A POP LITERATURA E A PAIXÃO
SEGUNDO MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO
Tristes Trópicos me arrebatou. Eu era fã de Sartre. Nunca
esperei que uma inteligência de ordem tão diferente, mesmo antagônica, se
impusesse com tanta rapidez sobre meu espírito. A visão do Brasil que apareceu
ali esquentou meu coração. Um pessimismo relativo à civilização brasileira.
Fazia sentido que, em oposição ao ateísmo apaixonado de Sartre, surgisse uma
espécie de misticismo frio. Lévi-Strauss detestava a promiscuidade entre alta
cultura e cultura popular que via sendo praticada por seus famosos
contemporâneos mais jovens: "pop philosophie", pensadores citando Bob
Dylan e escrevendo sobre cinema, linguistas estudando letras de rock. O Brasil
é figura grande na geografia de Tristes Trópicos, mas está incluído
numa visão sombria que cobre toda a zona tropical ao redor do globo. (Caetano
Veloso, em depoimento ao jornal Folha de São Paulo, por ocasião da
morte de Levi-Strauss, em outubro de 2009)
Quando falamos em Filosofia pensamos nisso também, como um traço da
contracultura. São diversos os aspectos que parecem diferenciar a minha literatura
em cotejo com a literatura acadêmica. Cada um deles poderia, entretanto, ser
facilmente recuperado a partir da própria tradição literária, não tendo sido
inventados na contemporaneidade, mas apenas rememorados, reapropriados ou
reinventados, nesta reunião dos termos “pop” e literatura. Penso uma literatura que esteja aberta a se “transfigurar”, em sentido
emprestado da Pop Arte, movendo-se de seu lugar historicamente encastelado nos
meios acadêmicos e alienado da vida cotidiana. Diante do que parece um projeto
organizado de apagamento da literatura e do pensamento reflexivo em meio à
indústria cultural, daí o resgate do termo rizoma, conceito de
Deleuze e Guattari em Mil platôs: uma metáfora botânica para um modo de pensamento (e organização)
não linear, horizontal e acêntrico.
Ao contrário de estruturas arborescentes (hierárquicas), ele se conecta em
qualquer ponto, permitindo múltiplas entradas e saídas, favorecendo a
diversidade, alianças e a produção de novas realidades. É o que proponho: uma renovação do fazer e no
pensar dos estudos literários.
Esta
noção de rizoma, noção já presente em Deleuze, nos sugere, também,
uma pop educação. Nos chama atenção o conceito de “Pop
Filosofia”, inventado por ele nos anos 70. Desde então, diversas iniciativas no
Brasil e no mundo, cada uma à sua maneira, vêm sendo colocadas em prática
inspiradas nesse projeto. Sua consequência mais perceptível é o enfraquecimento
da rigidez do cânone de autores e questões tidas como importantes no ocidente.
Aí a Pop Filosofia vem ocupando nesta feira simbólica das
atividades acadêmicas um lugar de experimentação ou de vanguarda, o que na
prática acaba se tornando um não lugar, entrelugar como se
fosse apenas um fenômeno efêmero e irrelevante. Há quem desenvolva outras
estratégias e em vez de combater a hegemonia do clássico, que tal hackeiam-no?
E se aceitássemos a tese de que a história da filosofia é mesmo a melhor forma
de acesso à filosofia ela mesmo, mas fôssemos capazes de pluralizá-la?
A filosofia de Andy
Warhol, central para o movimento Pop Arte, transformou objetos de consumo de
massa e celebridades em arte, questionando a fronteira entre cultura popular e
"alta arte". Ele aborda a repetição, a beleza superficial, o consumo
e o dinheiro com autoironia, antecipando a era das redes sociais. Aqui estão os
pontos principais da Pop Filosofia de Warhol: a) Warhol revolucionou ao
introduzir a arte colaborativa, criando um espaço de produção em massa que
simulava uma linha de montagem, questionando o conceito de autoria única.
b) Ao retratar latas de sopa, Coca-Cola ou ídolos (como Marilyn Monroe),
Warhol destacou que o consumo iguala as pessoas, tornando a arte acessível e
cotidiana. Ele defendia que a beleza retratada em fotos (bidimensional) é uma
cópia inatingível, antecipando a lógica de imagem das redes sociais
atuais. Diferente da filosofia clássica, a Pop filosofia é direta,
superficial no sentido de focar na superfície das coisas, e profundamente
conectada ao estilo de vida moderno e à sociedade de consumo. Sua filosofia foi
consolidada na prática artística com serigrafias e textos que misturam
pensamentos sobre sucesso, amor, tempo e morte de forma superficial e
autoconsciente.
A escrita do povo
brasileiro também nos faz pensar numa literatura aberta, como que transfigurada pela
estética popular, focada no cotidiano, mesmo quando o povo gosta mais da
cidade do que do campo. O adepto deve acostumar-se com o mundano, aprender a
comer sozinho e aproveitar-se da experiência urbana ver que ser mulher é tão
nada como ser homem, mas pode ser muito prazeroso. Entender que fazer sexo dá a
sensação de ser natural, normal, gozando ou não. Somos o que pensamos e as
câmeras não captam o que pensamos. Não faça dos seus problemas um Problema. Não
reclame de uma coisa enquanto ela estiver acontecendo, espera que ela se
conclua para apontar o culpado. Você pode ter maus modos, se soube se
aproveitar disto.
E se a literatura
contemporânea ainda está calcada em práticas antigas, que se perderam com o
advento da escrita profissional e institucionalizada? Para demonstrar que os
gêneros literários fazem parte da tradição não é preciso conferir uma roupagem
conceitual que lhes dê o tom apropriado para serem aceitos como atividades
“sérias” de pesquisa. Ao contrário, basta furar o modus operandi homogêneo/
reducionista pelo qual a história da literatura vem sendo abordada na maioria
dos cursos de graduação e pós-graduação do país. Basta mostrar que há aspectos
“pop” na história da literatura, que vêm sendo contínua e estrategicamente ignorados,
silenciados ou expurgados.
Proponho com minha
literatura um texto que uma transgressão e ao mesmo tempo tradição. No gênero
dramático, por exemplo, sugiro com meus textos uma antropofagia transdidática.
