LITERATURA AFRICANA
DE LÍNGUA PORTUGUESA
UMA PRÁTICA DE
ENSINO
Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto (org)
SUMÁRIO
PREFÁCIO...............................................
04
“NAS ÁGUAS DO TEMPO”: O LETRAMENTO
LITÉRIO COMO FERRAMENTA DE SABERES MULTICULTURAIS..... 12
ENTRE O SONHAR, O FALAR E O
ESCREVER: UMA PROPOSTA DIDÁTICA COM O CONTO DE MIA COUTO: O MENINO QUE ESCREVIA
VERSOS.................................21
ANÁLISE
DO CONTEXTO SOCIAL DA MULHER NO ROMANCE NIKETCHE: UMA HISTÓRIA DE
POLIGAMIA............33
UMA PROPOSTA PARA O ENSINO DE LITERATURAS POR
MEIO DA OBRA “FIO DAS MISSANGAS” DO ESCRITOR MIA COUTO..........41
LITERATURA AFRICANA EM CONTOS: A DESIGUALDADE SOCIAL REPRESENTADA NA
OBRA A CIDADE E A INFÂNCIA..............51
A LITERATURA AFRICANA EM SALA DE
AULA: MULTICULTURALIDADE
ENTRE ÁFRICA E
BRASIL.......................................63
LITERATURA AFRICANA E LÍNGUA
PORTUGUESA: UMA PROPOSTA DE ENSINO COM tA OBRA “TERRA SONÂMBULA” DE MIA
COUTO...........................................75
TRABALHANDO COM O CONTO:
LUANDA ASSIM, NOSSA............89
Prefácio
Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo
Neto [1]
Sempre um prazer para um docente ver seus
alunos unindo Literatura e Pesquisa, Paulo Henrique Alves da Silva, Thalyta
Machado da Silva, Andreza da Silva Freitas, Annila Carolina Silva, Jailma
Aparecida da Silva, Maria Anieli da Silva Melo, João Marcos Silva Vilela,
Josefa Baltazar de Lima, Thaís Deniz Lira, Claudeane Ferreira Freitas, Luciana Teodosio Alexandre Gomes, Mayara
Oliveira de Lima, Djael Martins Pedro da Silva, Guilherme da Silva Vale, Brisa Laudicéia do Couto Lima,
Erlane da Silva, Janicleide dos Santos Bastos, Alberto César Simplício,
Giuliana Nunes Barbosa, Inês Gabriela Oliveira Valença, Tamara de
Góis da Silva, Emanuela Ferreira da Rocha e Gabriele
de Melo Cordeiro são alunos queridos do curso de Letras da nossa UPE, Campus
Garanhuns. Aqui está o livro que organizamos com artigos deles na área do Ensino de Literatura africana de língua
portuguesa. Foi um semestre marcado pela pandemia e estávamos inquietos,
mas firmes nos nossos propósitos acadêmicos.
Vamos fazer um recorte na questão da
literatura africana, ficaremos restritos a de expressão portuguesa, que nasceu
de uma situação histórica originada no século XV, época em que os lusitanos,
como os historiadores, poetas, escritores de viagens, homens de ciências,
cronistas e das grandes literaturas chegaram ao continente africano.
Vem do século XV, a literatura que
menciona os “bárbaros reinos” do além-mar, no início chamaram-na de literatura
dos descobrimentos, que não é a literatura africana de língua portuguesa, mas
registra um quadro cultural, político sobre o que se chamou “colonização da
África”. Vem depois o aparecimento de uma nova literatura, a “literatura
colonial africana” (1900-1939) que usava a vivência dos portugueses no
além-mar, mesclando história e literatura tendo o homem europeu racista e não o
homem africano (tido como inferior) como eixo central. Teorias que levaram
horror a vida de escritores do porte de Cruz e Sousa, brasileiro negro do
século XIX, como as de Gobineau, e as do filósofo Lévy Bruhl apontavam para uma
mentalidade pré-lógica no povo negro. A
África era mostrada como uma linda paisagem, um Éden onde o protagonistas eram
o homem europeu que cultuava a exploração do homem pelo homem. Mas com o tempo
surgiram autores como João de Lemos (Almas Negras) e
José Osório de Oliveira (Roteiro de África) que trouxeram
visões mais justas sobe este absurdo.
Como percebemos nestas poucas linhas, a
literatura colonial na África lusófona é marcada por vieses injustos, o que
poderia ter melhorado mais com a implantação do ensino oficial e o ampliação do
ensino particular, mas ainda demorou para ter-se ali algo parecido com a
liberdade de expressão, ou pelo menos o início d e uma imprensa que pudesse
respirar por si mesma. Fortalece-se na década de 40 uma nova literatura a que
se chamou literatura africana de
expressão portuguesa. Surge em Angola, o livro Espontaneidade da
minha alma (1949) do angolano, mestiço, José da Silva Maia Ferreira,
tida como primeira obra impressa na África lusófona, porém não a primeira obra
do autor africano, claro. Anterior a esta temos o poema da cabo-verdiana
Antónia Gertrudes Pusish, chamado Elegia à memória das infelizes vítimas
assassinadas por Francisco de Mattos Lobo, na noite de 25 de Junho de
1844, publicado em Lisboa neste ano. Percebemos facilmente como
história e literatura vão entrelaçando o homo
fictus como o seu meio, seu tempo, seu lugar. E a literatura africana, este
conjunto de obras literárias, vão traduzindo o fundamental tom de africanidade, sem ter que usar máscaras
brancas, para lembrarmos Franz Fanon. África torna eixo para uma mensagem ao
resto do planeta. Os vieses desta escrita se erguem contra as tendências
europeias e europeizantes. Alguns a chamavam literatura neo-africana por ser escrita em línguas europeias e para
diferenciá-la da literatura oral produzida em língua africana. Nesta
literatura, o centro do universo deixa de ser o homem europeu e passa a ser o
homem africano. Mas registramos também uma produção literária escrita diferencialmente
mente aos povos africanos, em línguas locais mesclada com português, querendo
tornar essa escrita um tanto inacessível aos europeus, dificultando ao branco
decodificar algumas “mensagens”. Isto prossegue nas obras de António Jacinto,
Agostinho Neto, Pinto de Andrade, Luandino Vieira e outros. Eram palavras e
frases idiomáticas em línguas como o quimbundo. Diferente da brasileira, a
literatura africana de língua portuguesa tem menos de um século de existência.
Houve também a busca do diálogo com o branco, nos laços que
a língua tece no encontro desses dois povos, enriquecendo as questões da
memória que singulariza cada povo. O poeta Tomás Gonzaga, exilado em Moçambique
a partir de 1792, nos traz a à memória o retrato da sua vida lá. No início ele
misturava o gênero europeu citações à paisagem de Minas Gerais (referências à
paisagem mineira, ao chegar a Moçambique, onde já estivera o inesquecível
compatriota Vasco da Gama na sua viagem a caminho da Índia e, mais tarde,
também Camões, que morou lá de 1567 e 1569, compondo Os Lusíadas. Desde
1762 havia desenvolvimento urbano lá e a liberalização do comércio com
mercadores do Brasil. Temos assim, mais estreitas relações entre Brasil e
Moçambique
Tomás
escreveu em Moçambique a carta-poema Os africanos peitos caridosos, que
dirige a um amigo. Aparece ali certo início de literatura mestiçando-se,
reinventando-se, fazendo transparecer amargura do exílio e despertar de outro
tipo de consciência, pelas difíceis provações a que foi submetido por aqueles
que o puniram, ao mesmo tempo que ergue sua voz para manifestar a fraternidade
recebida do povo que o acolheu. No interior do poema, marcam sua presença os
traços esperançosos, perpassados por uma forte carga utópica.
A Moçambique aqui vim deportado.
Descoberta a cabeça ao sol ardente;
Trouxe por irisão duro castigo
Ante a africana, pia boa gente.
Graças, Alcino amigo,
Graças à nossa estrela!
Não esmolei, aqui não se mendiga;
Os africanos peitos caridosos
Antes que a mão infeliz lhe estenda,
A socorrê-lo correm pressurosos.
Graças, Alcino amigo,
Graças à nossa estrela!
É necessário frisar
que o tipo de literatura, chamada literatura africana de expressão portuguesa,
é outra coisa. É dirigida aos africanos e escrita em línguas locais em mistura
com o "português", pois o propósito era tornar a escrita inacessível
aos europeus, isto é, não permitir ao homem branco descodificar as suas
mensagens. Daí a introdução nas obras de poetas angolanos (Agostinho Neto,
António Jacinto, Pinto de Andrade, Luandino Vieira e outros) de palavras e
frase idiomáticas em quimbundo, e em muitos outros autores africanos como o
moçambicano Mutimati Bernabé João.
Há uma fase vai dos
anos 40 até às independências, metade dos anos 1970. Sagrada
esperança, de Agostinho Neto e A vida verdadeira de Domingo
Chavier, de Luandino Vieira são exemplos de textos impregnados de
marcas visíveis da história enquanto revolta política entrelaçada com
literatura.
Na literatura
africana um ponto axial para análise parece ser o da expressão do exotismo sob
todas as formas. Aqui pensamos no Orientalismo, na visão de Said (SAID, Edward.
Orientalism. New York: Vintage Books, 1979).
Pepetela, Ondjaki, Mia e Agualusa: não são
negros, eis a situação da literatura africana em língua portuguesa no
continente desde o século XV. Continuou pela literatura colonial, eurocêntrica,
racista.
O
voga de Antônia Gertrude Pusish é o mais antigo registrado autor lusófono
africano impresso. E livro seria o de
José da Silva Maia Ferreira (ele de Angola, ele de Cabo Verde). Antes temos a valiosa literatura oral. A poesia de Agostinho Neto, Antônio Jacinto e
Luandina Vieira se destacaram nas décadas seguintes. Destaque também para
Mutimati Barnabé João, Moçambique.
Podemos
dizer que há influência de brasileira como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e
Jorge Amado em certos prosadores de lá.
Já o português-naturalizado angolano, José Luandino Vieira, autor de
contos e romances recebeu o cobiçado Prêmio Camões, de Portugal. (2006), ONDJAKI ganhou o Prêmio Jaboti
(Brasil, 2010).
Faz-se
importante que estes autores africanos de língua portuguesa sejam discutidas
pelos alunos, desde o ensino básico e pelos leitores brasileiros, pelas
academias etc. Cultura e literatura
africanas na nossa grade de estudo e lazer.
Contra o estereótipo e o racismo, fortalecendo o viés afrodescendente
brasileiro, riquíssimo em sua representação simbólica e na produção de novos
sentidos para como gente, do mesmo modo que a literatura de Portugal, pois a
literatura na humaniza e faz crescer. Tal perspectiva lusófona lapida nossa
humanidade, amplia nossas noções de direito e representatividade, contra o silenciamento das africanidades,
desmistificando as visões alienantes.
Até
o início do século XXI não havia tantos bons estudos sobre a literatura africana
em língua portuguesa, pelo menos quando tratamos dos de formação de professores
para o ensino básico no Brasil. Os alunos brasileiros merecem outras visões que
não a eurocêntrica, para um aperfeiçoamento da sua mundividência. Lembrando que a história é também forjada pela
ideologia, ponto de vista etc. Se nossos alunos melhoram sua autoimagem através
da cultura afro, isso é muito bom. A riqueza deste Continente é manancial de
beleza e sabedoria.
A escravidão, que durou mais de três
séculos no nosso país, é ainda presente no cotidiano brasileiro do século
XXI. Filmes como Pantera Negra e tantos outros da mesma quilate, apesar de ainda
manterem certos ranços trazem a esperança para afrodescendentes. A reificação
do negro deve ser evitada. A América Cristã errou muito em permitir a
escravidão por mais de três séculos. Isto é óbvio. Chegou o momento de pulverizar o pensamento
negativista em relação ao negro. E não falamos simplesmente de miscigenação sem
preconceito. A cultura afro-brasileira é complexa.
Não houve democracia racial plena, ainda.
A primeira Constituição do Brasil (1824)
incluiu o cidadão negro, mas excluiu os escravos. O odioso tráfico
interatlântico continuava, mantido por Inglaterra e Portugal. Este fato deve
servir de exemplo das raízes, da diáspora, da discussão crucial na nossa
sociedade, da dialética da libertação que nos pertence, um direito que ser
exercitado, como o das mulheres, da homoafetividade, lógico, e a história deve
revisitar as lutas sociais/ culturais/afetivas. Por um mundo novo que já
chegou.
Os brancos são maioria, mas três entre
cinco pessoas, pobres são negras. A diáspora dos povos africanos trouxe-nos um
fortalecimento, mas a tristeza do blues, o banzo, a dor, ainda são grandes. A
mãe África, estuprada tantas vezes nos porões dos navios negreiros, nas
senzalas, é digna, vencerá. É necessário
tratar das especificidades do maldito racismo, da homofobia, do papel do
ensino.
Se os Estados Unidos e na África do Sul
deixavam claros o horror da condição negra, também nas colônias portuguesas na
África, ficava mais visível a necessidade da determinada estratégias de luta.
No Brasil negro unificado (desde 1978) fortificou-se em bases
jurídico-políticas. A ideologia vigente começou a ser desconstruída e exposta.
Se a Lei nº 9394, de 1996, incluiu no currículo oficial da rede de ensino no
Brasil a obrigatoriedade das disciplinas de “História e Cultura
Afro-brasileira”, falhou na fiscalização deste propósito. Também tarda a melhor
qualificação de professores para estas funções: em 2003, com a vigência da Lei,
o movimento foi fortalecido, mesmo assim, descumprido.
A importância da literatura africana (e
afro-brasileira) é essencial na valorização das africanidades, que tiveram seus princípios envenenados pela estigmatização branca a bombardear a
estrutura psíquica do negro.
No campo da língua portuguesa e suas
literaturas revela um viés histórico quando traz a voz negra, para o centro do
palco das letras, fortalecendo uma escola democrática, também, por maior
referenciais com alto quilate
estético-cultural.
Em Cândido (CANDIDO, Antônio. O direito à literatura. In:
Vários escritos. Rio de Janeiro. São Paulo: Ouro Azul / Duas cidades,
2004, p. 170-190). Encontramos uma ideia
do universal em todas as literaturas (p. 174).
A experiência vivenciada, através da literatura é coisa fundamental para
o ser social.
A força da literatura precisa ser
reativada no Ensino Básico com obras combativas e abrindo espaço à diversidade,
ao plural, também contemporâneo, que leia o mundo, ajude na formação
identitária, promovendo a interação dos saberes.
Nunca fui adepto da arte pela arte, acho
esta doutrina prejudicial. Gosto da arte que leve a liberdade aos oprimidos,
alargue as mútuas simpatias, nos fortifique em nossa estada aqui, neste
planeta. Gosto de experiência imaginativa alheia que me satisfaça. Não julgo valores ulteriores, a arte não deve
se prender ao seu universo como se ele fosse autônomo, ela não pode se separar
da vida, há uma conexão subterrânea entre elas.
O leitor não deve excluir nenhuma parte de si mesmo no ato de ler e
nunca se colocar numa torre de marfim, isento.
O resto é ler o que nossos alunos
escreveram. São coisas lindas que a
literatura tem para lhe dar.
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Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007.
SARTRE, Jean-Paul. O
que é a subjetividade? Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
SILVA, A. C. da. A
representação social do negro no livro didático: o que mudou? por que mudou?. Salvador:
EDUFBA, 2011.
SPIVAK, Gayatri
Chakravorty. Pode o subalterno falar?.
Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
SAÚTE, Nelson & SOPA, António. A Ilha de
Moçambique pela voz dos poetas. Lisboa, Edições 70, 1992.
TAVARES,
Paula. Amargos como os frutos. Rio
de Janeiro: Pallar Editora, 2011
SILVA, Cassiana Rodrigues da. Memória e identidade na obra O Alegre canto
da perdiz, de Paulina Chiziane. Editora Realize, 2018.
1.
“NAS ÁGUAS DO TEMPO”: O LETRAMENTO
LITÉRIO COMO FERRAMENTA DE SABERES MULTICULTURAIS
Paulo Henrique Alves da Silva[2]
Thalyta Machado da Silva[3]
Andreza da Silva Freitas[4]
“A literatura é o território sagrado
onde se inventa um chão e nos sentamos com os deuses. O lugar onde, também nós,
somos deuses. No momento dessa relação, estamos fundando um tempo fora do
tempo. E nos religamos com o universo. É isso que torna num momento divino esse
pequeno delírio que é o ato de inventar. MIA COUTO.
1
INTRODUÇÃO
Os processos de leitura e de escrita
são atividades essenciais para a constituição de uma vida em sociedade. É por
meio desses processos que agimos, pensamos, ampliamos nossos saberes,
externamos nossos pensamos, concretizamos atos, entre outras atividades. Para
Austin (1990), a linguagem, muito mais do que representar a realidade, serve
para agir sobre ela, agimos sobre o real com a língua e por meio da língua.
Desse modo, entendemos que, cabe a
escola, enquanto formadora de cidadãos socialmente atuantes, conscientes e
críticos, promover, junto aos estudantes, as melhores formas de aprimoramento
de competências ligadas às práticas de leitura e de escrita. Cabe, também, à
escola fornecer materiais necessários para que o aprendiz possa estabelecer
conexões entre aquilo que lê e aquilo que vivencia.
Quando pensamos na função social da
escrita, estamos no âmbito dos letramentos que, para Souza e Cosson (2011), se
referem aos usos que fazemos da escrita em nossa sociedade. Dentro da
perspectiva dos letramentos, encontramos a definição de letramento literário,
que nada mais é que “[...] o processo de apropriação da literatura enquanto
construção literária de sentidos” (PAULINO; COSSON, 2009, p. 67). Essa noção,
portanto, não se limita ao ato de ler textos de literatura, mas se relaciona
com o fato de, por meio dessas múltiplas leituras, constituir saberes, pensar
criticamente e relacionar o real e o literário, vivenciando, assim, uma “[...]
experiência de dar sentido ao mundo por meio de palavras que falam de palavras,
transcendendo os limites de tempo e espaço” (SOUZA; COSSON, 2011, p. 103).
