvez o retrato perfeito de uma geração. De lá para cá, a Ilusionistas Corporação Artística produziu vários outros espetáculos, são mais de vinte e cinco anos de trabalho; além das produções teatrais, ela foi responsável por publicações de livros, promover palestras, exposições e oficinas de teatro.


Augusta Ferraz e Moisés Monteiro de Melo Neto

 

Nós já vivemos a metade da década de 80, uma década que para muitos foi uma década perdida. Em 1984, o Brasil viveu o movimento de Diretas Já! O povo foi às ruas para pedir eleições diretas para presidente. Tancredo Neves foi eleito presidente de forma indireta em 1985, porém morreu antes de assumir, levando o seu vice José Sarney a assumir a presidência.

Entre os jovens existia toda uma onda de Pós-punk, New Wave, Synthpop e tantas outras vertentes da música inglesa que findaram no (Rock´n´ Rio), primeiro festival que reuniria uma série de bandas estrangeiras e brasileiras, e que depois abriria espaço para outros grandes eventos de música no Brasil. Muitos de nós só ouvimos falar em Woodstock. O Rock in Rio foi a grande oportunidade de presenciar um festival que mudaria completamente o comportamento de muitos jovens brasileiros.

“Eis o começo de 1985: Tancredo Neves morreu em circunstâncias muito suspeitas. O povo dizia que ele fora assassinado, que a repórter Glória Maria vira tudo dentro de uma igreja e tiveram que abafar o caso. Conhecemos então Dona Risoleta Neves, a esposa do homem que poderia ter salvado o Brasil, ela parecia estar sofrendo muita pressão, estava bastante assustada. Sobrou o vice para a gente: o maranhense José Sarney assumiu o comando do país. Foi um período no qual o Brasil poderia ter melhorado. Não aconteceria nada disso. Na Rádio Lobão cantava Decadence Avec Elegance, Revanche e O rock errou. O país mergulharia num plano econômico catastrófico chamado Plano cruzado. Foi algo similar a um soco na cara dos cidadãos que continuariam a levar porrada até o final da década, sem intervalos. Faltaria comida nos supermercados, a inflação chegaria às alturas antes inimagináveis e a nação se emporcalharia no mais absoluto caos culminando com a gestão do presidente Collor”, comenta Moisés.

Depois do (Rock in Rio 85) várias bandas brasileiras ganharam espaço

nas rádios e conseguiram contrato com as gravadoras. Os jovens começaram a se vestir de modo diferente. New wave da Blondie, do Lobão, do Kid Abelha, SKA do Paralamas, Lulu Santos, Legião Urbana, Cazuza do Barão Vermelho, filmes e mais filmes que investiam no visual e comportamento dos artistas da época. Nessa época Moisés estava interpretando A Noite dos Assassinos (do cubano José Triana) e conseguiu uma passagem para o Rio e um passaporte para todos os dias do festival.

 

Na madrugada da última apresentação da peça, Moisés pegou um avião rumo ao Rio de Janeiro, mas antes houve uma comemoração regada a muito vinho com toda a equipe do espetáculo. Um dos seus amigos foi buscá-lo no aeroporto carioca e o levou para a casa dele, na Ilha do Governador. Era uma favela! Na manhã seguinte, ele se transferiu para a casa de outro amigo que morava em Ipanema, o Pedro Paulo. Moisés narra: “Nós fomos à praia e aquela água gelada me revigorou bastante. A galera estava falando com Mary Jane por toda a areia. Como eu curti a minha juventude! Eu não precisava das drogas nem do álcool. A minha imaginação sempre foi uma companheira bem agitada. É claro que houve cervejas e tudo o mais, mas a minha interna vida cósmica (título de um poema meu) era bem mais forte que qualquer substância a ser consumida.”

Um acontecimento pegou Moisés de surpresa. Havia um cara com quem seu amigo dividia o apartamento, certo dia houve uma cena de ciúmes com uma menina. No quarto dia no apartamento, Moisés teve que encontrar outro local para ficar. Naquela tarde, ele foi ao apartamento de Celeste Jerônimo, onde João Falcão estava hospedado. Não foi uma tarde tão legal assim, mas algo a tornou mais desagradável: alguém contou que, durante um enterro, Celeste pisara num caixão podre e atolara o pé num cadáver.

Moisés ficou hospedado no Parque Guinle, num conjunto residencial nas Laranjeiras. Seu quarto tinha janela para um monte belíssimo e a família de Lúcio Azevedo Wanderley o recebeu muito bem. Chegaram outros amigos e de repente uma festa que incluía caixas de vinho e tudo mais que aparecesse em termos de emoção. Estava rolando shows de Ozzy Osborne, Nina Hagen (por quem Moisés era fascinado), Queen (Fred barbarizou num Grand Finale), Iron Maiden, Scorpions, Kid, Barão, Paralamas, Rita Lee e outros. Ele sabia todas as letras e cantava todas elas. Foi uma farra que durou mais ou menos dez dias.

Foi uma grande confraternização, Lúcio e Moisés chegaram a compor uma pequena ópera baseada em Frankenstein, ele morava no bairro de Casa Forte (Recife). Moisés encontrou o pessoal do teatro no Festival, que acontecia num local enorme, eles jovens vítimas da ditadura militar e não estavam acostumados com tamanha liberdade. Até 84, dois caras conversando na rua, era justificativa para a polícia prender por conspiração.

 


 

A Ilusionistas Corporação Artística realiza hoje a exposição Ilusionistas Rumo ao 3° Milênio, no Teatro Arraial, a partir das 19h. O evento foi escolhido pela Federação de Teatro Amador do estado, para integrar o projeto Memória da Cena Pernambucana


Muitas vezes a Ilusionistas caprichou em figurinos e cenários, o que irritava os críticos locais, principalmente a ousadia dos discursos daqueles jovens iconoclastas, talvez, como nesta cena final de Hamlet (figurinos Walter Holmes, cenários de Mozart Guerra, que Simone e Moisés visitaram no seu ateliê, em Paris. Na foto estão Heitor Dhalia, cineasta, 2º à esquerda, e Bruno Garcia, último à direita. (Teatro Valdemar de Oliveira, Recife, 1988). Direção do argentino Alberto Gieco e de Paulo Falcão. Dona Diná de Oliveira, apoiadora do grupo ficou chocada com o final da peça, quando os mortos se levantam.

 

Ilusionistas em férias, Simone e Moisés adoravam viajar

 


 


HAMLET, cena do funeral de Ofélia


Com figurinos e cenários de Buarque de Aquino, outra peça que a Ilusionistas trouxe foi A maior bagunça de todos os tempos. Abaixo Simone e Moisés desagradaram ao estudioso Marco Camarotti (UFPE), especialista em teatro para a infância, pelo excesso de violência no início da peça.

 

A maior bagunça de todos os tempos

 


 

Outra cena de A maior bagunça de todos os tempos. Malhas recriavam a floresta e o palácio em mutação constante


O cenário de Pierson Barreto para a montagem do texto do cubano José Triana, A noite dos assassinos, dirigida por Augusta Ferraz. A Ilusionistas transformou o Teatro Joaquim Cardoso numa arena, o que desagradou ao administrador Milton Bacarelli e gerou uma briga horrorosa com a UFPE.


Bruno e o circo, cenário de Sephora Silva, figurinos de Célio Pontes (2010)


Henrique Amaral, Maria Paula Costa Rego e Black Escobar em O Horror, direção de Buarque de Aquino, texto de Moisés, Teatro José Carlos Borges, 1990.

 


 

Cena de Para um amor no Recife



André Ricari, Ivo Barreto, Gerson Lobo, Pascoal Filizolla e Bob Mergulhão, em uma cena do musical que Moisés escreveu com Ricardo Valença, direção de Carlos Bartolomeu: A ilha do tesouro. Figurinos Marcondes Lima e Henrique Celibi, também assinatura dos cenários adereços. Produção Ilusionistas.


Enquanto isso, Moisés continuava viajando pelo mundo, algum tempo depois encontro partes dos seus diários onde registra uma experiência bem reveladora: Em certos lugares do Brasil, ser educado pode se confundir com ser idiota. É preciso muito talento para interpretar o papel de besta; aconteceu a 6 km de Machu Picchu (em quéchua “velha montanha”), Aguas Calientes, lugar de banhos termais, no Peru, às margens do Rio Urubamba (Vilcanota).

 


 

Moisés e os dias no Peru

Moisés conhecera o viajante no dia anterior. Sentaram-se próximos, num trem que iria levá-los ao hotel em Águas Calientes. Ambos gostavam de literatura, teatro, cinema, ambos tinham viajado a várias partes do mundo e tinham muito sobre o que conversar. Falavam sobre o mundo árabe, as noites em Havana, os conflitos em Israel, onde ambos estiveram por alguns meses. Numa noite, o visitante, bêbado, tentou seduzir Moisés, que o rejeitou bruscamente, o cara falou sobre “comestíveis lábios e sobre os “montes de Marte” (em oposição ao 'monte de Vênus”, como alguns chamam o púbis feminino.).

Moisés conta essa estranha história numa parte dos seus diários, aos quais tive acesso na minha pesquisa para escrever esta biografia dadaísta de improviso. O viajante propôs a Moisés um caso amoroso à moda antiga e de ordem mais elevada, algo similar a um folhetim medieval. Aos poucos o estranho foi se tornando “amigo” de Moisés, que sentia certa repulsa só de pensar em qualquer intimidade sexual com ele. O cara bebia demais e tinha um ar de cigano prestes a aplicar algum golpe. Moisés, às vezes, parecia tentar provar alguma coisa, vírgula, sobre o sexo dos outros. O viajante tinha um ar vagamente depravado; o garçom que os servia naquele restaurante em Águas Calientes, Peru, era, e isso ficou como legenda numa postagem no Instagram do viajante, “o mais terno atendente de bar que já se viu” [sic].

Naquela noite o viajante ficou tão doido que começou a falar sobre meretrícios que frequentara no Egito, e pôs-se a fazer poesia falada sobre amor, sofrimento e trabalho. Moisés parou de beber e começou a tomar água, enquanto saboreava a culinária peruana.

Lá fora, pela janela do restaurante, colada à mesa deles, via-se um nevoeiro que fazia da iluminação de umas coisas recortadas. O que Moisés pensava, leio nos diários que escreveu no Peru, era sobre como jamais poderia

 

concentrar-se outra vez somente no casamento, pois era embriagado por tudo no mundo. E aquele sujeito ali, o incomodava e atraía ao mesmo tempo. O cara era de uma família de ciganos que estava sendo perseguida, fugira para Portugal e agora estava dando “um tempo” na América do Sul. O que é que este cara queria? Com um tolo como ele, apaixonado por Deus?

Que embrulhada! Aqueles dois, ali, naquele lugar a poucos quilômetros de Machu Picchu. “Virei um bêbado enquanto envelhecia”, disse o estranho que já se fazia íntimo, “porque gosto de êxtase da mente, sou um desgraçado, mas amo o amor... principalmente amor aos livros”, o sujeito estava “chapado”, dizia Moisés. “Passei muitos dias frequentando a maior biblioteca do mundo, a biblioteca pública de Nova York”. E saltava de um assunto para o outro como se houvesse trovões anunciando tempestade: “estive no Père Lachaise, várias vezes, contemplando os túmulos de Balzac”, Moisés tentou levantar-se deixando sua parte das despesas, o viajante o segurou pelo braço. O que aquele sujeito estava planejando? O garçom simpático veio checar se estava tudo em ordem e se desejavam mais alguma coisa. “Um champanhe Veuve Clicquot, e a conta  “ah! Você tem ostras?”, ostras não tinha. “Por favor, senhor brasileiro,

só uma taça!” o ceviche, prato que Moisés amava, estava primoroso. Ele quedou-se e entregou-se àquele jogo intelectual de elegante decadência. Viajar pelo mundo tem este fascinante aspecto. Ser cidadão do mundo, um globe trotter. “Eu vim à América do Sul para não fazer nada”.


(XII) As portas do mundo


Quais as razões que fazem um coração “bandoleiro” ter anseios de ganhar o mundo? De ultrapassar fronteiras? De adentrar nas câmaras dos seus segredos e mistérios? De respirar a singularidade de outros ares? As razões pelas quais as pessoas viajam são tão diversas quanto as pessoas mesmas. E assim não seria diferente com Moisés, o artista, o pensador, o escritor criador de mundos e realidades outras, o visionário, o descobridor.

As razões para viajar podem variar de acordo com as circunstâncias individuais, personalidade, interesses e aspirações. Seja para buscar aventura,

 

relaxamento, crescimento pessoal, conexão com outras culturas ou realização de sonhos, viajar oferece uma oportunidade única de explorar o mundo e enriquecer a vida de maneira profunda e significativa.

Muitas pessoas sentem um impulso intrínseco para explorar o desconhecido, descobrir novos lugares, culturas, paisagens e experiências. A necessidade de ampliar horizontes e expandir os limites pessoais é uma força poderosa que os levam mais longes do que eles pensam em chegar. Para alguns, a vida sem aventura é monótona e enfadonha. E viajar oferece a oportunidade de buscar experiências emocionantes e singulares, como explorar ruínas antigas ou mergulhar em águas cristalinas.

Através das lentes de nossa luneta, avistamos o nosso Moisés caminhando por entre uma longa alameda de imensas palmeiras. Os seus passos sobre um chão de terra batida fazem revolutear sobre o caminho uma nuvem de areia fina, que ao se dissipar com a ajuda do vento, nos faz vislumbrar a cabeça gigantesca de uma esfinge, que guarda atrás de si a visão de três imponentes pirâmides que vão se distanciando no ponto de fuga das nossas vistas. Moises está com os pés fincados no Egito e o seu olhar passeia, como se seguisse as curvas do Rio Nilo, abarcando todas as maravilhas daquele mundo antigo.





Moisés, ao longo do Nilo

 

Viajar também pode ser uma jornada de autodescoberta e crescimento pessoal. Ao sair da zona de conforto e enfrentar desafios, os viajantes têm a oportunidade de aprender mais sobre si mesmos, suas habilidades, limitações e valores. A exposição a novas culturas, pontos de vista e maneiras de viver pode ampliar a mente e enriquecer a compreensão do mundo.

Giram-se os espelhos da nossa busca. Agora vemos o nosso Moisés no alto de uma pirâmide milenar de cujo topo, onde ele se encontra, nós conseguimos avistar um imenso e largo vale emoldurado por antigas edificações de pedra. Para além dos limites que demarcam até onde se consegue ver as construções, perde-se de vista um imenso tapete verde de selva tropical que se estende até a linha do horizonte. Moisés está no topo da Pirâmide do Sol em plena Teotihuacán, cidade antiga da civilização asteca, cravada no que hoje é território mexicano. Moisés mira o horizonte trazendo na memória todos os recantos daquele local, que mais cedo ele visitara. Uma profusão de imagens e epifanias faz ele imaginar como que vivenciasse dezenas de séculos das raízes ameríndias.

Em mais um giro de prismas especulares, agora avistamos o nosso Moisés no alto de um monte de onde se vê o azul escuro do mar perdendo-se no horizonte. Ele caminha por entre blocos brancos de ruínas tombadas como um campo coberto de gigantescos ossos caídos. Ao expandirmos a abertura das muitas lentes de nossa luneta, nós o vemos em frente ao Parthenon em plena Acrópole de Atenas. Os seus olhos brilham de uma vicissitude singular ao estar contemplando de cima daquele monte toda a grandiosidade eloquente da Grécia antiga. Os grandes filósofos. Os grandes tragediógrafos. A mitologia. A democracia.

Viajar oferece a oportunidade de se conectar com pessoas de diferentes origens culturais, étnicas e sociais. Essas interações podem levar a novas amizades, trocas culturais enriquecedoras e uma compreensão mais profunda da diversidade humana. A experiência de compartilhar momentos e criar memórias com pessoas de todo o mundo pode ser incrivelmente gratificante e enriquecedora.

Em um instante o vemos andando pelas ruas de Lima no Peru, entrando

 

em um bar, pedindo uma bebida. Ele sorri. Do seu sorriso aparece os lampadários luminescente da Times Square, onde em um giro de 360 graus, o seu olhar avista todo o entorno do coração da cidade de Nova Iorque; e o vemos caminhando em uma rua que vai dar na entrada do Central Park. Do gramado verdejante do parque, de onde se vê ao fundo as paredes altivas do Metropolitan Museum, mais na frente as curvas modernas do Guggenheim NYC Museus. Ao vermos dobrar à direita para descer a The Wall Street, do reflexo que salta das lentes dos seus óculos escuros, avistamos a imensidão longa e larga da Champ Élysées em direção ao giratório onde imponente se ergue o Arco do Triunfo. Logo ele está sentado com pessoas conhecidas em uma aconchegante mesa de calçada em algum Boulevard que ao fundo se vê a Eiffel Tower apontando para o sol o seu dedo solene.



Com a artista e pesquisadora Mônica Cordeiro, verão de 22, Amsterdam



Da luminosidade explosiva de Paris, somos levados para as ruas estreitas e os canais charmosos de uma Amsterdam florida e quente no verão. Em um flash, já estamos adentrando as vielas e cruzando as antigas e pequenas pontes da cidade de Veneza, onde vemos o nosso Moisés abrir festivo uma garrafa de espumante em uma gôndola guiada por um barqueiro sorridente.

 


 

Moisés posta cenas de Amsterdam, nas suas redes sociais.

Das águas de Veneza, agora o vemos nas areias do Marrocos, contemplativo, esgueirando-se pelas vielas mágicas da Medina, repleta de lojas vendendo os mais exóticos souvenirs; no ar um cheiro de incenso mistura-se ao odor enigmático de inúmeras especiarias e sabores.

Ele adentra em um estabelecimento para beber algo e o vemos agora em um Pub londrino, de onde logo depois ele sai em uma rua movimentada da cidade de Buenos Aires na Argentina, na qual ele procura o endereço de uma das suas imponentes livrarias; ouve-se no entorno a melodia de um tango sedutor e sanguíneo, onde dançarinos ensaiam para as apresentações noturnas; e assim os espelhos vão girando, girando, e girando sem parar, mostrando cada vez mais lugares, cidades, e países por onde o nosso Moisés experimentara ao sabor de sua presença.




Moisés em Tanger, Marrocos

, seguindo a trilha dos beatniks

 

Comecei 2020, em Tanger, Marrocos, noroeste da África, às margens de um estreito que une o Atlântico ao Mediterrâneo e separa o país da Espanha (a alguns minutos de barco que utilizei algumas vezes). Ela foi cenário para muitos filmes como os de James Bond, Risco Imediato e Spectre. Fica a 14 km em linha reta da península Ibérica, palco de várias civilizações e culturas desde o século V a.C., fenícios, cartagineses, romanos (vi as ruínas) desde os berberes foi disputada por vários reinos muçulmanos e cristãos. Hoje, com um milhão e meio de habitantes, é uma cidade cosmopolita do reino de Maomé VI, lugar multicultural. Passei o réveillon na boate do Hilton Garden, convidado por um engenheiro marroquino que conheci em Tarifa, comunidade autônoma da Andaluzia, dias antes. Dancei até de madrugada e bebi. Voltei no frio pelo calçadão à beira-mar, Estreito de Gibraltar, até a Medina, a cidade antiga, com suas ruas apertadas, sinuosas, deslumbrantes, onde estava hospedado. Entrei no meu quarto e fiquei a imaginar mil e uma coisas. Olhei-me no espelho: eu exalava vapores de amor químico, como se aquele momento significasse outra vida para mim, que me encontrava meio sem sonhos. Queria dar um tempo de tantas viagens na minha vida, mas o amor à estrada me impediu. No Brasil não havia mais “lar” para mim? Hit the road, Jack! E eis-me no amanhecer do primeiro dia de 2020, meu olhar estrangeiro emergindo do meu oceano mental, como se fosse um submarino bêbado. Acordei no final da manhã. Deixei-me envolver pelo vento e senti que tudo era o que era, tautológico assim, como num alvorecer na minha mente de homem descasado, mas em mim havia muito mais do que sonhos. Saí do hotel sentindo-me renovado. Fui até um restaurante, lá embaixo.

Chegando ali, sentei pensativo: assim é o mundo, uma fila que anda. Tudo muda, afinal. Senti por Tanger uma irresistível atração, a sensação de que era um personagem de um romance cujo autor ao morrer, deixou inacabado em meio aos cacos de amor. Lembrei dos meus autores beatniks que escreveram sobre Tanger, tiraram fotos aqui: Kerouac, Ginsberg, Tennessee Williams, Bowles, Genet e pintores como Delacroix e Matisse que a retrataram. Enquanto o primeiro dia do ano avançava. Pedi um copo de chá de menta, olhando para o mar. 2020! Pensar no Brasil, lembrança longe, de brilho estranho e ilógico, fez-

 

me sorrir, embora estivesse à beira das lágrimas. Entrei numa espécie de transe. Pelos vidros observei as gaivotas que disputavam restos de comidas na beira da praia. Dois dias antes eu fora visitar o abandonado desde os anos 60, Gran Teatro Cervantes, aberto em 1913, estilo art nouveau, onde se apresentaram Caruso e atores de todo o mundo antes de se converter em cinema e até palco de luta livre. Olhá-lo só ruínas, numa visita clandestina, guiada pelo zelador, me entristeceu: parecia o Titanic no fundo do mar. Pensei na arte toda que assimilei e que fazia parte de mim, ali, naquela cidade litorânea cheia de história milenares, distante da minha prática diária de professor universitário, pesquisador e escritor. Uma adorável sensação estranha tomou conta de mim. A tarde ia se derretendo e a noite se anunciava quando o jovem garçom árabe se aproximou perguntando se eu queria algo mais. Misturando inglês, francês e espanhol, pedi um filé de salmão, cuscuz e figos frescos com calda. Ele anotou, sorriu e saiu. Eu buscava examinar naquele país as camadas de arqueologia dos que estiveram ali e daquele ponto, como no conto O Aleph, do argentino Jorge Luis Borges, viram o mundo. Sentindo-me um imperfeito estrangeiro, olhei no phone os meus olhos cor de chocolate. Reli o trecho final de O céu que nos Protege, ao celular, naquela semana eu iria ao Museu da Legação Americana, que também fica na Medina, antigo consulado em estilo mouro de 1821, pesquisar o acervo de Paul Bowles, autor que estudo. Depois, escutei algumas canções favoritas enquanto a noite estrelada e fria engolfava tudo lá fora, envolvendo-me numa proustiana sensação da busca do tempo perdido, como se eu extraísse minhas memórias de um compartimento secreto. De repente senti-me meio assim: fora do eixo, melancólico, mas equilibrei-me com humor, o mesmo acontecera na caverna de Hércules, no Cabo Esparte, no da anterior. Coisa de escritor, combinar palavras, desejá-las numa bravata da linguagem; como minha escrita meio poesia cinematográfica, humor ácido, mas um olho na tradição outro na vanguarda. O ar frio soprou vindo do mar. Comi e saí a andar pela avenida à beira-mar. A atração gravitacional dos lugares que visito é que me chama, me atrai. Não consigo resistir.

 


 

Moisés, em Tanger

De volta ao hotel a pensar que há pelo menos dois seres dentro de mim, no mínimo: um anda pela vida, outro pela literatura. Ainda na Avenida, parei. O céu parecia faiscar. Voltei ao meu quarto e liguei o notebook para revisar um texto meu que me intimaram a publicar, logo.

Não importa como você viaje, quão bem-sucedida seja sua jornada, a abreviada, você sempre aprende alguma coisa. Veja o Peru, o México, estes indígenas todos, os astecas, os maias, olmecas; diferente do Brasil, a cultura africana não vingou aqui, eles têm a deles, sólida. Mascando sua coca, fazendo suas coisas. Adoro o Peru, Lima me ajudou a mudar meus pensamentos”. Moisés pensou “ainda bem que ele parou de dizer que queria sexo comigo”, foi nesta hora que sem mais nem menos o viajante apalpou por debaixo da mesa, Moisés repeliu-o. O estranho pediu uma sopa de peixe com queijo e pimenta bem ardida, 'espetacular e rosada' (o restaurante tinha um excelente cardápio internacional). Pediu também uma galinha assada em seguida e depois “flambada no champagne” e pasta de salmão de acompanhamento, anchova, pequenos pepinos fatiados, tomatinhos “vermelhos como cerejas” e perguntou se havia “cerejas frescas”, não havia.

Moisés adorava conversar em inglês, o papo com os peruanos era em portunhol, com o viajante era em inglês, incrível torre de babel é este mundo. “O que eu queria com você, brasileiro? unirmos nossas almas em toda essa bagunça de línguas e dentes, bocas, cidades de pedra, chuva, calor, frio, toda a bagunça tola desde os grunhidos dos Neandertais até os gemidos das sondas espaciais e

 

irmos do inferno ao paraíso; que você não me deixasse aqui, na mesa de mais um restaurante, importunando todo mundo, pelos bares, que iria depois, assustando esta minha solidão desgraçada que poderia, com você, é claro, passar despercebida, na noite atordoante”; Moisés o champagne.

O viajante acendia seus olhos cor de mel, de modo penetrante para os olhos de Moisés como uma cobra a hipnotizar sua presa. “Não queremos todos ser formigas contribuindo para o organismo social, não é Moisés? Nós temos mais, eu e você, esse jeito de individualistas contados um por um... essa minha tola situação de visitante bêbado a vagar pelo mundo, bêbado sozinho, aqui, no meio de estrangeiros que esperam comida e bebida, amantes agarradinhos... sou um escravo da tagarelice”.

Saíram do restaurante e foram a um bar, havia uns caras jogando bilhar na sala dos fundos. “Gosto de tacadas certeiras”, disse o cigano, que pela foto dá para notar que seus dentes têm uma leve separação na frente. Um homem que algumas mulheres chamariam de bonito”, escreveu Moisés no seu diário de viagem, “espalhava uma sinistra atmosfera literária ao seu redor, algo dionisíaco... embriagante”.

Enquanto conversava com o cigano, Moisés pensava já em arrumar sua mala, colocar sua boina, puxando-a sobre o olho esquerdo, como aparece em algumas fotos e arrastá-la para outro lugar qualquer quando aquilo tudo acabasse. Naquele momento o cigano, que tinha como sobrenome algo parecido com Tairovit, estava com um olhar “louco e sedento, parecia um vampiro”, segundo o diário moisesnetiano, pediu uma garrafa de vinho; eles sentaram-se e o tal sujeito disse, sem mais nem menos, “sabe porque o seu Jesus foi crucificado? Porque não prometeu trazer dinheiro e poder; apenas a certeza de que a existência foi criada por Deus Pai, e Ele, o pai viria nos levar ao céu após a morte onde ninguém precisaria de dinheiro ou poder, porque no fim das contas tudo é apenas pó e cinzas”.

Uma espécie de ímã prendia Moisés àquele espaço e tempo, numa espécie de visão do cosmos, como no conto “O Aleph”, de Jorge Luís Borges, autor argentino que nosso biografado apreciava “vocês que não viram os milagres de Jesus, como os judeus, romanos, egípcios, têm apenas que continuar aceitando a certeza que lhes foi entregue no Novo Testamento, Jesus

 

é apenas o Filho que conhece o Pai...”

“Você é um piadista”, arriscou Moisés naquele momento, ao que o outro retrucou algo dentro na noite veloz e, não sem antes dar “um Pfiu de desgosto com os lábios apertados de que adianta, ou pff (desdém) ou um “porcaria” que se diz quando saía de uma situação da qual não se havia gostado”, como escreveu Moisés depois ao registrar aquele encontro, pensando sobre o que acontecia nas suas viagens; aquele cigano era como um baú de humores, como diria Shakespeare sobre Falstaff, que tinha apego gorduroso à vida, fanfarrão e boêmio que aparece em várias peças do bardo inglês, o tal era amigo de Henrique V, mas foi abandonado e morreu triste e abatido junto a antigos amigos).

O referido cigano era um sujeito de aspecto selvagem e começava de novo a fazer piada sobre a vida. Aparentava uns 35 anos, lançou mais um olhar tipo “deixe-me te mostrar o que sou capaz de fazer; cale a boca e vamos para um lugar mais reservado”, mas paradoxalmente reiniciava suas falas atiradas: “Você está assustado comigo? Aposto que você é filhinho de um papai burguês que se exime de responsabilidade quando lhe é conveniente e exige privacidade, capaz de instruções farsescas”, transcreveu Moisés nos seus diários, e lembra de ter retrucado: “E você é um trocista farsesco”.

O cigano num arroubo, segurou a mão de Moisés como alguém que está despencando no abismo: “Você pensa que quando morrer será elevado porque não causou mal, não induziu ninguém ao mal; porque isto faria você perder os globos oculares no inferno...”. Moisés jogou essa de volta: “Qualquer que seja o mal que você faça, ele retorna centuplicado”, e o cigano naquela hora parecia um “espadachim consumado que fazia longas viagens de carruagem; exibia algo que lembrava a velha magia, alguém com uma tradição, ascendência que revela uma qualidade oculta objeto familiar, ou matiza uma luz que não se percebe facilmente em mar ou em terra”.




Moisés gosta de encontrar amigos, neste clima

 

O cigano deu um soco na palma da própria mão e sussurrou: “Eu me sinto como um imbecil que tem que se explicar!” O cigano parecia ler as digitais de Moisés quando pediu para ver a palma sua mão; resmungou algo sobre caminhos muito importantes etc.

Misturam as conversas com comentários sobre “em busca do tempo perdido”, série de romances de Proust, misturou quiromancia com futilidades do surrealismo; do nada disse que “os gregos acreditavam que passar uma esponja de vinagre sobre a boca, como fizeram com J.C. na cruz”, não era crueldade; “matava a sede”. Ah! Se eu pudesse continuar explicando tudo que sei, Moisés, seus ouvidos perderiam o ar ocioso que ostentam agora. Sim: o que é amar, trabalhar e sofrer? J.C. fez isso, não é? Quanto a mim, trabalhar me deu foi uma hérnia; sofrer é isto que você está vendo agora, quanto a amar... eu estou bêbado demais, ah, meu doce e querido traseiro! Que é que você acha dele, hein? Seu punheteiro! Ah, o reizinho não está se divertindo”.

Saíram no meio da noite de Aguas Calientes. O cigano parecia maravilhado com o jogo de escuridão e luz sobre as calçadas nevoentas. Chegaram ao hotel onde Moises estava. “Deixe-me dormir um pouco no seu quarto. Se eu seguir sozinho, hoje, não sei o que vai ser de mim. Por caridade. Não vou tentar mais nada com você... logo que o sol nascer eu caio fora. Não vou roubar nada... tome guarde meu passaporte...”

Entraram.

As nuvens se afastaram e a lua cheia espalhou sobre tudo aquilo um certo ar de mistério...


Com pernambucanas, em Lima, Moisés passava um final de ano, tranquilo.

 

9- Trinta anos de dramaturgia

Comemorando os seus 30 anos de sua dramaturgia, em entrevista para o Ribalta, Moisés Monteiro de Melo Neto relembrava um pouco de sua trajetória no teatro, seu início como ator, as mais de 30 peças que foram encenadas por grandes diretores e atores pernambucanos, os prêmios e algumas curiosidades.

Sua carreira no teatro começou como ator profissional dirigido por José Francisco Filho, Buarque de Aquino, com diretor/autor João Falcão e Luiz Mendonça, na peça “Viva o Cordão Encarnado”. Já como dramaturgo e diretor, sua peça “Um Certo Delmiro Gouveia” recebeu o prêmio de melhor texto literário em um concurso promovido pelo governo do estado Pernambuco. Outra peça sua, “Cleópatra” também recebeu o prêmio Governo do Estado Pernambuco.


Material publicitário da montagem da Peça Delmiro Gouveia

Além de dramaturgo, Moisés Monteiro de Melo Neto se destaca como poeta: ele teve seu primeiro poema (Lobos), publicado no jornal do comércio nos anos 80, também colaborou regularmente com suplementos literários do Jornal do Comércio nos anos 90. Publicou vários de seus artigos em outros jornais e revistas como Le Monde, Diplomatique e na revista Belga Parati.

 

Lançou seu primeiro romance intitulado “A Incrível Noite” (edições Ilusionistas) e também “Chico Science: a rapsódia afrociberdélica”, (primeiro livro sobre o movimento mangue, lançado em outubro de 2000, que mostra alguns aspectos da cultura pernambucana).

Moisés também deu sua contribuição para o cinema, sendo autor de alguns diálogos dos filmes como “Cassino Americano” (do diretor Marcos Hanois), que recebeu menção honrosa no festival internacional de vídeo JVC em Tóquio.


Material publicitário de Cassino Americano

Ele também publicou “Notícias Americanas”, poema épico sobre o 11 de setembro e a devastação no Afeganistão, livro lançado em 2002 pela editora edificantes, de teatro Ilusionistas de passagem, contos e poemas. Na televisão, atuou em “A Cartomante”, conto de Machado de Assis, no cinema atuou em “O Cangaceiro” (direção por Aníbal Massaíni). Em “Para um Amor no Recife”, Moisés assina autoria do espetáculo que tenha direção de Carlos Bartolomeu (1999). O espetáculo recebeu quatro Prêmios da Associação de produtores teatrais de Pernambuco. Ele também é coautor do musical “Hamlet”, onde atuou como protagonista ao lado de Bruno Garcia Heitor Dhália, dirigido pelo argentino Alberto Gieco. Em 2002, “A Ilha do Tesouro”; “Sonho de Primavera”, peça que Moisés dirigiu ao lado de Ulisses Dornelas no ano de 2004, e que ficou sete anos em cartaz. Além de “Bruno e o Circo do Futuro”, premiado pela APACEPE.

 


 

Moisés, em uma cena de O Cangaceiro, interpretando um jornalista que entrevista um capitão de volante (Jece Valadão, ao centro), na foto também aparecem os atores Renato Phaelante e Pablo Polo

Nosso biografado também adaptou para o Projeto Escola algumas obras de Machado de Assis. No ano de 2006, Moisés participou como assistente de produção do filme “Incenso”, curta metragem baseado nos poemas de Ascenso Ferreira. O filme foi vencedor do concurso Ary Severo/Firmo Neto (Prefeitura do Recife/ Governo do Estado de Pernambuco).


Moisés e Hanois (já debilitado pela doença) com parte da equipe do filme Incenso. Destaque para Lia de Itamaracá, Diva Pacheco (em seu último trabalho), João Augusto Lira, Buarque de Aquino e o produtor Pedro Celso Lins.

Moisés e o grupo do qual fez parte receberam o prêmio Klaus Vianna, concedido pela Funarte, pelo roteiro e direção de “Recife paralelo 8,” Montado pela companhia Dante em 2007. Moisés Monteiro de Melo Neto também é autor do texto de “Anjos de Fogo e Gelo”, que conta a vida de Arthur Rimbaud. Com direção de José Francisco Filho, a peça teve grande repercussão no Recife em 2008, conquistando prêmios da APACEPE.

 


 

Com Rosália Calsavara, dando entrevista para o jornal Folha de Pernambuco sobre o lançamento do livro contendo o texto do musical deles Sonho de Primavera, em Braille, pela APEC, Associação Pernambucana de Cegos

Ensinou em algumas escolas e faculdades em Recife, foi responsável pela cadeira de dramaturgia no curso de formação de atores, (Sesc PE). Seu site www.moisesneto.com.br é muito visitado, nele encontramos artigos publicados, fotos e vídeos de suas peças teatrais e muito da sua trajetória com Ilusionistas corporação artística. Com 30 anos de muito trabalho, a Ilusionistas tem em seu currículo várias produções teatrais, inúmeras publicações de livros, promoções de oficinas, cursos, exposições (com Universo de Antunes Filho), trazendo duas vezes Recife, este diretor de teatro é conhecido internacionalmente. Com a produção de Simone Figueiredo; neste evento, Moisés Monteiro de Melo Neto proferiu uma palestra sobre "A poética de Nelson Rodrigues na obra A Falecida, montagem de 2009 de Antunes Filho", a convite do curador paulista Sebastião Milaré.

Antunes Filho convidou-o para realizar a apresentação de sua encenação de “Toda Nudez Será Castigada”, pelo CPT/Sesc São Paulo, setembro de 2012. Em 2014 e 2015, assinou a autoria dois espetáculos “Som da Esperança” e “Como tem Zé!” (Bandeira escreve a Mário de Andrade). Último texto com direção de Guilherme Coelho.

“O Drama, para mim, é o choque de a cada momento ainda estarmos vivos, acordar e ir até a brecha contemplar o infinito. Sempre me interessou muito o espaço entre o Ator e o Personagem na apresentação do espetáculo; distanciamento, quarta parede, luz e sombra na encenação. A esse espaço de interlocução chamo lemniscata, lugar geométrico dos pontos de um plano cujas distâncias a dois pontos fixos desse plano são constantes. É espaço pharmakon, espaço-amálgama, veneno e antídoto, de manipulação. Está também com o artista desde os tempos de Arion, o primeiro dramaturgo, e de Téspis, o primeiro

 

ator, na Grécia Antiga, essa espécie de espaço divino, som que também é silêncio cósmico, som que é orquestra, música e maestro, compositor, espectador, espaço estelar mesmo no épico didático, mesmo quando a vida é sonho; tanto é ação quanto exige sono; quando essa ação é necessária no ser-estar, ser hora da estrela”, diz Moisés Monteiro de Melo Neto..


10 - O ser ator para Moisés Monteiro de Melo Neto


Um diretor uma vez me disse que não havia nada a temer num palco, quando se tem “téc-ni-ca”. Não dei ouvidos a ele. Engana-me, que eu gosto. É, só rindo de uma coisa dessas, não é? O barulho de liberdade inclui correntes também. Mas quando você é atingido pela crítica de maneira mortal, mesmo aí, se você está seguro do seu trabalho, você deve enfrentar a crítica, e dentro de você solucionar isso. Sobreviver. Aperfeiçoar-se e nunca, nunca... sentir-se derrotado! Matar-se? Ah... morrer... que importa? Eu já morri tantas vezes... Por que a pressa? Todos cometemos erros, não é? Não há arte que ensine a ler no rosto as feições da alma de quem lhe atacou... deveria existir. Recuse e resista. Torne-se mais forte. Você é um artista. O show não para! Essa é a minha lição para vocês, atores... eu queria ser um grande ator, desses que fazem o espectador interromper a mão que leva a comida à boca, esperando pelo o que eu vou fazer, surpreendê-lo, é claro, rebelando-me pela... rebelião. Se você, ator, sentir cem por cento, mostre oitenta por cento. Se sentir sessenta, mostre quarenta. Se sentir apenas quarenta... é melhor você voltar pra casa. Você não é um ator, é um vigarista. Quer saber qual é a minha Filosofia de vida? Faça com o espectador, antes que ele faça com você. Façam juntos, depois (pausa) eu poderia ter sido outra coisa, em vez de ser esse escritor, que às vezes é ator. Vamos encarar isso: a plateia faz o trabalho de interpretar o meu personagem, procurando, nela mesma, o que sente.

A sensação de fracasso, por exemplo (pausa), todos sentem que podem ser competidores, a plateia se acha vitoriosa? A inferioridade está de olho em vocês, atores, é bom não ficar muito perto da inferioridade de si mesmo, em cena. Sejam fortes, meus caros. Fortes como um pássaro, que se sustenta no ar, como um peixe em mar que desafia, como leão diante da caça ou do caçador.

 

Aprendam que a peripécia é quando a peça enlaça o espectador definitivamente. A hora em que o jogo chega ao auge e vem a surpresa do enredo, o enigma que ele propõe e deve ser... decifrado. Aí a peça é como uma mãe... ou um pai... ensinando ao filho a pensar junto com ele... Manter as características infantis habituais, não é tão bom para um ator. Ator tem que ter maturidade; talvez até... sabem? Mesmo se você teve mais problemas com seus pais do que a maioria das crianças. Mesmo assim, você pode interpretar o filho amoroso ou o pai adorável, como? Ah, procurando um tipo de identidade que seja... aceitável. É isso: ter em si uma grande variedade de performances... isso faz parte da constituição do ator, também; ele é um ser contador de história.

Dê valor à máquina que é seu corpo... mas esse corpo é livre, também. Saber respirar em cena, saber movimentar-se sem parecer artificialmente; o ator é um modelo. Saibam deixar o ar pressionar o seu. No palco não importa se aos sete anos você deitou em cima da empregada... aos nove você teve um amigo de classe social inferior que vivia como agregado na casa. Vivia sujo, como se trabalhasse numa carvoaria. Era louro, tinhas os olhos azuis e lábios grossos... de vez em quando ele dormia na sua cama. Às vezes, o sexo tem uma agenda que não depende de nós. Aí muitas decisões são tomadas por ele, não pelo cérebro. No palco não é assim. Sabem, não é? A primeira coisa que um ator deve fazer é a enganar a si mesmo, para saber como enganar a plateia. Por isso o diretor tem que ser severo com o elenco. Punir, se necessário, para ensinar melhor. O que mantêm cada um no seu lugar é o medo da punição... ou o amor? Meu pai me mandou para uma escola, bem longe, a mesma que ele frequentou, uma missão cruel e incomum. Lá tentaram me transformar numa máquina humana, mas, em compensação eles tinham uma boa biblioteca.

Nas férias, eu ia a lugares cujo pôr do sol desafia as palavras... Atores... como é delicado criar uma impressão emocional... mas, diretores, eles cobram o senso de inadequação, dos seus atores, sendo autoritários, às vezes, “co-man-dan-do” as coisas. É difícil discutir com quem tem ideias fechadas sobre as coisas. Atores, nunca se deixem intimidar por diretores... nunca devem se deixar intimidar por diretores. Toda a minha vida questionei tudo que fiz, tinha desprezo pela autoridade. Eu resistia, enganava, driblava, eu nunca quis ser uma cifra. Mas um bom cachê é importante, não é? Dinheiro... se você acha que

 

isso não importa, você será ferido! A raça humana, todos tem direitos iguais, não é? Não se compra a alma de alguém com dinheiro, não é? Interessava-me em ter muita grana, para poder dizer dane-se o dinheiro! Uma variedade de mentiras pode lhe atingir todos os dias.

Às vezes, não dá pra revidar. Eu queria ter a beleza de uma criança dormindo. Eu não queria ter dilemas morais, é difícil saber às vezes se um ator está brincando ou dizendo a verdade... isso é bem atual, não é? Mentir para salvar a vida... Você chega em casa às quatro da manhã, seu amorzinho lhe espera, e a última coisa que você quer é escutar a verdade, é contar a verdade. Você mente... por paz, você mente por... mente por... amor! No palco também é assim... mais ou menos... Para um ator ser ninguém é um pecado. Sobe-se a montanha sozinho. A autoestima do neurótico diminui pra nada se ele não é admirado, respeitado. É uma proteção contra o desamparo. Ser alguém, um personagem, é a insignificância contra a humilhação, a ser humilhado, a insignificância contra ser humilhado. O ator tem que se valorizar, se contentar com seu modo de ser e demonstrar, consequentemente, confiança em seus atos e julgamentos. Talvez por um minuto como alguém que dança uma dança perfeita, talvez algo assim é o que se poderia desejar, no palco. O pior medo de um ator é... é... temer como vai ser... “jul-ga-do”. Não é bom para um ator que um espectador lhe pegue sentindo... “me-do”... e pense que sua história é fingimento barato e mal feito, sua mentira ser desacreditada, ou pior, sequer consiga trabalha com a forma épica de teatro, quando se conta uma história para análise... Eu aprendi a adequar a ação à palavra, e a palavra à ação. O palco é um espelho, onde os artistas mostram à virtude o seu espelho. E esse espelho reflete a natureza ao mesmo tempo em que pode desdenhar da própria imagem.

Olha com quem tenho me comunicado na pesquisa que estou fazendo sobre o Teatro Essencial dela? Denise Stoklos.





Moisés com Denise Stoklos

 

A alma do ator deve ser um lugar privado. O ator não deve querer que ninguém não tente cruzar este só seu... território. Que a plateia pergunte: que diabo este ator está pensando? Quem ele pensa que é? Também não pode ser obcecado pela privacidade, sua ou dos outros, que ele suga para compor seus personagens, de vez em quando, não sempre. Eu como ator, como escritor, quero ir cada vez mais fundo e não dizer que toda a sacanagem que lhe fazem é só um mal-entendido.

O amor à crítica é uma fantasia humana. Eu sempre fui desconfiado de certo tipo de amor e de crítica. As pessoas são muito complexas, até as mais simples, são muito complicadas. Elas não sabem o que é ideia delas e o que os outros querem que elas pensem que são ideias delas. Há sempre algo de muito perigoso em cada um de nós.

O ator deve descobrir o que as pessoas não sabem sobre si mesmas. O quê? O ator quer descobrir isso. O que é que as pessoas não sabem sobre si mesmas? O que sentem, porque sentem, como sentem. Um ator tem que ter controle sobre a própria vida. Não se embriagar com o cheiro da maquiagem. Ter a atração pela experiência teatral. Você não encena palavras, você atua com a sua alma. É contra a natureza humana recuar, o ator é o chão do personagem. Temos o direito de sermos quem, onde e como quisermos. Todos os atores podem isso, expressar os pensamentos que os atormentam. Eu vivia fazendo piadas e provocando, pregando peças em todos. Como a vida ensina! Devemos nos aperfeiçoar, sempre! Voz, gestos, atitudes, pensamentos... silêncio... ou... fúria... calculada e calma. Se o personagem precisa ter raiva numa cena, o ator precisa de um mecanismo para expressar esta fúria, isso, ter desprezo por alguma coisa, que sirva de base ao fingimento cênico. Se faz papel de bobo, não deve ser caricato. Eu penso em gente que quis me destruir, que tentou me afundar na boemia, através de canais escuros. Já usei isto para representar personagens brutos e sombrios no teatro.


(XIII) Da magia e do encantamento das palavras


A magia das palavras urdidas na literatura reside na capacidade única que esta tem de transportar os leitores para universos imaginários, despertar

 

emoções, e fazer com que experienciem realidades outras que vão além da condição do “possível” imposta pelo mundo real.

O nosso Moisés criador fez da violação desta barreira do possível, o objetivo primordial do regimento da artilharia de sua criação com a finalidade de derrubar as trincheiras das angustiantes limitações e impossibilidades, e assim, abrir caminho para o florescer de um “novo possível” que pudesse dar vazão às forças libertárias e redentoras da sua imaginação. Eis os termos do seu estatuto de ficção. Eis as bandeiras flamejantes das suas legiões de palavras.

E a ficcionalidade, sim, tem o poder de criar mundos completamente novos, onde as regras da realidade podem ser suspensas. Através das palavras, o escritor constrói cenários detalhados, povoados por personagens singulares e repletos de eventos tão intrigantes quanto surpreendentes.

As palavras têm o poder de evocar uma ampla gama de emoções nos leitores, desde a alegria e o encantamento até a tristeza e o desespero. Os escritores usam uma variedade de técnicas literária-ficcionais, como descrições vívidas, diálogos autênticos, e metáforas poéticas, para criar uma experiência emocionalmente envolvente para o leitor-receptor. Ao se conectar emocionalmente com os personagens e eventos de uma história, os leitores podem experimentar uma sensação de empatia e compaixão que os enriquece como seres humanos.

A literatura enquanto “arte de escrever” estimula a imaginação dos leitores, convidando-os a visualizar situações, personagens e eventos que existem apenas nas páginas de um livro, de uma peça, ou de um filme. Ao “ler” uma história, os leitores-receptores são desafiados a preencher as lacunas entre as palavras com suas próprias imagens mentais e interpretações pessoais, criando assim uma experiência única e pessoal para cada um deles.


(XIV) O verbo dos universos imaginários


As palavras suspensas pela imaginação criadora sempre estiveram presentes, e latentes, no imaginário individual da criança, do jovem, do adulto, do artista, e do pensador Moisés, desde muito cedo; desde quando a sua mente infantil era povoada pelo mundo secreto dos corais e arrecifes da sua primeva

 

infância marinha.

A experiência criadora de Moisés se desdobrou em vários segmentos, mas que confluíam para uma atividade crucial: o exercício e a prática de criar através das palavras. Escrevê-las viria a ser o seu mais legítimo e genuíno ofício. Desde criança, ele começara a desenvolver o dom de sua escrita criativa, ou melhor dizendo, seria mais apropriado classifica-lo enquanto possuidor do “dom da escrita criadora”.

Apenas com nove anos de idade, ele já fora agraciado com a premiação de um concurso de criação textual no qual ele elaborara – partindo da perspectiva de seu olhar infantil –, uma estória que se desenrolava toda dentro do universo mágico de um circo, onde dois palhaços eram as figuras principais da sua estória, ou seja, viriam a ser as primeiras personagens protagonistas que ele criara.

Referências, modelos, e influências foram e ainda são muitas através e a partir das quais o nosso Moisés criador bebeu na magnitude de suas fontes. Entre elas, encontramos William Shakespeare, Fernando Pessoa, Arthur Rimbaud, Edgar Allan Poe, Agatha Christie, Edgar Walace, Maurice Leblanc, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, Samuel Beckett, Eugene Ionesco, Luigi Pirandello, Gabriel García Márquez, Jean Paul Sartre, Franz Kafka, Albert Camus, Carlos Drummond, Clarice Lispector, Machado de Assis, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Carlos Pena Filho, Jomard Muniz de Britto, Lucila Nogueira, entre tantos, mais tantos, e tantos outros mais.

Não esquecendo de grandes encenadores, pesquisadores e diretores do teatro brasileiro e mundial como Gerald Thomas, José Celso Martinez Correa, Antunes Filho, Denise Stoklos, Gabriel Vilela, Antônio Cadengue, e igualmente tantos outros mais.


POR QUE VIVER DE LITERATURA? Perguntamos a Moisés e ele respondeu: “Nunca encontrei uma pessoa totalmente chata, sempre procurei algo que fosse interessante em alguém. É mais ou menos assim a minha vontade de escrever e tornar público o que eu escrevo. Sempre amei o Recife além de toda repressão contida neste lugar e sempre quis expressar a minha opinião

 

sobre o que é viver aqui, como escritor, como intelectual etc. Não há Moisés em mim- escrevo para me inventar.

Desde pequeno me ensinaram a rezar e eu rezo sempre. Pela manhã e à noite. Procuro cumprir meus compromissos de modo quase obsessivo. Como autor uso a minha literatura para unir as letras e a civilização em seus detalhes, sua psicologia. É algo similar a MENTEPSICOSE = transmigração de mentes, viver em outros corpos (tentando unir as coisas numa espécie de café com leite) ou como numa velha e doce canção de amor ou paródia, drama musical, monólogo. Começo às vezes, paradoxalmente, com uma narrativa pré-verbal-grunhidos, suspiros, gritos, sussurros, etc. ser escritor é ser pai e mãe. Em meio aos meus trocadilhos dantescos, fecho os olhos e amo a arte de escrever que transforma a vida em metáforas (políticas?).

Em Recife é difícil escrever porque numa conversa de bar você pode jogar um livro fora. Aqui se fala demais e muito rápido. Busco soluções para os enigmas da vida, também vou criando mais alguns usando para isso as variações possíveis em nossa linguagem (erudita versus popular).

Na ilha do Recife Antigo penso se nossa se acabasse eu gostaria que no futuro alguém a reinventasse a partir do modo como nós, os escritores, seus narradores, a retratamos. Somos o oposto da vida real, eis a literatura transcodificando os impulsos humanos (tão difíceis de se transformar em palavras exatas). Eu gostaria de buscar nas onomatopeias, prosopopeia e outras figuras de linguagem tudo que não conseguimos amar ou odiar na vida desta cidade, desta humanidade incorrigível.

Eu sempre quis criar enigmas e charadas sobre o Recife, este lugar no limite da ebulição, cheio de pontes, cachaça, tapiocas, pamonhas, milho cozido, acarajé, arrumadinhos, caldo de carne, paixões, interesses, cultura, veneno peculiar, amores e tudo mais. Colocar tudo em versos de sangue e risos. Em prosa excitante. É muito difícil chegar até a arqueologia deste meu experimento, dessas barricadas do meu desejo, desta minha ambição, recusa, reclusão, liberdade (?).

Escrever é dar primazia ao pensamento sobre a ação, ao macro sobre o micro- Diacronia (a evolução no tempo – fenômenos culturais, sociais, linguísticos, etc, no tempo) e Sincronia (isolar o fenômeno num certo tempo

 

uma época que em retrato). A vida do recifense que eu sou? Ora, eu busco retratá-la não de modo evolutivo nos meus textos, não de forma muito lógica. Meus textos são sincrônicos (existem em si mesmos) e não uso da diacronia (evolui com o tempo).

Durante minha juventude eu ainda tentei romper com o moralismo e a ética de forma ingênua. Não é que eu tenha evoluído, agora, simplesmente vejo que é tentando agradar que devemos solapar nossos próprios valores. O aspecto principal da minha escrita foi defender a ingenuidade frente à malícia intelectual e primitiva dos meus conterrâneos, refletida na minha cidade. Já viajei por muitos lugares do mundo em busca de contrastes que refletissem a minha tese. Terminei por quase não acreditar que houvesse uma mudança no mundo, haveria uma troca de pensadores no poder, mas haveria sempre a necessidade de limites, como esses tão necessários na educação das nossas crianças.

Vi logo que a liberdade só se justifica pelo jogo arriscado cuja regra principal é o tudo ou nada. Percebi na minha obra que nela apenas está refletida a urgência a ditar a matéria dos meus passos. Nunca fui contra o capital, apenas não suporto muito bem os seus, digamos assim, sintomas.

Houve em mim sempre a alegria de pensar, de criar e de oferecer meus textos escolhendo a mídia a meu alcance. Caiu sobre mim o peso da disciplina barrando um agir livre, sufocava minha irreverente revolta, mas dentro de mim eu sempre soube que tinha razão. Eu sempre duvidei um pouco do que alguns rotulam como “certo” ou “razão”. Eis o eixo-comum que atravessa minha diversidade temática (discursiva e extradiscursiva) a diferença, e não a evolução, marca a sociedade.

O que é o saber verdadeiro? Como esta “verdade” está vinculada ao poder (político, econômico, social, afetivo, sexual, entre outros.)? Devemos tentar entender nossa cidade não apenas pelo conhecimento dividido das épocas passadas, o que o Recife foi, mas sim pelo que já não somos ou pelo que poderemos ser.

Eu quis interrogar o espaço (mítico e real) que nos cerca. Meus textos são, todos eles, como barcos- espaços flutuantes, fechados em si mesmos e lançados na imensidão do mar. Reflexos, como este agora o é, dos outros textos

 

que leio e, ouço e sinto no mundo.

Abracei a literatura. A linguagem para mim funciona como o espaço do possível de ruptura com a noção primitiva do tempo. A linguagem supera o tempo (embora aconteça dentro dele), realizando e desrealizando, busquei nas palavras a presença dos seres. A literatura como sendo um “outro” lugar. O acesso a um mundo onde se podia enxergar o que não deveria ser, às vezes, dito, uma experiência extrema de pensamento.

Reinventando as palavras, flutuando sobre o sentido, penetrar espaços seus habitar neles, sem se fixar num lugar, sem estar em terra firme. Num navio fantasma, eu, operário de carne e osso no comando rumo ao horizonte da compreensão, do ser enquanto ser múltiplo, plural, mutante.

O Recife nunca foi, tanto quanto eu, essencialmente positivista. A rede de significações tecida nesta cidade, feita de luta e resistência, feita num período depois do Iluminismo francês, mas poderia muito bem ser pré-cabralino em seu processo de transformação dos seus habitantes em sujeitos.

Temo que ao ansiar por uma nova mecânica de poder eu tenha reforçado ao mesmo tempo certos valores antigos que se embutiram, de alguma forma, às minhas estratégias de composição e divulgação de textos. Queria que a mídia não adestrasse os recifenses do modo que vem acontecendo de forma tão insistente. Aqui a guerra não é o contrário da paz quando se trata, por assim dizer, de literatura, a história de uns não é mais a história de todos.

É uma anti-história o que se faz no Recife e a minha literatura reflete, ou busca refletir um shakespeariano “ser e não-ser.”


11 -Dramaturgia e inclusão social

SONHO DE PRIMAVERA EM BRAILLE


Para Rosália Calsavara e Moisés Monteiro de Melo Neto, é uma tarefa muito importante inserir o tema da inclusão social nas artes. Por isso, os dois lançaram o livro “Sonho de Primavera" em Braille. A publicação faz parte de um projeto que visa adaptar textos da dramaturgia para pessoas com deficiência visual, para tanto, será preciso que a obra seja acompanhada por

 

audiodescrição. Os autores explicam que mesmo com os inúmeros avanços no campo da acessibilidade nas últimas décadas, ainda existem muitos desafios de barreiras a serem ultrapassadas, por isso, a ideia de adaptar “Sonho de Primavera” para deficientes visuais. Eles também ressaltam que o projeto foi realizado em parceria com a Associação Pernambucana de Cegos (APEC). O livro foi lançado no dia 25 de setembro de 2018, na Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco.


POR UM TEATRO PARA CEGOS


No dia 25 de Setembro de 2018, os Escritor Moisés Monteiro de Melo Neto lançou sua peça “Sonho de Primavera” em braille e udiodescrição pela APEC (Associação Pernambucana de Cegos). Agora os escritores Moisés Monteiro de Melo Neto e Rosália Calsavara estão preparando para ano que vem (2019), uma peça voltada ao público com deficiência visual.

De acordo com mais essa entrevista de Moisés, dessa vez para o jornal Ribalta, quando perguntado se um cego pode "ver" uma peça? Ele respondeu que sim. Segundo o autor, uma peça que não se baseia apenas nas marcações e fala dos atores, é um trabalho de audiodescrição, ou algo semelhante as novelas de rádio, nas quais os profissionais envolvidos tentam criar um ambiente de percepção que ajude na compreensão da história. Tudo parte da imaginação que aguça os sentidos, os autores pretendem vendar os olhos nos espectadores para que eles possam ter a percepção dos cegos.

Será feita uma adaptação que vai além do audiodescrição. Um exemplo, a peça não pode ter muitos atores e também há um cuidado com a entonação vocal. O espetáculo não é dirigido apenas ao público cego, por isso a ideia de vendar alguns espectadores, pois assim, a dramaturgia pode proporcionar todo um universo de sensações. Há um trabalho de pesquisa bastante relevante para realização da peça, e eles também contaram com o apoio de grupos do sudeste que passaram algumas experiências, porém os autores e todos os envolvidos no espetáculo tentam buscar um novo caminho, por isso a união com APEC (Associação Pernambucana de Cegos).

Moisés também trabalha com várias comunidades do Grande Recife,

 

como as do Alto José do Pinho, Macaxeira, Morro da Conceição. Abaixo temos um ensaio com jovens da periferia. Em primeiro plano vemos os atroes Adriano Cabral e Raul Elvis ao lado de Moisés, que, além de autor do texto (Olha pro céu meu amor, que escreveu com Rosália Calsavara), também atua como diretor:


Com Adriano Cabral e Raul Elvis, ensaiando na comunidade


12- Cinema, televisão e produção de show

Adaptado dirigido por Luiz Maranhão filho, o conto “A Cartomante”, do escritor Machado de Assis, foi ao ar em 1982, na TV Universitária/UFPE. Filmado em Olinda, a adaptação contou com Moisés Monteiro de Melo Neto, Gladis Farah, Valdir Oliveira, Arimá, Martha Maria e Rinaldo Ferraz no elenco.


Fotos do especial “A cartomante”, direção de Luiz Maranhão Filho

 

Sinopse: Um triângulo amoroso vivido por Rita, Vilela e Camilo. Os dois amigos de infância se reencontram quando adultos. Camilo se apaixona por Rita, a esposa de Vilela, Rita corresponde ao sentimento de Camilo. Os dois passam a viver em adultério! Camilo se afasta do casal, pois tem medo que vilela descubra a traição. Apaixonada, Rita resolve procurar uma cartomante. Algum tempo depois, Camilo recebe uma carta denunciando que Vilela sabe da traição. Vilela marca um encontro em sua casa com Camilo, ao chegar à casa, Camilo encontra Rita morta, logo após, ele também é assassinado pelo seu amigo de infância.

Em parceria com o Marcos Hanois, artista plástico e cineasta, que dirigiu "What Shit is This?" e "Cassino Americano", Moisés Monteiro de Melo Neto participou de inúmeros projetos para o cinema e televisão nos anos 80.


Nelson Caldas no filme “Cassino Americano”

Cassino Americano é baseado no poema de Mauro Mota, este trabalho recebeu Menção Honrosa no Festival Internacional de Vídeo promovido pela JVC em Tóquio. Moisés também fez parte de "Warhol está Morto", em meados da década de 80, o filme causou polêmica no Recife.



Moisés (aqui caracterizado como o Warhol) foi muito influenciado pela Pop Art

 


 

Parte do elenco de Andy “Warhol está Morto”

Moisés também produziu um documentário sobre os artistas da noite "Revivencial” e a "Ilusionistas", grupo fundado por Augusta Ferraz e ele em 1982. Além de "Com o Crime nos Olhos", um ensaio sobre ciúme, com a atriz Mísia Coutinho.


Moisés com dois cineastas pernambucanos que ele gosta, Kleber Mendonça Filho e Cláudio Assis


Em 1998, na segunda versão do filme “O Cangaceiro”, Moisés fez o papel de um jornalista e contracenou com Jece Valadão, que interpretou o chefe das volantes. Além deles, Renato Phaelante representou oligarquia pernambucana no sertão.

Moisés Monteiro de Melo Neto, Tuca Andrada, Assis e Pedro Celso Marconi (produtor do premiado filme Incenso)

 

Sobre o filme “Incenso”, direção Marcos Hanois, assistência de direção de Moisés Monteiro de Melo Neto: a oralidade da poesia de Ascenso Ferreira em curta-metragem.

Homenageando a obra de Ascenso Ferreira, “Incenso”, filme dirigido por Marco Hanois, resgata as peculiaridades existentes no texto do poeta. O curta-metragem também busca rememorar um período da história pernambucana que ficou esquecido: o início dos anos 20, as beatas, os coronéis e as crendices da época. Outro fato bastante relevante presente no filme foi o processo de modernização tardia que o Brasil começava a vivenciar. É impactante perceber em uma das cenas o espanto dos personagens ao verem um Zeppelin cruzar o céu de um Pernambuco rural.


O curta-metragem trouxe a proposta de ter em seu cenário um pouco das cidades do interior pernambucano do início do século passado, casarões antigos e ruas do Poço da Panela. As filmagens de “Incenso” registraram os diálogos entre os atores Alexandre Zachia e Tuca Andrada. Zachia interpreta um personagem chamado apenas de Coronel, que pode ser representado como uma espécie de “alter ego” do próprio Ascenso.

O poeta dizia que um dos seus sonhos era ser um coronel de engenho, pois a figura do coronel sempre foi uma das mais representativas no imaginário do povo nordestino. Zé Estribeiro, personagem vivido por Tuca Andrada, entrelaça várias tramas dívidas no curta.

Devido a uma agenda muito apertada, vários compromissos gravações, o ator Tuca Andrada quase não consegue participar das gravações de “Incenso”. Ele explica: “Eu queria muito fazer esse curta, tanto por minha amizade com Hanois, quanto pela homenagem que ele faz à obra de Ascenso, um poeta importantíssimo. Foi um verdadeiro milagre que neste fim de semana eu tenha conseguido participar das gravações”.

O curta-metragem conta com um elenco grandioso, mais de 30 atores.

 

O filme tem nomes como Bruno Garcia, Aramis Trindade e com as cantoras Lia de Itamaracá e Mônica Feijó. No caso de Mônica. A assistência de direção fica a cargo de Moisés Monteiro de Melo Neto. A atriz Patrícia França foi um nome cotado para atuar no curta, mas acabou ficando de fora por problemas na sua agenda. Patrícia, nos anos 80, trabalhou em projetos teatrais de Hanois.

Os diálogos do filme são baseados em fragmentos de textos de Ascenso Ferreira. O título do curta faz referência ao poema “Mês de maio”: “O incenso queima diante do altar,/ o mês de maio vai terminar.../ Com seus deliciosos braços nus,/ as rosas fazem o sinal-da-cruz.../ Amém...” - presente no livro Catimbó, de 1927. Ao fragmentar diversos textos de Ascenso, segundo o diretor, o curta resgata para toda uma nova geração a oralidade típica da obra do poeta.

O roteiro de “Incenso” ganhou prêmio Ary Severo-Firmo Neto, concedido pela Prefeitura do Recife. Durante o processo de gravação, o filme contou com apoio de, entre outras instituições, Chesf e Fundação Joaquim Nabuco, que cedeu gratuitamente a utilização do Engenho Massangana.

Marco Hanois chegou a Incenso depois de trabalhos bem-sucedidos como Objeto abjeto e Cassino Americano, que recebeu Menção Honrosa no Festival Internacional de Vídeo promovido pela JVC em Tóquio. Sua homenagem a Ascenso foi lançada no primeiro semestre de 2007.

Em 2016, Moisés Monteiro de Melo Neto dirigiu o show "Tão Feliz" da cantora recifense Edilza Aires. Entrevistado por Patrícia Breda, RÁDIO FOLHA, sobre o show de Edilza Aires: Janilson Santos, Moisés Monteiro de Melo Neto, Edilza Aires, e o jornalista Jomeri Pontes, Moisés declarou na ocasião:








“Hoje, dia 28 de setembro, estivemos no apartamento do cantor e compositor Paulo Diz, eu, Edilza Aires, Janilson Santos e Jomeri Pontes. Paulo é o homenageado do novo show dela: TÃO FELIZ. Paulo cantou e conversou muito conosco, lá em Boa Viagem. Contou casos, nos emocionou a todos ao entoar suas músicas acompanhado por Edilza.”

 


 

Jomeri Pontes, Moises Neto, Edilza Aires e Paulo Diniz (homenageado do show TÃO FELIZ no Teatro de Santa Isabel, Recife)


De acordo com a matéria publicada no jornal Folha de Pernambuco, dia 26 de setembro de 2016, o show "Tão Teliz" da cantora Edilza Aires. O crítico, colunista musical, jornalista e escritor José Teles declara que a voz de Edilza Aires é naturalmente Black, ela traz no seu canto referências da soul music. Depois de ser considerada a revelação feminina no ano de 1993, a cantora abriu os shows para Nana Caymmi.

Edilza Aires deu à música Black um sotaque pernambucano, misturando samba, soul, funk e Rhythm-in-Blues, colocando sempre sua personalidade na forma de interpretar as canções, o que dá uma nova roupagem às canções que a cantora interpreta.

A cantora também dividiu o palco com vários artistas consagrados, um destaque especial para o baterista Manu Katché (músico integrante da banda de Sting), para as cantoras Daúde e Paula Lima (e integrantes do Funk Como Le Gusta) e os cantores Cláudio Zoli e Luiz Melodia.

 

13- Depoimentos e entrevistas

A visão múltipla de Moisés Monteiro de Melo Neto por Misia Coutinho

Se em algum momento de sua vida você viveu uma experiência que marcou sua vida com M.M.M.N, qual foi? Olhar entre espelhos, foi assim que o vi no Teatro Waldemar de Oliveira, em uma tarde de sábado aguardando o espetáculo infantil “O Menino do Dedo Verde”. Entre ensaios e outro sempre nos encontrávamos, mas o máximo era boa tarde, boa noite, mas foi após o espetáculo “Hamlet”, que ficamos mais próximos, eu com muita vontade de produzir e viver da produção cultural, querendo ocupar os quatros cantos da cidade com espetáculos e ele cheio de ideias, começamos a fazer espetáculos maravilhosos pela cidade.

Poderíamos perpetuar com a visão múltipla de M.M.M.N., porém somos apenas relés nesse trabalho. Para você, o que ele fez de mais diferente da manada? M.M.M.N. enxerga e traz à tona o que está na essência de cada artista, descobrimos os nossos mitos através do olhar de M.M.M.N. O que ele é pra mim? Meu querido amigo-irmão.

Os caminhos de Moisés Monteiro de Melo Neto segundo Raimundo Carrero

Adaptando conquista Moisés Monteiro de Melo Neto conhece os segredos da invenção, como poucos. Isto é, sabe inventar e sabe, sobretudo, harmonizar esta invenção, quando ela exige perícia e sacrifício. Os textos que tenho lido dele comprovam a habilidade. Não se contenta com o óbvio e com o lugar-comum, vai adiante, investe nas especulações criativas. Reinventa.

O que se tem visto, quase sistematicamente, são escritores, mesmo aqueles mais jovens, repetirem fórmulas antigas, superadas, repetidas. No romance, por exemplo, quase não se avança mais na questão das novas fórmulas. Em Moisés Monteiro de Melo Neto, todavia, o caminho é diferente. Ele é capaz de revolucionar sem provocar dramas no leitor. Sem torturas e mágicas mal elaboradas.

Além do mais, sabe ser sutil. As palavras nascem, vêm com leveza, montam a história, num clima quase de sonho, mesmo quando enfocam os caminhos mais cruéis. Esta é a impressão que me ficou de um dos seus textos mais recentes, o romance "Michelle", cheio de truques e arrebatamentos. Uma fábula fabulosa.

 


 

Raimundo Carrero escreve sobre peça ANJOS DE FOGO E GELO (a vida de Arthur Rimbaud) de Moisés Monteiro de Melo Neto


Moisés Monteiro de Melo Neto e Raimundo Carrero


Um belo final de tarde, por Luzilá Gonçalves Ferreira

Quem lá não esteve não sabe o que perdeu. No Salão Nobre do Teatro de Santa Isabel, que há 160 anos abriga recitais, concertos, para pessoas de bom gosto, em um cenário mínimo, sobre fundo negro, atores vestidos de preto fizeram a leitura dramática do texto teatral que seu autor, Moisés Monteiro de Melo Neto, intitulou simples e modestamente de Bento. Trata-se do julgamento de Bento Teixeira, nosso primeiro poeta, o autor da Prosopopeia, por sua mulher, Filipa Raposa, e pelo representante da Inquisição. Partindo de nosso romance “Os rios turvos”, Moisés tornou presente o que era apenas palavras,

 

ficção, romance, um trabalho de recriação, de criação, um belo, inteligente e muito pessoal documento dramático, pelo qual a autora do romance é agradecida.

Antes e após as leituras, fundo musical, antigas melodias judaicas. Os atores sob a direção de José Francisco Filho, instalados, em pequenas mesas, para Bento e Filipa, sobre um imponente púlpito, para o representante do Grande Inquisidor, nos proporcionaram um raro momento de doação deles mesmos, no profissionalismo, na emoção transmitida. Stella Maris, uma das ótimas atrizes que o Recife possui, foi uma forte personificação de Filipa Raposa, na perfeita dicção, na entonação, na economia e precisão dos gestos. O Grande Inquisidor, vivido por George Meirelles tornou nossas as acusações a Bento, na força e na convicção com que atacou, culpabilizou, humilhou, ironizou o autor da Prosopopeia. De Germano Haiut, o que dizer? "Une bête de théâtre", diriam os franceses, um bicho de teatro, um imenso, enorme talento que nos comoveu (vi lágrimas em alguns olhos), vivendo Bento Teixeira diante de nós, um pequeno judeu levado a abjurar de sua própria fé.

Esse esforço de criatividade de produtores, atores, autores, com que a Prefeitura do Recife congregou oficinas, várias leituras dramáticas comemorando os 160 anos do teatro sob a coordenação de Lucia Machado, não deve se encerrar aqui. Sugerimos sua reedição em locais e datas outras. E com relação a Bento, recado para Antônio Campos, Eduardo Cortes e Mário Hélio: sua reapresentação na Fliporto deste ano, dedicada à literatura de cunho judaico.

Coluna dia a dia, JORNAL DO COMMERCIO (Recife, 16 de setembro de

2010, Caderno C, p.3)


Luzilá Gonçalves Ferreira saúda Moisés Monteiro de Melo Neto: Literatura Pernambucana em destaque

 

Teatro Nosso, por Thalles Colatino

Os veteranos atores Stella Maris Saldanha, Germano Haiut e George Meireles dão vida aos personagens do texto inédito Bento, do pernambucano Moisés Monteiro de Melo Neto, que será apresentado no Salão nobre do teatro de Santa Isabel. Atualmente, Moisés Monteiro de Melo Neto é o dramaturgo com textos mais montados no Recife.

O jornalista Talles Colatino fala sobre evento que incluiu Moisés Monteiro de Melo Neto como referência na dramaturgia contemporânea em Pernambuco e o teatro nordestino pede parada em São Paulo.

FOLHA DE PERNAMBUCO. CADERNO PROGRAMA. PÁGINA 5 EM

04/11/2008.

O fato de abrir as portas de dois dos mais importantes centros culturais do país não soa estranho que São Paulo seja a maior cidade nordestina do Brasil. E para exercer uma proximidade ainda maior entre a região e a metrópole, tem início hoje, lá na terra do céu cinza, a Mostra Paulista do Teatro Nordestino. Até o dia 3 de dezembro, uma série de atividades gratuitas relacionadas à produção teatral da região ocupa o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e o Centro Cultural São Paulo (CCSP), incluindo peças, leituras dramáticas e demonstrações de trabalho. A mostra também recebe a 6ª Semana do Teatro Nordestino, reunindo dramaturgos de São Paulo e do Nordeste em mesas de debates e lançamentos de livros.

O (CCBB e o CCSP) à Dramaturgia Nordestina é um ato de reconhecimento do valor de autores e de criadores cênicos, abundantes nessa região, que tornam o Brasil um dos lugares do planeta onde o teatro está mais vivo do que nunca. Se o evento conseguir abrir um pouco mais o diálogo entre Nordeste e Sudeste, em meio às luzes e às sombras da cena, terá cumprido importante papel”, afirmou Sebastião Milaré, curador da Mostra.

As quatro montagens selecionadas para se apresentar no evento homenageiam o pesquisador e dramaturgo alagoano Altimar Pimentel, falecido esse ano. Pimentel é autor de “A Construção”, uma das peças emblemáticas do final dos anos 60, encenada em 1969, pelo Grupo A Comuna, de Amir Haddad, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. De autoria do dramaturgo, a mostra traz ao palco “Como Nasce um Cabra da Peste”, com a companhia paraibana Agitada Gang. Pernambuco vai representado pela companhia Arte-em-Cena, com seu já clássico “Deus Danado”. “Lesados” (CE) e Sinhá Flor

 

(PB) completam o time de espetáculos.

SEMANA

Como parte da programação da Mostra, pela primeira vez São Paulo é palco da Semana do Teatro Nordestino, evento que acontece anualmente em Natal (RN) desde 2003, por iniciativa da Associação dos Dramaturgos do Nordeste. A programação da Semana inclui lançamento de livros e palestras com dramaturgos nordestinos e paulistas. “A ideia principal foi dar acesso aos criadores cênicos paulistas, aos estudiosos e ao público interessado de São Paulo as obras dramatúrgicas produzidas no Nordeste. Essa ideia ia ao encontro da proposta básica da Associação de Dramaturgos do Nordeste, que é difundir essa produção dramatúrgica”, conta Sebastião Milaré, mediador das mesas.

Para as palestras, os dramaturgos convidados são: Cleise Furtado Mendes (BA); Oswald Barroso, José Maria Mapurunga, Rafael Martins, Yuri Yamamoto (CE); Tácito Borralho (MA); Eliézer Rolim, Elpídio Navarro, Paulo Vieira, Celly Albuquerque (PB); João Denys (autor de “Deus Danado”), Moisés Monteiro de Melo Neto (autor de “Anjos de Fogo e Gelo”), Romildo Moreira (PE); Ací Campelo (PI); Racine Santos, Paulo Dumaresq (RN); Lindolfo Amaral (SE); Luis Alberto de Abreu, Márcio Aurélio e Newton Moreno (SP). Lá, toda a programação é gratuita. (Talles Colatino)


Moisés Monteiro de Melo Neto fala sobre o musical infanto-juvenil “Sonho de Primavera”: Foi a primeira vez que eu dividi a direção de um espetáculo com outro profissional e estou me sentindo bastante gratificado. Usamos de muita técnica é claro. Supervisionamos música, dança, figurino e cenário para que houvesse homogeneidade na cena. O resultado foi o que eu esperava: adultos e crianças ficam perplexos diante da esfuziante mensagem que enviamos: é uma performance cheia de frenesi. Entre um distanciamento brechtiano, a quarta parede stanislavskiana, o teatro social dos anos 70 e os grandes musicais, optamos por ficar com tudo e buscar algo mais: interação com a plateia. Meus dois últimos espetáculos como autor, “Para um Amor no

 

Recife” e “A Ilha do Tesouro”, ganharam vários prêmios e me ensinaram que devemos procurar novos caminhos para o teatro no Recife. “Sonho de Primavera” veio como um bálsamo. O Teatro do Parque é palco de uma nova experiência em teatro infanto-juvenil. Não se trata de uma grande produção e sim da vontade de declarar amor à vida de forma divertida e dinâmica. É poesia, música, colorido e uma interpretação que beira o exagero. Uma lição que aprendi com o mestre José Francisco Filho foi não tratar a criança como boba nem tão pouco querer ver nela um adulto obsequioso. Há também em “Sonho de Primavera” um mistério, que é claro eu não posso revelar, e até agora dos muitos expectadores que já assistiram ninguém adivinhou. Este eu não posso contar, só posso dizer que é muito, muito sério, e me deu um trabalho danado camuflá-lo. Acho que esta peça é um trabalho em progressão: Ulisses está burilando, eu continuo tecendo meus comentários.

Foi com prazer que escrevi este texto ao lado de Rosália Calsavara e compus as músicas com Paulo Smith, que buscou inspiração tanto no rock

´n´roll quanto em filmes musicais para compor a trilha sonora. Black Escobar é um profissional do jazz. Henrique Celibi traz na bagagem tanto a concepção de figurinos e adereços para escolas de samba do Rio de Janeiro quanto suas raízes fincadas no Vivencial Diversiones, casa de espetáculo que revolucionou a Cena Recifense dos anos 70 no Recife, além do seu trabalho com a Trupe do Barulho. O que oferecemos é adrenalina. Prove e comprove.

(XV) A ciranda dos saberes

Quantos homens cabem em um único indivíduo? Quantas visões se fazem a partir dos globos oculares de dois únicos olhos? Quantos gestos são possíveis de se expressar a partir do movimento de duas únicas mãos? Quantas formas e tons de palavras são possíveis de ser proferidas a partir de uma única boca? Quantos rumos podem ser desenhados e trilhados ao mesmo tempo pelo caminhar de duas únicas pernas? Qual o limite máximo de letras ou caracteres que podem ser usados para se escrever uma única e genuína palavra? Qual o limite máximo de traços e detalhes pode ser usado para desenhar a face identitária de um único homem? E quantas camadas, níveis, e compartimentos diferenciados são possíveis de serem processados e de operar simultaneamente nos domínios do conhecimento e dos saberes deste único homem?

Alguém que consiga dar as respostas para todo este conjunto de

 

perguntas talvez consiga chegar perto de decifrar e ter uma ideia aproximada da mente multifacetada do nosso Moisés: artista plural, pensador, pesquisador e professor. Aquele menino salvo pela água do mar e os ventos marinhos em sua infância praieira, que avançou no tempo desbravando múltiplos territórios e indo além de horizontes vários, para se transformar no experiente criador e respeitável intelectual a quem encontramos em sua plena maturidade.

Como deixar de pontuar, no bojo desta narrativa cronológica, explanatória, e biográfica, o avanço e o somatório de expertise e conhecimento daquele desbravador de perplexidades e leitor voraz ainda adolescente, que no jogo do acaso imprevisível da necessidade de uma substituição repentina, viria a se tornar um ator experiente ainda muito jovem, experimentando desde cedo o fascínio do fazer artístico através dos sabores e dissabores da arte teatral. O teatro fora o seu primeiro chão sagrado da sabedoria. Nos seus domínios, o nosso Moisés não só se aprimoraria na arte de interpretar, mas também daria os primeiros passos no exercício da dramaturgia.



Moisés tirando um som no lendário bar 3 x 4


Por que não estudá-la mais enfaticamente? Por que não se aprofundar nos domínios específicos das suas teorias, das suas linguagens, dos seus porquês? Instância esta, que o aproximaria substancialmente ainda das produções e práticas desta área do conhecimento. E no decorrer natural das coisas que inevitavelmente têm de acontecer, o nosso Moisés mergulha com afinco e determinação no universo acadêmico das Letras.

Anos 90. O agora professor Moisés começava a atuar em um novo espaço cujas vivências e presenças não mais o abandonariam: a sala de aula. O universo educacional e as práticas de ensino passaram a lhe fascinar como ele nunca esperaria que pudesse acontecer. O papel de educador ultrapassara os

 

parâmetros de uma simples “função”. O contato diário e contínuo com os alunos, a participação direta no processo de aprendizagem e amadurecimento deles tomava proporções muito mais condizentes com os objetivos de uma “missão”. E hoje, olhando para quando tudo começou, ele se dá conta de que tudo isto, de certa forma, desde sempre fez parte de sua vida. Pois aquilo tudo que ele fizera antes disto também eram formas de ensinamento.

Anos 2000 em diante. Tendo sido iniciado na vida acadêmica com a Graduação no curso de Letras, o jovem professor Moisés não pararia mais. Logo chegaram os anseios de mais conhecimento e mais experiência. E desta forma, ele não parou mais. Assim vieram a Especialização, o Mestrado, o Doutorado, e a coroação do esforço de todo este percurso: a docência no Ensino Superior.


Carlos Reis, Silvânia Núbia Chagas, março de 2020, na Universidade de Pernambuco, UPE, onde Moisés leciona


Dentre tantas, aparecem destacadas as sábias palavras de Mikhail Bakhtin, Roland Barthes, Homi Bhabha, Edward Said, Northrop Frye, Stuart Hall, Luiz Costa Lima, Antônio Cândido, Silviano Santiago, Alfredo Bosi, Fausto Neto, Flora Süssekind, Sônia Ramalho, Roland Walther, Lourival Holanda, entre tantos, mais tantos, e tantos outros mais.

 

14- Docência: Ser professor


Caríssimo Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo,

Descobrimos que podemos marcar a vida de um ser humano para sempre como professores. Recorro a Paulo Freire na afirmação: “Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Mas o que seria do mundo sem essas pessoas? E o que seria do futuro sem as escolas? Não há futuro sem professores, assim, venho aqui prestar essa homenagem em forma de agradecimento.

Um professor não somente ensina, ele é multifuncional e nos mostra sempre possibilidades, caminhos, novos horizontes e nos inspira a ser cidadãos críticos e reflexivos. Bráulio Bessa, em um dos trechos do seu cordel conhecido como 'A Força do Professor', diz:


Um guerreiro sem espada sem faca, foice ou facão armado só de amor segurando um giz na mão o livro é seu escudo

que lhe protege de tudo que possa lhe causar dor por isso eu tenho dito Tenho fé e acredito

na força do professor. (...)

 

Um arquiteto de sonhos Engenheiro do futuro Um motorista da vida dirigindo no escuro

Um plantador de esperança plantando em cada criança um adulto sonhador.


Há pessoas que marcam a nossa vida, despertando algo especial em nós, abrindo irreversivelmente nossos olhos e transformando a nossa forma de ver o mundo. Ao longo de nossas vidas, diversos professores passaram por nós, cada um à sua maneira, com suas palavras certas nos momentos certos, e, acima de tudo, com sua história para contar e nos ensinar. Durante nossa jornada acadêmica, nem sempre fomos contemplados com dias de sol e brisas suaves de flores entrando pela janela, houve também tempestades, trovões e tsunamis. Nestes dias, um mestre nos conduziu ao porto seguro, construindo laços de amizade, admiração e nos dando certeza de que venceríamos os obstáculos. Cada um teve seu professor, mestre, companheiro, amigo e conselheiro.

Agradeço a todos os mestres que fizeram parte da nossa formação, em especial ao professor Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto. Sua dedicação incansável e seu amor pela literatura nos contagiaram, inspirando-nos a explorar e apreciar as nuances dos grandes escritores e obras-primas literárias. O senhor tem sido uma presença constante e inspiradora em nossas vidas durante toda a nossa jornada acadêmica. Permanecendo em nossa turma durante cinco períodos diferentes, sua paixão e dedicação foram verdadeiramente inspiradoras, e muitos de nós encontraram não apenas um educador excepcional, mas também um amigo. Com seu sorriso e seu jeito alegre, cada aula ministrada pelo senhor foi uma oportunidade brilhante de aprendizado único, uma experiência que nos desafiou a pensar, questionar e aprimorar nossos conhecimentos.

Como esquecer das aulas de literatura brasileira? Ou do “Intimidade é a peste”, aaah, os cinco críticos literários básicos. Além disso, todo estudante de

 

letras deve ter em sua estante “História Concisa da Literatura Brasileira”; não esqueçam também de “Literatura Brasileira através dos textos”. Podem comprar o livro na estante virtual; o livro é baratinho, mas o frete é mais caro.

Com paciência e comprometimento, o senhor nos guiou em nossas análises literárias, incentivando-nos a olhar além das palavras escritas e compreender as mensagens subjacentes. Ele nos desafiou a explorar diferentes perspectivas, questionar nossas suposições e desenvolver nosso próprio senso crítico. Além de transmitir o conteúdo de sua disciplina com maestria, o senhor nos ensinou lições valiosas para a vida. Aprendemos que momentos difíceis existem e muitas vezes duvidamos da nossa profissão e nos questionamos se é isso que realmente queremos, mas que devemos sempre persistir. Mestre, saiba que sua paixão pelo ensino é palpável, e isso nos motivou a superar os obstáculos, a acreditar em nosso potencial e a nunca desistir dos nossos sonhos.

Hoje, ao nos despedirmos desta fase de nossas vidas, queremos expressar nossa gratidão sincera. Obrigada, mestre, por acreditar em nós, por nos encorajar a seguir nossos objetivos. Sua influência em nós vai muito além das palavras. Enquanto partimos para novas jornadas, carregamos conosco as lições que aprendemos com o senhor, sabendo que temos as ferramentas para enfrentar os desafios que o futuro nos reserva. Obrigada por tudo que fez por nós, por compartilhar sua paixão pela literatura e por nos mostrar que as palavras têm o poder de transformar vidas.

 


 

Mônica Nascimento, lendo em nome da turma de Letras, na sua Colação de Grau. UPE, Turma 2022.2

Ao falar de sonhos e transformações, também lembramos de gigantes mestres que fizeram parte de nossa formação: a professora Dra. Emmanuella Barros, para nós, durante essa jornada, foi a compreensão, a atenção, o amor e o carinho em uma só pessoa. Com sua forma singular de lecionar, mostrou-nos que ser professor é mais do que transmitir conteúdos, é amar o que faz. Uma vez, ela nos disse a seguinte frase: “Não permita que o brilho que te fez chegar até aqui se apague, dê o último passo. Vai valer a pena”. O Professor Dr. Fernando dava aulas surpreendentes, mostrando possibilidades de ensino desde a base de tudo, sempre prestativo, compreensivo e gentil. O Professor Isaac, atencioso, dedicado e paciente, com seu jeito doce, conseguiu cativar e inspirar muitos de nós. O professor Dr. José Nogueira da Silva, com uma inteligência singular, conseguiu desenvolver o trabalho com tanta maestria e dedicação.

Aos mestres que também se encontram aqui, neste momento, queremos expressar nossa profunda gratidão por seu compromisso com a excelência acadêmica, pela inspiração que proporcionaram e por moldarem o futuro por meio da educação. Vocês são verdadeiros heróis do conhecimento e merecem todo o reconhecimento.

A turma de Letras 2022.2 da Universidade de Pernambuco, campus Garanhuns, agradece aos senhores por cada palavra, ensinamento e apoio. Gigantes, mestres, obrigada!


Mônica Nascimento, no dia da sua Colação de Grau, Letras, UPE.

 


 

Moisés, alunos do curso de Letras da UPE e escritores pernambucanos

, em evento que marcou parceria com Sesc, Garanhuns, 2024

Caríssimo Professor Moisés Monteiro,

Hoje, gostaríamos de expressar nossa profunda gratidão e admiração por sua dedicação e excelência como nosso professor. Ao longo do tempo em que tivemos a honra de ser seus alunos, pudemos vivenciar o impacto transformador de sua paixão pelo ensino e pelo universo das Letras.

Sob sua orientação, mergulhamos em obras literárias que nos transportaram para universos fascinantes, que nos desafiaram a refletir sobre a condição humana e nos inspiraram a apreciar a riqueza da linguagem. Sua capacidade de tornar a Literatura e a Arte viva e envolvente é verdadeiramente notável, e suas aulas sempre foram um farol de conhecimento e inspiração.


Andreza Lopes lendo a homenagem da turma 2023, Letras UPE, ao Professor Moisés , por ocasião da Colação de Grau.

Além de seu brilhantismo acadêmico, queremos ressaltar sua atenção individualizada a cada aluno, sua paciência ao esclarecer dúvidas e seu incentivo constante ao desenvolvimento intelectual e criativo de todos nós. Seu compromisso com o aprendizado deixam uma marca permanente em cada um que tem o privilégio de cruzar seu caminho.

 


 

A coordenadora do Curso de Letras do Campus Garanhuns, Prof. Dra. Silvânia Núbia Chagas, ao lado do Prof. Moisés, do Prof. Dr. Sílvio Nunes e Maria do Socorro de

Mendonça Cavalcanti, reitora da UPE, no dia 7 de maio de 2024, Colação de Grau.


Moisés e alguns dos seus alunos do Curso de Letras, Universidade de Pernambuco. Garanhuns, 7 de maio de 204, Colação de Grau deles, que lhe prestaram homenagem

Professor Moisés, sua influência vai além da sala de aula, pois você não apenas compartilha conhecimento, mas também cultiva o amor pela literatura e pelo aprendizado contínuo. Seu legado como educador é inestimável, e tenho certeza de que muitos outros alunos compartilham da mesma gratidão que sentimos por ter tido o privilégio de ser seus alunos.

Que esta homenagem seja um singelo acalento à grandeza de seu trabalho e ao impacto positivo que você tem na vida de tantos estudantes. Obrigada! (Discurso proferido para saudar Moisés na Colação de Grau do Curso de Letras, turma 2024.1, por Andreza Lopes, professora, foi aluna de Moisés, na Universidade de Pernambuco, UPE)

Com mais de 20 anos de profissão, Moisés Monteiro de Melo Neto construiu uma carreira acadêmica sólida, passando pela especialização, mestrado e doutorado, além de muitas publicações em revistas e jornais. Moisés tem mais de 11 livros publicados, ensinou em alguns dos melhores colégios e universidades em Pernambuco. Atualmente, ele é professor da Universidade Estadual de Alagoas - UNEAL e da Universidade de Pernambuco – UPE. -141-

 

Ele concluiu sua graduação em letras no ano de 1992, iniciou sua vida em sala de aula na Escola Estadual Almirante Tamandaré, próxima ao Shopping Tacaruna, Recife. Certa vez, um aluno gritou: "professor!", Moisés virou surpreso, pois pela primeira vez, ele atendera ao chamado de um aluno, “esse menino está mangando de mim porque cato marisco”, a frase foi dita por um aluno do 7º ano, chorando, com a roupa suja, numa tarde quente de verão.

Daquele dia em diante, Moisés passou a fazer parte de um universo de onde nunca mais saiu. Ele interrompeu a aula e fez um discurso interdisciplinar que nortearia todo seu projeto acadêmico contra opressão e em favor da discussão temática entrecruzada pelos vários eixos da linha bakhtiana da polifonia e da sátira menipeia, que ele adora.

Iniciando um discurso sobre a humildade e a luta pelos direitos a expressão; também falou da exploração do homem pelo homem e da formação do caráter, da ética etc. Na verdade, o discurso de Moisés une-se aos de muitos professores que fazem da profissão um caminho, uma luta para melhorar as condições de ensino neste país. Claro, sempre haverá dificuldades no ambiente de sala de aula, pois sabemos que nem tudo na vida de um professor é maravilhoso. Para o professor, o grande material a ser trabalhado em sala de aula é o ser humano. É preciso entender que cada aluno traz a sua bagagem, e o professor constantemente lida com as diferenças.

Muitas são as satisfações no exercício da docência para Moisés, como por exemplo a produção literária dos seus alunos. Recentemente tem orientado a produção de cordéis e dramaturgia indígenas. Sendo convidado e homenageado com placas, como na Universidade Estadual de Alagoas no Espaço de Memória Indígena Alagoana Geová José Honório da Silva, no Campus V, em União dos Palmares (AL). Para o idealizador dos espaços de memória da Uneal, Jairo José Campos da Costa, o Museu do Índio fecha um ciclo de resgate da arte produzida pelos povos tradicionais de Alagoas, como é o caso dos indígenas “É um ciclo que se fecha em quase 20 anos de trabalho e de retorno a esses povos que eu pesquiso”, frisa Campos. O Espaço de Memória Indígena Alagoana foi organizado a partir de pesquisas nas 12 etnias do estado distribuídas em dez cidades.

 


 

Placa afixada no museu lembrando os autores indígenas de Alagoas que produzem literatura (nesse caso, orientados pelo professor Moisés)

O levantamento resultou na seleção 100 artefatos, incluindo cachimbos, colares, cocares, tiaras, vestimentas, esculturas de divindades, arcos, flechas, burduna, panelas, entre outros objetos produzidos pelos indígenas alagoanos. “Até aqui, temos 30 artistas em uma narrativa curadorial e expográfica pensada pela equipe multidisciplinar que montou o Museu”, também literário, completou Jairo Campos. O nome do Museu é uma homenagem ao saudoso cacique Geová, guerreiro indígena da etnia Wassu Cocal que teve relevante papel nas lutas dos povos originários de Alagoas. Compõem também a equipe, a museóloga Carmen Lúcia Dantas; o arquiteto Rafael Gomes Brandão; o professor e antropólogo do Campus III – Palmeira dos Índios, Adelson Lopes e Marcelo de Campos - artista da Tingui Filmes (responsável pela produção audiovisual). “Esta é mais uma contribuição da Uneal para esses povos que foram relegados durante séculos e agora recebem um espaço digno que valoriza o seu fazer artístico-cultural”, enfatizou Jairo Campos.



Moisés em ritual Katokinn, em Pariconha, sertão de Alagoas

 

Inúmeras são as adversidades: alunos que não compreendem a importância de estudar, outros que sabem pouco, mas pensam que sabem muito; também existe o problema das gerações, que muitas vezes, torna os jovens mais intolerantes, isso somado a mil coisas, como falta de diálogo, pela automação provocada no homem a partir do século XX; a tecnologia veio para ajudar, mas muitos estudantes confundem tecnologia com sabedoria, e isso pode tornar o aprendizado do aluno superficial, ele não se aprofunda nos temas abordados em sala de aula. Para Moisés, hoje, o universo da sala de aula é um pouco imbecilizado pela pressa cibernética de chegar a lugar físico nenhum, separação dos sujeitos por phones e outros instrumentos relativos às novas tecnologias; haverá uma saída, países como Japão e Alemanha dão dicas sobre como conviver com a natureza; ele prefere a Inglaterra, embora saiba do domínio capitalista e da necessidade de revisar o Brasil no seu jeitinho que uniu ricos e pobres e deixou a classe média a ver navios, ensandecida, entorpecida.

Aliado a tudo que foi dito até aqui, temos o salário baixo, o excesso de trabalho (o de casa, então, que envolve muita pesquisa e esforço, espaço para guardar e manusear bons livros); incompreensão da sociedade ao discutir o papel do professor no Brasil, no Nordeste, em Pernambuco. A saúde que é maltratada nessa profissão; tratar temas como sexo, política etc. Tudo isso requer serenidade, amor, conhecimento, aperfeiçoamento contínuo.

O professor é um ser essencial para a formação da sociedade, porque é através dele que formamos cidadãos; junto aos profissionais da saúde e segurança pública, merecem amor, como todos os seres, mas eles têm que ter uma aposentadoria especial.

Outro aspecto que Moisés questiona é o processo de avaliação para entrar nas universidades, ele acredita que o Enem, que ainda voga, agora, é um tanto falho nas suas perspectivas de avaliação e que cada universidade deveria ter os seus critérios de admissão, exame próprio.

Moisés é grato aos seus Mestres e companheiros de academia, defende que o ensino presencial nunca deverá acabar; ele afirma que seria o fim da liberdade, que o planeta estaria rumando ao desespero dos autômatos, ou pior, da alienação e a um novo tipo de escravidão, que parece cada vez mais próxima. Para ele, a Escola é um sonho feito de amor, luta e fé. Um professor é antes de

 

tudo um guerreiro que acredita num futuro melhor. Seus louros são as glórias dos alunos. Aqui estamos diante do mistério maior: a criação do ser e estar no mundo. Estaríamos todos à procura de um bom professor? Um bom discípulo? Nos colégios ou nas faculdades onde ensinou, sempre quis que toda esta aprendizagem feita entre as paredes se transforme em trabalho, festa e pão. Assim, é com enorme satisfação que Moises vê mais uma turma lançar-se ao mundo.

Estes estudantes representam também o seu pensamento, ele deseja sempre aprimorar seus conhecimentos enquanto seres conscientes do seu papel de pensadores e cidadãos, profissionais, que eles serão, que devem combater por liberdade e justiça social com as armas do estudo. Para Moises é um prazer tê-los com ele; é o exercício de fazer o melhor que pode, para que suas vidas sejam profícuas e vantajosas para este país que cresce e fortalece-se com o esforço conjunto.

O magistério é também a sua vida, sua razão de Ser. Moisés deseja a todos o sucesso que cabe a quem batalha e defende a sabedoria eterna. Uma prece àqueles que fazem do estudo uma casa querida, porque os professores doam ao mundo seu suor, lágrimas e risos de felicidade. Moisés: “Desejo tanto uma nova mecânica de poder e tem ao mesmo tempo ter reforçado certos valores antigos que se embutiram de alguma forma às minhas estratégias de composição e dos meus textos. Queria que a mídia não adestrasse os recifenses do modo que vem acontecendo de forma tão insistente. Aqui a guerra não é o contrário da paz quando se trata, por assim dizer, de literatura: a história de uns não é mais a história de todos.”

E continua:

“É uma anti-história o que se faz no Recife e a minha literatura reflete, ou busca refletir este não-ser.” Indo para as aulas na UNEAL, durante a madrugada com um olhar reflexivo, Moisés descreve seus pensamentos poéticos sobre o que via no caminho, assim ele me escreve dizendo:

“Encontrar sobre a terra, o fundo do mar; num tempo oceânico, aprender a luz, insubserviente, verão com voz própria dezembro se anunciou com assobio, quente e salgado, nas minhas recifenses janelas. Teatro de vozes

 

sem rosto, ando como quem foge, se entrega, luta, em gozo e dor, entre choques, indiferente, exilado, desvendando problemas e soluções, nada servil, num mundo cristalizado, na passagem das horas sem ranços... pelos campos saqueados, solo vencido, natureza despedaçada... espírito seco... alma úmida... sei lá... vendo anjos na neblina da madrugada enorme... dentro do ônibus interestadual, na sua síntese de uma paradoxal limpidez mental. No verde, cinza, branco, pescando imagens pelas enormes janelas: árvore/flor na paisagem que amanhece como lâmina ligeira domando a vegetação sobrevivente; quando minha visão que velava o escuro, em compreensão sensível, intelectiva, jogava-me a alcances impossíveis, libertando a distâncias, seguindo, trafegando dentro do destino de uma nova manhã antiga, desconstruindo a estrada; sentia-me como que acompanho o fio do labirinto, como em pentimento (pintura a esconder a que está embaixo), a lembrar que a medida do homem não é a morte.

Sentindo-me de mim uma sombra, como eu fosse caatinga seca prevendo chuva, logo; se eu fosse uma sombra de nuvem correndo nesta estrada, vendo tanta coisa ao longe, tanta coisa que não sabe o que ou porquê do estar no mundo... e eu, ali, naquela estrada, chegando a Alagoas, vindo da eternidade ou do nada, de tudo existia, e seguindo para o sempre ou para o que nunca existiu, numa travessia homo-existo, querendo dar às coisas não-sensatas, paixão e sentido, naquela manhã morta das almas, cheia de tantos perfumes, no tempo cósmico, tempo, que sei, imóvel, cuja ilusão de movimento criamos; a olhar seres humanos pela janela: parecem moços e vivos, apesar de mortos no alheamento da paisagem passageira, como eu, no fim de madrugada veloz. Orei baixinho, por mim e pelos exilados deste mundo, nesta minha

 

incursão, chuva com sol, viagem a trabalho, na Universidade. Estrada molhada, escrever-me em poema, assim, como este meu teatro, híbrido, meus livros, companheiros silenciosos de vida. Ah, os jardins do vento... as árvores de concreto!

O ímpeto criador apossou-se de mim quase como um mal... Passo a vida olhando-a em dimensão universal e atemporal. O jogo dos homens? Brinquedo.


15- Doutorado: Moisés fala um pouco sobre sua tese.

VAMOS PASSAR um final de semana com Moisés com seus alunos da UNEAL e UPE, na quinta um seminário sobre literatura indígena e no sábado trilha em Angicos. Vamos fazer o primeiro em crônica e o segundo em verso, ambos com fotos:

INDÍGENAS COMENTAM LITERATURA BRASILEIRA

Autores: IEDO RAMOS DE ARAÚJO, NIRÃNIK WANAKIDZÉ DE LIMA

SILVA, VIVIANE SILVA DE LIMA, Moisés Monteiro de Melo Neto

(professor orientador)


 

1. O Brasil foi invadido Chegou aqui Portugal Eu só não sei direito Se isso foi bom ou mal Uma coisa eu lhe digo Pra nós índios foi fatal.


2. Eram então os quinhentos Quando se deu a invasão Isso nos deixou maluco? Ei, você: preste atenção! Vieram tantos males

E a globalização


3. Foram padres e cronistas Veio o teatro também

E assim muitos navios Vieram lá do além Queriam que a gente Todos dissessem amém


Isso é apenas parte de um cordel indígena que foi lançado na última quinta-feira, dia 18 de abril , no auditório do Campus III da Uneal, Palmeira dos Índios e que foi prestigiado por mais de uma centena de docentes, discentes e autoridade indígena, o cacique Walciran Ferreira.

 

Os três autores indígenas, graduandos do CLIND, Curso de Licenciatura Intercultural Indígena, também falaram ao público sobre sua obra literária impressa em forma de cordel, com a orientação do Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto. A plateia aplaudiu. A Profa. Dra Iraci Nobre palestrou de modo espetacular sobre a trajetória do CLIND Uneal e o Prof. Dr. Adelson Lopes encantou a todos com sua sapiência e conhecimento sobre a(s) cultura (s) indígena (s).

Foram vendidos mais de 100 cordéis, com renda revertida para os autores e para o Calet (CA de Letras). A Prof. Mary Selma falou da sua experiência desde o início do CLIND e como Coordenadora do Polo Wassu Cocal. Representando o CALET estava na coordenação do evento o graduando Valério da Silva Ferreira. Moisés atua no CLIND nas seguintes unidades:

Polo do sertão. Povos indígenas na cidade de Pariconha

(Jeripankó ,Katokinn, Karuazu), Inhapi – Koiupanká, Água Branca Kalancó

Polo do Baixo São Francisco - São Sebastião Karapotó Plak-ô;

Karapotó Terra Nova





Viviane Lima, uma das autoras do cordel lançado na quinta-feira, 18 de abril de 2024, no Campus III.

 


 

O cacique xucuru-cariri Walciran Ferreira foi enfático no seu discurso sobre a importância daquele lançamento, ao lado do professor Moisés, que explanou sobre a representação do indígena na nossa literatura e sobre os autores indígenas que ganham cada vez mais destaque em nossas Letras:


35. Ambígua, híbrida é local e nacional

resultado a longo prazo escrita sensacional

é assim tão fascinante essa literatura: uau!


36. Nova Literatura Indígena Se espalhando no país Munduruku, Jekupé,

Yaman, Pataxó, diz Kithaulu, Potiguara, fala Terena, Guará, raiz


37. Haki'y, Wapixana, Yaguakãg Makuxi, Kerexu Mirim

e autores sem preconceitos conteúdo cognitivo, sim valor próprio de sedução arte importante é assim

 

38. Função simbolizadora que ela possa situar-se tendo um espaço próprio e presentificar-se

cada vez mais estudada local de fala, ela faz-se


39. Autorias indígenas É Literatura forte

Erroneamente escondida Era entregue à própria sorte questões indígenas, sim bem marcado suporte


40. Letras diferenciadas Pelo brilho furta-cor direito de expor sua arte um universo em vetor propriedade intelectual coletivo/ individual primor


40. Oralidade e escrita Oratura ou impressa saberes, fazeres e crenças adotada na Europa, essa sobre crise ambiental

a muitos ela interessa


(trechos do cordel que foi lançado na ocasião)


Foi mais uma noite inesquecível na nossa instituição que assim faz jus ao seu lema: Ad Sapientiam Populi. De acordo com o site da Universidade, “a

 

criação desta instituição contribuiu para elevar a titulação dos professores de toda região do Agreste e municípios vizinhos, tendo em vista que as primeiras turmas foram constituídas de professores da rede pública. Esse foi realmente o primeiro passo dado em direção à qualificação de professores para o magistério em nível básico”.


Da esquerda para a direita: O autor IEDO RAMOS DE ARAÚJO ( e seus dois filhos), , VIVIANE SILVA DE LIMA, autora , Moisés Monteiro de Melo Neto (professor orientador), NIRÃNIK WANAKIDZÉ DE LIMA SILVA, autora, Prof. Dra. Iraci Nobre, coordenadora do Clind, cacique Waciram Ferreira, Professo Nalfran Benvinda, Luziano Mendes e Prof. Dr. Aldelson Lopes, coordenador do Clind

 

Docentes da Uneal: Francisca Maria Neta e Mary Selma abrilhantaram a noite do lançamento. Na foto aparecem na entrada da Uneal Campus III, que também é um dos polos do CLIND, ao lado do Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto

Outros lançamentos de Livros de Moisés, um deles em coautoria com o Prof. Dr. José Nogueira (CORDEL VIVO: TRADIÇÃO COMO ALIMENTO DA

MODERNIDADE) foram lançados na UNEAL Campus III, dia 23 de maio de 2024.

 


 

Assim, nosso biografado postou no seu Instagram : “Dia 23 de maio, às 19h, no auditório do Campus III, da Uneal, evento com palestras, apresentação de teatro e lançamento de 2 livros sobre cordel e 2 cordéis , um escrito sobre literatura infantil e juvenil e o outro escrito por indígenas comentando a presença das mulheres na literatura brasileira. Palestrarão sobre cordel o Prof. Dr. Cristiano César e o Prof. Dr. José Nogueira, professor Robson Silva e a discente de Letras Bárbara Rodrigues. O evento é coordenado pelo Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto e coordenação geral do CALET Carolina de Jesus”

Algumas fotos do evento:


 


 

Os que lá estavam, postaram no Instagram


 


 

Com o ator Julian Neves, que apresentou uma peça teatral. No lançamento, professores que ministraram palestra no evento: Prof. Dr. Cristiano César, Prof. Robson Silva e o Prof. Dr. José Nogueira




MOISÉS COMPÕE CORDEL SOBRE LAMPIÃO COM 2 ORIENTANDOS, ÀS MARGENS DO SÃO FRANCISCO EM ANGICOS (SE)


Quatro metralhadoras ou Três e tava morto o rei Maria degolada viva

Eu também estava lá Estou sempre estarei


Alpercatas do sertão Meus pés a me levar Metonímia do absurdo No ar a concretizar

Vida bandida, essa nossa No céu estrelas brilhar

 

Lorenço, Damião e Moisés Danados pelo sertão

Vão assim tirando loa De viva assombração

Angicos, noviork, nem sei Em Gaza passarão


Mas que coisa tão incrível A vida de Virgulino

Serra Talhada, o mundo São joão natalino

Tal um batismo de fogo Um espelho cristalino


Bonnie e Clyde que num tentem Driblar forte sertanejo

Sem estereótipo, num vi Aproveito o ensejo

Pra ti lembrar, meu amor O som do meu realejo

“Tocar em Angicos, o local do fim de Lampião e Maria, uma paixão tão definitiva, dínamos da nossa história. A UPE servindo de base para nosso ser e estar nesse mundo, esse grande sertão cheio de veredas; e estar ao lado de poetas como vocês todos num clube linguístico-literato; a DJ arrasou, também. Foi tudo uma grande celebração da vida, ao nosso modo, pois no coração de tudo estava aquele massacre; uma trilha completa”, disse Moisés.

 


 


Na grota de Angicos, Sergipe, local no qual Lampião e Maria Bonita, mais alguns cangaceiros, foram metralhados

 

Moisés com dois orientandos: Felipe Damião (pesquisa em dramaturgia nos anos 70 e 80, no Brasil) e Antônio Lourenço (pesquisou sobre a questão do espaço, em O Hobbit, de Tolkien). Na foto atravessam num Catamarã de Alagoas para Sergipe, dirigindo-se a Angicos e compondo um cordel nesse meio tempo.


Na grota de Angicos, Sergipe, em 20 de abril de 2024

 

“Alguns nomes são recorrentes na obra de Jomard Muniz de Britto: os irmãos Campos e Pignatari, por exemplo, admiradores de Caetano e incentivadores da Tropicália, que retomaram a linha evolutiva do baiano e deram organicidade e fortaleceram seus julgamentos de criação, nisso está uma intersecção com Jomard que, dentre vários vieses ataca nacionalismos passadistas, nacionalidades do tipo macumba para turistas oswaldiana.”

“Quanto ao mencionado movimento liderado por Caetano e Gil, Luís Carlos Barreto deu nome à canção Tropicália, por causa de uma instalação do carioca Hélio Oiticica e logo a seguir Nelson Motta escreveu um texto no qual batizou o movimento que surgia. Foi aí que Caetano resignou-se ao nome Tropicália, por falta de opções, Tropicalismo lhe soava gasto por causa de Gilberto Freyre. A Tropicália enquanto miscelânia de informações que vão de Louis Malle, pelo filme Maria, com Brigitte Bardot, passando por Garota de Ipanema (em tupi: água ruim), identificações com Terra em Transe, com toda a esperteza e fúria da estética de Glauber; Jomard une-se ao grupo em 1968 e instala-se nos limites do Tropicalismo (diferir da tropicologia freyriana). Longe da esquerda festiva, tal vanguarda livra-se de possíveis angústias da influência em intensa radicalidade, como no espírito tropicalista. A poesia de Jomard é de cunho jamesjoyciano, fundo verbivocovisual com versos em palavras-montagens, em translíngua. De João Cabral, outra das referências na poética de Jomard, vem o olhar lúcido, o nível de argumentação, defesa crítica, determinação inabalável. Do noigandres do Concretismo às perguntas sobre a significação (em louca tenacidade) nos poemas-manifestos jomardianos contra os mantenedores do subdesenvolvimento na geleia geral (como na letra de Torquato Neto) brasileira que a mídia anuncia. Surge o texto como a quebra dos resguardos, como reflexo de ruidosas performances, escrita paródica-carnavalesca de aspecto inventivo-construtivista (de combatividade) buscando a imparcialidade, a expor as entranhas do Brasil em radicalidade antilírica, como num filme de Godard, ver a abertura de Pierrot Le fou, numa poética cheia de lugares incomuns, poesia enquanto palavra-impacto, composição (des)construtora de efeitos, linguagem organizada de maneira meticulosa em meio ao caos criativo vertiginoso numa época em que os ouvidos têm paredes, num mundo que se mostra mais intolerante do que nos libertários anos nos quais JMB iniciou sua produção poética.

Augusto de Campos já disse que a poesia é uma família de náufragos nadando no espaço e no tempo. Busco nesta minha explanação a trans-

 

historicidade contra a banalização do passado no texto de JMB, onde diluição e invenção, qualidade de percepção do mundo buscam, talvez, expressar o indizível, apontar que a captação do fenômeno qualitativo e sensível, longe do sentimentalismo, em protesto contra a vulgarização da vida na era da disparada da tecnologia e mudança rápida de valores morais. Seu deboche de cunho antropológico e pós-utópico cubo-futurista aborda também o erótico na política em expressividade não linear sendo por isso rejeitado tanto pela esquerda quanto pela direita, mas isto não o impede de continuar com seus atentados (panfletos que ele distribui atentando inclusive contra o panfletarismo, em pleno século XXI).


Moisés e JMB: muitos carnavais, aí aparecem num post (pátio de São Pedro, após uma sessão do “Nois sofre mais nois goza”)


No seu texto para o filme O Palhaço degolado temos algo próximo ao construtivismo indigesto e antropófago. Seus textos parecem fora de controle numa escrita mais intuitiva do que coerente, incitavam à demolição, contra o acanhamento e inclui os erros como contribuições. Algo nos textos jomardianos parece clandestino, andrógino, enfim: pluralidade de estilos, desmantelamento de cercas entre as classes sociais, os gêneros; mas Jomard Muniz de Britto não é um piadista nem um vanguardista datado. É poeta que usa o tratamento de choque em ritual canibalista na movência do Brasil, em selvagem psicanálise a riscar o nome do Pai, em audacioso gesto literário. Não em poesia límpida, mas em mistura de referências, estilo novo, inaugural, a rir das desesperanças, dos comandantes e dos alienados. Poesia que tenta desalienar corações e mentes em meio às tentativas vãs de unicidade e cinismo.

 

Suas discussões sobre o gozo imediato, sua recusa às migalhas lançadas pelo poder, sua atração pelos marginalizados, tudo isto, como uma performance exerceu sobre mim simultaneamente atração e repulsa. Venceu a primeira”.

16- Personalidades falam sobre o Teatro de Moisés Monteiro de Melo Neto


Moisés Monteiro de Melo Neto: encontro com Fátima Amaral e Lucélia Santos, em peça teatral

A professora Fátima Amaral faz sinopses e comenta as peças de Moisés Monteiro de Melo Neto (sobre o “ Teatro Ilusionista”). Estamos diante de textos teatrais em forma de livro: as condições do texto teatral exigem carpintaria exclusiva. Não é um sistema anárquico. Há leitores e principalmente espectadores que quer possuam atributos específicos sobre literatura e espetáculos teatrais ou não, compartilham códigos para sua assimilação/análise, em ambos os casos, são feitas leituras, de certa forma “exigentes”. Descodificar (e avaliar uma peça teatral) é fundamentalmente uma atitude lúdica, tanto para o leitor comum quanto para o leitor “instrumentado”. Para este último surgem os “códigos estilísticos” retóricos, temáticos, ideológicos, etc.

Quanto a este(s) posicionamento(s) “crítico(s)”, como influencia(m) a arte teatral? Uma peça pode ser incompreendida por muito tempo, e depois ser “recuperada”. É o caso de “O Rei da Vela” de Oswald de Andrade, por exemplo. Um texto teatral, como de qualquer outro gênero enfim, é passível de múltiplas leituras. Umas mais ricas, outras mais pobres. As condições de decifração de um texto “criam” um subproduto, um “segundo produto, melhor

dizendo, (a crítica) que terá o “ranço” de seu enunciador.

Uma crítica sociológica, ou psicanalista, estrutural, histórico-literária, ou qualquer que seja o naipe, pode mutilar ou potencializar uma obra, mas dificilmente servirá de panaceia para a criação de outrem.

O significado global que atribuo aos textos de Moisés Monteiro de

 

Melo Neto, presentes neste volume, é mais ou menos o seguinte: trata-se de uma escrita simplista. Só o “essencial” segura seus personagens cênicos. Há por trás destes personagens, uma carga ideológica com um certo tipo de “tensão” que tentarei definir.

O cenário é quase sempre Pernambuco, e mesmo em tramas como “Draculin e o Circo no Espaço” e “A Maior Bagunça de todos os Tempos” (teatro para criança), é a verve recifense quem dita as “regras” do jogo teatral. Há que se reconhecer a época e as personas retratadas, contextualizando-as e assim, buscar o que há de universal na sua proposta.

Nos textos de Moisés, cheios de “marcações” (indicações da movimentação teatral), há uma espécie de fixação esquemática do fluir da ação que, através da polifonia, esconde o rosto do autor.

Se cortarmos estes textos usando uma ferramenta teorética qualquer, de maneira ontológica, por exemplo, ou mesmo beirarmos o biografismo, ainda se procurarmos a gênese, veremos que nas falas e situações projetadas por Moisés, há um espelho mais ou menos fiel de uma época, de uma certa sociedade. Um espaço marcado pela inveja e pelo ressentimento. São duelos verbais, que fluem da necessidade de verbalizar emoções, num jogo retórico, numa sociologia literária, pululam desejos reprimidos, dogmas, medos, certezas e incertezas dos anos 80.

O que cabe e o que não cabe nestes textos? O que extrapola e do que carecem? O grupo Ilusionistas, fundado por Moisés e pela atriz Augusta Ferraz em 1983, para o qual estes textos foram escritos, tinha como objetivo principal criar seus próprios textos. Augusta, Moisés e Henrique Amaral produziam espetáculos diferentes dos encenados em Recife.

No trabalho do autor, as relações entre os personagens, o desenvolvimento das intrigas, a organização do tempo e do espaço às vezes cheira a vaudeville, às vezes a dramalhão de circo, drama psicológico e até à opereta, no caso de sua adaptação para o clássico “A Ilha do Tesouro” de Stevenson.

Uma dramaturgia urbana, entre o naturalismo e o artificialismo, que não se utiliza do folclore. Desfilam personagens como Delmiro Gouveia e sua ânsia de sucesso. Prazeres de “Prazeres da Revolução", mergulhada em um vazio existencial. Draculin, sonhador, iludido. Branca (de “A Maior Bagunça”) e Faustina que lutam contra o “mal”. Dá-se o mesmo com Isabelita (em “Um Tostão para Isabelita”), Evita (de “Evita-me à Cubana”), doutor Isaac (de

 

“Horror em Pasárgada”), Dinho (de “Com a Víbora no Seio”) e Valquíria (de “Folhetim”, encenada em 2004, no Teatro Apolo durante o Festival de Teatro Estudantil por alunos de um famoso colégio recifense) que se vêm prisioneiros do passado. A Cleópatra de Moisés é uma guerreira infantilizada por uma paixão alucinante e pelo egocentrismo e sua Medeia surge como uma contemporânea nossa e suas estratégias articulam-se com outros textos do autor. Gil, personagem de “o Bolo”, é dominadora e tem instintos assassinos, usa seu poder para esmagar o marido inseguro. Em “Shakespeare Acorrentado” (de 1989) vemos os expoentes da pureza levados ao crime e ao sexo ligado ao comércio. Em “Com a Víbora no Seio”, o que vemos é um jogo homoerótico envolvendo liberdade e prisão.

“Bandeira escreve a Mário de Andrade”

Um texto onde Moisés deu vida ao nosso mais terno poeta lírico- a dor da perda, o paraíso artificial e irônico do mestre tudo exaltado em prosa e verso.

Espaço e tempo injetam-se no comportamento dos personagens em forma de juízo (de caráter valorativo e ideológico) que vai se insinuando pelos textos através de símbolos e alusões. Se há pluralidade ou subjetividade no vinco desta escrita, ou se nela encontramos algum hipotexto (matriz referencial), hipertexto (referencial intertextualizado) ou paratexto (interpenetração de textos) não importa muito, pois faz parte de um jogo proposto pelo autor, num processo meio convulsivo, típico de sua geração que não se deteve diante dos cadáveres dos seus heróis. São textos co-presentes de uma história nacional caótica. Textos que buscam a oralidade acima de tudo (aspecto fono-linguístico), gestualidade específica.

Os vetores temáticos oscilam como já acentuamos entre vingança, busca do sucesso, resgate do passado e busca do absoluto. A linguagem é despojada, concisa, provocante. Expõem-se enredos com desfechos inevitáveis, neles a trama e discurso entrelaçam-se.

Um frenesi vai enriquecendo o fluir dos textos e é indesmentível que se pressente neles uma fome insaciável que parece devorar o autor. O que Moisés tem de original é o seu formato de literatura para a “caixa cênica”. Nesta espécie de claustro ele brinca com a ideia de libertação, de reflexão. Quer seja de forma caricata, ou através de personagens que parecem poeticamente envolvidos com seus sonhos, surge uma literatura que me sugere esgrima-duelos em forma verbal.

 

O pragmatismo em Moisés busca clarear emoções, tornando-as inteligíveis. Mesmo que isso beire a banalização de alguns tabus (como em “Faustina” e “Com a Víbora no Seio”- religião e sexo).

Cenas de “Faustina”


A tensão dos personagens equilibrando-se entre associações e dissociações, a busca da palavra-signo, a fantasia nas inter-relações de tipos que se digladiam entre o horror e a salvação, o sentimento e a natureza, vida e morte, oprimir ou ser oprimido, tudo isso é exposto com um grau necessário de honestidade cínica, que às vezes os mais sensíveis precisam para sobreviver aos ataques cotidianos da realidade. Notamos isso em Prazeres, e em outros personagens como o doutor Isaac (de “Horror em Pasárgada”), a dor de não saber dizer o que se quer por não dominar a linguagem do jogo social.

São personagens que parecem vindos de famílias que se desenvolveram com pouca intimidade ou calor emocional. Eles refletem isso, esquivando-se da ternura e buscando se transformar em “alguém”. As escolhas que fazem em seu desespero verborrágico, a implausibilidade dos seus ideais, a necessidade de mostrarem suas diferenças, chafurdarem nas próprias fraquezas, buscando no álcool e no sexo, um infrutífero consolo para a proximidade do abismo emocional que os rodeia (como em “Para um amor no Recife”), leva-nos a pensar mais sobre esta contracultura amalgamada por estes excluídos. Há neles todos, um foco de subversão, um questionamento da tradição, uma procura pelo que é genuíno - uma ânsia de dar um basta à letargia e passividade, tão comum no final do século vinte. Eles trazem uma espécie de alívio cômico no meio de uma grande tragédia, como os coveiros brincalhões da peça “Hamlet”. Com sua peça mais recente, “Sonho de Primavera” Moisés surpreendeu por mostrar seu lado didático em peças infanto-juvenis- ao adaptar o conto da escritora Rosália Calsavara ele permeou o texto com observações sobre ecologia. Neste espetáculo que estreou e manteve uma temporada de

 

retumbante sucesso com mais ou menos 800 espectadores por apresentação e que percorreu várias cidades, Moisés teve seus poemas musicados pelo seu amigo de infância Paulo Smith, o que resultou numa agradável união de estilos. Este espetáculo marcou também a volta de Moisés na direção, que neste caso ele dividiu a tarefa com o tarimbado produtor e performer Ulisses Dornelas, o Palhaço Chocolate.

Recife, agosto de 2004.

Fátima Amaral

MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO, O PRODUTOR CULTURAL por

Albemar Araújo (diretor do Departamento de Artes Cênicas da Fundação de Cultura Cidade do Recife)



Albemar Araújo e Moisés Monteiro de Melo Neto

 


 

Albemar Araújo (autor) e Moisés Monteiro de Melo Neto (como Pilatos, ao centro), na foto aparecem Buarque de Aquino e a atriz Inaílza (Madalena). Paixão dos Guararapes, 2018



Nestes tempos ásperos, quando um simples tocar de dedos resulta em trabalho de várias horas, quando a “pena” cede lugar a outras formas de linguagem, quando os vídeos substituem os livros, pego-me (sem nenhuma tendência à apostasia) sentado, frente à parede (nela encontram-se expostos retratos do Quênia e África do Sul, quando lá estive em 1995, sem cabotinismo) a escrever manualmente, quando lá do outro lado da sala, aguarda-me um computador. Escreve sobre uma facção de um período (dando um corte sistemático conceitual/temporal/espacial), sobre uma determinada pessoa nesse período – MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO -, que culturalmente passou e viveu intensamente, por uma década (os anos 80), numa forte influência das mudanças sociais, das mudanças políticas, das mudanças econômicas, das mudanças culturais, na qual vivia o país; produzindo intensamente cultura. Uma cultura engajada nas vanguardas do seu tempo. Uma cultura ora chamada de PÓS-MODERNA, ora chamada de MARGINAL, ora chamada de VANGUARDISTA...

É sempre fascinante versar, quer seja na poesia ou na prosa, sobre alguém. Especialmente se este alguém vive e transita entre nós. Longe dos cânones. Sem cetro. Sem coroa. Sem séquito de vassalos a impedir nossa passagem à sala do trono. E talvez seja mais fascinante por essa pessoa nos proporcionar uma (re) leitura, mesmo que seja em rápidas passadas, de uma época tão recente, cronologicamente falando, e tão esquecida, agora falando culturalmente. Remete-nos este estudo, sem pretensões literárias, científicas ou históricas – quando Ciência -, a análise de um momento dentro da conturbação pela qual atravessava toda a nação, de um momento que poderíamos chamá-lo, mesmo assim, de farto e rico na diversidade cultural apresentada. Diversas

 

tendências se manifestavam de uma forma ou de outra. E a cultura, como um todo, crescia com isso ao romper com uma série de signos e códigos. Toda uma série de acontecimentos rolava, qual caudaloso rio precipitando-se de uma vertiginosa montanha, em cachoeira.

Ao longo dos anos 70, um certo tipo de produção poética ficou conhecida como poesia marginal. Esta produção surge exatamente na virada dos anos 60/70 e, certamente, traz as marcas deste período. No seu artigo publicado na revista Folhetim, Carlos Alberto Messeder Pereira faz um balanço da poesia marginal, bem especulativo. Nesse contexto, Moisés Monteiro de Melo Neto aparecia timidamente entre outros jovens intelectuais do Recife. Entre outros, estava com ele, nessa produção lítero-marginal, Manoel Constantino e Rejane Leandro – uma de suas maiores amigas e dona de duas famosas boates na zona sul da cidade. A Boate Status, por exemplo, era soberana na década de 70.

No espaço entre os seus dentes/ restos de comida/ vários lobos foram espalhados/quero te contar como foi-/eles foram soltos com a boca cheia de fome/ todos os lobos, eles comeram meus olhos/Eu os vi chegar/dancei e cantei junto do fogo/ vi febre nos olhos deles/nos olhos calmos que tinham./E sabia deles, pois os pressenti sem direção/todos os lobos, eles comeram os meus olhos/atravessaram apressados os campos que/rodeavam minha casa/comeram meus frutos verdes/minhas flores na varanda/sonhos da juventude.../ todos os lobos, eles comeram meus olhos.

O poema acima (“Todos os Lobos”) circulou pelo Recife, de bar em bar, sendo vendido juntamente com as produções de outros escritores. Este mesmo poema, de Moisés Monteiro de Melo Neto, seria publicado, em 28.03.80, no Jornal do Commercio, Caderno C, p. 2).

Nestas produções, marginais, tudo era permitido. E a literatura, assim distribuída, aparecia nos mais inóspitos lugares. Como se diria no bom português matuto da zona da Mata de Pernambuco: da fábrica ao consumidor. E assim, estava a cultura, sempre entre todas as camadas sociais, pois havia uma gama infindável de posicionamentos nos escritos e que com isso chegavam a agradar, se não a gregos e troianos, a um certo número de pessoas. Desde o mais simples poema de amor ao mais enraivecido poema revolucionário. Havia,

 

como se pode dizer, temas para todos os gostos. No entanto, esse tipo de produção caracterizava-se pela marginalidade também nos temas escolhidos.

Para os jovens recifenses, literatos de então, era fácil encontrar nos diversos assuntos contemporâneos, os temas para seus escritos. Aí, reunindo tudo isso. Mexendo e (re) mexendo mais, esse agitado caldeirão, em efervescência constante, ingressava-se nos anos 80. Novas e fortes mudanças permeavam a década. Havia um grande desequilíbrio entre o político e o econômico, o que iria implicar em mudanças na cultura também. Criação de órgãos públicos de apoio à Cultura (anos 70), a queda do AI5, abertura política, o retorno dos exilados, eleições diretas, etc.

E a nossa Cultura Regional, geograficamente falando, vinha de fortes correntes anteriores- Movimento Tropicalista (Salvador/60) e Movimento Armorial (Recife/70). Moisés Monteiro de Melo Neto fazia parte de um grupo teatral (Ilusionistas), formado por jovens que comungavam do mesmo pensamento. Além dos componentes fixos do grupo (Henrique Amaral, Mísia Coutinho, Paulo Barros, Augusta Ferraz, Simone Figueiredo, Rivaldo Casado, Buarque de Aquino, Beto Vieira, Adeilson Amorim – este desenvolvendo um trabalho fotográfico com o grupo, entre outros), diversos artistas tiveram uma passagem marcante pela trupe (Vladmir Combre de Senna, Fátima Barreto, Ivonete Melo – esta com suas experiências “Vivencialescas”).

Não havia “gurus” no grupo. Todos tinham os mesmos direitos e deveres. Baseavam-se no que liam. E liam muito. Antes de tudo tiveram por base a literatura universal. Pesquisaram todas as formas teatrais do mundo. Estudaram diversas obras e eram seus conhecedores soberanos. Quais jovens se entregavam à cultura e suas formas e suas origens, num engendrado de estudos e críticas? Pouquíssimos! Esse jovem, Moisés Monteiro de Melo Neto, alvo da presente análise, buscava juntamente como os demais componentes do grupo, desdobrar a essência das obras (dos gregos, de Goethe, Cervantes, Shakespeare, O´Neil, Shaw, Ionesco, Becket, Nélson Rodrigues, Plínio Marcos, Artaud, entre outros) e nela se aprofundar. Buscavam não somente a análise crítica, do ponto de vista cultural, mas também o posicionamento sócio-político da obra, em sua cronologia real.

Eram elitistas, culturalmente falando. Para um “papo” com os

 

integrantes do grupo, por exemplo, tinha-se que no mínimo entender do Expressionismo Alemão. Procuravam viajar para se inteirar das novidades nos campos artísticos. Principalmente no eixo Rio-São Paulo. No entanto, muitas vezes iam ao exterior em busca dessas informações (eram, alguns, bem abastados de família). E nessas andanças viravam o Brasil de ponta a ponta, de festival em festival, na procura das novas tendências. Não se prendiam apenas às artes cênicas, mas a todo o universo artístico (artes plásticas, arquitetura, música, etc).

No fim da década de 70, mais precisamente em maio de 78, surgia em São Paulo o grupo Viajou Sem Passaporte, cuja proposta era bem irreverente. Ao ler matéria publicada pelo grupo, em entrevista/depoimento à revista Arte em Revista, evidencia-se a turbulência artística da época. O Brasil era um imenso turbilhão, onde todas tendências se manifestavam e o universo de variedades era bastante vasto.

O grupo Viajou Sem Passaporte, tinha algo em comum com as propostas dos Ilusionistas. Ambos tinham raízes no mesmo chão. Ou seja, as influências evidentes naqueles grupos, podem também servir em Moisés Monteiro de Melo Neto.

Nesse processo, a gente foi descobrindo, em relação ao teatro, que praticamente quase tudo é dispensável, com exceção do próprio corpo. Fomos nos despojando de tudo. Sentimos que texto de dramaturgo bom era uma aprendizagem constante, pesquisamos muito sobre iluminação e trilha sonora. Teatro não tem a menor necessidade de ter que transmitir ideias... Moisés Monteiro viajou bastante pelo Brasil, pela América do Sul, visitou o Grupo El Galpon (convivendo por quatro dias em Montevidéu com os integrantes do grupo). Um grupo com tendências pós-modernas e que viria a lhe mostrar muita versatilidade na montagem de três textos de Tchekov.

Muito me impressionou o trabalho deste grupo. Suas técnicas. Por exemplo - afogamento de uma pessoa em cena e as soluções encontradas foram muito marcantes. Sempre fui fascinado por soluções cênicas, vê-las me encantou. Exemplo - um cadáver boiando numa piscina na montagem do musical Sunset Boulevard. Ou então as soluções de Gerald Thomas na sua montagem da Ópera O Navio Fantasma, de Wagner, que também vi, e jamais

 

esquecerei no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, os incessantes minutos de vaia, que mais pareciam horas, e que o Thomas recebeu nos agradecimentos, entusiasmado e rindo, pela polêmica lançada. Antes pela mídia e tendo seu ápice naquele momento. Isso me remeteu de volta ao grupo (A Ilusionistas), era um jogo parecido que tínhamos aqui, conta Moisés.

Aqui no Recife, o encenador Carlos Bartolomeu, com a montagem da peça “A Mais Forte”, de August Strindberg, deu várias referências ao grupo, que se identificava com os códigos daquela encenação. A rápida solução encontrada pelo diretor, o atraía. Com o mínimo de elementos, encontravam-se as soluções rapidamente. Esse era o tipo de encenação encaixado nos moldes dos seus ditames. Com a encenação de o Arquiteto e o Imperador da Assíria, Arrabal, também pelo diretor Carlos Bartolomeu, viu Moisés Monteiro de Melo Neto, quão difícil era agradar ao público notívago.

Vaias e pedras de gelo, poderiam facilmente substituir risadas e aplausos, como foi essa produção escorraçada da Boate Misty, numa total falta de respeito aos artistas envolvidos, dentre os quais a grande Magdale Alves. Disse-me isso, Moisés Monteiro de Melo Neto, em um comovente depoimento, na sua residência no Janga.


Moisés na praia do Janga, litoral norte do Grande Recife, onde possui um apartamento

 

Havia uma certa conotação de melancolia, saudosismo (talvez), no seu falar - a gente está chegando ao caos... O mesmo já se notava no Tropicalismo de Jomard Muniz de Britto. Não se trata aqui de um saudosismo infectado na miséria da vida. Mas uma saudade do que não existe. Uma saudade que põe a alma em dúvida e com isso a excita à criação, rompendo com todos os tratados pré-estabelecidos e lança o homem, qual pássaro num mundo desconhecido e povoado de abutres impregnados da outra saudade (saudade doença), maldade.

Na sua densidade, a vida individual e coletiva é pensada a partir da ideia de um amanhã que deverá existir e que justificará retrospectivamente, o que tiver sido feito para se chegar até esse momento (...) A pós-modernidade marca-se por uma atenção maior com o presente e um desejo de viver intensamente o momento agora e aqui. Representava então, aquela trupe, algo de novo, de inusitado, para a sociedade local. E lançar no mercado com algo novo, fora dos padrões, era um pouco arriscado. Os anos 80 viam nascer uma forma alternativa de representação teatral. Surgir a busca por novos espaços. A saída dos palcos convencionais, sua intenção era tirar o teatro dos palcos, para bares, boates. E o que seria isso então? Em que forma (ou fôrma?) estariam colocados? Eles, da Ilusionistas, não gostariam se quer que isso fosse assim tratado.

Em teatro será o abandono do lugar fixo de representação (reapresentação, repetidas) e sua substituição pelo lugar incerto da apresentação de uma cena, instaurada e não repetidora. Com a entrada de Vladimir Combre Senna, no grupo, viu-se a necessidade de trazer textos sobre improvisar (Escola Alemã), como o saber viver e zombar de quem é idiota. Era necessário dizer coisas que enlouquecessem as pessoas. Diz Moisés Monteiro de Melo Neto. Em tudo isso, havia um presenteísmo muito forte. Um desejo de viver intensamente o momento. E isto é uma marca dentro da pós-modernidade.

Nas suas viagens pelos festivais (nacionais/internacionais), buscavam debater o fazer teatral. Contratavam professores locais e de outros estados para ministrar cursos para os integrantes do grupo, aberto ao público em geral. Uma vez que fazia parte de suas filosofias, “literaturizar” o público, a população como um todo (Utopia?). E com isso, tinham sempre novas informações sobre tudo que ocorria no mundo cultural.

A Ilusionistas produziu em teatro “A Noite dos Assassinos” (do cubano

 

José Triana – Teatro Joaquim Cardoso/84), “Punhal (de Henrique Amaral no T.J.C/85) “Cleópatra”, para um Festival de Humor em 1986, no Apolo e outra peça neste festival da Prefeitura do Recife “O Desobumbrar da Ambunda” encenação de Vládmir Combre. “Draculin e o Circo no Espaço” (de Moisés Monteiro de Melo Neto no Teatro Apolo Espetáculo Infantil/85), “Um Certo Delmiro Gouveia” (de Moisés no Teatro de Santa Isabel/85 um musical), em 1987 Henrique Amaral encena “Percepção” no Teatro do SESC, “Hamlet” de Moisés e Ricardo Monteiro (Teatro Valdemar de Oliveira com Moisés no papel Título em 1988). “Urânia” (de Augusta Ferraz no mesmo T.V.O.), “O Horror em Pasárgada” (de Moisés baseado no livro de Mary Shelley, “Frankenstein” – Teatro José Carlos Borges/89), “A Maior Bagunça de Todos os Tempos” de Moisés Monteiro de Melo Neto direção de Buarque de Aquino, este último também ilusionista, encenou esta produção, do grupo do: “La Cumparsita” uma adaptação do romance de Manuel Puig “Sangue de Amor Correspondido”, numa montagem que tinha no elenco Ivonete Melo, Simone Figueiredo, Black Escobar e Geovane Magalhães. Era o ano de 1991 e havia um horizonte, onde novos ideais acenavam risonhos e convidativos. Depois a Ilusionistas produziu: “Para um amor no Recife” (1999/ 2000), “A Ilha do Tesouro” (2002) e “Bruno e o Circo” (2010), encerrando suas atividades.

Seu humor cáustico, marcado por profunda ironia, talvez não seja apreciado pelos críticos recifenses. A Liberdade com que satirizou “Faustus” a obra do imortal Goethe, rebatizando-a de “Faustina” e exibindo-a na Boate Misty, rendeu-lhe mais ressalvas do que elogios por partes dos que analisam os espetáculos teatrais (...) Denominando-se um intelectual, Moisés Monteiro de Melo Neto diz que é muito criticado e mal compreendido na sua intenção de tirar o teatro do palco e introduzi-lo, também, em bares e boates.

Assim versava na época, Valdi Coutinho, um jornalista do Diário de Pernambuco, sobre a obra de Moisés Monteiro de Melo Neto. Entre outros textos, Moisés Monteiro de Melo Neto produziu e presenteou “os seus públicos”, com peças de gêneros diversos nos bares do Recife. Entre outros-Depois do Escuro – nome sugestivo, para a marginália - onde muitos se reuniam, o mundo letrado dos anos 80. Era um ponto de encontro também dos Ilusionistas. Onde debatiam, entre um chope e outro, com os intelectuais a

 

cultura em voga. E onde nasciam, das discussões, as inspirações para novos textos. Cujo público certo ao comparecer a um espetáculo já aguardava o próximo. Daí a velocidade, pós-modernista, da criação dos textos.

“O que teria acontecido com Bette Davis?” e “Shakespeare acorrentado” falam de traição, “Evita-me à cubana” – fala da decadência de Cuba, na década de 80 – numa análise do autor. “Prazeres da revolução” – uma crítica ao governo militar no Brasil, em sua fase terminal (a queda do AI5, por exemplo). “O bolo” – uma estória intrigante, contando o casamento entre intelectuais e o novo pensamento pós-governo militar. “Com a víbora no seio” – a impossibilidade de amor entre dois homens, marcada pela diferença de idades e o preconceito.

Ao buscar o erotismo e o deboche em peças alternativas que exibia, principalmente na Boate Misty, clube icônico da noite recifenses dos anos 1980, Moisés sofreu muito preconceito, mas também apoio de dois jornalistas especializados em teatro no Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco: Enéas Alvares e Valdi Coutinho, que constantemente publicavam notícias sobre Moisés e outro membro da Ilusionistas: Henrique Amaral. Foram várias peças no estilo que seria classificado como queer, depois.


QUEER


Há em Moisés certas esperanças selvagens, sobre o futuro, sua carreira. É bom começar pensando assim; minha luta é anticapitalista? Ele sempre perdeu para o amor? Pra ele o segundo lugar é uma maneira de ele se recusar a concordar com as a lógica dos dominantes no fluxo caótico da vida acadêmico-literária? Contra o senso comum a partir das classes social? Ele sempre criticou certas normas, por exemplo: o senso comum heteronormativo. De certo modo, ele sempre recusou o modelo normativo de autodesenvolvimento, sendo contra o apodrecer na domesticidade. nem forças armadas nem gangues de rua e olhar investigativo para o casamento.

A escrita mosaica sempre recusou a binalidades como as impostas, tipo colonialismo versus nacionalismo. É heterodomesticidade, a autoridade masculina. Ele discute o papel do quarto lugar para o atleta na prova de uma

 

competição. O que não ganha medalha, não tem registro na história. Ele aborda a infâmia a parir da visão de quem tenta ser livre, mas nunca fez isso para fazer sucesso, trata do desejo entre pessoas do mesmo sexo ou não. Não se liga no fracasso, como impossibilidade e perda. Ri disso, do capitalismo. Transforma. É contra a heteronormatividade. Questiona quando a quando a heteronormatividade descreve o homossexual como inautêntico e irreal, desde que entrou, ativamente, na sociedade em 1980. Questionou o modelo heteromasculino que havia, inclusive, dentro dele.

Não é um pathos que apontamos na sua persona, um gênero estranho nem que ele quisesse ficar sem grana, claro, mas ele não pensava sobre isso. E quando ele se tornou funcionário público, em 93, às vezes ele se sentia tinha pesadelos, como estivesse nu, em público. Não encarava aquele trabalho como a realização da sua vida e passou períodos de desânimo, ficou, assim, prostrado muitas vezes.

Aos 13 anos, ele lê sobre a prostituição e a religião afro-brasileira em Jorge Amado, o poder dos Santos e a prostituição heteronormativa que trata certa estabilidade dos marginais, via certas inversões patéticas sobre a masculinidade, para alguns, inalcançável for de certos parâmetros. Ele conheceu logo Recife estranho. Sua visão é sempre libertária, desde seu primeiro momento enquanto intelectual, que é. Olhava com certo distanciamento o deus fez com a mulher de Ló, sobrinho do patriarca Abraão. Via aquilo como um frágil monumento divino à destruição vinda dos céus. Não, ele não era muito proustiano, como gente que tem inveja doentia, curiosidade quanto aos que ousam se rebelar e se aprofundam em prazeres estranhos como os de Sodoma, proibidos pela religião. Como a personagem quando o Albertine que trai até o narrador, num dos livros de Em Busca do tempo perdido, de Proust, com uma pessoa do mesmo sexo. A busca de Moisés nos seus estudos sobre Albertine é apenas uma parte dos seus interesses por amores, e de circunstâncias sentimentais, que precedem mesmo a própria ideia de amor, e mais, de um amor sempre potencializado pelos espaços que o narrador percorre. algo muito maior, que se subscreve na própria ideia de arte (e da escrita de um romance memorialístico), e na ideia de uma maior compreensão do mundo através dela. Para Moisés, o sucesso dessas aventuras significa ir além do mero

 

detalhe, do comezinho, do cotidiano, para atingir uma essência que percebe somente possível através da arte, e ele retrata esse movimento ao longo do romance como um constante ciclo que busca corrigir quaisquer desvios que possam ter prejudicado sua visão “maior”, por exemplo, num romance seu, publicado pela editora Paradoxo, em 2023, Palimpsesto, um romance pernambucano. Moisés nunca quis fazer remodelagem com a matriz heterossexual, e neste seu romance não encontramos casos homossexuais/ homoafetivos. Isso não significa que ele queira tratar aí da questão de gênero. Ele sempre foi meio marginal. Mas não consegue fugir de uma espécie de arquivista dos submundos sexuais: poderia ser uma espécie de fotógrafo, mais do que o modelo?

Na obra mosaica encontramos, quase facilmente, coisas mais estranhas, ao mesmo tempo, paradoxalmente, peculiares ainda. Quase alucinado o modo como cria artísticas aberrações, por assim dizer, no seu teatro estranho para as boates no Recife. Ele escreveu e dirigiu muitas peças que foram encenadas em grandes teatros, com grandes produções, mas aquele início meio marginal, ali, nas boates, como dramaturgo, vai ecoar, em gargalhadas e lirismo extremado, ali, nos primeiros tempos como dramaturgo. Ali, onde encontrou travestis, prostitutas (os), artistas da noite, de onde ele tirava aquela linguagem toda, aquele savoir faire, habilidade de obter êxito, graças a um comportamento maleável, enérgico e inteligente; tino, tato, nos seus textos de cunho queer.

Ele conheceu a Boate Misty em 1980, quando ela ainda era na rua do Riachuelo, num prédio, onde ele cursara o ensino médio, em frente à Faculdade de Direito do Recife. Ele tinha 18 anos. Ficou chocado, bebia, principalmente conhaque. Começou a beber destilados quando se mudou para o bairro da Boa Vista, no Recife, em grandes quantidades, diante daquela alteridade, que ele achava bizarra. Olhou para o mundo transgênero: o homem nu sendo mulher, muito pai e mães de família, ali, como ele presenciara no Vivencial Diversiones. Moisés era estudante de Sociologia na UFPE. Começou a sentir a sentir a instabilidade representativa do corpo, a escuridão com luzes estroboscópicas surgidas no Dancing Days da capital pernambucana com seus s mundos secretos e públicos.

 

É, na sua cidade, Recife, ou em qualquer outra no mundo, globe-trotter que é, um flâneur a observar o vazio e a mundanidade, simultaneamente: o estado de ruína do mundo e seu eterno refazer-se na perversão do prazer, na decadência da mercadoria, como em bares vazios. A vida à beira do vazio, a falta que denuncia tudo que foi perdido, mas que permanece para ser visto em sua finitude.

O que teria acontecido a Bette Davis?, peça que também foi dirigida por Lano de Lins, estrou na Misty, sob direção de Moisés, seu autor.


Camarim da Boate Misty, principal Club noturno do Recife nos anos 1980. Na foto: camarim da casa em noite de lotação esgotada. Logo Moisés seria apontado como transgressor e sofreria perseguição por certos artistas que se diziam críticos.

 


 


Com a víbora no seio foi outra peça a causar polêmica na Misty, escrita e dirigida por Moisés, com mote de Henrique Amaral, tendo no elenco Heithor Dhália, que depois se tornaria diretor hollywoodiano, e Rivaldo Casado. Trata da relação abusiva entre dois homens.

No Recife, nos anos 70, assistimos ao surgimento do “Vivencial Diversiones”, nome de uma casa de shows e variedades fundada por Guilherme Coelho e Beto Diniz. O grupo utilizava-se do escracho e do deboche para romper valores e falar sobre sexo, valores éticos e estéticos e política. Segundo Paulo Vieira “O Vivencial Diversiones tangenciava qualquer discurso que fosse engajado, construindo, com a sua prática e a seu modo, um diálogo com a urbanidade, ponto de convergência para onde flui, afinal, aquilo que é chamado de contemporaneidade.”


Prof. Dr. Rodrigo Dourado (UFPE) fala sobre a produção dramatúrgica de Moisés Monteiro de Melo Neto a partir do Queer


Curioso escrever olhando para a produção dramatúrgica de Moisés Monteiro de Melo Neto a partir desse guarda-chuva do Queer/Kuir/Cuir. Porque eu sou de uma geração que nasceu no final dos anos 1970, foi criança nos anos 1980, adolescente nos anos 1990, e eu fui uma criança bicha, uma criança viada que cresceu sob o estigma da Aids. E esse estigma ficou internalizado na minha na geração, uma geração que cresceu com medo, se sentindo culpada, se sentindo ameaçada, assustada em relação às coisas do sexo, em relação às coisas do corpo, em relação às coisas do prazer. A produção de Moisés, pelo menos esse recorte ao qual a gente tem acesso neste livro, começa exatamente nos anos

 

1980, exatamente no momento da crise da Aids, momento em que o Queer vai dar um giro no pensamento e no movimento LGBT hegemônico.

Enquanto o movimento “gay”, como ficou conhecido, era um movimento assimilacionista, um movimento higienista, que invisibilizava muitas pautas como a pauta trans, como a pauta periférica, como a pauta negra, latina, como a pauta dos fora do padrão; era um movimento que queria entrar na norma, normalizar ou normatizar; nos anos 1980, com a chegada da Aids, vai haver um giro que é exatamente o giro dos anormais, no melhor dos sentidos. O giro que assume o estranho como um lugar político, como uma identidade, que assume a diferença, a anormalidade, a monstruosidade, a dissidência como formas de estar no mundo, formas de existir, de fazer política. Nalguma medida, a produção de Moisés captura um pouco esse espírito da época, obviamente atravessada por várias correntes, movimentos, influências.

Aqui você vai ver que há, por exemplo, uma lida muito grande com o deboche, com a sátira. A linguagem é muito debochada, é muito farsesca, nas obras enfeixadas neste volume. A farsa como uma ode à teatralidade, e também o rebaixamento cômico de tudo. Nada é levado a sério, tudo é rebaixado: a morte é rebaixada, o crime é rebaixado, a maldade é rebaixada, o amor é rebaixado pela força cômica. Então, é uma obra muito farsesca nesse sentido.

Acho que tem tons de melodrama também nisso tudo, mas o melodrama consciente de si, não o melodrama que acredita no excesso sentimental, que acredita nas emoções intensificadas, mas um melodrama que já é paródico, zombeteiro A paródia, portanto, é uma boa chave para ler a obra de Moisés, há sempre um excesso de sentimentalidade e essa sentimentalidade aparece conscientemente como um recurso, como expediente cômico-teatral.

Há também aí um diálogo com o Besteirol dos anos 1980/1990, influenciado, por exemplo, pelo Teatro do Ridículo nos Estados Unidos, cujo líder era o Charles Ludlam, e cujo grande sucesso dramatúrgico e cênico, encenado no Brasil posteriormente, será “O Mistério de Irma Vap”. Ou seja, há um diálogo com Mauro Rasi, Vicente Pereira, Miguel Falabella e outros dessa geração toda, que vai fazer uma farsa desbragada, influenciada pela cultura pop, pela televisão, pela bichice.

A pinta, a efeminação, transformadas numa estética. A dimensão

 

estética dessa forma de ser, dessa sensibilidade bicha. Susan Sontag vai chamar de Camp esse prazer, esse amor, essa acolhida que a comunidade Kuir faz de tudo que é tosco, estranho, deslocado, de tudo que parece brega, esquisito, fora da norma. Como a comunidade Kuir vai abraçar esses objetos e vai reinterpretá-los, vai ressignificá-los e reinvestir esses objetos de valor. Então acho que tem nas peças de Moisés um diálogo muito forte nesse sentido e ainda um diálogo com o Vaudeville, essa teatralidade rápida, ágil, essa ação intensa, tudo veloz, tudo que prende a atenção do espectador.

Camadas de nonsense, de absurdo, do melodrama televisivo, das telenovelas brasileiras, dessa sensibilidade latina também, muito lacrimosa. Tem uma palavra que eu gosto muito, a ideia de gaiatice, ou gayatice. Esse conceito vai aparecer numa certa literatura dos Estudos Kuir para falar dos pathos ou emoções que a comunidade LGBT maneja. Há os pathos negativos ligados à violência, ao luto, à morte, sobretudo após a tragédia da Aids, ligados à melancolia, o luto que não cessa, perene. Mas também, a dimensão extremo oposta, do riso, do deboche, do rebaixamento cômico já citado aqui. Esse espírito gayato é muito vivo nesse ramo da obra de Moisés Neto, que escreveu dezenas de peças em vários gêneros.

Vejo aqui certamente uma relação com a obra do ator e dramaturgo Henrique Celibi. Fico sabendo pelo próprio Moisés que Celibi chegou a participar da montagem da “Cleópatra”, um de seus textos. Relação, na verdade, com toda a geração anterior, dos anos 1970, que fez um teatro cabaré, um teatro revisteiro, da noite, para a noite, das casas noturnas. Sabemos que parte da produção de Moisés foi experimentada e nasceu dentro desse circuito dos clubes noturnos. Tem ali um diálogo com o Vivencial Diversione, com a produção do cenógrafo Beto Diniz e seu café-teatro, o Ópera Buffo (1984).

No caso de “O que terá acontecido a Bette Davis?”, por exemplo, vejo um diálogo com “As Criadas”, de Jean Genet e, por óbvio, com “Baby Jane”. No caso da “Cleópatra”, a recriação das figuras históricas em chave farseca e burlesca, algo que o grupo Trupe do Barulho fará, mais à frente, com a paródia bicha aos contos de fadas No caso da “Um Tostão para Isabelita”, cria-se uma metateatralidade, algo que está presente na obra dele, quase como um todo. Um teatro que está sempre remetendo a si mesmo, à teatralidade da vida. E, nesse

 

texto, você tem o ambiente do bastidor, o ambiente do camarim, me sinto quase como se estivesse na crônica de João Silvério Trevisan, “Frangos falando para o mundo”, visitando o camarim do Vivencial.

Vivencial que será reverenciado aqui, numa obra que faz uma espécie de reperformance da história vivencialesca, colando textos, roteiros, manifestos, reprocessando esses materiais para gerar uma visada, um olhadela sobre a história do grupo. Moisés também se utiliza desse procedimento em algumas obras, a colagem, a antropofagização, a devoração dos materiais: tudo vai se misturando sem muita hierarquia para gerar uma nova obra

“Víbora” parece em certo ponto fora da curva mas nem tanto… Porque você tem ali duas figuras, num jogo mais psicológico de assédio e derrisão, com uma diferença, na verdade, de tom: um tom sério, melancólico, angustiante, aflitivo, gerando quase piedade por esses personagens, lembrando um pouco Plínio Marcos, talvez as aventuras do diretor argentino Tulio Carella. Aproveito pra dizer que essa dramaturgia Kuir de Moisés tem foco no íntimo, nas relações interpessoais, um pouco da ideia sartreana do “inferno são os outros”, então é sempre uma visada meio íntima.

Para mim, isso deriva da questão central, que é a questão do pós-ditadura: o que fazer com essa liberdade de agora, o que fazer depois desses anos todos de repressão, para onde a gente vai caminhar? É uma geração que vai fazer um mergulho nesse mundo íntimo porque a ordem pública já não é mais a mesma, os antagonistas, os fantasmas, o inimigo já não estão lá fora; o foco da discussão deriva para o íntimo.

Por fim, a peça “A Rainha da Pernambucália”, sua grande homenagem a Ivonete Melo, atriz e diva vivencialesca, na qual ele faz quase como uma espécie de testemunho da vida de Ivonete, figura que nós perdemos recentemente. Olhando pelo retrovisor, olhando em retrospecto, a gente consegue fazer uma leitura do Vivencial como uma espécie de ideia, mais que um grupo, uma ideia, algo que sintetiza a contracultura, a revolução sexual, o questionamento à caretice. Logo, quando Moisés retoma o Vivencial por meio da figura de Ivonete, já ali uma mulher de setenta e poucos anos, ele vai fazer um pouco também uma revisão de si e dessa história recente da cena Kuir pernambucana. Feito que se alarga com a publicação deste livro.

 

Traçando-se um paralelo entre o que foi exposto e a obra do dramaturgo, concluímos que Moisés é um autor sintonizado com a sua época, “antenado”. Através dos seus textos, Moisés critica a “política cultural” estabelecida de maneira irônica e inteligente, muitas vezes utilizando-se de clássicos da dramaturgia universal.

Faustina – Adaptação do Fausto de Goethe é uma comédia escrita e produzida em 1986 que tenta desarticular um pensamento ditatorial católico, ateu e protestante, onde o Mefisto é o demônio, o Fausto, o Saci Pererê virado às avessas e o anjo; a vítima do amor divino. “Se Deus existe, logo o Diabo existe” – satiriza o autor. O espetáculo acontecia à partir da meia noite na boate Misty. O público identificava-se com a galhofa, com a sátira, talvez por necessidade de rir das próprias desgraças – uma catarse coletiva.

Seguindo a mesma tendência o autor escreve em 86, a peça “Cleópatra”; espetáculo dividido em três partes – A primeira, uma sátira e a segunda e a terceira, tragédias – só a primeira parte foi montada para o I Festival de Humor – promoção da PCR – que recebeu indicações para melhor atriz, melhor autor e melhor espetáculo. (Espetáculo, aliás, mais aplaudido pelo público). Com Cleópatra e Um Certo Delmiro Gouveia, também de 86 Moisés ganha respectivamente o 1º e o 2º lugar em dramaturgia no concurso “Exponha-se” – promoção do Governo do Estado de Pernambuco.

Criticado e pouco compreendido na sua intenção de tirar o teatro do palco e introduzi-lo também nos bares e boates. Os espetáculos de Moisés ocuparam espaços como - Água de Beber, Três Por Quatro, Boate Araras, Boate Misty, entre outros. Acaba determinando uma tendência nos anos 80 (influência do Vivencial?) – permitindo-se através dos seus textos penetrar no absurdo – “A crítica sagaz, mutante, definitiva, transforma sempre qualquer recente criação” – filosofa o autor.


A primeira peça escrita por Moisés foi “Verdades e mentiras” – relata os últimos dias de Tancredo Neves (presidente “eleito” do Brasil. “Eleito”, mas não empossado, por motivo de morte. Assume Sarney) sob a perspectiva de um casal de artistas desiludidos e fracassados.

Ora seus textos, ora de Henrique Amaral, falavam de um “aqui e agora”,

 

tão cantado no pós-modernismo. (...) tudo para no instante em que nada perece – tudo é criança, não há morte, nem envelhecimento e nem dor. Apenas paixão.

As temáticas dos textos eram as mais diversas possíveis. Sempre temas que atravessavam o cotidiano, a década, os anos 80. O público, ou “os públicos”, era(m) motivado(s). E era formado pela identificação direta entre plateia e palco. Já que não existia separação. Quantas vezes o palco não foi a própria plateia?

Em seu apartamento no Janga/Paulista, Moisés Monteiro de Melo Neto findou-me seu depoimento dizendo: “Nos fins da década de 80, a fórmula estava exausta. Aí veio o primeiro golpe precisamente em 88, quando a Ilusionistas perde suas características e junta-se a outros produtores culturais (profissionais do ramo) que eram alheios à ideologia do grupo. Como era bom ser jovem e fazer teatro. Tínhamos, também, por vezes, inspirações locais como os já citados e “O Extrato de Formosura (Eduardo Maia). Mas a lembrança forte da abertura dos anos 80 com “O Guarani com Coca-Cola”, uma criação coletiva, “Muito Pelo Contrário” (João Falcão). A morte de Marcos Siqueira – e o seu teatro político. O próprio Vivencial de Guilherme Coelho, de Suzana Costa, de Ivonete Melo e de Américo Barreto.”

Durante cinco anos Moisés Monteiro de Melo Neto abandonou as produções teatrais. Passou uma temporada na Europa e nos Estados Unidos. “La cumparsita” (1991), marcou um hiato no trabalho da Ilusionistas. Aproveitou para concluir o curso de Letras e a pós-graduação em Literatura Brasileira. Ele finaliza dizendo - Os primeiros anos da Ilusionistas foram muito experimentais. Uma época que passou e pronto. Aquilo tudo era muito ingênuo. Tínhamos liberdade de dizer o que queríamos. E dissemos!

No ano de 1982, Moisés havia escrito o livro “A incrível noite dos sentimentais”, que A Ilusionistas produziu a editoração em abril de 1983. Uma ficção urbana, desenvolvida dentro de um apartamento que para o autor simboliza a cidade (Recife), seus habitantes e conflitos. A fórmula, como disse o próprio Moisés Monteiro de Melo Neto, estava esgotada mesmo, ou não tinha bastante profundidade, fundamentação, para sustentar-se? Não houve semente daquelas árvores ou os frutos não vingaram? Foi uma geração que produziu José Manuel, João Falcão, Henrique Amaral, Adriano Marcena, Luís Felipe Botelho

 

e outros que hoje seguem caminhos tão diversos.

Moisés hoje é professor de literatura, lecionou nas redes privada e dirigiu um Núcleo de Estudo de Línguas na rede estadual. Escreve regularmente para jornais e revistas. Em sua trajetória como pesquisador tem entrevistado grandes nomes da literatura como os saudosos Ferreira Gullar, Bernardo Carvalho, Thiago de Mello e Ledo Ivo, com quem mantinha correspondência.


Moisés e Ferreira Gullar


Moisés e Bernardo Carvalho


Moisés e Thiago de Mello


Moisés com Ledo Ivo

 

Outros do seu grupo de teatro, a Ilusionistas, estão no Japão (Fátima Barreto), na França (Mozart Guerra), na Alemanha (Vladmir Combre de Senna), Henrique Amaral é jornalista, Paulo Barros em São Paulo (cinema), Augusta Ferraz fundou outro grupo teatral, Buarque de Aquino é professor, Rivaldo Casado trabalha com a Unesco, Simone Figueiredo dirige órgãos público, Mísia Coutinho é produtora cultural. Mas a Ilusionistas está mais viva do que nunca e cheia de projetos. Para 1999 está marcado o retorno da Ilusionistas com uma grande produção chamada “Para um Amor no Recife” que já teve o projeto aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura.

Eu vivo num tempo sem sol.

Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez, Uma testa sem rugas é sinal de indiferença.

Aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia


Recife, agosto de 1997.


Simone Figueiredo fala sobre as peças teatrais de Moisés Monteiro de Melo Neto


Escrever sobre a produção literária de Moisés Monteiro de Melo Neto é um prazer acompanhado de uma responsabilidade muito grande, por ter acompanhado e participado muito diretamente do desenvolvimento e da pesquisa proposta pelo autor por todos anos.

Conheci Moisés nos anos 80, especificamente em 85. O autor lançava-se então como dramaturgo com o texto “Verdades e Mentiras” – que como ele bem define: “arma-se o conflito comédia”, o escritor rompe a obediência com a fatalidade que nada tem de Deus e tudo dos homens. Imitar - intriga engenhosa, temática superficial e aparentemente inocente em torno do amor e dinheiro, teatro - realidade além do real, em nenhum momento atinge dimensão mais profunda não perde nunca a agilidade, um painel de minha época escrito com simplicidade, mas justa eficácia no senso crítico, visão social, brincadeiras leves e bem construídas, algo romântico, sátira política, um pouco dos anos 60/70, a condição humana diante do mito, do artista internacional. Produzimos com a

 

Ilusionistas até 2010, com sucesso”

Lembrando a definição de antropofagia – linguagem literária ou estética de cunho nacionalista. Essa linguagem assume a forma inicial de uma poética, com a publicação do manifesto antropófago em 1928. A poética antropofágica de Oswald de Andrade reivindica o estabelecimento de um código literário específico que incorpore as categorias de uma consciência arcaica tipicamente brasileira, surgida numa hipotética idade de ouro. Essas categorias, que inspirariam a nova linguagem literária, incluem formas do surreal e do irracional. Os escritores antropófagos romperiam, assim, com o discurso linear. A nova linguagem “devoraria” os modelos literários estrangeiros, em vez de imitá-los.

Além disso, a linguagem antropofágica atacaria os sufocantes códigos sociais, morais e literários, por meio da paródia e do sarcasmo, “O Rei da Vela”, peça de Oswald de Andrade publicada em 1937, estende a metáfora antropofágica à linguagem teatral e fortalece o seu componente político. A metáfora antropofágica é revivida em 1967 com a montagem do rei da vela. O diretor José Celso Martinez percebe que a linguagem da antropofagia é uma resposta apropriada às circunstâncias culturais, políticas e econômicas dos anos

60. A montagem de “O Rei da Vela” constitui uma versão atualizada da deglutição antropofágica dos mais recentes modelos teatrais estrangeiros que então predominava no teatro brasileiro. O Rei lança as bases de um modo brasileiro de fazer teatro com a incorporação de formas culturais populares e folclóricas e a metáfora, em sua transmutação última, passa a chamar-se Tropicália.


José Celso Martinez emprestou o Teatro Oficina para Moisés lançar o seu livro Notícias Americanas, em 2002

 

Uma das suas adaptações mais ousadas foi a de Hamlet, de William Shakespeare – que Moisés Monteiro de Melo Neto transformou em parceria com o músico Ricardo Monteiro, em um musical Pop. Mantendo a trama básica e feita uma adaptação dos diálogos criados pelo dramaturgo inglês, o nosso Hamlet, Pop e Tupiniquim, procurou se distanciar o menos possível do seu original. A estória se desenrolava nos bastidores de uma companhia teatral durante o ensaio geral do Hamlet. A partir daí, o público passou a se integrar com toda a riqueza do texto e mensagem shakesperianos, enriquecidos pelas canções que permeavam o desenvolvimento da encenação, servindo não de pano de fundo, mas como elemento fundamental para a sua compreensão. Apesar de suas poucas apresentações – o espetáculo instigou os jovens na época (1988).

Outro texto de Moisés baseado na obra do dramaturgo inglês foi “Shakespeare Acorrentado” (1990) – trata-se de uma fusão de “Macbeth” e “Bem Está o que Bem Acaba”, respectivamente uma tragédia e uma comédia. O autor dá colorido às páginas shakespearianas de forma surreal e caricata. Ao invés da luta pelo reino da Escócia, luta-se pelo domínio do tráfico de drogas e dos famosos clubes para ricaços no Recife. Moisés Monteiro de Melo Neto define seu texto como sendo “resgate de certas ideias incutidas pelo Mestre inglês que desde seu surgimento vem atraindo autores de todo o mundo como o canto das sereias”.

Porém nem só de adaptações e releituras é composta a obra e produção de Moisés. Verificamos os espetáculos “Draculin” e “A maior bagunça de todos os tempos”, ambos direcionados para o público infantojuvenil. O primeiro propunha um passeio pelo espaço unindo elementos da cultura popular (o protagonista sonhava montar um circo no espaço) com a tecnologia vigente na época. O segundo, propõe uma discussão sobre o poder e suas relações, apesar de se tratar de um assunto sério o tratamento que recebeu tornou o espetáculo divertido e engraçado.

Recentemente (1999/2000) foi montado o espetáculo “Para um amor no Recife” que narra uma história sobre amores, conflitos, sexualidade, ambiguidade e solidão de um jovem casal recifense, dos anos 90. Segundo o diretor do espetáculo Carlos Bartolomeu, “o texto é um daqueles documentos

 

que revelarão ao futuro a narrativa de uma sociedade e suas feridas. Duro e apaixonado - assim posso descrevê-lo”.

Ainda nos anos 80, Moisés faz um passeio pela dança contemporânea escrevendo roteiros para espetáculos experimentais, a convite da bailarina Beth Marinho (Profissional Paulista de formação clássica que participou por muitos anos do Balé Stagium da cidade de São Paulo); e do bailarino Black Escobar. O resultado foi a construção dos espetáculos “Comunhão” e “Orgasmo” (1987), este com trilha sonora composta por Ricardo Monteiro que participaram do Festival de Dança organizado pela PCR com apresentações no Teatro de Santa Isabel. AAssociação de Técnicas do Balé Clássico com a dança contemporânea foi o caminho utilizado na criação/construção dos espetáculos.

Ousada para a época, seguia uma tendência da dança que buscava uma linguagem universal, utilizando-se da cultura brasileira. Foi construída uma trilha sonora específica para as coreografias pelo músico Ricardo Monteiro que na época trabalhava em parceria com Moisés na adaptação do clássico Hamlet, de William Shakespeare. Em 1989 roteiriza o espetáculo Bandido Corazon mantendo a parceria com Beth Marinho.

Escreve os romances “A Incrível Noite” e “Michelle - corações pernambucanos”. O primeiro foi publicado no ano de 1983 e o segundo recebeu elogios do escritor Raimundo Carrero e será lançado em 2004. Seus poemas já foram publicados em várias coletâneas. Em setembro lançará o livro “Notícias Americanas”, um poema épico experimental sobre a tragédia afegã que teve início com os atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, neste poema ele desenvolve sua verve crítica sem se preocupar com rigores acadêmicos, segundo ele é sua última fala underground. Será? E em 2000 lança uma análise sobre o pós-modernismo e releitura da cultura popular nas letras das músicas do fenômeno Chico Science e de outros poetas da cena recifense dos anos 90. O livro vendeu 1000 exemplares em três meses e teve parte da renda revertida para instituições de caridade.

Concluímos então, que Moisés é um autor inquieto, frenético, ávido pela criação. Não me proponho a fazer uma análise crítica de sua obra, mas a dar um depoimento sobre a necessidade de respirar, de alimentar-se de forma autofágica da arte, com ousadia sem medo de descer aos subterrâneos da

 

condição humana (o autor vai ao inferno se preciso for) para construir uma obra forte, feroz, ácida, crítica purgando-se assim e propondo uma reflexão sobre (o homem) com muito humor, ironia e acima de tudo talento de quem domina a arte de escrever e sabe registrar a sociedade que o cerca.

Simone Figueiredo


Moisés Monteiro de Melo Neto e seu teatro dissonante Por Carlos Bartolomeu

Professor do Departamento de Artes Cênicas da UFPE

Recordo-me da primeira intervenção de Moisés Monteiro de Melo Neto na cena pernambucana. A comunidade Carmelita comemorava quatrocentos anos de sua chegada ao Brasil. O ponto alto das comemorações foi a produção do texto de Cláudio Aguiar sobre o maior herói pernambucano e membro da ordem, o nosso Frei Caneca. Era final dos anos setenta, início da distensão... Retornava eu, à cidade do Recife, após minha rápida incursão ao mundo televisivo do Rio, onde passara pela experiência de ter convivido com os instantes iniciais do fim da rede Tupi de televisão. Encontrava-me desempregado e quis Deus dar-me a felicidade de participar da experiência de montagem cênica sobre a vida do frade pernambucano. Ao contrário de meus outros trabalhos como diretor, minha volta proporcionou-me pela primeira vez na vida, trabalhar como ator profissional. Foi lá, na épica e irônica realização de José Francisco Filho que conheci Moisés... um adolescente ainda, figurando no meio de numeroso elenco.

Certa feita, na cena do julgamento de Frei Caneca onde eu participava como acusador do mártir republicano e ele no papel de uma das testemunhas, ocorreu ao ator iniciante, a ideia de mudar o registro de voz da sua personagem, acirrando a um só tempo a tensão nos outros atores e a comicidade latente na paródia de tribunal que realizávamos. O efeito foi revelador da impostura histórica de nossas personagens. Risos nossos e do público.

Cito este ocorrido, com o fito de traduzi-lo como uma espécie de parábola sobre a época e de uma respeitosa, mas hilariante epígrafe sobre a aparição do nosso autor! Em um de seus exercícios teatrais, O Bolo, escrito em 1986, uma frase é dita por uma das personagens - "Um monte de clichês, estamos impregnados disso", a frase revela a continuidade daquela interveniente ação de outrora e mimetiza a cena de antes como recurso

 

estilístico e dramático que implícita ou explicitamente desemboca em sua literatura. Naquela época em que fomos companheiros de palco sua intuição teatral teria feito par com a mordacidade. Aquela sua personagem de voz estrídula, seu expediente algo clichê, utilizando-se da cena teatral com intenção de ferir o ritmo pausado e grandiloquente de uma encenação ou de nosso solene modo de atuar, estruturou-se de maneira atrevida e plena de humor ao longo do tempo. Como um escopo a um só tempo autodepreciativo e construtor tornou-se recorrente em sua obra.

De exercícios como A Faustina, Prazeres da Revolução, O Bolo ao precioso registro Com a Víbora no Seio, em parceria com Henrique Amaral, passando pela revista de câmara, Cleópatra, a comédia; átimos notívagos tais como Evita-me à Cubana e Um Tostão para Isabelita ou textos mais audaciosos como Um Certo Delmiro Gouveia, Para um Amor no Recife ou a pop experiências no teatro infantil, Moisés Monteiro de Melo Neto incorporou esse grito, essa postura à cena e suas intenções.

Escrevo para ser compreendido e revelar, só assim posso ter a crença de que faz sentido este ato... Mas, pode ser um duplo e ilusório ponto de vista. Lembro a todos que não sou um crítico teatral, vejo-me mais inventivo que eles - outra ilusão, talvez.

O vigente modelo de perseguição a gênios estabelecidos, de se ir a cata do original popularizado, da necessidade da última moda de clássicos(!) no nascedouro ou de bem intencionados regionalistas... iluminados, frustra as possibilidades de se deixar nascer verdadeiros criadores. Antes de mais nada, o nascimento e o desabrochar de escritores teatrais, deveria ser o primeiro passo. Ocasionalmente, aconteceria a colheita.

Nós, diretores, atores e críticos e mesmo o grande público, talvez pudéssemos nos livrar da ilusão (fatal) de apenas sermos no outro, de existirmos no estrangeiro. A verdade é que não nos visitamos com a assiduidade necessária para o conhecimento de nós mesmos. Não nos deixamos envolver pelo próximo, pelo nosso criativo irmão, primo, amigo... vizinho. O sujeito iniciante que nos oferta conversa e poesia. Definitivamente é aí, que nossa paciência se esvai. Corremos em retirada diante daqueles que batendo a nossa porta, nos reconhece como capazes de sinalizarmos... Daqueles que nos oferecem a chance de conhecermos os recortes de suas interioridades.

Porque para maioria de nós é penosa essa aceitação? Para maioria de nós, sujeitos normais eles podem ser tudo menos artistas; podem até se tornar artistas. Mas, terem em si, a verdadeira chama da criação, o desejo inesgotável

 

do fazimento... isso nós duvidamos. No caso das criativas mentes provincianas a proximidade não é um espaço de reconhecimento e avaliação, antes é o lugar do desconforto diante da individualidade que se lança corajoso.

Penso alto e na defesa daqueles que hoje se lançam e lutam por espaço. Penso e escrevo projetando muito daquilo que houve em mim, nos de agora. Penso em mim e na poesia que necessita e deve ser aceita - a de Moisés Monteiro de Melo Neto.

Digo essas coisas todas, aceito-as como realidades de um tempo, no intuito de colocar para outros que a escritura de Moisés Monteiro de Melo Neto é daquelas que deveria ser visitada. Primeiro para descobri-la, segundo para criticá-la, descartá-la ou nos deixarmos seduzir ante as suas possibilidades de espetáculo e encenação. A obsidente memória e idiossincrasia deste criador nos permitem isso. Podemos sair de sua narrativa torcendo o nariz. Todavia, nela há a possibilidade de reavermos nossa imagística. Compreendemos mais o universo da criação local, suas misérias e sonhos de constelações.

A dramaturgia de Moisés Monteiro de Melo Neto explora e apresenta o mundo íntimo de seu autor e de sua convivência com o mundo de nosso irrealismo teatral. Sua escritura vive disso e incorpora os efeitos e as ações desses mundos deplorando em ambos o lado insustentável e evanescente. A ação tateante de suas personagens retoma trejeitos e ridicularias do entorno risível e da precariedade de nossas construções e pretensões. Espelho quebrado, enquadra o ilusório de nossa materialidade, delimitando o espaço tragicômico do conviver, do re/criar, gritando dissonante por afeto, compreensão e palco.

Derby, 3 de abril de 2002. Carlos Bartolomeu é professor de teatro na UFPE

Lucila Nogueira, escritora, pesquisadora, que foi professora do PPG Letras UFPE, fala sobre o livro que Moisés lançou sobre Chico Science: Moisés Monteiro de Melo Neto estuda a obra de Chico Science e mergulha na Cena Recifense/Pernambucana na virada do terceiro milênio destacando a relação entre o popular e o erudito, o negro e o índio, a metrópole e o mangue.

 


 

Do caranguejo globalizado ao Maracatu atômico, o Projeto Mangue buscou a universalização das nossas raízes, fenômeno da década de noventa a mostrar que ainda é viável defender-se um ideal em Pernambuco, levantar a autoestima desse povo através do artista morto em 1997 aos trinta e um anos em completa resistência à pasmaceira e despersonalização em um Nordeste que desde a Geografia da Fome de Josué de Castro exibe os seus moradores de palafitas a comer sururu, da “lama ao caos”, alternativa contra o marasmo cuja evolução e principais características aqui surgem expressas por Moisés, de modo dinâmico e de agradável leitura, obra primeira a merecer atenção do público especializado.


 


 

Este livro busca suscitar o interesse no aprofundamento de novas abordagens da poesia recifense que ofereçam subsídios para estudos culturais e usa como eixo referencial uma sociedade onde os poetas foram atingidos diretamente pelo processo de globalização. Procura resgatar o que houve de literário no Movimento Mangue ou na Cena Recifense dos anos 90, movimento de vanguarda que aconteceu no Recife, e a estruturação deste legado cultural como tendência. Nosso texto usará a performance e a poesia do líder do Manguebeat, Chico Science, como fio condutor, elemento catalisador, para esmiuçar uma poética diluída em letras de música, shows, filmes, manifestos e entrevistas. Problematizando a diversidade cultural no Nordeste brasileiro já ressaltada por Gilberto Freyre, pelos escritores regionalistas da década de 30, por Ariano Suassuna e o Movimento Armorial e pelo Tropicalismo no fim dos anos 60, escreveremos sobre a geração Manguebeat (A Cena Recifense dos anos 90), que se formou mesclando o global às tradições locais. Nosso estudo cultural usará as teorias desenvolvidas por Stuart Hall, Homi Bhabha, dentre outros, na tentativa de oferecer possibilidades de interpretação das letras e dos manifestos de Science e de grupos como Mundo Livre S/A e Faces do Subúrbio, para trabalhar as questões de identidade e diferença e, principalmente, a representação da cidade do Recife na obra desses músicos poetas.


Lucila Nogueira

PPG Letras UFPE


NOTÍCIAS AMERICANAS: O épico brasileiro no século XXI, de Moisés Monteiro de Melo Neto. O POEMA ÉPICO SEM HERÓIS (Recife: edições Edificantes, 2002).

 

Professores falam sobre o livro de Moisés


Ao compor “Notícias Americanas”, o escritor recifense Moisés Monteiro de Melo Neto tocou no nosso nervo exposto. Remexeu em nossas entranhas. Afinal, anos de imperialismo americano estão em nossas veias circulando cada vez mais forte desde o final da segunda guerra mundial. Mitos como os de Hollywood, fast food, MTV e tantos outros do capitalismo embaralham-se em nossa mente num turbilhão onde democracia e terrorismo ardem.

O que Moisés fez foi: a partir da tragédia americana do dia 11 de setembro de 2001, acompanhar o noticiário e transformar a mídia sobre a guerra américo-afegã em poesia. Não uma poesia fácil. São versos meio terríveis, onde horror e ironia jogam baldes de sangue um no outro. Ao ler o longo texto, pensei: Uma reação à guerra e à insanidade que foi usar os ataques de 11 de setembro para lançar uma tentativa de grilagem imperialista no Oriente Médio!


Moisés: viagens ao Oriente Médio


Depois fiz uma segunda leitura e descobri tantas coisas nas entrelinhas. O mestre Moisés esconde alguns truques que passam desapercebidos à primeira vista. De modo interessante ele trabalha rima e estrofação, um modo fronteiriço entre o popular e o erudito. É um épico da era digital, cheio de informações, aos borbotões como o hiperlink fosse pouco, a tela múltipla, a ocupação do espaço da página de maneira lúdica e astuciosa. Não sei o que dirão os escafandristas ou

 

astronautas quando acharem este livro por lá (pensem no futuro o que neles viverem lá, aqui tenhamos apenas a sustentabilidade, ética, amor e criatividade). Não são boas as notícias deste poema; o fundamentalismo também cresce no Brasil, de modo avassalador. O respeito às diferenças é o que nos salvará. A compaixão. Em nome das vítimas, em oração por prováveis algozes. Pela democracia e paz mundial. Não vai no livro uma tentativa explícita de culpar este ou aquele. Assim entendo este livro.

Às vezes o autor parece-me leviano e insensato, às vezes extremamente lúcido e informativo, mas de qualquer forma ele ama a humanidade e isso, para quem o conhece, fica bem claro. Moisés vive “antenado” e lê muito. Não é uma leitura fácil. Nem a dele, nem a desse poema. O poema é composto por quadras rimadas, e o que sentimos é que certas rimas foram meio “forçadas”.

Ao elaborar seu “épico”, ele deu-nos uma visão diferente dos oito meses que se seguiram aos atentados fatídicos. Sua abordagem enxerga através das reportagens e ensaios: ações e reações, não só dos países envolvidos diretamente, mas do mundo perplexo diante de uma nova realidade histórica que poderia surgir. Os ângulos escolhidos para observar os acontecimentos são meio inconvenientes, e não foi à toa que muitos intelectuais do Recife se recusaram a escrever sobre este poema. Pura bobagem. Precisamos de autores que sondem nossos abismos. A literatura pernambucana não podia ficar à margem do caudaloso rio de fogo apocalíptico que brotou naquele onze de setembro ensolarado e catastrófico. A televisão mostrou tudo ao vivo, mas nosso autor não foi teleguiado. Usou de sua licença poética e não fugiu da licença histórica.

Ivete Ferreira Professora de História


Elio Ferreira

Poeta negro, capoeirista, rapper, prof. de literatura na Universidade Estadual do Piauí, fala sobre NOTÍCIA AMERICANAS, poema épico de Moisés Monteiro de Melo Neto

O poema de Moisés Monteiro de Melo Neto, que aborda o período que vai de setembro de 2001 a setembro de 2002, põe em abismo a crítica acadêmica

 

ou canônica recifense, que se negou emitir qualquer juízo, por escrito, acerca da obra. Com exceção da doutora em Teoria da Literatura e poeta Lucila Nogueira e da professora (pós-graduação em história) Ivete Ferreira.

Certamente os críticos se calaram para não pôr em risco sua reputação de arautos conhecedores da verdade absoluta de fazer poesia, como se isso ainda fizesse sentido diante de um mundo tão conturbado e de fronteiras literárias movediças deste início de século, principalmente depois do incidente de 11/09/2001, quando dois aviões conduzidos por guerrilheiros de uma organização terrorista foram lançados contra as torres do World Trade Center em New York e sobre o Pentágono. Tal incidente é o eixo demarcador da narrativa moisesnetiana.

É claro que Notícias Americanas tem seus percalços como todo poema longo, principalmente quando se privilegia a narrativa ou a fábula em detrimento do fazer poético tradicional. O mais importante é que Moisés tem consciência de sua função de rapsodo dos novos tempos, de que a poesia precisa servir à linguagem, à musa desse tempo, criando formas próprias ou dando evasão à estrutura do poema reportagem que se aproxima da narrativa jornalística. Reconhecemos a tradição secular da epopeia, mas o poeta de hoje não tem que se submeter rigidamente aos modelos da estrutura, às formas ou padrões de beleza da épica helênica. Mais ou menos 1.500 anos antes das narrativas homéricas, foi escrita a “Epopeia de Gilgamesh” e, provavelmente, bem mais antigos do que esta rapsódia, são os autos sagrados dos orixás, a mitopoética da África Negra. Assim, cada povo cria a sua linguagem conta a história do seu tempo ao seu modo, suas necessidades sociais ou históricas.

Notícias Americanas é um poema de fôlego com seus 2.476 versos longos e rimados, versos de quem têm pulmões de guerreiro, de tri-atleta da poesia. Nessa época de reportagem, em tom de noticiário, dirigida ao mundo atual sedento de informações, de furo de reportagem e notícias bombásticas, Moisés narra na primeira pessoa, no lugar de cameraman, como se fosse um voyeur do mundo virtual e informatizado. O discurso é permeado de ironia contra a máquina de guerra norte-americana.

Em Notícias Americanas, o poeta-repórter registra também, além dos conflitos bélicos do mundo árabe, outros em que os Estados Unidos estiveram

 

envolvidos, atraindo para si as consequências do vaticínio de 11 de setembro. A perspectiva do narrador tende para a visão dos povos molestados pelos EUA, é sob essa ótica que o poeta vê o mundo e conta os episódios.

Se há algum herói nessa épica do século XXI, trata-se de um herói coletivo sem rosto definido, representado pelos povos das nações periféricas q u e e m a l g u m a s c i r c u n s t â n c i a s , h o s t i l i z a d a s p e l o s S t a t es . Moisés faz uma listagem das atrocidades do regime imperialista do governo norte-americano, dos crimes que se iniciam com a bomba de Hiroshima e Nagazaki até fatos mais recentes das guerras em que os EUA estiveram envolvidos culminando com o infortúnio do 11 de setembro. O poema dele também preserva alguns elementos da épica tradicional como a proposição: “Vou contar os acontecimentos de uma guerra” é o conflito Américo-afegão desde 11/09/01; a invocação: “Invoca forças cósmicas e terrestres para ajudar minha escrita”; e outros elementos da rapsódia Antiga. Essa rapsódia imprime a forma pessoal de narrar do poeta. Assim, creio, o que valoriza, sobretudo, uma obra de arte hoje não é o puritanismo formal, mas o abrir caminhos para novas maneiras do contar e cantar poéticos que atualiza a tradição com seu viés híbrido, respeitando-se a autonomia e a cosmologia do versejar, as diferenças ético-culturais do discurso literário, as particularidades do autor, sem se cogitar do confinamento da poesia nas estruturas fixas ou hegemônicas euro-ocidentais.


Lucila Nogueira também fala sobre NOTÍCIAS AMERICANAS


Moisés Monteiro de Melo Neto escreveu um poema sobre os acontecimentos trágicos que envolveram o fatídico 11 de setembro do ano passado e a posterior devastação do Afeganistão promovida por forças internacionais.

O poeta foi buscar na história e nas notícias recentes do mundo, assunto para o seu poema de 120 páginas chamado “Notícias Americanas” (Editora Edificantes. Recife, 2002). A poesia narrativa segue vários caminhos. O cordel, por exemplo, nunca esqueceu as lições do épico, suas “receitas”.

O que Moisés fez é atual e ímpar. Não é poesia épica sem heróis, como

 

ele provocativamente insistiu em chamar. É sim, uma narrativa não solene, feita em versos. Obra pós-moderna que não aceita ilusões de heroísmos.

Passar para a poesia acontecimentos como estes que se iniciaram em 11 de setembro de 2001, é uma tarefa que com raras exceções os escritores hoje cumprem. Ele podia ter lapidado mais a pedra preciosa que tinha nas mãos. Mas o livro é válido como testemunho de uma geração perplexa diante de tamanhas hecatombes e injustiças praticadas sob o manto de interesses escusos que espalham pela mídia seus misteriosos tentáculos.


Lucila Nogueira é Doutora em Teoria da Literatura, Professora do PPGLL Letras da UFPE, membro da Academia Pernambucana de Letras.




2010 foi o ano do lançamento de Anticânone, literatura em Pernambuco a partir do século XX, e em dezembro do mesmo ano mais um texto de Moisés foi levado à cena, o musical “O Circo do Futuro”, com direção de Carlos Bartolomeu, um sucesso que já dura um ano num grande teatro do Recife.

 


 

O professor Moisés Monteiro de Melo Neto é autor, em 2011, lançou o livro “Pequena História da Literatura Brasileira”. Neste mesmo ano, 2011, temos um depoimento interessante de um show que Moisés assistiu:



“Lembro do dia que assisti ao show de Amy no Recife, 13 de janeiro de 2011. Uau! Eram mais de 12 mil pessoas (a quarta apresentação de La Winehouse, no Brasil. Primeiro não acreditei quando soube que ela viria, depois, mesmo estando ali na primeira fila, ainda estava incrédulo, com todos os boatos sobre a fragilidade dela, que queria morrer e estava tomando todas. Amy e aquela banda incrível. Thalita Gadelha Taveira ganhou o prêmio pela melhor caracterização de Amy e estava lá também explodindo de emoção com tudo aquilo que estava rolando à nossa frente. A nossa cantora inglesa tão querida tentando fazer um quatro com as pernas (para provar que apesar de ter

 

tomado uns drinks ainda estava bem) levou um tombo, mas tudo bem. O show, na verdade, começou e durou cerca de uma hora e meia; foi o mais longo em Pindorama; Recife ficou babando. Quando os músicos fizeram a introdução da música Shimmy Shimmy Ko Ko Bop para ela entrar e ela apareceu com aquele vestido amarelo (nossa! E que vestido! Bem decotado, colado no corpo sensual, meio detonado pela estrada felliniana da vida louca daquela diva...) eu fiquei sem fôlego. Ela parecia, sei lá, não estar ali. Foi uma encruzilhada muito doida, e eu fiquei meio zonzo, com o astral dela. Elétrica, como o jazz, blues, vida rock´n´roll, nem sei mais...

Na hora de Black to Black... me deu uma vontade de chorar. Sou assim, sentimental e amo meus ídolos com uma força imensa que deus me dá. E lá vem aquela garota, na casa dos 27, a me matar com suas melodias fascinantes, parecia ler minha alma com aquelas palavras. Como não lembrar de Janis Joplin? Just Friends me levou às lágrimas, embora eu tentasse manter certo distanciamento crítico. Ela dava sinais de bebedeira...

O público urrava, batia palmas, o Centro de Convenções recebia aquela pequena enorme dama da música e eu perdia os sentidos e os reencontrava mil vezes, ali, com ela a uns dois metros de distância, prevendo que em julho ela morreria. Sua quase inevitável caneca, com seu coquetel favorito (da pesada!) ela pegava e tomava um gole entre uma música e outra (little girl blue...), às vezes até gargarejava se deliciando com aquele líquido tão... ambrosia em suas propriedades. Ah! Como eu queria abraçá-la! Lá estava o backing vocal Zanon, que cantou as quinta e sexta músicas em cerca de sete minutos no domínio do show. Amy saíra e volta cheia de gás. Sim, e aí começou a interagir ainda mais com a gente, aqui, em Recife. Meninos, eu vi e ouvi. Foi incrível. Até hoje me arrepio com a força daquela mulher! E foi nessa reentrada que ela danou Rehab e nós cantamos com toda força, o hino da decadência elegante e atroz dela. Daí ela começou uns lances meio estranhos do tipo dar pausas maiores e falar mais com os músicos, se escorar em seu querido Zanon, a interromper as músicas, como se estivesse confusa ou com má vontade. A gente entendia e não queria uma máquina. Ela era feita de carne e estava dando um show de talento. Então começou também a não cantar as músicas até o fim. Ulalá! E abraçava Zanon, beijando-o carinhosamente, como irmão, que ele era... naquele palco, no recife, ali pertinho de onde morreu Chico Science, Centro de Convenções, entre Recife e Olinda. Ai, meu Deus. Será que ela iria conseguir ir até o fim do show? Fiquei na torcida; ela parecia estar brincando com a vida. Agradecia aos fãs, ao público e se voltava para os outros músicos da banda dando hiatos à apresentação.

 

Por volta da décima música, Sam and Amy, a cantora mais uma vez saiu do palco e ficou confusa quanto ao local exato da saída na coxia; foi meio patético, meio trágico, meio... nem sei... lances de amor e morte, entendem? Eu estava me despedindo dela, eu sabia, ela era como uma grande amiga, daquelas que a gente vê pouco. Zanon assumiu a cena geral e mandou brasa e a gente ficou pensando se ela ia voltar ou não. Ele ficou fazendo hora e aproveitou para apresentar o grupo. Depois de quase dez minutos, ela voltou ligadíssima e beijou Zanon, como brother, dá um giro e... (parecia uma menina bailarina!) cai, mas levanta-se bem rápido e volta a dançar (deu para ver hematomas, de outras quedas e acidentes assim, nas suas pernas). Foi até o fim e eu saí extasiado com ela. Viva Amy Winehouse! Que descanse em paz e viva para sempre, possibilidade que a arte oferece aos seus sacerdotes!”


Moisés Monteiro de Melo Neto e Antunes Filho


Neste evento Moisés proferiu a palestra “A poética de Nelson Rodrigues em A Falecida na montagem 2009 de Antunes Filho” à convite do curador paulista Sebastião Milaré). O mesmo Antunes Filho convidou-o em setembro de 2012 para fazer a apresentação da sua encenação de Toda Nudez Será Castigada, pelo CPT/ Sesc SP. Também em 2012, ele lançou seu livro “POEMAS DE MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO PUBLICADOS EM

JORNAL”, no salão nobre do Teatro de Santa Isabel, com participação da atriz Sônia Bierbard interpretando alguns dos poemas da edição, em 9 de dezembro de 2012.

 


Os Abismos da Poeticidade em Jomard Muniz de Britto



Projeto visual: Cláudio Lira


O livro propõe uma análise da poética de Jomard Muniz de Britto, mostrando a multiplicidade e as várias facetas existentes em sua obra. Para tanto, Moisés dividiu obra do autor, distribuídas em 7 livros e incontáveis atentados poéticos, versos que Jomard imprimiave distribuia pelas ruas e pelo e-mail: os anos de 1970-80, a década de 90 e o século 21.

Para Moisés, arte de Jomard tem o objetivo de mudar a cabeça das pessoas, mas não destrói a bagagem já existente. É algo feito a partir da afetividade, pois encontramos muito da pedagogia de Paulo Freire na obra de Jomard Muniz de Britto. Além disso, nos encontramos influência da Tropicália e um aspecto experimental e inquieto em sua obra.


Lista de livros e cordéis pulicados


1 CORDEL VIVO: a tradição como alimento para a modernidade-Livro publicado 2024

2 INDÍGENAS COMENTAM LITERATURA BRASILEIRA -Livro

publicado 2024

3 Indígenas versejam mulheres na literatura brasileira - Livro publicado 2024

 

4 O HOMEM QUE VIROU CORDEL E OUTROS CORDÉIS EM

PERNAMBUCO - Livro publicado 2024

5 Rapsódia São Lourenço - Livro publicado 2024

6 Antologia dos cordéis de Moisés Monteiro de Melo Neto -Organização de obra publicada 2023

7 CALEIDOSCÓPIO: a trajetória de \José Francisco Filho. transgressão no Palco e na Vida - Livro publicado 2023

8 Cordel do artigo de opinião  - Livro publicado 2023

9 CORDEL DO ESTRANGEIRO CAMUS - Livro publicado 2023

10 Cordel na Educação: Cordel Indígena - Livro publicado 2023

11 Língua, texto e sujeito: uma tríade reflexiva para novas propostas            curriculares - Capítulo de livro publicado 2023

12 Palimpsesto: um romance pernambucano - Livro publicado 2023

13 Romance de Palmeira dos Índios: Lenda e Luta - Livro publicad 2023

14 A CULTURA MANIFESTADA NA POESIA MARGINAL DOS ANOS

70 NO BRASIL MANIFESTOS, PANFLETOS E MIMEÓGRAFOS

A(R)MADOS - Capítulo de livro publicado 2022

15 A REPRESENTAÇÃO DE JESUS E SUA RELAÇÃO COM

MADALENA - Capítulo de livro publicado 2022

16 Casos de homoafetividade na história e na literatura: amor, erotismo e violência - Organização de obra publicada 2022

17 Chico Science e Movimento Mangue - Livro publicado 2022

18 CRUZ E SOUSA E A DOR NEGRA DO EMPAREDADO: DESABAFOS E CRÍTICAS DE UM POETAAFRODESCENDENTE A UMA

SOCIEDADE RACISTA E ESCRAVOCRATA - Capítulo de livro publicado 2022

19 Homoaffetcivity in Portuguese literature : the case of the novel o barão de lavos - Capítulo de livro publicado 2022

20 LITERATURA INDÍGENA NO BRASIL - Capítulo de livro publicado 2022

21 O CORDEL DA ESTRELA JANIS JOPLIN - Livro publicado 2022

22 Reflexões e Inovações Nacionais no Século XXI em Pedagogia e Educação - Livro publicado 2022

 

23 VAMPIRO NO CORDEL PERNAMBUCANO (um cordel) -Livro

publicado 2022

24 A literatura indígena no Brasil e a representação do índio em outras literaturas - Livro publicado 2021

25 Jogos vorazes: um futuro distópico com reflexos de um passado obscuro

- Capítulo de livro publicado 2021

26 Letras: pesquisa acadêmica e extensão no desenvolvimento da comunidade

- Capítulo de livro publicado 2021

27 Literatura africana de língua portuguesa: uma prática de ensino - Organização de obra publicada 2021

28 LITERATURA DE LÍNGUA PORTUGUESA: ESTUDOSCRÍTICOS -

Organização de obra publicada 2021

29 MOVIMENTO MANGUE: Chico Science e outros artistas - L i v r o publicado   2021

30 TEATRO AFRICANO DE LÍNGUA PORTUGUESA  - Capítulo de

livro publicado 2021

31 Biografia, autobiografia: Literatura e História em Entrelaçamentos Vivenciais - Livro publicado 2020

32 LITERATURA, BIOGRAFIA, AUTOFICÇÃO, BIOFICÇÃO E HISTÓRIA EM ENTRELAÇAMENTOS VIVENCIAIS - Capítulo de

livro publicado 2020

33 LITERATURA DE VIAGEM: TEORIA DO CONTO - Capítulo de

livro publicado 2020

34 Mágico Alakazam: 50 anos de alegria e sucesso - Livro publicado 2019

35 SHAKESPEARE: um ensaio dramático - Livro publicado 2019

36 Literatura Dramática Através dos Textos - Livro publicado 2018

37 Por uma dramaturgia nordestina: um estudo de caso - Capítulo de livro publicado 2018

38 Posicionamento crítico, desafio constante dos professores: o caso do poema épico e as diferenças de gênero da poesia - Capítulo de livro publicado 2018

39 ABISMOS DA poeticidade em Jomard Muniz de Britto. Do escrevivendo aos atentados poéticos - Livro publicado 2015

 

40 CONTRACULTURA: A POESIA DO DESBUNDE NA LITERATURA

BRASILEIRA - Livro publicado 2015

41 O épico brasileiro no século XXI: notícias americanas - Livro publicado 2015

42 Tetralogia do amor cruel - Livro publicado 2013

43 Poemas de Moisés Neto publicados em jornal - Livro publicado 2012

44 PEQUENA HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA -

Livro publicado 2011

45 ANTICÂNONE Literatura em Pernambuco a partir do século XX - Livro publicado 2010

46 A representação do Recife na obra de Chico Science e outros poetas do Movimento Mangue - Capítulo de livro publicado 2005

47 PASSAGEM: contos e poemas - Livro publicado 2005

48 Chico Science, Zeroquatro & Faces do Subúrbio - Livro publicado 2004

49 Teatro Ilusionista - Livro publicado 2004

50 Barthes e a revolução pela linguagem - Capítulo de livro publicado 2003

51 A Rapsódia Afrociberdélica

52. Procedimentos e Interseçcões Concretistas Tropicalistas

53. Teatro Queer

54. Cânone da Literatura Universal

55. O homem que virou cordel

56. O livro dos cordéis


Peças De Moisés Monteiro De Melo Neto


1. Sobre o Teatro de Moisés Neto

2. Para um Amor no Recife

3. Um Certo Delmiro Gouveia

4. Prazeres da Revolução

5. Dom Casmurro

6. Folhetim

7. Cleópatra, a comédia

 

8. Medeia. 1

9. Medeia. 2

10. Horror em Pasárgada

11. A Maior Bagunça de todos os Tempos

12. Draculin e o Circo no Espaço

13. A Ilha do tesouro

14. Sonho de Primavera (com Rosália Calsavara)

15. Peças curtas: O Bolo

16. Evita-me à Cubana

17. Shakespeare

18. Faustina

19. Um Tostão Para Isabelita

20. O Que Teria Acontecido a Bette Davis?

21. Com a Víbora no Seio (com Henrique Amaral)

22. Lucíola

23. Manuel Bandeira Escreve a Mário de Andrade

24. Memórias do Cárcere

25. Cassandra

26. Anjos de fogo e gelo

27. Capitães da areia

28. Bruno e o circo

29. Recife Paralelo 8

30. A hora da estrela

31. Bandeira encontra a estrela da manhã

32. A estrela do mar

33. Machado de Assis vai ao teatro

34. Túlio Carella e o Teatro do Insólito!

35. Memórias de um sargento de milícias

36. AS faces inquietas de Fernando Pessoa

37. Cartas chilenas no picadeiro!

38. Negrinha

39. O homem que sabia javanês

40. Meu nome é Bento Teixeira

41. Folhetim

42. O caso de Celeste

 

43. A volta de Dolores del Capibaribe

44. Senhora

45. Canção das Águas

46. Guerra dos mascates

47. Sertanejinha

48. Três tristes gregas

49. Famigerado

50. A terceira margem do rio

51. A cartomante

52. O crime da professora de matemática

53. A mãe de Judas

54. Muito além do sertão

55. Baudelaire apresenta O gato preto

56. Recife Social Club

57. Muito Além do Sertão

58. O julgamento de padre Cícero

59. Ambrosia

60. Ricardo III

61. Recife social clube emoções baratas

62. Sertão

63. Caetés (da obra de Graciliano Ramos)

64. Joaquim Nabuco, a peça

65. Rainha da Pernambucália

66. Terra Sonâmbula

67. Paixão de Buíque

68. Jesus (um monólogo)

69. Zito Makoa, da 4ª classe

70. Passei por um sonho

71. O enterro da bicicleta

72. Ser Tao

73. Paixão

74. A Farsa

75. A PAIXÃO

76. A estética udigrude

77. CLEÓPATRA versão inicial

78. VIVENCIAL

 


 


Moisés no palco do Teatro Barreto Junior (foto tirada por Gustavo Tulio)


18- A Poesia de Moisés Monteiro de Melo Neto




Salomão Fonseca Gomes e Moisés Monteiro de Melo Neto

 

Poemas publicados no jornal


Encontraremos neste texto uma interpretação do livro de poesia de Moisés Monteiro de Melo Neto: "Poemas publicados em jornal", escrita pelos professores Salomão Fonseca Gomes e Malu Souza.

Assim, o professor e escritor Salomão Fonseca Gomes descreve livro com os Poemas publicados em jornal, de Moisés Monteiro de Melo Neto: Recife acordou radiante, majestosa e imponente, como o sol que ilumina e aquece nossos corações; ou talvez, um Deus que encontra satisfação em abençoar seus filhos. Isto porque nossa menina, que já não é mais tão menina assim, foi glorificada por um de seus filhos. Filho este que parece saborear do néctar, degustar dos mais diversos sabores da literatura.

Moisés Monteiro de Melo Neto, dramaturgo, teatrólogo, poeta, nos presenteia com mais uma de suas obras: “risos e sisos”, uma releitura de seus "Poemas publicados em jornal", e porque não dizer, uma releitura de sua vida, uma vez que os poemas retratam muito de suas experiências e observações sobre o universo de cada leitor. É difícil ler seus poemas e não pensar: mas como? Como ele consegue sintetizar meu pensamento em tão poucas palavras? Talvez por ser ele um pesquisador, um artesão das palavras que nos embriaga e nos entorpece em sua descrição dos nossos sentimentos. Um poeta que tem o romântico como sua essência, mas que transita pela tradição (simbolismo, modernismo, até pelo arcadismo...), sem perder o contato com o contemporâneo, o que nos permite dizer que sua obra será sempre atual. Isto nos revela o Moisés letrado, um autor esmerado, estudioso da literatura que não se contenta apena com o dom da arte de escrever, mas que vai além. Um autor que a princípio se mostra simples em sua forma de escrever, mas quando nos aprofundamos em sua obra percebemos o quanto ele é sofisticado. Temos aqui uma coletânea de poemas que nos mostra o universo lúdico do autor suas emoções... ideias.

Alguns dos seus poemas ressaltam a beleza do Recife, dentro desta linha podemos cita o poema “Outono”, um amor que transcende o tempo e tem a cidade como pano de fundo, já em “Epifania”, a linguagem simbolista faz-se presente, o poeta faz uso de algumas figuras de linguagem na tentativa de

 

envolver o leitor em um universo mágico. Em “Ode ao Teatro de Santa Isabel”, vamos encontrar uma homenagem a um templo/ícone das artes no Recife. No poema “Ode ao teatro santa Isabel” enfatiza a nobreza da arte de atuar e a história entre as paredes do teatro, os vestígios do tempo, as marcas de suas glorias que por si só atrai um público. Ele que já foi chamado de teatro de Pernambuco, mas passou a se chamar Santa Isabel para homenagear a princesa. Com o estilo neoclássico, elegante e imponente; o nosso Santa Isabel é considerado por muitos o mais belo edifício teatral do império. Ele que já foi testemunha de inúmeras revoluções, que já recebeu tantas figuras ilustres. Deus o abençoe caro gigante. Vós que sois a “Fênix renascida”, pois ressurgiste das cinzas como a ave mitológica e resistisses à tantas transformações ao longo dos tempos. Que os deuses do teatro te concedam toda gloria e honra que só um grande rei merece. Nós o saudamos. Poema de Moisés para o Teatro de santa Isabel, vertido para o espanhol:

 


 

Oda al Teatro de Santa Isabel

Tus paredes abrigan sueños

Dentro de ti la vida estalla com la intensidad de estrellas En tu escenario las ideas se renuevan siempre

Al sonido de la música En el compás de la danza

A cada acto de tantas representaciones de la risa, del dolor, de la serenidad Traes reflejada em cada cristal la imagen de la audacia humana

Clavado que estás a las orillas del Río Capibaribe

Eres gloria de una ciudad que viene a través de los años construyéndose y rehaciéndose

Eres rosa al viento en las tardes tibias

Eres refugio de tantos proyectos que resisten a las intemperies Eres faro de Recife

En tu nobleza los pobres se equivalen a los ricos Eres de todos

Y estás abierto como una flor magnética Atrae y enseña

Divierte y educa

Quisiera tener versos magníficos que expresasen toda mí gratitud Pero soy poeta menor delante de tu esplendor

Más que sesquicentenario señor Ya se van ciento sesenta años Y pareces tan joven, tan actual

Quería abrazarte

Pero envuelvote sólo con esa mirada de quién pide A Dios por un mundo mejor

Delante del altar

 

Em “Linha do tempo”, a vida é um grande palco onde encenamos nosso próprio espetáculo, somos espectadores e protagonistas da nossa história, escrevemos nosso próprio enredo e muitas vezes nos perdemos em nossa própria trama; o teatro é mimese da vida, não como reprodução real do que somos, mas sim, como uma representação lúdica do sentimento humano. O poema apresenta uma cadência, um jogo rítmico através das palavras: “lida, vida, cena, sonhos, bastidores...” um artifício do poeta para comparar o teatro à trajetória de uma vida. Ele representa tanto o artista (você) quanto o homem comum (eu). Penso que o teatro é uma boa comparação, pois somos todos trabalhadores e batalhamos por uma causa.

O poema sobre o teatro de santa Isabel (Moisés Monteiro de Melo Neto) também foi incluído no libreto sobre os 160 anos daquele teatro, (Moisés roteirizou para os quadrinhos uma pesquisa sobre este famoso edifício).

Em “Os Atores”, o poeta produz um poema sobre a arte de atuar, o título do texto é a chave do poema (metalinguagem). Usando de palavra opostas (antíteses) e ideia contrárias (paradoxos) “Sozinhos em grupos”, o autor sistematiza sobre a arte de representar; o ator e suas mil faces, o mestre das ilusões. O ator e sua capacidade de dar vida a um personagem (“manipuladores do próprio eu ou fantoches?”), misturando o conotativo ao denotativo ele brinca de ser Deus quando compõe uma personagem. Descrevendo a maravilhosa fase da juventude, “Poeminha Um” mostra que todos acontecimentos nos trazem algum aprendizado, os riscos, as dúvidas, os acertos e incertezas de um futuro duvidoso. A juventude e sua eterna relação com a transitividade do tempo onde tudo é passageiro e acontece agora, “somos tão jovens e temos todo tempo do mundo e mesmo assim não temos tempo a perder”. A adolescência e suas descobertas; amores, encantos e desencantos; a juventude seus riscos e prazeres tudo é eterno enquanto durar.

Já em “O templo das horas”, tempo é a matéria-prima do poeta e o poeta tem como tarefa registrar os fatos, ser operário a serviço do tempo. Uma passagem de mês, uma passagem de ano... tudo é criado pelo homem, mas no “templo das horas não há portas”, então só nos resta observar e aprender os ensinamentos que ele nos dá. “O templo das horas” fala da vida, “Embora mais um ano esteja para começar/ Aprenda antes que seja tarde” não devemos deixar de viver nossas realizações, pois este tempo acaba... a vida acaba, falar dos sentimentos, pois, amanhã pode não dar mais tempo, priorizar o hoje. Um jogo de sensações “Epifania” nos faz enxergar a noite com nossa eterna companheira, ou com pano de fundo para o universo dos românticos. o poema

 

nos conduz a um ambiente misterioso, lúdico; o poeta faz uso de elementos simbolistas na tentativa de envolver o leitor em um universo mágico, sinestésico, mesclando bem o romantismo com o simbolismo. “A noite/É de branco luar na estrada deserta/Ímã vermelho, teu calor me atrai/O azul escuro do céu serve de contraste para/Uma verde luz que emana dos teus olhos.”

O poema “Você persiste” traz um sentimento de nostalgia, a ideia de um homem solitário “O mar repete um aviso/agora és ilha, homem”, que se apega às lembranças do passado; um amor que ultrapassa os limites do tempo. O mar, as ondas renovando nosso desejo de não virar a página de uma história inacabada em nossos pensamentos e a lembrança dos abraços “hoje braços distantes”. Talvez um amor adolescente, um amor que nos lembra o tempo em que tudo parece ser para sempre; sem respeitar a efemeridade e a cronologia dos fatos. Novamente, o autor brinca com as palavras usando metáforas, comparações para criar um ambiente romântico.

“Chove”, apresenta características urbanas: “Recife, vestida de céu/cinzento, chove tanto/Cinco horas da manhã...”, fatos corriqueiros em nosso cotidiano. Da janela do apartamento Recife é descrita como uma metrópole que não descansa. Ao mesmo tempo, percebemos que o autor utiliza o cotidiano para mostrar o amanhecer das pessoas, o despertar e o sentimento que pode levar o leitor a uma interpretação do que teria acontecido na noite anterior: “Silêncio entre nós dois, nada pode nos fazer um\ Entre a indiferença e o intransitivo prazer de existir”. Mesclando simbolismo e romantismo o poema “Teus olhos” conduz a um jogo sensações (sinestesia) “Como negras azeitonas/Sobre branca porcelana” misturando cores, sabores que aguçam nossos sentidos. O eu lírico nos revela sua face romântica que faz comparações para exprimir a loucura de quem ama, remetendo-nos à morbidez do romantismo. “Roletas russas da sorte/A loucura de quem ama”. Possivelmente uma releitura de um poema de Gonçalves Dias chamado “Olhos Verdes”.

“A busca” sugere o aprendizado que vai além do material (metafísica) “Que aprendizado novo nos aguarda?/o da doçura?/talvez o do ar mais puro...” trazendo uma relação com o arcadismo, trabalhando a questão da natureza e do sagrado do puro e o intocável; “sobre sermos jóias preciosas/sobre deixar a bebida sagrada/tocar nossos lábios/para sermos puros”. Já em “Seu beijo” um pescador avistou uma mulher de cabelos dourados boiando em direção à praia. Uma mulher seminua, metade humana, metade peixe que o seduziu com o seu canto e beleza (Lenda da sereia). O poeta faz uso da mitologia para expressar seus sentimentos, ele assume o papel do pescado: “eu estava deitado na areia/

 

você chegou” talvez uma referência à deusa Tétis (ilha dos amores). O beijo é caminho que leva às portas da percepção, “sua boca na minha”, dois lábios que se encontram e se unem formando um todo, o toque suave das mãos acariciando-me “você minha joia mais rara”, o êxtase de uma relação.

Preparando-se para a sedução, “Balada recifense” enfatiza o desejo, a juventude e sua efemeridade, eu quero viver o hoje e o amanhã fica para depois... “Entro na boate te procurando/ Peço uma bebida doce./ Sinto o gosto, teu cheiro aguça meus sentidos../ Me viro e beijo/ Mas não é você/ a noite acaba e tudo voltou ao que era antes...”. Apesar da linda noite, vem a decepção por não ter estado com a pessoa amada.

“Sementes do amanhã” tem a cidade como pano de fundo de um grande amor que passou... fica a lembrança, a saudade e o desejo de voltar no tempo. “se ainda pudesse ter algo seu/ seria o tempo reconquistado”. A nostalgia de uma história de amor inacabada. “nossa fantasia do último baile.../ entre atos e fatos, a dúvida e a culpa” de quem é a culpa, não sabemos; só o tempo cicatrizará as feridas, só o tempo nos dará um novo amanhã. Comparando os conflitos de um relacionamento com uma trama o poema “Novela” ressalta os acontecimentos de um relacionamento, intrigas, conflitos contradições é como se a vida fosse um romance em capítulos com hora marcada para começar e terminar. Tudo está escrito, nada é por acaso: “Ah, meu amor!/ Por que teve que/ ser assim?/ tudo sempre parece /começo e fim”.

Retratando a vida dos pescadores, como diz o próprio nome do poema, “Pescadores” mostra a alegria do seu trabalho e a incerteza do seu retorno” “Arrastar nelas o destino incerto”, com a vida sofrida mais sempre cheia de esperança, o eterno aprendizado da lida com mar é seus mistérios, o tempo... a solidão, o cansaço”; dias e noites de mestres e aprendizes” e a esperança do retorno para suas famílias. Este poema “Revolução na Rua da Glória”, traz uma história de amor de carnaval, “Ilusão latina/Amei-a no carnaval”, quando as lembranças da mulher pernambucana misturam-se com as lembranças da cidade, “mapa perdido: Pernambuco/Menina-revolução sem afeto/às margens secas do Capibaribe/no bairro da Boa Vista”, dos blocos, das fantasias, quem não já se encantou com os blocos líricos e a nostálgica do carnaval do Recife. A liberdade o amor sem compromisso “Menina-revolução sem afeto” que dorme na memória e quando ressurge vem a saudade boa... a alegria de ter vivido aquele momento. Ela dorme agora na memória”.

Na visão do poema “Intraduzível”, um amor sem tradução, lembrança que se eternizou... que tamanha importância passa a ser intraduzível diante de

 

tantos detalhes. “Sereia, você me atrai, irresistível melodia./Navegador, conquistador, me deixo seduzir/e me tens nos teus domínios”. A fascinação pela mulher e o domínio que ela possui sobre ele, as diversas sensações despertadas no tocar.

“É inútil resistir, você não acredita?/ Dizer que o amor pagou o preço do meu pranto/Parece inútil a pureza no meu peito/Viveremos de nós mesmos!/E eu... como quem delira/De qualquer jeito/O resto é mentira”. O resto é mentira! É um questionamento de amor... será que valeu a pena tudo? Será que a pureza do amor tão maltratado valeu ou tudo não passou de uma ilusão? Viveremos de que, já que a nossa história não passou de uma mentira. Fala da decepção.

“Aí está você”... “Sapateando no leite derramado/Rindo do meu choro abafado/Dançando com o CD arranhado/Não vou adiar esse adeus danado” fala da insatisfação de um relacionamento que está no fim, descreve um lar em pedaços. O poema apresenta uma cadencia, jogo de silabas fortes que dar um ritmo, usando o artifício da aliteração, o autor consegue passar a ideia da repetição do discurso.

“Sexto sentido”, neste poema o autor cria uma relação entre sentidos do corpo para expressar o seu desejo por uma mulher. O título é a chave do poema “sexto sentido”. Trabalhando com um jogo de palavras e ideias o eu lírico mostra que sua a vontade é incondicional, pois, o seu querer independe do outro. “Nos meus olhos está a tua imagem... Queria ser o teu preferido, mesmo que fosse num sexto sentido”.

A música no ar e os dois que valsam nas estrelas, nada mais neste momento interessa, só o amor que os entorpece, nosso ritmo, nossa harmonia emanam alegria e ao seu lado não tenho mais dor  “Amantes no Paraíso”: o

poema fala da plenitude do amor, dois corpos que unem formando um só. “Pantomina”, numa narrativa descritiva, o eu lírico deste poema mostra

uma situação em que o homem passa a ser objeto de desejo. Em uma festa regada a vinho e boa música de repente ele se sente observado: “alguém me dirige o olhar, nós percebemos e isso aguça meu desejo”. O que fazer, como devo agir?... No outro dia me ligou, como descobriu meu telefone?.  Era o

início de uma ópera bombástica.” O universo masculino e seus atrativos. O poema apresenta características narrativas: espaço, ambiente, cronologia de tempo e uma boa descrição de local.

Vamos encontrar em “Milagre de carnaval”, Uma louvação ao carnaval, encontros e reencontros no meio de tanta fantasia, promessas que não

 

são reais, mais serão lembradas como uma doce recordação “Te encontrei num clube de máscaras... bem sabia/ Nossas promessas, tu não confessas?”. Em meio à exaustão, festa, alegria... nos encontramos... eu, andarilho errante, tu, que eras de outro, mas já me pertencias... Pierrôs e colombinas nos festejam e o galo nos abençoa. “Seremos eternos ao menos em nossas lembranças/ Ressurgiremos transfigurados em ascensão sobre todos./Neste Éden recifense, tudo ferve.../Da madeira morta nascem flores./Tudo é folia, agora/estamos perdoados.”

Um poema metafísico “Nirvana” nos remete ao cosmos, um turbilhão de sensações tudo ao mesmo tempo agora. “mudo, quieto em meio ao trovejar de pensamentos alheios./ Ferido, petrificado pelo sal, doçura do amor impessoal...”. Um olhar introspectivo do homem em direção ao infinito em busca do ser superior. A busca pelo desapego material.

Recife como cenário do nosso amor, em “Outono”, a bela cidade que tem em suas pontes, ruas e praças a nostalgia da história de um povo. “Agora o outono recifense.../ As folhas caem na memória/ Caminhamos por ruas de sonho/Ecoam os nossos passos nesta história”. Neste cenário em pleno outono o amor se perpetua entre as folhas que caem e o colorido da cidade, as lembranças vividas aqui passando na memória serão sempre a prova viva do nosso amor.

“Desaparece o sol na nossa janela/De um dia feliz sem mazela”, simboliza o fim de tarde, um olhar através da janela com a tranquilidade do dia, observa a cidade do Recife: pessoas vêm e vão despertando a vontade de viver. Em “Desaparece o sol na minha janela” é valido ressaltar o jogo de corres... os detalhes das várias situações de um cotidiano, ali passando sobre um olhar atento descrevi-se a cidade.

Muitas vezes o autor nos traz um sentimento de nostalgia, como no poema “Você persiste”: “agora és ilha, homem. Lembrança dos teus abraços”. É ou não a ideia de um homem solitário que se apega às lembranças do passado, um amor que ultrapassa os limites do tempo? O mar, as ondas renovando nosso desejo de não virar a página de uma história inacabada em nossos pensamentos: “lembrança dos teus abraços/ hoje braços distantes”; talvez um amor adolescente, um amor que nos lembra o tempo em que tudo parece ser para sempre; sem respeitar a efemeridade e a cronologia dos fatos. Novamente, o autor brinca com as palavras usando metáforas, comparações para criar um ambiente romântico, buscando o invisível, as profecias, sombras da vida... são dúvidas que percorrem o ser humano. Os sentimentos estão aflorando e o desejo me fará presente. A mais doce alucinação, lembranças e mistérios relatam um

 

amor passado, feroz guardado para a vida inteira em sensações, ecos. Imagina se fosse agora...será que sentiria menos culpa? As fantasias continuam, passam como um filme acelerado, flashes da vida. Temos aqui a tradução, um relato de um casamento antigo, que em momentos de reflexão a vida e suas aventuras, levam a pensar... será que poderia ter sido diferente? Mais ao retornar de sua viagem alucinante quer acender o casamento, o amor da vida inteira e que está ali ao alcance das suas mãos.

“Nelson Rodrigues faz cem anos” e Moisés homenageia o escritor recifense que descreve tão bem a sociedade carioca, tendo a família como tema central, e as faces do ser humano, seus conflitos familiares e desejos... um realista de essência que ousou mostrar a vida como ela é, permeando-a com humor e a sátira. Suas mulheres podem ser a representação da pureza, castidade; ou a personificação do desejo, do pecado. O homem é representado como o canalha, o ser despido de pudores que faz o que for preciso para alcançar seus objetivos.

O poema tem os ingredientes que torna a obra de Nelson Rodrigues diferenciada, mostra uma realidade problemática e polêmica das famílias e dos relacionamentos.“castidade e perversão/ amor & tragédia/ gozo suburbano/ casamento problemático”, com uma visão sempre conturbada e uma opinião sempre contraditória o escritor relata a sociedade carioca.

A mitologia é a chave do poema “Sem resposta”, cita Orfeu e trata de um amor destrutivo, com isso levanta perguntas da importância da sua própria vontade, “... em solo movediço/ sabendo que me segues/ e que não nos cabe/ nem o Hades nem o Eden./ Resta-nos/ Nosso amor em trânsito/ nosso amor ... passagem.../ sem resposta”; usando o amor como resposta e justificativa para seus atos, amor e pecado andam juntos tornando as perguntas sem respostas.

Em O pedido... o desejo de estar com quem se ama, um cenário de justificativas de um amor perfeito, pronto para entrelaçar-se, a certeza da mulher amada... desejos, abraços “Sinta minha pele ardendo por você.../Meus ouvidos amorosos por lhe ouvir\meus lábios sedentos e obedientes./ Meu coração... eu já nem sei se é só meu...” não existe mais eu e sim nós. Apesar das suas inseguranças, “entregue-se, como eu fiz”. Porque as promessas são de amor eterno, então: “ Case comigo.”

A preparação para uma viagem, os pensamentos ficam voltados para os acontecimentos externos. Casa na montanha uma viagem para o campo: “Viajo para o campo/ A natureza só pode amar a ela mesma/ a gente tem que se ajudar./ A roseira que você plantou floriu”; transmitindo uma ideia bucólica, a

 

valorização da natureza e a concepção que precisamos ajudar uns aos outros. Trabalhando elementos da natura, Moisés descreve o desgaste do tempo na vida e nas coisas matérias, a necessidade da manutenção física e espiritual da vida. Assim também é em “Tempo de separação”, que traz a exposição do oposto de um relacionamento no qual personalidades e prazeres com tempo se revelam coisas distintas: “...lá estão as cinzas do nosso amor/ brasas adormecidas/ apaixonadas” adormecendo o amor tão intenso no início, parece que quanto mais tenta amar, mais o eu-lírico na poesia de Moisés exercita-se como se fosse possível alimentar e continuar um amor puramente literário que busca justificativas e motivos para continuar. É o que percebemos em “Nossa música” como metáfora de uma vida, as cordas de um violão que quando dedilhadas produzem uma melodia comparadas à trajetória de uma vida... a história de duas pessoas que não conseguem se encontrar, duas metades que não se encaixam e são como cordas de um violão que não se tocam. O desejo sem lei, a não ser a mímesis interna, encontra e eterniza sua razão de ser e estar, pode ser numa praia, velha casa na colina, A casa do holandês, dá-se sempre uma espécie de resgate, um período da história pessoal, inventada ou vivida, tudo vai se misturando em frenesi poético, torvelinho, como na casa antiga, castigada pelo tempo, onde o vento produz sons do abandono, onde o poeta escuta e transmite-nos o sofrimento da efemeridade, tema tão recorrente em sua obra, toda ela uma espécie paisagem selvagem de lembranças, ou, lembrando o mestre Edgar Allan Poe... relíquias, que Moisés define como “prisão/liberdade/lembranças”, o que se passou realmente jamais saberemos com certeza. Às vezes, isso resvala num encômio, como em homenagem a uma voz que se cala e eterniza-se como a de Mercedes Sosa, no poema “La Negra” acena dúbia despedida, tratando-a como uma mulher forte que conquistou o mundo com sua voz e seus ideais, mulher revolucionária, mas que não perdeu a doçura e a sua voz carinhosa deixa saudade: “Até a próxima canção, querida Mercedes”.

Malu Souza, professora, escritora e musicista, expressa sua opinião sobre os poemas deste livro de Moisés assim: “É com maestria e sensibilidade que Moisés Monteiro de Melo Neto compõe esta obra. Passando por uma epifania onde tudo ao redor ganha equilíbrio, o autor nos remete ao seu mundo de verdades, mentiras, revelações, alucinações... e por que não o das suas baladas? Uma poesia Cool & Cult é o que temos nesta obra, com uma coerência e uma permanência que nos encanta. Poética não necessariamente avassaladora, mas com uma característica simples e elegante. O que se mostra em meio a esta simplicidade é a grandeza tantas vezes particular, porém

 

altamente universal deste poeta. Acredito no amor como a essência de cada um dos poemas de Moisés, a começar pelo recíproco, como vemos em “Seu Beijo”, ou mesmo o rejeitado, retratado nos versos de “Novela” e, até, a dor do amor que se foi em “Você persiste”. Moisés Monteiro de Melo Neto atua em seu teatro da vida registrando em versos e estrofes que criam uma espécie de trama em nossa mente. Nos versos do poema “Novela”, onde percebemos essa característica com mais ênfase. Somos espectadores dessa teatralização que se assemelha a um musical de tão embalado, e é nesse clima rítmico que sentimos, também, um quê de samba gostoso de declamar no poema “Aí está você...”.

O tempo é submetido e concentrado em encenações que se revertem em temporadas e, assim, o ciclo não para. O templo das horas é como um espetáculo que se inicia, mas logo tem seu fim, são experiências da passagem de uma cena para a outra, e depois à outra temporada, outras peças, outros atos, outros atores e assim “sempre haverá mais uma chance”.

Considerando a paixão que o autor deste livro exprime, não nos surpreende as tamanhas homenagens que o mesmo faz, durante a obra, à artistas como Mercedes Sosa, Nelson Rodrigues e à monumentos como o Teatro Santa Isabel e a própria cidade do Recife.

É através de sentimentos como saudade, paixão, harmonia e do visível amor pelo teatro e pelo Recife que Moisés Monteiro de Melo Neto compreende todos os poemas deste livro. Não só estes, como todos os seus demais textos.


Antologia do Cordel de Moisés Monteiro de Melo Neto

Maria Betânia da Rocha de Oliveira (UNEAL) fala dos cordéis de Moisés


 

Contar histórias é um ato mágico e magnânimo. Transporta-nos no tempo e espaço. Momento no qual passado, presente e futuro podem se encontrar. É assim, quando contamos histórias reais ou fictícias. Ambas compõem a existência humana. Antes de aprender a escrever, falamos. Ouvimos histórias dos mais velhos nas rodas que, mesmo hoje, no mundo marcado pela tecnologia, ainda persistem e encantam aos contadores de histórias e a seus ouvintes – quiçá, futuros perpetuadores dessa arte.

Dentre tantas, uma contação de história que herdamos dos portugueses, nossos colonizadores, é a literatura de cordel como mídia impressa. Mas, no nordeste brasileiro surgiu os “folhetos” ou “romances”, narrativas em sextilhas, depois cognominadas de “Literatura de Cordel” pelos estudiosos que confundiram com a mídia impressa vinda de Portugal. Esse gênero difundiu-se pelo país com a saída dos nordestinos para as nossas diversas regiões., seja através dos repentistas [violeiros/poetas que usam da cantoria (repente), para improvisar seus poemas através da literatura oral e da literatura de cordel]; seja pelos folhetos onde os poemas rimados são registrados e pendurados em cordas de maneira folclórica, apesar e tradicionalmente serem vendidos espalhados no chão ou em bancas. Assim, vemos a resistência e sobrevivência de uma literatura que aborda os mais diversos assuntos, dos mais simples aos mais complexos, do transcendental ao imanente, do saber comum ao científico, exercendo uma difusão de conhecimento entre as pessoas mais simples, arrefecendo a desigualdade social existente, que priva tantos brasileiros de se apropriarem do conhecimento sobre o mundo que eles também ajudam a construir.

O trabalho de Melo Neto nos permite essa viagem por campos diversos. São histórias fictícias e reais, realimentando um traço humano que tem sido esmaecido pelas relações virtuais que hoje predominam. A aparência é que as máquinas criam e nós admiramos suas criações, quando o contrário é o que é real. Nada contra aos avanços tecnológicos, mas não devemos perder de vista quem é o criador e quem é a criatura.

Nessa Antologia ele revela a importância deste na sua vida (Enterrado vivo: o homem que virou cordel); proporciona viagens através das histórias do teatro, da língua portuguesa e até do próprio Cordel, mostrando que este “veio de além-mar”, que “era mais para ser ouvido”, depois passou a ser escrito e também habitado por “... diabo, serafim, cangaço... tudo enfim”. Ele também não esquece de citar seus grandes representantes, cuidando para que o tempo não apague de nossa memória os produtores e defensores da Literatura de

 

Cordel. Menciona a crise enfrentada por esta nos anos 60, mas também do aumento das pesquisas sobre essa arte nas universidades, nos anos 70. Revela sua preocupação com a difusão e valorização das raízes populares presente no Cordel, sugerindo que as escolas não sejam espaço apenas do conhecimento formal, veículo apenas da norma culta. Que essa literatura deve ser instrumento para que os alunos se apropriem de uma outra forma de ler e dizer o mundo.

Os cordéis que aqui estão revelam mais ainda. Ensinam-nos que precisamos abrir espaço para o dizer indígena, cuja cultura foi violentamente apagada, assim como o foi a do negro. Ouvir e aprender com os povos originários. Dar voz ao outro para conhecê-lo e enriquecermo-nos.


Moisés com alguns dos seus alunos de Letras, do Curso da Licenciatura intercultural.


Moisés faz parte do CLIND, A Licenciatura Indígena (CLIND) da – Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL) é um curso específico destinado à formação em nível superior de professores de escolas indígenas. Moisés frequentou alguns rituais e pesquisou a questão da linguagem artístico-religiosa nas culturas.


Thiago Tononé de Aquino, orientando do Prof. Dr. Moisés (polo São Francisco).

 

Rituais seguem trâmites e são apoiados pelo Clind:


 

Abaixo mais um cordel indígena orientado por Moisés:



Indígenas versejam mulheres na literatura Brasileira


Danielle Moacir dos Santos/ Karapotó Terra Nova Celia Lima dos Santos/ Karapotó Terra Nova Letícia Lima dos Santos/ Karapotó Terra Nova Zilene Murá de Moura/ Kariri-Xocó

Aruana Ricardo da silva/ Kariri-Xocó Suzana Alves dos Santos/ Kariri-Xocó Renata Campos Alves Lima/ Kariri-Xocó Manoela Suíra de Souza/ Kariri-Xocó Cinthya Santos Correia/ Kariri-Xocó Thiago Tanoné de Aquino/ Kariri-Xocó Viviane Pirigipe Rosendo/ Kariri-Xocó Nayrí Silva Cruz/ Kariri-Xocó

Marcela Marques Lima/ Kariri-Xocó

 


 

Realizado no campus de Palmeiras dos Índios, o CLIND é fruto da parceria da Universidade Estadual do Alagoas com o – Ministério da Educação (MEC)–Ministério da Educação (MEC) e a Gerência de Educação Indígena (GEEIND) da Secretaria de Estado da Educação e do Esporte (SEE). Do – MEC, a universidade recebeu recursos financeiros do Eixo I (implementação

de novos cursos) do edital de 2008 do – Programa de Apoio à Formação

Superior e Licenciaturas Interculturais Indígenas (PROLIND), que prevê a criação de novos cursos de licenciatura. A coordenadora geral do curso é Iraci Nobre, professora da universidade.


2024: mais cordéis do Clind, orientados por Moisés

 

O curso iniciou a formação de sua primeira turma no ano de 2010 e admitiu 80 professores de sete diferentes povos residentes no estado: Kariri,

Jeripancó, Wassu, Koiupanká, Tingui Botó, Karapotó Plaki-Ô e Xucuru

Kariri. No Curso de Letras, Moisés ministra aulas de literatura, usando dentre outras técnicas, o cordel como instrumento de ensino.

A visão perversa e mesquinha de uma literatura “menor” é dissolvida o tempo todo por Moisés que estimula a produção literária indígena e não só isso, trabalhando com teoria da literatura, introduz conceitos de Bakhtin, a polifonia, conceitos de sátira menipeia e sua teoria da linguagem, trabalhando a ideia de que o homem não nasce só com um organismo biológico abstrato, ele nasce num meio social e, em meio a interação discursiva entre os sujeitos acontece a comunicação, a aprendizagem. traz de Benjamin a visão que desconstrói a concepção de evolução automática e contínua da civilização, e a visão contínua da história, as mitologias de Barthes, o poder, segundo Foucault, concepções de Costa Lima, Krenak, Silviano Santiago, Bhaba etc.

Moisés mostra a grandiosidade da arte cordelista, que é algo que continua pulsando, acompanhando o evolver dos tempos, sem perder seu traço importante de tornar o conhecimento acessível a todos que dele se acercar. Aproxima-nos de Janis Joplin, Dom Quixote, Homero de maneira simples, provando que o Cordel não habita apenas o sertão nordestino, revelando suas dores, crenças e alegrias. Contata-nos com o mundo fantástico e doído presente no “Cordel das Bonecas Enforcadas”. Leva-nos a refletir sobre a falsa moral que ainda habita a sociedade brasileira que marginaliza a mulher.

O presente trabalho reacende a consciência de que não somos máquinas ou coisas, pulsamos, somos constituídos de sentimentos que, desde sempre, o Cordel tratou de traduzir, seja na oralidade, seja nos folhetos. O autor nos ensina que, assim como a Ciência, a Literatura de Cordel tem um papel fundamental na nossa existência: saber do humano, revelar seus sentimentos, falar sobre seu mundo e ensinar que o que construímos não é menor nem deve ser propriedade privada de alguns poucos. Que o conhecimento é de todos. Que o Cordel é tão grandioso quanto o é o humano.

Prof. Dr. José Nogueira da Silva (UPE/ UFAL) fala sobre a Antologia do Cordel de Moisés Monteiro de Melo Neto

 

As leitoras e leitores têm a sua frente uma máquina do tempo com um piloto que os permite detalhar a viagem a ser realizada. Nós, viajantes das letras, guiados pelo piloto, o Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto, iremos sobrevoar os artefatos da sua Literatura de Cordel e ficaremos surpresos ao encontrar uma realidade distinta da estereotipada por outrem.

 


 

Moisés e Nogueira em exposição sobre o Movimento Armorial, Museu do Estado de Pernambuco, dia de Reis, 2024

É importante não confundirmos o sujeito que nos guia nesta viagem com a pessoa física do Prof. Dr. Moisés, seria o que Mikhail Bakhtin diferenciou como autor-pessoa e autor-personagem, há coincidências, mas são seres distintos. O autor-pessoa, o Prof. Dr. Moisés, é docente na Universidade de Pernambuco, Campus Garanhuns, e também na Universidade Estadual de Alagoas, em Palmeiras dos Índios, ator, escritor de peças teatrais, cordelista, e pesquisador eclético nas linhas de pesquisa caminhadas, além de uma forte ligação afetiva e cultura com seus ascendentes, algo em comum com o autor-personagem, a exemplo de sua bisavó do sertão da Paraíba, que contava histórias de cordeis, além do marido dela, que conheceu Silvino Pirauá em uma visita ao Recife, ou seu avô da cidade de Sanharó, interior de Pernambuco, o qual foi poeta e conheceu poetas da região, enfim, há uma série de referências que não cabem nas referências bibliográficas.


O autor-personagem, coincidentemente também conhecido como o Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto, nos oferece sua Literatura de Cordel que foge dos padrões estereotipados pela folclorização da nossa literatura. Ele expõe o vigo do Cordel desde o seu início, com obras presentes nas feiras até os dias atuais: Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Franciscco Chagas Batista, entre outros que ecoam aqui e acolá, na obra mosaica que aqui vocês poderão apreciar. Como nosso autor não coloca as qualidades nem os defeitos dos amigos debaixo do tapete, expõe suas sátiras, críticas sociais, combate a homofobia, machismo, racismo etc.

Moisés renova o fazer cordelístico, ou pelo menos aquilo que o Cordel vem produzindo conjuntamente para um público consumidor com o qual os cordelistas dialogaram e dialogam através dos valores priorizados nas obras.

Por essa rota, a importância do Cordel é justificada com maestria, sua sistematização por Leandro Gomes de Barros fez com que nosso autor-

 

personagem entendesse os amigos e ao mesmo tempo concorrentes da época supracitados, como discípulos de Leandro, por que não? Pois, muitos outros vieram, desde o início com capas cegas, à chegada da xilogravura e ilustrações desenhadas, os cordelistas utilizaram a tecnologia mais acessível para conquistar o público cada vez mais, crescimento barrado apenas pela predominância dos meios de comunicação em massa na década de 60 em diante, ressurgindo com grande força poucas décadas depois, após Fausto Neto ser ou não um divisor de água em seus estudos, questionamento entregue em nossas mãos.

Dúvidas acerca do surgimento do Cordel, Europeu ou Brasileiro? Qual a métrica utilizada? Como ele sobreviveu ao mundo digital? Ao contrário, como cresceu ainda mais na era digital? São questionamentos discutidos e refletidos a ponto da leitura ser indispensável em um momento no qual a crítica literária vem sendo ampliada, com inclusões impensadas pela crítica clássica, aliás, o que é popular hoje pode ser clássico amanhã, é como uma cerca dividindo dois terrenos, a cerca não surgiu espontaneamente, alguém a colocou e em algum momento um arame caído faz com que o que está de um lado passe para o outro, algo bem mais possível quando essas peças são polidas pelas mesmas referências teóricas que a literatura clássica em vez de estudos folclóricos importantes por conta da produção catalogada, mas carente de metodologias adequadas em suas pesquisas.

A palavra “antologia” vem do grego anthologias, significa coleção de flores, termo que em latim significa “florilegium”, daí vem o sinônimo de antologia “florilégio”. Por meio desse raciocínio, compreendo o vocábulo “antologia” como uma metáfora de um jardim literário plantado por Moisés Monteiro de Melo Neto, professor da Universidade de Pernambuco e da Universidade Estadual de Alagoas, doutor em Teoria da Literatura, ator antes disso, seu perfil foge do fenótipo historicamente construído do cordelista, indivíduo pouco letrado, vendendo os cordeis em feiras, cantando e sobrevivendo de suas vendas produzidas com uma arte absorvida de maneira autodidata.

Porém, se observamos seu perfil com atenção, vemos que não foge tanto do arquétipo de quem o cordelista tem sido historicamente. Primeiro, apesar das limitações fruto do pouco acesso que as camadas populares tiveram a uma educação básica, poucos cordelistas têm o vasto currículo do Dr. Moisés. Contudo, sempre tiveram cuidado com a escrita, a métrica, rimas e as temáticas em coerência com as demandas dos consumidores. Nosso autor apenas

 

aprofundou cirurgicamente o que poucos fizeram, não é uma descaracterização, é mérito. Segundo, na mesma cidade em que o cordel foi sistematizado, ambos são recifenses e realizam diálogos entre os gêneros lírico, épico e narrativa. O autor além de cantar o cordel nas feiras, escreve sobre a própria história do teatro, consequência de sua atuação artística e docente.


Moisés: um admirador da ARTE POPULAR

A Literatura de Cordel tem passado por transformações, mas sem perder características básicas que o faz ser reconhecido em uma tradição centenária. Ao falar de Dom Quixote, Janis Joplin, da “Ilíada”, da História da língua portuguesa, faz um convite para percorrer a literatura fantástica ao citar vampiros em Pernambuco, ou narrar sobre a lenda das “Bonecas Enforcadas” e “O Homem Enterrado Vivo,” temos a sublimação artística de seus diálogos intelectuais e literários. Compreendemos como a literatura pode ser universidade ao mesmo tempo em que reafirma a sua identidade, por isso, temos aqui uma antologia fora da curva, vai além de um cordel, é uma proposta de produção poética, flores com novas fragrâncias plantadas em um jardim com perfumes já existentes, fazendo jus ao nome “antologia”.

Por essa via, assim como Jesus realizou a última ceia com doze

apóstolos, o poeta Moisés realizou um banquete poético com doze cordeis, para a sorte dele nenhum o traiu, e se Jesus teve dois ladrões de cada lado, Moisés terá dois organizadores, possivelmente nosso poeta deve estar dizendo: “Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem”.

Falei um pouco do livro É mais ou menos assim História, autores e obras Tudo tintim por tintim Se quiser saber de tudo Leia do começo ao fim

 

19- Alguns dos Prêmios recebidos por Moisés Monteiro de Melo Neto


Vários dos seus espetáculos foram premiados pela APACEPE. Adaptou para o projeto escola parte da obra de Machado de Assis. Em 2006 foi assistente de direção do filme “Incenso” baseado em poemas de Ascenso Ferreira.

O filme foi vencedor do concurso Ary Severo/ Firmo Neto (Prefeitura Cidade do Recife/ Governo do Estado de Pernambuco).


-Prêmio Klaus Vianna


Vencedor do Prêmio Klaus Vianna, concedido pela FUNARTE, Moisés Monteiro de Melo Neto é autor, responsável pelo roteiro e direção do espetáculo Recife- Paralelo 8, montado pela Companhia DANTE em 2007.


Anjos de Fogo e Gelo

 

Moisés Monteiro de Melo Neto é autor do texto da peça “Anjos de Fogo e Gelo”, a vida atormentada de Arthur Rimbaud, que dirigido por José Francisco Filho teve grande repercussão em Recife no ano de 2008, recebendo prêmios da APACEPE.


-Prêmio Shell


-Troféu especial por sua Dramaturgia - entregue pela APACEPE - ASSOCIAÇÃO DE PRODUTORES DE ARTES CÊNICAS DE

PERNAMBUCO - em 3 de fevereiro de 2009.


Participou em 2009 da curadoria da exposição permanente da Faculdade de Direito do Recife (UFPE) sobre Rui Barbosa e Castro Alves.


Para um amor no Recife - (Prêmios da associação de Produtores de Espetáculos de Pernambuco)


A montagem ganhou 4 prêmios da Associação de Produtores de Espetáculos de Pernambuco: Melhor Diretor, Melhor Ator (Gustavo Falcão), Melhor Trilha Sonora e Melhor Iluminação. Foi o espetáculo mais premiado do ano de 1999 em Recife.

“Bruno e o circo do Futuro”

“Branca de neve e os sete Anões”

 

“Um minuto para dizer que te amo” (6 prêmios do Janeiro de Grandes espetáculos)

Um minuto para dizer que te amo, produção do pernambucano Matraca Grupo de Teatro, do Sesc Piedade. A montagem ganhou grande reconhecimento do público, conquistando seis prêmios do Janeiro de Grandes Espetáculos deste ano 2017 (Melhor Diretor: Rudimar Constâncio; Melhor Atriz: Célia Regina Rodrigues Siqueira; Melhor Atriz Coadjuvante Vanise Souza; Melhor Sonoplastia ou Trilha Sonora: Samuel Lira; Melhor Iluminação: João Guilherme de Paula e Melhor Maquiagem: Vinicius Vieira.


20- New York

Quando cheguei pela primeira vez a New York me senti em casa em meio uma cidade Atlântica, no bricabraque inesgotável de surpresas; senhor de uma unidade segura, misto de Brecht e Fellini. Eu e meus amigos alugamos um carro que nos levaria On The Road pela Costa Leste até Fort Lauderdale, antes a maçã estava ao alcance dos nossos dentes. Longe das minhas aulas (que me lembravam um drama paralisado de Tchekhov). A Times Square simbolizava para mim um bando ameaçador de propagandas luminosas. Procurei um bar e tinha um garçom, trouxe-me bebida. Olhei para mim nos espelhos e saquei que era melhor andar pelas ruas, seguindo um roteiro que traçamos. Clube sinistro, inconformismo conformado. Os camelôs, os transeuntes... moíam frases

 

desconexas. Senti-me meio freak naquelas, numa espécie de peregrinação desencantada dias adentro a falar inglês. O Brasil, lá longe, ficou pianinho, no sótão de nós mesmos, fim dos anos de trambolho em trambolhão. Senti a umidade de gruta, de aço e vidro, secreto nevoeiro.

Ah, escrever é como fazer respiração artificial com as palavras, mastigá-las como um camelo. Já tinha viajado para tantas cidades, senti minha vida virar do avesso. É foda ser humano. Entre as árvores do Central Park, um bando de gays riam em frenesi como gatos ávidos de uma doçura magoada. Umas putas se ofereciam e lembrei quando perdi a virgindade numa pensão barata, e descobri que o amor às vezes exige antibióticos. Senti-me pré-histórico. Aquela cidade me pareceu um túnel oco que precisava preencher com minhas exigências e evitar qualquer desesperança. Uma garota com soutien cor-de-rosa perguntou se nós tínhamos fogo, ela parecia uma loba romana.

Quando amanheceu, a certeza do vazio me invadiu. Fomos a uma galeria de arte, depois; uma palestra de Norman Mailer; senti-me desorientado como formiga sem bússola; como existisse apenas no passado, existência exterior, uma substância viscosa. Meus passos afundavam perplexos, sem destino. Na noite do outro dia, fui a um clube, dançar, o porteiro parecia um Mefistófeles sarcástico. Divertimo-nos um pouco. Os prédios, quando saí, seriam pesar às minhas costas. Eu sofria por ter perdido um grande amor, no Brasil. Parecia um espectador extasiado com meu próprio sofrimento, mas ele madruga de ruas e avenidas e conhecidas, num passo lento de vaca sagrada; no quarto do hotel, o colchão não sabia o jeito do meu sono. Vontade de vomitar até ficar vazio de mim mesmo; saí sozinho no 3º dia. Fui ao Metropolitan Museum, depois até uns points onde os autores Beatniks, que curto ainda, se encontravam. Olhei-me aos espelhos dentro do copo de uísque, às 6 da tarde. Aquário de álcool, bom bar. A cidade parecia um filme de Tim Burton. Entrei no teatro e assisti ao musical Sunset Boulevard, estrelado por Glen Close. Eu parecia combater o inelutável. Os dias passaram rápidos e nos divertíamos. Eu tentava descobrir a cor verdadeira da alegria, de quem pode morrer dali a pouco, entre o vermelho, o verde das paixões terríveis. Subi no prédio, o mais alto e observei Big Apple com binóculos. Parecia um cenário de plástico de um cenário de plástico de um carnaval frustrado. 3 dias depois pagamos o hotel e seguimos de carro estrada a fora.

 

26-Pirâmides no México


Encontro no México, com um professor da Universidade da Colômbia.


Moisés estava em Teotihuacan, que já foi considerada a maior cidade da Mesoamérica, com uma população estimada de mais de 125 mil pessoas, antes de Colombo invadir as Américas, e é um dos complexos arqueológicos mais importantes do México, com um colega de profissão, professor da Universidade da Colômbia, que fez pesquisa sobre o Recife, Salvador e cidade do Rio de Janeiro, Moisés teve certo entrevero.


O papo passava sobre a origem de Teotihuacan e a impossibilidade quase de se definir com exatidão qual civilização iniciou aquela construção, a data de fundação de Teotihuacan. Alguns afirmam que a cidade começou a ser construída antes da era cristã, enquanto outros dizem que a cidade teve início após o primeiro século. Moisés falava sobre não se saber ao certo quando e de que forma Teotihuacan chegou ao fim, estima-se que a cidade tenha sido abandonada por volta do século XII, repleta de mistérios e como sua origem, desenvolvimento e fim são incógnitas, ao que o outro professor, emendou com observações sobre o que ele entendia sobre uma cidade multiétnica, como era a de Moisés, o longínquo Recife, no caso de Teotihuacan ela foi habitada por diversos povos distintos e, séculos depois, misteriosamente abandonada e destruída, supostamente por seus próprios habitantes, numa “decisão sábia”, segundo o colombiano.

Aí, de repente, veio à tona a discussão sobre a burguesia, e o colombiano tornou-se frívolo e cínico, longe da conversa anterior sobre o ser

 

épico nas civilizações pré-colombianas, ou de uma espécie de herói positivo e sobre a busca obstinada por uma vida autenticamente livre, quando o professor estrangeiro soltou: “o homem é uma paixão inútil, Deus não existe, só o homem engajado pode viver bem, os recifenses, por exemplo são execráveis no que diz respeito à justiça social e eu não sei se os mais alienados são os ricos ou os pobres na capital de Pernambuco; então eu posso dizer que se os pobres tivessem deixado os senhores para trás e ido, todos para a resistência dos quilombos, se juntado aos índio, tudo teria sido bem melhor; o que salvou o México foi ter havido mais trabalho forçado do que escravidão em meio ao massacre descarado espanhol”.

Houve um silêncio daqueles que precedem a tempestade. Moisés tentou entabular conversa sobre ateísmo e os rituais, e sobre o “desaparecimento” do Império dos Teotihuacanos, questionando, ao olhar para elas, as ruínas da antiga cidade, como foram ocupadas, tempos depois, pela civilização Asteca. Os Astecas consideravam o local sagrado e acreditavam que a construção tinha sido feita por gigantes. Boa parte dos estudos sobre a civilização Teotihuacan foram feitos pelos Astecas, naquela área a apenas 48 km da capital. Teotihuacan, a cidade dos deuses (no idioma náhuatl).

Daí, voltaram à discussão sobre filosofia, primeiro no topo da pirâmide do sol, depois caminhando pela calçada dos mortos, em direção à pirâmide da lua, quando o colombiano, bebeu algo de um cantil, Moisés supôs que fosse água, mas era uma delicada beberragem à base de peiote. Moisés, que já participara, ao sul daquele país, de um ritual com uma tribo e o Xamã lhe disse coisas que o impressionaram, tentou voltar à conversa que enveredou para a discussão sobre as chamadas “lutas sociais” e sobre os pré-colombianos, a libertação humana, a ideia de Deus, a mudança nas condições sociais e culturais do homem. Mas o colombiano queria falar sobre o horror que presenciou no Recife.

De repente, veio a angústia forte em Moisés, espécie de angústia ética que lhe era comum diante do preconceito de certa gente que se acha detentora do saber o que é melhor para o mundo, como aquele professor fazia ali, a fazer comentários sarcásticos, como aqueles antes de um brinde em reuniões, festinhas, quando todos riem de maneira hipócrita, brindam e bebem. Para

 

Moisés buscar a verdade é tudo, é preferir o ser a tudo, mesmo sob forma catastrófica, buscar a dimensão social e histórica do homem. Moisés deduziu, talvez errando, que o colombiano pensava que ele fazia parte do grupo de brasileiros que estavam mergulhados em desesperançado quietismo, ou pelo menos do grupo que quer que os pobres, ou alienados, ficassem assim, pois era conveniente para muitos; o colombiano disse que o “penso, logo existo”, para ele, era conhecer-se conhecendo os outros. Mas o que significa “a” verdade e o que era “a” ação? Se a existência precede a essência, o ser nasce só matéria e depois aprende, inicialmente o bebê é o nada que vai se tornar, aprendendo, ali é apenas o que terá que elaborar, quando puder, o seu projeto de vida, tomar posse do que é, ser responsável por todos os homens. Por que não há uma mudança no comportamento dos recifenses/ brasileiros em busca de respeito mútuo e por uma civilização menos ladra? Isso não causa constrangimento a você, caro professor Moisés? E continuou: “eu acho que Abraão, por exemplo, da cultura judaica, poderia questionar se o que viu era mesmo um anjo de Deus ou... sei lá, alucinação psicológica. Ele queria que a humanidade se orientasse por aquele seu ato? O de matar o filho... quer escolha! Vocês, brasileiros escolheram voltar ao tempo da Ditadura Militar e usam o nome de Deus para justificar seus egoísmos, seja no clã familiar, seja nos âmbitos das ambições egoísticas. Oh! Por favor, Deus é uma hipótese custosa e inútil. Vamos suprimi-la. Moisés moveu outra sugestão: nada mudaria Deus não existindo, mas os homens teriam que celebrar, como lei, a igualdade social”.

Moisés revidou:

-“Ah! Então Deus é uma hipótese ultrapassada? E essas ruínas mexicanas, são o quê?”

-“Poupe-me há está escrito em lugar nenhum, que o bem existe! Os súditos construíram porque os chefes mandaram, eles eram condicionados a isto. Não existe determinismo, o homem é livre, ou homem está condenado a ser livre. Os brasileiros se dizem muito sentimentais. Mas o poder da paixão é mentira e mascara outros males. O homem está condenado a inventar-se. O futuro é virgem!”

-“E o que você aconselha, então?”

“Se peço conselhos não quero um padre, procuro alguém bem

 

sucedido, não procurarei quem não conheço, não acredito na bondade humana. O homem não é nada mais que o seu projeto.”

“E o amor?”

“O amor se constrói, pois só a realidade é o que conta”


Paixão de Cristo, de José Pimentel (Olinda, 2019), com Hemerson Moura (Jesus) e Jomeri Pontes (Anás)

Em 2019, Moisés Monteiro de Melo Neto envolveu-se em mais uma polêmica ao interpretar, pela quarta vez, o personagem histórico Pôncio Pilatos, governador da província romana da Judeia do ano 26 d.C. até o ano 36 ou começo do 37 d.C., desta vez dirigido pelo premiado José Francisco Filho, que já dirigiu algumas peças de Moisés, dentre elas Anjos de fogo e gelo. A produção de Lilian Pimentel e Mísia Coutinho incomodou um antigo sócio de José Pimentel, autor do texto e da concepção geral do espetáculo há muitas décadas. Houve muita confusão e processos judiciais envolvendo o ex-sócio do mais longevo ator no papel de Cristo na história do teatro mundial. A Prefeitura do Recife ficou ao lado do ex-sócio, que se aproveitou disso para cometer alguns atos que, num outro contexto poderia prejudicá-lo bastante. Moisés fez comentários nas redes sociais e desencadeou intrigas da oposição. O caso foi parar na imprensa.

Por outro lado, voltar aos palcos não foi tão interessante quanto Moisés pensava. Ensinando em duas universidades fora do Recife, ele não teve tanto tempo para os exaustivos ensaios que o novo diretor exigia. Dois atores resolveram atacar Moisés, o que o desgastou bastante. Ficou na dúvida se continuaria no espetáculo ou não. A figura de Pilatos, que conhecemos pelo evangelho, é a de uma personagem indolente, que não quer se enfrentar com a verdade e prefere contentar a multidão; sua presença no Credo é de muita importância porque nos lembra que a fé cristã é uma religião histórica e não um programa ético ou uma filosofia. Pilatos caiu em desgraça, junto ao imperador romano Calígula e, cometeu suicídio por volta de 37 d. C. Por outro lado, não se

 

sabe ao certo como ocorreu sua morte porque, conforme o apócrifo do Novo Testamento “Atos de Pilatos” (conhecido como Evangelho de Nicodemos, escrito provavelmente no séc. IV) a responsabilidade sobre a condenação de Jesus recai sobre os judeus e, o papel de Pilatos é minimizado. Por causa de tal escrito, nas igrejas Ortodoxa e Ortodoxa Etíope ocorreu uma reabilitação de Pilatos, conduzida ao ponto de sua canonização, juntamente com sua esposa, Claudia Prócula; ele executou grandes obras na época e teve seu nome gravado na história como pivô da trama que resultou na morte do líder do Cristianismo. Pilatos seria o único que poderia ter salvado Jesus; sua mulher Cláudia, aderiu à causa cristã, a cena entre os dois é uma das mais inquietantes do espetáculo; é neste cenário que acontece a flagelação do Rei dos Reis. Outra cena de grande impacto é a da Bacanal de Herodes, cheia de dança e cor, com uma impressionante coreografia cheia de efeitos. A peça promete ser uma atração para toda a família e irá relembrar a trajetória de Jesus Cristo nos seus últimos dias.

Bastidores da Paixão de Cristo, Moisés Monteiro de Melo Neto no papel de Pilatos; Paixão de Cristo de José Pimentel

Moisés foi firme e a estreia aconteceu em frente à Igreja do Carmo, em Olinda, dia 18 de abril de 2019. A Prefeitura do Recife, na demora para dizer que não apoiaria o espetáculo de Pimentel, só deu a resposta ao pedido da produção dele, faltando pouquíssimos dias para a estreia e só o fez através da mídia. Havia muita tensão nos bastidores, por vários motivos. Milhares de pessoas aplaudiram o trabalho em questão. O prefeito de Olinda disse que colocaria o espetáculo no calendário oficial da cidade. Às vésperas da estreia, o galpão que

 

abrigava o cenário foi invadido e pessoas, sem autorização legal, roubaram as cruzes e os elevadores de Lilian, o que prejudicou bastante a montagem, que estreou sem cruzes! Outro personagem que trouxera Moisés de volta aos palcos como ator foi o de Franz Kafka. Kafka (1883-1924) se conectava à vida pela escrita. Mas, encarava a dura rotina de advogado empregado numa seguradora. Seu ideal era ser escritor em tempo integral. Esse judeu tcheco, tuberculoso, sofria a inclemência da vida numa Europa intolerante e antissemita. A Última Noite de Kafka, texto de Claúdio Aguiar, ficcionou os derradeiros momentos da existência do escritor, alternando estado de lucidez e delírio, quando ele repassa sua vida e dialoga com alguns de seus personagens. A peça de Aguiar, com direção de José Francisco Filho também se apresentou no Teatro Hermilo Borba Filho, no Bairro do Recife. No elenco estavam os atores Manoel Constantino e Moisés Monteiro de Melo Neto. A apresentação integrou a programação do 22º janeiro de Grandes Espetáculos. Em março de 1924, a tuberculose laríngea de Kafka piorou. Em 10 de abril, ele foi para um sanatório perto de Viena. O texto de Cláudio Aguiar, escrito em versos, constrói a peça justamente neste ponto, quando o dramaturgo Cláudio Aguiar o flagra num delírio onde mistura sua vida e obra. A causa da morte de Kafka aparentemente foi fome: a condição da garganta fez com que comer se tornasse uma atividade muito dolorosa para ele. Não havia meios de alimentá-lo. Naquele momento, ele estava editando Um Artista da Fome, no seu leito de morte, conto cuja composição tinha sido iniciada antes da sua garganta se fechar ao ponto dele não mais poder se alimentar. Ele morreu no dia 3 de junho de 1924, em Klosterneuburg, na Áustria. Sua escrita captou a opressão que se instalou no século XX. Quase 100 anos depois da morte do autor de A Metamorfose (1915), O Processo (1925), O Castelo (1926), O desaparecido ou Amerika (1927). Moisés tem a opinião de que prosseguimos uma existência cada vez mais kafkiana.



Moisés Monteiro de Melo Neto em A última noite de Kafka

 

A interpretação de Moisés, que dividia o palco com Manuel Constantino, esteve em cartaz no Recife e no Rio de Janeiro, recebendo elogios houve algumas apresentações no Rio de Janeiro.


Convite para A ÚLTIMA NOITE DE KAFKA, no Rio de Janeiro, autografado pelo autor Cláudio Aguiar.


Na poesia, encontramos o seu lado simples e despojado, mas que não perde em sofisticação. Sua poesia é sensorial e intimista, revelando um autor romântico e sonhador, que faz da nossa capital o grande cenário para as suas histórias. Percebemos em sua poesia uma cidade cheia brilho e cores, uma cidade repleta de nostalgia que reflete em seus monumentos vestígios da arte e da cultura do povo.

 

21-Epílogo


Moisés sempre foi um catalisador de ideias que faz com que seus sonhos se tornem os sonhos das outras pessoas; é assim que podemos descrevê-lo. Como professor, Moisés Monteiro de Melo Neto transforma o universo do aluno, faz uso do cinema, do teatro, das grandes obras literárias para motivá-lo e fazer com que ele embarque na grande viagem que se chama conhecimento. Incentivando e proporcionando chaves para que eles abram as portas da vida.

No teatro, vemos o professor se transformar no artista. Mesclando literatura, cinema e música, o autor usa os signos teatrais para mostrar a sua visão através das artes. Encontramos ao seu lado ousado e multifacetado, o artista criativo e inquieto que reverencia o clássico e flerta com o contemporâneo. Abordar um tema nos seus mais diversos ângulos, aí está o grande segredo de sua obra.

Às vezes não me reconheço, caro leitor. No que faço e no que escolho. Seria um bom começo brincar comigo mesmo e no fim encontrar o melhor de mim. Mas, nem sempre é assim. Posso dizer que estou entre o sonho e a dureza da realidade. No entrelugar. E neste momento declaro que me sinto lisonjeado por essa troca. Moisés me disse que eu fosse menos problemático ao falar sobre ele. Moisés se acha uma pessoa simples, sem grandes mistérios. Se diz apenas um cara que gosta de ler muito e escrever muito. Que fez do teatro e da Literatura os seus lares mais queridos. Diz que desde os 8 meses de idade conheceu a morte (por desidratação, sua mãe secou o leite dos peitos e lhe deu leite preparado, mas não lhe deu água suficiente; a partir daí, Moisés morreu centenas de vezes e renasceu na fé, na arte, sob o signo de Marte (Áries), nascido no 27 de março, dia internacional do teatro, do circo. Moisés? Literatura pulsando. Moisés: a invenção ambulante do que é ser e estar nesse planeta em busca de amores sinceros e desinteressados.

 


 

Moisés continua na estrada, recentemente passou temporada em Tanger, Marrocos (acima) e Amsterdam (abaixo).



Elenco de "A Paixão", espetáculo inédito que estreia no Recife - Foto: Divulgação

 

CARTAS


Cara Mísia,

 


Amsterdam, junho de 2022

 


Para chegar até Amsterdã foi necessário um esforço hercúleo, mas os sinais começaram a aparecer, mais uma vez. Muitos de tudo que foi possível. Tentei passar bálsamo na ferida. Tentei; não: passei.

Nossa negociação com o amor e tempo, a vida e a morte, é intensa e não permite paradas. Todo o nosso conhecimento está em nós, o tempo todo. Lembre-se de uma coisa: você pode tudo e o que você não puder, que não seja porque você não tentou.

Pegar aquele avião não foi fácil, mas claro que devemos extrair da vida o melhor que ela tem a oferecer.

Saí do Brasil. Tracei um plano e o pus em prática. O grande arquiteto me oferecia mil possibilidades e eu não poderia vacilar. Havia em mim uma vontade soberana de não ceder. Ser sincero comigo mesmo. Tenho comigo uma espécie de magia quer não sei manipular, mas não dava para entender completamente, mas vou tentando. Sempre curti a estrada, mas sempre o primeiro passo em outra direção exige esforço. Saber conjurar os elementos e partir, sempre.

Quando cheguei Portugal daquela vez eu trazia dentro mim uma tremenda inquietação. Todos os instantes que eu tinha vivido latejavam.

Cheguei ao hotel New West Inn, que ficava na Reimerswaalstraat, 5, 1069, AE, Amsterdã, países baixos, fone 31 20 410 8000. O motorista num carro de último modelo, asséptico e moreno, levou-me ao hotel. No caminho havia flores na gama à beira da estrada e torres eólicas. Jenny, a recepcionista, foi de uma gentileza acolhedora que me acalmou instantaneamente. Ao lado dela estava o chef Mohamed.

Paguei a taxa de permanência por uma semana, comprei um cartão para ônibus e trem. Subi ao meu quarto 612 e desfrutei de uma alegria ímpar que é a que um viajante sente quando chega a um quarto muito bom. Jenny me avisara na recepção que não precisava comprar água. Ali bastava tomar a de torneira.

 

Para um brasileiro isso parecia tentativa de suicídio.

Depois de lavar, o rosto desci para uma deliciosa refeição (frango, com batata frita e salada de alface com tomate e uma cerveja com forte teor alcoólico). Liguei para uma grande amiga, minha a professora Francisca, sertaneja do Maranhão e transmiti a minha súbita felicidade. Ele trabalha comigo em uma universidade, onde ensino.


Com as professoras Eliane e Francisca, encontros animados

 

Voltei ao quarto e liguei para Mônica Cordeiro. Amiga minha que mora em Amsterdã com a filha e os netos agora são três de manhã de segunda feira. Há uma lua cheia no céu do dia 13 de junho de 2022. Pela manhã, terei uma visão melhor de cidade que me chama para visitá-la, faz tempo às 4:30 o céu ficou azul novamente.

Mônica me avisara que eu cheguei no dia mais quente do ano até então, 12 de junho, em um domingo.

Na manhã da segunda-feira, 13 de junho, dia de Santo Antônio, peguei um bonde para o centro da cidade, queria tomar sol. Andei um pouco e fui parar no museu Van Gogh. Arrepiante ver aquela coleção; fico sempre comovido com a visão de um mestre como ele.

Um quadro comoveu-me por demais. Era uma senhora idosa: Van Gogh captou o olhar da velhice. Fiquei alguns minutos e saí do museu um tanto ligado àquelas imagens. Na praça em frente, havia muita gente na grama e eu pus-me a conversar com um cara sobre os beatniks. Ele tirou umas fotos minhas e trocamos contatos no whatsapp.

Como estava ali, resolvi entrar logo no Rijksmuseum. Não dá para não passar umas ótimas horas para ver de perto obras-primas daquele porte. O próprio prédio é um espetáculo à parte.

Meu colega novo, deu-me uma dica para ir ao endereço Oudezijs Achterburgwall, 148 (os nomes são impronunciáveis para quem fala apenas português, inglês e entende espanhol): o Grass Museum. Contou-me coisas engraçadas sobre lugar.

No segundo dia, não resisti e falei com o povo do Recife, minha cidade. Não deveria ter feito isso: parece que o contato pela internet me trouxe toda aquela carga de volta. Tomei um café à beira do canal, um café à beira do canal, em frente à Central Station e peguei um barco para uma entediante trip pela cidade. Conheci duas portuguesas engraçadas: Flávia fez-me rir e falou-me que eu deveria ir a um coffee shop, nome que indicava uso liberal da erva. Disse que me e marquei para depois. Eu não estava tão disposto. Voltei ao hotel em que estava hospedado, às 22h, o céu estava azul e a lua cheia. Jantei no restaurante do hotel, Mohamed serviu-me a especialidade do local. Um frango com um molho apimentado.

 

Recebi uma mensagem pelo Whatsapp, já do Brasil um colega convidando-me para quando eu voltar, uma visita ao Canyon do Rio São Francisco. Seria bom que fosse para San Francisco, Califórnia. Novamente o tédio apossava-se de mim. Não deveria me comunicar assim com colega e amigos. Mas eu estava atraído pelo telefone como uma mariposa pela luz do fogo que a queimaria. That´s the way...


Mantive contato com professores da Universidade e fui ao teatro com eles, por que sofremos? Era o que eu me perguntava. Por que ficar pensando sobre o pensamento alheio sobre nós? Ninguém tem esta importância. Em pouco tempo, poucos dias, o frenesi amsterdanense me exauriu. Ver aquele interminável desfile de final de primavera. A passarela da primavera – verão e seus modelos masculinos e femininos sentar... o que mais? Ora: sentar na calçada de um Café e olhar aquela gente passar. Conhecer algumas pessoas que eu são travellers.





Rolê em Amsterdam

 

O canto mais limpo ou o mais “sujo”, revelava uma velada imponência. A Europa branca. Amsterdam. A negritude muito forte, mesmo, em fronteira. Os árabes. Os alemães, austríacos, os jovens vikings, na cidade da marca judaica da mais imponente Igreja protestante (ao lado da “casa” de Anne Frank). Sinto no ar um pouco do sotaque de Calvino, economia com teologia.

Ele que repudiava o nome pro-tes-tan-tis-mo.

E você, como está?

Abraço, Moisés


Chegando ao Recife, Moisés foi assistir a uma montagem do grupo de teatro recifense Magiluth, que ele aprecia e deixou uma mensagem para ser entregue a eles: “Tanto se jogam aos pés de vocês, pensando não estamos ao léu. Vocês atingiram o orgasmo conosco & vice-versa, neste. Ver o Hamlet (antihamletpharmakon neon) que vocês fizeram provocou tantos gatilhos. Sinto bem como escapar. Grato, rapazes: vocês provocam a autoestima nesse palco recifense. Dinamarca: aqui jazz”.


(XVI) Mais uma carta (e-mail)

04 de abril de 2024.


Caro amigo da vida toda,


Espero que estas linhas, um tanto mal traçadas pela aflição da rapidez dos instantes que passam, lhe encontrem bem, com saúde e em paz.

Hoje, dia 04 abril de 2024, começou o outono. Se é que podemos usar essa palavra aqui em Recife, esta terra sem estações definidas, entre outras tantas indefinições.

Fui acordado ainda há pouco, por volta das 7h30, pelo estrondo fortíssimo de um trovão, cujo epicentro assustou a muitos em várias localidades, assim como foi destaque na mídia local.

Logo depois, recebi uma mensagem em áudio de um amigo próximo,

 

que mora na Rua dos Navegantes, quase à beira-mar da praia de Boa Viagem. Ele comentava surpreso que o ar tinha voltado a ser perfumado e fresco, às 7h30 da manhã, e ele havia gravado um forte barulho de chuva (ele mora no quarto andar de um edifício) e a água caindo vigorosa por sobre as calçadas. Aquilo deixou-me feliz, por ele, por mim, por Boa Viagem que eu gosto tanto.

Logo a seguir, o caríssimo José Francisco filho também enviou uma mensagem dizendo que o trovão lá em Boa viagem – eu escutei daqui na Boa Vista – tinha acordado White, o seu gato, que ficou assustado com o barulho. Eis que começara um dia atípico de fato.

A seguir, uma amiga ligou, falando sobre um convite para assistir a uma fala do Presidente Lula e da Ministra Margarete Menezes no Teatro Luiz Mendonça no Parque Dona Lindu, que Lula construíra durante um dos seus mandatos, e que levava o nome da mãe dele. As edificações do Parque foram algumas das últimas projetadas pelo renomado arquiteto Oscar Niemeyer.

Essa amiga me convidava para encontrar com o Presidente Lula. Não foi a primeira vez que recebi esse convite. Eu já havia recebido uma outra vez para vê-lo falar no Teatro do Parque, próximo ao meu apartamento aqui no bairro da Boa Vista. A minha amiga disse que daria uma resposta definitiva até o meio-dia e a resposta foi negativa.

Nas redes sociais, a atriz Augusta Ferraz publicou que, mesmo sendo uma conhecida artista de esquerda, também não tinha sido agraciada com o convite desejado.

Em seguida, eu vi pela televisão a poeta Cida Pedrosa, ao lado do prefeito João Campos, correndo em direção ao Presidente Lula, trazendo em mãos um exemplar do livro de sua autoria, ganhador de uma das últimas versões do Prêmio Jabuti de Literatura, chamado “Araras Vermelhas”. Ela entregou o exemplar ao Presidente, que se bastante interessado pelo presente.

Foi um dia estranho. O dia 04 de abril que marcou o início do outono de 2024. Foi um dia muito inquieto para a minha mente, para os meus trabalhos. E eu tinha em mente a minha que estava sendo concluída, e que iria ser publicada de um modo ou de outro.

Aquilo me fazia andar pelas ruas do passado. Pelos montes, pelos mares, pelos ares, de tantas viagens, de tantas jornadas. De tantos amigos,

 

ilusões, incertezas, vitórias. Eu acho que de certa forma quase todas as minhas vitórias foram amargas, tirando fora uma dúzia delas.

Eu consegui tudo o que queria. Eu me casei com a pessoa que eu sonhava em um dia casar, mas eu acho que o meu Eu nunca ficara satisfeito com a realidade. Eu sempre tinha muita ânsia de fazer tudo o que a minha mente me permitia.

Meu corpo também sempre quis experiências muito intensas. O fato de eu ser cigano, desde muito criança, sempre me fez olhar o mundo com essa ótica.

Em um determinado momento da minha vida, eu me imaginei como um cowboy, mas não um cowboy qualquer. E sim como aquele cowboy que Andy Warhol pintara Elvis Presley. Isto de alguma forma me faz lembrar da minha avó materna.

A minha avó adorava quando eu chegava na casa dela – eu ia muito lá -, ela morava em Boa Viagem e eu morava em Campo Grande. Eu saía com uma mochila nas costas para a casa dela, sem avisar, muitas vezes, porque não havia telefone. Isto era nos finais de semana, porque durante a semana, eu a encontrava no trabalho dela.

A minha avó Diomar Di Belli era contadora de uma firma de peças para máquinas. A firma era muito grande. Às vezes, eu ia lá. E era tão engraçado. O lugar parecia aqueles escritórios que vemos nos filmes cuja história se passa no século XIX ou início do século XX. O escritório ficava na Rua da Palma no centro do Recife, na mesma rua do Cinema Arte Palácio, no bairro de Santo Antônio.

Quando eu chegava na casa da minha avó carregando a minha mochila, a minha tia-avó Terezinha Di Belli, que era minha mãe adotiva, não dizia nada. Sempre havia uma manicure nos finais de semana. A minha tia Terezinha manteve este hábito até o final da vida em 2022. E quando eu chegava, a minha avó, sempre muito prática, olhava para mim e dizia:

- Lá vem o bandoleiro!

E sobre a minha mania de querer partir momentaneamente, subitamente, ela fazia semelhante comentário:

- Lá vai o bandoleiro!

 

Eu nunca esquecerei do jeito que a minha avó me abraçava. Ela me protegia de tantas intempéries, ao modo dela. A minha tia e mãe adotiva Terezinha Di Belli era mais fria, olhando-me com aqueles olhos azuis brilhantes que ela tinha. A minha mãe Célia só conseguiu me proteger quando me viu envolvido nesta maratona que quase acaba comigo.

Nos anos 80, ela levou-me ao morro da Conceição, trazendo-me de volta para o catolicismo. E lembro que a minha também me levou a uma benzedeira chamada Julita. O que a minha mãe combinou com essa benzedeira, representante da religião de origem africana, eu nunca soube direito. Eu revi Julita algumas vezes e ela me deu alguns “conselhos”, digamos assim. Outras pessoas ao longo da minha vida cumpririam o mesmo papel de Julita.

A virgem da Conceição tem o seu dia comemorado na data de 08 de dezembro. Eu sempre costumo ir ao morro da Conceição numa espécie de reverência perpétua a este ícone da minha existência que é chamada de Nossa Senhora. Sim, eu sou um devoto.

No mais, eu tenho lido muito. E nos últimos tempos, eu tenho escrito ainda mais. Eu nunca me considerei um escritor profissional, embora eu tenha ganho um certo dinheiro na vida com isso e até alguns prêmios.

Mas a vida da universidade como professor adjunto de 02 universidades estaduais, essa vida acadêmica me obriga também a publicar. Há algo também na universidade que muito me inquieta. Eu falo dos cargos “extras” além de professor. Cargos de coordenação, disso e daquilo. O meu diálogo com os alunos e a maneira como eu os ajudo, isto eu acho o mais importante. Até porque essas outras atividades, há dezenas de professores que sabem fazer muito bem. Eu sou um professor no sentido antigo da palavra. Muito antigo.

Este início de outono é também o início do outono na minha existência de jovem ancião. Eu não consigo ver o tempo passando rápido. Para mim, o tempo sempre passou muito devagar.

A doença que se abateu sobre mim logo na infância, nos primeiros meses de vida, se arrastou como um estigma, para no final se transformar em um dos motivos principais da minha vida.

Eu beijei muito. Fiz muito sexo. Tive amantes, namoros, mas nunca

 

consegui dividir por completo a minha ânsia pela vida. Tantas pessoas me marcaram. Eu me dei a tanta gente. Eu me entrego ainda hoje a tanta gente.

Eu fui ator. De cinema, vídeo, teatro. Mas principalmente, eu fui um poeta em tudo o que eu fiz. Um poeta ingênuo que não quis fazer da sua poesia um cálculo como deve ser a literatura. A literatura é um cálculo, mas para mim é muito mais que uma religião. Sou eu. Enterrado vivo na literatura.

Dede cedo, eu conheci o centro da terra; a casa de Usher; a Transilvânia; as tribos de Iracema, Ubirajara; A casa de GH, o apartamento Água-Viva; as mansões de Agatha Christie; as ruas de São Petersburgo com Dostoiévski; a Inglaterra de Shakespeare, a Itália de Shakespeare, os lugares de Shakespeare.

Os meus amigos da adolescência, Rejane e Leandro; Marco Hanois, pintor e cineasta com quem eu trabalhei; Henrique Amaral; Augusta Ferraz; Simone Figueiredo; Mísia Coutinho; o fotógrafo Adeílson Amorim; o cantor Gê Domingues, para quem eu compus várias músicas, Blues; tanta gente que ficou comigo em tantos lugares.

As viagens que eu fiz ao exterior com amigos professores, alugando um carro em Nova Iorque e descendo até o sul da Flórida, onde fiz um estágio. Ai, meu Deus! A visita a Cuba com um grupo de recifenses ao lado de Simone Figueiredo; Israel, com um advogado amigo meu do Uruguai; tantos lugares longe. A caverna de Hércules em Tânger. Os bares beatnik em Tânger. Cabo Verde e agonia tão intensa de perder um cartão de crédito, sem ter o aplicativo, o VISA.

A agitada Amsterdam. Os planos de Ir a Hiroshima. Para quê? Por que eu viajo tanto? O que eu quero em Hiroshima? O que representa eu para Hiroshima ou Hiroshima para mim? Para que eu saia do meu lar cheio de inquietude. Desloco-me para tão longe. Japão de Mishima e outros escritores que eu gosto.

“Boa Romaria faz quem em sua casa fica em paz.” Paz, paz mesmo.

Sim, eu já estive em paz. Mas a minha busca frenética não me permite tanto.

Como diria Drummond ou parafraseando Drummond, eu diria: a minha Juventude hoje é só um retrato na parede. Mas como dói. Tantos cinemas, tantos teatros, tantos museus, tantas praias, tantas paisagens bonitas. Caminhar por Machu Picchu; caminhar por Pompeia; caminhar pelo Vale dos Reis; as

 

pirâmides do México; banhar-me no Caribe; dançar numa boate em Londres com Simone; temporada em Paris no apartamento que Mércia Rocha arranjou emprestado para a gente bem pertinho da Gare du Nord; estar no salão de baile de Versailles; a casa de Rembrandt na Holanda; no luxo de Haia sobre o mar holandês; Rotterdam; Lisboa tantas vezes; passear por Veneza.



Moisés, Paris, 1996


Moisés, Pompeia

Sim, comprar imóveis. Tudo isso eu fiz. Outras coisas não me deram vontade. Já fui possuído por tantas almas, que eu chamo apenas de estados psicológicos, alter egos. a influência de Fernando Pessoa, tão fatal, tão recorrente na minha vida. “Quero aquele outrora! E eu era feliz? Não sei: Fui-o, outrora, agora.”

E depois, depois, depois...

O novo texto de Moisés foi à cena, com sucesso, a classe artística que assistiu aprovou, a mídia deu espaço

 


 

Semana Santa: espetáculo inédito "A Paixão" estreia no Recife (2024)

 


 

Elenco de “A Paixão”, espetáculo inédito que estreia no Recife – Foto: Divulgação

Inédito, o espetáculo "A Paixão", escrito pelo dramaturgo Moisés Neto com direção de Zé Francisco, estreia nesta quarta-feira (27), no Recife.

Ao todo, foram quatro apresentações, que se estenderam até o sábado (30), sempre a partir das 18h, na Igreja de Santa Tereza D'Ávila - Ordem 3ª do Carmo -, localizada na avenida Dantas Barreto, no bairro de São José, Centro do Recife.

Com duração de uma hora, "A Paixão" apresenta, num cenário sagrado, um Jesus nordestino, pernambucano, recifense.

Inicialmente, a ideia era mostrar uma Paixão de Cristo ambientada em meio à paisagem natural do Vale do Catimbau. Devido à pandemia, no entanto, os planos tiveram que ser modificados, e a produção artística escolheu para ser palco da encenação a Igreja de Santa Tereza D'Ávila, monumento barroco, Patrimônio Cultural Brasileiro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Autores como Nikos Kasantzákis, no romance A Última Tentação de Cristo, e José Saramago, em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, inspiraram a obra.

 

"Eu considero um dos maiores pensadores, embora tenha toda essa mística em torno dele, mas, antes de mais nada, eu acho que ele é um grande pensador, mas também como Sócrates não tivemos a palavra dele direta e, sim, através dos seus alunos, no caso dele, os apóstolos, Sócrates teve Platão, então essa paixão que eu tenho por Jesus é muito forte”, afirmou Moisés Monteiro de Melo Neto.

Já o diretor do espetáculo, José Francisco Filho, elogiou a produção: "É uma visão diferente dos famosos textos bíblicos, das Paixões de Cristo e tanto é que eu não botei Paixão de Cristo, coloquei 'A Paixão', e, no caso, é um tipo um acordo com o autor, evidente que tem todos os elementos bíblicos do espetáculo, porém ditos de uma forma diferente, colocados de uma forma diferente, transfigurados de uma forma diferente", explicou.

Na parte técnica, o sonoplasta Luciano Rudrox assina o projeto, enquanto o assistente de direção é Ricardo Vendramini e o iluminador, Jathyles Miranda. Confira, abaixo, o elenco da produção.

Buarque de Aquino - Herodes;

Flávio Freire - Antônio Conselheiro;

Ismael Holanda - Antônio Conselheiro 2;

Ibson Quirino - Jesus;

Roberta Marciana - Maria;

Alef Vidal - Soldado 1;

Wescley Mariano - Soldado 2;

Emerson Rodrigues - Pilatos;

Misia Coutinho - Madalena;

Ana Persi - Demônio.

Espetáculo teatral: A Paixão

Local: Igreja de Santa Tereza D'Ávila ( Ordem 3ª do Carmo)

Dias: 27 - 28 - 29 de março de 2024.

Horário: 18h

Ingressos: 1kg de alimento não perecível Texto: Moisés Monteiro de Melo Neto . Direção: José Francisco Filho .

 


Também em 2024, Moisés trabalhou como Editor da revista “Mimostre, danças urbanas” em dois números voltados para o break em Pernambuco. Eis o edital do segundo número, com o apoio do Funcultura (PE):

EDITORIAL

Nossa revista chega ao segundo número! Marcelo José da Paixão dá o seu depoimento obre a cena pernambucana do Hip Hop, as pressões, as relações entre as culturas. A força da Old School e o otimismo com a inserção da modalidade break nos Jogos Olímpicos em Paris, as relações entre classes sociais e o break. Marcelo também fala da estrada que trouxe o break ao Recife e como isso chegou até hoje, as trilhas e trilhos que seguem rumo ao futuro.

Trazemos também, nesse segundo número da nossa revista, uma conversa afiada com Reinaldo Nascimento, o Coroa do Pop, que mantém através das décadas com uma vibe muito forte: é o Pop na rua, na dança, Pernambuco embaixo dos pés e a mente na imensidão!

Nas nossas páginas você vai sentir as energias do DJ Beto e sua conexão com a Cena Break, seu som de alta voltagem, as batidas e as ligações das letras com a cena break, o breakbeat.

O DJ Nuno também nos dá sua opinião sobre os caminhos dessa cultura popular: altas histórias e aquele papo maneiro.

Outro com quem esta revista conversou foi o artista Edivaldo Nascimento da Silva Filho, o Alado, codinome que ganhou não por acaso: por sua agilidade, esperteza no exercício deste ritmo. Os desafios do break, a dança e a nossa realidade pe3rnambucana. Fala dos editais para essa categoria de artistas, da aprendizegem constante, o amadurecer de um b boy, do hip hop ser uma arte periférica e não uma coisa de fachada.

Esdras Jerônimo, o Eddy, que já é de uma geração mais recente, fala dos seus anseios, sua trajetória, busca de renovação, novidades e de um certo preconceito, ainda hoje, em relação a esses artistas da dança de rua.

E voltamos à presença feminina no break pernambucano, como fizemos no primeiro número, agora com a pioneira b girl Márcia, seu brilho inédito na cena local, nos icônicos anos 80, o apoio da Rádio Manchete e muitas outras histórias, tipo: os toca -fitas grandes de pilhas, reconhecíveis como

 

símbolo da dança de rua dos áureos tempos, as rodas de break, a marginalização e o brilho eterno da Old School.

Presenças marcantes neste segundo número da revista são, também, as vozes dos mestres Jailson Rodrigues e Luís Sabino (Gibinha) que revisam, com apuro de quem conhece do riscado, as histórias sobre o break na terra dos altos coqueiros, as raízes do movimento no Recife, as crews, o relacionamento de Chico Science e outros feras que começaram assim, a chegada da internet e as mudanças. O lance do break situando-se entre o atleta e o artista Uma conversa muito boa que você é convidado a participar, também.

Marcos Roberto Pacheco nos explica a importância da nossa memória em registro (muito importante), o lance dos campeonatos, a Ásia, o autodidatismo do break local, as relações sudeste- nordeste, esse entrelaçamento no break nacional, a new school, o territorialismo, as estrelas nacionais, o espaço Arteviva a figura inesquecível de Lourdes Rossiter.

O jornalista Marcos Dantas nos brinda com um artigo joia sobre a importância do break no cinema, influenciado e regando nossas roots, filmes como Beat Street e Breakdance. que sedimentaram os sonhos de uma geração. Traz à nossa lembrança verdadeiros heróis como Afrika Bambaataa, a importância de James Brown nos primórdios, além de outros fatos que merecem ser lembrados.


 

Vem com a gente que o segundo número está quente e... apertem os cintos: vai ser uma viagem sacudida! O Vivencial Diversiones, Grupo de Teatro Vivencial Ltda. Foi fundado em Olinda, Pernambuco e se dissolveu lá, também, em 1983. O início foi dentro de uma paróquia católica. Seu primeiro espetáculo, “Vivencial 1”, inaugurava a veia transgressora e contra-hegemônica do grupo, ao tratar de assuntos como homossexualidade, drogas e política, cuja repercussão provocou o rompimento dos monges da paróquia com o grupo. Sem recursos financeiros, o Vivencial transformava lixo em figurinos e materiais cênicos para seus espetáculos¹. Em 1979 fundaram o Café Teatro Vivencial Diversiones, que vivia lotado e expunha uma grande variedade do seu repertório artístico. Em 1983, por falta de investimento, conflitos internos e dissidências, fechou as portas do Café e nunca mais se apresentou. O Vivencial marcou a história do cabaré brasileiro, colocando em foco questões de gênero, sexualidade e política, em um momento de grande repressão da ditadura militar no país. Inspirou o filme “Tatuagem” (2003) e o espetáculo teatral “Cabaré Diversiones” (2015). Grupo de verdadeiros, irreverentes e marginalizados que ousaram enfrentar a repressão e diversas vezes sofreram represálias pela censura. Suas subjetividades eram a matéria prima de suas obras, e ecoam na cena expandida brasileira até hoje. No dia 26 de maio de 2024, o líder do Vivencial, o professor Guilherme Coelho, que convidara Moisés para escrever um texto teatral, baseado em ampla pesquisa e memória (já que nosso biografado, ainda menor de idade, frequentou o Café Vivencial), ofereceu ao público olindense, na Estação da Luz, de propriedade de Alceu Valença uma festa que reuniu tod@s.

A presidente do SATED-PE, Mísia Coutinho, Guilherme Coelho e Moisés, na festa dos 50 anos do VIVENCIAL DIVERSIONES, em um casarão de Olinda

 




Moisés com Américo, Albemar Araújo, Paulinho Maffe Fábio e Paulo, na badala festa dos 50 anos do Vivencial






A festa das Bodas de Ouro vivencialescas foi marcada pela irreverência. No centro da foto: Marquesa, veterano da empreitada que marcou época









Moisés com a viveca Lee Majors, altas horas, na festa icônica






2024 foi um ano intenso, na noite anterior à festa do Vivencial, Moisés e alguns amigos foram ao Teatro Guararapes assistir ao musical “Belchior”, cantor que marcou a juventude de Moisés.



Ibson, Roberta, Ana, Roger e Moisés na entrada do musical Belchior

 

Curiosidades

A ver seu amigo José Francisco Filho sendo aracado por um crítico, Moisés Enviou aos responsáveis por uma mostra de artes cênicas a seguinte postagem:


Dib, um lobo em pele de cordeiro

Com o texto “Um infantil à moda antiga: respeitemos os veteranos do teatro pernambucano”, Dib Carneiro, de 63 anos e uma alma de jovem iconoclasta, é tratado como um como renomado conhecedor de “Teatro para as infâncias”, do “teatro no Brasil como se fazia nos séculos passados”, mas que não abre mão para bater nos que sempre fizeram, “do jeito que sempre fizeram, apoiados no sucesso que sempre tiveram”, isso para ele é anacrônico e ultrapassado. É o que eles sabem fazer. Ele faz um tipo de crítica arcaica, na qual o que mais importa é o juízo de valor, apesar de disfarçar isso, de modo delicado afirmando que “trajetórias precisam ser respeitadas, e não simplesmente negadas e rechaçadas em nome de uma contemporaneidade que um dia também será coisa do passado”, mas que ele exerce tal escritura, escridura, como diria Roland Barthes, com indisfarçável sabor ditatorial.

Num texto cheio de clichês, esse senhor de alma ultrajovem, como diria Drummond, não quer dizer, mas diz, que “todo mundo adora falar que o Brasil não tem memória, pois os veteranos do teatro que ainda seguem em atividade, pelo que eles já trilharam em suas trajetórias, pelos caminhos que eles abriram para que as renovações pudessem ter sido feitas” (SIC).

Usa como exemplo de falta de “atualização”, dentro da perspectiva dele, José Francisco Filho, diretor do espetáculo, Seu Sol, Dona Lua, que recebeu da Apacepe, de melhor diretor de espetáculo infantil, em 2024, de um artista que não sabe “apontar caminhos e apostar em ousadias”, dizendo que o tal diretor aposta em “linguagens antigas, ainda que consagradas” (imagine os gregos clássico, para dizer o mínimo). Sentado num trono onipotente feito de trono da mais fina transmodernidade, Dib (será apelido?) questiona a inclusão dessa peça na programação do Palco giratório 2024, promovido pelo SESC, que deveria só trazer somente uma “uma linha de pensamento como a dele, é claro, que é absolutamente contra quem “reproduz modelos já superados como

 

linguagem e dramaturgia.”

Acusa o professor (UFPE) José Francisco Filho, com 43 anos de atuação e mais de 30 espetáculos no currículo, tem seu valor histórico para o cenário teatral pernambucano – sobre quem ele afirma “louvável termos a chance de vê-lo em ação, acreditando piamente no que faz. O sonho de cada um é o sonho de cada um. Sorte dele que teve o aval dos curadores do Palco Giratório, para que sua peça feita nos moldes dos anos 1980 ainda consiga visibilidade para a geração de hoje”. Depois disso só um deus ex machina salvaria JFF, da sanha risonha desse crítico tão sarcástico e observador

“É um espetáculo datado, praticado de um jeito que o teatro de hoje já enxerga como estereotipado e reducionista.”, afirma o crítico Dib, que diz, mesmo assim ver Seu Sol, Dona Lua com olhos de “condescendência histórica, com a disposição generosa de entender que houve um tempo em que se acreditava nesse tipo de espetáculo como se fosse o melhor jeito de falar com as crianças no teatro”. Mais update do que isso, impossível, não?

O melhor está por vir: atores “provocam” as crianças com perguntas diretas e fáceis, elas respondem, todas juntas, e, a partir desse estímulo vindo do ator, passam o resto da peça gritando, falando alto, querendo conversar com os personagens”, coisa de uma “escola obsoleta de teatro” , mesmo que a plateia, crianças, goste, o que para nosso crítico não significa nada, pois, para ele, que preza pelo “teatro de qualidade”, isso é ilusão de participação, pois a plateia foi forçada, por um recurso fácil.

No século 21,ele continua impondo suas crenças, já há espetáculos ditos infantis em que essa participação acontece de forma mais inteligente, menos óbvia, mais espontânea, mais bem pensada pelo dramaturgo, agora ele ataca o autor e continua a fúria contra o diretor: “muitas e muitas e muitas vezes, o silêncio de uma criança na plateia é um indicativo maior de que está plenamente “dentro” do espetáculo, uma prova bem mais clara de que está gostando e “participando”, do que se estivesse gritando e respondendo às perguntas do atores”. Diante de tal sabedoria, melhor é aplaudir tamanha repressão. Lembrei de quando Geral Thomas, super atual, criticou em público a crítica de teatro Bárbara Heliodora, por bem menos.

Atento ao gravar algumas falas do texto, que lhe causaram certo

 

enjoo, acusa Marcos Sá de tendencioso à velhice careta, quando inclui falas como “Você vai encontrar a razão de ser feliz.”, “Mas vocês pensam que é fácil amar?”. O que serve de mote para Dib supor que “muita gente vai querer ir correndo ver a peça em sua próxima récita, levar filhos e filhas, netos e netas. É um tipo de público que existe. A tal propalada diversidade não é isso? Eu, crítico há mais de 30 anos, aprendi a gostar e valorizar outro tipo de espetáculo – e a apenas respeitar esses que têm seu valor arqueológico.”

Poderia falar muito mais, mas precisa? Esse senhor está tratando as crianças de modo tão filosófico que não vale a pena continuar.

Moisés Monteiro de Melo Neto Professor da Universidade de Pernambuco


Em 2024, Moisés deu uma aula de bioficção usando este material: O professor entrou na sala de aula. Estava cansado. Olhou para os alunos, quase todos tão jovens. Há quantos anos ensinando a mesma coisa? Jogando sementes sem colher frutos ou sequer sombras. Andava meio dormente. Descobriu que a pessoa que amava e que era sua sócia, na verdade era uma conspiradora que até, pensava em... derrotá-lo. Confessou-lhe todo um plano sinistro que vinha arquitetando durante anos e anos.

A cadeira era Teoria da Literatura. Havia apenas sete alunos na sala. Ele estava com a visão turva de sono. Não conseguia dormir e não queria nem levantar da cama. Mas tinha esperanças. Naquela manhã mesmo teve uma boa notícia. Logo ele que era tão alegre e cheio de energia. Como fora cair naquela armadilha. O tempo é mesmo um mestre e nessa vida a gente tem que seguir as rédeas com força.

A aula era sobre a estrutura do conto: vamos lá: um só conflito, uma só ação. Bobagem, nem sempre era assim. Mas tinha que sustentar algo que beirasse o científico. Literatura era mistério profundo transformado em objeto lógico (pudesse ser o mais inusitado) por uma linguagem técnica. A narrativa deveria ser curta. Poucas personagens, presas às unidades de ação, tempo e lugar. O fantasma de tantos Aristóteles, com a velha épica, trágica Grécia que resultou em tanta África transposta para essa América que para ele, professor em transição, era texto em língua que roçava em tanta mistura. Precisava se

 

concentrar na aula.

Seguia: por consequência das unidades que governam a estrutura do conto, as personagens tendem a ser lineares. Por que disse isso? Estava com raiva de um dos alunos que anotava tudo ferozmente e consultava um aparelho eletrônico poderoso. Prosseguiu: o conto expõe o personagem no clímax da sua existência cristalizado no tempo, espaço, personalidade, num viés particular do seu... caráter, como numa foto em que se fixasse o ponto onde não houvesse... retorno numa situação humana, desumana, trans-humana. A estrutura deve ser bem objetiva, horizontal e de preferência narrado em terceira pessoa. Evitar-se-ia certo introspectivismo em nome de uma realidade viva? Falou do microconto em Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Marcelino Freire e a marginália, chegou em Edgar Allan Poe, Os dublinenses de James Joyce, Lima Barreto, provocou a turma insistindo numa diegese que fosse buscar o presente, o concreto. Ninguém se pronunciou. Múmias antropófagas.

Queriam ser professores melhores que ele? Coitados, ameaçadores, vãos. As divagações deveriam ser evitadas. Short story. E os limites com a novela? E O alienista de Machado de Assis? E isso e aquilo? Ninguém dizia nada. Uma aluna pegou uma serra e começou a raspar a unha do terceiro dedo da mão esquerda. Pare com isso, caríssima. Não admito isso em minhas aulas. Ela desculpou-se. Poucas palavras: suficientes e necessárias, convergindo para o mesmo alvo. O dado imaginativo superposto ao dado observado. O quê? Isso mesmo: A imaginação, necessariamente presente, é que vai conferir à obra

o caráter estético. Nunca entregar-se ao... vago. Buscar a realidade concreta. Se

o caso for o realismo, a mimese... isso e aquilo. O sangue subiu-lhe à cabeça. Logo ele, tão libertário, transmitindo tamanha idiotice.

A linguagem deve ser objetiva com metáforas de imediata compreensão para o leitor, poupando-o de abstrações desnecessárias trazidas pelo uso do rebuscamento. Evitar armadilhas nas entrelinhas, segundas intenções. Os fatos deveriam triunfar. Lembrem-se: ação antes da intenção. Agora: o dialógo. Ele é o elemento mais importante. Está em primeiro lugar; conflitos e dramas residem nele, não no resto, nele reside a discórdia, sem isso, não há conflito, ação. Palavras são signos e o diálogo é a base expressiva do conto: diálogo direto, indireto e interior, enfim. Que predomine o diálogo direto

 

que permita uma comunicação imediata entre o leitor e a narrativa, pois o diálogo indireto em excesso, induz à falha; já o diálogo interior é expediente formal, complexo, difícil. A narração deve aparecer em quantidade reduzida, proporcional ao diálogo, ela é mais fácil que o trabalho coerente com o diálogo. Cuidado com o desenho acabado das coisas.

O conto não é um retrato completo das personagens, é apenas conflito. A descrição ocupa lugar modesto, pois o diálogo, às vezes, dispensa cenário. O drama está nas pessoas e não nas coisas. Lembro-me aqui de certos contos que desdizem tudo isso e rompem com todas as regras que citei e que podem parecer arcaicas.

Vejamos como trabalhar o tempo no conto: no cronológico o leitor vê os fatos se sucederem numa continuidade semelhante à vida real. O conto, ao começar, já está próximo do fim. A precipitação domina o conto desde a primeira linha. No conto, a ação caminha claramente à frente. Todavia, como na vida real, que pretende espelhar, de um momento para o outro deflagra o estopim e o drama explode imprevistamente. A grande força do conto está no jogo narrativo para prender o interesse do leitor até fim, eis o enigma. Um final enigmático deve surpreender o leitor, deixar um convite à meditação ou deixá-lo pasmo perante a nova situação conhecida, ou com o rancor do estranhamento. A vida continua e o conto acaba. O enigma pode diluir-se no decorrer do conto. Neste caso ele se aproxima da crônica ou corresponde a episódio de romance.

O contista deve estar preocupado com o começo, pois das primeiras linhas depende o resto; não tempo para delongas: vá ao âmago da história. O início é a grande escolha. O contista deve saber como começar. A posição do leitor diante do conto é de quem deseja, às pressas, o antídoto para o tédio, o desenfado e, quem sabe? Certo deslumbramento perante o talento que coloca em reduzidas páginas tanta humanidade em chamas. O contista deveria sacrificar tudo quanto possa perturbar a ideia de completude e unidade. Mas o que dizer, diante disso, sobre uma contista como Agatha Christie? Nesse momento ele, paralelamente ao raciocínio sobre a aula, pensava em como resolver seu caso particular. Precisava concluir aquela exposição, quase mecânica. A narrativa passível de ampliar-se ou adaptar-se a esquemas

 

diversos, ainda que o seu autor a considere, impropriamente, não pode ser classificada de conto.

Vamos fazer um exercício agora. Gostaria que todos vocês escrevessem, com o limite de duas páginas e o mínimo de uma e meia, um conto sobre um homem que descobre que sua esposa planejava acabar com ele. Ato contínuo distribuiu as folhas. Vocês fiquem à vontade, os que estão conectados podem até pesquisar mais, os que queiram poderão ir à biblioteca. O tempo que têm para conclusão é o resto da aula. Voltaremos ao assunto quando analisarmos as produções de vocês na próxima semana.

 


CARTA DE MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO A JOSÉ NOGUEIRA E MÔNICA DA SILVA NASCIMENTO


Caríssimos Mônica e Nogueira, vamos a mais uma carta, então, como a gente pode encerrar. Primeiro eu agradeço ao interesse de vocês pela matéria desta biografia, na organização da matéria. Nos últimos meses, aconteceram coisas absurdas comigo, foi por irmão, foi... eu não posso dizer, coluna, foi tudo né... e continuo publicando muitos artigos, livros, cordéis muitos, eu citaria os dois mais que me emocionaram, eu já escrevi mais de cinquenta cordéis: o cordel de Gerald Thomas e o Cordel da Rita Lee, que foi muito bem aceito. O lançamento dele, Dayane e Joseane que são pessoas que fazem parte do meu grupo de extensão e pesquisa em cultura popular e teatro, elas encenaram muito bem. E teve também um livro que lancei sobre o movimento Queer, a literatura Queer principalmente, vocês sabem que nos anos 80 eu escrevi muito para as boates, principalmente para a boate Misty, que vocês sabem né, era um dos meus abrigos, e a minha influência maior nessa literatura Queer, foi o Vivencial Diversiones, que era um café concerto, um teatro que houve, que acabou em 81, em 82, e que eu conheci em 79, que era dirigido por Guilherme Coelho, que tinha Pernalonga, tinha Ivonete Melo, e tantos outros artistas fantásticos, que Jomard Muniz de Britto frequentava, o Buarque de Aquino, o José Francisco Filho, o Cadengue, Carlos Bartolomeu, pessoas que trabalharam comigo, que dirigiram minhas peças, que me deram cursos de teatro, que me dirigiram em espetáculos teatrais, então eu fiz essa homenagem, eu escrevi duas pessoas para o vivencial também que foi “Rainha da Pernambucália”, que foi montada aqui no Recife, com Magdali Alves, amiga minha desde o início dos anos 80, e dirigida por Fernando Limoeiro, que dirigira nos anos 80 também na mesma época em que comecei fazer teatro o “Guarani com Coca-Cola”, então dirigi duas peças para esse cabaré, então isso influenciou minha vida. E eu lancei um livro agora no final de 2024, chamado “A estética Queer”, que tem também essas duas peças que eu escrevi sobre o

 

Vivencial Diversiones, mas tem outras peças minhas também, como uma peça em que eu ganhei um prêmio do governo do estado de Pernambuco em 85, que foi “Cleópatra”, tem também outras peças minhas neste último livro que lancei pela Editora Coqueiro, tem “A Víbora”, tem “O que teria acontecido a Bette Davis?”, tem “Um tostão para Isabelita”, e outros textos meus, também outro livro que foi muito bem lançado, o professor da federal, do Departamento de Teatro, Rodrigo Dourado, fez o prefácio, o professor da UPE, Marcos Seni, fez a apresentação, orelhas, Mísia Coutinho, presidente do Sindicato dos Artistas, também escreveu, que eu já dirigi Mísia Coutinho, ela já fez parte do meu grupo o “Ilusionistas”.

Agora, uma coisa que tenho suspendido é minhas viagens pelo mundo caríssimos, eu tenho muita vontade, vocês sabem, eu já falei para vocês, em visitar Hiroshima, mas eu não quero passar menos de dez dias em Hiroshima, eu quero conhecer as coisas de lá, pois é o ponto mais nelvrágico do planeta terra, onde aconteceu a primeira grande tentativa de rachar o planeta, a bomba atômica, lançada em menor quantidade, mas, não é por isso que eu quero conhecer Hiroshima. Também queria ir a Hong Kong, porque essa parte do mundo eu não passeio muito perto não. O máximo que eu cheguei nessas caminhadas foi ao Oriente Médio.

No mais, estou vendo essa geração passeando diante dos meus olhos, não só na minha sala de aula, mas no mundo, nessa cidade que eu moro, o Recife né. Ontem, mesmo, dia 17 de novembro de 2024, fomos passear pelo Recife antigo, no domingo né, no final da tarde e o começo da noite, visitando todos aqueles lugares maravilhosos que tem no Recife Antigo né. Mas, principalmente, a nova juventude, não a nova juventude daquelas danças safadas e a linguagem pornográfica tratado o sexo como o centro do mundo, que a gente sabe que é, mas a juventude mais delicada, de 19 anos, de garoto de mãos dadas com garoto, de garota de mãos dadas com garota, tudo tão bonito não é, se eu tivesse tido isso na minha juventude... mas eu tinha, e era muito mais intenso, mas era muito diferente.

 

Sábado passado, dia 16, eu encarnei Kafka, dirigido por José Francisco Filho, mais uma vez, o texto Cláudio Aguiar, a última noite de Kafka, na Fliporto 2024, com Antônio Campos, que é o curador geral da Fliporto, foi nos cumprimentar, a Fliporto no pagou um cachê muito bom. E... Aí, Jesus Cristo, tem sido dias tão diferentes, continuo na minha atividade de docência, no magistério, dois coordenadores, todos: Fernando, Marcos Ceni, Silvânia, Margareth, continuo no mestrado no ProfLetras, continuo no Clind, Curso de Licenciatura Intercultural Indígena, meus alunos vão defender agora, os indígenas também, não é, meus três orientandos, sempre a representação do indígena na literatura ontem, e como é que tá a situação hoje?

E nessas viagens, minha vida é uma estrada mesmo, eu continuo a juntar, parece o livro de Machado de Assis, Dom Casmurro, unir uma ponta da vida a outra. O amor, eu amo cada vez mais as pessoas, tem as três mulheres principais da minha vida, já que uma saiu de cena, tô falando das pessoas com quem eu mantive um relacionamento de amizade mais profundo, são Rosária, Mísia, Simone, Mirna já se perdeu no tempo. Dos homens também, Ricardo, você Nogueira, não é, que é uma pessoa, dos últimos mencionados que eu conheci, tem João Augusto, meio separado não é, um homem que é poeta. Muitos morreram já: Zé Domingues, Zenoar, Adeílson Amorim, fotógrafo pintor, o cineasta, esses três aí que mencionei. E a metrópole continua, a mística que eu escrevi, os poemas, e eu vou passeado pelo mundo, lendo muito ainda, impressionado com livros, ainda excitado com a literatura, Moisés “O enterrado vivo”, “O homem que virou literatura”, essas frescuras assim.

Da natureza, eu tenho também, apreciado pouco, mas eu sinto falta das minhas viagens mais longas, tantas, tantas tantas. Pelo mundo, que seja na minha terra, ou na terra estrangeira, a gente vai acumulando experiências, porque eu estou escrevendo essa última carta, porque eu acho que de toda a minha história que passou e que virá, existe um exemplo a ser analisado, caralho, são quarenta e cinco anos de teatro, literatura, viagens, né? Turnês, palcos, salas de aula e o Recife. E vem aí,

 

é o final do ano né? “And so this is Christmas/ And what have we done?”, disse John Lennon na década de 70, “what have we done?... so this is Christmas… A merry Christmas… happy New Year”. E vem chegando 2025, agora mesmo, eu estou observando a lua cheia, bem cheia, da varanda, não quero tomar um copo de vinho não, não quero. O Recife está perfumado, estranhamente perfumado, eu também estou no alto né? Num terraço bem grande, no alto de uma varanda, bem grande, observando as luzes da cidade, o mar, ao longe, estou num hotel. Vez em quando eu venho para este hotel, que você Nogueira, já ficou hospedado num quarto, o mesmo quarto por onde passaram Carmem Miranda, Getúlio Vargas, Rosselini, e tanta gente famosa.

Bom, o que é que eu poderia dizer como encerramento, eu lembrei da palestra que Clarice Lispector deu aqui em Recife, e disseram para ela no final, ela já muito cansada, ela com a morte já sabia do que iria morrer e logo, aí disseram para ela: “Clarice, diga alguma coisa inteligente para encerrar sua fala”, aí ela aí ela olho assim, aí disse: “Uma coisa inteligente, vamos dormir”, aí o povo bateu palmas.