Vejamos o caso do meu texto teatral A PAIXÃO SEGUNDO MOISÉS NETO. O que
exercito neste drama? Intertextualidade e Polifonia, acima de tudo. Mas clareza
também é importante.
Deve-se aceitar a
autoimagem das pessoas do mesmo modo como recusamos os excessos alimentares e
pensar que é impossível todos terem dinheiro suficiente par viver bem, pois a
história certa no lugar certo pode colocar cada um em no alto por meses ou
anos. Nenhuma pessoa/ ator é completamente certa(o) para incorporar um
personagem, mas o teatro do mundo está no meu teatro, que tem algo do conceito
pop filosófico. Olhar todo o resto ao redor tem que incluir o humor diante dos
restos que, com o todo, deve ser reciclado. Minha dramaturgia usa os restos, o
que não significa se alimentar de restos, isto é outra coisa. Alimento é
sagrado, esta extravagância deve ser tolerável. Às vezes somente um biscoito na
hora do jantar pode ser o certo para evitar excesso de peso.
II
Nascer é como ser
sequestrado e viver dá muito trabalho. Somos vendidos como escravizados. Tempo
é, tempo era. Quando encontramos alguém que não víamos há muito tempo, não
devemos perguntar sobre o que tem feito e sim prosseguirmos na ação presente,
não xeretar sobre o período de ausência entre ambos. Não é o tempo que modifica
as coisas, somos nós mesmos.
Meu tem algo, também, de neorromântico,
mas isso, nesse caso, incluindo ataque às aparências da sociedade... agride o
predicado e não o sujeito. No teatro pop deste meu texto, A PAIXÃO,
vemos a necessidade de desmistificar, colocar o leitor/ público no seu estado
original, cara a cara com a sua miséria, a miséria de seu pequeno
privilégio feito às custas de tantas concessões, de tantos oportunismos, de
tanta castração.
Meu teatro não quer
coordenar em nenhum sistema, nenhuma geração que controla a literatura, na
Universidade e no sistema da produção cultural como um todo.
Não alego vagos desejos de ‘espinafrar’,
desejos da saltar em ‘abismos vertiginosos’, ou mais moderadamente declarar que
‘não há nada a declarar. Tudo em mim é instrumento de expressão. Tudo é
linguagem. A eliminação de limites e barreiras nos gêneros, a
intercomunicação de todos. Quero uma expressão totalmente brasileira, um ‘pop’
brasileiro. Nem oba oba dos antigos
oprimidos nem enchanter les bourgeois: nem raiz nem nada importado e
tudo isso, devorado. Mas na montagem do Teatro despetrificado, teatro que
tem que degelar na porrada, popfilosoficamente.
Aqui não ignoramos,
também, o perigo que corre todo e qualquer movimento que teme definições,
pois nem commedia dell’ arte de interpretação, nem
russismo socialista dos dramas piegas do operariado, nem muito menos joanadarquismo
dos shows festivos de protesto. O que é a minha literatura no
meio desta barafunda? Ele, de certo modo é uma forma de arte popular que
estampa a minha geração, que viu, no final dos anos 70, o que foi o extinto teatro de revista, teatro
no circo, na chanchada de Atlântida, na verborragia do
bairro, na escola de samba, na violência de tudo que recalcamos e do nosso
inconsciente, a CONTRACULTURA, o pop. É isso que temos de devorar e esculhambar. É
deste material que é feito o país, plumas e recalques.
É escrita (contra o
“intelectualismo messiânico”) com consciência no dizer em terreno movediço e
com lócus no entrelugar, em tática cubista, apresentando visões
superpostas num texto apoiado em onomatopeias, neologismos, a chamar para
reproduções auditivas despojadas, polissêmicas não em descompasso, mas em fluxo
abrupto de linguagem, emprego inusitado da palavra criando o tempo
de memória, diverso do tempo cronológico, enumerando com ênfases sugestivas
alguns termos, fornecendo ressonâncias semânticas, isolando-os numa linha,
ampliando as possibilidades do significante em meio às notas musicais, possibilitando
novos significados. Devoramos aqui a filosofia jomardiana, explico:
Observe-se a poeticidade nas imagens de Descida
aos infernos, uma das faixas do deleuziano álbum/ CD Pop-Filosofia,
do filósofo pernambucano Jomard Muniz de Britto:
Ressaltar o vivido no inferno dos
abutres: infernolento
o gemido de dor é um vagido da
natureza demoníaca: prazer lento
o grito de amargor é
um som natural da SUBTERRALAMA:
Len ta men te
O abismo é de ontem e
de lentidão: fosso permanente:
Caruaru Carandiru
catástrofes
misturadamente com S ou
X: o abismo se chama agora:
por qualquer canto
ou vento
ou novo nome velho afogado na
mente: poço câncer opressão
Percebe-se de
imediato o reaproveitamento de outras composições de JMB. Na transmutação da palavra,
a poeticidade se torna compacta, mas não rígida; ratifica a sua imagem inexata,
em neologismos como infernolento liga-se ao seguinte subterralama (sob
a lama), a sugestão é da danação, de uma natureza demoníaca, em que a extração
do prazer pode ser torturante e lenta, para o sujeito que tem pressa, se vê
próximo ao poço/ câncer, abismo (questionamento) chamado
“agora”.
A realidade se
instala por imagens justapostas e a linguagem mescla espaço e tempo sobrepondo
Carandiru a Caruaru. Aproximando a semelhança dos significantes com a de
possíveis significados, o texto, de modo voraz, coloca a urgência em primeiro
plano, metaforizando-a em “inferno dos abutres”, símbolo e concretude que
necessitam transcender-se de modo quase “carnal” na sua ligação com o “ser”, em
um conflito fecundo com os atos censurados, ou mesmo, os fatos mais vulgares,
expondo o desejo de ser explícito, reafirmando o que sugere BARTHES, em O
Grau Zero da Escrita. “A poesia moderna, de fato, já que se deve opô-la à
clássica e a toda prosa, destrói a natureza espontaneamente funcional da
linguagem e dela só deixa subsistir as bases lexicais.” 65 É
o que se constata nesta “descida aos infernos”, que continua: “mi se ra bi lis
mo: o abismo se chama ágora: ”. Esses sinais de dois pontos,
repetidos no mesmo verso, procuram elastecer a realidade (construção em abismo);
já a separação sonorizada das sílabas em mi se ra bi
lis mo parece querer tornar mais impactante o escândalo da
miséria, estendê-lo no instante já: “Auto-exílio: autocensura:
mais repressão : / o abismo se chama agora e
ágora”. Aqui o momento eterniza-se e nos remete ao berço da
filosofia ocidental, a Ágora, a praça pública grega, centro das discussões
acirradas sobre o ser e o estar e o trocadilho com o agora, o instante
já dos fenômenos e das coisas.