É dentro dessa perspectiva que
pensamos em levar para sala de aula uma proposta de trabalho com o texto
literário. Essa proposta visa ultrapassar o nível da palavra, não é
simplesmente uma proposta de leitura, mas uma forma de trabalhar com a
literatura de maneira ampla: (re)conhecendo elementos multiculturais de uma
sociedade, nesse caso a africana.
Objetivamos, dessa forma,
discutir sobre literatura africana. Para tanto, escolhemos como objeto de
leitura e análise o conto “Nas Águas do tempo”, do escritor moçambicano Mia
Couto. Por meio desse texto, organizamos um plano de aula que busca abordar
alguns dos elementos culturalmente marcantes dos povos africanos, nos
permitindo assim: construir
um imaginário em torno da África que considere seu dinamismo cultural;
proporcionar reflexões acerca de estereótipos que permeiam a cultura africana;
instigar a prática de uma leitura ativa de textos e do mundo e conhecer
elementos do gênero conto. Com essa proposta, permitiremos, por meio do contato
com o texto de litratura africana, uma reflexão sobre a cultura desse povo,
estabelecendo assim uma proposta de letramento literário
2 APORTE TEÓRICO
A África é um vasto
continente, em que, desde os princípios da humanidade, habitam povos que
carregam consigo costumes, tradições, línguas, crenças e características
próprias, construídas ao longo de sua existência. O continente também aduz
notável repertório de histórias e narrativas que, dentre outros aspectos,
geralmente são saberes desenvolvidos na tradição oral, passados de geração a
geração ao longo da História. De acordo com Hampaté Bâ (1982), esses saberes
conferem a “conhecimentos de toda espécie, pacientemente transmitidos de boca a
ouvido, de mestre a discípulo, ao longo dos séculos.” (BÂ, 1982, p.167).
Portanto, as narrativas africanas apresentam histórias de povos, culturas e
lugares, proporcionando o contato com a memória e identidade dos povos
africanos.
Essas
narrativas discorrem sobre as origens ancestrais, a conexão do homem com a
espiritualidade e com os deuses e pregam pela harmonia da comunidade. Elas
recorrem a elementos locais, como a natureza vegetal, animal e mineral,
sobrepõe o real e o irreal, ao mesmo tempo em que combina os dizeres morais
e/ou filosóficos provenientes da tradição. Em Afonso (2004) encontramos a
seguinte afirmativa:
As literaturas africanas
instituem traços discursivos que decorrem da imbricação de culturas várias, de
contaminações linguísticas múltiplas, de práticas de géneros literários que
rebatem os cânones ocidentais. Pelas suas características e condições de
produção, o conto, é sem dúvida, a forma literária que mais facilmente
entretece vozes e experiências de lugares diferentes [...]. (AFONSO, 2004,
p.51)
Em nossa opinião, o
conto originário da África é um gênero privilegiado, destacando-se pelo sentido
mais amplo que habitualmente, abrangendo outras figuras: pastiche, paródia,
tradição oral e mitos. Outrossim, são saberes e experiências que possibilitam
a compreensão e o contato com a memória
e a história do povo africano.
Ao contrário do conto
oral, o conto literário africano é elaborado pelo escritor, no qual manifesta a
arte, o talento e o espírito de invenção (AFONSO, 2004, p.68). A estrutura do
conto inclui o mundo antigo, ao mesmo tempo em que confronta os elementos da
modernidade que, segundo a autora supracitada, faz com que a sobrevivência dos
mitos seja tão trágica quanto seu desaparecimento.
Mia Couto, pseudónimo de António Emílio
Leite Couto, é um desses contadores de histórias. Biólogo, professor e célebre
escritor moçambicano, destaca-se pela publicação de romances, contos e
crônicas, tendo já adentrado na poesia e na prosa infanto-juvenil, bem como no
texto teatral. As obras do autor são espelho das tradições, histórias e modos
de ser dos moçambicanos. Suas narrativas mostram o compromisso de Mia com a
literatura nacional e seus temas sempre voltados para os acontecimentos de sua
terra, do passado colonial, da posição feminina na sociedade, dos relatos dos
mais velhos, a diversidade de costumes e culturas mediante a junção do
tradicional com o moderno, entre outras temáticas. Como acrescenta Teixeira
(2012):
Nas literaturas
africanas de língua portuguesa, mais especificamente a literatura de
Moçambique, encontramos em Mia Couto o artista da palavra do recurso vocabular,
na qual a oralidade e a escrita se mesclam, uma determinando os domínios da
outra, sem perda cultural. (TEIXEIRA, 2012. p.13).
O método de produção
literária de Mia Couto é embasado na contação de estórias, como a de um “griot atualizado pela escritura”, que
ouve, reflete e (re)conta o passado e presente, real ou ficcional, do seu
âmbito cultural. As suas diversas linguagens e conversações que percorrem entre
a realidade e a imaginação, retomando simbologias e espaços mítico-temporais,
constituem a tessitura narrativa do artista. Como ele próprio afirma em uma
entrevista:
Acho que não existe
simplesmente ficção. Todo texto sempre tem essa relação de fronteira mal
desenhada entre o que é real e o que é ficcional. O escritor brinca com isso, e
ele próprio não sabe o que é. Fica confuso, mas, pelo menos, é verdadeiro nessa
declaração de que não está dizendo algo inteiramente verdadeiro. Estou
convidando as pessoas a brincarem nesse terreiro em que não se sabe o que é
real, o que é utópico, o que é sonho. (COUTO, 2009c)
Em
seus contos, o escritor integra traços marcantes da tradição oral, reinventando
mitos e costumes, a própria estrutura da língua. A sua linguagem extremamente
rica e fértil em neologismos confere-lhe um atributo de singular percepção e
interpretação da beleza interna das coisas, num confronto permanente entre o
passado e o presente de um país profundamente dividido entre o mito e a
história. Podemos conferir algumas dessas características na análise do conto a
seguir.
2.1 Análise do conto: “Nas águas do tempo”
“Nas águas do tempo” é o
conto de abertura do livro Estórias
Abensonhadas publicado em 1994, em Lisboa. Os escritos ali reunidos são tidos como uma forma fantástica de
renascer Moçambique depois da guerra.
No prefácio de “Estórias
Abensonhadas” lemos:
Estas estórias foram
escritas depois da guerra. Por incontáveis anos as armas tinham vertido luto no
chão de Moçambique. Estes textos me surgiram entre as margens da mágoa e da
esperança. Depois da guerra, pensava eu, restavam apenas cinzas, destroços sem
íntimo. Tudo pesando, definitivo e sem reparo. Hoje sei que não é verdade. Onde
restou o homem sobreviveu semente, sonho a engravidar o tempo. Esse sonho se
ocultou no mais inacessível de nós, lá onde a violência não podia golpear, lá
onde a barbárie não tinha acesso. Em todo este tempo, a terra guardou,
inteiras, as suas vozes. Quando se lhes impôs o silêncio elas mudaram de mundo.
No escuro permaneceram lunares. Estas estórias falam desse território onde nós
vamos refazendo e vamos molhando de esperança o rosto da chuva, água
abensonhada. Desse território onde todo homem é igual, assim: fingindo que
está, sonhando que vai, inventando que volta. (COUTO, 2012, p. 6)
O espírito criador do autor transforma
experiências humanas em relatos poéticos que, frente ao progressivo
esquecimento dos valores e tradições, resiste à memória. “A memória dá a cada
escritor um estatuto particular, porque ela testemunha a desestruturação à qual
o colonialismo submeteu a cultura africana” (AFONSO, 2004,
p.36).
Em “Nas águas do tempo”, observamos que a palavra é posta
como complementar pela personagem do avô, que faz do silêncio, do ato de
meditar e da comunicação gestual os meios necessários para a percepção de sua
sabedoria e religiosidade. Sobre isso, fala-nos o narrador ao iniciar a
história:
Meu avô, nesses dias, me
levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso,
somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava, onda cá, onda
lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.
– Mas vocês vão
aonde?
Era a aflição de minha
mãe. O velho sorria. Os dentes nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos se
calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem.
– Voltamos antes
de um agorinha, respondia (COUTO, 2012, p. 9).
Ao apresentar a figura do velho, o narrador
aparenta instigar o leitor a deter uma maior atenção ao que dirá o velho avô,
buscando em outras linguagens as suas falas. O silêncio tem importante papel,
atuando como a reflexão interior, a busca pelo elemento transcendental das
crenças ancestrais, que nos falarão, a seguir, da comunicação entre homens e
espíritos:
Naquelas inquietas
calmarias, sobre as águas nenufarfalhudas, nós éramos os únicos que
preponderávamos. Nosso barquito ficava ali, quieto, sonecando no suave embalo.
O avô calado, espiava as longínquas margens. Tudo em volta mergulhava em
cacimbações, sombras feitas da própria luz, fosse ali a manhã eternamente
ensonada. Ficávamos assim, como em reza, tão quietos que parecíamos
perfeitos.
De repente, meu avô se
erguia no concho. Com o balanço quase o barco nos deitava fora. O velho,
excitado, acenava. Tirava seu pano vermelho e agitava-o com decisão. A quem
acenava ele? Talvez era a ninguém. Nunca, nem por instante, vislumbrei por ali
alma deste ou de outro mundo. Mas o avô acenava seu pano.
– Você não vê lá na margem?
Por detrás do cacimbo?
Eu não via. Mas
ele insistia, desabotoando os nervos.
– Não é lá. É láááá. Não
vê o pano branco, a dançar-se?
Para mim era a mais
completa neblina e os receáveis aléns, onde o horizonte se perde. Meu velho,
depois, perdia a miragem e se recolhia, encolhido no seu silêncio. E
regressávamos, viajando sem companhia de palavra. (COUTO, 2012, p. 10).
À medida em que a leitura vai se
aprofundando, narrador/personagem leva o leitor ao tempo da sua infância,
relatando a história da morte do avô. Os personagens não são nomeados e atuam
diretamente na representação de papéis, o do neto, da mãe e do avô, aqui,
observamos o retrato de diferentes gerações unidas pelos trilhos da
religiosidade. O avô atualiza as crenças coletivas ao guiar o neto pelos
rituais de passagem desta vida para outra, através da morte, enquanto o neto
absorve o conhecimento dessa memória antiga e o une com elementos da sua
realidade, do seu presente. Dialogam assim, o tempo da tradição e o da
modernidade.
O diálogo entre neto e avô se funda na
assimilação das diferentes sabedorias, sendo essa, característica de muitas
culturas do continente africano, nas quais os velhos narram um saber, que
agrega ao presente o conhecimento do passado, significando a permanência da
história, da religiosidade e do seguimento cultural. Isso posto, os jovens são
os responsáveis pela conexão do legado ancestral com o futuro.
Na obra, a transmissão do simbolismo é
favorecida pela oralidade em conjunto com outras linguagens próprias desse
conteúdo. Ao percorrer o diálogo entre a memória perceptiva e a memória
inconsciente do sujeito, a palavra falada se fortalece nos elementos desse
percurso. Essas alegações são vistas quando a personagem do avô fala ao neto
sobre o comportamento humano, analisando-o no plural e na singularidade de sua
cultura, assumindo a sua sabedoria como função transmissora:
Ao amarrar o barco, o
velho me pediu:
– Não conte nada o que se passou. Nem a
ninguém, ouviu?
Nessa noite, ele me
explicou suas escondidas razões. Meus ouvidos se arregalavam para lhe decifrar
a voz rouca. Nem tudo entendi. No mais ou menos, ele falou assim: nós temos olhos que se abrem para dentro,
esses que usamos para ver os sonhos. O que acontece meu filho, é que quase
todos estão cegos, deixaram de ver esses outros que nos visitam. Os outros?
Sim, esses que nos acenam da outra margem. E assim lhes causamos uma total
tristeza. Eu levo-lhe lá nos pântanos para que você aprenda a ver. Não posso
ser o último a ser visitado pelos panos.
– Me entende? (COUTO, 2012, p.13)
Ainda sobre o simbolismo, em diálogos
anteriores, avô e neto refletiram sobre a visibilidade e significado dos panos,
buscando onírica ou racionalmente acessar os conteúdos míticos sagrados da sua constituição
memorial. Portanto, os significados das cores existentes nos panos intensificam
as simbologias percebidas no elemento água:
O vermelho é
“universalmente considerado como o símbolo fundamental do princípio de vida,
com sua força, seu poder e seu brilho, e também reconhecido como ambivalente,
podendo ser iniciático ou fúnebre, passando pelos sentidos de amadurecimento e
regeneração, de homem universal, de condição de vida, de ação e vitalização. O
branco também tem significados de vida e morte, de transitoriedade, de limite.
O branco pode situar-se nas duas extremidades da gama cromática. Absoluto, ele
significa ora a ausência, ora a soma de todas as cores. Assim, coloca-se às
vezes no início e, outras vezes, no término da vida diurna e do mundo manifesto
[...], mas o término da vida – o momento da morte – é também um momento
transitório, situado no ponto de junção do visível e do invisível e, portanto,
é um outro início. [...] É uma cor de passagem, no sentido [...] dos ritos de
passagem: e é justamente a cor privilegiada desses ritos, através dos quais se
operam as mutações do ser, segundo o esquema clássico de toda a iniciação:
morte e renascimento (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1996, p. 1411. Grifos dos
autores).
Observamos ainda um viés simbólico nos
cenários da natureza que as personagens, crenças e simbologias transitam. O
rio, o lago e o pântano são lugares do plano real, portanto, identificáveis
temporal e geograficamente. E assim, cada ouvinte ou leitor pode estabelecer
sentidos próprios ao conto, através do senso comum e do imaginário.
A memória do universo, a
do sagrado, a da ancestralidade e da personagem conversam numa única percepção
simbólica, acordadas pela presença do elemento água, que alia o tempo abstrato
ao significado de “continuidade, elementar e inexorável''. A vida, qualquer que
seja a forma, tem o infinito como horizonte e os elementos da natureza como
registro memorial. O lago com suas incógnitas, o rio como perene passagem, e o
pântano com sua instabilidade, uma espécie de fronteira entre água e terra, são
registros compreensíveis do mágico, do mistério e do magnífico.
Ao se referir aos artifícios utilizados por
Mia Couto, retomamos o elemento mítico, que, no conto, evidencia-se, sobretudo,
em dois trechos. O primeiro, na reflexão do narrador-personagem: “Dizem: o
primeiro homem nasceu dessas canas.” (COUTO, 2012, p. 11) e, o segundo, em
parte da afirmação do avô: “Todo o tempo, a partir daqui, são eternidades.”
(COUTO, 2012, p. 12) Em ambas as passagens, o mito da criação do homem e da
eternidade do tempo se apresentam, sendo estes fundamentais a narrativa
contada.
Em síntese, ao
transmitir uma ampla noção conceitual de tempo e ao exibir o conhecimento do
passado relacionado à morte, como proposta de travessia para outro estágio,
sendo esse um futuro em construção no presente, onde os tempos e temáticas
dialogam, o conto mescla o sonho com a realidade, propondo um contato de
gerações menos influenciado pela noção de tempo ocidental, linear, e mais
adequado ao olhar de infinitude temporal. Tal perspectiva, também presente em
várias das histórias do livro, faz da temática da passagem um constituinte e
não fim em si mesma. A água dialoga com a noção de origem e o tempo situa a
permanência e a continuidade, ambos visitados pela simbologia da morte que é,
em nossa leitura, uma metáfora do eterno recomeço.
2.2 África e escola
Nas aulas literatura,
oportunizar o contato com a produção literária em português do continente
africano permite que a formação do alunado se volte para os multiletramentos
(letramento cultural, literário, informacional e crítico) resultando na
formação de leitores competentes, multiculturais e multiletrados capazes de
conhecer, compreender e valorizar o outro e suas diferentes formas e expressões.
Assim preconiza os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa para
o Ensino Fundamental II, ressaltando que um dos objetivos na formação do
estudante brasileiro é que conheça e valorize
a pluralidade do
patrimônio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socioculturais de outros
povos e nações, posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em
diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras
características individuais e sociais (BRASIL, 1997, p. 9).
Isso posto, podemos
inferir que a presença de contos africanos no contexto escolar,
excepcionalmente os moçambicanos - viés de nossa análise, permitem o contato
com diversificados valores, comportamentos, crenças, e conflitos, o que
contribui para reconhecer e compreender modos distintos de ser e estar no
mundo. O conto, quando aplicado em sala de aula, motivando a
aprendizagem dos saberes africanos, como método pedagógico, viabiliza uma
abordagem da cultura e da história africana, atendendo às propostas da lei
10.639/2003.
A nossa proposta visa
possibilitar a conscientização por parte dos alunos sobre a importância da
cultura negra em nossa sociedade sob o viés das temáticas africanas, mais
especificamente as abordadas no conto de Mia Couto.
O
Conto “Nas águas do tempo” será utilizado como um mecanismo de resgate da
cultura africana, uma vez que eles permitem compreender a forma de vida destes
povos, ao apresentar elementos pertencentes à tradição, à religião, e aos
valores culturais, bem como suas origens, que encontram muitas vezes de forma
implícita em sua história. Nesse sentido, trabalhar o conto africano de
expressão portuguesa no contexto escolar é relevante, pois o aluno terá contato
com a cultura africana e poderá construir uma identidade, considerando a eminente contribuição do africano na
construção da sociedade brasileira.
3 RESULTADOS: Proposta de ensino
Propomos um trabalho que leve para a sala de aula uma visão plural
e abrangente sobre os temas que circundam a África. Sob a justificativa da Lei
10.639/03 que instaura a obrigatoriedade do ensino da História da África,
da cultura afro-brasileira no currículo escolar do ensino fundamental e
médio, que vem resgatar historicamente a contribuição dos negros na construção
e formação da sociedade brasileira.
