O TEXTO DE TERROR COMO INSTRUMENTO PARA
O DESENVOLVIMENTO DO LETRAMENTO LITERÁRIO COM O CONTO O GATO PRETO,
DE EDGAR ALLAN POE
João Batista da Silva
Moisés Monteiro de Melo Neto
Wyllison Vítor Gonçalves Silva
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O trabalho com
a literatura na escola enfrenta desafios significativos em um cenário em que
imperam práticas educacionais mais tecnicistas. Essas abordagens, geralmente
focadas em preparar os estudantes para exames e vestibulares, muitas vezes relegam
a leitura literária a um papel secundário. O resultado é um ambiente
educacional que valoriza mais a memorização de conceitos e fórmulas do que
propriamente o desenvolvimento do pensamento crítico ou do fomento à apreciação
estética que a literatura é capaz de proporcionar.
A
literatura, enquanto instituição humana por sua natureza, consiste em uma
espécie de “inutilidade fundamental” para a formação dos estudantes, pois se
por um lado não entrega conhecimentos práticos, como os cálculos matemáticos,
que auxiliam no trato com o dinheiro, por exemplo, por outro traz reflexões
necessárias que despertam a criatividade e ampliam horizontes, permitindo uma
visão mais profunda sobre o mundo e sobre si. Isso diz respeito, segundo o que
defende Antônio Cândido, ao caráter humanizador do texto literário.
No entanto, em sistemas
escolares nos quais o desempenho em avaliações externas é o objetivo principal,
o texto literário muitas vezes é tratado como um mero pretexto para ensinar
técnicas de interpretação ou para treinar competências específicas, como
análise de estruturas textuais ou identificação de figuras de linguagem. Esse
enfoque empobrece o contato com a obra e desmotiva os estudantes, que não
conseguem enxergar a riqueza que a leitura pode oferecer.
Diante
desta perspectiva, faz-se necessário pensar em estratégias que valorizem mais o
trabalho com a literatura e tenham como foco o letramento literário. Adotar a
perspectiva do letramento literário, segundo Cosson (2014), é também refletir
no texto como exercício de linguagem, que foge do senso comum e que toma formas
diversas. Além disso, valoriza-se a leitura literária enquanto ato reflexivo,
reflexão que começa antes mesmo da leitura em si e que valoriza as múltiplas
percepções a respeito do texto, não restringindo a leitura a modelos
cartesianos de qualquer natureza.
Em
relação à seleção dos textos, as narrativas de terror têm uma importância
significativa nas aulas de língua portuguesa, pois estimulam a imaginação e promovem
um engajamento nas leituras que são propostas, o que pode ajudar os estudantes a
desenvolverem habilidades interpretativas, explorando temas como o medo, o
mistério e o desconhecido.
Desse
modo, este trabalho apresenta um modelo de sequência básica experimental com o
conto O Gato Preto, de Edgar Allan Poe, realizado em uma escola municipal
no agreste de Pernambuco. Para tanto, busca-se trazer aqui reflexões acerca da
relação entre letramento literário e a formação de leitores literários, de
acordo com Cosson (2014), a importância do trabalho com a literatura fantástica
na escola, segundo Todorov (1974), Roas (2014), Lovecraft (1978), dentre
outros. Por fim, será apresentada a sequência metodologia desenvolvida e a
discussão dos resultados.
1. O LETRAMENTO LITERÁRIO E A
FORMAÇÃO DE LEITORES DE LITERATURA
O Conceito de
letramento literário, conforme definido por Cosson (2006), diz respeito a um
processo fundamental para a formação de leitores que compreendam e interajam
com as diversas linguagens que os textos literários oferecem. Tal concepção vai
além da simples habilidade de decodificar palavras, interpretar mensagens
explícitas ou perseguir a “intenção do autor”, como se o desafio do leitor
fosse única e exclusivamente entender o que quis dizer o escritor (busca vã).
Ao contrário disso, as práticas de letramento literários envolvem a capacidade
de compreender o texto em sua essência artística, cultural, linguística e
subjetiva.