E o texto prossegue:
“Alegria medo lixo labirinto margem mais gozar/ fala muro sertões retorno medo
suicídio grande cidade lição?” Nesses dois versos, as palavras como que rolam em
forma de avalanche, sem pontuação, remetem à psicanálise selvagem (praticada
por não-especialistas). O ir e vir, o devenir (as coisas se
constroem e se dissolvem noutras coisas), o gemido de dor, o vagido de
natureza daimônica do segundo verso (originalmente, o daimonismo não
estava ligado à ideia do mal, e sim com outro lado da personalidade
humana), a sexualidade, os desejos, as carências, medos, prazeres, embriaguez,
o que não pode ser explicado, racionalizado vai sendo sugerido numa espécie de
latejar, pulsar, expurgar em intensidade vibrante, caleidoscopicamente,
aglutinando-se e espalhando-se para jogar com o leitor /
ouvinte, utilizando-se do recurso acústico (embutido silenciosamente quando
na escrita e aqui sonorizado) no CD Pop Filosofia. A palavra
“lição”, que fecha o verso, vem seguida do único ponto de interrogação do texto
(o ponto de interrogação que é tão constante em JMB) e a enumeração caótica
continua: “canto vazio aprender danação insegurança zero / universo vocabular
marco zero / ou antigo nome de outrora perdido na mente / ou cruel valor de
agora adormecida/ mente”. O metatexto critica os sujeitos
contemporâneos que se coisificando, agem mecanicamente, querendo o
máximo rendimento, corpo entregue ao trabalho alienado, tornando-se apenas
máquina humana.
“Se a poesia fosse irracionalista,
dela teríamos somente ‘vivências’ e emoções indizíveis. Entretanto, pela razão
poética nos sentimos próximos e, ao mesmo tempo, falamos sobre a imagem, a
criação de uma nova realidade, o silêncio, e toda uma intensa problemática”,
escreve JMB no seu artigo seminal na Revista MAPA, A razão poética não
contradiz a “intuição criadora” e tendo consciência dela, o poeta vai situar-se
na interrelação das suas vivências com as expressões formais que lhe surgem.
Experimentando e vivenciando a poeticidade, ele estaria face a face com o “grau
zero” da palavra (do dicionário, “caixa de Pandora” barthesiana) e “numa
espécie de gulodice sagrada”, como noutro contexto sugere Barthes, em O
grau zero da escrita: “essa fome da palavra, comum a toda poesia moderna,
faz da palavra poética [...] um discurso cheio de buracos e cheio de luzes, ausências
e signos supernutritivos”.
III
O estudo da literatura
tal como a conhecemos e a praticamos foi uma genial invenção de Aristóteles
(?!), mas temos dele, hoje, visíveis, alguns efeitos colaterais drásticos.
Falemos da filosofia,
desde Aristóteles: no tratado Metafísica, houve várias tentativas por parte
dos próprios filósofos de descrever a ordem cronológica das várias filosofias
precedentes, mas em geral de forma crítica e depreciativa. Por exemplo, quando
Schelling planejou seu curso sobre a história da filosofia moderna, em Munique
por volta de 1828, três anos antes da morte de Hegel, o plano era oferecer a
seus alunos uma propedêutica histórica “negativa” à filosofia. Embora ele,
Schelling também visse a filosofia como um desenvolvimento constante no tempo,
sua “História da Filosofia” é apenas um relato das tentativas malsucedidas dos
filósofos de chegar à verdade. As formas de filosofia do passado têm seu valor,
de acordo com as observações preliminares de Schelling às lições, funcionem
apenas como um contraste ou como um exemplo inferior em relação ao pensamento
autêntico (o de Schelling mesmo): “Se, para aprender a apreciar e julgar a
verdade, é finalmente necessário saber também o erro, então tal apresentação é
provavelmente a maneira melhor e mais gentil de mostrar ao iniciante o erro a
ser superado”, dizia.
Os méritos de Hegel,
ao contrário de Schelling, incluem ter desenvolvido uma história da filosofia
que serve como propedêutica “afirmativa”, ou seja, dar a conhecer como ela [a
própria filosofia] aparece sucessivamente no tempo. Com ele a filosofia se
torna histórica e a história da filosofia se torna filosófica. Infelizmente há
um preço a pagar pelo resgate da história da filosofia. Hegel constrói um
modelo rígido. Se por um lado ele abre espaço para os devires, por outro lado
os aprisiona sob as categorias de “processo” e “progresso”. Nesse modelo, o
desenvolvimento do começo ao fim da história da filosofia é fixo, inexorável e
até irresistível.
Além disso tudo que
diz respeito à finitude do pensar, ou seja, ao corpo, nos seus afetos, aos
desejos, mas também aos acidentes de percurso, às idiossincrasias das
personalidades, ao compasso ou ao descompasso entre vida e obra dos autores, é
ignorado, domesticado ou banido da estrutura do pensamento em nome de uma metafísica
de uma pureza conceitual. Esta concepção hegeliana de “história da filosofia”
vigora de forma não tematizada nos cursos de filosofia pelo Brasil. Podemos
reler esta tradição, pois ao desvelar as supostas “raízes clássicas” da Pop
Filosofia, quero na verdade apenas re-visibilizar ou revocalizar
alguns aspectos desprezados e silenciados.
São diversos os
aspectos que parecem destacar a Pop Filosofia em contraste com a filosofia
acadêmica. Cada um deles poderia ser facilmente recuperado a partir da própria
tradição, não tendo sido inventados na contemporaneidade, mas apenas
rememorados, reapropriados e reatualizados. Para uma futura “história
pop da filosofia”, observemos uma pequena seleção destes aspectos: a
importância da conexão com o local (a cultura brasileira); a experimentação com
estilos de expressão; a ênfase na dimensão/ visão performativa do pensamento.
Como: a importância da conexão com o local: a cultura brasileira e vamos
sugerir, pop filosoficamente, parte da luta pela expansão do cânone
clássico de autores e de temas recolocar constantemente a pergunta sobre o que
significa fazer filosofia nesse lugar específico em que estamos, no Brasil do
século XXI. Hoje essa tendência para uma abordagem localizada está se tornado cada
vez mais difundida, mas já foi, pensemos, bastante incomum e muitos passarm por
algumas situações inusitadas. Importante pensar no livro seminal de Roberto
Gomes, Crítica da Razão Tupiniquim (1994), checar a expressão
“jeitinho brasileiro”, um assunto já bastante debatido na sociologia e na
antropologia nacionais, mas completamente ausente do cenário da filosofia. Ver
as semelhanças e diferenças entre o jeitinho e a “gambiarra”. Roberto Gomes
fala sobre o jeitinho, mas nada sobre a “gambiarra”, que é um misto de saber
técnico, imaginação e insubordinação, fundamental para resolver emergências.
Desde os primórdios
temos também aqueles modos de escrever e pensar mais abertos, na filosofia, às
atmosferas afetivas evocadas pelas diferentes sonoridades e coloridos das
palavras e, nem por isso, menos densos conceitualmente, tais como os poemas
(Sapho e Parmênides), os diálogos (Platão e Sade), as confissões (Agostinho e
Rousseau), as cartas (de Schiller), os pensamentos (Pascal), os aforismos
(Novalis e Nietzsche), os diários (Kierkegaard), os romances e contos (Sartre e
Camus), as performances (Preciado). Infelizmente a escolástica acadêmica
vigente tende apenas a se focar exaustivamente nos conteúdos dessas
experimentações literárias-filosóficas, sem dar muita atenção aos seus modos singulares
de se fazer, dissociando e hierarquizando aquilo que, ao contrário, terá sempre
acontecido em forma recíproca.
A aparente ausência
de estilo nos textos acadêmicos atuais em Filosofia é, na verdade, a vitória
hegemônica de um estilo específico, o analítico/escolástico, que apresenta uma
estrondosa uniformidade estrutural e cuja linearidade entediante perpassa por
todas as produções da pesquisa, tanto nos artigos das revistas científicas,
como nas conferências nos congressos; tanto nos trabalhos de conclusão de
curso, nas dissertações de mestrado, como nas teses de doutorado. Mas o estilo
vitorioso da Filosofia acadêmica se finge de neutro, mas segue um código de
regras muito estrito, mais notadamente na exigência de conformidade aos seus
aparatos intermináveis de erudição, tais como as notas de rodapé, as
referências bibliográficas, os glossários e os índices onomásticos. Tudo se
passa como se só houvesse rigor na forma estrita do cálculo, da geometria e da
arquitetura. Inspirada em Nietzsche, que dizia que o rigor da Filosofia
acadêmica era uma espécie de rigor mortis, irrompe felizmente no cenário
contemporâneo um contra-movimento de reabilitação do corpo, dos
afetos e das imagens na escrita filosófica. A re-estetização dos conceitos
permite que o pensamento faça outros tipos de aliança, para que a Filosofia não
se constitua apenas sobre, mas com ou até mesmo enquanto arte.
Minha literatura, o que inclui minha
dramaturgia, claro, fala do Pensar
Perform-ativo, que na Pop Filosofia, “surge´” no ano de 2012, na Europa uma
iniciativa internacional de instauração de um novo campo de conhecimento
denominado de performance philosophy [filosofia performativa], que reúne
de forma organizada e consistente as práticas criativas das performances e o
trabalho conceitual da filosofia. A filosofia performativa vê, portanto, a
performance enquanto pensamento e produz pensamento enquanto performance. A
ideia de uma filosofia performativa é um desdobramento coerente com meu próprio
projeto de uma Pop Filosofia aliado às artes cênicas. Desde 2013, venho
tentando, na teoria e na prática, desenvolver caminhos para sua implementação
no Brasil. Dentro desse fluxo, comecei a realizar palestras e cursos sobre o
tema e, ao mesmo tempo, experimentar formas de fazer filosofia que envolvessem
cada vez mais meu corpo, minha imaginação e meus afetos.
O que o meu texto
teatral propõe é uma apresentação performativa que busca engajar o corpo nos
conceitos, afetos e pensamentos, ações teóricas e práticas. Talvez seja
possível afirmar que estamos vivendo uma espécie de performative turn.
Para mim, é claro que a dimensão performativa da filosofia não é um
vanguardismo, mas um classicismo, especialmente característico da Grécia
antiga. misturo, sem exceção, sempre literatura e ação na vida cotidiana.
Algumas dessas ações não foram fortuitas ou involuntárias, foram gestos
conceituais, ações filosóficas, seguindo um “programa performativo”. Existem muitas
situações emblemáticas famosas, onde o filósofo engajou seu próprio corpo para
intensificar suas ideias. A famosa fotografia de Jules Bonnet que mostra
Nietzsche e Paul Rée puxando uma charrete com Lou Salomé nas rédeas e no
chicote foi uma genial ação performática encenada pelo próprio filósofo alemão
em maio de 1882, uma cena que até hoje alimenta diversas polêmicas. O próprio
Sócrates, pouco antes de tomar a cicuta, realizou um ritual performático, ao
pedir que fosse sacrificado um galo a Esculápio, deus da medicina e da cura. Um
breve olhar sobre a história do pensamento mostra que a nudez, esta que sempre
de novo é alvo de polêmicas por parte dos setores mais conservadores contra as
artes, já foi ativada como ação performativa e conceitual diversas vezes até
mesmo na hagiografia oficial. É notório, por exemplo, o modo como Francisco de
Assis marcou sua decisão de mudar sua vida em prol de um cristianismo mais
atento às questões sociais: em 1206, despojou-se até ficar nu diante do pai, do
bispo e de toda cidade. Corpo e pensamento em sintonia em prol de um voto de pobreza.
Na filosofia, quem ficou famoso pela nudez em espaços públicos foi Diógenes, o
cínico, considerado por Platão um “Sócrates que enlouqueceu”. Diógenes defendia,
contra Platão, que a virtude se exercia na ação e não apenas na teoria. As
ações performativas de Diógenes e de tantos outros renomados pensadores,
algumas consideradas obscenas, outras engraçadas e ainda outras admiráveis,
compõem um imenso acervo de “anedotas” da história da filosofia.
Proponho a
higienização do pensamento, a desautorização das inevitáveis, ainda que
misteriosas, interseções entre o corpo e o corpus de cada filósofo, é
infelizmente sintetizada justamente por um dos maiores defensores da dimensão
finita do pensar, Martin Heidegger.
Heidegger disse, em
um curso sobre Aristóteles de 1924, que tudo que precisávamos saber sobre a
vida de um filósofo é que ele nasceu, pensou e morreu. Como diria Deleuze, é
muito difícil, até para Heidegger, ser coerente com o pensamento heideggeriano.
Nietzsche, ao contrário, no prefácio à sua pequena história da filosofia na era
trágica, em 1874, defendia a centralidade das anedotas para a compreensão do
pensamento:
Considero um número
muito limitado de teorias, em virtude, portanto, nunca pensei em expor uma
imagem completa. Mas escolho teorias em que ressoa com maior força a
personalidade de cada escritor, ao passo que uma enumeração completa de todas
as teses que nos foram transmitidas, como é costume nos manuais, só leva a uma
coisa: ao total emudecimento do que é pessoal. É por isso que esses relatos são
tão aborrecidos: pois em sistemas que foram refutados só nos pode interessar a
personalidade, uma vez que é a única realidade eternamente irrefutável. Com
três anedotas é possível dar a imagem de um homem; vou tentar extrair três
anedotas de cada sistema, e não me ocupo do resto.
Nietzsche pode ser
considerado o catalisador da virada performativa da filosofia, pois sempre
defendeu e assumiu a dimensão autobiográfica na sua própria escrita, fez
experiências com novas mídias, tendo sido um dos primeiros usuários de máquina
de escrever do planeta e realizou diversas parcerias tanto com artistas
(atores, músicos, poetas, fotógrafos, etc.), como com cientistas (biólogos,
médicos, geógrafos, etc.). Ele dedicou diversos estudos à reflexão que diz
mais ou menos isto: “naquele pelo menos vive o espírito dos filósofos antigos;
mas nestes não vivem nem o antigo nem nenhum outro espírito”
Sinto uma dimensão
performativa da filosofia na literatura. Esta minha proposta, algumas vezes vem
sendo ignorada ou reduzida a meras anedotas pelos que roubam o poder nos
estudos e cargos de juízes do magistério e da Kultura (no sentido
freudiano, claro). Será preciso rever a
noção de “anedota”, sua relação com a história e a verdade em geral. Embora
sejam comumente definidas como histórias engraçadas e desimportantes, desde
tempos imemoriais elas cumprem o papel, enquanto “estórias secretas ou não
transcritas sobre o que não é dado”, de desestabilizar as compreensões
hegemônicas da realidade e estimular novas perspectivas. Levar a sério as
anedotas da história da literatura e da filosofia ajudam não apenas a resgatar
a sua dimensão performativa perdida, mas ajuda também a enfraquecer o seu
excessivo euro- e logocentrismo, já que a tradição oral de contar histórias
constitui fonte inesgotável de conhecimentos e sabedorias na Ásia, África e na
Ameríndia. Não basta ampliar os conteúdos do cânone, será preciso reavaliar a
excessiva centralidade dos conceitos e da escrita em detrimento das imagens e
da oralidade.
Minha literatura tem
força para suportar os paradoxos e as ambiguidades da existência, mas também a
resistir e questionar as ideologias hegemônicas. Não se abandona o rigor, mas
sim a excessiva formalidade. É necessário, por exemplo, se perguntar se a sala
de aula, o texto linear, as aulas expositivas, as longas palestras em
congressos, são ainda os formatos mais adequados para se fazer filosofia no
século XXI. Será imprescindível reativar os corpos dos filósofos, sentados
eternamente, seja nas cadeiras da escrivaninha ou nas cátedras da academia. Será
preciso, finalmente, rever a própria noção de “cânone”, derivava do grego kanon,
que significa vara de medir. Será preciso realizar uma genealogia de como foi
construído o cânone de autores e questões da história da filosofia e combater a
desatenção deliberada contra os territórios, os corpos, os gestos e os estilos
em contraste com apenas o que eles disseram ou escreveram.
A literatura no
Brasil vem felizmente se deixando cada vez mais ser invadida e contaminada pela
complexa diversidade da própria sociedade brasileira, mas ainda é um escândalo
que não haja ainda, algo muito dedicado às questões que envolvam cultura
brasileira e não apenas história da literatura e da filosofia no nosso país.
Precisamos abrir cada vez mais espaços para a participação das mulheres, dos
afrodescendentes, homossexuais, dos remanescentes dos povos indígenas na filosofia
e literatura do Brasil. Não é necessário para isso abandonar completamente as
tradições europeias. Temos muito ainda a aprender com os autores clássicos, a saber,
sobre como se proteger “nas” suas sombras, mas também “das” suas sombras,
buscando outras e melhores luzes.
Antes de concordarmos
ou não com o que possa vir a ser Pop Literatura, temos que saber que ela se
tornou um fenômeno que merece cuidado filosófico, como qualquer tema ligado à
cultura. Não podemos nos negar à reflexão sobre o tema, o que significa, sem
preconceitos, prestar atenção nele tendo em vista justamente o que nos
incomoda. O preconceito não será incomum. Mas mesmo em certos contextos do
campo acadêmico, berço dos preconceitos intelectuais, a seriedade da
investigação, substituindo a crítica abstrata, faz da Pop Literatura um objeto
de estudos como outro qualquer. Há várias pessoas estudando seriamente a Pop Literatura.
Não será possível compreender o que vem sendo chamado de Pop Filosofia se não
estivermos atentos para uma armadilha na qual a filosofia, como qualquer área,
cai com facilidade. Trata-se da armadilha da “distinção”, no sentido de
Pierre Bordieu, relativamente à “nobreza acadêmica”. Quanto a isso, podemos
dizer que a necessidade que o campo filosófico tem da distinção da filosofia em
relação a outras áreas atrapalha, de certo modo, o avanço da própria filosofia.