Com isso, recomendamos
levar para a escola a seguinte proposta de ensino:
|
PLANO DE AULA |
|
Público alvo: alunos do 1º ano do Ensino Médio |
|
Duranção: 3 aulas de 50 minutos |
|
●
Objetivo geral: Introduzir práticas
de letramento literário por meio do conto africano. |
|
Objetivos específicos: ●
Construir um imaginário em
torno da África que considere seu dinamismo cultural; ●
Proporcionar reflexões acerca de estereótipos que permeiam a
cultura africana; ●
Instigar a prática de uma leitura ativa de textos e do mundo e
conhecer elementos do gênero conto. |
|
AULA 1 |
|
●
Ativação dos
conhecimentos prévios dos aprendizes por meio de roda de conversa: O professor abordará questões para
reflexão e ambientação com o tema, antes mesmo de apresentar o tema principal
da aula, expondo algumas imagens e fazendo questionamentos. Ex.: Em qual lugar do
mundo vocês imaginam essas cidades? (ANEXO 1) Após esse momento, o professor irá
explicar que as imagens tratam de países africanos e que a aula de hoje irá
propor uma viagem pela cultura desse continente. É importante falar de duas visões
antagônicas que geralmente permeiam o imaginário da sociedade ao falar sobre
África: de um lado se pensa em um continente pobre, seco, de miséria e de
desigualdades; de outro um lugar de pessoas fortes, resistentes, com traços
culturais marcantes, culinária específica, cores fortes, costumes, danças,
ritos, crenças etc. Ainda assim, muitas
visões estereotipadas giram em torno da África. Então, nos propusemos a
mostrar que o continente é tão moderno e desenvolvido como muitos outros do
globo. Mas visamos também, e principalmente, nesse primeiro momento,
ressaltar os traços culturalmente ricos que são particulares e intrínsecos
àquele lugar e àquele povo. Será apresentado também o seguinte
recorte: “Um exemplo de como o
senso comum pode trazer uma visão preconceituosa sobre o continente é dado no
discurso que a escritora nigeriana Chimammanda Ngozi Adichie fez durante o
TED 2013. No evento, ela relata o choque de sua colega de quarto da
Universidade de Yale ao descobrir que ela fala inglês fluentemente e conhece
músicas de cantores dos Estados Unidos. Afinal de contas, há muito mais por
aqui. Em 2015, a estudante
Diana Salah, que nasceu na Somália, criou uma hashtag que bombou no Twitter:
#TheAfricaTheMediaNeverShowsYou (em português, a África que a mídia nunca
mostra). Basta fazer uma busca no Instagram pela tag para se deparar com
imagens do continente que quebram com essas ideias preconceituosas.” Exemplos de imagens
encontradas na hashtag (ANEXO 2) |
|
AULA 2 |
|
O professor pode trazer, novamente,
questionamentos que instiguem o pensamento reflexivo em torno da
temática. ●
O que sabem sobre literatura africana, contos, mitos? ●
Já ouviram falar do escritor Mia Couto? ●
Se você ganha um livro contendo vários contos e um deles se
chama “nas águas do tempo” sobre o que você imagina que se trata? Em seguida,
cria-se uma roda de contação de histórias, todos os estudantes recebem uma
cópia do conto e todos fazem a leitura alternando entre eles aquele que a fará
em voz alta. Por fim, discute-se o conto atentado para seus aspectos de forma
e de conteúdo. Ademais, o conceito de conto fantástico será introduzido e
comparado com os gêneros: estranho e maravilhoso. Com isso, serão expostas as
relações estabelecidas entre o conto lido em sala de aula e alguns conceitos
advindos da literatura africana, tais quais: a ancestralidade, a
memória, a aproximação com a literatura de tradição oral, o mito, a relação
morte-vida, passagem do tempo, o silêncio, entre outros. |
|
AULA 3 |
|
Avaliação: A turma será
dividida em grupos e será proposto uma releitura do conto, preservando os
aspectos culturais. A releitura poderia surgir em algum formato que
privilegiasse a oralitura,
já que o gênero se aproxima e advém da tradição oral. Outras formas também
poderiam ser abordadas por outros grupos: Teatralização, radionovela, adaptar
para uma contação de histórias com fantoches, Histórias em Quadrinhos. Desse
modo, toda a simbologia africana presente na obra seria preservada e
trabalhada de maneira multissemiótica. |
|
ANEXO 1 ANEXO 2 |
REFERÊNCIAS
AFONSO, Maria Fernanda. O conto moçambicano: escritas
pós-coloniais. Lisboa: Caminho, 2004.
AUSTIN, John Langshaw. Quando Dizer é Fazer. Trad. Danilo
Marcondes de Souza Filho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
BÂ, Amadou Hampaté. A tradição viva. In: História Geral da
África I. Metodologia e Pré-história da África. Trad.: Beatriz Turquetti. São
Paulo: Ática, 1982.
BRASIL, MEC. Parâmetros curriculares
nacionais: arte. Brasília: MEC/SEF, 1997.
CHAVES, Rita. Passado e Presente na Literatura Africana. São Paulo: Revista Via
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CHEVALIER, Jean; GEERBRANT, Alan. Dicionário de símbolos. 10. ed.
Coordenação de Carlos Sussekind. Tradução de Vera da Costa e Silva et al. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1996.
COSSON, Rildo; SOUZA, Renata
Junqueira. Letramento literário: uma
proposta para a sala de aula. UNESP, 2011. Disponível em: http://acervodigital.unesp.br/handle/123456789/40143. Acesso em: 20/04/2021.
COUTO. Mia. Contos: Estórias abensonhadas. 1. ed. São Paulo:
Companhia das Letras, 2012.
PAULINO, Graça; COSSON, Rildo. Letramento literário: para viver a
literatura dentro e fora da escola. In: ZILBERMAN, Regina; RÖSING, Tania
(Orgs.). Escola e leitura: velha crise; novas alternativas. São Paulo: Global,
2009.
TEIXEIRA, João Batista. O suspenso outro mundo e o engolido da terra:
alteridades, identidades e memórias em Mia Couto. Dissertação apresentada a
Universidade Estadual da Paraíba. Campina Grande, 2012.
2.
ENTRE O SONHAR, O FALAR E O
ESCREVER: UMA PROPOSTA DIDÁTICA COM O CONTO DE MIA COUTO “O MENINO QUE ESCREVIA
VERSOS”
Annila Carolina Silva[5]
Jailma
Aparecida da Silva[6]
Maria Anieli
da Silva Melo[7]
Resumo:
O presente trabalho tem como
objetivo apresentar uma proposta de aula, para estudantes do 1° ano do ensino
médio, sobre a Literatura Africana em Língua Portuguesa a partir do conto “o
menino que escrevia versos” do escritor moçambicano Mia Couto. Levando-se em
conta a lei 10. 639/ 2003 – que torna obrigatório a cultura Afro-Brasileira e
Africana na Educação Básica – e, mediante uma abordagem reflexiva que promova a
interação entre texto e leitor, mas também que possibilite a quebra de
estereótipos e preconceitos quando pensamos em povos africanos, a metodologia
aqui escolhida visa despertar o senso crítico, assim como o prazer pela
leitura, haja vista a riqueza de conhecimentos que podemos adquirir, uma vez
que passamos a entender melhor os costumes e tradições e, por isso, ter olhares
diferente sobre os diversos contextos históricos, culturais e sociais encontrados
em obras literárias.
Palavras
chave: Literatura
Africana. Mia Couto. Conto. Leitura. Ensino
INTRODUÇÃO
A literatura enquanto arte da
palavra tem uma importância inegável no campo da educação, pois os textos
literários conduzem o leitor a experienciar diferentes situações relacionadas a
política, contexto histórico de determinados territórios, diferentes etnias
suas culturas e sociedades. Atualmente, muito se discute sobre o ensino de
literatura e a formação de leitores. Caracteriza-se como leitor aquele
indivíduo que tem o hábito ou gosto pela leitura, sendo o processo inicial
desse hábito começado em casa, com a família, e depois aprimorado no ambiente
escolar, para que, assim, venha a ser constante em toda vida do sujeito.
Nesse contexto, a Lei de Diretrizes
e Bases da Educação (LDB), em seu artigo segundo, estabelece que a educação é
“dever da família e do Estado” reforçando ainda mais o carater familiar quando
se trata de educação, não restando apenas para a escola esta responsabilidade,
como muitos pais pensam. Também é ressaltado que “inspirada nos princípios de
liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno
desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho”, em outras palavras, que seja priorizado o pleno
desenvolvimento do alunado, em concomitância dos familiares com o meio escolar,
para que assim venham a se tornarem cidadãos que exercerem de forma sensata
seus direitos e deveres.
De maneira geral, as instituições de
ensino por sua vez, devem direcionar os estudos para os conteúdos essenciais à
formação acadêmica, além de reforçar os valores complementares que vem de casa,
como os bons hábitos pessoais, éticos e morais. Se tratando de ensino médio,
percebemos que hoje muitas escolas possuem uma metodologia totalmente voltada
para aprovações em exames externos, como vestibulares e o Enem, preferindo
tanto abordar nas aulas apenas obras pertinentes nos editais e conteúdos
programáticos, como utilizar de um roteiro de leitura “mecânico”, no qual a
memorização está em primeiro plano. Em 2018, uma pesquisa do Programa Internacional
de Avaliação de Alunos (Pisa) - que realiza testes para observar a proficiência
em leitura entre jovens estudantes com faixa etária de 15 anos – mostrou que
somente 50% dos estudantes brasileiros atingiram o nível 2 de leitura, enquanto
a média mundial é de 77%. Ademais, apenas 2% dos brasileiros alcançaram os
maiores níveis de proficiência em leitura, no caso, 5 ou 6. Isto posto, uma vez
que este método de decodificação não desperta o prazer pela leitura é
consequentemente uma abordagem de educação desvinculada dos princípios da LDB,
pois não desenvolve o senso crítico do estudante, nem ideias de humanidade,
portanto, prejudicando seu desenvolvimento social e qualificação para o mercado
de trabalho.
Assim, no cenário atual de educação
brasileira, são evidenciados alguns problemas quando o assunto é leitura, atingindo principalmente o ensino de
literatura, pois as aulas dessa disciplina acabam por provocar um afastamento
entre o leitor e o texto literário, afastamento este que é motivado pela a
falta do hábito da leitura e, principalmente pela maneira “errada” como muitas
escolas desenvolvem a disciplina de literatura, haja vista o enfoque de ensino
programado para decoração das correntes literárias; do contexto da obra e da
biografia do escritor, desconsiderando o conhecimento de todo um mundo que
somente uma obra literária pode proporcionar. Deste modo, propostas de leituras
focadas em boa aprovação nos vestibulares findam nos resultados dos exames,
sendo, logo em seguida, esquecidos e soterrados, enquanto que, se trabalhados
de formas mais reflexivas, poderiam acompanhar os alunos por toda vida.
Então,
será possível desenvolver uma rotina de leitura na aula de literatura para
produzir um ensino significativo e desenvolver o prazer por elas? Será, ainda,
o aluno capaz de adaptar-se as obras de outros lugares e adquirir gosto e
conhecimentos a partir de outras erudições? A literatura africana de Língua
Portuguesa, por exemplo, tem sido um tema bastante recorrente na área da
educação no nosso país, visto que, não somente porque os autores africanos são
responsáveis por trabalhos cheios de encantos e mistérios devido às suas
culturas, mas também porque os povos africanos compõem uma parte fundamental na
matriz formadora do que hoje nós conhecemos como Brasil. Além disso, o forte elo entre Brasil e África
reflete até hoje na nossa sociedade, cultura, música e religião, mas mesmo
assim era negligenciado o seu ensino nas escolas brasileiras e por isso foi
necessário a criação da lei 10. 639/ 2003 que torna obrigatório o ensino da
cultura Afro-Brasileira e Africana na Educação Básica, com o intuito de
despertar nos jovens a curiosidade para entender melhor como nós brasileiros
nos constituímos e como muitos costumes e hábitos nossos foram criados e
perpetuados, inclusive, ainda estando presente no dia a dia de cada um.
Muitos problemas da sociedade
brasileira datam desde a origem e aprender sobre os povos que contribuíram para
nossa formação pode ser uma das respostas para melhorar o meio em que vivemos,
pois temos semelhanças entre elas, portanto, tornar possível a abordagem do
contexto juntamente com a relação leitor-texto-autor possibilita o
desenvolvimento crítico dos alunos, para que exerçam com responsabilidade a
cidadania e tornem-se pessoas atuantes nos lugares em que vivem.
Sem serem influenciado por ideias
preconceituosas e compreendendo o leque de criações literárias presente no
mundo, o trabalho em questão tem como intuito trazer uma abordagem reflexiva
sobre a Literatura Africana de Língua Portuguesa, a partir do conto “O menino
que escrevia versos” do renomado escritor moçambicano Mia Couto. Posto que em
suas narrativas ele incorpora a cultura e a tradição do seu povo de uma forma
que encanta o leitor e o faz refletir acerca dos problemas que os países africanos,
principalmente Moçambique, passaram e passam após a colonização, esperamos que
os alunos, ao ter contato com outra cultura, não apenas decodifiquem os textos,
mas saibam ler o mundo e assim entenderem um pouco mais das coisas à sua volta.
1.0 O ENSINO DE LITERATURA AFRICANA NAS AULAS DE LINGUAGEM: UMA
LEITURA SIGNIFICATIVA
Infelizmente quando se faz
menção a África ainda há uma visão estereotipada sobre os povos desse
continente, haja vista o desconhecimento da vasta riqueza cultural, da tradição
desses países, da sua importância social e econômica. Apesar desses estigmas
sociais, políticos e históricos, os países africanos tentam se reerguer e
fortalecer sua história cotidianamente desde antes de seus processos de
independência – já que cada país viveu esse momento de forma particular, uns
primeiros enquanto outros, depois – assim dentre os resultados das lutas
travadas, podemos destacar a Literatura, que além de registro histórico
resguarda também a tradição oral. Vale salientar que a consolidação da
literatura foi através de processo árduo, visto a realidade de cada autor, os
quais buscavam sempre retratar as tradições e acontecimentos da sua nação.
As primeiras criações literárias
foram difundidas após a criação do prelo
(imprensa) o qual abriu espaço para que os escritores manifestassem suas
produções, permitindo o surgimento e a circulação de materiais diferentes dos
de Portugal por incorporar na escrita a mistura de expressões da língua nativa
com a língua do colonizador, dessa forma abrindo espaço para que os
intelectuais africanos encontrassem um meio de se expressar, resistir as
repressões do sistema colonialista e despertar os africanos que eram oprimidos
pela violência do processo colonial, ou seja, a literatura dos países africanos
contribuiu para que surgissem movimentos independentistas na década de 1960. As
tensões em volta das colônias e a influências de tais movimentos, que refletiam
o anseio do negro por difundir sua cultura, culminaram tanto na política quanto
na literatura como uma forma de fomentar nas lutas no processo de
independência.
Então, levando em consideração a
importância que a Literatura tem não apenas na vida acadêmica do indivíduo, mas
também na formação um ser capaz de enxergar a realidade com outros olhos e ler
o mundo, o papel da escola é fazer a ponte e assim formar sujeitos ativos
socialmente, capazes de ler, escrever e compreender o mundo em que se vive,
respeitando as diferenças étnicas e culturais.
Percebemos que é de extrema
importância trazer textos literários de autores africanos para a sala de aula,
descentralizando assim o foco das produções eurocentristas, além de quebrar com
os possíveis preconceitos existentes, tendo em vista que tanto o Brasil quanto
a África sofreram com a colonização e tentam até hoje se recuperar das
feridas. Dessa forma, faz-se necessário
apresentar aos alunos essa Literatura Africana de Língua Portuguesa a qual
representa a cultura e a força do povo africano. Além do mais, a apresentação
de obras desses escritores aos alunos permitirá o contato deles com outra
cultura, pois nelas há uma valorização das raízes culturais do povo africano
recuperando, em suas narrativas, as tradições que foram soterradas pelo
colonialismo, demonstrando as marcas que esse período de opressão deixou na
linguagem, cultura e política do continente, propiciando um olhar crítico para
o passado, tendo em vista uma visão menos ingênua do mundo.
1.1
MIA COUTO E O MENINO QUE
ESCREVIA VERSOS
Antônio Emílio Leite Couto nasceu
dia 05 de julho de 1955 em Moçambique. Hoje é um dos principais nomes da
Literatura Africana de Língua Portuguesa, conhecido por Mia Couto, sua obra
divide-se entre crônicas, poesias, contos e romances. Uma característica marcante
é que seus escritos apresentam uma certa expressividade, porquanto ele recria
as palavras por meio de neologismos e traz fortemente em suas narrativas as
marcas da tradição oral. Essa inventividade na linguagem teve influência do
escritor brasileiro Guimarães Rosa, figura importante quando o assunto é
formação de palavras. Fazendo parte da literatura pós-colonialista, a qual
contribui renova e traz outros caminhos para as criações literárias do seu
país.
Olhando para a realidade africana e
traduzindo-a para e por meio da literatura, arte da palavra de Mia couto possui
uma certa prosa poética, como também apresenta que é possível compreender as
coisas através da linguagem dos sonhos. Por sua capacidade de encantar o leitor
com suas estórias, as quais revelam a realidade dentro de um mundo mágico,
permitindo que o leitor se conecte com a narrativa, com os personagens e
desvende o sentido simbólico, hoje Mia Couto é o único escritor africano a
ocupar a 5° cadeira na Academia Brasileira de Letras.
Dentre suas obras foi escolhido o
gênero conto, uma vez que é uma narrativa curta e diferente dos demais,
apresenta mais aspectos relacionados a proposta de leitura sugerida, ademais
conforme a teoria de Allan Poe, os efeitos do conto vão além do seu tamanho,
haja vista à proporção que leva ao leitor, pois existe um clímax “entre a
extensão do conto e a reação que ele consegue provocar no leitor ou o efeito
que a leitura lhe causa.” (GOTLIB, 1990, p.19).
Em outras palavras, certamente é um texto que apresentam uma extensão
interessante para trabalhar durante as aulas, como também, é uma composição
literária que causa a conexão entre o leitor e o texto, porque provoca uma
excitação adequada prendendo os alunos por meio de um enredo breve e intenso.
O gênero conto carrega também
aspectos culturais dos indivíduos, visto que está ligado ao contexto em que a
da obra foi produzida, logo, a escolha de se trabalhar com este contribui para
apresentar no meio educacional brasileiro uma visão de África correspondente a
sua realidade, influenciando, assim, discussões sobre a nação brasileira e os
afrodescendentes que vivem no Brasil.
Com o intuito de possibilitar
contribuições para a formação de jovens leitores e consequentemente formar
sujeitos críticos, foi escolhido o conto “O menino que escrevia versos” o qual
faz parte do livro “Fio das Missangas”, 2004. Nessa obra é narrada a história
de um garoto que descobre, no fazer poético, liberdade para sua realidade de
vida, encontrando na literatura um meio de evoluir e se expressar. Porém esse
fato causa preocupação na família que leva a criança a um consultório médico,
com a intenção de descobrir qual doença a acometia e assim tratar o problema do
menino.
Apesar de parecer uma estória um
pouco incomum, no decorrer do texto tanto é possível observar o contexto
africano marcado pelo encontro de duas realidades distintas logo após a
independência, como também, a relação dos personagens com o fazer poético, a
leitura literária e o mundo dos sonhos.
2.0 POSSIBILIDADES DE LEITURA PARA O 1° ANO DO ENSINO MÉDIO:
2.1METODOLOGIA
Cominando para vigência
da lei 10. 639/ 2003 e buscando promover uma leitura significativa, articulando
conhecimentos prévios sobre a cultura afro-brasileira e a estudos sobre a
sociedade, a cultura e a política, será trabalhada uma proposta que tem como objetivo
levar a Literatura Africana de Língua Portuguesa para sala de aula de alunos do
primeiro ano do ensino médio. De uma forma que desperte tanto o prazer pela
leitura quanto o senso crítico dos alunos, mas que também amplie o olhar dos
estudantes para conhecer a cultura africana, primeiramente será discutido tudo
que se conhece ou sabe quando se pensa em povos africanos, em seguida,
analisaremos conto e, por fim, encerraremos a aula com reflexões comparando o
antes e o depois. Com o auxílio de slides, áudio e vídeo, buscamos sair do
tradicional e proporcionar uma aula dinâmica e convidativa.
2.2 CONTEXTUALIZAÇÃO E LEITURA INTERATIVA DO CONTO
|
Slide 1 |
O primeiro momento da aula será uma discussão sobre os conhecimentos dos alunos a respeito dos povos africanos. A fim de promover o engajamento, no slide aparecerá o seguinte questionamento:
Para complementar o diálogo e “quebrar o gelo”, visto que
muitos estudantes se sentem envergonhados para falar suas opiniões e
pensamentos, um curto vídeo será mostrado, trazendo nele as diferentes visões
que se tem do continente africano ao pesquisarmos no google as palavras chaves:
África, povo africano e cidades africanas, como podemos ver nas imagens.
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Imagem 1: pesquisando a palavra África. Fonte: Google |
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Imagem
2: pesquisando a palavra Povo africano. Fonte: Google |
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Imagem 3: pesquisando a
palavra cidades africanas. Fonte: google |
Após contextualização das diferentes
formas de enxercar a África hoje e a abertura para se falar dos pré-conceitos
que carregamos com base no seu passado, explicitaremos sobre a história,
abordando o colonialismo e independência tardia.
Uma breve explicação para turma
sobre o gênero literário conto também será mostrada, para que os estudantes
compreendam que se trata de um texto composto geralmente por único conflito
sendo caracterizado por apresentar espaço e tempo delimitado, poucos
personagens e poucas ações. Por apresentar laços com a tradição oral, uma vez
que está ligado a arte de contar histórias, um costume antigo passado de
geração em geração que faz parte da cultura do ser humano e por meio do qual no
seu compartilhamento são preservadas tradições e aspectos culturais dos
indivíduos, temos a pretensão de levar a importância do texto literário com o
dia a dia.
Após a dinâmica proposta e a
explicação sobre as particularidades do gênero conto algumas informações sobre o autor serão
trazidas, a fim de que compreendam quais são as características de suas narrativas, além do mais o educador tem
de estar preparado para os possíveis questionamentos que poderão surgir por
parte dos alunos, porquanto Mia Couto é
um homem branco, loiro e de olhos azuis e que possui um nome que, geralmente, é
do sexo feminino, então é interessante que sejam explicitadas algumas
informações sobre ele, informando sobre a sua origem, a linguagem que é utilizada em suas obras,
tendo em vista que os alunos precisam de alguns conhecimentos prévios, porém é
recomendado não se ater tanto as questões bibliográficas, porquanto o foco da
aula é proporcionar o contato dos estudantes com as obras.
Familiarizados com a temática da
aula, poder-se-á iniciar a leitura do conto, para isso apresentamos duas
possibilidades: na primeira, o professor irá distribuir aos alunos folhas
impressas com cópias do conto para que eles acompanhem a leitura a qual pode
ser feita pelos próprios alunos, indicando um deles para ler determinado
trecho. Entretanto, deve-se levar em consideração a realidade da sua turma,
pois alguns estudantes são tímidos e podem se sentir desconfortáveis ao serem
designados para tal tarefa. Também devemos destacar que o fato da falta de
hábito de leitura culmina na perca de expressividade de acordo com as
entonações necessárias presentes na narrativa. Por isso a outra possibilidade é
a de o educador, em primeiro momento, ao invés de ler com a turma, levar para
sala de aula o áudio do conto escolhido para que os alunos ouçam e acompanhem a
leitura ou por meio de slides (caso o professor tenha acesso a essas
tecnologias) ou pelo conto impresso. A título de exemplificação indicamos o
áudio-vídeo intitulado “Histórias para ouvir- o menino que escrevia versos” que
pode ser encontrado no canal do YouTube denominado de Freguesia de Estrela. A
leitura é interpretada por Nádia Nogueira, no Português africano de Moçambique.
O áudio-video pode ser encontrado no Português do Brasil, contudo, uma vez que
trabalharemos com a literatura de outro país, será muito mais enriquecedor o
contato com a forma de falar de lá, sem contar que, dependendo do horário, é
difícil fazer os alunos ficarem em silêncio e prestarem atenção na aula.
No entanto, se o discente ou a
escola não tiver os recursos necessários para reproduzir essa proposta, pode se
optar por fazer uma leitura expressiva do conto e pedir para que os alunos
acompanhem. Após a contação, algumas perguntas poderão ser feitas aos
estudantes acerca do conto, como o que chamou atenção deles e as impressões que
eles tiveram nesse primeiro contato com a produção de uma literatura africana.
Após essa conversação didática e a
apresentação das figuras de linguagens presentes na narrativa, alguns aspectos
que existem no conto devem ser analisados, a fim de se trabalhar a compreensão
e interpretação dos alunos, bem como possibilitar que eles associem o contexto
social, histórico e as intenções da narrativa com a cultura africana e assim
reflitam sobre suas concepções e compartilhem seus conhecimentos com a turma.
2.3
ANÁLISE INTERATIVA DO CONTO: FRONTEIRA ENTRE A REALIDADE, O SONHO E A LEITURA
LITERÁRIA
Em virtude disso, o professor
levando em consideração a escrita de Mia Couto, o qual gosta de abordar os
insólitos, mas também apresenta a cultura e as dificuldades do seu povo por
meio de um realismo maravilhoso nas obras, o docente poderá analisar um dos
eixos existentes no conto que é “a fronteira entre a realidade e o sonho” com o
objetivo de mostrar como isso se configura em uma das personagens da narrativa.
Para isso, antes de apresentar esse aspecto para os alunos, é importante ativar
o processo cognitivo deles, incitando a reflexão e o ingresso na temática do
conto, para que assim o processo de interação aconteça e as diversas visões de
mundo dos seus discentes sejam ouvidas, dessa forma, será feita a seguinte
pergunta a eles: “Para você, o que significa sonhar?”. Vale ressaltar que a
resposta irá depender da visão de mundo dos estudantes e, provavelmente, do
contexto social ao qual os sujeitos estão inseridos, se porventura ocorrer
alguma dificuldade em relação a essa questão, o educador deverá norteá-los,
explicitando que tanto pode ser o sonhar dentro do mundo da imaginação, ou o
sonho dentro de um projeto de vida, metas a serem alcançadas, pois isso é algo
pessoal e cada um tem uma concepção divergente acerca do sonho, esse momento é
reflexivo e possibilitará que os alunos exponham suas opiniões e ativem suas
capacidades mentais, mas é necessário
que eles permaneçam nessa linha de reflexão, pois isso será retomado
posteriormente.
Partindo desse pressuposto, o
professor deverá rememorar e contextualizar alguns acontecimentos da narrativa
para os estudantes, a fim de chegar no momento da consulta em que o menino
dialoga com o médico, sobre isso é relevante chamar a atenção para as respostas
do garoto as quais são fortes e um pouco marcantes, quando ele fala: “Dói-me a
vida, doutor”, quando faz menção o que é o sonho para ele e o momento em que a
mãe o repreende. Depois, deverá ser
feito aos alunos três perguntas: “Por que a vida do menino doía?”, “O que
significa o sonhar para o menino? e, por fim, “Porque sonhar é perigoso?”,
entretanto é interessante que seja apontado em quais trechos do conto estão
direcionados essas questões, em relação a primeira pergunta os discentes
deverão apresentar suas opiniões e logo em seguida o professor virá com as informações
presentes no texto e com contribuições acerca do contexto sociocultural da
obra, ou seja, será explicitado a
realidade do menino o qual vivia com a mãe e o
pai cuja profissão era mecânico e o que recebia mal dava para o pão e a
escola do garoto, este aspecto dá para inferir sobre a condição social da
criança, sem muitas oportunidades e dificuldades financeiras. Além do mais, há
o desajuste familiar; pois, apesar de não deixarem a criança passar fome, eles
não lhe compreendiam, nem davam muito carinho, o pai o tratava feito máquina a
qual não tem emoções e sentimentos, mas também é permitido trazer um olhar
socioeconômico para o texto, pois o continente africano apesar de ter suas
riquezas e lugares maravilhosos ainda há pessoas que vivem à margem da pobreza,
sem muitas oportunidades e sofrem até hoje com as marcas do período
colonizador.
Em seguida, perguntará: “o que significa o sonhar para o
menino do conto?”, como também indagar aos alunos se a concepção de sonho deles
se assemelham ao da criança da estória a fim de possibilitar uma conexão dos
estudantes com a personagem, a partir disso será explicado e apresentado nos
trechos que o sonhar para a criança era uma forma de suportar a realidade dela,
não era a cura; porém ajudava a amenizar essas dores que ela sentia, porquanto
é comum as crianças viverem no mundo de faz de contas, onde podem ser quem
quiserem, morar onde quiserem, porquanto o sonho, a imaginação permite isso.
Continuando, o professor pode perguntar “por que o sonho é perigoso?”, lembrando
aos alunos que a mãe da criança o repreende por ele proferir a palavra
“sonhar”, pois o pai o proibira e a criança questiona a mãe: “sonhar longe por
quê? Perto o sonho aleijaria alguém?”. Se os alunos estiverem à vontade, eles
podem expressar suas conclusões e opiniões sobre a pergunta, e diante das
dificuldades dos alunos em assimilar e estruturar uma resposta, o educador
deverá instigá-los a pensar que, quando se sonha, dentro de um projeto de vida,
objetivos ou metas, de certa forma eles nos motivam, impulsionam para que
queiramos realizá-los, o desejo de concretizar. E a partir disso, deve-se
voltar para a análise, apresentando que dentro do contexto em que a personagem
vivia e sua realidade de vida era proibido sonhar, pois o pai e mãe queriam que
o filho mantivesse os pés no chão, aceitasse a realidade, pois eles não tinham
o fio de esperança que existe dentro de cada sonho, não tinham mais anseios de
mudar de vida e de melhorias, viviam um dia após o outro, o pai era mecânico de
nascença e se conformara com essa situação, a mãe aceitava a forma como o
marido a tratava; mas o miúdo, mesmo diante desse cenário dramático de
desesperança e conformismo, mantém um fio de esperança, almeja uma vida melhor
e não se conforma com essa realidade a qual ele pertence. Em vista disso, a
professora pode trazer o trecho do conto em que o menino expõe em seus versos
esse descontentamento com sua realidade: “de que vale acordar se o que vivo é
menos do que sonhei?”.
Logo, poderá concluir esse momento
explanando que o autor, Mia Couto, gosta de retratar personagens simples e
marginalizadas, mas que apesar da situação de vida desfavorável, elas não se
abstém do sonho, na verdade, elas encaram a realidade com o pé no devaneio,
assim como ocorre com o menino do conto, mas apesar desse cenário dramático, os
acontecimentos são repassados com um certo encantamento na obra, porém é
relevante atentar para a mensagem simbólica que o conto traz para os
moçambicanos que assim como os demais povos da África sofreram com o processo
de colonização e, mesmo após a independência, tem dificuldades de estabilizar a
economia, ou seja, é um recado para que eles mantenham a esperança e não
desistam de uma possibilidade de um futuro melhor e avanços para o país. Esse
método de análise do texto literário, além de proporcionar um olhar mais
crítico em relação a realidade dos povos africanos e a ampliação do
conhecimento cultural, também estimula o desenvolvimento mental por meio da
conversação didática, a qual teve início por meio de perguntas, assim o aluno
irá externar seus pensamentos, articular e organizar suas ideias para que ele
possa se posicionar diante das perguntas e também compartilhar seus
conhecimentos, pois segundo José Carlos Libâneo (1994, p. 168):
A conversação tem um grande valor
didático, pois desenvolve nos alunos as habilidades de expressar opiniões
fundamentadas, e verbalizar a sua própria experiência, de discutir, argumentar
e refutar opiniões dos outros, de aprender a escutar, contar fatos, interpretar
etc. além, evidentemente, de proporcionar a aquisição de novos conhecimentos.
Contudo, é essencial que as
perguntas elaboradas não sejam fechadas, mas que permitam uma articulação dos
conhecimentos enciclopédicos dos alunos com as informações sobre o assunto
estudado. Levando em consideração a temática desse primeiro olhar analítico
para o conto o qual dá enfoque ao sonhar, o docente, se possível, pode trazer
uma mensagem motivacional para seus alunos, posto que cada estudante tem uma
realidade diferente, e, em alguns casos,
os estudos são a única forma de buscar melhorias, em vista disso, o educador
dirá aos seus alunos para que não desistam dos seus sonhos, e sigam o exemplo
do menino do conto, que apesar das adversidades e a sua realidade, ele não se
conforma, pois quer mudá-la e sonha com
algo melhor. Peça para que eles mantenham o fio de esperança. Após essa
primeira visão sobre o conto, os alunos irão descobrir onde o menino externava
seus sonhos, de que forma ele expressava isso.
Em vista disso, será abordado a
relação dos personagens com o fazer poético e a leitura literária. Deve ser
apresentada a canção “Poetas”, de Mariza Monte, a letra da música pode ser
facilmente encontrada no anexo 01, é importante mencionar que devido à dificuldade
para encontrar na internet optamos por anexá-la aqui. Além disso, é fundamental
explicar que a letra da música é na verdade o poema composto por Florbela
Espanca, a qual pertence ao Modernismo Português. Porquanto há uma relação
antiga entre música e poesia, pois segundo Moisés (1975, p. 230), “Os poetas e
os coros gregos recitavam e cantavam suas composições ao som desse instrumento
o qual servia primordialmente para criar uma atmosfera apropriada à transmissão
da poesia”. Ou seja, na Grécia a poesia lírica era cantada com o acompanhamento
dos instrumentos musicais da época, como, por exemplo, a lira, a qual é um
instrumento de cordada que apresentou ampla disseminação na antiguidade,
ademais deve ressaltar ainda que o gênero lírico apresenta características
como: escrita em versos, musicalidade, métrica e rima que podem ser encontradas
na poesia e na música. Ademais, há de se considerar também, o papel da música
no ambiente escolar, pois é uma manifestação cultural que facilita o processo
de aprendizagem, visto que, contribui para desenvolver o senso crítico dos
estudantes, desperta a curiosidade e atenção, como também torna o ambiente
agradável para aquisição de conhecimentos.
Nesse contexto, a canção tem como
tema a incompreensão sofrida pelos poetas. Pois, demonstra a sensibilidade das
almas deles, a habilidade de perceber o ambiente ao seu redor, ou seja, ver o
mundo de modo mais perspicaz, como também, enfatiza a falta de capacidade de
algumas pessoas para compreender os poetas. Implicitamente, a canção fala do
fazer poético, isto é, da escrita poética, da relação do poeta com a poesia e
com o mundo ao seu redor, ademais, é notório também a relação das pessoas com o
texto literário, o qual exige maior interação do leitor, visto que, os textos literários
começam a produzir significado ao entrar em contato com o leitor, pois através
da leitura atenta este interpreta o texto de acordo com seu conhecimento de
mundo. É essa compreensão do fazer poético e da leitura literária que aproxima
a canção do conto: “O menino que Escrevia Versos” e permite que os estudantes
interpretem o texto, discutam a temática e observem a relação dos personagens
do conto com o caderninho de versos do miúdo.