Para validar
sua teoria, Cosson (2006) compara o exercício do letramento literário ao
treinamento do corpo físico, pois assim como este último precisa ser exercitado
constantemente para que não ceda ao sedentarismo e sofra com doenças provenientes
desta condição, o "corpo linguagem" (capacidade artística e
intelectual) do ser humano também precisa ser continuamente exercitado. A
literatura, nesse contexto, pode ser entendida como um espaço único de
experimentação, no qual os estudantes podem explorar narrativas que não se
prendem às regras da objetividade. Essa liberdade linguística e criativa é
essencial para estimular o pensamento crítico e a autonomia intelectual dos
estudantes.
Assim, promover
o letramento literário nas aulas de Língua Portuguesa é essencial para o desenvolvimento
de um olhar crítico e sensível sobre o mundo, ao mesmo tempo em que exploram as
múltiplas possibilidades da linguagem. Desse modo, entende-se a literatura como
uma instituição humana (e humanizadora) capaz criar sentidos diversos a partir
do exercício da linguagem.
Além de Cosson,
outros estudiosos reforçam a importância dessa prática. Para Barthes (2007), a
literatura é o meio que o escritor utiliza para romper com o “fascismo da
língua”, processo no qual rompe-se com o pragmatismo das palavras, e, com isso,
a literatura opera como uma espécie de jogo, em que o leitor é convidado a
explorar as regras do texto, decifrar enigmas e construir interpretações
únicas. E como todo jogo, ele não está a mercê de explicações cartesianas,
apenas deve ser jogado.
Segundo Cosson
(2006), o letramento literário requer um ensino que priorize a experiência do estudante
com o texto, valorizando a interpretação, a subjetividade e o prazer da
leitura. Ele sugere que a escola deve ir além da indicação de obras literárias
e assumir o papel de mediadora no processo de formação de leitores, com
estratégias que conectem os textos à realidade dos estudantes. Nesse caso, para
o autor, o letramento literário é, antes de tudo, uma obrigação social, e
defende que a prática literária deve ser cultivada como parte do
desenvolvimento humano e cultural.
Esse processo
não apenas estimula a criatividade, mas também amplia o repertório cultural dos
discentes, permitindo-lhes compreender diferentes perspectivas e formas de
expressão. Nesse sentido, o trabalho com textos literários nas escolas deve
incentivar o diálogo entre o leitor e o texto, proporcionando experiências
significativas e transformadoras.
Para tanto,
Cosson (2006) defende a necessidade de uma abordagem didática planejada, que
inclua a escolha criteriosa de obras, estratégias para motivar a leitura e a
mediação ativa do professor. Essa mediação é essencial para orientar os
estudantes na interpretação dos textos, ajudando-os a identificar
características específicas de cada gênero e estilo. Por exemplo, compreender
que a subjetividade e o uso artístico da linguagem em um poema diferem da
narrativa de um conto de terror é um passo importante para reconhecer as
nuances do discurso literário.
Visando desenvolver o letramento
literário que, em outras palavras, significa o caminho de aquisição da
Literatura como uma linguagem, Cosson (2016) apresenta dois tipos de sequências
que propõem o trabalho de desenvolvimento planejado de apropriação dessa
linguagem literária em sala de aula, uma sequência básica e outra expandida.
Conforme escrito no livro Letramento Literário: Teoria e Prática (2016),
a sequência básica dar-se por quatro etapas simples, a saber: motivação,
introdução, leitura e interpretação. Por outro lado, a sequência expandida
acresce à sequência básica duas etapas: contextualização e expansão. Essa etapa de expansão consiste em explorar
as possíveis relações textuais da leitura realizada. Nesse momento,
desenvolve-se um trabalho de análise e comparação, no qual o texto é articulado
com outras produções, buscando estabelecer conexões intertextuais.
Portanto,
fomentar o letramento literário nas aulas de Língua Portuguesa é um compromisso
pedagógico indispensável. Ele não apenas aprimora a competência leitora, mas
também forma cidadãos capazes de interpretar a complexidade do mundo à sua
volta. Por meio de uma abordagem que valorize a interação com o texto
literário, o papel mediador do professor e a contextualização cultural das
obras, a escola contribui para a formação de leitores críticos, sensíveis e
preparados para os desafios da sociedade contemporânea.
2. OS TEXTOS DE TERROR ENQUANTO
FERRAMENTA PEDAGÓGICA
Os textos de
terror possuem uma característica singular: a capacidade de evocar emoções
intensas, como medo, ansiedade e suspense, por meio de elementos narrativos que
transitam entre o real e o fantástico. Segundo Todorov (1970), o fantástico se
estabelece como um momento de hesitação entre o natural e o sobrenatural. Essa
incerteza é o cerne do gênero, pois desafia o leitor a questionar se os eventos
narrados têm uma explicação racional ou se são fruto de forças sobrenaturais.
No terror, o fantástico frequentemente problematiza a relação entre o real e o
desconhecido, o que provoca no leitor sensações de estranheza e desconforto,
mas, paradoxalmente, curiosidade.
Roas (2014), por sua vez, amplia a perspectiva
de Todorov ao enfatizar que o fantástico, além de sua dimensão narrativa, é
também um fenômeno psicológico. Para o autor, o fantástico se manifesta na
percepção do leitor, que enfrenta o confronto entre suas crenças e os eventos
descritos na história. No texto de terror, essa dimensão psicológica é
explorada por meio de atmosferas opressivas, personagens ambíguos e cenários
que desafiam a lógica cotidiana.
Nesse sentido,
o teórico enfatiza que as narrativas de terror criam uma ilusão de real para
que, em dado momento, essa ilusão seja quebrada pelo sobrenatural. “Traído”
pela ilusão criada, o leitor se surpreende e começa a refletir sobre a obra
literária, além de refletir sobre o mundo objetivo.
Essa
característica, aliás, é o que desperta o interesse do leitor pelas literaturas
fantásticas. De acordo com Roas (2014):
Por que essa história fantástica impressiona os leitores? Para além
da habilidade do narrador em comunicar o escândalo (e o temor) do protagonista,
para além da verossimilhança em que está mergulhado o conto todo, a inquietude
que o leitor experimenta nasce da relação inevitável que estabelece entre a
história narrada e seu próprio mundo, entre um fato ficcional e sua própria
realidade. (p.110)
Em relação as suas temáticas, as narrativas de terror
frequentemente abordam temas complexos como o conflito entre o bem e o mal,
dilemas morais, e o medo do desconhecido, oferecendo aos leitores a chance de
confrontar essas questões em um ambiente seguro e controlado. Nesse sentido,
França e Sena (2020) destacam que o terror “sob controle” promove fascínio:
[...] quando é afastada de um perigo imediato ao indivíduo, ou
seja, quando se torna parte de uma fruição estética, a sensação do medo age
como um estimulante que resgata a mente de um estado de lassidão que seria
perigoso justamente por estar próximo demais da inconsciência do sono, de um
certo embotamento dos sentidos, de um enfraquecimento das nossas capacidades.
Assim como a dor pode ter um elemento prazeroso quando está relacionada ao
exercício físico, o medo pode ser fonte de prazer ao agitar nossa mente. Ele
nos deixa perplexos, mas nos instiga. Sobretudo, o medo nos desafia. (p.6)
Entretanto,
a natureza do texto literário de terror não está associada apenas a contar
histórias assustadoras, mas também ao seu caráter estético. Assim, cria-se uma
“atmosfera” do medo, como, por exemplo, em A Queda da Casa de Usher, de
Edgar Allan Poe. A obra, a partir da destreza da escrita do cânone mundial,
cria no imaginário do leitor a percepção de espaço sombrio e úmido em que se
passa uma história fantástica.