Mas a questão da distinção nos coloca diante de outros problemas profundos e
pouco levados a sério. Um deles diz respeito às fontes implicado diretamente na
questão da nobreza.
Pop Literatura é um
modo de pensar que lembra o filosófico, ou seja, um método, que se faz
questionando a necessidade da nobreza das fontes. Em outras palavras, se a o
estudo literário tradicional é feito a partir dos textos de uma determinada
tradição, como os Estudos Culturais, por exemplo, a Pop Literatura é aquela
que, em um sentido muito simples, se realiza a partir de outros textos, não
apenas da tradição greco-latina. Ela tem relação direta com a crítica
contemporânea, enquanto está atenta aos conteúdos obscuros de sua época,
enquanto eles são culturais.
A proposta da Pop Literatura
é estar cultura atenta aos conteúdos desprezados de um tempo. Em nossa época,
estamos obrigados a pensar na questão da indústria cultural. Podemos dizer que
a Pop Literatura é, dentre várias coisas, a crítica da indústria cultural que
assume o padrão de produção da cultura de nossa época para compreendê-lo. Na Pop
Literatura, prepondera a pergunta “como fazer literatura?”, à qual ela responde
a partir de fontes não usuais e dos conteúdos do seu próprio tempo. Em termos bem
simples, a Pop Literatura é a literatura contemporânea com alto teor de
experimentação dialógica com outras áreas de pesquisa, com as artes, com outras
fontes, com outros métodos. A Pop Literatura se faz a partir da vida em seu
sentido político e cultural. Com a Pop Filosofia está em jogo o que a filosofia
pode e deve pensar, o que pode se tornar assunto filosófico; é aquela que se
deixou afetar pelo pop. De que pop falamos? Há pelo menos dois tipos de pop.
Este é apenas um
texto seminal sobre a questão. Estamos, ao mesmo tempo, na pré-história e
na pós- história da Pop Literatura. pode
ser considerada a herdeira histórica da área da estética literária, aquela que
se ocupou de certos conteúdos desprezados pela razão e pela teorização tradicionais,
a saber, o corpo e a arte. De todas as subáreas da literatura a estética é a
mais interdisciplinar, aquela que mais se relaciona com outras teorias e que
permite as investigações e a criação das metodologias mais ricas, o que
acontece em conjunto com a ética, a política, a epistemologia, a filosofia da
linguagem e, não é exagero dizer, também com áreas tão novas como a filosofia
multicultural. Para além da história da filosofia, sem esquecer dela, a
filosofia experimenta hoje uma autotransformação importante. Essa transformação
a aproxima das formas da cultura e da vida cotidiana, tanto mais vazias de pensamento,
quanto mais a filosofia se esquece delas. A Pop Literatura propõe um diálogo do
passado com o nosso tempo, tendo em vista as formas de viver e pensar das
pessoas que constroem seu tempo.
IV
Mesmo sendo a intenção
da Pop Literatura devolver o pensamento das pessoas para que elas possam
integrá-la às suas vidas. Vejamos um lado assustador, para muito desta Pop Literatura:
ela traz estranheza e perplexidade, também; traz certo conhecimento secreto,
toca nas raízes do nosso nada que pode ser a vida e como não incorporar os
problemas dos outros. Nos faz lembrar que conseguimos melhor as coisas quando
não as desejamos ansiosamente, a ponto de nos perturbar e nos atiçar em relação
ao ponto de chegarmos às raias do limite da loucura sem colher nem um fruto
disso. Um exemplo é a relação sexual: dormir, transar, fazer carinho: o que
fazer quando estamos deitados ao lado de quem desejamos: a Pop Literatura
aconselha que o mais excitante é, certas vezes, o não-fazer. Aí amor e sexo podem
ser negócio, é fantasiar.
Às crianças
deveríamos ensinar os mecanismos e o nada do sexo, de modo a não se entediar
até a velhice. Os conceitos sobre tais coisas não podem ser fixos. Acima de
tudo deve haver simplicidade. O que se faz a dois na hora do amor deve fugir de
algo como dois passarinhos numa gaiola. Não adianta enchera a cabeça com sexo
não adianta comprar as pessoas como se fossem coisas, mas o amor pode ser
comprado e vendido. Perceber que sexo é fantasia por sexo. Violência não é
sexy. Tem gente frígida que sabe fingir prazer e qualquer um atinge a
satisfação. Vejam: se um homem bonito tem aquilo pequeno ou uma mulher tem um
seio maior que o outro? Eles podem ter uma boa conversa e omitir/ eclipsar esta
imperfeição boba. Deve-se omitir defeitos porque isto não faz parte do que
queremos ser e todos, afinal, devemos, ao atravessar períodos de
impopularidade, resistir.
Não acredito que
assembleias e protestos produzam, por si sós, a mudança necessária. Nunca
gostei de pinturas abstratas; pessoas caretas são ridículas, insignificantes.
É diferente do que,
por exemplo, foi na arte a lata de sopa de Andy Warhol, seus outros pôsteres de
Marilyn, a partir da foto de Gene Korman de 1953 para o filme Niagara.
A lata é o nada. Andy Warhol criou a antiarte, a arte popular gay proletária.
Ele usou Duchamp na sua técnica silk-screen sobre lona. Andy
Warhol: demônio, alien, zen, existencialismo à la Samuel
Beckett. Trata-se do sexo como um trabalho. Nossa pop filosofia
é assim: grande pênis murcho cinzento, violenta beatitude como peruca prateada,
velhice fake. Não Narciso espelho; o bordel de Drácula-Cinderela.cA
manipular mentes, demônio, cheio de insultos lacônicos, com fome de gente, como
um Bob Dylan às avessas. A atrair ódios desde a primeira vez quando, na Suécia,
Andy Warhol disse: "Todos serão famosos por quinze minutos".
Esta sociedade de fascistas de plástico, ou até mártires. A indústria de Andy
Warhol, a Factory de Andy Warhol, como vida de um mosteiro naquele 1968
turbulento. Dali, Salvador Dalí, Picasso e Andy Warhol são os três maiores da
pintura do século XX. E Warhol é também como Oscar Wilde foi para a sua
Londres, na sua época. Igual ao filé de peixe da McDonald’s, purê de batatas,
bolo de aniversário. Transgredir não exige seriedade.
Devemos repensar
sobre o homem na lua, Zeitgeist de uma época nojenta como a
nossa, que transa para a mídia. Uma era pós-álcool e drogas, e nossos rostos de
pedras cibernéticas. Coisa dita e feita na Inteligência Artificial. Somos todos
agentes duplos a glamorizar e satirizar num tempo sem realidade, sem amor. Tudo
inadequado, sem significado em plena existência — nossa inexistência.
Muitos, quase todos,
cheios de passividade viciosa, onde se exclui a indignação. A moda mortalha do
real, simbólico, imaginário trans-lacaniano. Pós-sexo como divertimento?
Ou ainda e sempre? Não damos mais tanta importância a coisa alguma. O grande
medo da solidão se foi, e a era da repetição prosseguirá até onde? Continua, ou
continuará, a elegância na década da decadência, em meio à ironia viscosa de
crianças horríveis no século XXI. Neste segundo quarteirão do século XXI, já.
Pop Literatura é para todos e todas.
A
Paixão
Texto
Moisés Monteiro de Melo Neto
PRÓLOGO
(JUDAS E JESUS: Judas está
sentado e Jesus ajoelhado à sua frente lava os pés dele)
JUDAS — A alma para salvar-se, precisa do sacrifício do corpo. Não é Jesus? Convenhamos. O diabo não é o culpado
do grande morticínio na Terra O diabo sendo mentira Nunca poderia criar a
realidade, a verdade.
O
medo comum une diferenças. O Deus dos hebreus ou o dos árabes são como heterônimos,
criações de uma só entidade. Deus não tem remorsos e tu, Jesus? És um ingrato
como são todos os filhos. Achas que não se pode duvidar do teu Deus, mas de
Júpiter romano? Sim. (pausa, ri, sarcástico) Entendo. Grupos dos teus fiéis
rechincharam sobre as brasas e Tu? Nem nem... e não me venha com tuas frases de
efeito (zomba) “Pai, afasta de mim este cálice”. Ora, é preciso ser-se Deus
para gostar tanto de sangue! Sim, por isso o inferno é tão mais povoado que o
céu. No céu é mais difícil E além do mais, o diabo também tem coração. Se o
diabo pedisse perdão a teu Deus e não fizesse mais nada de condenável, Deus não
o perdoaria!
(Jesus
ia parar de lavar os pés de Judas, este está sentindo prazer e não quer que ele
pare)
Ah!
Não pare Jesus continue massageie vá
continue massageando os meus pés suas mãos são tão... terapêutica! Lúcifer, o
mais fiel de todos os anjos, ele, mesmo arrependido, nunca seria perdoado.
Tu,
Jesus, não precisarias morrer. Eu não teria vontade de matar-me. Mas Deus
precisa de Demo e não permite que Ele este lhe cante louvores.
O
bem de Deus não existiria sem o amor, sem o mal do diabo. A morte do diabo
seria a... morte de Deus.
O cálice desta nossa ceia, quem o fez foi o
demo... será nele que colherão o teu sangue... continua, vai: lava meus pés. Eu
vou limpo dos pés para trair-te. Porque és meu mestre... Embora digas que não
há hierarquias. Hipocrisia! Ó filho de Deus! Um Deus egocêntrico, que matará o
próprio filho para provar Sua soberania e conseguir milhares de novos adeptos. Não
és tu que fazes os milagres é ele. Preste atenção: este Deus não sabe o que faz, então. Eu sou
dos que querem a revolução pelas armas! E você é um puxa saco dos invasores,
sim: dos invasores romanos! “Q César o que é de César” (ri)Sinta: o
sinédrio me ofereceu dinheiro para trair nosso grupo eu não preciso de dinheiro
para isso. Vou trair-te para que Deus te tire da cruz e nosso grupo vença! Tão
Pop, não é?
Sua
mãe, Maria, diz que um anjo o anunciou, você é amante de uma prostituta, protege
adúlteras, transforma a água em vinho, multiplica pães e peixes, anda sobre as
águas... mas vão te crucificar para fundar igrejas e multiplicar adeptos...
este é o plano de Deus? A religião do morto!
Ah!
Mas um dia os árabes inventarão um novo Deus, a quem chamarão por outro nome,
talvez. E você me aponta para o papel de traidor... traidor é você! da nossa
causa. E te digo mais: essa tua conversa com o demônio tem lhe tornado um cara
muito estranho... e me diga (ri, prazerosamente): como os romanos
conseguem tanta madeira pra tantas cruzes? E os teus irmãos e
irmãs? Hein? Maria tem oito filhos, não? Como é que eles reagem a tua fama?
Ah! Bem-aventurados os humilhados! Fala sério, Jesus! Paciência tem limite!
Você se acha com o direito de perdoar e/ou levar aos sacrifícios nascidos e por
nascer? Não tem remorso contra os sacrifícios impostos? Tu assim o queres,
outros construirão templos sobre teu sangue e entranhas.
Lembras
quando mataste aquela figueira, secaste aquela figueira? Só porque foste até
ela com fome e ela havia, ali, nela, frutos, naquela hora. É assim que fazes
com quem estás no teu caminho Este caminho que é traçado por Deus Liberte-me
desta carga Não quero mais Você mandou nos anunciar as cidades a chegada do
Reino de Deus até aos intolerantes samaritanos queres ser herói expulsar
demônios mas demônios não morrem para onde vão deploráveis tuas respostas.
Conheces
bem a Torá de Moisés suas interpretações e mandamentos... há fariseus, escribas,
saduceus e os essênios, de os quais tanto gostas, não é? você escolheu os
fariseus... a Torá, você conhece muito bem. A Torá oral e escrita. Mas o
fundador da religião cristã serei eu, Jesus, Judas Iscariotes! Você é um
excêntrico milagroso da Galileia. Mas eu farei uma religião a partir de
você. Saberei exaltar essas coisas religiosas, essas suas curas. Você, dentre
loucos, charlatões, tantos lá, muitos, embusteiros, você irradia energia com seu
amor caloroso, caloroso, humildade, humor afetuoso, cálida intimidade, estatura
moral, visão elevada, agudeza das fábulas. Eu, Judas. O discípulo mais fiel
Judas...quem diria? Judas, o cristão! Fundarei o Cristianismo. Eu, o mais
entusiasta, um homem do grande mundo das relações públicas. Eu te aconselho,
vai! Não fui eu que aconselhei? Vai para Jerusalém, Jesus. Ser crucificado. Vai
e, ali, crucificado pelos judeus e romanos... desce da cruz!
Os
romanos, hedonistas, helenistas. E os samaritanos, ricos e pobres, escutarão em
Jerusalém para a festa do P e s s a c h vão cair de joelhos não é?
Sim, aos seus pés, pois és o salvador deles, também...
Pop!
E para todos vai começar o reino dos céus... é assim que eu te vejo. Na cruz! E
não dizendo “Pai afasta de mim esse cálice”.
Imagine
os preparativos para a crucificação! (pausa) Sabe o que eu penso Jesus? É
que é aí que triunfará a nossa revolução; é aí que vai se dar o grande milagre,
Jesus, sim! Deus vem na hora e vai te procurar tirar da cruz e botar no chão e
nós gritaremos Rei dos judeus! Meu Deus, meu Deus!” dirias, “não me abandonaste”!
Mas
e... se Deus não arrancar os pregos da tua cruz? E se meu plano der errado? Eu
serei o primeiro cristão a ser morto. Eu, abastado, culto, articulador
político?! Eu, escolhido pelos sacerdotes para espionar você...
E
Lázaro, o irmão de Madalena e Marta, hein? Você o curou. Mas ele morreu de novo
e Madalena lhe pediu para não o ressuscitar, pois “ninguém merece morrer duas
vezes!” Não é, mesmo, Jesus? O corpo de Lázaro ali, vazio de alma... E quando
depois que Lázaro morreu de novo, tu te ajoelhaste e oraste. Choraste muito...
Madalena,
a prostituta que dormiu não com o filho do Deus, mas com o filho de José.
Os milagres correram rápidos na notícia dos
milagres João Batista, seu primo Preso por criticar a mulher de Herodes E o próprio
Herodes Adultério, mas nada disso, Ó Jesus, que fez cegos enxergar, cegos andar
leprosos ficarem limpos, surdos a ouvirem a boa nova anunciada aos
pobres. Não é preciso tanto para ser o Messias, é? Faça o que deve.
O
batismo que recebeste de João Batista, teu primo, alimentou o teu fogo. (pausa)
Por
que foges para os montes elevados e ficas olhando para a frente, por que não
olhas as estrelas, nestas meditações? O que esperar? O que é que esperas que
aconteça? Hein?
Mudaste
muito! Pareces um processo que não traz apenas a paz, mas a espada para esses
teus doze apóstolos, nós, quase todos descalços, grandes cajados. E quando
chegamos às portas do templo em Jerusalém? Ah, quase mil pessoas nos seguiam! Tua
fama é grande e nós éramos, uau! Nós éramos como... como teus figurantes! Quando tu atacaste os
comerciantes do templo com tua voz de bronze, te ajudamos nisso. Treze rudes
galileus contra os soldados do templo. Os romanos não se metiam com a coisa do
templo, não é? O sumo sacerdote disse, depois do escândalo: “—Deixe Jesus ir.
Se voltar, o cortaremos e lançaremos fora”. Tu estás sendo manipulado por Deus
e o Diabo, como se eles estivessem jogando... num cabo de guerra ou o jogo dos
quatro cantos!
Tuas
obras de regeneração física não deixam em ti um travo ácido. São apenas
adiamento de decadências inevitáveis. E
na tua morte estará a morte de todos nós.
O
que você sentiu quando João Batista foi preso? Por que você não lutou por ele? Por
que nos ordenou, naquela hora, ponderação extrema? E lançaste-nos este teu
riso enigmático. Nenhum milagre teu conseguiria colocar de volta a
cabeça de João Batista no corpo degolado dele! Certo?
Tu
disseste-nos que serias crucificado ou é uma memória minha isso por tua causa
nós também seríamos não porque foi crucificado por causa de Deus dizes que
blasfema só tu podes falar assim A nossa escolha só pode ser entre Deus e Deus.
Não posso ir contra isso, mas posso tentar. É meu dever. Virão os guardas de
Herodes te prender aqui de manhã à luz da manhã e tu dirás: Eu sou o Rei dos Judeus.
Jesus,
não me ressuscite, Jesus, se eu morrer antes de ti, por favor, Confias nos seus
discípulos? Pedro te negará três vezes A tua cruz te espera Cordeiro abatido
dirás Homens, perdoem Deus Ele não sabe o que fez...
(Jesus para de lavar os pés de Judas e sai
com a toalha e a tigela com água)
CENA 1
CONSELHEIROS ANUNCIAM QUE JESUS
TROUXE A BOA NOVA
CONSELHEIRO
1: O sertão vai se alastrar! Não só os ricos que nos escravizam, roubam o que
possuímos e ainda matam, os que se dizem cristão e têm preconceito... burrice e
ganância, são víboras
CONSELHEIRO
2: Jesus não usava sua condição de rei. Ele enfrentou os desmandos dos romanos,
mas vocês, não vocês discriminam... são perversos e usam a bíblia como
disfarce, tenham vergonha!
CONSELHEIRO
1: Quando Jesus nasceu havia uma rebelião dos hebreus contra o Império de Roma:
mais de dois mil homens foram crucificados.
CONSELHEIRO
2: Quando orarem não sejam como aqueles que gritam para que todos os ouçam. Está
escrito: nem só de pão vive o homem!
CONSELHEIRO
1: Em Canudos havia mais de 5 mil casas, um número crescente de flagelados!
CONSELHEIRO
2: Raça de cobras venenosas! Vocês! Pensam que vão escapar do castigo que Deus
vai mandar?!!! Eu vos aviso: o machado está pronto para cortar as árvores
pela raiz. Toda árvore que não produz bom fruto será cortada e jogada no fogo.
Arrependam-se e voltem depois.
CENA 2
SATÃ — ... se és filho de Deus, transforma esta pedra em pão... ou... joga-te
no abismo... Deus te salvará!”. Ao que Jesus responde: “Como ousas testar Deus?"
JESUS — Afasta-te de mim, Satanás! Eu só sirvo a Deus! Só a ele! A terra será
dos que agora são excluídos. Os que têm fé serão salvos!
(continua)

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