Logo após, utilizando o método de
elaboração conjunta através de algumas perguntas de atribuição elaboradas pelo
professor, busca-se desenvolver a competência de leitura dos estudantes, isto
é, perguntas que influenciem a imaginação, a interpretação, o senso crítico e o
conhecimento de mundo dos alunos não se trata assim de questões fechadas ou que
tem uma única resposta certa. Pois, para Cosson (2006, p. 103) “Mais importante
que a simples oposição entre quantidade e qualidade é a competência de leitura
que o aluno desenvolve dentro do campo literário, levando-o a aprimorar a
capacidade de interpretação e a sensibilidade de ler em um texto a tecedura da
cultura.” Assim, deve ser realizar perguntas como, por exemplo: “Na sua
opinião, a família da criança recebeu o fato de o miúdo escrever versos com
alegria ou preocupação?” para
possibilitar a análise, como também o encontro do leitor com o texto, visto
que, os alunos e o professor vão compartilhar que o ato da escrita poética é
visto como um ato indesejado, uma espécie de doença, pois a mãe leva o menino a
um consultório médico e logo ao entrar na consulta ela já menciona para o
médico: “Ele escreve versos!” e aponta para o filho, demonstrando que o
problema da criança é o fato de que ela escreve versos como se aquilo fosse uma
doença. Além disso, deve atentar que a escrita para criança é uma liberdade
diante da vida difícil que o menino tinha, mas os pais não olham o fazer
poético com positividade, demonstrando serem pessoas limitadas, visto que, não
consideram a literatura, arte, a cultura e a humanidade como algo útil, mas
para o filho é o modo de chegar em um mundo todo seu, por meio da escrita o miúdo visualiza seus
pensamentos e tem o poder em suas mãos de viajar para dentro de si, expressando
suas emoções e dar voz a sua essência. Assim, professor e aluno estabelecem
relação com a música e os conhecimentos prévios sobre o assunto para
possibilitar uma compreensão sobre a escrita literária, a valorização da
literatura e a incompreensão sofrida pelos poetas.
Ademais, os alunos também devem ser questionados sobre a relação entre o
gênero literário e os personagens. Como, por exemplo: “Por que o médico
questiona se o menino teria mais versos na segunda consulta? Por que interna o
menino na própria clínica? Como é a relação dos personagens como o texto
literário?” para promover a reflexão sobre a temática e as duas realidades que
se encontravam no continente africano logo após a independência, visto que,
seus genitores não são pessoas abertas para os sonhos, como também demonstra
descontentamento com o ato de escrever do filho e o pai culpa a escola, ou
seja, ele reconhece que a prática da escrita foi influenciada pela escola que
ao estudar o menino entrou em contato com a escrita e agora através dela o
miúdo registra experiencias, materializa ideias e expande sua comunicação,
porém ele pretende tirar o filho da escola, demonstrando a aflição com o ato de
escrever do filho e a falta de confiança em uma educação que possibilita o
desenvolvimento integral do sujeito. Ao contrário da criança e do médico, que
após uma leitura analítica mudou de posição, porque a poesia provocou um forte
impacto na vida dele, por isso, assume as despesas e interna o menino ali
mesmo, na sua clínica, para continuar em contato com os versos. Ou seja, após a
leitura analítica o menino o médico não proibiu o fazer poético do miúdo pelo
contrário ele se identificou com os versos e percebeu que os escritos evocam
sensações e permitem repensar a vida, isto é, o poder transformador e
humanizador da literatura que faz bem tanto para o leitor quanto para o
escritor. Logo, apresenta para os alunos uma discussão sobre a temática do
texto, o contexto da literatura africana e a importância de desenvolver uma
formação leitora instigando nos estudantes curiosidade e desejo em ler mais
textos e, consequentemente, contribuindo positivamente para a formação leitora
ao longo de todo o ensino médio.
Além desse momento interativo e
interpretativo que a leitura desse gênero literário possibilitou, os alunos
expuseram suas opiniões e foi possível
analisar a participação e a organização argumentativa deles, é necessário que o
professor passe uma atividade para avaliá-los individualmente, verificar se
algum aluno teve dificuldade em assimilar o conteúdo, pois nem todos os
estudantes da turma são participativos, alguns são mais tímidos e tem vergonha
de expor as dúvidas, então é importante ter outras formas de avaliar. Assim,
levando em consideração a temática da aula em questão, poderá ser proposto para
que os alunos produzam um conto ou façam uma releitura da estória que foi lida
de acordo com a realidade de vida deles, a cultura deles, os sonhos, mas também
tendo como base os conhecimentos que foram adquiridos por meio dessa aula sobre
a tradição oral, cultura africana. Então a partir disso o professor deverá norteá-los.
Essa atividade irá trabalhar tanto com a produção textual quanto com o
desenvolvimento criativo do aluno, pois ele irá produzir uma estória e depois
de concluir a atividade, os alunos deverão ler para a turma as suas produções.
CONCLUSÃO
Levando em consideração a lei 10.
639/ 03 que foi criada com o propósito de implantar os estudos sobre a cultura
africana em sala de aula; as dificuldades que os professores tem em despertar o
prazer pela leitura nos alunos e a defasagem no ensino de literatura nas escolas,
as quais buscam apenas repassar épocas literárias com suas respectivas
características sem estimular o senso crítico dos sujeitos, vimos que esses
problemas podem ser melhorados por meio de uma abordagem que vise a interação
entre texto e leitor, onde saber como os escritores trazem essa realidade sobre
as dificuldades que permeiam os países africanos e a luta para que suas
tradições não sejam esquecidas por meio de uma escrita que leva o leitor a
refletir e compreender a realidade por meio de uma linguagem encantadora, assim
como Mia Couto faz.
A partir do estudo de obras da
literatura africana de língua portuguesa em sala de aula de forma interativa,
apresentando a cultura, o contexto histórico e dissipando os possíveis
preconceitos em relação aos povos africanos, levar aos alunos o conhecimento da
história desses povos fará com que compreendam também um pouco sobre ser
brasileiro, haja vista que nossa relação com a África remonta os tempos da
nossa origem,
ANEXO 01: PLANO DE
AULA
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IDENTIFICAÇÃO |
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Escola: Escola de referência em ensino médio |
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Série: 1º “A” do ensino médio
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Disciplina: Português e suas literaturas |
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Professor (a): Annila, Jailma e
Maria Anieli |
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Data: 15/
03/ 2021 |
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Número de aulas: 02 |
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Hora aula: 50 min |
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Carga horária total: 1:40 h |
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TEMA |
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Literatura na escola: leitura de
“O menino que escrevia versos” |
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JUSTIFICATIVA |
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A Lei de Diretrizes e Base da
Educação (LDB) prever no Art. 2º uma educação escolar inspirada nos
princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, para o pleno
desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho. Nesse contexto, a leitura e o papel do
professor enquanto mediador permite a apropriação dos textos literários e a
humanização dos sujeitos. Além disso, por meio do debate é possível conhecer
outras interpretações e forma um cidadão que elabora pensamentos críticos,
consegue se posicionar na sociedade onde habita e tem uma visão de mundo
alargada contribuindo positivamente para a sociedade e o mercado de trabalho. Ademais, a literatura é a arte da
palavra e envolve aspectos psicológicos, políticos, culturais, sociais e
filósofos. Portanto, o conto a ser utilizado (O menino que escrevia versos de
escritor moçambicano Mia Couto) permite o encontro do texto com o corpo do
leitor, pois segundo Gotlib (1985) o sinal de um conto de ótima qualidade é
para ela o que poderíamos chamar a sua autarquia, o fato de que a narrativa
se tenha desprendido do autor como uma olha de sabão do pito de gesso. Pois,
ao realizar a leitura o estudante é motivado a posiciona-se criticamente
frente ao texto e mobilizar habilidades para relacionar o texto com a
realidade local e o contexto escolar, para lidar com interpretações
diferentes da sua e relacionar o texto com outros conhecimentos relevantes
para compreensão. Conforme, a Lei 10.639/03 a qual prever uma educação
voltada para as relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura
Afro-Brasileira e Africana. |
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OBJETIVOS |
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Geral: Estimular
o prazer pela leitura, a interpretação de textos literários e o
desenvolvimento de um olhar crítico para os aspectos que permeiam a sociedade
por meio do contato dos alunos com as produções literárias de escritores
africanos de língua portuguesa, como também ampliar o conhecimento cultural
dos estudantes e possibilitar o contato deles com as tradições dos povos
africanos. |
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Específico: ✔
Atentar para os valores culturais e os recursos expressivos
utilizados na produção do efeito de sentido; ✔
Demonstrar o diálogo do texto com o autor, o continente africano
e a sociedade brasileira; ✔
Refletir sobre o trabalho do escritor literário, a relação do
sujeito com a literatura e os aspectos sociais; ✔
Provocar curiosidade e contemplação do texto literário para
desenvolver e aprimorar habilidades de leitura. ✔
Explicar o que é a Literatura Africana de Língua Portuguesa, o
contexto social e histórico da África. ✔
Permitir uma leitura de mundo por meio do contato com as
narrativas de escritores africanos os quais visam o fortalecimento da
história e da tradição dos povos africanos. |
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CONTEÚDO PRAGMÁTICO: |
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1.
Realizar a motivação por meio de uma oficina inicial. 2.
Apresentar brevemente o contexto da obra, o autor e o gênero
conto. 3.
Iniciar a leitura compartilhada utilizando o conto digitado no
slide. 4.
Promover o compartilhamento de entendimento oral. 5.
Atividade escrita. |
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APLICAÇÃO DO CONTEÚDO PRAGMÁTICO: |
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Inicialmente será realizado uma oficina para desprendimento as
ideologias negativas sobre o continente, partindo desse momento será
apresentado características do contexto da obra, como também do autor e do
gênero literário conto. Em seguida, a leitura é realizada com a turma, uma
vez que, o contexto da obra tralhada ainda apresenta grande ligação com a
tradição oral pretendendo compartilhar com os alunos uma experiência
parecida. Depois, a aula passará para o momento de discussões sore o texto
literário, ademais será apresentado aos estudantes a música “Poetas” da
cantora Mariza Monte a temática é relacionada a incompreensão sofrida pelos
poetas. Assim, a letra da música ficara disponível no slide para que os
alunos acompanhem a canção. Canção de Mariza Monte - Poetas Ai as
almas dos poetas Não as
entende ninguém; São almas
de violetas Que são poetas
também. Andam
perdidas na vida, Como as
estrelas no ar; Sentem o
vento gemer Ouvem as
rosas chorar! Só quem
embala no peito Dores
amargas e secretas É que em
noites de luar Pode
entender os poetas E eu que
arrasto amarguras Que nunca arrastou
ninguém Tenho alma
pra sentir A dos
poetas também! Nesse contexto, o
professor junto com a turma continua a discussão sobre o fazer poético e a
relação dos personagens do conto com a escrita literária por meio de
perguntas de atribuição com intuito de promover a relação entre texto e
leitor para promover o entendimento sobre o conto, desenvolver a competência
leitora e formar o leitor literário. |
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RECURSOS DIDÁTICOS |
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Datashow, caixinhas de som, folhas
de oficio e lápis. |
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AVALIAÇÃO |
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Leitura compartilhada com objetivo
de avaliar a competência oral; Discussão sobre a obra para
observar o posicionamento, como também a oralidade dos alunos e promover o
compartilhamento de diferentes entendimentos; Atividade consiste na produção
escrita de um conto ou releitura da estória lida, para observar o
entendimento daqueles alunos que não interagiram na discussão e a escrita
literária da turma. |
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REFERÊNCIAS DO PLANO DE AULA |
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●
Básica MONTE,
M. Poetas. Portugal. World Connection: 2001. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VX_62bxHjsg >. Data de acessado em: 02
mar. 2021. ●
Complementar COSSON, R. Letramento
literário: teoria e prática. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2019. n.
139. GOTLIB, N. B. A Teoria do Conto.
Disponível em:<https://moodle.ufsc.br/pluginfile.php/2538777/mod_folder/content/0/Nadia%20Battela%20Gotlib%20-%20Teoria%20do%20Conto.pdf?forcedownload=1>. Data de acesso: 03 mar. 2021. |
REFERÊNCIAS
COSSON,
R. Letramento literário: teoria e
prática. 2 ed. São Paulo:
Contexto, 2019. n. 139.
GOTLIB,
N. B. A Teoria do Conto. Disponível
em:<https://moodle.ufsc.br/pluginfile.php/2538777/mod_folder/content/0/Nadia%20Battela%20Gotlib%20-%20Teoria%20do%20Conto.pdf?forcedownload=1>.
Data de acesso: 03 mar. 2021.
MOISÉS,
M. A Criação Literária: poesia. 10
ed. São Paulo: Contexto, 1987. n. 297.
BRASIL.
Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, LDB. 9394/1996.
BRASIL.
BRASIL.
Relatório Brasil no PISA 2018: Diretoria de Avaliação da
Educação Básica, DAEB.
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira.
Brasília-DF Inep/MEC.
MARQUES., Moama Lorena de Lacerda. O espaço-tempo da espera nos contos de Mia
Couto: uma perversa fábrica de ausências. 2013. 237 f. Tese (Doutorado em
Letras) - Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2013.
LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994. p.
168
AMORIM.C.et al. Literaturas Africanas I. v. 2 – Rio de Janeiro: Fundação CECIERJ,
2018.
3.
ANÁLISE DO CONTEXTO SOCIAL DA MULHER
NO ROMANCE NIKETCHE: UMA HISTÓRIA DE POLIGAMIA
João Marcos Silva Vilela[8]
Josefa Baltazar de Lima[9]
Thaís Deniz Lira[10]
RESUMO:
Niketche:
Uma História de Poligamia
é um romance da autora moçambicana Paulina Chiziane, que narra uma história
atípica, na qual cinco mulheres estão envolvidas em uma relação poligâmica. O
presente trabalho tem como por objetivo analisar a obra, dando enfoque nos
aspectos culturais da sociedade africana presente na narrativa. A pesquisa por
meio de recortes se debruçou a comentar as questões: Poligamia, posição da
mulher na sociedade, tradições e costumes. Esse estudo intersocial permitiu um
olhar para as questões de gênero, que estão em pauta nos dias atuais. Buscou-se
contribuir com reflexões que direcionam a compreensão do funcionamento das
relações sócias da cultura africana.
PALAVRAS-CHEVE:
Poligamia. Paulina Chiziane. Niketche.
Culturas Africanas.
ANALYSIS
OF THE SOCIAL CONTEXT OF WOMEN IN THE NOVEL NIKETCHE: A STORY OF POLYGAMY
ABSTRAT:
Niketche: A Polygamy Story is a
novel by the Mozambican author Paulina Chiziane, which tells an atypical story
in which five women are involved in a polygamous relationship. The present work
aims to analyze the work, focusing on the cultural aspects of the African
society present in the narrative. The research through clippings is focused on
commenting on the issues: Polygamy, women's position in society, traditions and
customs. This inter-social study allowed a look at gender issues, which are on
the agenda nowadays. We sought to contribute with reflections that direct the
understanding of the functioning of social relations in African culture.
KEYWORDS: Polygamy. Paulina Chiziane.
Niketche. African Cultures.
INTRODUÇÃO
Humor, crítica social e reflexão acerca da cultura
Moçambicana são elementos marcados na obra Niketche:
Uma história de poligamia. Romance no qual a voz e as palavras que o compõem
são narradas pela personagem Rami, mulher casada há vinte anos com seu marido
Tony, um alto funcionário da polícia. Logo no início da narrativa, Rami é
tomada por uma aflição causada pela ausência do seu marido, a mesma se vê
várias vezes desempenhando o papel de homem e mulher na educação de seus
filhos, o que a deixa angustiada pela falta daquele que a deveria proteger. Em
uma sociedade monogâmica, na qual a poligamia é proibida por lei, Rami descobre
que seu marido possui outras quatro esposas, com as quais possui muitos filhos.
Em um vislumbre de força, numa sublime decisão, a personagem decide ir à
procura das outras, que são vistas inicialmente como inimigas, rivais, o que
acarreta uma serie de conflitos, marcados por agressão e insultos. Gradativamente
Rami vai se aproximando das quatro mulheres com a intenção de conhecê-las e
posteriormente uni-las, o que ocasiona na adoção da relação poligâmica,
marcando assim o início de uma revolução na vida de todas, onde deixam de lado
toda a rivalidade e passam a apoiarem-se. Conquistando assim a autonomia em
relação ao sustento, ingressando no mercado de trabalho, o que ocasiona a
libertação da dependência financeira, razão pela qual estavam todas presas a
Tony. Além de destruir o mito “macho poderoso”, visto como invencível,
construindo assim novos espaços. Sendo assim, a história é sobre cinco mulheres
que unidas, conseguiram a liberdade em um regime que as oprimem.
Tendo
em vista que as questões de gênero e sexualidade estão ganhando cada vez mais
espaço em nossa sociedade, Niketche: Uma
história de poligamia é uma obra que retrata uma cultura que se difere da
ocidental, mas quem em todo esse emaranhado de costumes e tradições que se
divergem, pontos se coincidem e são estes ainda tidos como tabus em grande
parte das sociedades. Esse trabalho foi pensado, como provocação a respeito da
construção da mulher na sociedade africana, abordando questões que atravessam
sociedades, como o papel da mulher, a submissão ou aceitação de uma relação
extraconjugal. O principal objetivo é abordar os aspectos culturais que
permeiam o romance, por meio de recortes da obra, dando uma visão de tradições
e costumes da sociedade moçambicana, além de explicar como se dá a construção
do ser mulher.
1.0 A CONSTRUÇÃO DO
RELACIONAMETO POLIGAMICO NO ROMANCE DE PAULINA CHIZIANE
A poligamia é o
casamento ou a união entre duas ou mais pessoas, sendo a poliginia a relação de
um homem com duas ou mais mulheres, essa é uma prática executada até hoje em
alguns países e a poliandria, quando uma mulher se une a dois ou mais homens. A
prática dessa relação é fortemente ligada ao status e a classe das pessoas que
se submetem, além de ser escolha se envolver sentimentalmente com todos
envolvidos ou não.
“A cada dia que passa,
os relacionamentos poligâmicos ganham mais espaço em suas diversas formas:
relacionamentos abertos, swing, orgia, poliamor e até mesmo famílias paralelas.
Concomitante à essa mudança, o Direito também passou a encarar diversos
institutos no âmbito da família de maneira diversa” (BARROS, 2018)
Nos dias de hoje
há uma espécie de democracia do amor, as relações monogâmicas estão cada vez
mais abrindo espaço para mais um ou mais sujeitos, a fidelidade perde sua
posição de o “principal” para um relacionamento, estabelecendo-se como pilar da
relação, o desejo, o sentimento que você tem por todos os integrantes.
Em contra partida
ao temo “poligamia” que carrega uma bagagem histórica é utilizado, referido e
visto como algo ruim, o termo “poliamor” foi criado para se referir a pessoas
que abrem suas relações para mais alguém, mas o que muda entre um termo e
outro? O “amor” que é firmado. O poliamor surge, como uma quebra de paradigmas
de relacionamentos com mais de uma pessoa, dizendo que o amor é o principal motivo
de abrir a relação para outra pessoa.
“A nomenclatura
"Poliamor" surge, portanto, com objetivo de se desatrelar de tais
ideias e pregar o amor acima de qualquer padrão, costume ou credo. A base,
neste sentido, não é necessariamente o casamento, sendo requisito apenas o
afeto entre os integrantes desta nova forma familiar.” (FRANÇA, 2016).
Como a poligamia
é diretamente ligada a adultério, relações com três ou mais pessoas podem
causar estranheza principalmente, em nossa cultura latino-americana, por isso a
criação do termo poliamor, havia a necessidade de se desvincular das raízes da
“poligamia” para abrir os olhos das pessoas que o mesmo amor que move a relação
entre duas pessoas é o mesmo que chega a três, quatro, cinco ou mais.
Em Niketche:
Uma História de Poligamia a personagem principal da narrativa Rami, quando
descobre que seu marido tem quatro amantes, ela não aceita essa situação, não
aceita enquanto mulher do Sul, de família, status ser arrastada para uma
relação poligâmica:
“Não consigo aceitar a ideia de ser rejeitada. Eu, Rami, mulher
bela. Ku, mulher inteligente. Fui amada. Disputada por vários jovens do meu
tempo. Causei paixões incendiárias. De todos os que me pretenderam escolhi o
Tony, o pior de todos, que na altura julgava ser o melhor Vivi apenas dois anos
de felicidade completa num total de vinte e tantos anos de casamento.”
(CHIZIANE, 2004. P. 14)
“Ninguém pode entender os homens. Como é que o Tony me despreza assim,
se não tenho nada de errado em mim? Obedecer, sempre obedeci. As suas vontades
sempre fiz. Dele sempre cuidei. Até as suas loucuras suportei. Vinte anos de
casamento é um recorde nos tempos que correm. Modéstia à parte sou a mulher
mais perfeita do mundo. Fiz dele o homem que é. Dei-lhe amor, dei-lhe filhos
com que ele se afirmou nesta vida. Sacrifiquei os meus sonhos pelos sonhos
dele. Dei-lhe a minha juventude, a minha vida. Por isso afirmo e reafirmo,
mulher como eu, na sua vida, não há nenhuma! Mesmo assim, sou a mulher mais
infeliz do mundo.” (CHIZIANE, 2004. P.14)
Para Rami seu
marido é um adultero, pois essa relação poligâmica não foi consentida por todos
os envolvidos, nem ouve se quer o lobolos para todas as mulheres, cerimonia que
uma relação poligâmica pede.
“Poligamia não é substituir mulher nenhuma, é termais uma. Não é
esperar que uma envelheça para trocá-la por outra. Não é esperar que uma
produza riqueza para depois a passar para a outra. Poligamia não depende da
riqueza ou da pobreza. É um sistema, um programa. É uma só família com várias
mulheres e um homem, uma unidade, portanto. No caso do Tony são várias famílias
dispersas com um só homem. Não é poligamia coisa nenhuma, mas uma imitação
grotesca de um sistema que mal domina. Poligamia é dar amor por igual, de uma
igualdade matematicamente exacta.” (CHIZIANE, 2004. P. 22)
Em todo o
território africano, a poligamia é aceita em mais de 50 países, e apesar dos
que recebem punição pela lei, esse tipo de relacionamento é tido, como uma
pratica corriqueira. O romance chega a dedicar um capítulo inteiro para a
poligamia, narrado pela visão de Rami, uma sul-africana. A leve o leitor a
conhecer a diferenças culturais dos norte-africanos aos sul-africanos:
“Em algumas regiões do norte, o homem diz: querido amigo, em honra
da nossa amizade e para estreitar os laços da nossa fraternidade, dorme com a
minha mulher esta noite. No sul, o homem diz: a mulher é meu gado, minha
fortuna. Deve ser pastada e conduzida com vara curta” P. 36; “Na minha aldeia, poligamia é o mesmo que partilhar recursos escassos,
pois deixar outras mulheres sem cobertura é crime que nem Deus perdoa”
(CHIZIANE, 2004 P. 55)
Mesmo com ego
fragilizado Rami pretende aceitar a poligamia imposta pelo seu marido, então
pretende oficializar e revelar a todos do convívio social do casal que Tony,
seu marido vivi um relacionamento poligâmico com cinco mulheres. Apesar de Tony
se utilizar do argumento de que ele é homem e isso lhe é permitido, os costumes
de certas aldeias do sul, como é retratado na obra não veem a poligamia com
bons olhos. Então Rami, já que foi posta nesse relacionamento e seu marido
parecer que iria reconsiderar a situação, ela pretende o expor:
“Obrigado, meu Deus, o meu plano deu certo. Todas entraram
traiçoeiras como serpentes. Suaves como a música da alma. Elegantes como
verdadeiras damas. Reivindicam o seu espaço com sorrisos. Fazem a guerra com
perfume e flores. Elas são a chuva regando a terra para que dela brote uma vida
nova. Estas mulheres juntas venceram os preconceitos e avançaram com Firmeza e
derrubaram a farsa.” (CHIZIANE, 2004. P. 108)
“No rosto de Tony surpresa, vergonha, lagrimas e raiva.
Despimos-lhe o manto de cordeiro diante dos verdugos e crivámos o corpo
esfolado com rajadas de chumbo. Respirou
fundo e ergueu-se em passos trôpegos. Tentou fazer um discurso” (CHIZIANE,
2004. P. 108)
“— Meninas! Convençam-se de uma vez. Este passo dado nào volta atrás. Destruímos o manto da invisibilidade, celebremos.
Obrigámos o Tony a reconhecer publicamente o que fazia secretamente. Meninas,
estão cheias de medo? Para quê esses receios? Alguma vez estiveram no
aniversário do Tony? Alguma vez os vossos filhos se sentaram no colo dos tios,
das tias, rodeados de carinho, como membros da família inteira? Não se assustem
com o Tony A ausência do rei nào é o fim da vida. Comamos à grande e bebamos à
francesa!” (CHIZIANE, 2004. P. 110).
Do início ao fim
da obra somos levados a ver o desenrolar dessa história poligâmica, trazendo
grandes reviravoltas e surpresas. Niketche:
Uma História de Poligamia não narra uma história tão distante da realidade
do povo africano, como reafirma a própria autora ao se classificar, como uma
contadora de histórias, histórias de um povo, histórias que marcam pessoas.
2.0 A POSIÇÃO DA MULHER
NA SOCIEDADE MOÇAMBICANA
Durante a
narrativa explicita-se a cultura predominante na sociedade moçambicana, na qual
a mulher é oprimida, vista de forma inferior, nascida para servir e obedecer ao
marido. Essas ideias são fortalecidas através da lenda da Vuyazi, que é trazida
por sua tia em uma reunião, lenda essa que tem a intenção de pregar a
obediência e traz a atribuição de um castigo em caso de insubordinação.
“Era uma vez uma princesa. Nasceu da nobreza, mas tinha o coração
de pobreza. Às mulheres sempre se impôs a obrigação de obedecer aos homens. É a
natureza. Esta princesa desobedecia ao pai e ao marido e só fazia o que queria.
(...). O marido, cansado da insubmissão, apelou à justiça do rei, pai dela. O
rei, magoado, ordenou ao dragão para lhe dar um castigo. Num dia de trovão, o
dragão levou-a para o céu e a estampou na lua, para dar um exemplo de castigo
ao mundo inteiro. Quando a lua cresce e incha, há uma mulher que se vê no meio
da lua, de trouxa à cabeça e bebé nas costas. É Vuyazi, a princesa insubmissa
estampada na lua. (...) É por isso que as mulheres do mundo inteiro, uma vez
por mês, apodrecem o corpo em chagas e ficam impuras, choram lágrimas de
sangue, castigadas pela insubmissão de Vuyazi.” (CHIZIANE, 2004. p.157)
Inclusive traz-se o período menstrual como um
castigo, no qual as mulheres ficam impuras e choram, sendo assim castigadas
pela desobediência da princesa.
É abordada a condição da mulher dentro do casamento e
de uma sociedade na qual se ensina, tanto em casa, quanto na escola, a
obediência e a submissão ao homem.
“Ninguém pode entender os homens. Como é que o Tony me
despreza assim, se não tenho nada de errado em mim? Obedecer, sempre obedeci.
As suas vontades sempre fiz. Dele sempre cuidei. Até as suas
loucuras suportei. Vinte anos de casamento é um recorde nos tempos que
correm. Modéstia à parte, sou a mulher mais perfeita do mundo. Fiz dele o homem
que é. Dei-lhe amor, dei-lhe filhos com que ele se afirmou nesta vida.
Sacrifiquei os meus sonhos pelos sonhos dele. Dei-lhe a minha juventude, a
minha vida.” (CHIZIANE, 2004. p.14)
Rami frequentemente questiona o porquê de Toni
procurar por outras, não notando o seu amor puro e perfeito e afirma não
entender os homens, tendo em vista que ela sempre foi obediente e sempre fez
suas vontades, inclusive colocando os sonhos deles acima dos seus. O que
fortalece a ideia de que a mulher desde pequena é induzida a acreditar que
nasceu para ser submissa a um homem, tendo que se sacrificar para ser uma
mulher perfeita e satisfazer todos os desejos do marido. Em uma
sociedade machista, opressora, a mulher não tem voz e, sobretudo deve se
sacrificar para agradar o homem e suportar todos os problemas, todas as
traições, toda a humilhação, curvar-se e inclusive se ajoelhar diante de seu
marido para servir.
“Cerramos as nossas bocas e as nossas almas. Por acaso temos
direito à palavra? E por mais que a tivéssemos, de que valeria? Voz de mulher
serve para embalar as crianças ao anoitecer. Palavra de mulher não merece
crédito. Aqui no sul, os jovens iniciados aprendem a lição: confiar numa
mulher é vender a tua alma. Mulher tem língua comprida, de serpente. Mulher
deve ouvir, cumprir, obedecer.” (CHIZIANE, 2004. p.154)
Na cena em que Toni supostamente morre e Rami
vai reconhecer o corpo, por falta de uma cicatriz adquirida em um acidente, ela
identifica que o corpo não é do seu marido, mas como se espera, não a ouvem.
Cansada de todo esse sistema, no qual sua voz não é ouvida, ela explicita toda
a sua revolta diante de tal situação.
“Ó gente cega, gente surda, gente parva! Será que não tenho o
direito de ser ouvida pelo menos uma vez na vida? Estou cansada de ser mulher.
De suportar cada capricho. Ser estrangeira na minha própria casa. Estou
cansada de ser sombra. Silhueta” (CHIZIANE 2004. p. 203)
Rami demonstra todo o seu cansaço e desgosto de
ser mulher e como vingança por não ter sido ouvida ela guarda para si a
informação de aquele pelo qual as pessoas estão de luto não é o Tony. Durante
toda a narrativa a mulher é trazida como frágil e submissa, enquanto o homem é
sempre elevado, sendo apontado como poderoso e invencível. E desde criança a mulher é preparada para ser esposa e
conceber filhos, o que mostra a virilidade do homem. Diferente deles que vão
para a escola aprender a ler e escrever, elas são levadas para aprender sexo.
“[...] Nas nossas aldeias, somos levadas às escolas de sexo com
dez anos de idade e aprendemos a alongar os genitais, para nos
tornarmos lulas, tunas, polvos e bicos de peru. Enquanto isso, os homens
vão para a escola do pão. Enquanto eles aprendem a escrever a palavra vida no
mapa do mundo, nós vamos pela madrugada fora, atrás das nossas mães,
espantar os pássaros nos campos de arroz.” (CHIZIANE, 2004.p. )
Sendo assim, nunca foi ensinada a ter amor-próprio,
a amar-se e respeitar-se. Pelo contrário, foi-lhe ensinada à subserviência, a
obediência, a naturalização das hierarquias que colocam as mulheres à mercê, em
um segundo plano onde não são protagonistas da própria vida. Esse
certo ponto da narrativa, por mais que desejassem se libertar desse sistema
poligâmico, a dependência financeira era o motivo que prendia as cinco mulheres
a Toni.
“[...] Aguentei com elas até onde pude, até que lhes disse: Isto
acontece porque não trabalham. Em cada sol têm que mendigar uma migalha. Se
cada uma de nós tivesse uma fonte de rendimento, um emprego, estaríamos
livres dessa situação. É humilhante para uma mulher adulta pedir dinheiro para
sal e carvão. A Saly diz que já teve negócios que faliram, porque usou todo o dinheiro
que tinha na cura do filho que andou doente.” (CHIZIANE, 2004. p. 117)
Indo contra todo o sistema machista que permeia
a sociedade, as personagens, seja individual ou coletivamente, buscam saída.
Finalmente, cada uma das mulheres vai entrando no mercado de trabalho e
construindo independência financeira, libertando-se corajosamente do regime que
as oprimem e visa o homem como um ser invencível. Sendo assim, a história é
iniciada com personagens que se submetem ao sistema imposto pela sociedade, mas
que juntas vão construindo seu próprio espaço e libertando-se de uma vida na
qual não se tem muita perspectiva.
3.0
CULTURA, TRADIÇÕES E COSTUMES AFRICANOS APRESENTADOS NA OBRA
A
narrativa descreve em vários momentos a cultura, os costumes e tradições na
sociedade moçambicana. Há uma margem que separa os costumes dos povos do Sul
(patriarcal), e do Norte (matriarcal), sendo feitas inúmeras comparações. Em um
diálogo com uma conselheira amorosa, Rami conta-lhe sobre as experiências que
as mulheres do Sul vivenciam até chegarem ao matrimônio, às vivências divergem
até certo ponto, mas em outros são completamente iguais.
“Dedicámos um tempo à comparação dos
hábitos culturais de norte a sul. Falámos dos tabus da menstruação que impedem
a mulher de aproximar-se da vida pública de norte a sul. Dos tabus do ovo, que
não pode ser comido por mulheres, para não terem filhos carecas e não se
comportarem como galinhas poedeiras na hora do parto. Dos mitos que aproximam
as meninas do trabalho doméstico e afastam os homens do pilão, do fogo e da
cozinha para não apanharem doenças sexuais, como esterilidade e impotência. Dos
hábitos alimentares que obrigam as mulheres a servir aos maridos os melhores
nacos de carne, ficando para elas os ossos, as patas, as asas e o pescoço. Que
culpam as mulheres de todos os infortúnios da natureza. Quando não chove, a
culpa é delas. Quando há cheias, a culpa é delas. Quando há pragas e doenças, a
culpa é delas que sentaram no pilão, que abortaram às escondidas, que comeram o
ovo e as moelas, que entraram nos campos nos momentos de impureza.” (CHIZIANE,
2004. p. 35-36)
Outra prática muito comum em Moçambique e que é tratada
na narrativa é o rito de iniciação sexual, tal prática consiste em preparar
meninas, entre 9 e 13 anos de idade, para satisfazerem sexualmente os seus
maridos, cumprirem suas vontades e serem agradáveis para com a sua futura
família. As meninas são tiradas da escola e da família logo quando têm a
primeira menstruação, às vezes antes, e são fechadas numa casa onde as
'madrinhas' lhes ensinam práticas sexuais durante duas ou três semanas. Visto
que é algo recorrente com meninas nortenhas, Rami não tem conhecimento de como
funciona o rito, então a conselheira explica como ocorre. No trecho retirado da
obra, é possível notar que para elas a escola de iniciação é algo que lhes fará
bem.
“— Muitas coisas: de amor, de
sedução, de maternidade, de sociedade. Ensinamos filosofias básicas de boa
convivência. Como queres ser feliz no lar se não recebeste as lições básicas de
amor e sexo? Na iniciação aprendes a conhecer o tesouro que tens dentro de ti.
A flor púrpura que se multiplica em pétalas intermináveis, produzindo todas as
correntes benéficas do universo. Nos ritos de iniciação habilitam-te a viver e
a sorrir.” (CHIZIANE, 2004. p. 37)
As
mulheres são submetidas as mais diversas formas de humilhação, mas por ser algo
tradicional, todos os caprichos do homem deve ser obedecido à risca, isso
acontece com a mãe, avós, tias e demais mulheres. No ato de servir a refeição ao
marido, se faz necessário que a esposa se mantenha de joelhos perante ele, no
prato os melhores pedaços deveriam ser adicionados: o peito, as coxas e a
moela. Para a esposa sobravam apenas os restos. Caso a esposa comesse a moela,
seria gravemente punida, pois segundo a tradição isso faria com que o azar
caísse sobre aquela família.
“—Era domingo e a minha irmã
preparou o jantar. Era galinha. Preparou a moela cuidadosamente e guardou numa
tigela. Veio o gato e comeu. O marido regressou e perguntou: a moela? Ela
explicou. Foi inútil. O homem sentiu-se desrespeitado e espancou-a
selváticamente. Volta para a casa da tua mãe para ser reeducada, disse ele. Já!
Ela estava tão agoniada que perdeu a noção do perigo e meteu-se em marcha na
calada da noite. Eram cerca de dez quilómetros até ao lar paterno. Caiu nas
garras do leopardo nas savanas distantes. Morreu na flor da idade por causa de
uma imbecilidade. Morreu ela e ficou o gato”.
(CHIZIANE, 2004. p. 100)
O lobolos é uma tradição cultivada no Sul de Moçambique.
Segundo este costume, a família da noiva recebe dinheiro pela perda que
representa o seu casamento e a ida para outra casa. A cerimônia é considerada de extrema
importância para as mulheres, pois é a partir disso que elas e seus filhos
terão reconhecimento perante a sociedade. Para alguns, o lobolo tem mais
representatividade do que o casamento.
“O ciclo de lobolos começou com a
Ju. Foi com dinheiro e não com gado. Lobolou-se a mãe, com muito dinheiro, num
lobolo-casamento. As crianças foram legalmente reconhecidas, mas não tinham
sido apresentadas aos espíritos da família. (...) Depois fez-se lobolo da Lu e dos filhos. As
nortenhas espantaram-se. Essa história de lobolo era nova para elas. Queriam
dizer não por ser contra os seus costumes culturais. Mas envolve dinheiro e
muito dinheiro. Dinheiro para os pais, dinheiro para elas, e para os filhos.
Dinheiro que faz falta para comer, para viver, para investir. Quando se trata
de benesses, qualquer cultura serve. Elas esqueceram o matriarcado e disseram
sim à tradição ppatriarcal.” (CHIZIANE, 2002. p. 124-125)
A
expressão que dá nome a obra “Niketche”, é uma dança tradicionalmente usada por
meninas do Norte que concluíram o rito de iniciação no intuito de mostrar que
se tornaram mulheres e estão prontas para a vida e para posteriormente seduzir
o marido.
“Niketche. A dança do sol e da lua,
dança do vento e da chuva, dança da criação. Uma dança que mexe, que aquece.
Que imobiliza o corpo e faz a alma voai: As raparigas aparecem de tangas e
missangas. Movem o corpo com arte saudando o despertar de todas as primaveras.
Ao primeiro toque do tambor, cada um sorri, celebrando o mistério da vida ao
saboreio niketche. Os velhos recordam o amor que passou, a paixão que se viveu
e se perdeu. As mulheres desamadas reencontram no espaço o príncipe encantado
com quem cavalgam de mãos dadas no dorso da lua. Nos jovens desperta a urgência
de amar, porque o niketche é sensualidade perfeita, rainha de toda a
sensualidade. Quando a dança termina, podem ouvir-se entre os assistentes
suspiros de quem desperta de um sonho bom.” (CHIZIANE, 2004. p. 160-161)
Kutebinga
é o ato que ocorre quando uma mulher fica viúva, geralmente o irmão mais velho
do falecido é o responsável pelo ritual.
“Agora falam do kutebinga,
purificação sexual. (...) Kutebinga é lavar o nojo com beijos de mel. É
inaugurar a viúva na nova vida, oito dias depois da fatalidade. Kutebinga é
carimbo, marca de propriedade. (...) De repente me vem uma pergunta louca:
existirá alguma mulher que no acto de kutebinga, gemesse de prazer?” (CHIZIANE,
2004. p. 212-213)
Muitas
outras tradições devem ser seguidas após a morte de um homem casado, a esposa
carrega todo o peso dessa cultura. Além de passar pelo ritual Kutebinga, a
mulher tem sua cabeça raspada a navalha e faz-se necessário o uso de
vestimentas pretas, a família do falecido fica com todos os seus pertences e
bens conquistados durante a vida, enquanto a esposa e filhos não tinham sequer
direito a parte da herança.
“Depois do funeral, a divisão de
bens. Carregam tudo o que podem: geleiras, camas, pratos, mobílias, cortinados.
Até as peúgas e cuecas do Ibny disputaram. Levaram quadros, tapetes tia casa de
banho. Deixaram-me as paredes e o tecto, e dão-me um prazo de trinta dias para
abandonar a casa. Pilharam a mim, só a mim. As outras não. Contam histórias
mais extraordinárias à volta delas. Dizem que não são viúvas verdadeiras. Que
são nortenhas e têm cultura diferente. Que os xingondos são unidos e provocar
um é provocar todos. Que os espíritos desses senas, maeuas, macondes. Além de
poderosos são perigosos. Beneficiar do estatuto de viúva é ficar nua, com uma
mão à frente e outra atrás?” (CHIZIANE, 2004. p. 222)
Tendo em vista todos essas práticas
a qual a mulher é submetida, rituais esses que não são executados na narrativa
somente, mas em realidades de sociedades africanas, somos levados a refletir
sobre o peso de ser mulher. O desfecho que é dado à obra choca o leitor, que
por ser levado pela ideia de romance e aguardar um possível final feliz, acaba
por se surpreender com todo que a personagem Rami é submetida. Apesar de a obra
ser colocado no gênero romance Paulina Chiziane deixa claro, que ela é alguém
que narra historias. Histórias essas carregadas por uma ancestralidade que
marca ainda em dias de hoje varias mulheres.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na obra
foram analisados aspectos da cultura africana, observando o cenário que compõe
a realidade de um povo, em especial a mulher, que são refletidas pelas
personagens da obra, presentes na atualidade. O tema se revela com extrema
importância para as áreas que trabalham com questões voltadas as relações
humanas, pois a narrativa compõe conhecimentos e saberes interpessoal e
intersociais, que formam o objeto de estudo dessas áreas, a sociedade. A
poligamia, a condição da mulher e outros aspectos da cultura africana são
importantes temas que colaboram para reflexão de paralelos entre etnias, e isso
acarreta a possíveis respostas de como alguns estigmas surgiram e assolam a
mulher. O resultado esperado dessa pesquisa de trazer uma visão das projeções
do ser mulher, analisando vertentes sócias na obra foi alcançado, devido o
romance narrar vivências reais da mulher africana, cenário esse que a mesma é
moldada para a sua trajetória menina, mulher, esposa. Tal constatação se
ratifica, porque a própria autora Paulina Chiziana se considerar como uma
contadora de historias e não romancista como a classificam.
Tendo em vista as questões que compõem a
narrativa, consideradas pilares de uma sociedade, recomenda-se a obra para
estudos que buscam conhecimentos de outros povos em especifico, o povo
africano. O trabalho deixa a possibilidade para novas pesquisas na área social,
direitos humanos, saúde e religião. Esse estudo de raça permitiu um acesso
cultural que contribui para pesquisas que se doam a estabelecer um diálogo com
essas dimensões.
REFERÊNCIAS
CHIZIANE, Paulina. Niketche: Uma história de poligamia. São
Paulo: Campainha das Letras, 2004.
BARROS, A. AS FAMÍLIAS
PARALELAS E POLIAMOR: CONCEITO E CARACTERIZAÇÃO. Disponível em: <
http://www.rbarrosadvocacia.com.br/artigos/familias_paralelas_e_poliamor.pdf>
Acesso em: 10 mar 2021.
FRANÇA, J. POLIGAMIA OU
POLIAMOR? A dignidade da pessoa humana pautada no afeto. Disponível em:
<https://juliaabagge.jusbrasil.com.br/artigos/289614350/poligamia-ou-poliamor>
Acesso em: 10 de mar. 2021.
MORAES FARIAS, R.; PINHEIRO, V. N. Poligamia adulterada: violência simbólica e tragédia efetiva em
Niketche, de Paulina Chiziane. Letras & Letras, v. 36, n. 2, p.
285-302, 31 dez. 2020.
PÓVOAS, M. OS ARRANJOS
FAMILIARES POLIGÂMICOS: EFEITOS JURÍDICOS INTERNOS E O RESPEITO AOS DIREITOS
PESSOAIS FRENTE À GLOBALIZAÇÃO. 2019. 308p. Tese (Doutorado em Ciência
Jurídica) - Universidade do Vale do Itajaí, Santa Catarina.
DIALLO, C. POLIGAMIA E
O PAPEL DA MULHER. Disponível em:
<https://catarinas.info/colunas/poligamia-e-o-papel-da-mulher/> Acesso
em: 10 de mar. 2021.
Unicef condena ritos de iniciação sexual em Moçambique. Diário de Notícias, 02
de jun. 2011. Disponível em: <https://www.dn.pt/globo/africa/unicef-condena-ritos-de-iniciacao-sexual-em-mocambique-1868122.html>.
Acesso em: 19 de mar. de 2021.
GEORGE, C; CAMARGO, D. Niketche- Uma história de poligamia:
Análise da representação feminina no romance da escritora moçambicana Paulina
Chiziane. Revista do núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e africana
da UFF, vol 5, n° 10, 2013
MIRANDA, M. G. Niketche: Uma história de rupturas, ou o
feminino em constante desafio. E-scrita Revista do Curso de Letras da
UNIABEU. Nilópolis, v. Número 3, set-Dez. 2010
UMA
PROPOSTA PARA O ENSINO DE LITERATURAS POR MEIO DA OBRA “FIO DAS MISSANGAS” DO
ESCRITOR MIA COUTO1
Claudeane Ferreira Freitas[11]
Luciana Teodosio Alexandre Gomes[12]
Mayara Oliveira de Lima[13]
RESUMO
O presente trabalho pretende trazer uma análise
sobre a importância da obra de Mia Couto “O
fio das missangas” no ensino de literatura. Para isso, iremos direcionar nosso ponto de vista principalmente
a questões como: o universo feminino presente na obra; a moçambicanidade, entre
outros aspectos. Nosso interesse pela temática se deu a partir de estudos
relacionados ao ensino das literaturas, quando observamos os diversos pontos
que poderiam ser abordados em sala de aula, que poderiam gerar grande interesse
nos alunos. Considerando a extensão da obra e com o objetivo de nos adentrarmos
mais a fundo na temática optamos em analisar apenas os contos “A saia
amarrotada”, “Os olhos dos mortos”, “Os machos lacrimosos” e “O rio das quatro
luzes”. Nossa metodologia para o desenvolvimento deste trabalho se deu a partir
de revisão de literatura, não apenas trabalhos que tratam da mesma temática,
mas também da própria obra, a qual buscamos elementos que nos deram base para
apresentarmos o que buscávamos por meio da pesquisa. Diante da análise
observamos que o escrito traz uma visão da voz da mulher que muitas vezes era
silenciada e tinha sua figura submissa ao homem, observamos que a mulher apesar
de ser colocada em situações adversas e de preconceito que a levava a ser silenciada
e destinada a mão de obra, ela ainda assim tem desejos. Após as reflexões
realizadas podemos perceber que a obra estudada é de extrema importância para
entendermos um ponto de vista sobre o universo feminino dando as mulheres uma
voz que por muitas vezes é calada, além de percebermos a importância de se
estudar e ensinar sobre as literaturas africanas em sala de aula.
- INTRODUÇÃO
Este
trabalho tem como objetivo fazer um estudo analítico da obra “O fio das
Missangas” de Mia Couto, tentando compreender como a obra foi escrita, quais os
principais elementos tratados na obra, como está organizado a obra etc. além de
analisar a importância dessa obra no ensino de literatura.
Os estudos relacionados a obras pós-colonial tem
sido cada vez frequentes, tendo em vista, a representatividade de culturas,
feminina e tantos outros aspectos envolvidos nestas obras. “O fio das
Missangas” publicado em 2003 é das tantas obras de destaque do autor, Mia
Couto, composta por contos curtos, o livro traz em sua narrativa importantes
elementos dos quais vale destacar, a feminilidade, Moçambicanidade, os
neologismos entre outros, o que torna o livro um grande representante do
período conhecido como pós-colonial.
O livro é composto por 29 contos, que relatam
histórias diferentes, mas que se harmonizam entre si e se apresentam de maneira
condessada e breve, nesses contos o autor aborda temáticas da sua terra,
Moçambique, outro aspecto interessante que está relacionado a obra, são os
neologismos um pouco a maneira de Guimarães Rosa.
Desse modo,
apontaremos pontos relevantes, que nos auxiliaram na compreensão da obra e na
construção deste trabalho, que foram: quem foi o autor, qual a principal
temática tratada na obra, para a partir daí realizar a análise da obra.
Assim, temos
como intuito analisar a representação feminina, analisar aspectos da cultura
moçambicana, entre outros pontos, além de
analisarmos a importância do estudo dessa obra no ensino de literatura,
de forma geral na obra "O fio das
missangas” do autor e biólogo Mia Couto, vale destacar que ao longo do
artigo traremos outros aspectos do livro, para que possamos compreender a obra
e analisar com mais detalhes nosso foco de estudo, com tudo deixamos claro que
nosso principal intuito é analisar a importância da obra no ensino de
literatura.
Desse modo,
para o desenvolvimento da pesquisa organizamos o trabalho em três momentos,
sendo eles:
●
Traremos
reflexões acerca do ensino de literatura, informações sobre o autor e de
Moçambique.
●
Faremos
a análise do livro, dividindo em tópicos para melhor compreensão, trazendo
recordes e introduções à obra para melhor entender e temática tratada nela.
●
E
por fim, faremos um apanhado geral sobre o trabalho por meio dos resultados e
as considerações finais.
Muitas vezes o ensino da literatura em sala de
aula é questionado, sendo visto por muitos apenas como leituras de histórias
amorosas, no entanto se pararmos para analisar a literatura é muito mais que
apenas histórias de amor, ela traz em suas obras e, em suas entrelinhas
reflexões acerca das mazelas vivenciadas pelas sociedades.
Ela nos faz refletir acerca dos acontecimentos,
situações, problemas etc., além de muitas vezes realizar denuncias sociais. Na
obra “O fio das missangas”, nos deparamos com problemas que estão estritamente
ligados a realidade social de muitos países, como a violência doméstica, a
falta de infância, a amadurecimento precoce, a submissão da mulher, essas
temáticas nos fazem refletir a respeito dos impasses vivenciados por nossa
sociedade.
Logo, se observa a importância do estudo da
literatura, uma vez que, ela nos possibilita conhecer e estudar, não apenas o
fictício, como também nossa sociedade em suas diversas facetas.
- MIA COUTO E A MOÇAMBICANIDADE
Para que possamos compreender a obra de Mia
couto consideramos importante apresentar um pouco da história de Moçambique,
uma vez que, sua escrita está permeada de aspectos relacionados ao país, tendo
em vista que “Mia Couto tem uma produção romanesca que valoriza os costumes,
crenças e hábitos moçambicanos, conjugados com os resíduos culturais das nações
que perpassaram pelo país” (MACHADO, 2011, p. 5),
País
recentemente independente e marcado pelo colonialismo traz em sua cultura
influências desse período, além de passar pelo processo de colonização o país
também passou por conflitos civis que trouxeram consequências drásticas ao
local, além de provocar a morte de muitas pessoas, a guerra civil afetou a
infraestrutura e economia do país. Segundo Machado “Culturalmente, além das
influências europeias, o país, que tem como base a cultura Banto, recebeu
influências árabes e asiáticas, devido à sua posição geográfica. Encontramos,
portanto, na cultura moçambicana resíduos culturais árabes, asiáticos e
europeus” (MACHADO, 2011, p. 4)
O
idioma oficial do país é o português, no entanto existem outras línguas faladas
pela população da região, que tenta reconstruir a economia devido a guerra
civil que tomou o país, logo após sua independência vale destacar que o país
tem atraído olhares de investidores externos, tendo em vista a riqueza relacionada
aos minérios da região, por outro lado em relação a agropecuária o país
enfrenta problemas devido aos períodos de estiagens na região. Contudo tem
buscado formas de se reestruturar.
Como
podemos observar Moçambique é um país que já passou por diversas situações
desde o colonialismo a guerra civil, no entanto podemos observar também que o
país possui uma vasta riqueza cultural e de costumes derivadas desses
acontecimentos. Mia couto por sua vez, é um grande representante da literatura
moçambicana, haja vista que sua obra esta permeada de aspectos relacionado a
Moçambique e do contexto, o qual o país e obra estavam inseridos.
Antônio Emílio Leite Couto é um escritor
moçambicano, que nasceu na cidade de beira, outro aspecto importante
relacionado ao autor é que ele trabalhou como jornalista, no então, ingressou
na faculdade de biologia e se tornou professor universitário quando passou a
conciliar com sua carreira de escritor. O escritor escreveu um dos maiores
livros africanos do século XX “Terra sonambula”
O escritor faz parte da literatura contemporânea
moçambicana, a qual faz parte do período pós independência, em suas obras
podemos encontrar os neologismos como já fora citado, valorização da memória
cultural, multiculturalismo, engajamento político, lirismo etc.
Dessa
forma podemos entender que as obras de Mia Couto possuem relação direta com o
país Moçambique desde aspectos culturais a aspectos políticos, assim buscamos
na obra do autor a análise da figura feminina uma vez que acreditamos por meio
dela compreender o papel feminino no país.
- OBRA “O FIO DAS MISSANGAS”
O livro é
composto por singelos pedaços da vida de diferentes personagens, o escritor em
seus breves textos condensa a alma de seu país, nessa obra boa parte da
narrativa focaliza em personagens femininos.
Composto por
29 contos, na obra o autor dá voz a mulheres em que na sociedade sempre foram
lhes negado espaço para serem respeitadas e ouvidas, o autor se utiliza da
ficção e de uma maneira sensível trata da dura realidade da mulher africana que
por meio da obra reconstrói sua identidade marcada por uma herança colonial.
Um dos
pontos mais relevantes que podem ser notados é a forma em que as mulheres são
tratadas por os homens sejam eles da família ou não, podemos notar que ao longo
dos escritos as personagens passam por um processo de apagamento em seus
cotidianos tendo suas autoestimas abalados, podemos notar uma indignação,
insatisfação e revolta sentido pelas personagens.
Por a obra
ser constituída por neologismos é necessário abstrair o sentido puro da palavra
para por meio dos símbolos possamos compreender os sentidos do que nos dizem os
escritos. Podemos notar que as histórias contadas na obra em estudo são um
tanto melancólicas considerando que é visível a dor, o sofrimento e a amargura
vivenciada pelos personagens.
- A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DE LITERATURA EM
SALA DE AULA: COSTUMES, CRENÇAS E VALORES NAS ENTRELINHAS DO TEXTO
Temos como
intuito nesse tópico, refletir acerca de aspectos encontrados na obra do
escritor moçambicano Mia Couto e, que podem ser discutidos em sala de aula, no
ensino de literatura, para isso se desse com maior êxito nos detivemos em
quatro contos, “a saia almarotada”, “os olhos dos mortos”, “os machos
lacrimosos” e “o rio das quatro luzes”.
Todos os
pontos encontrados na obra que serão analisados a diante, consideramos de suma
relevância no ensino de literatura, isso, pois eles trazem em suas entrelinhas
realidades que estão muitas vezes próximas dos alunos, o que lhes trará
interesse em ir em busca de outras obras, pois irá observar personagens com
sentimentos parecidos com os seus.
5.1 A MULHER NOS CONTO “A SAIA ALMARROTADA” E
“OS OLHOS DOS MORTOS”
5.1.1 “A
saia almarrotada”
Sabemos que a mulher ao longo dos tempos vem
enfrentando diversas lutas relacionadas a igualdade seja no trabalho e entre
outros aspectos, no entanto sabemos também que isso não tem sido fácil e que
muitas vezes elas se deparam com uma série de fatores que estão ligados a
aspectos sociais e históricos, os quais apresentam a mulher como sendo submissa
ao homem, destinada a tarefas domésticas etc., como podemos observar em
Machado:
A sociedade ocidental foi construída sob um
regime patriarcal e falocêntrico. Herdeira de uma tradição judaico-cristã, a
cultura sempre relegou a mulher uma posição marginal na sociedade; nesse
sentido a mulher foi oprimida, subjugada, negada e silenciada. No caso da
mulher negra, observa-se um duplo movimento de exclusão: uma marginalização por
etnia e outra por gênero. Na sociedade moçambicana o feminino não será
considerado de outra maneira, ainda mais que Moçambique, além dos resíduos
culturais da sociedade ocidental, conjuga rastros da cultura islâmica, cujo
papel da figura feminina é mais complexo ainda. (MACHADO, 2011, p. 6)
Na obra de Mia Couto observamos a figura
feminina que muitas vezes era esquecida e silenciada, nas entrelinhas dos
textos observamos também as insatisfações e desejos das personagens, segundo
Machado “O universo feminino é apresentado, através da ficção, com
sensibilidade e sutileza, proporcionando um canal para que essas vozes
silenciadas, esquecidas e condenadas à não-existência possam, de algum modo,
manifestarem-se” (MACHADO, 2011, p. 5), que buscaremos analisar no conto “A
saia almarrotada”.
No conto de O fio das Missangas, “A saia almarrotada” observamos a história de
uma mulher que perdeu sua mãe e que foi criada por homens, sendo eles seu pai,
seu tio e seus irmãos, ela não se identifica e diz que nascera para trabalhar e
servir aos membros masculinos da família, sujeita a repressão da sociedade e
seus costumes, a mulher não tem dependência e sua vida é destinada a realizar
tarefas domésticas e mão de obra. Todo o texto é narrado em primeira pessoa o
que nos leva a crer que se trata e atua como um testemunho da condição
feminina. Notamos que ao longo do conto a mulher encontra-se aprisionada não
apenas dentro de casa, mas presa dentro de se mesma sonhando e desejando
libertação repleta de angústias. Observemos nos fragmentos a seguir:
Trecho 1: “Nasci para a cozinha, pano e
pranto...” “Eu tinha joelhos era para descansar as mãos”.
Trecho 2: “Ensinaram-me tanta vergonha em sentir
prazer, que acabei sentindo praerem sentir vergonha”, “Eu acreditava que nada
era mais antigo que meu pai. Sempre ceguei em obediência, enxotando tentações
que piripirilampejavam na minha meninice”.
No trecho1 notamos que mulher nascerá para que
pudesse ser mão de obra, destinada a servir ao patriarcado, deveria apenas
servir aos serviços domésticos, cozinhar, lavar etc., ou seja, vemos a mulher
ser minimizada ao lugar de servidão, sem ter voz, sem ter espaço e sendo
excluída das relações sociais.
No trecho2 podemos notar a opressão dos
sentimentos e atitudes da voz do texto, notamos a obediência da mulher perante
a figura do homem no texto.
5.1.2
“os olhos dos mortos”
No conto “os olhos dos mortos” encontramos uma
realidade enfrentada não apenas por mulheres moçambicanas, como de diversas
localidades no mundo, que é a violência doméstica, no conto temos história de
uma mulher que é agredida por seu marido e, que só se liberta dessa situação
após cometer um crime, que é o assassinato de seu marido.
Observemos
os trechos do conto:
Trecho 1:
“Venâncio estava na violência como quem não sai do seu idioma. Eu estava no
pranto como quem sustenta a sua própria raiz. Chorando sem direito a soluço;
rindo sem acesso a gargalhada. O cão se habitua a comer sobras. Como eu me
habituei a restos de vida”.
Trecho 2:
“Ao ver a moldura quebrada e os vidros ainda espalhados pelo chão, Venâncio me
golpeou com inusitada força, pontapés cruzaram o escuro do quarto entre gritos
meus: – Na barriga não, na barriga não!
Trecho 3:
Desmaiada, me espreitaram os dentros: gravidez não havia. Mais uma vez era
falsa esperança. Esse vazio de mim, essa poeira de fonte seca, o não poder dar
descendência a Venâncio, isso doía mais que perder um filho. Eu estava mais
estilhaçada que o retrato da sala”.
Trecho 4:
“Lição que aprendi: a Vida é tão cheia de luz, que olhar é demasiado e ver é
pouco. É por isso que fecham os olhos aos mortos. E é o que faço ao meu marido.
Lhe fecho os olhos, agora que o seu sangue se espalha, avermelhando os
lençóis”.
No trecho um
observamos o descaso do marido para com sua esposa, no entanto observamos que
ela já se habituou com aquela situação, por mais que se pareça algo não comum,
muitas vezes mulheres se sujeitam a estas situações por medo do agressor, por
não ter para onde ir ou, mesmo por acharem que aquilo é um comportamento normal
aos homens.
No segundo
trecho temos uma descrição de um momento de agressão, o qual o agressor não
hesita em bater em sua esposa, lhe desferido pontapés, que assustam a mulher
por achar que em seu ventre ela carrega um filho, observamos neste trecho a
agressão contra a mulher.
No 3 trecho,
observamos que mesmo sendo agredida por seu marido, e sentindo as dores dos
machucados provocados e, até mesmo a situação vivenciada por ela, ela se sente
mal, por não dar um filho, um herdeiro ao seu companheiro, já que sua hipótese
de estar grávida não se confirma. Em outro ponto do conto observamos que o
marido sequer visita sua esposa, momento o qual observamos mais uma vez a falta
de empatia e importância, do marido para cm sua companheira.
No 4 trecho
e último, observamos um acontecimento não comum, como forma de se libertar das
agressões de seu marido a protagonista assassina seu marido, esse fato não é
comum, já que o que presenciamos muitas vezes na sociedade é cenário, onde os
homens agridem, machucam, humilham e tiram a vida de suas esposas.
5.1.3 “os machos lacrimosos”
Esse conto é
de grande importância de se trabalhar em sala de aula, uma vez que os alunos
poderão por meio do conto ver de forma bem trabalhada uma desconstrução do ser
masculino enquanto sendo símbolo de força, o impedindo de ser sensível e
demonstrar sentimento.
O
conto serve para dar voz ao homem, lhes devolve o direito de chorar ainda que
escondido da sociedade, notamos a cumplicidade dos homens, percebemos que tanto
por questões históricas quanto sociais a lagrima está diretamente ligada ao
feminino.
O
conto relata a história de homens que até então viam o bar como um local de
descontração, até que um certo dia um dos homens chegou ao bar chorando o que
de certa forma causou espanto nos frequentadores do bar, em sensibilidade ao
ocorrido todos os homens se emocionaram e passaram a chorar, o comportamento
dos homens passou a mudar, vejamos: “Eles se encontravam por causa de alegrias.
No bar de Matakuane, os homens anedotavam, fabricando risadas. Um único móbil:
festejavam a vida”.
O
local que até então servia para alegria e risos passou a ser um local de
lamento e lagrimas, o macho aos olhos da sociedade não pode ser visto como um
ser frágil, o fato do o homem chorar acaba sendo reprimido tanto pela sociedade
quanto pelo próprio homem que acaba por de envergonhar em demostrar sentimento,
tiveram no ato de chorar uma espécie de libertação, vejamos: “Hoje quem passa
pelo bar de Matakuane pode certificar: chorar é um abrir do peito”. E o fato
estarem chorando juntos o ajudaram, pois perceberam que não tinha influencia
alguma em suas masculinidades.
5.1.4
“o rio das quatro luzes”
Por mais que
o texto esteja voltado por questões africanas, percebemos que as histórias se
cruzam com histórias ocorrentes em todo o mundo, no conto “o rio das quatro
luzes”, conhecemos a história de um menino, assim como grande parte dos
personagens do livro, silenciado, que ao ver na rua passar um enterro deseja
sua morte, deseja estar no lugar daquele cadáver, vejamos: “Vendo passar o
cortejo fúnebre, o menino falou: – Mãe: eu também quero ir em caixa daquelas.”.
Nesse momento destacamos principalmente a angústia sentida por uma criança que
sofre a falta de infância. A dura realidade do menino o faz desejar envelhecer
mais rápido.
O conto tem
como principais personagens um menino em que não é relatado seu nome, sua mãe,
seu pai e um personagem relevante para seu enredo que é seu avô, o seu avô por
notar a tristeza do neto e notar o desejo que o neto tinha em morrer pensou uma
maneira para que o menino se sentisse melhor e menos angustiado e lhe propôs
trocar de papel com ele. Nesse momento junto ao avô o menino começou a se
sentir criança sendo livre para viver suas fantasias e aventuras, no entanto o
inesperado acontece o senhor acabou por falecer, vejamos:
“Acompanharam o avô a casa e sentaram-no na cadeira da varanda. Era ali
que ele queria repousar. Olhando o rio, lá em baixo. E ali ficou em silêncio.
De repente, ele viu a corrente do rio inverter de direção. – Viram? O rio já se
virou. E sorriu. Estivesse confirmando o improvável vaticínio. O velho cedeu às
pálpebras.”.
A morte do homem fez com que o menino
voltasse a reviver as suas angústias, assim como o velho ver as águas do rio se
inverterem o menino ver sua vida voltar a ser como um dia foi, ele volta a ser
um jovem adulto novamente, o brolho dos olhos que havia surgido no menino
afundaram junto ao apagamento do brilho do olho de seu avô com a morte, os
quatro olhos que já foram felizes, os do menino e os do senhor, vejamos:
“E os seus
olhos se intemporaram em duas pedrinhas. No leito do rio se afundaram quatro
luzências. Da feição que fui fazendo, vos contei o motivo do nome deste rio que
se abre na minha paisagem, frente à minha varanda. O rio das Quatro Luzes.”
Percebemos
que havia uma maneira dura e de controlação por parte dos pais do menino, uma
vez que ele apenas se sentiu confortável de viver como criança ao lado de seu
avô.
O conto “O rio das quatro luzes” representa a
falta de infância e o amadurecimento precoce de uma criança forçado pela
sociedade, não apenas moçambicana, mas mundialmente que é representada na obra
como um todo.
- METODOLOGIA
Nossa metodologia se constituiu por meio da
pesquisa bibliográfica, na qual buscamos coletar dados de livros, revistas,
artigos etc., para embasar nossas discussões acerca dos aspectos relacionados a
figura feminina da obra de Mia couto.
Inicialmente realizamos a leitura do livro, o
qual escolhemos os contos que melhor trariam o nos objetivo inicial de observar
a representatividade feminina que trabalharíamos e a temática a qual iríamos nos empenhar em
analisar, após buscamos outras fontes que tratavam sobre a mesma temática que escolhida por nós, para
que pudéssemos ter um aporte teórico rico e nos proporcionar a possibilidade de
discussões, após realizamos a análise da temática no conto ligada a outras
pesquisas, e pontos de vista.
Após
realizamos a leitura e análise da obra, buscamos compreender, como ela foi
constituída, como as imagens da mulher era apresentada, como os opressores eram
apresentados, além de buscamos compreender a troco de que havia esse
silenciamento e opressão.
- RESULTADOS
Ao longo
deste trabalho, observamos que a obra de Mia Couto, nos apresenta uma visão
muito significativa sobre a mulher mostrando situações de opressões vividas
pela sociedade, destacando principalmente o silenciamento.
Compreendemos a obra de Mia Couto como sendo
muito importante para entendermos aspectos relacionados a sociedade, além de
serem significativos para se trabalhar literatura em sala de aula, enfocando
aspectos sociais.
A seguir
podem ser observados os resultados de forma clara e breve, da análise realizada
da obra, podendo ser observadas as principais características observadas na
obra a respeito do feminino:
|
AUTOR |
OBRA |
CONTOS |
PRINCIPAIS TEMÁTICAS |
|
Mia Couto |
O fio das missangas |
- A saia almarrotada - As três irmãs |
-A condição e posição feminina; -A voz feminina presente na sociedade. -O descaso, o silenciamento e a opressão que a
sociedade machista impõe a mulher; -O papel da mulher na sociedade colonizada de
Moçambique; -A submissão e o descaso vivido pelo ser
feminino; -A visão de dominação e superioridade do
masculino sobre o feminino; -O ato sexual enquanto obrigação; -O desejo de libertação sentido pela mulher. |
|
-Os olhos dos mortos |
-A violência doméstica; -A resistência da mulher; -A morte enquanto solução dos problemas; -A revolta; -O desejo de libertação. |
||
|
-Os machos lacrimosos |
-Masculinidade enquanto símbolo de força; -O homem visto pela sociedade; -O silenciamento; -A lagrima enquanto instrumento do sexo
feminino. |
||
|
-O rio das quatro luzes |
-O amadurecimento forçado pela sociedade; -O papel da criança em Moçambique; -A morte enquanto meio de libertação; - O distanciamento do pai do filho. |
- CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do que pudemos observar ao longo do
trabalho, podemos considerar que é possível que a literatura nos permite
diversas reflexões acerca das situações vivenciadas nas sociedades, o que se
torna de grande significância para se trabalhar em sala de aula, por aproximar
os alunos dos mais diversos contextos impostos pela sociedade. Diante do que
pudemos observar ao longo do trabalho, podemos considerar que é possível notar
a construção do indivíduo, seja mulher, homem, adulto ou criança ao longo dos
tempos. Vale destacar que o autor conta histórias que se passam por personagens
de várias idades e gêneros, o que nos mostra que os problemas causados pela
sociedade e causados pelos aspectos sociais não estão ligados propriamente a
apenas um ser, mas a toda uma sociedade. Percebemos com a análise que o espaço
da mulher é bastante restrito a casa e a submissão a figura masculina, notamos
ainda a falta da voz feminina a qual é privada de se impor, descrever e
escolher a sua posição perante a sociedade. Um fator importante é que nos
contos não temos as personagens com funções com prestigio na sociedade, mas
apenas restringidas aos afazeres domésticos e que não conseguiram atingir suas
liberdades e se foi assim feito apenas por meio da morte, notamos ainda o
conturbado espaço do homem em sociedade, sendo submisso a um ponto de vista
criado socialmente, lhe privando de se expor e colocar para fora uma voz de
liberdade por medo do julgamento social sob o aspecto da masculinidade e o
silenciamento de uma criança que é privado de viver a infância também por
questões sociais e que ver na morte a única saída para escapar desse fardo, uma
vez que se não é para se viver a infância não faz sentido a infância existir.
Desse modo, percebemos a importância desse estudo tanto para os estudos sobre a
literatura e cultura africana quanto para a importância da construção da
identidade da mulher, do homem e infantil, entendendo o espaço de cada
indivíduo.
Diante dos aspectos analisados, observamos a
mulher como sendo figura importantíssima na obra de Mia couto, verificamos que
ele busca retratar e dar voz as pessoas de um modo geral e que por muitas vezes
eram silenciadas. Verificamos que a mulher era submissa e tinha como principais
funções a realização de tarefas domésticas, o que nos permite compreender um
pouco do papel desempenhado pela mulher moçambicana e os resíduos da cultura da
sociedade ocidental e islâmica. Assim como o homem precisava se mostrar sempre
forte, sem poder demonstrar sensibilidade, pois era sua masculinidade que
estaria em jogo e as crianças acabavam por não viver suas infâncias da maneira
a qual esperavam, cheias de sonhos, fantasias e aventuras.
Logo, o
livro “O fio das missangas" é muito importante para o país, tendo em vista
que sua análise contribui em desvendar o contexto histórico do século XVI, em
especial os povos que viviam na América e é importante para o desenvolvimento
de estudantes de uma maneira que conheça tanto o universo feminino quanto
masculino podendo os respeitar por igual.
REFERÊNCIAS
COUTO, Mia. O fio das missangas.
São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
MACHADO, Cristina Vasconcelos. Construção
da representatividade feminina na obra O fio das missangas de Mia Couto.
Darandina Revisteletrônica - http://www.ufjf.br/darandina/. Anais do Simpósio
Internacional Literatura, Crítica, Cultura V: Literatura e Política, realizado
entre 24 e 26 de maio de 2011 pelo PPG Letras: Estudos Literários, na Faculdade
de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora.
PAULINO, Sandra da Silva. O fio
das missangas: a representação da voz feminina em Mia Couto. Monografia
submetida ao curso de Especialização em Literatura e Cultura Afro-brasileira e
Africana, da Universidade Estadual da Paraíba. Guarabira, 2011.
LITERATURA AFRICANA EM CONTOS: A DESIGUALDADE
SOCIAL REPRESENTADA NA OBRA A CIDADE E A
INFