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segunda-feira, 4 de maio de 2026

LITERATURA AFRICANA DE LÍNGUA PORTUGUESA : UMA PRÁTICA DE ENSINO. Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto (org)

 

LITERATURA AFRICANA DE LÍNGUA PORTUGUESA

UMA PRÁTICA DE ENSINO


Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto (org)

 

 

 


 

 

 

 


 

 

SUMÁRIO

 

 

PREFÁCIO............................................... 04

 

“NAS ÁGUAS DO TEMPO”: O LETRAMENTO LITÉRIO COMO FERRAMENTA DE SABERES MULTICULTURAIS..... 12

 

ENTRE O SONHAR, O FALAR E O ESCREVER: UMA PROPOSTA DIDÁTICA COM O CONTO DE MIA COUTO: O MENINO QUE ESCREVIA VERSOS.................................21

 

ANÁLISE DO CONTEXTO SOCIAL DA MULHER NO ROMANCE NIKETCHE: UMA HISTÓRIA DE POLIGAMIA............33

 

UMA PROPOSTA PARA O ENSINO DE LITERATURAS POR MEIO DA OBRA “FIO DAS MISSANGAS” DO ESCRITOR MIA COUTO..........41

 

LITERATURA AFRICANA EM CONTOS: A DESIGUALDADE SOCIAL REPRESENTADA NA OBRA A CIDADE E A INFÂNCIA..............51

 

A LITERATURA AFRICANA EM SALA DE AULA: MULTICULTURALIDADE

ENTRE ÁFRICA E BRASIL.......................................63

 

LITERATURA AFRICANA E LÍNGUA PORTUGUESA: UMA PROPOSTA DE ENSINO COM tA OBRA “TERRA SONÂMBULA” DE MIA COUTO...........................................75

 

TRABALHANDO COM O CONTO: LUANDA ASSIM, NOSSA............89

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Prefácio

Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto [1]

 Sempre um prazer para um docente ver seus alunos unindo Literatura e Pesquisa, Paulo Henrique Alves da Silva, Thalyta Machado da Silva, Andreza da Silva Freitas, Annila Carolina Silva, Jailma Aparecida da Silva, Maria Anieli da Silva Melo, João Marcos Silva Vilela, Josefa Baltazar de Lima, Thaís Deniz Lira, Claudeane Ferreira Freitas, Luciana Teodosio Alexandre Gomes, Mayara Oliveira de Lima, Djael Martins Pedro da Silva, Guilherme da Silva Vale, Brisa Laudicéia do Couto Lima, Erlane da Silva, Janicleide dos Santos Bastos, Alberto César Simplício, Giuliana Nunes Barbosa, Inês Gabriela Oliveira Valença, Tamara de Góis da Silva, Emanuela Ferreira da Rocha e Gabriele de Melo Cordeiro são alunos queridos do curso de Letras da nossa UPE, Campus Garanhuns. Aqui está o livro que organizamos com artigos deles na área do Ensino de Literatura africana de língua portuguesa. Foi um semestre marcado pela pandemia e estávamos inquietos, mas firmes nos nossos propósitos acadêmicos.

Vamos fazer um recorte na questão da literatura africana, ficaremos restritos a de expressão portuguesa, que nasceu de uma situação histórica originada no século XV, época em que os lusitanos, como os historiadores, poetas, escritores de viagens, homens de ciências, cronistas e das grandes literaturas chegaram ao continente africano.

Vem do século XV, a literatura que menciona os “bárbaros reinos” do além-mar, no início chamaram-na de literatura dos descobrimentos, que não é a literatura africana de língua portuguesa, mas registra um quadro cultural, político sobre o que se chamou “colonização da África”. Vem depois o aparecimento de uma nova literatura, a “literatura colonial africana” (1900-1939) que usava a vivência dos portugueses no além-mar, mesclando história e literatura tendo o homem europeu racista e não o homem africano (tido como inferior) como eixo central. Teorias que levaram horror a vida de escritores do porte de Cruz e Sousa, brasileiro negro do século XIX, como as de Gobineau, e as do filósofo Lévy Bruhl apontavam para uma mentalidade pré-lógica no povo negro.  A África era mostrada como uma linda paisagem, um Éden onde o protagonistas eram o homem europeu que cultuava a exploração do homem pelo homem. Mas com o tempo surgiram autores como João de Lemos (Almas Negras) e José Osório de Oliveira (Roteiro de África) que trouxeram visões mais justas sobe este absurdo.

Como percebemos nestas poucas linhas, a literatura colonial na África lusófona é marcada por vieses injustos, o que poderia ter melhorado mais com a implantação do ensino oficial e o ampliação do ensino particular, mas ainda demorou para ter-se ali algo parecido com a liberdade de expressão, ou pelo menos o início d e uma imprensa que pudesse respirar por si mesma. Fortalece-se na década de 40 uma nova literatura a que se chamou literatura africana de expressão portuguesa. Surge em Angola, o livro Espontaneidade da minha alma (1949) do angolano, mestiço, José da Silva Maia Ferreira, tida como primeira obra impressa na África lusófona, porém não a primeira obra do autor africano, claro. Anterior a esta temos o poema da cabo-verdiana Antónia Gertrudes Pusish, chamado Elegia à memória das infelizes vítimas assassinadas por Francisco de Mattos Lobo, na noite de 25 de Junho de 1844, publicado em Lisboa neste ano. Percebemos facilmente como história e literatura vão entrelaçando o homo fictus como o seu meio, seu tempo, seu lugar. E a literatura africana, este conjunto de obras literárias, vão traduzindo o fundamental tom de africanidade, sem ter que usar máscaras brancas, para lembrarmos Franz Fanon. África torna eixo para uma mensagem ao resto do planeta. Os vieses desta escrita se erguem contra as tendências europeias e europeizantes. Alguns a chamavam literatura neo-africana por ser escrita em línguas europeias e para diferenciá-la da literatura oral produzida em língua africana. Nesta literatura, o centro do universo deixa de ser o homem europeu e passa a ser o homem africano. Mas registramos também uma produção literária escrita diferencialmente mente aos povos africanos, em línguas locais mesclada com português, querendo tornar essa escrita um tanto inacessível aos europeus, dificultando ao branco decodificar algumas “mensagens”. Isto prossegue nas obras de António Jacinto, Agostinho Neto, Pinto de Andrade, Luandino Vieira e outros. Eram palavras e frases idiomáticas em línguas como o quimbundo. Diferente da brasileira, a literatura africana de língua portuguesa tem menos de um século de existência.

Houve também a busca do diálogo com o branco, nos laços que a língua tece no encontro desses dois povos, enriquecendo as questões da memória que singulariza cada povo. O poeta Tomás Gonzaga, exilado em Moçambique a partir de 1792, nos traz a à memória o retrato da sua vida lá. No início ele misturava o gênero europeu citações à paisagem de Minas Gerais (referências à paisagem mineira, ao chegar a Moçambique, onde já estivera o inesquecível compatriota Vasco da Gama na sua viagem a caminho da Índia e, mais tarde, também Camões, que morou lá de 1567 e 1569, compondo Os Lusíadas. Desde 1762 havia desenvolvimento urbano lá e a liberalização do comércio com mercadores do Brasil. Temos assim, mais estreitas relações entre Brasil e Moçambique

Tomás escreveu em Moçambique a carta-poema Os africanos peitos caridosos, que dirige a um amigo. Aparece ali certo início de literatura mestiçando-se, reinventando-se, fazendo transparecer amargura do exílio e despertar de outro tipo de consciência, pelas difíceis provações a que foi submetido por aqueles que o puniram, ao mesmo tempo que ergue sua voz para manifestar a fraternidade recebida do povo que o acolheu. No interior do poema, marcam sua presença os traços esperançosos, perpassados por uma forte carga utópica.

A Moçambique aqui vim deportado.

Descoberta a cabeça ao sol ardente;

Trouxe por irisão duro castigo

Ante a africana, pia boa gente.

Graças, Alcino amigo,

Graças à nossa estrela!

Não esmolei, aqui não se mendiga;

Os africanos peitos caridosos

Antes que a mão infeliz lhe estenda,

A socorrê-lo correm pressurosos.

 

Graças, Alcino amigo,

Graças à nossa estrela!

É necessário frisar que o tipo de literatura, chamada literatura africana de expressão portuguesa, é outra coisa. É dirigida aos africanos e escrita em línguas locais em mistura com o "português", pois o propósito era tornar a escrita inacessível aos europeus, isto é, não permitir ao homem branco descodificar as suas mensagens. Daí a introdução nas obras de poetas angolanos (Agostinho Neto, António Jacinto, Pinto de Andrade, Luandino Vieira e outros) de palavras e frase idiomáticas em quimbundo, e em muitos outros autores africanos como o moçambicano Mutimati Bernabé João.

Há uma fase vai dos anos 40 até às independências, metade dos anos 1970. Sagrada esperança, de Agostinho Neto e A vida verdadeira de Domingo Chavier, de Luandino Vieira são exemplos de textos impregnados de marcas visíveis da história enquanto revolta política entrelaçada com literatura.

Na literatura africana um ponto axial para análise parece ser o da expressão do exotismo sob todas as formas. Aqui pensamos no Orientalismo, na visão de Said (SAID, Edward. Orientalism. New York: Vintage Books, 1979).

Pepetela, Ondjaki, Mia e Agualusa: não são negros, eis a situação da literatura africana em língua portuguesa no continente desde o século XV. Continuou pela literatura colonial, eurocêntrica, racista.

  O voga de Antônia Gertrude Pusish é o mais antigo registrado autor lusófono africano impresso.  E livro seria o de José da Silva Maia Ferreira (ele de Angola, ele de Cabo Verde).  Antes temos a valiosa literatura oral.  A poesia de Agostinho Neto, Antônio Jacinto e Luandina Vieira se destacaram nas décadas seguintes. Destaque também para Mutimati Barnabé João, Moçambique.

  Podemos dizer que há influência de brasileira como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Jorge Amado em certos prosadores de lá.  Já o português-naturalizado angolano, José Luandino Vieira, autor de contos e romances recebeu o cobiçado Prêmio Camões, de Portugal.  (2006), ONDJAKI ganhou o Prêmio Jaboti (Brasil, 2010).

  Faz-se importante que estes autores africanos de língua portuguesa sejam discutidas pelos alunos, desde o ensino básico e pelos leitores brasileiros, pelas academias etc.  Cultura e literatura africanas na nossa grade de estudo e lazer.  Contra o estereótipo e o racismo, fortalecendo o viés afrodescendente brasileiro, riquíssimo em sua representação simbólica e na produção de novos sentidos para como gente, do mesmo modo que a literatura de Portugal, pois a literatura na humaniza e faz crescer. Tal perspectiva lusófona lapida nossa humanidade, amplia nossas noções de direito e representatividade, contra o silenciamento das africanidades, desmistificando as visões alienantes.     

  Até o início do século XXI não havia tantos bons estudos sobre a literatura africana em língua portuguesa, pelo menos quando tratamos dos de formação de professores para o ensino básico no Brasil. Os alunos brasileiros merecem outras visões que não a eurocêntrica, para um aperfeiçoamento da sua mundividência. Lembrando que a história é também forjada pela ideologia, ponto de vista etc. Se nossos alunos melhoram sua autoimagem através da cultura afro, isso é muito bom. A riqueza deste Continente é manancial de beleza e sabedoria.

A escravidão, que durou mais de três séculos no nosso país, é ainda presente no cotidiano brasileiro do século XXI.  Filmes como Pantera Negra e tantos outros da mesma quilate, apesar de ainda manterem certos ranços trazem a esperança para afrodescendentes. A reificação do negro deve ser evitada. A América Cristã errou muito em permitir a escravidão por mais de três séculos. Isto é óbvio.  Chegou o momento de pulverizar o pensamento negativista em relação ao negro. E não falamos simplesmente de miscigenação sem preconceito. A cultura afro-brasileira é complexa.

Não houve democracia racial plena, ainda.

A primeira Constituição do Brasil (1824) incluiu o cidadão negro, mas excluiu os escravos. O odioso tráfico interatlântico continuava, mantido por Inglaterra e Portugal. Este fato deve servir de exemplo das raízes, da diáspora, da discussão crucial na nossa sociedade, da dialética da libertação que nos pertence, um direito que ser exercitado, como o das mulheres, da homoafetividade, lógico, e a história deve revisitar as lutas sociais/ culturais/afetivas. Por um mundo novo que já chegou.

Os brancos são maioria, mas três entre cinco pessoas, pobres são negras. A diáspora dos povos africanos trouxe-nos um fortalecimento, mas a tristeza do blues, o banzo, a dor, ainda são grandes. A mãe África, estuprada tantas vezes nos porões dos navios negreiros, nas senzalas, é digna, vencerá.  É necessário tratar das especificidades do maldito racismo, da homofobia, do papel do ensino.

Se os Estados Unidos e na África do Sul deixavam claros o horror da condição negra, também nas colônias portuguesas na África, ficava mais visível a necessidade da determinada estratégias de luta. No Brasil negro unificado (desde 1978) fortificou-se em bases jurídico-políticas. A ideologia vigente começou a ser desconstruída e exposta. Se a Lei nº 9394, de 1996, incluiu no currículo oficial da rede de ensino no Brasil a obrigatoriedade das disciplinas de “História e Cultura Afro-brasileira”, falhou na fiscalização deste propósito. Também tarda a melhor qualificação de professores para estas funções: em 2003, com a vigência da Lei, o movimento foi fortalecido, mesmo assim, descumprido. 

A importância da literatura africana (e afro-brasileira) é essencial na valorização das africanidades, que tiveram seus princípios envenenados pela estigmatização branca a bombardear a estrutura psíquica do negro.

No campo da língua portuguesa e suas literaturas revela um viés histórico quando traz a voz negra, para o centro do palco das letras, fortalecendo uma escola democrática, também, por maior referenciais com alto quilate  estético-cultural.

Em Cândido (CANDIDO, Antônio.  O direito à literatura.  In:  Vários escritos. Rio de Janeiro. São Paulo: Ouro Azul / Duas cidades, 2004, p. 170-190).  Encontramos uma ideia do universal em todas as literaturas (p. 174).  A experiência vivenciada, através da literatura é coisa fundamental para o ser social.

A força da literatura precisa ser reativada no Ensino Básico com obras combativas e abrindo espaço à diversidade, ao plural, também contemporâneo, que leia o mundo, ajude na formação identitária, promovendo a interação dos saberes.

Nunca fui adepto da arte pela arte, acho esta doutrina prejudicial. Gosto da arte que leve a liberdade aos oprimidos, alargue as mútuas simpatias, nos fortifique em nossa estada aqui, neste planeta. Gosto de experiência imaginativa alheia que me satisfaça.  Não julgo valores ulteriores, a arte não deve se prender ao seu universo como se ele fosse autônomo, ela não pode se separar da vida, há uma conexão subterrânea entre elas.  O leitor não deve excluir nenhuma parte de si mesmo no ato de ler e nunca se colocar numa torre de marfim, isento. 

O resto é ler o que nossos alunos escreveram.  São coisas lindas que a literatura tem para lhe dar.

 

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1.      “NAS ÁGUAS DO TEMPO”: O LETRAMENTO LITÉRIO COMO FERRAMENTA DE SABERES MULTICULTURAIS

 

Paulo Henrique Alves da Silva[2]

Thalyta Machado da Silva[3]

Andreza da Silva Freitas[4]

 

“A literatura é o território sagrado onde se inventa um chão e nos sentamos com os deuses. O lugar onde, também nós, somos deuses. No momento dessa relação, estamos fundando um tempo fora do tempo. E nos religamos com o universo. É isso que torna num momento divino esse pequeno delírio que é o ato de inventar. MIA COUTO.

1 INTRODUÇÃO

Os processos de leitura e de escrita são atividades essenciais para a constituição de uma vida em sociedade. É por meio desses processos que agimos, pensamos, ampliamos nossos saberes, externamos nossos pensamos, concretizamos atos, entre outras atividades. Para Austin (1990), a linguagem, muito mais do que representar a realidade, serve para agir sobre ela, agimos sobre o real com a língua e por meio da língua.

Desse modo, entendemos que, cabe a escola, enquanto formadora de cidadãos socialmente atuantes, conscientes e críticos, promover, junto aos estudantes, as melhores formas de aprimoramento de competências ligadas às práticas de leitura e de escrita. Cabe, também, à escola fornecer materiais necessários para que o aprendiz possa estabelecer conexões entre aquilo que lê e aquilo que vivencia.

Quando pensamos na função social da escrita, estamos no âmbito dos letramentos que, para Souza e Cosson (2011), se referem aos usos que fazemos da escrita em nossa sociedade. Dentro da perspectiva dos letramentos, encontramos a definição de letramento literário, que nada mais é que “[...] o processo de apropriação da literatura enquanto construção literária de sentidos” (PAULINO; COSSON, 2009, p. 67). Essa noção, portanto, não se limita ao ato de ler textos de literatura, mas se relaciona com o fato de, por meio dessas múltiplas leituras, constituir saberes, pensar criticamente e relacionar o real e o literário, vivenciando, assim, uma “[...] experiência de dar sentido ao mundo por meio de palavras que falam de palavras, transcendendo os limites de tempo e espaço” (SOUZA; COSSON, 2011, p. 103).

É dentro dessa perspectiva que pensamos em levar para sala de aula uma proposta de trabalho com o texto literário. Essa proposta visa ultrapassar o nível da palavra, não é simplesmente uma proposta de leitura, mas uma forma de trabalhar com a literatura de maneira ampla: (re)conhecendo elementos multiculturais de uma sociedade, nesse caso a africana.

 Objetivamos, dessa forma, discutir sobre literatura africana. Para tanto, escolhemos como objeto de leitura e análise o conto “Nas Águas do tempo”, do escritor moçambicano Mia Couto. Por meio desse texto, organizamos um plano de aula que busca abordar alguns dos elementos culturalmente marcantes dos povos africanos, nos permitindo assim: construir um imaginário em torno da África que considere seu dinamismo cultural; proporcionar reflexões acerca de estereótipos que permeiam a cultura africana; instigar a prática de uma leitura ativa de textos e do mundo e conhecer elementos do gênero conto. Com essa proposta, permitiremos, por meio do contato com o texto de litratura africana, uma reflexão sobre a cultura desse povo, estabelecendo assim uma proposta de letramento literário

 

2 APORTE TEÓRICO

A África é um vasto continente, em que, desde os princípios da humanidade, habitam povos que carregam consigo costumes, tradições, línguas, crenças e características próprias, construídas ao longo de sua existência. O continente também aduz notável repertório de histórias e narrativas que, dentre outros aspectos, geralmente são saberes desenvolvidos na tradição oral, passados de geração a geração ao longo da História. De acordo com Hampaté Bâ (1982), esses saberes conferem a “conhecimentos de toda espécie, pacientemente transmitidos de boca a ouvido, de mestre a discípulo, ao longo dos séculos.”  (BÂ, 1982, p.167). Portanto, as narrativas africanas apresentam histórias de povos, culturas e lugares, proporcionando o contato com a memória e identidade dos povos africanos. 

Essas narrativas discorrem sobre as origens ancestrais, a conexão do homem com a espiritualidade e com os deuses e pregam pela harmonia da comunidade. Elas recorrem a elementos locais, como a natureza vegetal, animal e mineral, sobrepõe o real e o irreal, ao mesmo tempo em que combina os dizeres morais e/ou filosóficos provenientes da tradição. Em Afonso (2004) encontramos a seguinte afirmativa: 

 

As literaturas africanas instituem traços discursivos que decorrem da imbricação de culturas várias, de contaminações linguísticas múltiplas, de práticas de géneros literários que rebatem os cânones ocidentais. Pelas suas características e condições de produção, o conto, é sem dúvida, a forma literária que mais facilmente entretece vozes e experiências de lugares diferentes [...]. (AFONSO, 2004, p.51)

 

Em nossa opinião, o conto originário da África é um gênero privilegiado, destacando-se pelo sentido mais amplo que habitualmente, abrangendo outras figuras: pastiche, paródia, tradição oral e mitos. Outrossim, são saberes e experiências que possibilitam a compreensão e o contato com a memória e a história do povo africano. 

Ao contrário do conto oral, o conto literário africano é elaborado pelo escritor, no qual manifesta a arte, o talento e o espírito de invenção (AFONSO, 2004, p.68). A estrutura do conto inclui o mundo antigo, ao mesmo tempo em que confronta os elementos da modernidade que, segundo a autora supracitada, faz com que a sobrevivência dos mitos seja tão trágica quanto seu desaparecimento.

            Mia Couto, pseudónimo de António Emílio Leite Couto, é um desses contadores de histórias. Biólogo, professor e célebre escritor moçambicano, destaca-se pela publicação de romances, contos e crônicas, tendo já adentrado na poesia e na prosa infanto-juvenil, bem como no texto teatral. As obras do autor são espelho das tradições, histórias e modos de ser dos moçambicanos. Suas narrativas mostram o compromisso de Mia com a literatura nacional e seus temas sempre voltados para os acontecimentos de sua terra, do passado colonial, da posição feminina na sociedade, dos relatos dos mais velhos, a diversidade de costumes e culturas mediante a junção do tradicional com o moderno, entre outras temáticas. Como acrescenta Teixeira (2012): 

Nas literaturas africanas de língua portuguesa, mais especificamente a literatura de Moçambique, encontramos em Mia Couto o artista da palavra do recurso vocabular, na qual a oralidade e a escrita se mesclam, uma determinando os domínios da outra, sem perda cultural. (TEIXEIRA, 2012. p.13). 

O método de produção literária de Mia Couto é embasado na contação de estórias, como a de um “griot atualizado pela escritura”, que ouve, reflete e (re)conta o passado e presente, real ou ficcional, do seu âmbito cultural. As suas diversas linguagens e conversações que percorrem entre a realidade e a imaginação, retomando simbologias e espaços mítico-temporais, constituem a tessitura narrativa do artista. Como ele próprio afirma em uma entrevista:

Acho que não existe simplesmente ficção. Todo texto sempre tem essa relação de fronteira mal desenhada entre o que é real e o que é ficcional. O escritor brinca com isso, e ele próprio não sabe o que é. Fica confuso, mas, pelo menos, é verdadeiro nessa declaração de que não está dizendo algo inteiramente verdadeiro. Estou convidando as pessoas a brincarem nesse terreiro em que não se sabe o que é real, o que é utópico, o que é sonho. (COUTO, 2009c)

Em seus contos, o escritor integra traços marcantes da tradição oral, reinventando mitos e costumes, a própria estrutura da língua. A sua linguagem extremamente rica e fértil em neologismos confere-lhe um atributo de singular percepção e interpretação da beleza interna das coisas, num confronto permanente entre o passado e o presente de um país profundamente dividido entre o mito e a história. Podemos conferir algumas dessas características na análise do conto a seguir.

2.1 Análise do conto: “Nas águas do tempo”

“Nas águas do tempo” é o conto de abertura do livro Estórias Abensonhadas publicado em 1994, em Lisboa. Os escritos ali reunidos são tidos como uma forma fantástica de renascer Moçambique depois da guerra.

No prefácio de “Estórias Abensonhadas” lemos:

Estas estórias foram escritas depois da guerra. Por incontáveis anos as armas tinham vertido luto no chão de Moçambique. Estes textos me surgiram entre as margens da mágoa e da esperança. Depois da guerra, pensava eu, restavam apenas cinzas, destroços sem íntimo. Tudo pesando, definitivo e sem reparo. Hoje sei que não é verdade. Onde restou o homem sobreviveu semente, sonho a engravidar o tempo. Esse sonho se ocultou no mais inacessível de nós, lá onde a violência não podia golpear, lá onde a barbárie não tinha acesso. Em todo este tempo, a terra guardou, inteiras, as suas vozes. Quando se lhes impôs o silêncio elas mudaram de mundo. No escuro permaneceram lunares. Estas estórias falam desse território onde nós vamos refazendo e vamos molhando de esperança o rosto da chuva, água abensonhada. Desse território onde todo homem é igual, assim: fingindo que está, sonhando que vai, inventando que volta. (COUTO, 2012, p. 6)

            O espírito criador do autor transforma experiências humanas em relatos poéticos que, frente ao progressivo esquecimento dos valores e tradições, resiste à memória. “A memória dá a cada escritor um estatuto particular, porque ela testemunha a desestruturação à qual o colonialismo submeteu a cultura africana” (AFONSO, 2004, p.36).        

            Em “Nas águas do tempo”, observamos que a palavra é posta como complementar pela personagem do avô, que faz do silêncio, do ato de meditar e da comunicação gestual os meios necessários para a percepção de sua sabedoria e religiosidade. Sobre isso, fala-nos o narrador ao iniciar a história:

Meu avô, nesses dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava, onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado. 

– Mas vocês vão aonde? 

Era a aflição de minha mãe. O velho sorria. Os dentes nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem.

 – Voltamos antes de um agorinha, respondia (COUTO, 2012, p. 9).

            Ao apresentar a figura do velho, o narrador aparenta instigar o leitor a deter uma maior atenção ao que dirá o velho avô, buscando em outras linguagens as suas falas. O silêncio tem importante papel, atuando como a reflexão interior, a busca pelo elemento transcendental das crenças ancestrais, que nos falarão, a seguir, da comunicação entre homens e espíritos:

Naquelas inquietas calmarias, sobre as águas nenufarfalhudas, nós éramos os únicos que preponderávamos. Nosso barquito ficava ali, quieto, sonecando no suave embalo. O avô calado, espiava as longínquas margens. Tudo em volta mergulhava em cacimbações, sombras feitas da própria luz, fosse ali a manhã eternamente ensonada. Ficávamos assim, como em reza, tão quietos que parecíamos perfeitos. 

De repente, meu avô se erguia no concho. Com o balanço quase o barco nos deitava fora. O velho, excitado, acenava. Tirava seu pano vermelho e agitava-o com decisão. A quem acenava ele? Talvez era a ninguém. Nunca, nem por instante, vislumbrei por ali alma deste ou de outro mundo. Mas o avô acenava seu pano. 

– Você não vê lá na margem? Por detrás do cacimbo?

 Eu não via. Mas ele insistia, desabotoando os nervos. 

– Não é lá. É láááá. Não vê o pano branco, a dançar-se? 

Para mim era a mais completa neblina e os receáveis aléns, onde o horizonte se perde. Meu velho, depois, perdia a miragem e se recolhia, encolhido no seu silêncio. E regressávamos, viajando sem companhia de palavra. (COUTO, 2012, p. 10).

            À medida em que a leitura vai se aprofundando, narrador/personagem leva o leitor ao tempo da sua infância, relatando a história da morte do avô. Os personagens não são nomeados e atuam diretamente na representação de papéis, o do neto, da mãe e do avô, aqui, observamos o retrato de diferentes gerações unidas pelos trilhos da religiosidade. O avô atualiza as crenças coletivas ao guiar o neto pelos rituais de passagem desta vida para outra, através da morte, enquanto o neto absorve o conhecimento dessa memória antiga e o une com elementos da sua realidade, do seu presente. Dialogam assim, o tempo da tradição e o da modernidade.

            O diálogo entre neto e avô se funda na assimilação das diferentes sabedorias, sendo essa, característica de muitas culturas do continente africano, nas quais os velhos narram um saber, que agrega ao presente o conhecimento do passado, significando a permanência da história, da religiosidade e do seguimento cultural. Isso posto, os jovens são os responsáveis pela conexão do legado ancestral com o futuro.

Na obra, a transmissão do simbolismo é favorecida pela oralidade em conjunto com outras linguagens próprias desse conteúdo. Ao percorrer o diálogo entre a memória perceptiva e a memória inconsciente do sujeito, a palavra falada se fortalece nos elementos desse percurso. Essas alegações são vistas quando a personagem do avô fala ao neto sobre o comportamento humano, analisando-o no plural e na singularidade de sua cultura, assumindo a sua sabedoria como função transmissora:

 

Ao amarrar o barco, o velho me pediu:

–  Não conte nada o que se passou. Nem a ninguém, ouviu?

Nessa noite, ele me explicou suas escondidas razões. Meus ouvidos se arregalavam para lhe decifrar a voz rouca. Nem tudo entendi. No mais ou menos, ele falou assim: nós temos olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para ver os sonhos. O que acontece meu filho, é que quase todos estão cegos, deixaram de ver esses outros que nos visitam. Os outros? Sim, esses que nos acenam da outra margem. E assim lhes causamos uma total tristeza. Eu levo-lhe lá nos pântanos para que você aprenda a ver. Não posso ser o último a ser visitado pelos panos.

–  Me entende? (COUTO, 2012, p.13)

 

            Ainda sobre o simbolismo, em diálogos anteriores, avô e neto refletiram sobre a visibilidade e significado dos panos, buscando onírica ou racionalmente acessar os conteúdos míticos sagrados da sua constituição memorial. Portanto, os significados das cores existentes nos panos intensificam as simbologias percebidas no elemento água:

O vermelho é “universalmente considerado como o símbolo fundamental do princípio de vida, com sua força, seu poder e seu brilho, e também reconhecido como ambivalente, podendo ser iniciático ou fúnebre, passando pelos sentidos de amadurecimento e regeneração, de homem universal, de condição de vida, de ação e vitalização. O branco também tem significados de vida e morte, de transitoriedade, de limite. O branco pode situar-se nas duas extremidades da gama cromática. Absoluto, ele significa ora a ausência, ora a soma de todas as cores. Assim, coloca-se às vezes no início e, outras vezes, no término da vida diurna e do mundo manifesto [...], mas o término da vida – o momento da morte – é também um momento transitório, situado no ponto de junção do visível e do invisível e, portanto, é um outro início. [...] É uma cor de passagem, no sentido [...] dos ritos de passagem: e é justamente a cor privilegiada desses ritos, através dos quais se operam as mutações do ser, segundo o esquema clássico de toda a iniciação: morte e renascimento (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1996, p. 1411. Grifos dos autores).

            Observamos ainda um viés simbólico nos cenários da natureza que as personagens, crenças e simbologias transitam. O rio, o lago e o pântano são lugares do plano real, portanto, identificáveis temporal e geograficamente. E assim, cada ouvinte ou leitor pode estabelecer sentidos próprios ao conto, através do senso comum e do imaginário.

A memória do universo, a do sagrado, a da ancestralidade e da personagem conversam numa única percepção simbólica, acordadas pela presença do elemento água, que alia o tempo abstrato ao significado de “continuidade, elementar e inexorável''. A vida, qualquer que seja a forma, tem o infinito como horizonte e os elementos da natureza como registro memorial. O lago com suas incógnitas, o rio como perene passagem, e o pântano com sua instabilidade, uma espécie de fronteira entre água e terra, são registros compreensíveis do mágico, do mistério e do magnífico.

            Ao se referir aos artifícios utilizados por Mia Couto, retomamos o elemento mítico, que, no conto, evidencia-se, sobretudo, em dois trechos. O primeiro, na reflexão do narrador-personagem: “Dizem: o primeiro homem nasceu dessas canas.” (COUTO, 2012, p. 11) e, o segundo, em parte da afirmação do avô: “Todo o tempo, a partir daqui, são eternidades.” (COUTO, 2012, p. 12) Em ambas as passagens, o mito da criação do homem e da eternidade do tempo se apresentam, sendo estes fundamentais a narrativa contada.

Em síntese, ao transmitir uma ampla noção conceitual de tempo e ao exibir o conhecimento do passado relacionado à morte, como proposta de travessia para outro estágio, sendo esse um futuro em construção no presente, onde os tempos e temáticas dialogam, o conto mescla o sonho com a realidade, propondo um contato de gerações menos influenciado pela noção de tempo ocidental, linear, e mais adequado ao olhar de infinitude temporal. Tal perspectiva, também presente em várias das histórias do livro, faz da temática da passagem um constituinte e não fim em si mesma. A água dialoga com a noção de origem e o tempo situa a permanência e a continuidade, ambos visitados pela simbologia da morte que é, em nossa leitura, uma metáfora do eterno recomeço.

2.2 África e escola

Nas aulas literatura, oportunizar o contato com a produção literária em português do continente africano permite que a formação do alunado se volte para os multiletramentos (letramento cultural, literário, informacional e crítico) resultando na formação de leitores competentes, multiculturais e multiletrados capazes de conhecer, compreender e valorizar o outro e suas diferentes formas e expressões. Assim preconiza os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental II, ressaltando que um dos objetivos na formação do estudante brasileiro é que conheça e valorize

a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socioculturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras características individuais e sociais (BRASIL, 1997, p. 9).

Isso posto, podemos inferir que a presença de contos africanos no contexto escolar, excepcionalmente os moçambicanos - viés de nossa análise, permitem o contato com diversificados valores, comportamentos, crenças, e conflitos, o que contribui para reconhecer e compreender modos distintos de ser e estar no mundo. O conto, quando aplicado em sala de aula, motivando a aprendizagem dos saberes africanos, como método pedagógico, viabiliza uma abordagem da cultura e da história africana, atendendo às propostas da lei 10.639/2003.

A nossa proposta visa possibilitar a conscientização por parte dos alunos sobre a importância da cultura negra em nossa sociedade sob o viés das temáticas africanas, mais especificamente as abordadas no conto de Mia Couto.

O Conto “Nas águas do tempo” será utilizado como um mecanismo de resgate da cultura africana, uma vez que eles permitem compreender a forma de vida destes povos, ao apresentar elementos pertencentes à tradição, à religião, e aos valores culturais, bem como suas origens, que encontram muitas vezes de forma implícita em sua história. Nesse sentido, trabalhar o conto africano de expressão portuguesa no contexto escolar é relevante, pois o aluno terá contato com a cultura africana e poderá construir uma identidade, considerando a eminente contribuição do africano na construção da sociedade brasileira.

 3 RESULTADOS: Proposta de ensino

Propomos um trabalho que leve para a sala de aula uma visão plural e abrangente sobre os temas que circundam a África. Sob a justificativa da Lei 10.639/03 que instaura a obrigatoriedade do ensino da História da África, da cultura afro-brasileira no currículo escolar do ensino fundamental e médio, que vem resgatar historicamente a contribuição dos negros na construção e formação da sociedade brasileira.

Com isso, recomendamos levar para a escola a seguinte proposta de ensino:

 

PLANO DE AULA

Público alvo: alunos do 1º ano do Ensino Médio

Duranção: 3 aulas de 50 minutos

       Objetivo geral: Introduzir práticas de letramento literário por meio do conto africano.

Objetivos específicos:  

       Construir um imaginário em torno da África que considere seu dinamismo cultural;

       Proporcionar reflexões acerca de estereótipos que permeiam a cultura africana;

       Instigar a prática de uma leitura ativa de textos e do mundo e conhecer elementos do gênero conto.

 

AULA 1

 

       Ativação dos conhecimentos prévios dos aprendizes por meio de roda de conversa:

          O professor abordará questões para reflexão e ambientação com o tema, antes mesmo de apresentar o tema principal da aula, expondo algumas imagens e fazendo questionamentos.         

Ex.: Em qual lugar do mundo vocês imaginam essas cidades? (ANEXO 1)

          Após esse momento, o professor irá explicar que as imagens tratam de países africanos e que a aula de hoje irá propor uma viagem pela cultura desse continente.

          É importante falar de duas visões antagônicas que geralmente permeiam o imaginário da sociedade ao falar sobre África: de um lado se pensa em um continente pobre, seco, de miséria e de desigualdades; de outro um lugar de pessoas fortes, resistentes, com traços culturais marcantes, culinária específica, cores fortes, costumes, danças, ritos, crenças etc.

Ainda assim, muitas visões estereotipadas giram em torno da África. Então, nos propusemos a mostrar que o continente é tão moderno e desenvolvido como muitos outros do globo. Mas visamos também, e principalmente, nesse primeiro momento, ressaltar os traços culturalmente ricos que são particulares e intrínsecos àquele lugar e àquele povo.

          Será apresentado também o seguinte recorte:

“Um exemplo de como o senso comum pode trazer uma visão preconceituosa sobre o continente é dado no discurso que a escritora nigeriana Chimammanda Ngozi Adichie fez durante o TED 2013. No evento, ela relata o choque de sua colega de quarto da Universidade de Yale ao descobrir que ela fala inglês fluentemente e conhece músicas de cantores dos Estados Unidos. Afinal de contas, há muito mais por aqui.

Em 2015, a estudante Diana Salah, que nasceu na Somália, criou uma hashtag que bombou no Twitter: #TheAfricaTheMediaNeverShowsYou (em português, a África que a mídia nunca mostra). Basta fazer uma busca no Instagram pela tag para se deparar com imagens do continente que quebram com essas ideias preconceituosas.”

Exemplos de imagens encontradas na hashtag (ANEXO 2)

AULA 2

     O professor pode trazer, novamente, questionamentos que instiguem o pensamento reflexivo em torno da temática. 

        O que sabem sobre literatura africana, contos, mitos?

        Já ouviram falar do escritor Mia Couto?

        Se você ganha um livro contendo vários contos e um deles se chama “nas águas do tempo” sobre o que você imagina que se trata?

            Em seguida, cria-se uma roda de contação de histórias, todos os estudantes recebem uma cópia do conto e todos fazem a leitura alternando entre eles aquele que a fará em voz alta. Por fim, discute-se o conto atentado para seus aspectos de forma e de conteúdo. 

Ademais, o conceito de conto fantástico será introduzido e comparado com os gêneros: estranho e maravilhoso. Com isso, serão expostas as relações estabelecidas entre o conto lido em sala de aula e alguns conceitos advindos da literatura africana, tais quais:  a ancestralidade, a memória, a aproximação com a literatura de tradição oral, o mito, a relação morte-vida, passagem do tempo, o silêncio, entre outros.

AULA 3

 

Avaliação:

          A turma será dividida em grupos e será proposto uma releitura do conto, preservando os aspectos culturais. A releitura poderia surgir em algum formato que privilegiasse a oralitura, já que o gênero se aproxima e advém da tradição oral. Outras formas também poderiam ser abordadas por outros grupos: Teatralização, radionovela, adaptar para uma contação de histórias com fantoches, Histórias em Quadrinhos. Desse modo, toda a simbologia africana presente na obra seria preservada e trabalhada de maneira multissemiótica.

 

ANEXO 1

ANEXO 2

 

REFERÊNCIAS

AFONSO, Maria Fernanda. O conto moçambicano: escritas pós-coloniais. Lisboa: Caminho, 2004.

AUSTIN, John Langshaw. Quando Dizer é Fazer. Trad. Danilo Marcondes de Souza Filho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

BÂ, Amadou Hampaté. A tradição viva. In: História Geral da África I. Metodologia e Pré-história da África. Trad.: Beatriz Turquetti. São Paulo: Ática, 1982.

BRASIL, MEC. Parâmetros curriculares nacionais: arte. Brasília: MEC/SEF, 1997.

CHAVES, Rita. Passado e Presente na Literatura Africana. São Paulo: Revista Via atlântica n.7, 2004.

CHEVALIER, Jean; GEERBRANT, Alan. Dicionário de símbolos. 10. ed. Coordenação de Carlos Sussekind. Tradução de Vera da Costa e Silva et al. Rio de Janeiro: José Olympio, 1996.

COSSON, Rildo; SOUZA, Renata Junqueira. Letramento literário: uma proposta para a sala de aula. UNESP, 2011. Disponível em: http://acervodigital.unesp.br/handle/123456789/40143. Acesso em: 20/04/2021.

COUTO. Mia. Contos: Estórias abensonhadas. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

PAULINO, Graça; COSSON, Rildo. Letramento literário: para viver a literatura dentro e fora da escola. In: ZILBERMAN, Regina; RÖSING, Tania (Orgs.). Escola e leitura: velha crise; novas alternativas. São Paulo: Global, 2009.

TEIXEIRA, João Batista. O suspenso outro mundo e o engolido da terra: alteridades, identidades e memórias em Mia Couto. Dissertação apresentada a Universidade Estadual da Paraíba. Campina Grande, 2012.

 

 

 

 

 

2.      ENTRE O SONHAR, O FALAR E O ESCREVER: UMA PROPOSTA DIDÁTICA COM O CONTO DE MIA COUTO “O MENINO QUE ESCREVIA VERSOS”

 

                                                                                                           Annila Carolina Silva[5]

Jailma Aparecida da Silva[6]

Maria Anieli da Silva Melo[7]                                                                                                      

 

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo apresentar uma proposta de aula, para estudantes do 1° ano do ensino médio, sobre a Literatura Africana em Língua Portuguesa a partir do conto “o menino que escrevia versos” do escritor moçambicano Mia Couto. Levando-se em conta a lei 10. 639/ 2003 – que torna obrigatório a cultura Afro-Brasileira e Africana na Educação Básica – e, mediante uma abordagem reflexiva que promova a interação entre texto e leitor, mas também que possibilite a quebra de estereótipos e preconceitos quando pensamos em povos africanos, a metodologia aqui escolhida visa despertar o senso crítico, assim como o prazer pela leitura, haja vista a riqueza de conhecimentos que podemos adquirir, uma vez que passamos a entender melhor os costumes e tradições e, por isso, ter olhares diferente sobre os diversos contextos históricos, culturais e sociais encontrados em obras literárias.

Palavras chave: Literatura Africana. Mia Couto. Conto. Leitura. Ensino

 

INTRODUÇÃO

A literatura enquanto arte da palavra tem uma importância inegável no campo da educação, pois os textos literários conduzem o leitor a experienciar diferentes situações relacionadas a política, contexto histórico de determinados territórios, diferentes etnias suas culturas e sociedades. Atualmente, muito se discute sobre o ensino de literatura e a formação de leitores. Caracteriza-se como leitor aquele indivíduo que tem o hábito ou gosto pela leitura, sendo o processo inicial desse hábito começado em casa, com a família, e depois aprimorado no ambiente escolar, para que, assim, venha a ser constante em toda vida do sujeito.

Nesse contexto, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em seu artigo segundo, estabelece que a educação é “dever da família e do Estado” reforçando ainda mais o carater familiar quando se trata de educação, não restando apenas para a escola esta responsabilidade, como muitos pais pensam. Também é ressaltado que “inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”, em outras palavras, que seja priorizado o pleno desenvolvimento do alunado, em concomitância dos familiares com o meio escolar, para que assim venham a se tornarem cidadãos que exercerem de forma sensata seus direitos e deveres.

De maneira geral, as instituições de ensino por sua vez, devem direcionar os estudos para os conteúdos essenciais à formação acadêmica, além de reforçar os valores complementares que vem de casa, como os bons hábitos pessoais, éticos e morais. Se tratando de ensino médio, percebemos que hoje muitas escolas possuem uma metodologia totalmente voltada para aprovações em exames externos, como vestibulares e o Enem, preferindo tanto abordar nas aulas apenas obras pertinentes nos editais e conteúdos programáticos, como utilizar de um roteiro de leitura “mecânico”, no qual a memorização está em primeiro plano. Em 2018, uma pesquisa do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) - que realiza testes para observar a proficiência em leitura entre jovens estudantes com faixa etária de 15 anos – mostrou que somente 50% dos estudantes brasileiros atingiram o nível 2 de leitura, enquanto a média mundial é de 77%. Ademais, apenas 2% dos brasileiros alcançaram os maiores níveis de proficiência em leitura, no caso, 5 ou 6. Isto posto, uma vez que este método de decodificação não desperta o prazer pela leitura é consequentemente uma abordagem de educação desvinculada dos princípios da LDB, pois não desenvolve o senso crítico do estudante, nem ideias de humanidade, portanto, prejudicando seu desenvolvimento social e qualificação para o mercado de trabalho.

Assim, no cenário atual de educação brasileira, são evidenciados alguns problemas quando o assunto é leitura,  atingindo principalmente o ensino de literatura, pois as aulas dessa disciplina acabam por provocar um afastamento entre o leitor e o texto literário, afastamento este que é motivado pela a falta do hábito da leitura e, principalmente pela maneira “errada” como muitas escolas desenvolvem a disciplina de literatura, haja vista o enfoque de ensino programado para decoração das correntes literárias; do contexto da obra e da biografia do escritor, desconsiderando o conhecimento de todo um mundo que somente uma obra literária pode proporcionar. Deste modo, propostas de leituras focadas em boa aprovação nos vestibulares findam nos resultados dos exames, sendo, logo em seguida, esquecidos e soterrados, enquanto que, se trabalhados de formas mais reflexivas, poderiam acompanhar os alunos por toda vida.

Então, será possível desenvolver uma rotina de leitura na aula de literatura para produzir um ensino significativo e desenvolver o prazer por elas? Será, ainda, o aluno capaz de adaptar-se as obras de outros lugares e adquirir gosto e conhecimentos a partir de outras erudições? A literatura africana de Língua Portuguesa, por exemplo, tem sido um tema bastante recorrente na área da educação no nosso país, visto que, não somente porque os autores africanos são responsáveis por trabalhos cheios de encantos e mistérios devido às suas culturas, mas também porque os povos africanos compõem uma parte fundamental na matriz formadora do que hoje nós conhecemos como Brasil.  Além disso, o forte elo entre Brasil e África reflete até hoje na nossa sociedade, cultura, música e religião, mas mesmo assim era negligenciado o seu ensino nas escolas brasileiras e por isso foi necessário a criação da lei 10. 639/ 2003 que torna obrigatório o ensino da cultura Afro-Brasileira e Africana na Educação Básica, com o intuito de despertar nos jovens a curiosidade para entender melhor como nós brasileiros nos constituímos e como muitos costumes e hábitos nossos foram criados e perpetuados, inclusive, ainda estando presente no dia a dia de cada um.

Muitos problemas da sociedade brasileira datam desde a origem e aprender sobre os povos que contribuíram para nossa formação pode ser uma das respostas para melhorar o meio em que vivemos, pois temos semelhanças entre elas, portanto, tornar possível a abordagem do contexto juntamente com a relação leitor-texto-autor possibilita o desenvolvimento crítico dos alunos, para que exerçam com responsabilidade a cidadania e tornem-se pessoas atuantes nos lugares em que vivem.

Sem serem influenciado por ideias preconceituosas e compreendendo o leque de criações literárias presente no mundo, o trabalho em questão tem como intuito trazer uma abordagem reflexiva sobre a Literatura Africana de Língua Portuguesa, a partir do conto “O menino que escrevia versos” do renomado escritor moçambicano Mia Couto. Posto que em suas narrativas ele incorpora a cultura e a tradição do seu povo de uma forma que encanta o leitor e o faz refletir acerca dos problemas que os países africanos, principalmente Moçambique, passaram e passam após a colonização, esperamos que os alunos, ao ter contato com outra cultura, não apenas decodifiquem os textos, mas saibam ler o mundo e assim entenderem um pouco mais das coisas à sua volta.

 

1.0  O ENSINO DE LITERATURA AFRICANA NAS AULAS DE LINGUAGEM: UMA LEITURA SIGNIFICATIVA

       Infelizmente quando se faz menção a África ainda há uma visão estereotipada sobre os povos desse continente, haja vista o desconhecimento da vasta riqueza cultural, da tradição desses países, da sua importância social e econômica. Apesar desses estigmas sociais, políticos e históricos, os países africanos tentam se reerguer e fortalecer sua história cotidianamente desde antes de seus processos de independência – já que cada país viveu esse momento de forma particular, uns primeiros enquanto outros, depois – assim dentre os resultados das lutas travadas, podemos destacar a Literatura, que além de registro histórico resguarda também a tradição oral. Vale salientar que a consolidação da literatura foi através de processo árduo, visto a realidade de cada autor, os quais buscavam sempre retratar as tradições e acontecimentos da sua nação.

As primeiras criações literárias foram difundidas após a  criação do prelo (imprensa) o qual abriu espaço para que os escritores manifestassem suas produções, permitindo o surgimento e a circulação de materiais diferentes dos de Portugal por incorporar na escrita a mistura de expressões da língua nativa com a língua do colonizador, dessa forma abrindo espaço para que os intelectuais africanos encontrassem um meio de se expressar, resistir as repressões do sistema colonialista e despertar os africanos que eram oprimidos pela violência do processo colonial, ou seja, a literatura dos países africanos contribuiu para que surgissem movimentos independentistas na década de 1960. As tensões em volta das colônias e a influências de tais movimentos, que refletiam o anseio do negro por difundir sua cultura, culminaram tanto na política quanto na literatura como uma forma de fomentar nas lutas no processo de independência.

Então, levando em consideração a importância que a Literatura tem não apenas na vida acadêmica do indivíduo, mas também na formação um ser capaz de enxergar a realidade com outros olhos e ler o mundo, o papel da escola é fazer a ponte e assim formar sujeitos ativos socialmente, capazes de ler, escrever e compreender o mundo em que se vive, respeitando as diferenças étnicas e culturais.

Percebemos que é de extrema importância trazer textos literários de autores africanos para a sala de aula, descentralizando assim o foco das produções eurocentristas, além de quebrar com os possíveis preconceitos existentes, tendo em vista que tanto o Brasil quanto a África sofreram com a colonização e tentam até hoje se recuperar das feridas.  Dessa forma, faz-se necessário apresentar aos alunos essa Literatura Africana de Língua Portuguesa a qual representa a cultura e a força do povo africano. Além do mais, a apresentação de obras desses escritores aos alunos permitirá o contato deles com outra cultura, pois nelas há uma valorização das raízes culturais do povo africano recuperando, em suas narrativas, as tradições que foram soterradas pelo colonialismo, demonstrando as marcas que esse período de opressão deixou na linguagem, cultura e política do continente, propiciando um olhar crítico para o passado, tendo em vista uma visão menos ingênua do mundo.

 

1.1  MIA COUTO E O MENINO QUE ESCREVIA VERSOS

Antônio Emílio Leite Couto nasceu dia 05 de julho de 1955 em Moçambique. Hoje é um dos principais nomes da Literatura Africana de Língua Portuguesa, conhecido por Mia Couto, sua obra divide-se entre crônicas, poesias, contos e romances. Uma característica marcante é que seus escritos apresentam uma certa expressividade, porquanto ele recria as palavras por meio de neologismos e traz fortemente em suas narrativas as marcas da tradição oral. Essa inventividade na linguagem teve influência do escritor brasileiro Guimarães Rosa, figura importante quando o assunto é formação de palavras. Fazendo parte da literatura pós-colonialista, a qual contribui renova e traz outros caminhos para as criações literárias do seu país.

Olhando para a realidade africana e traduzindo-a para e por meio da literatura, arte da palavra de Mia couto possui uma certa prosa poética, como também apresenta que é possível compreender as coisas através da linguagem dos sonhos. Por sua capacidade de encantar o leitor com suas estórias, as quais revelam a realidade dentro de um mundo mágico, permitindo que o leitor se conecte com a narrativa, com os personagens e desvende o sentido simbólico, hoje Mia Couto é o único escritor africano a ocupar a 5° cadeira na Academia Brasileira de Letras. 

Dentre suas obras foi escolhido o gênero conto, uma vez que é uma narrativa curta e diferente dos demais, apresenta mais aspectos relacionados a proposta de leitura sugerida, ademais conforme a teoria de Allan Poe, os efeitos do conto vão além do seu tamanho, haja vista à proporção que leva ao leitor, pois existe um clímax “entre a extensão do conto e a reação que ele consegue provocar no leitor ou o efeito que a leitura lhe causa.” (GOTLIB, 1990, p.19).  Em outras palavras, certamente é um texto que apresentam uma extensão interessante para trabalhar durante as aulas, como também, é uma composição literária que causa a conexão entre o leitor e o texto, porque provoca uma excitação adequada prendendo os alunos por meio de um enredo breve e intenso.

O gênero conto carrega também aspectos culturais dos indivíduos, visto que está ligado ao contexto em que a da obra foi produzida, logo, a escolha de se trabalhar com este contribui para apresentar no meio educacional brasileiro uma visão de África correspondente a sua realidade, influenciando, assim, discussões sobre a nação brasileira e os afrodescendentes que vivem no Brasil. 

Com o intuito de possibilitar contribuições para a formação de jovens leitores e consequentemente formar sujeitos críticos, foi escolhido o conto “O menino que escrevia versos” o qual faz parte do livro “Fio das Missangas”, 2004. Nessa obra é narrada a história de um garoto que descobre, no fazer poético, liberdade para sua realidade de vida, encontrando na literatura um meio de evoluir e se expressar. Porém esse fato causa preocupação na família que leva a criança a um consultório médico, com a intenção de descobrir qual doença a acometia e assim tratar o problema do menino.

Apesar de parecer uma estória um pouco incomum, no decorrer do texto tanto é possível observar o contexto africano marcado pelo encontro de duas realidades distintas logo após a independência, como também, a relação dos personagens com o fazer poético, a leitura literária e o mundo dos sonhos.

 

2.0  POSSIBILIDADES DE LEITURA PARA O 1° ANO DO ENSINO MÉDIO:

 

2.1METODOLOGIA 

 

Cominando para vigência da lei 10. 639/ 2003 e buscando promover uma leitura significativa, articulando conhecimentos prévios sobre a cultura afro-brasileira e a estudos sobre a sociedade, a cultura e a política, será trabalhada uma proposta que tem como objetivo levar a Literatura Africana de Língua Portuguesa para sala de aula de alunos do primeiro ano do ensino médio. De uma forma que desperte tanto o prazer pela leitura quanto o senso crítico dos alunos, mas que também amplie o olhar dos estudantes para conhecer a cultura africana, primeiramente será discutido tudo que se conhece ou sabe quando se pensa em povos africanos, em seguida, analisaremos conto e, por fim, encerraremos a aula com reflexões comparando o antes e o depois. Com o auxílio de slides, áudio e vídeo, buscamos sair do tradicional e proporcionar uma aula dinâmica e convidativa.

2.2 CONTEXTUALIZAÇÃO E LEITURA INTERATIVA DO CONTO

Slide 1


O primeiro momento da aula será uma discussão sobre os conhecimentos dos alunos a respeito dos povos africanos. A fim de promover o engajamento, no slide aparecerá o seguinte questionamento:

 

 

Para complementar o diálogo e “quebrar o gelo”, visto que muitos estudantes se sentem envergonhados para falar suas opiniões e pensamentos, um curto vídeo será mostrado, trazendo nele as diferentes visões que se tem do continente africano ao pesquisarmos no google as palavras chaves: África, povo africano e cidades africanas, como podemos ver nas imagens.

Imagem 1: pesquisando a palavra África. Fonte: Google

 


Imagem 2: pesquisando a palavra Povo africano. Fonte: Google

 

Imagem 3: pesquisando a palavra cidades africanas. Fonte: google

 

 

Após contextualização das diferentes formas de enxercar a África hoje e a abertura para se falar dos pré-conceitos que carregamos com base no seu passado, explicitaremos sobre a história, abordando o colonialismo e independência tardia.

Uma breve explicação para turma sobre o gênero literário conto também será mostrada, para que os estudantes compreendam que se trata de um texto composto geralmente por único conflito sendo caracterizado por apresentar espaço e tempo delimitado, poucos personagens e poucas ações. Por apresentar laços com a tradição oral, uma vez que está ligado a arte de contar histórias, um costume antigo passado de geração em geração que faz parte da cultura do ser humano e por meio do qual no seu compartilhamento são preservadas tradições e aspectos culturais dos indivíduos, temos a pretensão de levar a importância do texto literário com o dia a dia.

Após a dinâmica proposta e a explicação sobre as particularidades do gênero conto  algumas informações sobre o autor serão trazidas, a fim de que compreendam quais são as características de  suas narrativas, além do mais o educador tem de estar preparado para os possíveis questionamentos que poderão surgir por parte dos alunos, porquanto  Mia Couto é um homem branco, loiro e de olhos azuis e que possui um nome que, geralmente, é do sexo feminino, então é interessante que sejam explicitadas algumas informações sobre ele, informando sobre a sua origem,  a linguagem que é utilizada em suas obras, tendo em vista que os alunos precisam de alguns conhecimentos prévios, porém é recomendado não se ater tanto as questões bibliográficas, porquanto o foco da aula é proporcionar o contato dos estudantes com as obras.

Familiarizados com a temática da aula, poder-se-á iniciar a leitura do conto, para isso apresentamos duas possibilidades: na primeira, o professor irá distribuir aos alunos folhas impressas com cópias do conto para que eles acompanhem a leitura a qual pode ser feita pelos próprios alunos, indicando um deles para ler determinado trecho. Entretanto, deve-se levar em consideração a realidade da sua turma, pois alguns estudantes são tímidos e podem se sentir desconfortáveis ao serem designados para tal tarefa. Também devemos destacar que o fato da falta de hábito de leitura culmina na perca de expressividade de acordo com as entonações necessárias presentes na narrativa. Por isso a outra possibilidade é a de o educador, em primeiro momento, ao invés de ler com a turma, levar para sala de aula o áudio do conto escolhido para que os alunos ouçam e acompanhem a leitura ou por meio de slides (caso o professor tenha acesso a essas tecnologias) ou pelo conto impresso. A título de exemplificação indicamos o áudio-vídeo intitulado “Histórias para ouvir- o menino que escrevia versos” que pode ser encontrado no canal do YouTube denominado de Freguesia de Estrela. A leitura é interpretada por Nádia Nogueira, no Português africano de Moçambique. O áudio-video pode ser encontrado no Português do Brasil, contudo, uma vez que trabalharemos com a literatura de outro país, será muito mais enriquecedor o contato com a forma de falar de lá, sem contar que, dependendo do horário, é difícil fazer os alunos ficarem em silêncio e prestarem atenção na aula. 

No entanto, se o discente ou a escola não tiver os recursos necessários para reproduzir essa proposta, pode se optar por fazer uma leitura expressiva do conto e pedir para que os alunos acompanhem. Após a contação, algumas perguntas poderão ser feitas aos estudantes acerca do conto, como o que chamou atenção deles e as impressões que eles tiveram nesse primeiro contato com a produção de uma literatura africana.

Após essa conversação didática e a apresentação das figuras de linguagens presentes na narrativa, alguns aspectos que existem no conto devem ser analisados, a fim de se trabalhar a compreensão e interpretação dos alunos, bem como possibilitar que eles associem o contexto social, histórico e as intenções da narrativa com a cultura africana e assim reflitam sobre suas concepções e compartilhem seus conhecimentos com a turma.

 

2.3 ANÁLISE INTERATIVA DO CONTO: FRONTEIRA ENTRE A REALIDADE, O SONHO E A LEITURA LITERÁRIA

Em virtude disso, o professor levando em consideração a escrita de Mia Couto, o qual gosta de abordar os insólitos, mas também apresenta a cultura e as dificuldades do seu povo por meio de um realismo maravilhoso nas obras, o docente poderá analisar um dos eixos existentes no conto que é “a fronteira entre a realidade e o sonho” com o objetivo de mostrar como isso se configura em uma das personagens da narrativa. Para isso, antes de apresentar esse aspecto para os alunos, é importante ativar o processo cognitivo deles, incitando a reflexão e o ingresso na temática do conto, para que assim o processo de interação aconteça e as diversas visões de mundo dos seus discentes sejam ouvidas, dessa forma, será feita a seguinte pergunta a eles: “Para você, o que significa sonhar?”. Vale ressaltar que a resposta irá depender da visão de mundo dos estudantes e, provavelmente, do contexto social ao qual os sujeitos estão inseridos, se porventura ocorrer alguma dificuldade em relação a essa questão, o educador deverá norteá-los, explicitando que tanto pode ser o sonhar dentro do mundo da imaginação, ou o sonho dentro de um projeto de vida, metas a serem alcançadas, pois isso é algo pessoal e cada um tem uma concepção divergente acerca do sonho, esse momento é reflexivo e possibilitará que os alunos exponham suas opiniões e ativem suas capacidades mentais, mas é necessário  que eles permaneçam nessa linha de reflexão, pois isso será retomado posteriormente.

Partindo desse pressuposto, o professor deverá rememorar e contextualizar alguns acontecimentos da narrativa para os estudantes, a fim de chegar no momento da consulta em que o menino dialoga com o médico, sobre isso é relevante chamar a atenção para as respostas do garoto as quais são fortes e um pouco marcantes, quando ele fala: “Dói-me a vida, doutor”, quando faz menção o que é o sonho para ele e o momento em que a mãe o repreende.  Depois, deverá ser feito aos alunos três perguntas: “Por que a vida do menino doía?”, “O que significa o sonhar para o menino? e, por fim, “Porque sonhar é perigoso?”, entretanto é interessante que seja apontado em quais trechos do conto estão direcionados essas questões, em relação a primeira pergunta os discentes deverão apresentar suas opiniões e logo em seguida o professor virá com as informações presentes no texto e com contribuições acerca do contexto sociocultural da obra, ou seja, será explicitado  a realidade do menino o qual vivia com a mãe e o  pai cuja profissão era mecânico e o que recebia mal dava para o pão e a escola do garoto, este aspecto dá para inferir sobre a condição social da criança, sem muitas oportunidades e dificuldades financeiras. Além do mais, há o desajuste familiar; pois, apesar de não deixarem a criança passar fome, eles não lhe compreendiam, nem davam muito carinho, o pai o tratava feito máquina a qual não tem emoções e sentimentos, mas também é permitido trazer um olhar socioeconômico para o texto, pois o continente africano apesar de ter suas riquezas e lugares maravilhosos ainda há pessoas que vivem à margem da pobreza, sem muitas oportunidades e sofrem até hoje com as marcas do período colonizador.

Em seguida,  perguntará: “o que significa o sonhar para o menino do conto?”, como também indagar aos alunos se a concepção de sonho deles se assemelham ao da criança da estória a fim de possibilitar uma conexão dos estudantes com a personagem, a partir disso será explicado e apresentado nos trechos que o sonhar para a criança era uma forma de suportar a realidade dela, não era a cura; porém ajudava a amenizar essas dores que ela sentia, porquanto é comum as crianças viverem no mundo de faz de contas, onde podem ser quem quiserem, morar onde quiserem, porquanto o sonho, a imaginação permite isso. Continuando, o professor pode perguntar “por que o sonho é perigoso?”, lembrando aos alunos que a mãe da criança o repreende por ele proferir a palavra “sonhar”, pois o pai o proibira e a criança questiona a mãe: “sonhar longe por quê? Perto o sonho aleijaria alguém?”. Se os alunos estiverem à vontade, eles podem expressar suas conclusões e opiniões sobre a pergunta, e diante das dificuldades dos alunos em assimilar e estruturar uma resposta, o educador deverá instigá-los a pensar que, quando se sonha, dentro de um projeto de vida, objetivos ou metas, de certa forma eles nos motivam, impulsionam para que queiramos realizá-los, o desejo de concretizar. E a partir disso, deve-se voltar para a análise, apresentando que dentro do contexto em que a personagem vivia e sua realidade de vida era proibido sonhar, pois o pai e mãe queriam que o filho mantivesse os pés no chão, aceitasse a realidade, pois eles não tinham o fio de esperança que existe dentro de cada sonho, não tinham mais anseios de mudar de vida e de melhorias, viviam um dia após o outro, o pai era mecânico de nascença e se conformara com essa situação, a mãe aceitava a forma como o marido a tratava; mas o miúdo, mesmo diante desse cenário dramático de desesperança e conformismo, mantém um fio de esperança, almeja uma vida melhor e não se conforma com essa realidade a qual ele pertence. Em vista disso, a professora pode trazer o trecho do conto em que o menino expõe em seus versos esse descontentamento com sua realidade: “de que vale acordar se o que vivo é menos do que sonhei?”.

Logo, poderá concluir esse momento explanando que o autor, Mia Couto, gosta de retratar personagens simples e marginalizadas, mas que apesar da situação de vida desfavorável, elas não se abstém do sonho, na verdade, elas encaram a realidade com o pé no devaneio, assim como ocorre com o menino do conto, mas apesar desse cenário dramático, os acontecimentos são repassados com um certo encantamento na obra, porém é relevante atentar para a mensagem simbólica que o conto traz para os moçambicanos que assim como os demais povos da África sofreram com o processo de colonização e, mesmo após a independência, tem dificuldades de estabilizar a economia, ou seja, é um recado para que eles mantenham a esperança e não desistam de uma possibilidade de um futuro melhor e avanços para o país. Esse método de análise do texto literário, além de proporcionar um olhar mais crítico em relação a realidade dos povos africanos e a ampliação do conhecimento cultural, também estimula o desenvolvimento mental por meio da conversação didática, a qual teve início por meio de perguntas, assim o aluno irá externar seus pensamentos, articular e organizar suas ideias para que ele possa se posicionar diante das perguntas e também compartilhar seus conhecimentos, pois segundo José Carlos Libâneo (1994, p. 168):

A conversação tem um grande valor didático, pois desenvolve nos alunos as habilidades de expressar opiniões fundamentadas, e verbalizar a sua própria experiência, de discutir, argumentar e refutar opiniões dos outros, de aprender a escutar, contar fatos, interpretar etc. além, evidentemente, de proporcionar a aquisição de novos conhecimentos.

Contudo, é essencial que as perguntas elaboradas não sejam fechadas, mas que permitam uma articulação dos conhecimentos enciclopédicos dos alunos com as informações sobre o assunto estudado. Levando em consideração a temática desse primeiro olhar analítico para o conto o qual dá enfoque ao sonhar, o docente, se possível, pode trazer uma mensagem motivacional para seus alunos, posto que cada estudante tem uma realidade diferente,  e, em alguns casos, os estudos são a única forma de buscar melhorias, em vista disso, o educador dirá aos seus alunos para que não desistam dos seus sonhos, e sigam o exemplo do menino do conto, que apesar das adversidades e a sua realidade, ele não se conforma, pois  quer mudá-la e sonha com algo melhor. Peça para que eles mantenham o fio de esperança. Após essa primeira visão sobre o conto, os alunos irão descobrir onde o menino externava seus sonhos, de que forma ele expressava isso.

Em vista disso, será abordado a relação dos personagens com o fazer poético e a leitura literária. Deve ser apresentada a canção “Poetas”, de Mariza Monte, a letra da música pode ser facilmente encontrada no anexo 01, é importante mencionar que devido à dificuldade para encontrar na internet optamos por anexá-la aqui. Além disso, é fundamental explicar que a letra da música é na verdade o poema composto por Florbela Espanca, a qual pertence ao Modernismo Português. Porquanto há uma relação antiga entre música e poesia, pois segundo Moisés (1975, p. 230), “Os poetas e os coros gregos recitavam e cantavam suas composições ao som desse instrumento o qual servia primordialmente para criar uma atmosfera apropriada à transmissão da poesia”. Ou seja, na Grécia a poesia lírica era cantada com o acompanhamento dos instrumentos musicais da época, como, por exemplo, a lira, a qual é um instrumento de cordada que apresentou ampla disseminação na antiguidade, ademais deve ressaltar ainda que o gênero lírico apresenta características como: escrita em versos, musicalidade, métrica e rima que podem ser encontradas na poesia e na música. Ademais, há de se considerar também, o papel da música no ambiente escolar, pois é uma manifestação cultural que facilita o processo de aprendizagem, visto que, contribui para desenvolver o senso crítico dos estudantes, desperta a curiosidade e atenção, como também torna o ambiente agradável para aquisição de conhecimentos. 

Nesse contexto, a canção tem como tema a incompreensão sofrida pelos poetas. Pois, demonstra a sensibilidade das almas deles, a habilidade de perceber o ambiente ao seu redor, ou seja, ver o mundo de modo mais perspicaz, como também, enfatiza a falta de capacidade de algumas pessoas para compreender os poetas. Implicitamente, a canção fala do fazer poético, isto é, da escrita poética, da relação do poeta com a poesia e com o mundo ao seu redor, ademais, é notório também a relação das pessoas com o texto literário, o qual exige maior interação do leitor, visto que, os textos literários começam a produzir significado ao entrar em contato com o leitor, pois através da leitura atenta este interpreta o texto de acordo com seu conhecimento de mundo. É essa compreensão do fazer poético e da leitura literária que aproxima a canção do conto: “O menino que Escrevia Versos” e permite que os estudantes interpretem o texto, discutam a temática e observem a relação dos personagens do conto com o caderninho de versos do miúdo.

       Logo após, utilizando o método de elaboração conjunta através de algumas perguntas de atribuição elaboradas pelo professor, busca-se desenvolver a competência de leitura dos estudantes, isto é, perguntas que influenciem a imaginação, a interpretação, o senso crítico e o conhecimento de mundo dos alunos não se trata assim de questões fechadas ou que tem uma única resposta certa. Pois, para Cosson (2006, p. 103) “Mais importante que a simples oposição entre quantidade e qualidade é a competência de leitura que o aluno desenvolve dentro do campo literário, levando-o a aprimorar a capacidade de interpretação e a sensibilidade de ler em um texto a tecedura da cultura.” Assim, deve ser realizar perguntas como, por exemplo: “Na sua opinião, a família da criança recebeu o fato de o miúdo escrever versos com alegria ou preocupação?”  para possibilitar a análise, como também o encontro do leitor com o texto, visto que, os alunos e o professor vão compartilhar que o ato da escrita poética é visto como um ato indesejado, uma espécie de doença, pois a mãe leva o menino a um consultório médico e logo ao entrar na consulta ela já menciona para o médico: “Ele escreve versos!” e aponta para o filho, demonstrando que o problema da criança é o fato de que ela escreve versos como se aquilo fosse uma doença. Além disso, deve atentar que a escrita para criança é uma liberdade diante da vida difícil que o menino tinha, mas os pais não olham o fazer poético com positividade, demonstrando serem pessoas limitadas, visto que, não consideram a literatura, arte, a cultura e a humanidade como algo útil, mas para o filho é o modo de chegar em um mundo todo seu,  por meio da escrita o miúdo visualiza seus pensamentos e tem o poder em suas mãos de viajar para dentro de si, expressando suas emoções e dar voz a sua essência. Assim, professor e aluno estabelecem relação com a música e os conhecimentos prévios sobre o assunto para possibilitar uma compreensão sobre a escrita literária, a valorização da literatura e a incompreensão sofrida pelos poetas.

    Ademais, os alunos também devem ser questionados sobre a relação entre o gênero literário e os personagens. Como, por exemplo: “Por que o médico questiona se o menino teria mais versos na segunda consulta? Por que interna o menino na própria clínica? Como é a relação dos personagens como o texto literário?” para promover a reflexão sobre a temática e as duas realidades que se encontravam no continente africano logo após a independência, visto que, seus genitores não são pessoas abertas para os sonhos, como também demonstra descontentamento com o ato de escrever do filho e o pai culpa a escola, ou seja, ele reconhece que a prática da escrita foi influenciada pela escola que ao estudar o menino entrou em contato com a escrita e agora através dela o miúdo registra experiencias, materializa ideias e expande sua comunicação, porém ele pretende tirar o filho da escola, demonstrando a aflição com o ato de escrever do filho e a falta de confiança em uma educação que possibilita o desenvolvimento integral do sujeito. Ao contrário da criança e do médico, que após uma leitura analítica mudou de posição, porque a poesia provocou um forte impacto na vida dele, por isso, assume as despesas e interna o menino ali mesmo, na sua clínica, para continuar em contato com os versos. Ou seja, após a leitura analítica o menino o médico não proibiu o fazer poético do miúdo pelo contrário ele se identificou com os versos e percebeu que os escritos evocam sensações e permitem repensar a vida, isto é, o poder transformador e humanizador da literatura que faz bem tanto para o leitor quanto para o escritor. Logo, apresenta para os alunos uma discussão sobre a temática do texto, o contexto da literatura africana e a importância de desenvolver uma formação leitora instigando nos estudantes curiosidade e desejo em ler mais textos e, consequentemente, contribuindo positivamente para a formação leitora ao longo de todo o ensino médio.

Além desse momento interativo e interpretativo que a leitura desse gênero literário possibilitou, os alunos expuseram suas opiniões e  foi possível analisar a participação e a organização argumentativa deles, é necessário que o professor passe uma atividade para avaliá-los individualmente, verificar se algum aluno teve dificuldade em assimilar o conteúdo, pois nem todos os estudantes da turma são participativos, alguns são mais tímidos e tem vergonha de expor as dúvidas, então é importante ter outras formas de avaliar. Assim, levando em consideração a temática da aula em questão, poderá ser proposto para que os alunos produzam um conto ou façam uma releitura da estória que foi lida de acordo com a realidade de vida deles, a cultura deles, os sonhos, mas também tendo como base os conhecimentos que foram adquiridos por meio dessa aula sobre a tradição oral, cultura africana. Então a partir disso o professor deverá norteá-los. Essa atividade irá trabalhar tanto com a produção textual quanto com o desenvolvimento criativo do aluno, pois ele irá produzir uma estória e depois de concluir a atividade, os alunos deverão ler para a turma as suas produções.

CONCLUSÃO

Levando em consideração a lei 10. 639/ 03 que foi criada com o propósito de implantar os estudos sobre a cultura africana em sala de aula; as dificuldades que os professores tem em despertar o prazer pela leitura nos alunos e a defasagem no ensino de literatura nas escolas, as quais buscam apenas repassar épocas literárias com suas respectivas características sem estimular o senso crítico dos sujeitos, vimos que esses problemas podem ser melhorados por meio de uma abordagem que vise a interação entre texto e leitor, onde saber como os escritores trazem essa realidade sobre as dificuldades que permeiam os países africanos e a luta para que suas tradições não sejam esquecidas por meio de uma escrita que leva o leitor a refletir e compreender a realidade por meio de uma linguagem encantadora, assim como Mia Couto faz.

A partir do estudo de obras da literatura africana de língua portuguesa em sala de aula de forma interativa, apresentando a cultura, o contexto histórico e dissipando os possíveis preconceitos em relação aos povos africanos, levar aos alunos o conhecimento da história desses povos fará com que compreendam também um pouco sobre ser brasileiro, haja vista que nossa relação com a África remonta os tempos da nossa origem,

 

ANEXO 01: PLANO DE AULA

 

IDENTIFICAÇÃO

Escola: Escola de referência em ensino médio

Série: 1º “A” do ensino médio

Disciplina: Português e suas literaturas

Professor (a):  Annila, Jailma e Maria Anieli

Data: 15/ 03/ 2021

Número de aulas: 02

Hora aula: 50 min

Carga horária total: 1:40 h

 

TEMA

Literatura na escola: leitura de “O menino que escrevia versos”

 

JUSTIFICATIVA

A Lei de Diretrizes e Base da Educação (LDB) prever no Art. 2º uma educação escolar inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, para o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Nesse contexto, a leitura e o papel do professor enquanto mediador permite a apropriação dos textos literários e a humanização dos sujeitos. Além disso, por meio do debate é possível conhecer outras interpretações e forma um cidadão que elabora pensamentos críticos, consegue se posicionar na sociedade onde habita e tem uma visão de mundo alargada contribuindo positivamente para a sociedade e o mercado de trabalho.

Ademais, a literatura é a arte da palavra e envolve aspectos psicológicos, políticos, culturais, sociais e filósofos. Portanto, o conto a ser utilizado (O menino que escrevia versos de escritor moçambicano Mia Couto) permite o encontro do texto com o corpo do leitor, pois segundo Gotlib (1985) o sinal de um conto de ótima qualidade é para ela o que poderíamos chamar a sua autarquia, o fato de que a narrativa se tenha desprendido do autor como uma olha de sabão do pito de gesso. Pois, ao realizar a leitura o estudante é motivado a posiciona-se criticamente frente ao texto e mobilizar habilidades para relacionar o texto com a realidade local e o contexto escolar, para lidar com interpretações diferentes da sua e relacionar o texto com outros conhecimentos relevantes para compreensão. Conforme, a Lei 10.639/03 a qual prever uma educação voltada para as relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.

 

OBJETIVOS

Geral: Estimular o prazer pela leitura, a interpretação de textos literários e o desenvolvimento de um olhar crítico para os aspectos que permeiam a sociedade por meio do contato dos alunos com as produções literárias de escritores africanos de língua portuguesa, como também ampliar o conhecimento cultural dos estudantes e possibilitar o contato deles com as tradições dos povos africanos. 

Específico:

   Atentar para os valores culturais e os recursos expressivos utilizados na produção do efeito de sentido;

   Demonstrar o diálogo do texto com o autor, o continente africano e a sociedade brasileira;

   Refletir sobre o trabalho do escritor literário, a relação do sujeito com a literatura e os aspectos sociais;

   Provocar curiosidade e contemplação do texto literário para desenvolver e aprimorar habilidades de leitura.

   Explicar o que é a Literatura Africana de Língua Portuguesa, o contexto social e histórico da África.

   Permitir uma leitura de mundo por meio do contato com as narrativas de escritores africanos os quais visam o fortalecimento da história e da tradição dos povos africanos.

 

 

CONTEÚDO PRAGMÁTICO:

1.            Realizar a motivação por meio de uma oficina inicial.

2.            Apresentar brevemente o contexto da obra, o autor e o gênero conto.

3.            Iniciar a leitura compartilhada utilizando o conto digitado no slide.

4.            Promover o compartilhamento de entendimento oral.

5.            Atividade escrita.

 

APLICAÇÃO DO CONTEÚDO PRAGMÁTICO:

Inicialmente será realizado uma oficina para desprendimento as ideologias negativas sobre o continente, partindo desse momento será apresentado características do contexto da obra, como também do autor e do gênero literário conto. Em seguida, a leitura é realizada com a turma, uma vez que, o contexto da obra tralhada ainda apresenta grande ligação com a tradição oral pretendendo compartilhar com os alunos uma experiência parecida. Depois, a aula passará para o momento de discussões sore o texto literário, ademais será apresentado aos estudantes a música “Poetas” da cantora Mariza Monte a temática é relacionada a incompreensão sofrida pelos poetas. Assim, a letra da música ficara disponível no slide para que os alunos acompanhem a canção.

Canção de Mariza Monte - Poetas

Ai as almas dos poetas

Não as entende ninguém;

São almas de violetas

Que são poetas também.

 

Andam perdidas na vida,

Como as estrelas no ar;

Sentem o vento gemer

Ouvem as rosas chorar!

 

Só quem embala no peito

Dores amargas e secretas

É que em noites de luar

Pode entender os poetas

 

E eu que arrasto amarguras

Que nunca arrastou ninguém

Tenho alma pra sentir

A dos poetas também!

 

 Nesse contexto, o professor junto com a turma continua a discussão sobre o fazer poético e a relação dos personagens do conto com a escrita literária por meio de perguntas de atribuição com intuito de promover a relação entre texto e leitor para promover o entendimento sobre o conto, desenvolver a competência leitora e formar o leitor literário.

 

RECURSOS DIDÁTICOS

Datashow, caixinhas de som, folhas de oficio e lápis.

 

AVALIAÇÃO

Leitura compartilhada com objetivo de avaliar a competência oral;

Discussão sobre a obra para observar o posicionamento, como também a oralidade dos alunos e promover o compartilhamento de diferentes entendimentos;

Atividade consiste na produção escrita de um conto ou releitura da estória lida, para observar o entendimento daqueles alunos que não interagiram na discussão e a escrita literária da turma. 

 

REFERÊNCIAS DO PLANO DE AULA

                     Básica

MONTE, M. Poetas. Portugal. World Connection: 2001. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VX_62bxHjsg >. Data de acessado em: 02 mar.  2021.

 

                     Complementar

COSSON, R. Letramento literário: teoria e prática. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2019. n. 139.

 

GOTLIB, N. B. A Teoria do Conto. Disponível em:<https://moodle.ufsc.br/pluginfile.php/2538777/mod_folder/content/0/Nadia%20Battela%20Gotlib%20-%20Teoria%20do%20Conto.pdf?forcedownload=1>. Data de acesso: 03 mar. 2021.

 

REFERÊNCIAS

COSSON, R. Letramento literário: teoria e prática. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2019. n. 139.

GOTLIB, N. B. A Teoria do Conto. Disponível em:<https://moodle.ufsc.br/pluginfile.php/2538777/mod_folder/content/0/Nadia%20Battela%20Gotlib%20-%20Teoria%20do%20Conto.pdf?forcedownload=1>. Data de acesso: 03 mar. 2021.

MOISÉS, M. A Criação Literária: poesia. 10 ed. São Paulo: Contexto, 1987. n. 297.

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação NacionalLDB. 9394/1996. BRASIL.

BRASIL. Relatório Brasil no PISA 2018: Diretoria de Avaliação da Educação Básica, DAEB. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Brasília-DF Inep/MEC.

MARQUES., Moama Lorena de Lacerda. O espaço-tempo da espera nos contos de Mia Couto: uma perversa fábrica de ausências. 2013. 237 f. Tese (Doutorado em Letras) - Universidade Federal da Paraí­ba, João Pessoa, 2013.

LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994. p. 168

AMORIM.C.et al. Literaturas Africanas I. v. 2 – Rio de Janeiro: Fundação CECIERJ, 2018.

 

3.      ANÁLISE DO CONTEXTO SOCIAL DA MULHER NO ROMANCE NIKETCHE: UMA HISTÓRIA DE POLIGAMIA

João Marcos Silva Vilela[8]

Josefa Baltazar de Lima[9]

Thaís Deniz Lira[10]

RESUMO:

Niketche: Uma História de Poligamia é um romance da autora moçambicana Paulina Chiziane, que narra uma história atípica, na qual cinco mulheres estão envolvidas em uma relação poligâmica. O presente trabalho tem como por objetivo analisar a obra, dando enfoque nos aspectos culturais da sociedade africana presente na narrativa. A pesquisa por meio de recortes se debruçou a comentar as questões: Poligamia, posição da mulher na sociedade, tradições e costumes. Esse estudo intersocial permitiu um olhar para as questões de gênero, que estão em pauta nos dias atuais. Buscou-se contribuir com reflexões que direcionam a compreensão do funcionamento das relações sócias da cultura africana.

PALAVRAS-CHEVE: Poligamia. Paulina Chiziane. Niketche. Culturas Africanas.

 

ANALYSIS OF THE SOCIAL CONTEXT OF WOMEN IN THE NOVEL NIKETCHE: A STORY OF POLYGAMY

ABSTRAT:

Niketche: A Polygamy Story is a novel by the Mozambican author Paulina Chiziane, which tells an atypical story in which five women are involved in a polygamous relationship. The present work aims to analyze the work, focusing on the cultural aspects of the African society present in the narrative. The research through clippings is focused on commenting on the issues: Polygamy, women's position in society, traditions and customs. This inter-social study allowed a look at gender issues, which are on the agenda nowadays. We sought to contribute with reflections that direct the understanding of the functioning of social relations in African culture.

KEYWORDS: Polygamy. Paulina Chiziane. Niketche. African Cultures.

INTRODUÇÃO

            Humor, crítica social e reflexão acerca da cultura Moçambicana são elementos marcados na obra Niketche: Uma história de poligamia. Romance no qual a voz e as palavras que o compõem são narradas pela personagem Rami, mulher casada há vinte anos com seu marido Tony, um alto funcionário da polícia. Logo no início da narrativa, Rami é tomada por uma aflição causada pela ausência do seu marido, a mesma se vê várias vezes desempenhando o papel de homem e mulher na educação de seus filhos, o que a deixa angustiada pela falta daquele que a deveria proteger. Em uma sociedade monogâmica, na qual a poligamia é proibida por lei, Rami descobre que seu marido possui outras quatro esposas, com as quais possui muitos filhos. Em um vislumbre de força, numa sublime decisão, a personagem decide ir à procura das outras, que são vistas inicialmente como inimigas, rivais, o que acarreta uma serie de conflitos, marcados por agressão e insultos. Gradativamente Rami vai se aproximando das quatro mulheres com a intenção de conhecê-las e posteriormente uni-las, o que ocasiona na adoção da relação poligâmica, marcando assim o início de uma revolução na vida de todas, onde deixam de lado toda a rivalidade e passam a apoiarem-se. Conquistando assim a autonomia em relação ao sustento, ingressando no mercado de trabalho, o que ocasiona a libertação da dependência financeira, razão pela qual estavam todas presas a Tony. Além de destruir o mito “macho poderoso”, visto como invencível, construindo assim novos espaços. Sendo assim, a história é sobre cinco mulheres que unidas, conseguiram a liberdade em um regime que as oprimem.

            Tendo em vista que as questões de gênero e sexualidade estão ganhando cada vez mais espaço em nossa sociedade, Niketche: Uma história de poligamia é uma obra que retrata uma cultura que se difere da ocidental, mas quem em todo esse emaranhado de costumes e tradições que se divergem, pontos se coincidem e são estes ainda tidos como tabus em grande parte das sociedades. Esse trabalho foi pensado, como provocação a respeito da construção da mulher na sociedade africana, abordando questões que atravessam sociedades, como o papel da mulher, a submissão ou aceitação de uma relação extraconjugal. O principal objetivo é abordar os aspectos culturais que permeiam o romance, por meio de recortes da obra, dando uma visão de tradições e costumes da sociedade moçambicana, além de explicar como se dá a construção do ser mulher.

 

1.0 A CONSTRUÇÃO DO RELACIONAMETO POLIGAMICO NO ROMANCE DE PAULINA CHIZIANE

 

            A poligamia é o casamento ou a união entre duas ou mais pessoas, sendo a poliginia a relação de um homem com duas ou mais mulheres, essa é uma prática executada até hoje em alguns países e a poliandria, quando uma mulher se une a dois ou mais homens. A prática dessa relação é fortemente ligada ao status e a classe das pessoas que se submetem, além de ser escolha se envolver sentimentalmente com todos envolvidos ou não.

 

“A cada dia que passa, os relacionamentos poligâmicos ganham mais espaço em suas diversas formas: relacionamentos abertos, swing, orgia, poliamor e até mesmo famílias paralelas. Concomitante à essa mudança, o Direito também passou a encarar diversos institutos no âmbito da família de maneira diversa” (BARROS, 2018)

 

 

            Nos dias de hoje há uma espécie de democracia do amor, as relações monogâmicas estão cada vez mais abrindo espaço para mais um ou mais sujeitos, a fidelidade perde sua posição de o “principal” para um relacionamento, estabelecendo-se como pilar da relação, o desejo, o sentimento que você tem por todos os integrantes.

 

            Em contra partida ao temo “poligamia” que carrega uma bagagem histórica é utilizado, referido e visto como algo ruim, o termo “poliamor” foi criado para se referir a pessoas que abrem suas relações para mais alguém, mas o que muda entre um termo e outro? O “amor” que é firmado. O poliamor surge, como uma quebra de paradigmas de relacionamentos com mais de uma pessoa, dizendo que o amor é o principal motivo de abrir a relação para outra pessoa.

 

“A nomenclatura "Poliamor" surge, portanto, com objetivo de se desatrelar de tais ideias e pregar o amor acima de qualquer padrão, costume ou credo. A base, neste sentido, não é necessariamente o casamento, sendo requisito apenas o afeto entre os integrantes desta nova forma familiar.” (FRANÇA, 2016).

 

            Como a poligamia é diretamente ligada a adultério, relações com três ou mais pessoas podem causar estranheza principalmente, em nossa cultura latino-americana, por isso a criação do termo poliamor, havia a necessidade de se desvincular das raízes da “poligamia” para abrir os olhos das pessoas que o mesmo amor que move a relação entre duas pessoas é o mesmo que chega a três, quatro, cinco ou mais.

 

             Em Niketche: Uma História de Poligamia a personagem principal da narrativa Rami, quando descobre que seu marido tem quatro amantes, ela não aceita essa situação, não aceita enquanto mulher do Sul, de família, status ser arrastada para uma relação poligâmica:

 

“Não consigo aceitar a ideia de ser rejeitada. Eu, Rami, mulher bela. Ku, mulher inteligente. Fui amada. Disputada por vários jovens do meu tempo. Causei paixões incendiárias. De todos os que me pretenderam escolhi o Tony, o pior de todos, que na altura julgava ser o melhor Vivi apenas dois anos de felicidade completa num total de vinte e tantos anos de casamento.” (CHIZIANE, 2004. P. 14)

 

Ninguém pode entender os homens. Como é que o Tony me despreza assim, se não tenho nada de errado em mim? Obedecer, sempre obedeci. As suas vontades sempre fiz. Dele sempre cuidei. Até as suas loucuras suportei. Vinte anos de casamento é um recorde nos tempos que correm. Modéstia à parte sou a mulher mais perfeita do mundo. Fiz dele o homem que é. Dei-lhe amor, dei-lhe filhos com que ele se afirmou nesta vida. Sacrifiquei os meus sonhos pelos sonhos dele. Dei-lhe a minha juventude, a minha vida. Por isso afirmo e reafirmo, mulher como eu, na sua vida, não há nenhuma! Mesmo assim, sou a mulher mais infeliz do mundo.” (CHIZIANE, 2004. P.14)

 

            Para Rami seu marido é um adultero, pois essa relação poligâmica não foi consentida por todos os envolvidos, nem ouve se quer o lobolos para todas as mulheres, cerimonia que uma relação poligâmica pede.

 

“Poligamia não é substituir mulher nenhuma, é termais uma. Não é esperar que uma envelheça para trocá-la por outra. Não é esperar que uma produza riqueza para depois a passar para a outra. Poligamia não depende da riqueza ou da pobreza. É um sistema, um programa. É uma só família com várias mulheres e um homem, uma unidade, portanto. No caso do Tony são várias famílias dispersas com um só homem. Não é poligamia coisa nenhuma, mas uma imitação grotesca de um sistema que mal domina. Poligamia é dar amor por igual, de uma igualdade matematicamente exacta.” (CHIZIANE, 2004. P. 22)

 

            Em todo o território africano, a poligamia é aceita em mais de 50 países, e apesar dos que recebem punição pela lei, esse tipo de relacionamento é tido, como uma pratica corriqueira. O romance chega a dedicar um capítulo inteiro para a poligamia, narrado pela visão de Rami, uma sul-africana. A leve o leitor a conhecer a diferenças culturais dos norte-africanos aos sul-africanos:

 

“Em algumas regiões do norte, o homem diz: querido amigo, em honra da nossa amizade e para estreitar os laços da nossa fraternidade, dorme com a minha mulher esta noite. No sul, o homem diz: a mulher é meu gado, minha fortuna. Deve ser pastada e conduzida com vara curta” P. 36; “Na minha aldeia, poligamia é o mesmo que partilhar recursos escassos, pois deixar outras mulheres sem cobertura é crime que nem Deus perdoa” (CHIZIANE, 2004 P. 55)

 

            Mesmo com ego fragilizado Rami pretende aceitar a poligamia imposta pelo seu marido, então pretende oficializar e revelar a todos do convívio social do casal que Tony, seu marido vivi um relacionamento poligâmico com cinco mulheres. Apesar de Tony se utilizar do argumento de que ele é homem e isso lhe é permitido, os costumes de certas aldeias do sul, como é retratado na obra não veem a poligamia com bons olhos. Então Rami, já que foi posta nesse relacionamento e seu marido parecer que iria reconsiderar a situação, ela pretende o expor:

 

“Obrigado, meu Deus, o meu plano deu certo. Todas entraram traiçoeiras como serpentes. Suaves como a música da alma. Elegantes como verdadeiras damas. Reivindicam o seu espaço com sorrisos. Fazem a guerra com perfume e flores. Elas são a chuva regando a terra para que dela brote uma vida nova. Estas mulheres juntas venceram os preconceitos e avançaram com Firmeza e derrubaram a farsa.” (CHIZIANE, 2004. P. 108)

 

“No rosto de Tony surpresa, vergonha, lagrimas e raiva. Despimos-lhe o manto de cordeiro diante dos verdugos e crivámos o corpo esfolado com rajadas de chumbo. Respirou fundo e ergueu-se em passos trôpegos. Tentou fazer um discurso” (CHIZIANE, 2004. P. 108)

 

“— Meninas! Convençam-se de uma vez. Este passo dado nào volta atrás. Destruímos o manto da invisibilidade, celebremos. Obrigámos o Tony a reconhecer publicamente o que fazia secretamente. Meninas, estão cheias de medo? Para quê esses receios? Alguma vez estiveram no aniversário do Tony? Alguma vez os vossos filhos se sentaram no colo dos tios, das tias, rodeados de carinho, como membros da família inteira? Não se assustem com o Tony A ausência do rei nào é o fim da vida. Comamos à grande e bebamos à francesa!” (CHIZIANE, 2004. P. 110).

 

            Do início ao fim da obra somos levados a ver o desenrolar dessa história poligâmica, trazendo grandes reviravoltas e surpresas. Niketche: Uma História de Poligamia não narra uma história tão distante da realidade do povo africano, como reafirma a própria autora ao se classificar, como uma contadora de histórias, histórias de um povo, histórias que marcam pessoas.

 

2.0 A POSIÇÃO DA MULHER NA SOCIEDADE MOÇAMBICANA

 

            Durante a narrativa explicita-se a cultura predominante na sociedade moçambicana, na qual a mulher é oprimida, vista de forma inferior, nascida para servir e obedecer ao marido. Essas ideias são fortalecidas através da lenda da Vuyazi, que é trazida por sua tia em uma reunião, lenda essa que tem a intenção de pregar a obediência e traz a atribuição de um castigo em caso de insubordinação.

 

“Era uma vez uma princesa. Nasceu da nobreza, mas tinha o coração de pobreza. Às mulheres sempre se impôs a obrigação de obedecer aos homens. É a natureza. Esta princesa desobedecia ao pai e ao marido e só fazia o que queria. (...). O marido, cansado da insubmissão, apelou à justiça do rei, pai dela. O rei, magoado, ordenou ao dragão para lhe dar um castigo. Num dia de trovão, o dragão levou-a para o céu e a estampou na lua, para dar um exemplo de castigo ao mundo inteiro. Quando a lua cresce e incha, há uma mulher que se vê no meio da lua, de trouxa à cabeça e bebé nas costas. É Vuyazi, a princesa insubmissa estampada na lua. (...) É por isso que as mulheres do mundo inteiro, uma vez por mês, apodrecem o corpo em chagas e ficam impuras, choram lágrimas de sangue, castigadas pela insubmissão de Vuyazi.” (CHIZIANE, 2004. p.157)

 

Inclusive traz-se o período menstrual como um castigo, no qual as mulheres ficam impuras e choram, sendo assim castigadas pela desobediência da princesa. É abordada a condição da mulher dentro do casamento e de uma sociedade na qual se ensina, tanto em casa, quanto na escola, a obediência e a submissão ao homem.

 

“Ninguém pode entender os homens. Como é que o Tony me despreza assim, se não tenho nada de errado em mim? Obedecer, sempre obedeci. As suas vontades sempre fiz. Dele sempre cuidei. Até as suas loucuras suportei. Vinte anos de casamento é um recorde nos tempos que correm. Modéstia à parte, sou a mulher mais perfeita do mundo. Fiz dele o homem que é. Dei-lhe amor, dei-lhe filhos com que ele se afirmou nesta vida. Sacrifiquei os meus sonhos pelos sonhos dele. Dei-lhe a minha juventude, a minha vida.” (CHIZIANE, 2004. p.14)

 

Rami frequentemente questiona o porquê de Toni procurar por outras, não notando o seu amor puro e perfeito e afirma não entender os homens, tendo em vista que ela sempre foi obediente e sempre fez suas vontades, inclusive colocando os sonhos deles acima dos seus. O que fortalece a ideia de que a mulher desde pequena é induzida a acreditar que nasceu para ser submissa a um homem, tendo que se sacrificar para ser uma mulher perfeita e satisfazer todos os desejos do marido. Em uma sociedade machista, opressora, a mulher não tem voz e, sobretudo deve se sacrificar para agradar o homem e suportar todos os problemas, todas as traições, toda a humilhação, curvar-se e inclusive se ajoelhar diante de seu marido para servir.

 

“Cerramos as nossas bocas e as nossas almas. Por acaso temos direito à palavra? E por mais que a tivéssemos, de que valeria? Voz de mulher serve para embalar as crianças ao anoitecer. Palavra de mulher não merece crédito. Aqui no sul, os jovens iniciados aprendem a lição: confiar numa mulher é vender a tua alma. Mulher tem língua comprida, de serpente. Mulher deve ouvir, cumprir, obedecer.” (CHIZIANE, 2004. p.154)

 

Na cena em que Toni supostamente morre e Rami vai reconhecer o corpo, por falta de uma cicatriz adquirida em um acidente, ela identifica que o corpo não é do seu marido, mas como se espera, não a ouvem. Cansada de todo esse sistema, no qual sua voz não é ouvida, ela explicita toda a sua revolta diante de tal situação.

 

“Ó gente cega, gente surda, gente parva! Será que não tenho o direito de ser ouvida pelo menos uma vez na vida? Estou cansada de ser mulher. De suportar cada capricho. Ser estrangeira na minha própria casa. Estou cansada de ser sombra.  Silhueta” (CHIZIANE 2004. p. 203)

 

Rami demonstra todo o seu cansaço e desgosto de ser mulher e como vingança por não ter sido ouvida ela guarda para si a informação de aquele pelo qual as pessoas estão de luto não é o Tony. Durante toda a narrativa a mulher é trazida como frágil e submissa, enquanto o homem é sempre elevado, sendo apontado como poderoso e invencível. E desde criança a mulher é preparada para ser esposa e conceber filhos, o que mostra a virilidade do homem. Diferente deles que vão para a escola aprender a ler e escrever, elas são levadas para aprender sexo.

 

“[...] Nas nossas aldeias, somos levadas às escolas de sexo com dez anos de idade e aprendemos a alongar os genitais, para nos tornarmos lulas, tunas, polvos e bicos de peru. Enquanto isso, os homens vão para a escola do pão. Enquanto eles aprendem a escrever a palavra vida no mapa do mundo, nós vamos pela madrugada fora, atrás das nossas mães, espantar os pássaros nos campos de arroz.” (CHIZIANE, 2004.p. )

 

Sendo assim, nunca foi ensinada a ter amor-próprio, a amar-se e respeitar-se. Pelo contrário, foi-lhe ensinada à subserviência, a obediência, a naturalização das hierarquias que colocam as mulheres à mercê, em um segundo plano onde não são protagonistas da própria vida. Esse certo ponto da narrativa, por mais que desejassem se libertar desse sistema poligâmico, a dependência financeira era o motivo que prendia as cinco mulheres a Toni.

 

“[...] Aguentei com elas até onde pude, até que lhes disse: Isto acontece porque não trabalham. Em cada sol têm que mendigar uma migalha. Se cada uma de nós tivesse uma fonte de rendimento, um emprego, estaríamos livres dessa situação. É humilhante para uma mulher adulta pedir dinheiro para sal e carvão. A Saly diz que já teve negócios que faliram, porque usou todo o dinheiro que tinha na cura do filho que andou doente.” (CHIZIANE, 2004. p. 117)

 

Indo contra todo o sistema machista que permeia a sociedade, as personagens, seja individual ou coletivamente, buscam saída. Finalmente, cada uma das mulheres vai entrando no mercado de trabalho e construindo independência financeira, libertando-se corajosamente do regime que as oprimem e visa o homem como um ser invencível. Sendo assim, a história é iniciada com personagens que se submetem ao sistema imposto pela sociedade, mas que juntas vão construindo seu próprio espaço e libertando-se de uma vida na qual não se tem muita perspectiva.

 

3.0 CULTURA, TRADIÇÕES E COSTUMES AFRICANOS APRESENTADOS NA OBRA

            A narrativa descreve em vários momentos a cultura, os costumes e tradições na sociedade moçambicana. Há uma margem que separa os costumes dos povos do Sul (patriarcal), e do Norte (matriarcal), sendo feitas inúmeras comparações. Em um diálogo com uma conselheira amorosa, Rami conta-lhe sobre as experiências que as mulheres do Sul vivenciam até chegarem ao matrimônio, às vivências divergem até certo ponto, mas em outros são completamente iguais.

“Dedicámos um tempo à comparação dos hábitos culturais de norte a sul. Falámos dos tabus da menstruação que impedem a mulher de aproximar-se da vida pública de norte a sul. Dos tabus do ovo, que não pode ser comido por mulheres, para não terem filhos carecas e não se comportarem como galinhas poedeiras na hora do parto. Dos mitos que aproximam as meninas do trabalho doméstico e afastam os homens do pilão, do fogo e da cozinha para não apanharem doenças sexuais, como esterilidade e impotência. Dos hábitos alimentares que obrigam as mulheres a servir aos maridos os melhores nacos de carne, ficando para elas os ossos, as patas, as asas e o pescoço. Que culpam as mulheres de todos os infortúnios da natureza. Quando não chove, a culpa é delas. Quando há cheias, a culpa é delas. Quando há pragas e doenças, a culpa é delas que sentaram no pilão, que abortaram às escondidas, que comeram o ovo e as moelas, que entraram nos campos nos momentos de impureza.” (CHIZIANE, 2004. p. 35-36)

            Outra prática muito comum em Moçambique e que é tratada na narrativa é o rito de iniciação sexual, tal prática consiste em preparar meninas, entre 9 e 13 anos de idade, para satisfazerem sexualmente os seus maridos, cumprirem suas vontades e serem agradáveis para com a sua futura família. As meninas são tiradas da escola e da família logo quando têm a primeira menstruação, às vezes antes, e são fechadas numa casa onde as 'madrinhas' lhes ensinam práticas sexuais durante duas ou três semanas. Visto que é algo recorrente com meninas nortenhas, Rami não tem conhecimento de como funciona o rito, então a conselheira explica como ocorre. No trecho retirado da obra, é possível notar que para elas a escola de iniciação é algo que lhes fará bem.

 

“— Muitas coisas: de amor, de sedução, de maternidade, de sociedade. Ensinamos filosofias básicas de boa convivência. Como queres ser feliz no lar se não recebeste as lições básicas de amor e sexo? Na iniciação aprendes a conhecer o tesouro que tens dentro de ti. A flor púrpura que se multiplica em pétalas intermináveis, produzindo todas as correntes benéficas do universo. Nos ritos de iniciação habilitam-te a viver e a sorrir.” (CHIZIANE, 2004. p. 37)

            As mulheres são submetidas as mais diversas formas de humilhação, mas por ser algo tradicional, todos os caprichos do homem deve ser obedecido à risca, isso acontece com a mãe, avós, tias e demais mulheres. No ato de servir a refeição ao marido, se faz necessário que a esposa se mantenha de joelhos perante ele, no prato os melhores pedaços deveriam ser adicionados: o peito, as coxas e a moela. Para a esposa sobravam apenas os restos. Caso a esposa comesse a moela, seria gravemente punida, pois segundo a tradição isso faria com que o azar caísse sobre aquela família.

“—Era domingo e a minha irmã preparou o jantar. Era galinha. Preparou a moela cuidadosamente e guardou numa tigela. Veio o gato e comeu. O marido regressou e perguntou: a moela? Ela explicou. Foi inútil. O homem sentiu-se desrespeitado e espancou-a selváticamente. Volta para a casa da tua mãe para ser reeducada, disse ele. Já! Ela estava tão agoniada que perdeu a noção do perigo e meteu-se em marcha na calada da noite. Eram cerca de dez quilómetros até ao lar paterno. Caiu nas garras do leopardo nas savanas distantes. Morreu na flor da idade por causa de uma imbecilidade. Morreu ela e ficou o gato”.  (CHIZIANE, 2004. p. 100)

            O lobolos é uma tradição cultivada no Sul de Moçambique. Segundo este costume, a família da noiva recebe dinheiro pela perda que representa o seu casamento e a ida para outra casa.  A cerimônia é considerada de extrema importância para as mulheres, pois é a partir disso que elas e seus filhos terão reconhecimento perante a sociedade. Para alguns, o lobolo tem mais representatividade do que o casamento.

 

“O ciclo de lobolos começou com a Ju. Foi com dinheiro e não com gado. Lobolou-se a mãe, com muito dinheiro, num lobolo-casamento. As crianças foram legalmente reconhecidas, mas não tinham sido apresentadas aos espíritos da família. (...)  Depois fez-se lobolo da Lu e dos filhos. As nortenhas espantaram-se. Essa história de lobolo era nova para elas. Queriam dizer não por ser contra os seus costumes culturais. Mas envolve dinheiro e muito dinheiro. Dinheiro para os pais, dinheiro para elas, e para os filhos. Dinheiro que faz falta para comer, para viver, para investir. Quando se trata de benesses, qualquer cultura serve. Elas esqueceram o matriarcado e disseram sim à tradição ppatriarcal.” (CHIZIANE, 2002. p. 124-125)

            A expressão que dá nome a obra “Niketche”, é uma dança tradicionalmente usada por meninas do Norte que concluíram o rito de iniciação no intuito de mostrar que se tornaram mulheres e estão prontas para a vida e para posteriormente seduzir o marido.

“Niketche. A dança do sol e da lua, dança do vento e da chuva, dança da criação. Uma dança que mexe, que aquece. Que imobiliza o corpo e faz a alma voai: As raparigas aparecem de tangas e missangas. Movem o corpo com arte saudando o despertar de todas as primaveras. Ao primeiro toque do tambor, cada um sorri, celebrando o mistério da vida ao saboreio niketche. Os velhos recordam o amor que passou, a paixão que se viveu e se perdeu. As mulheres desamadas reencontram no espaço o príncipe encantado com quem cavalgam de mãos dadas no dorso da lua. Nos jovens desperta a urgência de amar, porque o niketche é sensualidade perfeita, rainha de toda a sensualidade. Quando a dança termina, podem ouvir-se entre os assistentes suspiros de quem desperta de um sonho bom.” (CHIZIANE, 2004. p. 160-161)

            Kutebinga é o ato que ocorre quando uma mulher fica viúva, geralmente o irmão mais velho do falecido é o responsável pelo ritual.

“Agora falam do kutebinga, purificação sexual. (...) Kutebinga é lavar o nojo com beijos de mel. É inaugurar a viúva na nova vida, oito dias depois da fatalidade. Kutebinga é carimbo, marca de propriedade. (...) De repente me vem uma pergunta louca: existirá alguma mulher que no acto de kutebinga, gemesse de prazer?” (CHIZIANE, 2004. p. 212-213)

            Muitas outras tradições devem ser seguidas após a morte de um homem casado, a esposa carrega todo o peso dessa cultura. Além de passar pelo ritual Kutebinga, a mulher tem sua cabeça raspada a navalha e faz-se necessário o uso de vestimentas pretas, a família do falecido fica com todos os seus pertences e bens conquistados durante a vida, enquanto a esposa e filhos não tinham sequer direito a parte da herança.

“Depois do funeral, a divisão de bens. Carregam tudo o que podem: geleiras, camas, pratos, mobílias, cortinados. Até as peúgas e cuecas do Ibny disputaram. Levaram quadros, tapetes tia casa de banho. Deixaram-me as paredes e o tecto, e dão-me um prazo de trinta dias para abandonar a casa. Pilharam a mim, só a mim. As outras não. Contam histórias mais extraordinárias à volta delas. Dizem que não são viúvas verdadeiras. Que são nortenhas e têm cultura diferente. Que os xingondos são unidos e provocar um é provocar todos. Que os espíritos desses senas, maeuas, macondes. Além de poderosos são perigosos. Beneficiar do estatuto de viúva é ficar nua, com uma mão à frente e outra atrás?” (CHIZIANE, 2004. p. 222)

            Tendo em vista todos essas práticas a qual a mulher é submetida, rituais esses que não são executados na narrativa somente, mas em realidades de sociedades africanas, somos levados a refletir sobre o peso de ser mulher. O desfecho que é dado à obra choca o leitor, que por ser levado pela ideia de romance e aguardar um possível final feliz, acaba por se surpreender com todo que a personagem Rami é submetida. Apesar de a obra ser colocado no gênero romance Paulina Chiziane deixa claro, que ela é alguém que narra historias. Histórias essas carregadas por uma ancestralidade que marca ainda em dias de hoje varias mulheres.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 Na obra foram analisados aspectos da cultura africana, observando o cenário que compõe a realidade de um povo, em especial a mulher, que são refletidas pelas personagens da obra, presentes na atualidade. O tema se revela com extrema importância para as áreas que trabalham com questões voltadas as relações humanas, pois a narrativa compõe conhecimentos e saberes interpessoal e intersociais, que formam o objeto de estudo dessas áreas, a sociedade. A poligamia, a condição da mulher e outros aspectos da cultura africana são importantes temas que colaboram para reflexão de paralelos entre etnias, e isso acarreta a possíveis respostas de como alguns estigmas surgiram e assolam a mulher. O resultado esperado dessa pesquisa de trazer uma visão das projeções do ser mulher, analisando vertentes sócias na obra foi alcançado, devido o romance narrar vivências reais da mulher africana, cenário esse que a mesma é moldada para a sua trajetória menina, mulher, esposa. Tal constatação se ratifica, porque a própria autora Paulina Chiziana se considerar como uma contadora de historias e não romancista como a classificam.

 

Tendo em vista as questões que compõem a narrativa, consideradas pilares de uma sociedade, recomenda-se a obra para estudos que buscam conhecimentos de outros povos em especifico, o povo africano. O trabalho deixa a possibilidade para novas pesquisas na área social, direitos humanos, saúde e religião. Esse estudo de raça permitiu um acesso cultural que contribui para pesquisas que se doam a estabelecer um diálogo com essas dimensões.

 

REFERÊNCIAS

CHIZIANE, Paulina. Niketche: Uma história de poligamia. São Paulo: Campainha das Letras, 2004.

BARROS, A. AS FAMÍLIAS PARALELAS E POLIAMOR: CONCEITO E CARACTERIZAÇÃO. Disponível em: < http://www.rbarrosadvocacia.com.br/artigos/familias_paralelas_e_poliamor.pdf> Acesso em: 10 mar 2021.

 

FRANÇA, J. POLIGAMIA OU POLIAMOR? A dignidade da pessoa humana pautada no afeto. Disponível em: <https://juliaabagge.jusbrasil.com.br/artigos/289614350/poligamia-ou-poliamor> Acesso em: 10 de mar. 2021.

 

MORAES FARIAS, R.; PINHEIRO, V. N. Poligamia adulterada: violência simbólica e tragédia efetiva em Niketche, de Paulina Chiziane. Letras & Letras, v. 36, n. 2, p. 285-302, 31 dez. 2020.

 

PÓVOAS, M. OS ARRANJOS FAMILIARES POLIGÂMICOS: EFEITOS JURÍDICOS INTERNOS E O RESPEITO AOS DIREITOS PESSOAIS FRENTE À GLOBALIZAÇÃO. 2019. 308p. Tese (Doutorado em Ciência Jurídica) - Universidade do Vale do Itajaí, Santa Catarina.

 

DIALLO, C. POLIGAMIA E O PAPEL DA MULHER. Disponível em: <https://catarinas.info/colunas/poligamia-e-o-papel-da-mulher/> Acesso em: 10 de mar. 2021.

Unicef condena ritos de iniciação sexual em Moçambique. Diário de Notícias, 02 de jun. 2011. Disponível em: <https://www.dn.pt/globo/africa/unicef-condena-ritos-de-iniciacao-sexual-em-mocambique-1868122.html>. Acesso em: 19 de mar. de 2021.

GEORGE, C; CAMARGO, D. Niketche- Uma história de poligamia: Análise da representação feminina no romance da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Revista do núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e africana da UFF, vol 5, n° 10, 2013

MIRANDA, M. G. Niketche: Uma história de rupturas, ou o feminino em constante desafio. E-scrita Revista do Curso de Letras da UNIABEU. Nilópolis, v. Número 3, set-Dez. 2010

 

UMA PROPOSTA PARA O ENSINO DE LITERATURAS POR MEIO DA OBRA “FIO DAS MISSANGAS” DO ESCRITOR MIA COUTO1

Claudeane Ferreira Freitas[11]

Luciana Teodosio Alexandre Gomes[12]

Mayara Oliveira de Lima[13]

 

RESUMO

O presente trabalho pretende trazer uma análise sobre a importância da obra de Mia Couto “O fio das missangas” no ensino de literatura. Para isso, iremos direcionar nosso ponto de vista principalmente a questões como: o universo feminino presente na obra; a moçambicanidade, entre outros aspectos. Nosso interesse pela temática se deu a partir de estudos relacionados ao ensino das literaturas, quando observamos os diversos pontos que poderiam ser abordados em sala de aula, que poderiam gerar grande interesse nos alunos. Considerando a extensão da obra e com o objetivo de nos adentrarmos mais a fundo na temática optamos em analisar apenas os contos “A saia amarrotada”, “Os olhos dos mortos”, “Os machos lacrimosos” e “O rio das quatro luzes”. Nossa metodologia para o desenvolvimento deste trabalho se deu a partir de revisão de literatura, não apenas trabalhos que tratam da mesma temática, mas também da própria obra, a qual buscamos elementos que nos deram base para apresentarmos o que buscávamos por meio da pesquisa. Diante da análise observamos que o escrito traz uma visão da voz da mulher que muitas vezes era silenciada e tinha sua figura submissa ao homem, observamos que a mulher apesar de ser colocada em situações adversas e de preconceito que a levava a ser silenciada e destinada a mão de obra, ela ainda assim tem desejos. Após as reflexões realizadas podemos perceber que a obra estudada é de extrema importância para entendermos um ponto de vista sobre o universo feminino dando as mulheres uma voz que por muitas vezes é calada, além de percebermos a importância de se estudar e ensinar sobre as literaturas africanas em sala de aula.

 

  1. INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como objetivo fazer um estudo analítico da obra “O fio das Missangas” de Mia Couto, tentando compreender como a obra foi escrita, quais os principais elementos tratados na obra, como está organizado a obra etc. além de analisar a importância dessa obra no ensino de literatura.

Os estudos relacionados a obras pós-colonial tem sido cada vez frequentes, tendo em vista, a representatividade de culturas, feminina e tantos outros aspectos envolvidos nestas obras. “O fio das Missangas” publicado em 2003 é das tantas obras de destaque do autor, Mia Couto, composta por contos curtos, o livro traz em sua narrativa importantes elementos dos quais vale destacar, a feminilidade, Moçambicanidade, os neologismos entre outros, o que torna o livro um grande representante do período conhecido como pós-colonial.

O livro é composto por 29 contos, que relatam histórias diferentes, mas que se harmonizam entre si e se apresentam de maneira condessada e breve, nesses contos o autor aborda temáticas da sua terra, Moçambique, outro aspecto interessante que está relacionado a obra, são os neologismos um pouco a maneira de Guimarães Rosa.

Desse modo, apontaremos pontos relevantes, que nos auxiliaram na compreensão da obra e na construção deste trabalho, que foram: quem foi o autor, qual a principal temática tratada na obra, para a partir daí realizar a análise da obra.

 Assim, temos como intuito analisar a representação feminina, analisar aspectos da cultura moçambicana, entre outros pontos, além de  analisarmos a importância do estudo dessa obra no ensino de literatura, de forma geral na obra "O fio das missangas” do autor e biólogo Mia Couto, vale destacar que ao longo do artigo traremos outros aspectos do livro, para que possamos compreender a obra e analisar com mais detalhes nosso foco de estudo, com tudo deixamos claro que nosso principal intuito é analisar a importância da obra no ensino de literatura.

Desse modo, para o desenvolvimento da pesquisa organizamos o trabalho em três momentos, sendo eles:

       Traremos reflexões acerca do ensino de literatura, informações sobre o autor e de Moçambique.

       Faremos a análise do livro, dividindo em tópicos para melhor compreensão, trazendo recordes e introduções à obra para melhor entender e temática tratada nela.

       E por fim, faremos um apanhado geral sobre o trabalho por meio dos resultados e as considerações finais.

 

  1. A IMPORTÂNCIA DO ENSINO DE LITERATURA: UMA REFLEXÃO POR MEIO DA OBRA FIO DAS MISSANGAS

 

Muitas vezes o ensino da literatura em sala de aula é questionado, sendo visto por muitos apenas como leituras de histórias amorosas, no entanto se pararmos para analisar a literatura é muito mais que apenas histórias de amor, ela traz em suas obras e, em suas entrelinhas reflexões acerca das mazelas vivenciadas pelas sociedades.

Ela nos faz refletir acerca dos acontecimentos, situações, problemas etc., além de muitas vezes realizar denuncias sociais. Na obra “O fio das missangas”, nos deparamos com problemas que estão estritamente ligados a realidade social de muitos países, como a violência doméstica, a falta de infância, a amadurecimento precoce, a submissão da mulher, essas temáticas nos fazem refletir a respeito dos impasses vivenciados por nossa sociedade.

Logo, se observa a importância do estudo da literatura, uma vez que, ela nos possibilita conhecer e estudar, não apenas o fictício, como também nossa sociedade em suas diversas facetas.

 

 

  1. MIA COUTO E A MOÇAMBICANIDADE

 

Para que possamos compreender a obra de Mia couto consideramos importante apresentar um pouco da história de Moçambique, uma vez que, sua escrita está permeada de aspectos relacionados ao país, tendo em vista que “Mia Couto tem uma produção romanesca que valoriza os costumes, crenças e hábitos moçambicanos, conjugados com os resíduos culturais das nações que perpassaram pelo país” (MACHADO, 2011, p. 5),

            País recentemente independente e marcado pelo colonialismo traz em sua cultura influências desse período, além de passar pelo processo de colonização o país também passou por conflitos civis que trouxeram consequências drásticas ao local, além de provocar a morte de muitas pessoas, a guerra civil afetou a infraestrutura e economia do país. Segundo Machado “Culturalmente, além das influências europeias, o país, que tem como base a cultura Banto, recebeu influências árabes e asiáticas, devido à sua posição geográfica. Encontramos, portanto, na cultura moçambicana resíduos culturais árabes, asiáticos e europeus” (MACHADO, 2011, p. 4)

            O idioma oficial do país é o português, no entanto existem outras línguas faladas pela população da região, que tenta reconstruir a economia devido a guerra civil que tomou o país, logo após sua independência vale destacar que o país tem atraído olhares de investidores externos, tendo em vista a riqueza relacionada aos minérios da região, por outro lado em relação a agropecuária o país enfrenta problemas devido aos períodos de estiagens na região. Contudo tem buscado formas de se reestruturar.

            Como podemos observar Moçambique é um país que já passou por diversas situações desde o colonialismo a guerra civil, no entanto podemos observar também que o país possui uma vasta riqueza cultural e de costumes derivadas desses acontecimentos. Mia couto por sua vez, é um grande representante da literatura moçambicana, haja vista que sua obra esta permeada de aspectos relacionado a Moçambique e do contexto, o qual o país e obra estavam inseridos.

Antônio Emílio Leite Couto é um escritor moçambicano, que nasceu na cidade de beira, outro aspecto importante relacionado ao autor é que ele trabalhou como jornalista, no então, ingressou na faculdade de biologia e se tornou professor universitário quando passou a conciliar com sua carreira de escritor. O escritor escreveu um dos maiores livros africanos do século XX “Terra sonambula”

O escritor faz parte da literatura contemporânea moçambicana, a qual faz parte do período pós independência, em suas obras podemos encontrar os neologismos como já fora citado, valorização da memória cultural, multiculturalismo, engajamento político, lirismo etc.

            Dessa forma podemos entender que as obras de Mia Couto possuem relação direta com o país Moçambique desde aspectos culturais a aspectos políticos, assim buscamos na obra do autor a análise da figura feminina uma vez que acreditamos por meio dela compreender o papel feminino no país.

 

  1. OBRA “O FIO DAS MISSANGAS”

 

O livro é composto por singelos pedaços da vida de diferentes personagens, o escritor em seus breves textos condensa a alma de seu país, nessa obra boa parte da narrativa focaliza em personagens femininos.

Composto por 29 contos, na obra o autor dá voz a mulheres em que na sociedade sempre foram lhes negado espaço para serem respeitadas e ouvidas, o autor se utiliza da ficção e de uma maneira sensível trata da dura realidade da mulher africana que por meio da obra reconstrói sua identidade marcada por uma herança colonial.

Um dos pontos mais relevantes que podem ser notados é a forma em que as mulheres são tratadas por os homens sejam eles da família ou não, podemos notar que ao longo dos escritos as personagens passam por um processo de apagamento em seus cotidianos tendo suas autoestimas abalados, podemos notar uma indignação, insatisfação e revolta sentido pelas personagens.

Por a obra ser constituída por neologismos é necessário abstrair o sentido puro da palavra para por meio dos símbolos possamos compreender os sentidos do que nos dizem os escritos. Podemos notar que as histórias contadas na obra em estudo são um tanto melancólicas considerando que é visível a dor, o sofrimento e a amargura vivenciada pelos personagens. 

 

  1. A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DE LITERATURA EM SALA DE AULA: COSTUMES, CRENÇAS E VALORES NAS ENTRELINHAS DO TEXTO

Temos como intuito nesse tópico, refletir acerca de aspectos encontrados na obra do escritor moçambicano Mia Couto e, que podem ser discutidos em sala de aula, no ensino de literatura, para isso se desse com maior êxito nos detivemos em quatro contos, “a saia almarotada”, “os olhos dos mortos”, “os machos lacrimosos” e “o rio das quatro luzes”.

Todos os pontos encontrados na obra que serão analisados a diante, consideramos de suma relevância no ensino de literatura, isso, pois eles trazem em suas entrelinhas realidades que estão muitas vezes próximas dos alunos, o que lhes trará interesse em ir em busca de outras obras, pois irá observar personagens com sentimentos parecidos com os seus.

 

5.1 A MULHER NOS CONTO “A SAIA ALMARROTADA” E “OS OLHOS DOS MORTOS”

5.1.1  “A saia almarrotada”

Sabemos que a mulher ao longo dos tempos vem enfrentando diversas lutas relacionadas a igualdade seja no trabalho e entre outros aspectos, no entanto sabemos também que isso não tem sido fácil e que muitas vezes elas se deparam com uma série de fatores que estão ligados a aspectos sociais e históricos, os quais apresentam a mulher como sendo submissa ao homem, destinada a tarefas domésticas etc., como podemos observar em Machado:

A sociedade ocidental foi construída sob um regime patriarcal e falocêntrico. Herdeira de uma tradição judaico-cristã, a cultura sempre relegou a mulher uma posição marginal na sociedade; nesse sentido a mulher foi oprimida, subjugada, negada e silenciada. No caso da mulher negra, observa-se um duplo movimento de exclusão: uma marginalização por etnia e outra por gênero. Na sociedade moçambicana o feminino não será considerado de outra maneira, ainda mais que Moçambique, além dos resíduos culturais da sociedade ocidental, conjuga rastros da cultura islâmica, cujo papel da figura feminina é mais complexo ainda. (MACHADO, 2011, p. 6)

Na obra de Mia Couto observamos a figura feminina que muitas vezes era esquecida e silenciada, nas entrelinhas dos textos observamos também as insatisfações e desejos das personagens, segundo Machado “O universo feminino é apresentado, através da ficção, com sensibilidade e sutileza, proporcionando um canal para que essas vozes silenciadas, esquecidas e condenadas à não-existência possam, de algum modo, manifestarem-se” (MACHADO, 2011, p. 5), que buscaremos analisar no conto “A saia almarrotada”.

No conto de O fio das Missangas, “A saia almarrotada” observamos a história de uma mulher que perdeu sua mãe e que foi criada por homens, sendo eles seu pai, seu tio e seus irmãos, ela não se identifica e diz que nascera para trabalhar e servir aos membros masculinos da família, sujeita a repressão da sociedade e seus costumes, a mulher não tem dependência e sua vida é destinada a realizar tarefas domésticas e mão de obra. Todo o texto é narrado em primeira pessoa o que nos leva a crer que se trata e atua como um testemunho da condição feminina. Notamos que ao longo do conto a mulher encontra-se aprisionada não apenas dentro de casa, mas presa dentro de se mesma sonhando e desejando libertação repleta de angústias. Observemos nos fragmentos a seguir:

Trecho 1: “Nasci para a cozinha, pano e pranto...” “Eu tinha joelhos era para descansar as mãos”.

Trecho 2: “Ensinaram-me tanta vergonha em sentir prazer, que acabei sentindo praerem sentir vergonha”, “Eu acreditava que nada era mais antigo que meu pai. Sempre ceguei em obediência, enxotando tentações que piripirilampejavam na minha meninice”.

No trecho1 notamos que mulher nascerá para que pudesse ser mão de obra, destinada a servir ao patriarcado, deveria apenas servir aos serviços domésticos, cozinhar, lavar etc., ou seja, vemos a mulher ser minimizada ao lugar de servidão, sem ter voz, sem ter espaço e sendo excluída das relações sociais.

No trecho2 podemos notar a opressão dos sentimentos e atitudes da voz do texto, notamos a obediência da mulher perante a figura do homem no texto.

5.1.2        “os olhos dos mortos”

            No conto “os olhos dos mortos” encontramos uma realidade enfrentada não apenas por mulheres moçambicanas, como de diversas localidades no mundo, que é a violência doméstica, no conto temos história de uma mulher que é agredida por seu marido e, que só se liberta dessa situação após cometer um crime, que é o assassinato de seu marido.

            Observemos os trechos do conto:

Trecho 1: “Venâncio estava na violência como quem não sai do seu idioma. Eu estava no pranto como quem sustenta a sua própria raiz. Chorando sem direito a soluço; rindo sem acesso a gargalhada. O cão se habitua a comer sobras. Como eu me habituei a restos de vida”.

Trecho 2: “Ao ver a moldura quebrada e os vidros ainda espalhados pelo chão, Venâncio me golpeou com inusitada força, pontapés cruzaram o escuro do quarto entre gritos meus: – Na barriga não, na barriga não!

Trecho 3: Desmaiada, me espreitaram os dentros: gravidez não havia. Mais uma vez era falsa esperança. Esse vazio de mim, essa poeira de fonte seca, o não poder dar descendência a Venâncio, isso doía mais que perder um filho. Eu estava mais estilhaçada que o retrato da sala”.

Trecho 4: “Lição que aprendi: a Vida é tão cheia de luz, que olhar é demasiado e ver é pouco. É por isso que fecham os olhos aos mortos. E é o que faço ao meu marido. Lhe fecho os olhos, agora que o seu sangue se espalha, avermelhando os lençóis”.

No trecho um observamos o descaso do marido para com sua esposa, no entanto observamos que ela já se habituou com aquela situação, por mais que se pareça algo não comum, muitas vezes mulheres se sujeitam a estas situações por medo do agressor, por não ter para onde ir ou, mesmo por acharem que aquilo é um comportamento normal aos homens.

No segundo trecho temos uma descrição de um momento de agressão, o qual o agressor não hesita em bater em sua esposa, lhe desferido pontapés, que assustam a mulher por achar que em seu ventre ela carrega um filho, observamos neste trecho a agressão contra a mulher.

No 3 trecho, observamos que mesmo sendo agredida por seu marido, e sentindo as dores dos machucados provocados e, até mesmo a situação vivenciada por ela, ela se sente mal, por não dar um filho, um herdeiro ao seu companheiro, já que sua hipótese de estar grávida não se confirma. Em outro ponto do conto observamos que o marido sequer visita sua esposa, momento o qual observamos mais uma vez a falta de empatia e importância, do marido para cm sua companheira.

No 4 trecho e último, observamos um acontecimento não comum, como forma de se libertar das agressões de seu marido a protagonista assassina seu marido, esse fato não é comum, já que o que presenciamos muitas vezes na sociedade é cenário, onde os homens agridem, machucam, humilham e tiram a vida de suas esposas.

5.1.3 “os machos lacrimosos”

Esse conto é de grande importância de se trabalhar em sala de aula, uma vez que os alunos poderão por meio do conto ver de forma bem trabalhada uma desconstrução do ser masculino enquanto sendo símbolo de força, o impedindo de ser sensível e demonstrar sentimento.

            O conto serve para dar voz ao homem, lhes devolve o direito de chorar ainda que escondido da sociedade, notamos a cumplicidade dos homens, percebemos que tanto por questões históricas quanto sociais a lagrima está diretamente ligada ao feminino.

            O conto relata a história de homens que até então viam o bar como um local de descontração, até que um certo dia um dos homens chegou ao bar chorando o que de certa forma causou espanto nos frequentadores do bar, em sensibilidade ao ocorrido todos os homens se emocionaram e passaram a chorar, o comportamento dos homens passou a mudar, vejamos: “Eles se encontravam por causa de alegrias. No bar de Matakuane, os homens anedotavam, fabricando risadas. Um único móbil: festejavam a vida”.

            O local que até então servia para alegria e risos passou a ser um local de lamento e lagrimas, o macho aos olhos da sociedade não pode ser visto como um ser frágil, o fato do o homem chorar acaba sendo reprimido tanto pela sociedade quanto pelo próprio homem que acaba por de envergonhar em demostrar sentimento, tiveram no ato de chorar uma espécie de libertação, vejamos: “Hoje quem passa pelo bar de Matakuane pode certificar: chorar é um abrir do peito”. E o fato estarem chorando juntos o ajudaram, pois perceberam que não tinha influencia alguma em suas masculinidades.

5.1.4 “o rio das quatro luzes”

Por mais que o texto esteja voltado por questões africanas, percebemos que as histórias se cruzam com histórias ocorrentes em todo o mundo, no conto “o rio das quatro luzes”, conhecemos a história de um menino, assim como grande parte dos personagens do livro, silenciado, que ao ver na rua passar um enterro deseja sua morte, deseja estar no lugar daquele cadáver, vejamos: “Vendo passar o cortejo fúnebre, o menino falou: – Mãe: eu também quero ir em caixa daquelas.”. Nesse momento destacamos principalmente a angústia sentida por uma criança que sofre a falta de infância. A dura realidade do menino o faz desejar envelhecer mais rápido.       

O conto tem como principais personagens um menino em que não é relatado seu nome, sua mãe, seu pai e um personagem relevante para seu enredo que é seu avô, o seu avô por notar a tristeza do neto e notar o desejo que o neto tinha em morrer pensou uma maneira para que o menino se sentisse melhor e menos angustiado e lhe propôs trocar de papel com ele. Nesse momento junto ao avô o menino começou a se sentir criança sendo livre para viver suas fantasias e aventuras, no entanto o inesperado acontece o senhor acabou por falecer, vejamos:

“Acompanharam o avô a casa e sentaram-no na cadeira da varanda. Era ali que ele queria repousar. Olhando o rio, lá em baixo. E ali ficou em silêncio. De repente, ele viu a corrente do rio inverter de direção. – Viram? O rio já se virou. E sorriu. Estivesse confirmando o improvável vaticínio. O velho cedeu às pálpebras.”.

      A morte do homem fez com que o menino voltasse a reviver as suas angústias, assim como o velho ver as águas do rio se inverterem o menino ver sua vida voltar a ser como um dia foi, ele volta a ser um jovem adulto novamente, o brolho dos olhos que havia surgido no menino afundaram junto ao apagamento do brilho do olho de seu avô com a morte, os quatro olhos que já foram felizes, os do menino e os do senhor, vejamos:

“E os seus olhos se intemporaram em duas pedrinhas. No leito do rio se afundaram quatro luzências. Da feição que fui fazendo, vos contei o motivo do nome deste rio que se abre na minha paisagem, frente à minha varanda. O rio das Quatro Luzes.”

Percebemos que havia uma maneira dura e de controlação por parte dos pais do menino, uma vez que ele apenas se sentiu confortável de viver como criança ao lado de seu avô.

      O conto “O rio das quatro luzes” representa a falta de infância e o amadurecimento precoce de uma criança forçado pela sociedade, não apenas moçambicana, mas mundialmente que é representada na obra como um todo.

  1. METODOLOGIA

Nossa metodologia se constituiu por meio da pesquisa bibliográfica, na qual buscamos coletar dados de livros, revistas, artigos etc., para embasar nossas discussões acerca dos aspectos relacionados a figura feminina da obra de Mia couto.

Inicialmente realizamos a leitura do livro, o qual escolhemos os contos que melhor trariam o nos objetivo inicial de observar a representatividade feminina que trabalharíamos e  a temática a qual iríamos nos empenhar em analisar, após buscamos outras fontes que tratavam sobre  a mesma temática que escolhida por nós, para que pudéssemos ter um aporte teórico rico e nos proporcionar a possibilidade de discussões, após realizamos a análise da temática no conto ligada a outras pesquisas, e pontos de vista.

Após realizamos a leitura e análise da obra, buscamos compreender, como ela foi constituída, como as imagens da mulher era apresentada, como os opressores eram apresentados, além de buscamos compreender a troco de que havia esse silenciamento e opressão.

  1. RESULTADOS

Ao longo deste trabalho, observamos que a obra de Mia Couto, nos apresenta uma visão muito significativa sobre a mulher mostrando situações de opressões vividas pela sociedade, destacando principalmente o silenciamento.

 Compreendemos a obra de Mia Couto como sendo muito importante para entendermos aspectos relacionados a sociedade, além de serem significativos para se trabalhar literatura em sala de aula, enfocando aspectos sociais.

A seguir podem ser observados os resultados de forma clara e breve, da análise realizada da obra, podendo ser observadas as principais características observadas na obra a respeito do feminino:

AUTOR

OBRA

CONTOS

PRINCIPAIS TEMÁTICAS

Mia Couto

O fio das missangas

- A saia almarrotada

- As três irmãs

-A condição e posição feminina;

-A voz feminina presente na sociedade.

-O descaso, o silenciamento e a opressão que a sociedade machista impõe a mulher;

-O papel da mulher na sociedade colonizada de Moçambique;

-A submissão e o descaso vivido pelo ser feminino;

-A visão de dominação e superioridade do masculino sobre o feminino;

-O ato sexual enquanto obrigação;

-O desejo de libertação sentido pela mulher.

-Os olhos dos mortos

-A violência doméstica;

-A resistência da mulher;

-A morte enquanto solução dos problemas;

-A revolta;

-O desejo de libertação.

-Os machos lacrimosos

-Masculinidade enquanto símbolo de força;

-O homem visto pela sociedade;

-O silenciamento;

-A lagrima enquanto instrumento do sexo feminino.

-O rio das quatro luzes

-O amadurecimento forçado pela sociedade;

-O papel da criança em Moçambique;

-A morte enquanto meio de libertação;

- O distanciamento do pai do filho.

 

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do que pudemos observar ao longo do trabalho, podemos considerar que é possível que a literatura nos permite diversas reflexões acerca das situações vivenciadas nas sociedades, o que se torna de grande significância para se trabalhar em sala de aula, por aproximar os alunos dos mais diversos contextos impostos pela sociedade. Diante do que pudemos observar ao longo do trabalho, podemos considerar que é possível notar a construção do indivíduo, seja mulher, homem, adulto ou criança ao longo dos tempos. Vale destacar que o autor conta histórias que se passam por personagens de várias idades e gêneros, o que nos mostra que os problemas causados pela sociedade e causados pelos aspectos sociais não estão ligados propriamente a apenas um ser, mas a toda uma sociedade. Percebemos com a análise que o espaço da mulher é bastante restrito a casa e a submissão a figura masculina, notamos ainda a falta da voz feminina a qual é privada de se impor, descrever e escolher a sua posição perante a sociedade. Um fator importante é que nos contos não temos as personagens com funções com prestigio na sociedade, mas apenas restringidas aos afazeres domésticos e que não conseguiram atingir suas liberdades e se foi assim feito apenas por meio da morte, notamos ainda o conturbado espaço do homem em sociedade, sendo submisso a um ponto de vista criado socialmente, lhe privando de se expor e colocar para fora uma voz de liberdade por medo do julgamento social sob o aspecto da masculinidade e o silenciamento de uma criança que é privado de viver a infância também por questões sociais e que ver na morte a única saída para escapar desse fardo, uma vez que se não é para se viver a infância não faz sentido a infância existir. Desse modo, percebemos a importância desse estudo tanto para os estudos sobre a literatura e cultura africana quanto para a importância da construção da identidade da mulher, do homem e infantil, entendendo o espaço de cada indivíduo.

Diante dos aspectos analisados, observamos a mulher como sendo figura importantíssima na obra de Mia couto, verificamos que ele busca retratar e dar voz as pessoas de um modo geral e que por muitas vezes eram silenciadas. Verificamos que a mulher era submissa e tinha como principais funções a realização de tarefas domésticas, o que nos permite compreender um pouco do papel desempenhado pela mulher moçambicana e os resíduos da cultura da sociedade ocidental e islâmica. Assim como o homem precisava se mostrar sempre forte, sem poder demonstrar sensibilidade, pois era sua masculinidade que estaria em jogo e as crianças acabavam por não viver suas infâncias da maneira a qual esperavam, cheias de sonhos, fantasias e aventuras.

Logo, o livro “O fio das missangas" é muito importante para o país, tendo em vista que sua análise contribui em desvendar o contexto histórico do século XVI, em especial os povos que viviam na América e é importante para o desenvolvimento de estudantes de uma maneira que conheça tanto o universo feminino quanto masculino podendo os respeitar por igual.

 

REFERÊNCIAS

COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

MACHADO, Cristina Vasconcelos. Construção da representatividade feminina na obra O fio das missangas de Mia Couto. Darandina Revisteletrônica - http://www.ufjf.br/darandina/. Anais do Simpósio Internacional Literatura, Crítica, Cultura V: Literatura e Política, realizado entre 24 e 26 de maio de 2011 pelo PPG Letras: Estudos Literários, na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora.

PAULINO, Sandra da Silva. O fio das missangas: a representação da voz feminina em Mia Couto. Monografia submetida ao curso de Especialização em Literatura e Cultura Afro-brasileira e Africana, da Universidade Estadual da Paraíba. Guarabira, 2011.

 

 

 

 

 

LITERATURA AFRICANA EM CONTOS: A DESIGUALDADE SOCIAL REPRESENTADA NA OBRA A CIDADE E A INFÂNCIA

 

Djael Martins Pedro da Silva[14]

Guilherme da Silva Vale[15]

 

 

RESUMO: Este artigo tem como objetivo salientar a importância da obra A cidade e a infância, bem como as questões sociais expostas na obra pelo o autor José Luandino Vieira, com um foco particular em uma análise dos contos Faustino e A fronteira de asfalto, evidenciando as temáticas sociais representadas nessas narrativas. Esta pesquisa também tem como objetivo destacar a importância da obra na literatura africana de língua portuguesa, assim como destacar o papel do gênero conto na composição da obra, e a relevância desses temas em sala de aula.

Palavras-chave: Literatura africana; A cidade e a infância; José Luandino Vieira; Conto.

 

ABSTRACT: The objective of this article is to points the importance of A cidade e a infância, also the social questions exposed in work by the author José Luandino Vieira, with a special focus in a analisis of the tales Faustino and A fronteira de asfalto, evidencing social thematics represented in this narratives. This research also haves the objetive to highlight the importance of this work in portuguese language's african literature, also to highlights the role of tale textual genre in composition of this work, and the relevance of this themes in classroom.

Keywords: Portuguese language’s african literature; A cidade e a infância; José Luandino Vieira; Tale.

 

INTRODUÇÃO

A literatura africana de língua portuguesa possui uma grande variedade de escritores consagrados, dos quais José Luandino Vieira se encontra entre os mesmos. Possuindo uma sequência de obras que destacam seu nome entre as literaturas de cunho social, e que lhe alçaram o prêmio Camões em 2006 (embora rejeitado), Luandino dirige os rumos de sua escrita em um contexto em que a Angola lutava contra a colonização portuguesa, e enxergava em sua sociedade, uma contextualização de desigualdade social. Sua obra retrata aspectos que se expandem desde a segregação social, até problemáticas como o preconceito racial e semelhantes. Os contos que estruturam a obra A cidade e a infância assumem o papel de denúncia, e lançam à sociedade, reflexões sobre a condição da mulher, relações de poder, discriminação racial e outros temas que lançam olhar sobre estas chagas da sociedade que se encontravam abertas no passado, com o decorrer dos séculos, e continuam abertas até hoje. Esta pesquisa ainda traz uma análise de dois contos específicos da obra, onde é mostrada uma observação de fatores ligados à escrita social de Luandino vieira, como o racismo e o preconceito social vivenciados pelos personagens, e a segregação socioespacial decorrente da desigualdade social, estas que são problemáticas que representam os chagas abertas do meio social.

Objetivos

            Analisar pontos específicos da obra A cidade e a infância, do escritor José Luandino Vieira. Entre esses pontos, estão: A representação dos excluídos, a segregação social na narrativa, problemáticas de cunho social vividas pelos personagens como racismo e a discriminação pela classe social.

            Abordar a literatura africana de língua portuguesa.

            Promover uma abordagem do gênero textual “conto” e lançar um olhar sobre a formação de leitores no espaço escolar.

            Promover um olhar sobre contos específicos desta obra, entre eles: Faustino e A fronteira de asfalto, lançando sobre estes, um olhar de análise social e observando a construção da representação destas temáticas.

Justificativa  

            A produção deste trabalho se justifica por procurar aprofundar os estudos relacionados à literatura africana de língua portuguesa, embasando-se em uma obra de um dos grandes escritores desta literatura. Procurou-se lançar um olhar sobre o gênero textual “conto” e a prática de leitura em sala de aula, apresentando estudos sobre este gênero e analisando contos específicos desta obra, que possui um vasto contexto e crítica social em sua composição. Procuramos levantar questões sobre esta obra e sobre a literatura africana para que se reflita sobre o conteúdo do texto de Luandino e sua ligação com a sociedade, a partir das problemáticas vividas pelos personagens.

Metodologia

            Para a produção deste artigo, o conhecimento da obra integral A cidade e a infância, se fez de suma importância. Estudos que analisassem de maneira aprofundada os contos aqui estudados não foram encontrados, logo, este trabalho assume nesta linha de pesquisa, um protagonismo voltado ao estudo destes contos selecionados com a literatura africana de língua portuguesa e o gênero textual desta obra em sala de aula. Para compor a estrutura de argumentações, além da obra, foram utilizados teóricos/as que abordam: a literatura africana de língua portuguesa, o gênero conto e recortes da obra para dissertar sobre o texto de Luandino Vieira. A escassez de pesquisas relacionadas à obra A cidade e a infância, permitiu um maior aprofundamento desta pesquisa em um viés social sobre a narrativa de Luandino.

 

  1.  A OBRA

            A obra A cidade e a infância, escrita pelo escritor luso-angolano José Luandino Vieira (este nome é um pseudônimo literário para seu nome real: José Vieira Mateus da Graça), faz parte de sua sequência de produções literárias referentes ao gênero conto. Esta obra é a união de 10 (dez) contos escritos separadamente e com temáticas que embora distintas, possuem aproximação em relação às abordagens expostas por um viés social.

            Tendo a primeira versão desta obra publicada no ano de 1960, Lisboa (após uma não sucedida tentativa de publicação em 1957), esta produção marca a estreia deste escritor na literatura africana da época, carregando em sua produção uma grande ligação com as lutas pela libertação de Angola. Os contos de A cidade e a infância possuem características que estruturam a escrita de José Luandino Vieira, tais fatores ligam-se diretamente com a exposição de assuntos sociais dentro das tramas dos contos: a paisagem urbana e o contexto de pobreza e marginalidade em Luanda (capital da Angola), a exposição do convívio e da forte tensão existente entre negros, brancos e mulatos; uma presente crítica à modernização excludente (tal fator recebe atenção especial em um dos contos), entre outros pontos singulares da narrativa deste grande nome da literatura africana de língua portuguesa.

            Esta obra traz uma série de breves narrativas que são inspiradas também na infância do autor, este que teve a infância vivida em bairros pobres de Luanda, e possuía contato com meninos de raças que são representadas na sua obra: negros e mestiços. Dentro de sua narrativa, fatores como a segregação social, racismo, representação de classes excluídas, uma modernização excludente, e assuntos relacionados, recebem uma representação baseada em situações que o próprio autor observara e que possui ligação com o contexto social atual. A obra de José Luandino Vieira propõe uma releitura às condições sociais de outrora que ainda se fazem presente em diversos lugares, lançando à sociedade situações que fazem parte do cotidiano das classes menos favorecidas.

            A escrita de Luandino possui singulares aspectos que vão desde a representação da oralidade presente na escrita, do uso de termos regionalistas, a utilização de neologismos, até a mudança de um foco de narrativa para um outro tema de maneira súbita. A representação de uma infância ligada ao contexto de desigualdade social expressa-se de maneira profunda nos contos que completam a obra, e assim, tais fatores estruturam A cidade e a infância como uma obra além da literatura, mas social, política e histórica, este último por haver ligação com o contexto histórico de lutas contra a colonização portuguesa.

 

  1. O GÊNERO TEXTUAL “CONTO” E A FORMAÇÃO DE LEITORES EM SALA DE AULA

2.1  . A FORMAÇÃO DE LEITORES EM SALA DE AULA

            Lançando-se um olhar sobre o sistema educacional atual, é perceptível que dentro do espaço escolar, a leitura se encontra distante das práticas exercidas pelo alunado. As abordagens que são expostas em sala de aula, sejam nas aulas de língua portuguesa e/ou em outras disciplinas, em grande parte não está atraindo os estudantes e despertando o gosto consciente pela prática da leitura; muitos discentes encaram as atividades solicitadas pelos professores referente à leitura, como repetitivas cobranças de resumos e fichas de leituras. Este sistema coloca a prática de leitura como sendo não-atrativa aos olhos dos discentes, isto implica numa perca de aproveitamento do conteúdo daquilo que se lê, a leitura passa a ser algo automático; passando a ser (quando feita) apenas uma decodificação das palavras, sem compreensão do texto.

            O professor em sala de aula tem que atuar como um mediador entre o texto literário e seus alunos; procurando instigar nestes, o prazer pela realização da leitura, e além disto, a compreensão e reflexão daquele texto trabalhado em sala de aula. É necessário que se busque por metodologias que despertem o anseio da prática de leitura nos jovens estudantes, rompendo com o ensino tradicional de apenas solicitar a leitura de uma determinada obra, sem preparar e contextualizar o discente para a prática e o conhecimento daquele texto.

            Seguindo o pensamento de Fischer (2005), entende-se que durante grande parte da história, ler significava falar. Com essa fragilidade associada ao significado de ler, instruções e assuntos importantes como acordos verbais podiam ser adulterados, e para que se pudesse registrar tais fatores e os imortalizar, surgiu a necessária escrita. A escrita surge como a concretização da língua oralizada, auxiliando no arquivamento de informações, e servindo como consulta cada vez que necessária. A finalidade da documentação escrita, é a leitura oral.

A leitura sempre foi diferente da escrita. A escrita prioriza o som, uma vez que a palavra falada deve ser transformada ou desmembrada em sinais representativos. A leitura, no entanto, prioriza o significado. A aptidão para ler, na verdade, pouco tem a ver com a habilidade de escrever. (FISCHER, 2005, p. 09)

            O autor ainda afirma que a leitura é a capacidade de se extrair sentidos de símbolos impressos. A leitura quando realizada corretamente, busca a compreensão total daquilo que se apresenta dentro de um texto, expandindo-se além da decodificação dos códigos linguísticos, procurando explorar os significados das sentenças que estruturam um fragmento e/ou um texto literário. Entende-se então pela compreensão e capacidade de extrair sentidos.

A leitura não é apenas a união do som ao grafema, o que ocorre apenas no nível mais básico. O significado está envolvido, e de modo fundamental. Em um nível mais avançado de percepção, a leitura pode, até mesmo, exprimir significado isoladamente, sem recorrer ao som. (FISCHER, 2005, p. 11)

            Para que se possa formar bons leitores, Kleiman (2012) aponta que é necessário despertar no aluno uma paixão pela leitura. Este pensamento aponta para a realidade de jovens não-leitores em um contexto atual, pois justamente pela não atração pelo ato de ler, o sistema educacional enfrenta uma escassez de discentes que frequentam os espaços de leitura como bibliotecas e semelhantes, isso acarreta na dificuldade em sala de aula; uma vez que não havendo a prática de leitura, o discente encontra dificuldade em trabalhos que integrem a utilização de textos, e de atividades que vão da interpretação textual à escrita.

 

2.2. GÊNERO CONTO

            De acordo com o teórico Saraiva (2001), a indicação de narrativas curtas para leitores iniciantes, seja aqueles que estão em fase de aquisição da leitura, ou aqueles que estão iniciando a prática de leitura, independentemente da idade, se dá por fatores que vão desde a simplicidade da linguagem encontrada nestes escritos, até a brevidade da narrativa que a distância da complexidade de um romance, e a torna mais acessível e compreensível aos leitores iniciantes.

Os temas dessas obras relacionam-se a vivências infantis (brincadeiras, passeios, pequenas aventuras), aspectos ligados à interioridade das personagens (busca de identidade, insegurança e medos) ou relações interpessoais (desentendimentos familiares e solidariedade). (SARAIVA, 2001, p. 48)

            A utilização de textos curtos para leitores iniciantes, contém uma série de fatores positivos que gradativamente concretizam uma aquisição melhor por parte daquele que está iniciando no mundo da leitura. Inicialmente porque os textos curtos são fáceis de serem compreendidos, não possuem um grande número de núcleos narrativos e a numeração de personagens e situações vivenciadas por estes, são limitadas. Possuindo um enredo simples, os leitores iniciantes encontram um texto de fácil compreensão, e que gradativamente podem ir avançando até poderem fazer a leitura de uma obra mais complexa.

            De acordo com Soares (1993), as principais diferenças entre o gênero conto e o romance dizem respeito a aspectos estruturais e em relação à extensão.

Ao invés de representar o desenvolvimento ou o corte na vida das personagens, visando a abarcar a totalidade, o conto aparece como uma amostragem, como um flagrante ou instantâneo, pelo que vemos registrado literariamente um episódio singular e representativo. (SOARES, 1993, p. 54)

            Ao referir-se ao conteúdo predominante do conto, Gotlib (1990) defende que o conto não tem necessariamente um compromisso em narrar um acontecimento passado; dentro de sua narrativa, o autor pode inserir fatores originados da ficção. Desta forma, o conto:

Não se refere só ao acontecido. Não tem compromisso com o evento real. Nele, realidade e ficção não têm limites precisos. [...] A esta altura, não importa averiguar se há verdade ou falsidade: o que existe é já a ficção, a arte de inventar um modo de se representar algo. (GOTLIB, 1990, p. 12).

            Com base nessa ideia, podemos considerar que o conto pode sim ser uma boa opção para se trabalhar em sala de aula como objetivo de buscar estimular a leitura por parte dos alunos.

 

  1. O ENSINO DE LITERATURA AFRICANA NO BRASIL

No Brasil, com base na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB), mais especificamente com base na Lei 10.639/03, alterada pela Lei 11.645/08, é obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, privadas e públicas, do ensino fundamental e médio. Dessa forma, o ensino de literatura africana nas escolas de nosso país não é facultativo, e sim obrigatório.

De acordo com Barbosa (1996), o ensino da literatura situa-se entre a leitura e a crítica, e “é proposto, por um lado, como decorrência da (leitura) e por outro, como encontrando seu prolongamento na crítica”. (BARBOSA, 1996 p. 59). Assim, é defendida a ideia de que o ensino da literatura estimula a construção de um pensamento crítico, e essa visão é extremamente importante para a compreensão da suma importância não só da literatura, mas também de práticas de estímulo a leitura em sala de aula.

Barbosa (1996) salienta também a importância de leituras e releituras de obras literárias como forma de aquisição de conhecimentos sobre épocas, contextos e culturas diferentes da realidade do leitor, afirmando que:

[...] cada século teve o seu Dante, o seu Shakespeare, o seu Cervantes, sem que, entretanto, sejam autores inteiramente diferentes daqueles que foram lidos e apreciados por seus públicos imediatos. São obras que atravessam épocas... e estabelecem um grau de valor com referência a leitura ou a releitura que delas venham a ser feitas. Nesse sentido essa leitura, é quase sempre uma releitura daquilo que significa a literatura, para o presente em que se situa o leitor. (BARBOSA, 1996, p. 77-78).

Com base nessa visão, tratando-se obra A cidade e a infância, esta possui uma gama de representações da sociedade africana, mais especificamente da capital de Angola, Luanda, onde o autor descreve através de seus contos a realidade daquele país, cuja sociedade permeada de preconceitos e desigualdades, dificultava drasticamente a vida da população menos favorecida. É inegável o alto grau de representatividade social dos contos presentes na obra de Luandino, dentre os dez contos desta, destacamos os contos Faustino e A fronteira de asfalto bem como as problemáticas que tais narrativas expõem, para uma análise e discussão sobre como levar tais contos para sala de aula.

 

  1. O CONTO FAUSTINO: DISCUSSÕES SOCIAIS SOBRE O PERSONAGEM

            A obra A cidade e a infância, é uma coletânea de 10 (dez) contos escritos pelo José Luandino Vieira, escritor angolano de literatura portuguesa. Sua obra possui uma diversidade de temas com caráter social que se encontram inseridos no enredo de suas narrativas; estas temáticas de cunho social vão desde a representação da condição da mulher (representada em determinados fatores por alguma personagem), até assuntos como segregação social e o racismo.

            O conto Faustino possui um narrador em primeira pessoa, a trama gira em torno da narração da vida deste personagem. O ambiente em que esta narrativa se desdobra é o local de trabalho do personagem que nomeia o conto. Esta narrativa se inicia expondo a identidade do protagonista, e expõe a relação entre um empregado negro e seus empregadores (o destaque para a cor da pele deste personagem se faz necessária, uma vez que esta é a causa das implicações e provocações estimuladas pelo conto), a submissão necessária, a exploração e as relações de poder.

Faustino é o seu nome. Faustino Antônio.

O dia inteiro ele tira o boné, abre a porta do elevador, fecha a porta do elevador, tira o boné, abre a porta do elevador.

- Bom dia, m’nha senhora!

- Muito obrigado m’nha senhora!

Às vezes descansa. O prédio só tem três andares. Mas há os miúdos todos que brincam no elevador. E ele é o responsável. Pelo elevador e pelos meninos” (VIEIRA, 2007, p. 79)

            A construção deste personagem se configura como membro de uma classe social não privilegiada, no caso, um jovem negro, e sua função é descrita como operador do elevador. No fragmento acima, é descrito a condição de repetição de seu ofício, e a exposição por parte deste personagem de um comportamento afável, procurando sempre exercer sua função com o respeito aos seus superiores.

            Embora a construção da personalidade deste personagem seja descrita como gentil; as condições ligadas à raça e à classe social, são mostradas na narrativa como obstáculos enfrentados pelo personagem. Nos parágrafos iniciais, é exposto uma situação na qual após levar um desses “miúdos” à sua mãe, por estar causando desordem no elevador, Faustino é intimidado e até ameaçado de demissão; nesta ocasião, sua cor é citada com desprezo, em um discurso de teor racista: “Se tornas a maltratar o meu filho, já sabes. Vou lá abaixo ao escritório do teu patrão e tu vais p’ra rua. Não querem lá ver o negro” (VIEIRA, 2007, p. 80).

            A obra de Luandino explora em seus personagens, o problema social do racismo que cria uma separação e até uma tensão entre brancos e negros, um reflexo de aspectos sociais dentro da narrativa literária. Esta abordagem social também é notória em uma narrativa de outro conto deste livro, no conto Quinzinho, onde há a construção de um trecho que provoca o leitor sobre o lugar das classes sociais menos favorecidas dentro da sociedade: “Operário não pode sonhar, Quinzinho, não pode. A vida não é para todos. Tudo realidades vivas, cruéis. A luta com a vida” (VIEIRA, 2007, p. 87). Este outro personagem (Quinzinho), também vivera a mesma luta que Faustino em relação aos preconceitos sociais ligados à condição social e à cor da pele.

            A condição social simples é exposta por meio da realidade vivida por este personagem. Sendo um personagem que está em processo de aprendizagem, e almeja continuar com seus estudos, em seus poucos possíveis momentos de leitura, Faustino se depara com situações que divergem da sua condição social, “e os olhos mostram-lhe casas novas, casas nunca vistas no seu mundo. Nem mesmo no bairro dos brancos” (VIEIRA, 2007, p. 80); a leitura expande os horizontes deste personagem que possuía um conhecimento limitado à sua realidade. A literatura promove no leitor, a descoberta e o alargamento de horizontes que antes lhe era limitado; Cândido afirma que para que uma sociedade seja justa “pressupõe o respeito pelos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável” (CÂNDIDO, 1989, p.  126). A representação destas duas realidades: o mundo aos olhos das classes pobres, e o mundo aos olhos das classes ricas, estabelece um contraste sobre as desigualdades sociais que delimita para o primeiro grupo, a existência a meios básicos, enquanto que estabelece uma realidade supérflua para os dominantes do capital.

            A declaração universal dos direitos humanos afirma que:

“Toda pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional deve ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito”. (DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS)

            Entretanto, este direito que também compete ao personagem Faustino lhe é retirado. O contexto social da Angola naquele momento, não abria espaço para que um negro adentrasse o mesmo espaço intelectual que a classe branca. Uma das formas de dominação, é manter o oprimido no cárcere da ignorância, para que não havendo mudança, e ascensão através do estudo, a classe opressora possa se manter na sua posição de poder; esta censura relacionada às práticas educacionais é exposta em trechos semelhantes a este:

“Então hoje não regas as avencas e a relva? As flores estão quase murchas. Caramba! P’ra que é que te dão duzentos angolares por mês? Já não tens idade para estudar. Estudar não é para ti. Trabalha, trabalha. Tens de lavar as escadas... (VIEIRA, 2007, p. 81)

            Dentro do discurso de um destes empregadores, há a clara exibição de uma necessidade de manter as coisas como estão, isto consiste em não permitir/incentivar uma ascensão deste personagem por meio do estudo. A figura do personagem Faustino ergue-se como sendo uma oposição ao sistema normativo; uma vez que sendo um negro, além de querer, gosta de estudar e enxerga nessa prática, um meio de ascensão social.

            Luandino Vieira procura inserir em sua obra, questões que fazem parte da representação dos excluídos. Seu conto “Faustino” exibe um pouco deste personagem que depara-se constantemente com a opressão relacionada à sua classe social, à sua cor (aqui pode-se inserir a não aceitação de seu desejo e gosto pelos estudos, aos olhos dos empregadores), a sua desvalorização enquanto funcionário, e o desejo (por parte de seus superiores) de sua não ascensão social, para que estes que retém o capital possam continuar no controle. Estas abordagens são questões atemporais e universais, uma vez que a sociedade ainda dissemina discursos racistas contra pessoas negras, e que estes se agravam quando a vítima pertence a uma classe social menos favorecida.

 

5.      O CONTO A FRONTEIRA DE ASFALTO E A SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL REPRESENTADA NA OBRA

            Ao fazermos uma leitura não só de contos isolados, mas de todo a obra em si, nota-se a escolha de Luandino em querer abordar não só um, mas diversos temas referentes ao meio social que desejava representar. Como é o caso dos contos Bebiana e Marcelina, que nos apresenta um pouco da vida da mulher em camadas sociais mais baixas em seu país, enquanto contos como Faustino e Quinzinho nos traz histórias de jovens rapazes vítimas de racismo e do preconceito social. Contudo, diante dessa diversificação de problemáticas expostas nas narrativas presentes no livro, uma delas, notoriamente, se destaca como sendo uma das mais trabalhadas pelo autor, se não a mais trabalhada dentre todas elas, que é a segregação socioespacial, mais especificamente a segregação urbana.

Se buscarmos o significado da palavra segregação em si, de acordo com Dicionário Escolar da Academia Brasileira de Letras, organizado por Bechara(2012), o verbo “segregar” apresenta o sentido de “colocar(-se) à margem de; apartar(-se), isolar(-se); lançar para fora; excretar, expelir, expulsar [...].” (BECHARA, 2012, p. 1166). Seguindo essa concepção, Castells (1977) define a segregação socioespacial da seguinte forma:

[...] Tendência à organização do espaço urbano em zonas de forte homogeneidade social interna e de forte disparidade social entre elas, entendendo essa disparidade não somente em termos de diferença, mas de hierarquia. (apud MIÑO, 1997, p. 2).

Com base nessa visão, segregação socioespacial é o processo de separação de determinadas classes sociais por território, sendo a segregação urbana quando esse processo ocorre neste determinado meio. É do processo de segregação social urbana que surgem as periferias, os bairros pobres, as zonas de risco, em contraponto aos condomínios elitizados, os bairros nobres, áreas de maior estima social, geralmente com base nesta tendência hierárquica de organização do espaço urbano citada por Castells.

A segregação social é tratada em muitos dos contos da obra de Luandino de maneira sutil, como é o caso do conto Bebiana, onde a personagem Don’Ana, em um diálogo com o protagonista, começa a contar-lhe uma história do passado, dizendo: “[...] Já morei diante da vossa casa naqueles tempos em que o musseque Braga não era aquele bairro de brancos ricos [...]” (VIEIRA, 1960, p. 63), onde ela refere-se ao antigo bairro onde morava como sendo um bairro atualmente elitizado, e que ela já não pode mais adentrar em tal região, por ser tratada como sendo parte de uma classe social considerada inferior, como ela mesmo comenta fazendo referência a cor do protagonista em um trecho anterior a este acima citado, onde diz “o menino é branco, gosta das minhas filhas porque são mulatas. Eu sei... mulato é mulato. A gente pode desrespeitar mesmo”. (VIEIRA,1960, p. 62).

No conto que dá título à obra, A cidade e a infância, ao descrever o ambiente onde se passa a narrativa, o narrador ressalta que “as casas de pau-a-pique e zinco foram substituídas por prédios de ferro e cimento, a areia vermelha coberta pelo asfalto negro e a rua deixou de ser a Rua do Lima. Deram-lhe outro nome” (VIEIRA, 1960, P. 27), fazendo uma alusão as construções decorrentes da transformação espaço geográfica, que fez de um determinado local, mais especificamente uma rua, muito presente na vida dos personagens envolvidos na trama no passado, tornar-se algo totalmente desconhecido para eles, pois estes, assim como Don’Ana, tornaram-se vítimas deste mesmo estigma social acarretado pela segregação, e com isso, não puderam mais retornar a tal região.

Essas sutis menções ao fenômeno da segregação socioespacial não só aparecem nestes contos, mas também podem ser encontradas em contos como Faustino, Quinzinho e Encontro de acaso. Entretanto, vale ressaltar que dentre os dez contos da obra, um deles, é dedicado totalmente a essa questão de segregação, que é o conto  A fronteira de asfalto. Este conto trabalha a questão da segregação desde o título, sendo a fronteira de asfalto uma metáfora referindo-se à rua asfaltada que separa o bairro pobre da região elitizada presentes na trama. Como é descrito neste trecho a seguir, quando Ricardo, um dos protagonistas da narrativa, um garoto negro que após uma discussão com sua amiga, Marina, a outra protagonista da narrativa, uma menina branca que residia no bairro rico, retira-se do local:

Virou os olhos para o seu mundo. Do outro lado da rua asfaltada não havia passeio. Nem árvores de flores violeta. A terra era vermelha. Piteiras. Casas de pau-a-pique à sombra de mulembas. As ruas de areia eram sinuosas. Uma tênue nuvem de poeira que o vento levantava, cobria tudo. A casa dele ficava ao fundo. Via-se do sítio donde estava [...]. (VIEIRA, 1960, p. 40).

É nessa ambientação que se passa a narrativa do conto A fronteira de asfalto: uma rua asfaltada que serve como marca divisória das duas diferentes regiões urbanas, onde de um lado encontra-se o bairro de Marina, a menina branca, um bairro elitizado povoado por pessoas da alta sociedade; enquanto do outro lado, encontra-se a região onde Ricardo mora, um espaço de estruturas precárias onde moram pessoas pobres e carentes. Com isso, fica evidentemente nítido na narrativa a divisão espacial proposta pelo conceito da segregação urbana.

Essa metáfora da fronteira de asfalto é aludida durante todo o conto, como quando, posteriormente a tal discussão entre Ricardo e Marina, a menina, enfurecida, vira as costas para o amigo, e o narrador descreve que a menina “[...] Depois, com passos decididos atravessou a rua, pisando com raiva a areia vermelha e sumiu-se no emaranhado de seu mundo.” (VIEIRA, 1960, p. 41), com o termo “seu mundo” referindo-se a área onde mora a menina rica como sendo um espaço particular dela, longe do alcance de Ricardo, este que por pertencer a uma diferente classe social não poderia visitar, ou sequer aproximar-se de tal região.

Após esse momento, outra alusão a metáfora da fronteira de asfalto pode se apresenta, quando Marina põe-se a ponderar sobre a situação de seu amigo e a sua:

[...] E subitamente ficou a pensar no mundo para lá da rua asfaltada. E reviu as casas de pau-a-pique onde viviam famílias numerosas. Num quatro como o dela dormiam os quatro irmãos de Ricardo [...]. (VIEIRA, 1960, p. 42).

Aqui novamente o narrador menciona a ideia de mundos diferentes, desta vez referindo-se a menina e sua concepção sobre o local onde Ricardo morava como sendo algo totalmente alheio a sua realidade. Não só essa segregação espacial chega a trazer perturbações a menina, como também sua família a repreende por manter contato com alguém como Ricardo, como quando a mãe de Marina lhe dá um sermão dizendo: “[...] Marina, já não és nenhuma criança para que não compreendas que a tua amizade por esse teu amigo Ricardo não pode continuar. Isso é muito bonito em criança. Duas crianças. Mas agora... um preto é um preto [...]” (VIEIRA, 1960, p. 42), considerando Ricardo como um ser de classes inferiores, de maneira explicitamente preconceituosa e racista.

Nota-se então que a segregação socioespacial, neste caso a segregação urbana está presente no conto A fronteira de asfalto desde seu título, como já mencionado, passando pela ambientação, pelas ideias dos personagens, até em metáforas que aludem a tal separação hierárquica. Juntamente com o fato de que tal ideia também está presente em outros contos da obra, mesmo que de forma menos abrangentes, fica claro o enfoque dado pelo autor à essa problemática diante das diversas outras questões sociais tratadas nos contos presentes na obra A cidade e a infância.

Esse destaque pelo autor ao fenômeno da segregação ocorre pela posição tomada por Luandino durante a época em que o livro foi lançado. Participante do MPLA (Movimento Popular Libertação de Angola), que lutava pela independência do país, Luandino utilizou a literatura para denunciar problemas presentes no dia a dia das pessoas menos favorecidas em seu meio social, e sua aversão ao movimento de colonização dos portugueses no país, estes sendo os responsáveis pela fomentação da desigualdade social no país, estimulando a segregação socioespacial.

 

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base nas análises destes dois contos, nota-se que a obra de Luandino expõe de maneira extremamente abrangente as problemáticas sociais vivenciadas pelo povo angolano. A obra A cidade e a infância nos traz narrativas reflexivas e profundas sobre aspectos sociais que em nenhum momento devem ser ignorados.

É indiscutível também a importância da literatura africana de língua portuguesa, seja ela no ensino de literaturas no Brasil, até no fator representativo da sociedade, esta possui um valor cultural e histórico que jamais deverá ser ignorado. As discussões, ideias, e argumentos expostos nesta pesquisa, somente enfatiza tais características valiosas da literatura africana, com foco nos contos de Luandino, estes que denunciam diversas situações de desigualdade em suas narrativas.

Luandino nos mostra como questões sociais podem ser trabalhadas de maneira eficaz com o gênero conto. Narrativas como Faustino e A fronteira de asfalto lançam um olhar profundo sobre problemáticas presentes não só na sociedade africana, mas também no mundo inteiro, e por isso ganharam um cunho representativo da obra e um destaque especial nesta pesquisa. Vale lembrar, que todos os outros contos da obra também fazem denúncias, e todas elas possuem valor e caráter representativo social.

 

  1. REFERÊNCIAS

BARBOSA, João Alexandre. A Biblioteca Imaginária. São Paulo: Ateliê Editorial, 1996. p. 59 e 77-78.

BECHARA, Evanildo (org.). Dicionário escolar da Academia Brasileira de Letras: Língua Portuguesa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2011. p. 1166.

CANDIDO, A. Direitos Humanos e literatura. In: A.C.R. Fester (Org.) Direitos humanos E… Cjp / Ed. Brasiliense, 1989.  

FISCHER, S.R. História da leitura. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

GONZAGA, D. Educação para a luta: uma leitura do conto “Faustino”, de José Luandino Vieira. Disponível em: https:// books.google.com.br/. Acesso em: 07 abr. 2021

GOTLIB, N.B. Teoria do conto. São Paulo: Ática, 1990.

MIÑO, Oscar Alfredo Sobarzo. A segregação socioespacial urbana. Formação (online), 1996. Disponível em:

https://revista.fct.unesp.br/index.php/formacao/article/viewFile/2445/2200. Acesso em 10 de abr. 2021.

SARAIVA, J.A. Literatura e alfabetização: do plano do choro ao plano da ação. Porto Alegre: Artmed, 2001.

SOARES, A. Gêneros literários. São Paulo: Ática, 1993. https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12532. Acesso e m: 02 abr. 2021.

UMBERLINO, Cristiane da Silva; PEREIRA, Danglei de Castro. O ensino de literatura africana em língua portuguesa e suas perspectivas. In: Congresso Internacional 2018: Circulação, Tramas e Sentido na Literatura. Brasília, 2018.

VAZARIN, Valdéres Bilhas. Oralidade na obra A cidade e a infância de Luandino Vieira. Dissertação (Mestrado em Letras) – Instituto de Biociência, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho”. São José do Rio Preto, 2019. p. 84-87.

VIEIRA, J. L. A cidade e a infância: contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

 

 

 

 

 

 

 

 

A LITERATURA AFRICANA EM SALA DE AULA: MULTICULTURALIDADE ENTRE ÁFRICA E BRASIL

                                                                               

                                            Brisa Laudicéia do Couto Lima[16]

                                Erlane da Silva[17]

                               Janicleide dos Santos Bastos[18]

RESUMO

Este trabalho trata da Literatura africana em sala de aula; da importância do autor Agostino Neto e de suas obras para essa enriquecedora literatura, trazendo reflexões e ideias do artigo de Airton Souza de Oliveira, intitulado “A literatura de testemunho na expressão poética do poeta Agostinho Neto”. Dessa forma, este artigo tem como objetivo principal a inserção da literatura africana em sala de aula; o conhecimento acerca do movimento conhecido como negritude; também a reflexão a respeito de como o professor de língua portuguesa precisa trabalhar a literatura africana em sala de aula; além de abordar a sua importância no contexto escolar e social. Abordaremos a vida e a obra de Agostinho Neto e analisaremos alguns de seus poemas inseridos no livro “Poemas de Angola”. E por fim, elaboraremos um plano de aula detalhado de como seria trabalhado as obras de Agostinho Neto no ambiente escolar, trazendo um olhar histórico, para refletirmos o quão importante é trabalhar a Literatura africana na atualidade.

PALAVRAS-CHAVE: LITERATURA AFRICANA. AGOSTINHO NETO. SALA DE AULA

 

ABSTRACT

This paper deals with African Literature in the classroom and the importance of the author Agostino Neto and his works for this enriching literature. Its main objective is the insertion of African literature in the classroom and the knowledge about the movement known as negritude; and also the reflection about how the Portuguese language teacher needs to work African literature in the classroom and its importance in the school and social context. We will approach the life and work of Agostinho Neto and analyze some of his poems in the book "Poems of Angola" and a detailed lesson plan of how the works of Agostinho Neto would be worked in the school environment. Bringing a historical look, to reflect how important it is to work African Literature today.

KEYWORDS: AFRICAN LITERATURE. AGOSTINHO NETO. CLASSROOM.

 

INTRODUÇÃO

   É a partir da aprovação da lei nº 10.639, realizada no dia 09 de janeiro de 2003, a qual insere o estudo da literatura africana – bem como sua história e cultura – no ensino fundamental e médio das escolas brasileiras, que faz-nos refletir acerca de como a literatura mencionada nasceu e criou notoriedade não só nas escolas, como também no meio acadêmico e de pesquisas.

       É indubitável que a literatura africana de língua portuguesa vem atingindo destaque por meio de suas obras que estão inseridas no meio educacional. Entretanto, esse reconhecimento tem suas raízes no movimento conhecido como Negritude, corrente literária que exalta os valores culturais dos povos negros, assim como a população afro- descendentes que foram vítimas da opressão colonialista.

     A partir disso, podemos refletir a respeito de como o professor de língua portuguesa precisa/pode trabalhar a literatura africana em sala de aula, tendo como perspectiva o olhar sensível à multiculturalidade do Brasil, assim como a influencia africana no nosso cotidiano. Portanto, este trabalho tem como objetivo primordial a elaboração de um plano de aula que contemple a literatura africana no ensino de Língua Portuguesa por meio da obra do escritor Agostinho Neto: Poemas de Angola; além de fazer um estudo diacrônico do reconhecimento e notoriedade da literatura mencionada, e por fim, compreender a interdisciplinaridade entre as duas vertentes analisadas.

     Em 11 de novembro de 1975 Angola é declarada independente e Agostinho Neto é proclamado seu primeiro presidente, continuando Comandante-em-Chefe das FAPLA e Presidente do MPLA. Neto alinha a MPLA ao bloco socialista e estabelece um regime mono-partidário, inspirado no modelo então praticado nos países do Leste Europeu. No que se refere à poesia de Agostinho Neto, suas obras apresentam imagens poéticas das vivências do homem angolano, abordando o passado, o presente e o futuro. Como podemos observar no poema a seguir:

 

Havemos de Voltar

Às casas, às nossas lavras

às praias, aos nossos campos

havemos de voltar

 

Às nossas terras

vermelhas do café

brancas de algodão

 

verdes dos milharais

havemos de voltar

 

Às nossas minas de diamantes

ouro, cobre, de petróleo

havemos de voltar

Aos nossos rios, nossos lagos

às montanhas, às florestas

havemos de voltar

 

À frescura da mulemba

às nossas tradições

aos ritmos e às fogueiras

havemos de voltar

 

À marimba e ao quissange

ao nosso carnaval

havemos de voltar

 

À bela pátria angolana

nossa terra, nossa mãe

havemos de voltar

 

Havemos de voltar

 

À Angola libertada

Angola independente.

 

     Percebemos através do poema de Agostinho Neto que o autor aborda o sofrimento que os angolanos passaram no período da colonização e a esperança de encontrar a luz e o sentido da vida. Além da necessidade de lutar, sonhar pela esperança da independência, lutando por uma nova Angola e reconquistar sua identidade. As obras de Agostinho Neto obtinham um reconhecimento esplêndido, como podemos observar.

“A poesia de Neto traz o reconhecimento de que nunca se está só, de que não se pode ignorar a presença do outro, mesmo que o outro reduza suas possibilidades de ser. O outro, nas palavras de Agostinho neto, mistura-se ao Eu-angolano, define-o, mas não lhe rouba as origens. Antropofagicamente, o outro é assumido, compondo a imagem autêntica do ser angolano contemporânea: ser África porque, ‘calibanescamente’, o outro – que historicamente determinou os desvios da cultura originária angolana – se fez presença no corpo de Angola. Ser África dos caminhos entrecruzados, mas fazer-se África.” (“O Eu e o Outro em Sagrada Esperança” de Marcelo José Caetano – Caderno CESPUC de pesquisa PUC – Minas – BH, n.5, abr.1999)

HISTÓRIA DA LITERATURA AFRICANA: MOVIMENTO NEGRITUDE

     O movimento negritude foi concebido fora da África. Pode ter surgido nos Estados Unidos, passando pelas Antilhas, depois chegou à Europa e chegou à França, onde adquiriu corpo e foi obtido e sistematizado. Desde então, o movimento se expandiu para toda a África negra e América (incluindo o Brasil), transmitindo assim esta mensagem entre a diáspora negra. O movimento negritude é uma tendência literária que reúne escritores negros dos países que foram colonizados pelos franceses. O objetivo da Negritude é valorizar a cultura negra em países africanos ou descendentes de afrodescendentes vítimas da opressão colonial.

      O afro-americano WEB Du Bois (1868-1963) é considerado um defensor do pan-africanismo. O pan-africanismo é um movimento político e cultural que não só ajuda os países africanos a fugir do domínio colonial, mas também estabelece a unidade e as lutas africanas. Como Du Bois foi um dos primeiros líderes a defender veementemente o orgulho racial e o retorno à ancestralidade negra, ele foi considerado um símbolo do movimento que conhecia o pai simbólico de movimento de tomada de consciência de ser negro. Embora o termo negritude tenha sido criado somente anos mais tarde. Considera-se geralmente que foi René Maran, autor de Batouala, o precursor da negritude. Todavia, foi Aimé Césaire quem criou o termo em 1935. Com este conceito, primeiro declarou a identidade negra e sua cultura diante da cultura francesa dominante e opressora.

 

AGOSTINHO NETO E SUA OBRA “POEMAS DE ANGOLA”

      Antônio Agostinho Neto, primeiro presidente da República de Angola, era médico de profissão, poeta e um líder. Nasceu em 17 de setembro de 1922 em Kaxicane, em Angola no Continente Africano e morreu num hospital em Moscovo, em 10 de setembro de 1979, filho de Agostinho Neto e Maria da Silva Neto, que em 1934 o colocou para estudar na escola primária e em 1937 inicia seus estudos secundários na escola Liceu Salvador Correia. Ao concluir seus estudos, foi contratado pelos serviços administrativos da África para servir como funcionário dos serviços de saúde. Assim, Agostinho pode ampliar sua visão dos problemas que eram pertinentes naquela época.

    Com o tempo, deixa a Angola e parte para Portugal com o intuito de frequentar a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Lá, Agostinho torna-se um dos fundadores da secção Casa dos Estudantes do Império (CEI). Na CEI, Agostinho funda a revista Movimento com a ajuda de Lúcio Lara, Orlando de Albuquerque e o grupo “Vamos descobrir Angola”, o qual deu origem ao “Movimento dos Jovens Intelectuais”. Anos depois, por volta de 1948 ganha uma bolsa de estudos e acaba transferindo a matrícula para a Faculdade de Medicina da Universidade da Lisboa, mas permanece com suas atividades no CEI. Nesse mesmo ano foi preso pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), em Lisboa, quando estava recolhendo assinaturas para a Conferência Mundial da Paz, onde ficou preso por três meses.

    No ano de 1951 foi eleito representante da Juventude das Colônias Portuguesas (JCP). Em 1955 foi novamente preso por suas atividades políticas no JPC, sendo condenado a 18 meses de reclusão. Com isso, houve uma mobilização de diversos intelectuais em seu apoio, tais como Simone de Beauvoir, François Mauriac, Jean-Paul Sartre e o poeta cubano Nicolás Guillén. Ao ser liberto, dedicou-se aos estudos e em 27 de outubro de 1958 concluiu sua licenciatura em Medicina pela Universidade de Lisboa. Casou-se com a escritora, poetisa e jornalista portuguesa Maria Eugenia Neto em 1958, conhecendo-a num circulo de escritores dez anos antes.

     Em 11 de novembro de 1975 Angola é declarada independente e Agostinho Neto é proclamado seu primeiro presidente, continuando Comandante-em-Chefe das FAPLA e Presidente do MPLA. Neto alinha a MPLA ao bloco socialista e estabelece um regime mono-partidário, inspirado no modelo então praticado nos países do Leste Europeu. No que se refere à poesia de Agostinho Neto, suas obras apresentam imagens poéticas das vivências do homem angolano, abordando o passado, o presente e o futuro.

       Nos poema de Agostinho Neto o autor aborda o sofrimento que os angolanos passaram no período da colonização e a esperança de encontrar o sentido da vida. Além da necessidade de lutar, sonhar pela esperança da independência, lutando por uma nova Angola e reconquistar sua identidade. As obras de Agostinho Neto obtinham um reconhecimento esplêndido.

 

Poemas de Angola

      Publicado em edição brasileira, em 1976, pela Editora Codecri Limitada (Rio de Janeiro) na coleção Edições do Pasquim (quinto volume), o livro Poemas de Angola, de Agostinho Neto, segundo Airton Souza de Oliveira traz diversas questões que podem criticamente serem analisadas como elementos da literatura de testemunho. Desde o título, a obra demarca e aponta uma geografia, um espaço real e a marcação temporal do passado histórico colonial vivenciado por Angola.

    Poemas de Angola conta com a apresentação/prefácio escrita pelo escritor brasileiro Jorge Amado (Itabuna, 10 de agosto de 1912 — Salvador, 6 de agosto de 2001). No total, o livro possui 52 páginas, sendo que na última consta A história oral do mandato de prisão, expedido em nove de junho de 1960  pela (PIDE), delegação de Angola. Agostinho Neto categoriza, por meio de uma voz lírica, o testemunho de um espaço, nesse caso a geografia angolana, por isso mesmo o título Poemas de Angola. Ele utiliza uma estratégia discursiva e poética em que a rememoração do passado e a relação direta com o presente sintetizam a literatura de testemunho, ao passo que o ser africano, ora em um íntimo “eu”, ora em diversos personagens afetivos e simbolicamente “coletivos”, mantém relações intrínsecas com as representações simbólicas de uma literatura testemunhal.

    Por isso não é à toa que o livro Poemas de Angola inicie com um dos poemas mais emblemáticos de Agostinho Neto, intitulado Poesia Africana. Nesse poema, parte das dores, que o jugo do poder dos colonizadores produziu na África, está reverberando a cada verso, de maneira incessante. Alongando o tempo histórico e trazendo a poética de um horror por meio de uma voz, do chamado herói anônimo.

    Vejamos a estrofe inicial do poema: 276 OLIVEIRA, A. S. de. A literatura de testemunho na expressão poética do poeta Agostinho Neto:

 

Lá no horizonte

o fogo

e as silhuetas escuras dos imbondeiros

de braços erguidos.

No ar o cheiro do verde das palmeiras queimadas.

(Neto, 1976, p. 13).

 

versos que tu não entendes!

Compreendes a minha angústia?

 (Neto, 1976, p. 18).

 

       Airton Souza de Oliveira diz que:

“Dessa forma é que Agostinho Neto faz reverberar em sua expressão poética, especialmente no livro aqui analisado, Poemas de Angola, todo o testemunho de um passado histórico. Para tanto, o poeta reelabora forças líricas históricas e contestadoras. Entre as quais podemos destacar, pelo menos, duas condições primordiais de uma literatura de testemunho, que são, em primeiro lugar, as relações intrínsecas demarcadas pelo espaço geográfico e a temporalidade, ambas atreladas a uma determinada realidade histórica. Em segundo lugar, o trabalho estético e ético com a linguagem, aqui no caso dessa última, a literatura. A expressão poética presente no livro Poemas de Angola, de Agostinho Neto, marca os espaços geográficos e as experiências coletivas dos angolanos. A literatura de testemunho na expressão poética do poeta Agostinho Neto no período colonial, quando Angola encontrava-se na condição de colônia portuguesa, e convoca para o presente a esperança e a resistência, que concernem à literatura de testemunho. A força da poética desse livro e toda a sua relação com a literatura de testemunho é a representação de outras realidades, o enfrentamento como resistência, além de toda a implicação de grafar as manifestações de uma realidade histórica”.

A LITERATURA AFRICANA INSERIDA EM SALA DE AULA

       O currículo de Língua Portuguesa nos conteúdos de Letramento literário do 8º ano do ensino fundamental (4º bimestre) tem como objetivos:

“Conhecer e valorizar obras representativas da literatura africana, indígena e latino-americana, traduzidos para a Língua Portuguesa ou escritos originalmente nessa língua. Reconhecer a relevância da literatura portuguesa e africana como parte constitutiva do patrimônio cultural brasileiro (...). Reconhecer a importância de obras literárias nacionais para a formação da consciência e da identidade do povo brasileiro (...). Reconhecer discursos combativos em relação à condição de grupos objeto de discriminação, tais como o índio, a mulher, o negro, o imigrante, o homossexual, o idoso, o pobre, em contextos históricos e literários.”

 

     A história da cultura africana, sempre ocupou uma posição sucinta ou quase imperceptível na área educacional. A sua influência, apesar de ampla, nunca possuiu o valor devido. Com a promulgação da lei nº 10.639 no dia 09 de janeiro de 2003, que obrigam o ensino literatura africana em sala de aula, a lei salienta a importância da cultura negra na formação da sociedade brasileira, propondo novas diretrizes curriculares, no ensino Fundamental e Médio. Logo, inicia-se uma série de discussão e reflexão acerca do tema, possibilitando uma educação multicultural no âmbito educacional.

“Todos, a par de suas diferentes posições político-ideológicas, são unânimes em concordar que a característica marcante de nossa cultura é a riqueza de sua diversidade, resultado de nosso processo histórico-social e das dimensões continentais de nossa territorialidade”. (FERNANDES, 2005, p. 379)

  

    Nessa perspectiva, multiplicidade da cultura brasileira promove a ruptura do pensamento eurocentrista, trazendo para os alunos reflexões acerca da cultura africana, em que demostra uma visão multicultural, ou seja, a diversidade do país.  Porém, O ensino da cultura africana é complexo, pois, exige muita desenvoltura dos docentes para ultrapassarem as barreiras da resistência dos pais e alunos, contra o racismo dentro do âmbito educacional.

      Conforme esse viés, o ensino de literatura africana na escola, deve acorrer, primeiramente com discussão dos seus aspectos teórico-metodológicos, salientando a legislação destinada ao ensino da literatura africana. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB), entre outras e na Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio. Posteriormente, deve se pensar em propiciar a democratização do saber e a diversidade na abordagem dos gêneros discursivos em ambiente escolar, entendidos como heterogêneos. Ao interagir com os diferentes gêneros textuais e discursivos, nas aulas de língua portuguesa (LP).

    Dessa forma, faz-se indispensável que o docente propicie a formação crítica e reflexiva dos discentes, indo além do livro didático, trazendo para a sala de aula materiais e conteúdo que enalteçam a Literatura Africana em seu aspecto cultural e de formação da identidade do povo brasileiro, tendo o objetivo de tornar a sala de aula um ambiente de respeito às relações étnico-raciais.

 

PLANO DE AULA

     Como já foi mencionado anteriormente, este artigo aborda um plano de aula desenvolvido pelas autoras com o intuito de reconhecer a importância de trabalhar a literatura africana em sala de aula, a fim de explanar um ensino lúdico e efetivo. Portanto, dirigimos o plano de aula referido para o oitavo ano do ensino fundamental, o qual pode observar com riqueza de detalhes na planilha a seguir:

Disciplina

Língua Portuguesa

 

Ano

8º ano do ensino fundamental

 

Título da aula

A Literatura africana e a multiculturalidade no Brasil

 

Objetivos

-Refletir a respeito de como o professor de língua portuguesa precisa trabalhar a literatura africana em sala de aula, tendo como perspectiva um olhar sensível à multiculturalidade no Brasil;

-Analisar a influência africana no nosso cotidiano e sua importância; além de proporcionar aos alunos um conhecimento acerca da literatura estudada.

Recursos

-Para o desenvolvimento das aulas de literatura africana iremos utilizar recursos expositivos/audiovisuais como vídeos e imagens; poemas impressos e materiais de papelaria como cartolina; TNT; lápis piloto, etc. 

Duração das aulas

5 aulas de 45 minutos.

 

Metodologia

- Como mencionado acima, as aulas serão divididas em cinco momentos para que o desfecho seja proveitoso e produtivo.

- No 1º momento iremos nos conter a apresentar a literatura aos alunos. Assim, ao iniciar a aula faremos algumas perguntas-chave: O que é literatura africana? Como nasceu? O que a literatura africana tem a ver com a multiculturalidade do Brasil? Qual foi o seu contexto histórico e suas dificuldades para que se tornasse reconhecida? E minuciosamente ouviremos as respostas.

- Em seguida o professor irá responder cada pergunta citada acima através de um slide que facilitará a explicação.

- No 2º e 3º momento, quando os discentes estiverem seguros que compreenderam o contexto histórico da literatura africana, iremos apresentar o autor “Agostinho Neto” e sua obra “Poemas de Angola.” Para isso, levaremos poemas do escritor para fazermos uma leitura compartilhada e entender características da sua escrita. Além de analisar o que o autor traz em sua obra, qual sua perspectiva naquele momento e o que ele queria passar através de seus escritos. Por fim, o professor divide a turma em 5 grupos  e solicita trabalhos de diversos gêneros para a culminância dessa temática. Assim, o 1º grupo irá recitar o poema “Havemos de mudar” de Agostinho Neto. O 2º grupo ficará responsável pela elaboração de um cordel sobre a literatura estudada. O 3º produzirá uma paródia acerca da temática, o 4º irá apresentar um teatro sobre a vida dos angolanos naquele contexto analisado e por fim, o 5º grupo irá fazer uma personificação do autor. Logo após as instruções do docente, os alunos confeccionarão cartazes com poemas de Agostinho Neto e com imagens que fazem referência à África para a apresentação em classe.

-Ademais, no 4º e 5º encontro, os alunos chegam cedo à sala e junto com o professor irão decorar a sala com a temática trabalhada. Em seguida, cada grupo vai à frente e faz a sua apresentação, além de explicar a sua reflexão sobre o que a obra aborda e o que ela quer nos passar. E para finalizar o professor fará um comentário geral das apresentações.

Avaliação:

-Observação da participação em aula;

- A apresentação dos temas propostos.

Livro Didático utilizado:

 (livro disponível no ano referido)

Referências do livro

Didático:

 

 

Considerações Finais

       Diante das pesquisas feitas e da proposta apresentada, é possível detectar que é primordial o ensino de Literatura africana em sala de aula, desde o contexto histórico até a vasta diversificação de autores e obras que trazem grandes visões da África naquele momento. E cabe ao professor fazer com que sua aula de Literatura africana seja dinâmica, enriquecedora e atraente para seus alunos. Trazendo reflexões não apenas para o ambiente de avaliação, mas para a vida em sociedade, para que o preconceito seja cada dia erradicado do País. Pois a Literatura africana exerce até os dias atuais importante papel para a literatura de uma forma geral, que influenciou e foi influenciado por autores brasileiros como Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Jorge Amado. O professor precisa conhecer o seu público-alvo e elaborar estratégias para que esse ensino seja eficaz e reflexivo.

 

Referências

Disponível em<https://pt.wikipedia.org/wiki/AgostinhoNeto>Acesso em 02 de Março de 2021.

FERNANDES, José Ricardo Oriá. Ensino de História e Diversidade Cultural: Desafios e Possibilidades. Cad. Cedes, Campinas, vol. 25, n. 67, p. 378-388, set./dez. 2005.

Oliveira, Airton Souza de. A literatura de testemunho na expressão poética do poeta Agostinho Neto. 1- 19 p. 04 maio 2019.

Disponível em<https://en.wikipedia.org/wiki/Agostinho_Neto>Acesso em 02 de Março de 2021.

 

 

LITERATURA AFRICANA E LÍNGUA PORTUGUESA: UMA PROPOSTA DE ENSINO COM A OBRA “TERRA SONÂMBULA” DE MIA COUTO

 

Alberto César Simplício1

Giuliana Nunes Barbosa2

Inês Gabriela Oliveira Valença3

Tamara de Góis da Silva[19]4

 

 

 

A guerra mostra que somos resistentes ao que podem pensar os militares.

Mia Couto

 

  1. INTRODUÇÃO

 

O romance, onde Mia Couto utiliza das diversas vezes de duas personagens para contar a história de seu povo, possui muita carga de saberes acumulados através de sua experiência histórica e vivida, tem muita variedade linguística, ou seja, visto que a língua falada tem muito poder sobre as pessoas, o autor utiliza disso para passar, de forma imaginativa, seus recursos linguísticos.

A cultura africana é extremamente vasta e diversificada, possui muitas riquezas imateriais que perpassam quaisquer que sejam as influências externas, pois também tem uma variedade de etnias grande devido aos povos do Oriente Médio e europeus. Aspectos importantes a serem abordados são as influências desses povos à nossa cultura, tais como: culinária, dança, música etc. A África é muito rica culturalmente, dentre os povos do norte, por exemplo, destacam-se hábitos e costumes islâmicos, como o uso de véu e um modelo familiar patriarcal, enquanto os povos do Sul possuem uma cultura mais diversificada.

 Os povos africanos também desenvolveram várias artes ligadas às suas religiões, por exemplo, artefatos, máscaras, estátuas, a maioria esculpidas em madeira, pedras ou feitas de tecidos, geralmente representando suas divindades. A música e a dança também fazem parte das culturas tribais africanas, tem instrumentos de percussão predominantes e também possuem viés religioso. Os negros africanos tem em sua bagagem muitas crenças, porém, durante muito tempo, era proibido cultuar sua religião, encontraram no sincretismo com o catolicismo uma maneira de preservarem suas traduções. Algumas das principais religiões afro-brasileiras são o candomblé e a umbanda, onde cultuam orixás e divindades das nações africanas. 

A Guerra Civil moçambicana é uma temática difícil de ser estudada e abordada, principalmente, por ser um assunto relativamente recente e que mexe emocionalmente com as pessoas, visto que os números do ocorrido são absurdamente grandes: pessoas desumanizadas, mortas e esquecidas por muitos após a anistia. O autor reforça essa ideia em uma de suas entrevistas:

 

 

"Tudo se modifica quando estamos a viver uma guerra. Há um processo de desumanização que atinge o outro, mas também nos atinge. Ninguém fica imune, ileso, nesse processo todo. Para autorizar a violência, eu tenho que desumanizar o outro, porque, se eu o reconheço como humano, eu tenho um bloqueio na minha violência. O outro deve ser convertido numa coisa, num rato, num monstro. Mas esse processo é uma faca de dois gumes: eu também me desumanizo para me legitimar como autor de violência." (Entrevista para LeMonde Diplomatique Brasil)

 

 

A Lei 10.639/03, sancionada em 9 de janeiro de 2003, assegura a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-brasileira nos níveis fundamental e médio da educação básica – em instituições públicas e privadas –  nas disciplinas de Educação Artística, Literatura e História Brasileira. “Os conteúdos programáticos estabelecidos na lei incluem o estudo da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, o resgate da contribuição do povo negro nas áreas sociais, econômicas e políticas pertinentes a história do Brasil”. Essa lei representa, enquanto política governamental, um grande passo no combate ao racismo e à discriminação étnica no país: “No Brasil, a importância da África reafirma-se em políticas governamentais de inclusão social, no reconhecimento das raízes africanas de nossa multiculturalidade e da contribuição da África à constituição do Brasil” (MACEDO; MAQUÊA, 2004, p.10), apesar de movimentos propagarem uma diminuição ou mesmo negarem a existência do racismo no Brasil, a discriminação, a intolerância e o preconceito seguem crescentes na sociedade, camuflando-se e propagando-se um pouco mais a cada dia. Em resposta a isto, a lei 10.639/03 visa a ampliação do conhecimento dos alunos acerca da cultura e história dos povos negros/ africanos, bem como a valorização desses povos de importância crucial para a formação sócio-histórico-cultural dos brasileiros.

A literatura africana surgiu através de um movimento chamado negritude, foi quando ocorreu a primeira leva dos escritores que participaram do Congresso de Escritores da África em 1956. Os escritos possuíam, principalmente, aspectos de caráter anticolonialistas. Devido às diversas formas de sofrimento passadas pelas pessoas na época, a literatura africana traz um reflexo dessa realidade, ou seja, a principal inspiração é sua própria terra e cultura. As vozes que representam o cenário literário africano na contemporaneidade fortalecem a luta travada no início, onde as guerras eram frequentes. Os escritores dessa nova poética inserem em suas poesias aspectos muito característicos verbais de seus povos, logo, possuem lirismo com marcas próprias. A poesia faz circular saberes.

Dessa forma, chegamos às Mia Couto e sua obra: Terra Sonâmbula. O título da obra faz referência à instabilidade do país e, portanto, à falta de descanso da terra que permanece “sonâmbula". Logo, o fio que conduz a obra é a perda de memória coletiva sobre as tradições destruídas após a independência do país.

  1. O AUTOR

 

O escritor Antônio Emílio Leite Couto, conhecido como Mia couto, é escritor, poeta, e jornalista moçambicano, nasceu no ano de 1955, desde muito novo, Mia Couto já escrevia e aos 14 anos publicou seus primeiros poemas, sendo um dos autores mais traduzidos para o exterior, ganhou diversos prêmios dentre eles o prêmio de camões no ano de 2013, vale ressaltar que Couto é o único escritor Africano que foi membro da academia de Letras, possuindo a 5° cadeira. Tendo uma trajetória excepcional, se destacou por abordar em suas obras as tradições ocidentais e tradições orais, usando a escrita como porta para mostrar a cultura moçambicana, as lutas. A ficção coutiana traz, antes de qualquer coisa, os conflitos humanos, dando voz aos sentimentos mais reais, das realidades mais duras, mostrando suas raízes. Usando o espaço, o tempo, a cultura, a linguagem, juntos no mesmo lugar, na mesma narrativa.

“Sou um escritor africano de raça branca. Este seria o primeiro braço de uma apresentação de mim mesmo. Escolho estas condições — a de africano e a de descendente de europeus — para definir logo á partida a condição de potencial conflito de culturas que Transportam (...) como outros brancos nascidos e criados em África, sou um ser de fronteira. Para melhor sublinhar minha condição periférica, eu deveria acrescentar: sou um escritor africano, branco e de língua portuguesa. Porque o idioma estabelece o território referencial de mestiçagem, o lugar de reinvenção de mim. necessito inscrever na língua de meu lado português a marca da minha individualidade africana: Necessito tecer um tecido africano, mas só o sei fazer usando panos e linhas europeias.” (COUTO, Mia, “O Gato e O Novelo”, Entrevista a José E. Agualusa. JL, Lisboa, 8/10/1997. p.59)

 

            A violência que o colonizador português trouxe para as terras moçambicanas é o tema mais abordado por Mia couto, esse processo foi marcado por um caos e uma desumanidade sem tamanho, isso pode ser identificado facilmente em suas obras, remetendo assim um resgate de valores e uma valorização dessas vidas, sua postura política fortemente representada em suas linhas, levando em consideração a guerra de 1977 que levou a morte de milhares de moçambicanos, levando em consideração que a expectativa de vida era de apenas 41 anos, isso reflete muito bem o cenário que existia, em Moçambique.

            O neologismo é muito presente em suas obras, sendo considerado o ser do neologismo, Mia Couto explora essa grande variação em dialetos, assim como Guimarães Rosa, ele cria seus próprios dialetos, como: Abensonhadas e brinquiações. Ele põe em suas obras um encantamento, situações fora do comum, que não podem ser explicados racionalmente, cria assim uma fantasia, porém uma fantasia que se mistura com as lutas, com a guerra, com a religiosidade e é isso que torna os escritos de Mia Couto, únicos, a junção da realidade dura com a fantasia do sonhar, dentre as inúmeras narrativas ressaltamos Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2005) e A varanda do frangipani (1996), aqui Couto procura com suas palavras trazer as tradições de Moçambique, o direito de viver essas tradições sagradas que lhes foram retiradas pelo colonizador, Vinte e zinco (1999), essa narrativa aborda uma ação política que traz as barbaridades de uma colonização totalmente sangrenta e bárbara, entretanto não podemos esquecer Terra sonâmbula (1995), através dos cadernos de Kindzu e seu diálogo constante com as histórias do velho Muidinga, girando em torno do drama do machimbombo queimado. E é sobre esta última obra citada que iremos fazer uma breve análise.

            Terra sonâmbula foi publicada em 1992 e é considerada uma das maiores obras Africanas do século XX, fazendo um apanhado em volta da guerra civil de 1977- 1992. Foi seu primeiro romance, escrito em prosa e ganhou inúmeros prêmios. Terra Sonâmbula traz além da religiosidade fortemente representada, a relação de vida e morte como base durante toda a narrativa, sendo assim algo inerente ao homem.

 

  1. GUERRA CIVIL MOÇAMBICANA (1977-1992)

 

Moçambique se tornou um estado independente em 25 de junho de 1975. O conflito foi marcado pelos combates entre o governo da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e a Resistência Nacional de Moçambique (Renamo). A Renamo, que virou o principal partido de oposição, voltou às armas em 2013 para denunciar o controle do país pela Frelimo, no poder sem interrupção desde a independência.

O governo da Frelimo (Frente de libertação de Moçambique), um partido político,  apoiou o movimento de libertação da Rodésia  (Estado não reconhecido), lhe permitindo a utilização de bases no território Moçambicano, seu objetivo era construir um estado moderno de feições marxistas que batia de frente com a organização tradicional da sociedade Moçambicana. A Rodésia, então, armou e treinou a Renamo (resistência nacional moçambicana). Quando terminou a luta na Rodésia, a África do Sul a substituiu, passando Pretória (capital da áfrica do sul) a apoiar a Renamo.

            A guerra civil seguiu durante quinze anos e devastou a economia, a infraestrutura e a organização social de Moçambique, ou seja, sofreu uma escalada e o conflito tornou- se extremamente brutal.

Sistemas de saúde e educação entraram em colapso, diversas regiões de produção agrícola simplesmente desapareceram, foram executadas pela FRELIMO, além da grande seca que ocorreu em meados da década que provocou uma terrível fome. Em 1990 tinha morrido um milhão de pessoas, cerca de um milhão e meio tinham ido embora dos campos, e mais ou menos 5 milhões tinham deixado o país. Tanto a Frelimo quanto a Renamo foram acusadas de violações generalizadas de direitos humanos e das leis da guerra. Massacres de comunidades inteiras vistas como corretas e necessárias aos inimigos eram algo comum.

Após isso, os soviéticos, que passavam por uma teia de problemas devido a guerra fria, já não teria mais interesse em apoiar a Frelimo. Desprovidos de seus patronos internacionais, os movimentos iniciaram conversações de paz que resultaram nos Acordos de paz, que em 1992 encerraram a guerra civil de Moçambique. A força de paz da ONU foi colocada no terreno e pôs-se em marcha um programa de repatriação e restabelecimento dos refugiados.

Nesse mesmo ano Mia Couto lançaria o romance no qual o conflito que devastou seu país ocuparia papel central na narrativa: Terra Sonâmbula.

3.1 Terra Sonâmbula: o reflexo de uma nação

Mia Couto, escritor do livro “Terra Sonâmbula” representa uma das melhores literaturas de Língua Portuguesa. O livro ainda se destaca como sendo o romance de estreia do escritor e um dos mais aclamados de sua trajetória. A sua linguagem é tratada de forma poética, podendo fazer assim uma ponte entre duas vertentes: sonho e guerra.

Contextualizando sobre a guerra, a pelo menos 200 anos acontecem guerras ininterruptas no continente africano. Guerras coloniais, civis, massacres, de independência etc. Muito se fala das guerras que existem em outros países/continentes (oriente médio é uma prova disso), mas esses outros ainda recebem uma certa atenção da imprensa mundial. É difícil ouvir falar de guerras africanas. Desprezo! Alguns historiadores falam que, isso tudo acontece no continente africano, se deve por conta da colonização europeia, que foi dividida por nações europeias.

O modelo de colonização foi o mais perverso e o mais extrativista. Diferente do país em que vivemos, sendo independentes a 200 anos, a maioria dos pais africanos se tornaram independentes à 50, 60, 70 anos atrás, através de muita luta e muito derramamento de sangue. Moçambique passou mais de 10 anos lutando contra Portugal para conseguir sua independência em 1975. Logo após, grupos políticos locais começaram a disputar o poder dando início a uma guerra civil que durou 15 anos. Nesse período, Mia Couto viu e viveu tudo de perto. Mais de 1.000.000,00 de pessoas morreram, estima-se. Não apenas em combate, mas principalmente de fome. Em 1992, ano em que a guerra terminou, Mia Couto publicou o livro Terra Sonâmbula, que é dividido em 11 capítulos, com o contexto que estava vivendo. O livro fala de como fica um país depois de um longo período de guerras e sobre como fica o povo com raízes antigas. Mia Couto não transparece o horror e o caos daquele momento, usando mais de metáforas. A mais pertinente é a metáfora dos sonhos. Para Mia, é como se Moçambique durante a guerra fosse um país sonâmbulo, como se o país tivesse preso em um sonho ruim.

Mia Couto acrescenta um toque de fantasia e surrealismo poético no romance, mesclando a realidade com a fantasia. Ora é narrado em terceira pessoa, ora em primeira. Personagens em crise identitária, os quais transparecem uma transgressão em seus sentidos, sentimentos e memória, precedentes à guerra, desenham os sonhos construídos em meio a todo o caos que está sendo vivido.

A história se passa em Moçambique, após sua independência e, em plena guerra civil, quando o velho Tuahir e o “miúdo” Muidinga tornam-se companheiros de viagem, fugitivos das atrocidades do tempo presente. As guerrilhas haviam lhes destruído a base material da existência e sua teia de relações familiares e sociais. Encontrar os verdadeiros pais de Muidinga, que foi recolhido por Tuahir num campo de refugiados, é o objetivo da viagem. Todo o fundo da história é Moçambique, destroçado pela guerra pós-colonial, e a trama se passa, na maior parte, à beira da estrada, e é nela que eles encontram um machimbombo cheio de corpos carbonizados e uma misteriosa mala ao lado de um cadáver. Dentro dela são encontrados cadernos que contam a história de Kindzu, o morto em questão. Esses manuscritos, recheados de histórias, ancoradas na cultura da África, informes dos horrores de um conflito, é o que mantém o velho e o menino vivos. Com efeito, as palavras de Kindzu lançam raízes e plantam, no pequeno Muidinga, a memória de um passado que lhe falta e desabrocham, no velho Tuahir, sua capacidade de sonhar. O menino não se recorda de sua infância, não se lembra de nada. É como se sua vida começasse depois do encontro com Tuahir, que o recolheu quando, à beira da morte, ia sendo enterrado. Uma doença deixou-o sem memória e Tuahir “teve que lhe ensinar todos os inícios: andar, falar, pensar” (COUTO, 1992, p.4).

As duas histórias passam, então, a ser narradas paralelamente durante toda a obra. As histórias de Muidinga e de Kindzu se encontram e se misturam, da mesma forma que a história e a ficção. A narrativa mostra-se muito enraizada às origens locais, pois apresenta o vocabulário, a cultura, as angústias e as alegrias de Moçambique nesse difícil período, além de ilustrar, nas identidades das personagens, a força que a guerra tem na destruição.

No desfecho da história, há o encontro do passado desmemoriado e o presente a ser (re)construído, a tradição que é semeada no futuro. Nasce, junto com Muidinga, a esperança de um tempo, uma redescoberta identitária que havia sido perdida, o “miúdo” renasce ao descobrir a si mesmo. Mia Couto mostra que a sabedoria do passado pode ser semente do futuro se lançada em um terreno fértil, perpetuando uma identidade cultural.

 

3.2 Representação da Guerra Civil na obra

            Terra Sonâmbula foi publicado em 1992, coincidentemente, no ano em que a guerra civil moçambicana foi encerrada e o acordo de paz assinado.

            O romance divide-se entre duas narrativas que se inter-relacionam com o real e o mágico, onde encontraremos saberes tradicionalistas, lendas e mitos locais, entretanto, o pano de fundo que desenrola a narrativa é bem real: a guerra civil que assolou o país que conduz os dois personagens, Tuahir e Muidinga a se esconderem em um ônibus carbonizado e Kindzu a abandonar sua vila e partir em busca de guerreiros naparamas. Os dois personagens encontram uma mala ao lado de um corpo, onde estão os cadernos de Kindzu. A história dele começa no dia 25 de junho, na independência nacional, dia do nascimento do seu irmão Junhito (homenagem à emancipação política do país). Junhito acaba sendo uma personificação da nova nação, mal havia nascido e já era assombrado pelos presságios do seu pai, que o agoura dizendo que irá morrer em breve. O pai, segundo ele, "sofria de sonhos”.

            Kindzu, aterrorizado, foge de sua aldeia em busca de guerreiros naparamas que supostamente teriam o poder de defender o seu povo do conflito:

 

"Naparama? Nunca eu tinha ouvido falar em gente dessa. Surendra (Amigo de kindzu. Um único comerciante ficara na vila)  me explicou vagamente. Eram guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que lutavam contra os fazedores da guerra. Nas terras do Norte eles tinham trazido a paz. Combatiam com lanças, zagaias, arcos. Nenhum tiro lhes incomodava, eles estavam blindados, protegidos contra balas."

 

Notamos nesse trecho uma metáfora, aspecto muito presente na obra. Naparamas seriam guerreiros com poderes mágicos, representando a esperança e a solução para os problemas. Eram seres invulneráveis a balas, o que retrata o anseio de derrotar as mazelas do mundo moderno utilizando raízes ancestrais.

Enquanto isso, Tuahir e Muidinga continuam nas redondezas do ônibus, até cair em uma armadilha e serem resgatados por Siqueleto, a mesma pessoa que havia armado. Muidinga reclama por não ter sido recebido da mesma forma que antes, e é replicado por: "de fato, não é assim de maneira de nossa raça. Antigamente quem chegava era em bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos dedos." (p.67).

O trecho dá ênfase à extensão do dano psicológico e físico que o conflito causou na sociedade, destruiu os costumes e a confiança. Essa destruição da organização social que existia antes da guerra é uma temática muito frequente na narrativa.

Com o decorrer da narrativa, Kindzu retorna à Matimati e se depara com a normalização do conflito: a guerra já se prolongava a tanto tempo que havia se tornado uma parte da vida das pessoas, que agiam com aceitação passiva como se fizesse parte do ciclo de natureza, algo que não poderia ser mudado. Em contraponto a isto, Tuahir tem uma reflexão nostálgica quando relembra seu trabalho numa estação de trem nos tempos de paz, ou seja, ao contrário dos outros habitantes, ele lembra dos tempos de paz e alimenta sua esperança de dias tranquilos novamente. São poucas as passagens da obra na qual um personagem manifesta esperança de um futuro pacífico.

No final da narrativa, há um retorno ao início: o ônibus carbonizado onde Muidinga encontra os escritos de Kindzu, enquanto sonha com um futuro que estaria prestes a viver. Kindzu é levado pela estrada e encontra Muidinga com seus cadernos na mão. Há muitas idas e vindas temporais na obra, com o propósito de descrever a fase cíclica da guerra civil; pausas, recomeços, tréguas, intensificações… A literatura está também direcionada para o presente e o futuro. São espaços onde o autor coloca suas expectativas, cria saberes e estabelece uma visão de mundo a partir de sua posição na sociedade. A guerra civil mudou a sociedade e toda a estrutura de pensamento sobre a nação, sobre a identidade nacional. Essa mudança foi percebida e representada pela literatura da época. Embora o livro esteja nessa linha entre sonho e realidade, onde a guerra e os conflitos predominam, há também a esperança que num mundo de sonhos a guerra acabe e a terra entre em um novo futuro.

 

PROPOSTA DE ENSINO

A proposta sugerida no presente trabalho tem o intuito de oportunizar uma metodologia dinâmica para trabalhar, na disciplina de Literatura, Literaturas africanas de Língua Portuguesa e sua importância. Tem por objetivo central a apresentação do conteúdo e a compreensão efetiva do aluno acerca da importância social/cultural do ensino aprendizagem do mesmo. Ademais, compreende-se que levar a Literatura africana de Língua Portuguesa para a sala e aula é, e certa maneira, um abrir portas para a formação de um aluno mais consciente e tolerante, que compreende, respeita e valoriza a história e a cultura dos povos negros/africanos.

Segue a proposta de ensino:

 

PLANO DE AULA

DISCIPLINA: LITERATURA

Tema: Literatura africana de língua portuguesa: Uma proposta de ensino com a obra “Terra Sonâmbula”, de Mia Couto.

Turma: 1° ano – Ensino Médio

Tempo de duração: Duas aulas de 50 minutos cada.

Objetivos:

 

Conhecer África, sua cultura e costumes;

Conhecer a lei 10. 639/2003 e compreender a importância de sua aplicação no ambiente escolar;

Apreender o que é a literatura africana de língua portuguesa, conhecer seus

principais representantes e perceber sua importância.

Conteúdo:

 

            Introdução à África: aspectos gerais, cultura e religião;

            Lei 10.639/2003: o que dita, sua importância;

            Literatura africana de Língua Portuguesa: o que é, principais representantes, exemplos de obras;

            Apresentação da obra a ser trabalhada: “Terra sonâmbula” – Mia Couto

Metodologia:

 

Aula expositiva com o desenvolvimento de mostra sobre as temáticas apontadas. Proposta de leitura da obra “Terra sonâmbula” – Mia Couto, para desenvolvimento de atividades posteriores.

Recursos didáticos:

 

Projetor Multimídia; Material impresso para mostra das obras literárias; Livro (impresso/digital) “Terra sonâmbula" do autor Mia Couto

 

 

PLANO DE AULA

DISCIPLINA: LITERATURA

Tema: Literatura africana de língua portuguesa: Uma proposta de ensino com a obra “Terra Sonâmbula”, de Mia Couto.

Turma: 1° ano – Ensino Médio

Tempo de duração: Duas aulas de 50 minutos cada.

Objetivos:

 

            Refletir sobre a obra “Terra sonâmbula” de Mia Couto;

            Analisar, de maneira comparativa, recortes do filme “Terra sonâmbula”, baseado na obra de Mia Couto.

Conteúdo:

 

            “Terra sonâmbula”: contexto sociocultural;

            Conhecendo o autor: Mia Couto – Vida, obra e curiosidades;

            Reflexão acerca da obra: aspectos estruturais, personagens e enredo;

            Análise comparativa filme/livro “Terra sonâmbula”.

Metodologia:

 

Aula expositiva com a realização de debates/reflexões acerca da obra estudada e desenvolvimento de atividade lúdico-pedagógica visando à avaliação da leitura/compreensão da mesma.

 

Avaliação:

 

            Proposta 1 = Dominó pedagógico – Tipos de sujeito: Separados em grupos de 4 participantes, os alunos deverão receber um dominó e jogar combinando corretamente os tipos de sujeito com os termos destacados nas orações das peças;

            Proposta 2 = Competição Quiz: Dividido em 2 grandes grupos, ou 4 grupos

menores, os alunos deverão responder à perguntas de um quiz, elaborado pelo

professor (a), com questões sobre o conteúdo explanado (cada aluno deve responder ao menos 1 questão). Vence a equipe que, ao final, possuir o maior número de acertos.

Recursos didáticos:

 

Projetor Multimídia; Livro (impresso/digital) “Terra sonambula” do autor Mia Couto.

 

REFERÊNCIAS

COUTO, Mia. Terra sonâmbula. 2 ed. Portugal: Caminho Editorial, 1996.

DE O. IVO, Angélica; ALMEIDA , Marinei. Artigo. Literatura Africana de Língua Portuguesa no Ensino Médio: Mobilizando Memórias em Comum, UNEMAT, ano 2016, v. 09, n. 01, p. 13, jul. 2016.

MACEDO, Tânia; Maquêda, Vera. Literaturas de língua portuguesa: marcos e marcas. São Paulo: Arte & Ciência, 2007.

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003.

OSTES, Paulo roberto Machado. Entre margens: o espaço e o tempo na escrita de Mia Couto. Universidade Federal de Juiz de Fora. Juiz de Fora, 2007.

Diversidade [recurso eletrônico] : diferentes, não desiguais 2 / Organizadora Denise Pereira. – Ponta Grossa (PR): Atena Editora,2019. – (Diversidade: Diferentes, Não Desiguais; v.2)

PARA CONHECER a literatura africana. Carta Capital, 6 mar. 2014. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/opiniao/paraconheceraliteraturaafricana/. Acesso em: 20 mar. 2021.

O CAMINHO de Moçambique, da guerra civil a uma paz ainda frágil. In: O caminho de Moçambique, da guerra civil a uma paz ainda frágil. ESTADO DE MINAS Internacional, 2 set.    2019.   Disponível       em: https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2019/09/02/interna_internacional,1081795/ o-caminho-de-mocambique-da-guerra-civil-a-uma-paz-ainda-fragil.shtml.

 

 

 

TRABALHANDO COM O CONTO: LUANDA ASSIM, NOSSA

Emanuela Ferreira da Rocha1
                                 Gabriele de Melo Cordeiro2
[20]

 

PLANO DE AULA

   Inicialmente, será levado para os alunos um pouco sobre o contexto histórico da literatura africana por meio de slides, buscando refletir sobre a importância e como ela é contemplada no livro didático de Língua portuguesa. Em seguida, será apresentado o conto a ser trabalhado “Luanda assim, nossa", fazendo também um breve resumo sobre a obra "O Cão e os Caluandas" na qual o conto está presente. Após a leitura do conto, serão trazidas algumas informações sobre o autor, ressaltando a sua importância na literatura africana.

   No segundo momento, será feito uma reflexão sobre a obra e os personagens através de um debate, para que os alunos interajam manifestando sua compreensão a respeito do conto.

   Ao final será solicitada como forma de avaliação, a produção de um texto discursivo-argumentativo com o respectivo tema: O que a chegada da pandemia dispertou na sócio-política brasileira, onde os alunos terão que fazer uma alusão com o conto trabalhado. A fim de ter uma melhor percepção sobre a compreensão adquirida e a visão que eles têm sobre o momento crítico que a sociedade brasileira está enfrentando, dessa forma será trabalhado tanto o aspecto da interpretação quanto o da crítica através da produção textual.

A LITERATURA AFRICANA NO CONTEXTO ESCOLAR

          A literatura africana traz em si histórias de luta, de vida, de cultura de um povo que por muito tempo foi escravizado por seus colonizadores europeus, mostrando o quão cruel e traumático foi esse período.

          Através da literatura africana o povo foi ganhando vez e voz e ganhando mais firmeza e confiança para assim lutar pelos seus direitos, ter orgulho de sua identidade, regressar às suas origens, resistir aos seus colonizadores que impunham sua cultura.

Negritude, foi um movimento que deu nome a um “movimento artístico” que, juntando escritores africanos, prezava por valorizar, reconhecer e divulgar a cultura negra em países africanos ou afrodescendentes. Eles traziam uma ideologia de valorização e aceitação, da cultura e combate ao preconceito.

Como resultado dos movimentos de Negritude da cultura e combate ao preconceito, uma das conquista seguintes foi a aprovação da Lei 10. 639/03, que torna determinado o ensino da história e cultura africana nas escolas brasileiras.

 A literatura é como um bem cultural que contribui para o desenvolvimento da educação, além, de proporcionar o achegamento aos diferentes conhecimentos sobre a cultura de povos e lugares desconhecidos, seja por meio do universo irreal ou real.

          É comum nas escolas estudarmos Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, mas infelizmente uma das mais ricas das literaturas é pouco vista nos livros didáticos, que é a Literatura Africana.

          Sabemos que, é com a ajuda dos livros didáticos que os professores seguem e propõem conteúdos dos que são propostos a ele, pela escola, um planejamento anual ou bimestral.

          Os alunos começam a ter contato com o estudo da Literatura em si, no Ensino Médio, através de textos, fragmentos, autores que “pertencem” a determinados período literário presentes nos livros didáticos. Mas, na maioria das vezes o ensino segue sempre a mesma abordagem, que é como já dito, o processo de didatizar a História da Literatura de Portugal e a Brasileira.

          Não são apenas os livros de literatura paradidática ou infantojuvenil ajudarão a construir (ou descontruir) uma visão histórica do continente africano. Mas a literatura se mostra, cada vez mais, como importante ferramenta para construir e descobrir novos valores.

          Alguns autores como Mia Couto, Pepetela, Ondjaki, vêm sendo cada vez mais lidos e estudados nas escolas brasileiras. Estes, africanos, apresentam outra África, transmitindo a atmosfera dos países e cidades onde se passam as histórias de seus livros, sem generalizações ou estereótipos.

 

PEPETELA

          O escritor Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido pelo pseudônimo de Pepetela nasceu no dia 29 de outubro de 1941, em Benguela na Angola. Formou-se em Sociologia e militou junto com o MPLA (movimento popular para a libertação de Angola) no ano de 1963, a fim de conquistar a independência de sua terra.

          Em 1975, com a independência da Angola, foi nomeado Vice ministro da Educação no governo de Agostinho Neto; em 1993, ele ganhou ganhou o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte; em 1997, foi o primeiro escritor angolano a ganhar o Prêmio Camões, pelo conjunto de sua obra, um dos mais importantes prêmios da literatura mundial.

   Atualmente ele é professor de sociologia em uma faculdade de Arquitetura de Luanda, que é onde ele mora.

CARACTERÍSTICAS DE SUAS OBRAS

          Em suas obras, Pepetela busca representar e reinterpretar a história do povo angolano por meio da ficção, da mesma maneira que Mia Couto e Luandino Vieira também fizeram.

           É possível observar nas narrativas, a presença da ancestralidade; a realidade do povo; a oralidade, sobretudo dos mais velhos, figuras que resgatam mitos; e a natureza como meio para compreender o mundo.

          Segundo críticos, é atribuída a característica de "escrita da nação" à obra de Pepetela, que nada mais é que uma construção narrativa que desconstrói o discurso original para construir uma memória geral, recriando Angola através da ficção.

UM POUCO SOBRE A OBRA: O CÃO E OS CALUANDAS

  A obra "O Cão e os Caluandas" de Pepetela onde o conto "Luanda assim, nossa" está situado, traz um conjunto de relatos onde o cão é a peça principal, durante a narrativa as andanças do mesmo irá provocar sentimentos de desconfiança e receio nos personagens. Os relatos reunidos no livro vão falar sobre o período pré independência e pós independência em Angola.

    Durante toda a obra, o autor evidencia no seu discurso as influências do colonialismo na sociedade luandense, no ponto de vista da Angola de um passado rejeitável e de um presente que rompa definitivamente com o período da colonização.

    Os personagens defendem os benefícios da independência, como: a abolição das classes sociais, os direitos adquiridos por parte dos caluandas, a noção de propriedade e a luta por ela, a consciência sobre a exploração capitalista do tempo do colono e exigência de que a classe operária fosse superior.

     No entanto, todos estes benefícios sociais são expressos apenas pelos personagens. O autor vai desconstruir de forma discreta e irônica, o discurso dos personagens em oposição com a realidade angolana da época. Fazendo assim, várias referências a Marx, enfatizando os personagens na luta contra a exploração, a preferência pelo plebeísmo (linguagem informal). Porém, é visível que o período pós-independência, são tempos de corrupção.

    Pepetela, não se limita em levar a realidade para a ficção apenas, ele faz uma crítica social, realizada através da ironia e da sátira.

“LUANDA ASSIM, NOSSA”

O conto de Pepetela intitulado "Luanda assim, nossa" trata de dois grupos étnicos, onde um cão é a peça central no decorrer de toda a história. O relato acontece no período pós-independência da Angola, momento em que se passava pelo processo de reconstrução social.

Após o aparecimento do cão resurge o ódio e o rancor de um grupo contra o outro. O narrador, Catetense, relembra com rancor dos malanjinos, ao contar que seu amigo Malaquias abrigou o cão em sua casa. A briga por conta do aparecimento do cão traz à tona o passado e o ódio que sente do outro grupo. O título "Luanda assim, nossa" é de fato uma ironia diante do relato, onde a presença do cão faz saltar aos olhos a existência do conflito étnico, da Luanda dividida.

"A maka foi fruto de ressentimentos antigos deles que ainda hoje estão vivos; malanjinos escondem, mas esperam a desforra. Digo-lhe, deixem os malanjinos tentar levantar a cabeça que lha cortamos de vez. Depois da maka acabar, ficamos amigos. É a única exceção que faço, é o Malaquias. Porque em minha casa nem cão, nem gato, nem malanjino".(p.36).

    No relato, o cão representa uma alerta ou a presença real de uma guerra ou então da colonização, mas uma colonização com outra roupagem, de forma mascarada a hierarquia dos cargos públicos e a burocratização dos serviços e como face o sistema Econômico Mundial.

      Apesar de a liberdade ter chegado na Angola, ninguém se sentia livre de verdade. Era perceptível que mesmo com o colonizador português expulso, ainda havia outro colonizador, agora em nível mundial -- O sistema Econômico que gera colonizadores e colonizados. Essa colonização se perpetua pela disputa de poder por parte de facções étnicas que foram estrategicamente promovidas pelos portugueses durante a colonização e por uma acomodação do povo, pois estavam iludidos pensando que a maior libertação do povo angolano seria a expulsão dos portugueses.

Após a independência, a desumanização se enraizou de maneira tão forte em alguns setores da sociedade angolana, que muitos oprimidos interpretaram a independência como justificativa para se tornarem opressores. São os efeitos que a colonização dos portugueses havia deixado uma visão de mundo onde não se pode haver outro tipo de relação a não ser o de colonizador-colonizado.

 Depois de citar vários grupos que viviam em Luanda, inclusive os malanjinos, mulatos entre outros, o narrador descreve a cidade de forma caótica:

“Isto é uma Babilônia ingovernável, uma Torre de Babel. Os esgotos não funcionam, as ruas parecem queijos, as árvores imitam as ovelhas da Europa, tosquiadas rentes, os ratos confundem-se com coelhos, os passeios sujos, os prédios a feder de podres, a luz elétrica sempre com falhas, os jardins mortos”. (p.36).

Em seguida, o Catetense questiona de quem seria a culpa, o fato da cidade estar naquela situação, e ainda assim responde que o problema, está na diversidade da população, que para ele, é uma grande confusão, ou melhor, “o drama todo”.

“Se me deixassem, expulsava daqui todos os não-genuínos, todos, esses é que empestam a cidade. Ia ver que num mês Luanda era uma cidade orgulho nosso”. (p.36).

Como visto anteriormente, o narrador atribuiu à desordem da cidade de Angola, a diversidade do povoamento. Visto que, a diversidade costumava ser destruída pela sociedade a favor de alguma ordem definitiva, a favor de uma “Luanda cidade orgulho nosso”, na incerteza desse termo. A presença do cão que trouxe o “caos”, no momento em que o passado veio à tona pela memória de cada um dos que a relataram, nas lembranças e esquecimentos que construíram uma memória de Luanda.

      Ademais, o narrador cita uma frase do capitalista e comunista Karl Marx, como fruto de sua ignorância, a citação é verbalizada de maneira fortemente irônica a fim de justificar o mais terrível egoísmo capitalista que havia dentro de si e o ranço racista que carregava o narrador do conto.

“-- Marx disse: primeiro a barriga, depois as ideias e os sentimentos. Malaquias abanou só a cabeça, não respondeu. Ficou esmagado com a citação do ídolo, tinha o retrato desse branco judeu na sala de visitas." (p.37).

"- Filho de cão racista é racista. Esse cão tem o vírus do ódio ao negro, da desconfiança ao mulato, do respeito ao branco. E de vírus percebo eu, tenho obrigação. Não há educação que lhe chegue, vai morrer racista.” (p.38).

O personagem fala especificamente do cão, mas poderíamos encarar esse trecho como uma metáfora, uma metáfora mesmo do ele que ele sempre sentiu na sociedade. "Filho de cobra é cobra", no caso cobra faz uma referência metafórica ao branco colonizador.

Essa expressão por ser recorrente, faz uma retomada à imagem negativa a respeito dos brancos, existente no contexto político, ela assim como outras, fizeram parte das tensões sociais no processo de construção da identidade nacional angolana, o qual o livro foi escrito. 

Depois da chegada sorrateira do cão, a memória do narrador foi muito atiçada, mas depois de Malaquias teimar em levar o cão, o Catetense muda a conversa e relata que o seu amigo Malaquias levou mesmo o cão, que era pastor alemão. 

Segundo o narrador, o cão ficou em casa por alguns tempos e depois desapareceu, e Malaquias nunca soube a razão. Ainda inconformado que seu amigo não reconheceu a razão do mesmo e sempre dizia que era o melhor cão do mundo, chega a citar “Esses malanjinos mentirosos...”. (p.38).

O fruto de ressentimentos antigos dele que ainda hoje estão vivos diante dos malanjinos o faz levantar uma hipótese, que o mesmo pode até ter envenenado o cão só para se livrar dele.

CONCLUSÃO

 É de grande importância ressaltar que a proclamação da lei 10.639.03 representa uma grande conquista na luta antirracial no Brasil. A inclusão da história da África e da sua cultura na educação brasileira oferece um vasto conhecimento sobre a afrodescendência. É necessário que os livros didáticos e os profissionais da educação apresentem de maneira mais intensa fazendo uso da literatura.

    É de suma importância à história narrada pelos africanos e fazer uso dessas narrativas no âmbito escolar permite que os preconceitos e as ideias enraizadas, sejam quebrados dentro da sociedade. As literaturas africanas são capazes de descrever aos alunos e aos demais leitores a sua cultura, permitindo-lhes que identifiquem vários elementos que até então pareciam muito distante.

O conto de Pepetela, “Luanda assim, nossa”, pode ser considerado um espaço importante a ser trabalhado em sala de aula, abrindo espaço para novas discussões e reflexão a cerca da história que se passava na cidade de Luanda, com a história da Literatura Africana. 

Em alguns momentos o personagem Catetense deixa claro suas dúvidas e angústias quanto aos rumos e consequências do movimento pela independência, ficam claras as impressões causadas, numa primeira leitura. Quer seja de curiosidade, inconformismo, enfim, sentimentos que nos faz pensar a obra de Pepetela a partir do peso com que o autor aborda as tradições rompidas, a guerra e tristeza.

Nesse sentido, faz-se de grande escolha a opção pela literatura próxima da narrativa histórica, pois é um bom ponto de partida para se compreender as relações que formam a história angolana: as contradições de um país rico, consumido pela colonização e guerras, que resultaram em um povo, marcado pelo sofrimento decorrente das mutilações físicas e sociais, mas que persiste em sua busca por afirmação no cenário africano contemporâneo.

As obras de Pepetela podem contribuir para a exposição de um painel cultural sobre a sociedade angolana e quem sabe, aproximá-la também do contexto brasileiro, que durante séculos de colonização esteve intimamente ligado àquele país.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DUTRA, Robson. Literatura e Nação -         Pepetela e a história. Revista de História Comparada, Rio de Janeiro, 5-1: 149-178, 2011.  p. 1-30.

SOUZA, Carolina Bezerra. Relações de Poder em Angola: Uma leitura dos romances de Pepetela. 2019. f. 1-272. Tese de Doutorado em Universidade Federal Fluminense, Niterói.

ROSA, João Martos; Backes, José Licínio. O ensino da Literatura Africana na Educação Básica: observações iniciais. Campo Grande, 2011. p.1-12;

 

 

 

 

 



[1] O Professor, pesquisador e dramaturgo Moisés Monteiro de Melo Neto possui graduação em Letras (1992), mestrado e doutorado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (2011). Atualmente é professor da UNEAL (Universidade Estadual de Alagoas) e da UPE (Universidade Estadual de Pernambuco). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura, atuando principalmente nas seguintes Áreas: Dramaturgia, Literatura Comparada, Estudos Culturais, Produção Textual, Literaturas em Língua Portuguesa, Representações dos Gêneros na Literatura, Bioficção, Literatura e História, Literatura e Cinema. É professor desde 1992. Autor de vários livros (dentre os quais: Abismos da Poeticidade, publicado pelo SESC, Notícias Americanas, Anticânone: literatura em Pernambuco a partir do século XX e Chico Science. É autor de peças teatrais que receberam menções honrosas e prêmios; atuou como colaborador do Suplemento Literário (Caderno C) do Jornal do Commercio, Recife, nos anos 1990. Foi responsável pelo dramaturgismo da peça Um minuto para dizer que te amo, vencedora de vários prêmios, ficando em cartaz de 2017 a 2019. Faz parte do Programa de Mestrado Profissional em Letras (ProfLetras), oferecido em rede nacional, é um curso de pós-graduação stricto sensu que conta com a participação de instituições de ensino superior públicas no âmbito do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) e também do Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Alagoas. Em 2019 lançou o livro Shakespeare: um ensaio dramático. Colaborou de 2018 a 2020 com o jornal O SÉCULO, de Garanhuns. Seu livro CIRCO MÁGICO ALAKAZAM lançado em outubro de 2019, selecionado pelo Governo do Estado de Pernambuco, através da Secretaria de Cultura, FUNCULTURA). Faz parte dos seguintes núcleos de pesquisa e extensão: NÚCLEO DE ESTUDOS POLÍTICOS, ESTRATÉGICOS E FILOSÓFICOS: NEPEF, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Estudos Literários, Artes e Ensino-NELIEN- UNEAL, Projeto de extensão e pesquisa Letramentos e práticas discursivas, LEPRADIS. Lepdic: Letramentos e Práticas Discursivas e Culturais. Centro de Pesquisa Educacional Experiência no magistério superior: 10 anos. Experiência Profissional: 30 anos de Magistério. Líder do Projeto TUPI Formação do Teatro Universitário em Palmeira dos Índios - Pesquisa e atuação: Teatro como instrumento pedagógico na prática do ensino de Literatura. Lançou no final de 2020 o seu livro 'Biografia, Autobiografia e Ficção: Literatura e História em Entrelaçamentos Vivenciais', pela Editora Olyver, de Alagoas e tem participado de congressos, colóquios e encontros, mesmo durante a pandemia nos anos 2020/ 2021. Em março deste ano (2021) proferiu palestra dirigida aos alunos dos cursos EAD da UPE: "Literatura e Sociedade", a convite da Coordenação do Curso de Letras. Suas peças tem sido transmitidas pela Rádio Folha de Pernambuco. Teve publicado, com apoio do Lepdic, um livro mais amplo sobre o Movimento Mangue, neste primeiro semestre de 2021. Ministrou o minicurso Literatura africana de língua portuguesa, entre maio de junho de 2021, também integrando forças com o projeto do Lepdic, pelo Grupo TUPI, projeto de Extensão que coordena na Uneal.

https://orcid.org/0000-0002-1186-7334

 

[2] Graduando em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: paulo.henriquealves@upe.br

[3] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: thalyta.machado@upe.br

[4] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: contatoandreza7@gmail.com

[5] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: annilacarolinacnn@gmail.com

[6] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: jailmasilva121@gmail.com

[7] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:  anielimelo@yahoo.com

[8] Graduando em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: joao.vilela@upe.br

[9] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: josefa.baltazarlima@upe.br

[10] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: thais.deniz@upe.br

 

[11] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: claudeaneferreira2000@hotmail.com

[12]  Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: lucianatteodosio@gmail.com

[13] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: maylima2009@hotmail.com

[14]  Graduando em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:djaelmartins@gmail.com

[15] Graduando em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:guilhermevalle397@gmail.com

[16] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:brisalaudiceia@gmail.com

[17] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: erlanegoncalo@gmail.com

[18] Graduando em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: janicleide053@gmail.com

1 Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:albertocesar12@hotmail.com

² Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:giulianagiuh@gmail.com

³ Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: inesgabriela11@gmail.com

4 Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:tamaracurvelo@gmail.com

 

¹ Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:

emanuelaferreirajupi18@gmail.com

² Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:gabymell116@gmail.com

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