Pesquisar este blog

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Literatura de autoria indígena no Brasil e representação do índio em outras literaturas e artes

 


Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto

 

 

 

 

 

 

 


1.      Os discursos equivocados a respeito dos povos indígenas reportam-nos à literatura dos jesuítas, aos diálogos de Ambrósio Fernandes Brandão, as crônicas de Pero de Magalhães Gandavo, à poesia bucólica de Basílio da Gama e de Santa Rita Durão e aos romances de José de Alencar, entre outros exemplos que se seguem; em que o índio é visto superficialmente em sua identificação étnica. Sempre um marginalizado. Nesses moldes, a literatura brasileira tem se revelado mais excludente do que se caracterizado pela convivência solidária na abordagem de temas relacionados ao Índio, ao negro, ao judeu, a mulher, a criança, ao homosse­xual e ao idoso, entre outros segmentos que a sociedade dominante rotula de minorias. Passando o olhar pela geografia dos excluídos, por exemplo, as minorias são os milhões de desempregados, maiores e menores abandonados sem-teto, sem-terra, sem vez, sem voz, espalhados pelo país.

2.      Quanto à imagem do índio na literatura e na cultura brasileira, a teoria da cultura e da literatura indígena alerta-nos para vários equívocos: um deles refere-se ao nome Pindorama, ou Terra das Palmeiras, assim denominada pe­los indígenas da nação Tupi. Terra à vista: nos atropelos em torno da criação de um nome para legitimar a posse do lugar, os colonizadores chamaram-no de Monte Pascal: um “monte mui alto e redondo” habitado por aborígenes. Acelerando o processo de desterritorialização, os portugueses batizaram o lugar, uma suposta Ilha, em 22 de abril de 1500. Deram-lhe o nome de Vera Cruz Posteriormente, por ordem de D. Manuel, mudaram o nome para Terra de Santa Cruz. Por fim, decidiram chamar o lugar de Brasil.



3.      Ao longo de sua história, a literatura brasileira (em muitos casos) tem maltratado as vozes exiladas e a imaginação criadora com que os nativos nomes, lugares, pessoas e os elementos sonhados. Para ilustrar a questão, poucos se dão conta do preconceito que perpassa um discurso do escritor João Ubaldo Ribeiro, em torno do nome Pindorama. O escritor afirma o seguinte: “para substituir ‘Brasil’: “Pindorama, designação supostamente dada pelos índios ao nosso país. Não sou historiador, mas também não sou tão burro assim para acreditar que os indígenas tinham qualquer noção geopolítica, ou alguma ideia de que pertenciam a um “país” chamado. Pindorama. Não havia qualquer país, é claro, nem sequer a palavra Pindorama devia fazer sentido para os ocupantes que os portugueses encontraram aqui, se é que ela era usada mesmo. No máximo, significaria o único mundo conhecido deles”.

4.       Atala  e René são novelas de François-Rene de Chateaubriand (1801), inspiradas por suas viagens pela América do Norte, e que influenciou o Romantismo, principalmente o norte-americano e o brasileiro. Fala da crueldade e a guerra entre os índios (os “bons” selvagens) e apresenta, também, a santidade dos missionários. Chateaubriand insistiu que um índio dos Natchez, Chactas, "era mais do que metade civilizado", e que os valores positivos são considerados mais ou menos sinônimos de Cristianismo e europeização. No entanto, a decisão de retratar, pelo menos, dois índios com simpatia irritou gerações posteriores de leitores cujas atitudes haviam sido moldadas pelo "racismo científico", que até hoje é assumido por leitores casuais (que não leem os prefácios), que Chateaubriand era mais um propagador do que um denunciante do conceito "bom selvagem”. Embora a precisão do livro sobre o assunto da flora da América do Norte seja controversa, parece ser acordado que Chateaubriand nunca viu grande parte dos territórios do sul que ele descreve, e suas descrições são baseadas em livros de naturalistas. A história é contada a partir do ponto de vista do herói de 73 anos, Chactas, cuja história é preservada pela tradição oral entre os Seminotes. O enredo gira em torno de um jovem francês desiludido, René, que se junta a uma tribo indígena e se casa com uma mulher chamada Celuta. Em uma expedição de caça, uma noite enluarada, René pede a Chactas, o homem que o adotou, para relatar a história de sua vida.