Nesse sentido,
de acordo com Lovecraft (1987), o verdadeiro horror literário deve evocar um
senso de medo profundo e existencial, que transcende o medo do físico ou do
desconhecido imediato. Para ele, a estética do horror se baseia na criação de
uma atmosfera que sugere a presença de forças ou realidades que estão além da
compreensão humana, o que ele descreve como "terror cósmico". Essa
abordagem enfatiza a pequenez do ser humano diante das coisas incompreensíveis,
típico questionamento shakespeariano: “Há mais coisa entre o céu e a terra, Horácio,
do que sonha nossa vã filosofia” (Shakespeare, 2001, p. 28).
Dada a grandiosidade estética, os textos de
terror vão ao encontro do conceito de sublime, de Immanuel Kant. De acordo com
Kant (2012) o sublime é descrito como algo que evoca um sentimento de admiração
misturado com temor ou reverência. O sublime está ligado a experiências que
envolvem grandeza, vastidão ou poder, como tempestades, montanhas imponentes ou
o vasto oceano. Esse sentimento é mais intenso e até arrebatador, pois desafia
nossa capacidade de compreensão e nos confronta com algo que parece estar além
da nossa capacidade de controle ou entendimento. Para Kant, o sublime, embora
inicialmente desconcertante, também eleva o espírito humano ao sugerir que há
algo maior e mais poderoso que transcende a experiência cotidiana.
Diante do que
foi apresentado anteriormente, pode-se dizer que a literatura de terror
desempenha um papel crucial no estímulo à leitura literária nas escolas e,
consequentemente, ao letramento literário, pois o seu caráter provocador e
instigante apresenta ao leitor desafios de explorar narrativas que incitam a
sua percepção e visão de mundo. A leitura crítica e a apreciação da linguagem
mística evocada pelo terror, solidificadas no processo de letramento literário,
tornam-se ferramentas potentes, capazes de engajar os estudantes na direção da
ampliação das suas habilidades literárias, proporcionando uma formação leitora
mais rica e significativa.
3. PERCURSO METODOLÓGICO
Se para alcançar o letramento
literário é necessário que os alunos absorvam a linguagem literária para si, então
é imprescindível que antes de colocar os alunos em contato direto com a obra,
seja primeiramente desenvolvido um trabalho de ativação do interesse da classe,
que pode passar pela contextualização da obra que será introduzida, pela vida
do autor e em que contexto se desenvolveu o processo de escrita da obra, assim
como levantar questionamentos sobre determinado tema ou conteúdo com o qual a
obra dialoga. Despertar esse interesse inicial significa gerar uma quantidade
de curiosidade. É importante, para que se alcance a etapa de motivação da
sequência básica de Cosson (2016), que o aluno se sinta provocado a conhecer
aquilo que o texto literário oferece.
No letramento literário, o objetivo
principal esperado é que o estudante se relacione com as obras, compreendendo-as
e ressignificando-as de acordo com a sua visão de mundo, incorporando-as em seu
inventário cultural, como prática social. Essa ação torna-se impraticável se o
envolvimento do estudante com a obra não tem um vértice de ligação com o
interesse pessoal que o motiva a descobri-la. O motivo pelo qual o fenômeno de
letramento literário passa pelo campo da prática social é principalmente pela
razão de que tudo o que fazemos como sociedade, passa pelo caminho da escrita.
Nesse sentido, para discutirmos letramento literário, torna-se importante que
resgatemos o conceito de letramento, para que possamos, assim, aprofundar esse
conceito no âmbito literário.
De acordo com Soares (1998),
letramento é a tradução da palavra inglesa literacy. Os dicionários
ingleses traduzem literacy como “the condition of being literate”, ou
seja, a condição de ser literate, “letrado”, versado em literatura e
língua.
Literate é,
pois, o adjetivo que caracteriza a pessoa que domina a leitura e a escrita, e
literacy designa o estado ou condição daquele que é literate, daquele que não
só sabe ler e escrever, mas também faz uso competente e frequente da leitura e
da escrita. (Soares, 1998, p.36)
Assim, se o
letramento literário é um desdobramento do conceito de letramento, estamos
falando de um fenômeno que integra os âmbitos culturais e sociais de um grupo.
Essa dinâmica de internalização das obras e práticas literárias como práticas
também sociais, transforma a condição da obra literária — quando posta em
prática e em assimilação — em uma factual extensão das próprias vivências, e
daqui surge a sua importância no contexto educacional, principalmente num país
com altos índices de analfabetismo funcional.
3.1 SEQUÊNCIA BÁSICA COM O CONTO O GATO PRETO, DE
EDGAR ALLAN POE
Como forma
de promoção do letramento literário, é possível afirmar que os textos de terror
podem ser ferramentas impressionantes dentro da sala de aula. No caso deste
conto específico, alguns elementos ajudam a ampliar as características já
naturalmente proveitosas do gênero. Apresentamos neste trabalho a proposta de
tomada do conceito de Sequência Básica, desenvolvido por Cosson (2016), — as
quatro etapas “motivação, introdução, leitura e interpretação”, adaptadas para
o conto O Gato Preto, de Edgar Allan Poe. A primeira etapa,
correspondente à motivação que precede a introdução do estudante à obra, pode
ser muito bem aproveitada explorando o fato de que gatos, há muito tempo, já
são associados com atividades sobrenaturais e elementos místicos. Como forma de
motivar o estudante, questionamentos sobre a opinião desse a respeito da associação
do animal com coisas sobrenaturais são bem vindos, é uma boa forma de despertar
o interesse.
Além disso, aproveitar-se dos ganchos
literários — orações elaboradas para despertar a curiosidade e o interesse do
leitor — apresenta-se como uma excelente estratégia de motivação. No início do
conto, o narrador se refere à uma narrativa caseira e misteriosa. O fato de o
conto se relacionar com a figura de um animal doméstico é uma forma de provocar
questionamentos: “vocês já viram algo de estranho em casa?”, “já pensaram por
que é que os gatos às vezes olham para direções em que aparentemente não há
nada, dentro de casa?”. Abaixo, trecho do parágrafo inicial do conto, indicado
para ser usado como forma de motivar e despertar a curiosidade e o interesse da
classe.
Para a
narrativa mais selvagem, porém mais caseira, que estou prestes a escrever, não
espero nem peço que acreditem em mim. Louco, na verdade, seria eu se a
esperasse, em um caso em que meus próprios sentidos rejeitam suas próprias
evidências. (Poe, 2024, p.1)
Seguindo com
o percurso da sequência básica, o próximo passo é o de introdução da obra a ser
estudada. Nesta fase, é interessante contextualizar o autor e a obra, a época
de sua publicação e a temática que envolve a narrativa. Essa é uma etapa
importante do processo de sequência básica, porque o desenvolvimento da
interação aluno – obra, assim como o aproveitamento, produto dessa interação,
depende de um bom contato inicial, introdutório. Esse desenvolvimento dos
aspectos biográficos ajudam o estudante a se familiarizar com a obra, mas é
necessário que não se gaste demasiado tempo com ela. Conforme explica Cosson
(2016), o aprofundamento desses aspectos biográficos é responsabilidade das
atividades do pesquisador, não sendo necessário que o estudante se atenha
exacerbadamente sobre ela. Nessa etapa de introdução, também é bem-vinda a
leitura dos elementos paratextuais da obra: capa, contracapa, orelhas e design.
A leitura comentada do prefácio também é uma atividade que pode ser
desenvolvida nesta etapa, trazendo o aluno para dentro das questões com as
quais ele irá se encontrar na etapa seguinte, a leitura.
Esta etapa,
segundo Cosson (2016), deve ser uma leitura livre, ou seja, não vigiada pelo
professor. É importante que a primeira leitura seja uma leitura silenciosa da
obra e, por isso, é imperioso que as etapas anteriores tenham sido bem
elaboradas, para que tornem esse momento de introspecção literária o mais
proveitoso possível. Dando sequência aos trabalhos, é o momento de realização
da leitura oral, falada claramente e acompanhada de forma dinâmica. Nesse
momento, aquilo que o estudante leu silenciosamente e não foi capaz de absorver
ou compreender, pode ser facilmente elucidado pelo simples ato da leitura
guiada do professor.
No caso do
conto O Gato Preto, a estética psicológica, a aproximação do
sobrenatural e a morte estruturam-se em construções sintáticas que, por vezes,
podem dificultar o entendimento do estudante que ainda não está habituado com
esse tipo de linguagem:
Talvez, no
futuro, seja possível encontrar algum intelecto que reduza meu fantasma ao
lugar comum — algum intelecto mais calmo, mais lógico e muito menos excitável
do que o meu, que perceberá, nas circunstâncias que detalho com espanto, nada
mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais. (Poe, 2024,
p.1)
Para a
última etapa, a de interpretação, o levantamento de questionamentos e respostas
dos estudantes devem protagonizar o momento. Perguntas relacionadas ao
narrador, as suas inclinações e como ele desempenha a sua função na obra; como
a presença do gato preto constrói um clima misterioso; a questão da culpa e da
violência, o alcoolismo. Esta é uma fase de construção de relações de sentido,
entre o narrador e o gato; o narrador e a esposa; o narrador e o álcool, o
remorso, a loucura.
Aproveitar bem estas questões é um primeiro passo em direção
à assimilação da linguagem gótica. Ou seja, trabalha-se o desenvolvimento do
letramento literário de forma simultânea ao estudo das escolas literárias,
nesse caso o romantismo, o gótico.
Nessa fase
final da sequência básica, o momento é propício para avaliar como a classe
recebeu o conto e, mais ainda, como ela se relacionou com ele. Ou seja, buscar
compreender de que forma foi possível se apropriar da linguagem da obra, e entender
como é possível transformar essa apropriação em práticas sociais, concretizando
o processo de letramento literário. A etapa de interpretação não deve se
limitar somente à simples compreensão da narrativa, mas buscar envolver os
alunos em processos de ressignificação, incentivando-os a perceber como o texto
literário pode influenciar suas visões de mundo e suas práticas sociais. Por
meio de debates, produções textuais, dramatizações ou outras atividades
interpretativas, a turma é levada a se engajar ativamente com o texto,
utilizando a literatura como ferramenta para questionar, aprender e agir no
espaço social em que estão inseridos. Além disso, esta fase também contribui
para o desenvolvimento do pensamento crítico, uma vez que propicia o espaço
para debates e explanações de interpretações individuais, ampliando repertório
cultural e literário. Desse modo, a interpretação não apenas encerra a
sequência básica, mas também inaugura novos horizontes para o leitor,
concretizando o objetivo do letramento literário: formar leitores capazes de se
relacionarem profundamente com a literatura e de utilizá-la como um meio para
compreender e transformar a realidade.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como
forma de promoção do letramento literário, pode-se afirmar que os textos de
terror, em especial O Gato Preto, de Edgar Allan Poe, são ferramentas
pedagógicas valiosas para o ensino de literatura. Este trabalho buscou
demonstrar como a adaptação da Sequência Básica proposta por Cosson (2016) para
esse conto pode ser uma ferramenta eficaz de desenvolvimento de letramento
literário. No decorrer das quatro etapas que compõem o percurso metodológico da
sequência básica, a exploração dos sentimentos de culpa e remorso, alinhados à
estética psicológica que permeia a narrativa, veiculam a possibilidade de
desenvolvimento do pensamento crítico e da apropriação da linguagem literária,
efetivando o processo de letramento literário. O gênero terror, com sua
capacidade de evocar emoções intensas e provocar reflexões sobre temas
universais como culpa, violência e alcoolismo, conecta os leitores de maneira
profunda com o texto. Assim, a apropriação da linguagem literária ultrapassa a
esfera educacional, influenciando a maneira como os estudantes percebem e
interagem com o mundo ao seu redor.
BIBLIOGRAFIA
COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. 2ª. ed. São Paulo:
Contexto, 2016
POE, Edgar Allan. O Gato Preto. São Paulo: Sampi Books, 2024.
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 1. ed. Belo Horizonte:
Autêntica, 1998.

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