5.      Trata-se de um romance histórico do norte-americano James Fenimore Cooperf, lançado em 1826, baseado em acontecimentos relativos à Guerra Franco-indígena-inglesa (1754-1763) aos quais foram adicionados elementos ficcionais num enredo rocambolesco: Cora e Alice Munro, filhas do coronel Munro, estão viajando com o major  Duncan Heyward do forte Edward para o forte William Henry, onde Munro está no comando. Um novo membro se soma ao grupo: o professor de canto David Gamut. O grupo é guiado através da floresta  pelo “selvagem” Magua, que os faz seguir por um atalho, longe da proteção dos ingleses. Heyward, no entanto, não fica satisfeito com o atalho de Magua, e começa a desconfiar das reais intenções do guia indígena No caminho, o grupo se depara com o espião  a serviço dos britânicos Nathanael Bumpo (também conhecido como Olho de Falcão) e seus dois amigos Moicanos  Chingachgook e seu filho Uncas. Aumenta a suspeita de que Magua seja, na realidade, um espião huroniano  a serviço dos franceses: como consequência, Magua foge.

6.      Temerosos de que Magua retorne com reforços huronianos, Bumpo e os moicanos conduzem o grupo a uma caverna para se esconderem. Lá, no entanto, eles são atacados pelos huronianos. Quando a munição acaba, Bumpo e os moicanos fogem, mas prometem retornar. O grupo restante é preso pelos huronianos. Magua oferece libertar o grupo em troca da mão de Cora, mas ela recusa. Diante de uma segunda recusa, Magua sentencia o grupo à morte. O grupo, no entanto, é salvo pelo retorno de Bumpo e os moicanos, que os levam a um edifício abandonado que havia sido palco de uma antiga batalha entre os índios e os britânicos. Os huronianos começam a atacá-los, mas param em respeito aos antigos companheiros que haviam sido mortos no local, e se retiram. No dia seguinte, Bumpo conduz o grupo ao forte William Henry, que estava sitiado pelos franceses.  Munro envia Bumpo ao forte Edward para pedir reforços, mas Bumpo é capturado pelos franceses.

7.      Brasil: Romance Indianista busca por um herói nacional.: figura de maior representatividade, o branco era tido como o colonizador europeu, e o negro, como escravo africano. Indígena era legítimo representante da América, a expressão da nacionalidade autêntica, de amor exacerbado à terra e defesa do território, símbolo de bravura e honra. Incorporar a tradição indígena à ficção era a autêntica expressão de nacionalidade, na prosa e na literatura de informação e na de catequese, retomada por Basílio da Gama e Santa Rita Durão. Por parte da Europa, foi a Teoria do Bom Selvagem, de Rousseau, que exerceu influência direta no pensamento literário brasileiro da época. Outro fator importante foi a adaptação que os escritores brasileiros românticos fizeram da figura idealizadora do herói.



8.      Forjou-se um "herói medieval“: o habitante do período pré-cabralino. Autores como o jesuíta José de Anchieta (século XVI, Basílio da Gama, Santa Rita Durão (século XVIII) e Gonçalves Dias (século XIX) sugereiam a importância da singularidade do indígena. Foi, contudo, José de Alencar, o escritor de maior expressão dessa fase do romantismo brasileiro.

9.      As obras O Guarani (1856), Iracema, (1865) e Ubirajara (1874) exaltam o sentimento de nacionalidade de  um  herói e ícone guerreiro. Nacionalismo nesta estética nativista, a exaltação da natureza, a idealização do índio como figura nacional, europeizado e quase medieval, os temas históricos, o resgate de lendas e o contato do índio com o europeu colonizador. O cearense José Martiniano de Alencar (1829-1877) exibe um estilo Sua primeira obra indianista a ser lançada foi O Guarani, um folhetim semanal que gerou corrida às bancas todas as semanas.

10.  Ao abordar a propriedade intelectual indígena, podemos considerar que alguns aspectos de uma das possibilidades de periodização da literatura indígena passa também pela ótica dos escritores não indígenas que tratam desta literatura, ou pelo menos da cultura indígena narrada. Tal periodização das manifestações literárias de autoria indígena levam alguns autores a tratar essa divisão, assim: o período clássico seria a tradição oral (coletiva) que atravessa os tempos com as narrativas míticas e depois viria o período chamado contempo­râneo (de tradição escrita individual e coletiva, impressa), com o entrelaçamento da história (do ponto de vista indígena) com a ficção (em fase de experimentalismo).

11.  Sendo o mito guarani o foco desta obra (com opção para o público infanto-juvenil), simplicidade narrativa, foco na complexidade do mito e sua relevância
na cultura guarani, considerando que o leitor não índio, faria um diálogo de parte deste mito com a narrativa bíblica do Dilúvio, mas a narrativa abre as portas para uma discussão sobre as especificidades
da cultura guarani. Interessantes grafismos geométricos, como este da capa, dialogam com formas de expressões indígenas. Questões diversas, como a história dos guaranis, resistência e diversidade, migrações e a demarcação das terras podem ser aprofundadas, servindo como propostas
para pesquisas.




Daniel Munduruku, Cyl Galindo, Graça Graúna, Roland Walter e Moisés Neto (Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto)


12.  DANIEL MUNDURUKU: natural de Belém do Pará, é o principal representante do seguimento literário indígena brasileiro. Autor de dezenas de livros, é escritor premiado nacional e internacionalmente. Vive na cidade de Lorena, SP. A origem do nome Munduruku está associada ao ruído que vem dos pés, nas expedições de caça e pesca, ou de guerra. Por isso, o grupo foi denominado de formigas gigantes. Essa é uma parte da história indígena contada e escrita por Daniel Munduruku em: Histórias de índio (1996), Coisas de índio (2000), As serpentes que roubaram a noite e outros mitos (2001), O diário de Kaxi: um curumim descobre o Brasil (2001). Esse autor procura atualizar a história dessa etnia, aproximadamente oito mil pessoas, que vivem em aldeias no sudoeste do pará, na margem direita do Rio Tapajós. Apesar do contato com o mundo dos “brancos”, mantém a sua cultura, principalmente a língua Munduruku, que é de tronco tupi. O grupo vive da caça, da agricultura e da exploração de ouro na reserva,  uma área demarcada para evitar a invasão de mineradoras, garimpeiros e madeireiros é uma realidade que está sendo enfrentada.

13.  A "LINBRA" -  Literatura Indígena Brasileira deixou de ser unicamente uma literatura oral para ser uma literatura escrita, e contradizendo a muitos intelectuais, existe e está ativa já há algumas décadas.  O que no início vingou com professores de aldeias e comunidades ajudados por entidades para publicação nas línguas maternas, evoluiu para uma literatura sofisticada, apurada e rentável no mercado literário nacional, num contexto até pouco tempo inimaginável, visto que era tida como uma literatura inexistente e cujos autores nunca poderiam se destacar no cenário nacional e internacional. O movimento "Nova Literatura Indígena"  baseado no mercado editorial teve seu processo iniciado a partir dos primeiros livros de Daniel Munduruku, o qual se seguiriam autores como Olívio Jekupé, Kaká Werá Jekupé,  Yaguarê Ya mã, Kanatio Pataxó, Rene Kithaulu, Ailton Krenak, Eliane Potiguara, Marcos Terena , posteriormente, Roni Wasiry Guará, Tiago Haki'y, Cristrino Wapixana, Elias Yaguakãg, Graça Grauna, Sulamy Katy, Kerexu Mirim, , Ely Makuxi entre outros.  Assim como ilustradores de destaque como Uziel Guaynê, Yaguarê Yamã, Elias Yaguakãg, Cleomar Tahuare e Sbel. É um movimento real e bem difundido graças a produção de qualidade valorizada pelas várias editoras no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Amazonas, e seus leitores fiéis. 

14.  Cada vez mais angariando adeptos, fãs e colaboradores, o movimento da "Nova Literatura Indígena" tem como objetivo levar o mundo ou os mundos indígenas para dentro da sociedade brasileira de uma maneira crescente e influente, mas sem o perigo do preconceito.

15.  A valorização das culturas e das maneiras de pensar o mundo é fundamental para que o Brasil evolua sem os estereótipos ainda usados, mas que tendem a desaparecer

16.   Vê-se nesse movimento um outro movimento, que não é o político nem o de militância radical, mas que acredita na paz e num Brasil de culturas polarizadas, valorizando os povos nativos e dando a eles voz e vez na sociedade através da literatura e de palestras onde os temas mais apreciados são a paz, o convívio igual e a valorização das culturas indígenas

17.  Assim, o movimento conquista não só uma parte da sociedade, como o Brasil num todo, inserindo o conhecimento e o pensamento indígena na alma dos leitores não indígenas, e o que não se conhecia, era tipo estereotipado, tratado com preconceito, entre outras faltas de conhecimento, passa a ser valorizado, enraizado e vinculado a sociedade. Os povos Indígenas passam a ser conhecidos da melhor maneira: sem medo e sem preconceito.

18. 

Uma história enraizada na terra roubada durante um pro­cesso colonial, como no caso das primeiras nações indígenas pan-americanas significa ter uma não identidade. Ter uma história enraizada na terra roubada durante um processo colonial, como no caso dos colonizadores e seus des­cendentes, significa ter uma não identidade nutrida pelo remorso recalcado. Refletida nestas não identidades – identidades fragmentadas e/ou alienadas por condições de violência – é a importância da geografia e da memória en­quanto elementos para se colocar como sujeito. Sem lugar a consciência e a subjetividade do ser humano são Inconcebíveis. Este lugar pode ser de natu­reza geográfica e/ou linguística, religiosa, cultural – um  lugar epistêmico. Para povos colonizados e grupos marginalizados, o processo da descolonização e desmarginalização significa que o lugar da subalternização – tem que ser transformado num lugar-lar onde a equação mundo/imagem do self (rompida e distorcida pelo processo colonizador) é reestruturada com base no próprio ethos

 ‘crônica’. Muitas vezes, são os editores não indígenas dos textos que formatam os manuscritos atribuindo-lhes o gênero textual que mais lhes parece cabível nas circunstâncias. (Sem que os próprios autores tenham escolhido intencionalmente tais gêneros?)

 

    Dada a complexidade da situação do surgimento dessas narrativas no espaço problemático entre a oralidade e a escrita, é de se esperar que os gêneros textuais das narrativas reflitam tal complexidade, dificultando a sua identificação em termos dos gêneros da cultura escrita, tais como ‘poesia’, ‘conto’ ou ‘crônica’. Muitas vezes, são os editores não indígenas dos textos que formatam os manuscritos atribuindo-lhes o gênero textual que mais lhes parece cabível nas circunstâncias. (Sem que os próprios autores tenham escolhido intencionalmente tais gêneros?)

 

    Dada a complexidade da situação do surgimento dessas narrativas no espaço problemático entre a oralidade e a escrita, é de se esperar que os gêneros textuais das narrativas reflitam tal complexidade, dificultando a sua identificação em termos dos gêneros da cultura escrita, tais como ‘poesia’, ‘conto’ ou ‘crônica’. Muitas vezes, são os editores não indígenas dos textos que formatam os manuscritos atribuindo-lhes o gênero textual que mais lhes parece cabível nas circunstâncias. (Sem que os próprios autores tenham escolhido intencionalmente tais gêneros?)

 

    Dada a complexidade da situação do surgimento dessas narrativas no espaço problemático entre a oralidade e a escrita, é de se esperar que os gêneros textuais das narrativas reflitam tal complexidade, dificultando a sua identificação em termos dos gêneros da cultura escrita, tais como ‘poesia’, ‘conto’ ou ‘crônica’. Muitas vezes, são os editores não indígenas dos textos que formatam os manuscritos atribuindo-lhes o gênero textual que mais lhes parece cabível nas circunstâncias. (Sem que os próprios autores tenham escolhido intencionalmente tais gêneros?)

 

    Dada a complexidade da situação do surgimento dessas narrativas no espaço problemático entre a oralidade e a escrita, é de se esperar que os gêneros textuais das narrativas reflitam tal complexidade, dificultando a sua identificação em termos dos gêneros da cultura escrita, tais como ‘poesia’, ‘conto’ ou ‘crônica’. Muitas vezes, são os editores não indígenas dos textos que formatam os manuscritos atribuindo-lhes o gênero textual que mais lhes parece cabível nas circunstâncias. (Sem que os próprios autores tenham escolhido intencionalmente tais gêneros?)

 

    Dada a complexidade da situação do surgimento dessas narrativas no espaço problemático entre a oralidade e a escrita, é de se esperar que os gêneros textuais das narrativas reflitam tal complexidade, dificultando a sua identificação em termos dos gêneros da cultura escrita, tais como ‘poesia’, ‘conto’ ou ‘crônica’. Muitas vezes, são os editores não indígenas dos textos que formatam os manuscritos atribuindo-lhes o gênero textual que mais lhes parece cabível nas circunstâncias. (Sem que os próprios autores tenham escolhido intencionalmente tais gêneros?)

 

    Dada a complexidade da situação do surgimento dessas narrativas no espaço problemático entre a oralidade e a escrita, é de se esperar que os gêneros textuais das narrativas reflitam tal complexidade, dificultando a sua identificação em termos dos gêneros da cultura escrita, tais como ‘poesia’, ‘conto’ ou ‘crônica’. Muitas vezes, são os editores não indígenas dos textos que formatam os manuscritos atribuindo-lhes o gênero textual que mais lhes parece cabível nas circunstâncias. (Sem que os próprios autores tenham escolhido intencionalmente tais gêneros?)

 

e cosmovisão

 

 

      A reapropriação do espaço via memória possibilita a colocação do sujeito na sua própria história. A re­nomeação do seu lugar e da sua história significa reconstruir sua identidade, tomar posse de sua cultura; significa, em última análise, resistir a uma violência que, nas suas diversas formas e práticas continua até o presente. Desta forma, a literatura molda ideias, crenças e ideais históricos e éticos con­tribuindo para a constituição cultural coletiva. Mediante a crítica literária e sua problematização das representações culturais se ganham insight dos diversos tipos de identidade cultural que constituem sociedades, tribos, nações.

 

      Dada a complexidade da situação do surgimento dessas narrativas no espaço problemático entre a oralidade e a escrita, é de se esperar que os gêneros textuais das narrativas reflitam tal complexidade, dificultando a sua identificação em termos dos gêneros da cultura escrita, tais como ‘poesia’, ‘conto’ ou ‘crônica’. Muitas vezes, são os editores não indígenas dos textos que formatam os manuscritos atribuindo-lhes o gênero textual que mais lhes parece cabível nas circunstâncias. (Sem que os próprios autores tenham escolhido intencionalmente tais gêneros?)

      Como se sabe, ‘poesia’, ‘conto’ e ‘crônica’ são gêneros da cultura escrita e têm mais a ver com a disposição do texto verbal no espaço bidimensional da página do que com o aspecto da performatividade e a interação narrador-audiência, mais característica da tradição oral, cujas distinções de gênero textual são menos definidas e mais situacionais. O ordenamento dos eventos é feito de acordo com uma experiência de vida de um sujeito; porém, esse sujeito da experiência, seja ele expresso explicitamente na narrativa ou não, mais do que um sujeito individual, é um sujeito social e coletivo.

      Uma característica marcante dos livros de escrita indígena é seu grande apelo visual. A grande maioria deles é altamente ilustrada com desenhos em cores vivas feitos pelos próprios autores individual e/ou coletivamente, levando alguns a considerá-los até como um fenômeno novo da arte indígena. Na maioria das vezes, porém, sendo tutelados por pessoas de fora das comunidades indígenas, o processo de editoração desses livros, incluindo o tratamento gráfico final que lhes é dado, muitas vezes é controlado por pessoas que acabam também vítimas inocentes das armadilhas que separam a cultura oral da escrita. Como no caso dos gêneros textuais, muitas vezes esses “editores”  desconhecem o papel e o valor do texto ou elemento visual naquela cultura indígena e, partindo de uma cultura escrita que dá primazia à palavra escrita, acabam confundindo-se e atribuem ao texto escrito (que para algumas comunidades indígenas apenas “ilustra” ou complementa um texto visual) maior importância do que ao texto visual. Aliás, o diálogo elaborado entre os textos visuais e escritos presente na nova escrita indígena ainda merece ser estudado como um fenômeno à parte.

      Tendo em vista que o objetivo principal do surgimento desses livros, dentro do contexto da nova escola indígena, é de resgatar as culturas indígenas, o que mais se vê nesse fenômeno da recente escrita indígena é o surgimento de uma nova cultura indígena atravessando e confundindo as fronteiras tênues entre a cultura escrita e a cultura oral.

      Essa nova escrita indígena, especialmente a que é escrita em português,  nasce paradoxal e simultaneamente local e nacional, marginal e canônica: local, porque cada comunidade com projetos para uma escola indígena se torna produtor/autor e consumidor/leitor de seus próprios textos; nacional, porque a política da escola indígena é federal, e isso faz com que surja um público consumidor/leitor potencial da escrita indígena em todas as escolas indígenas do país, fazendo com que esses livros possam circular para fora de suas comunidades produtoras, tornando as tradicionais sabedorias e valores das culturas indígenas (nas suas novas formas transformadas escritas) numa nova espécie de capital cultural transcomunitário

       

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário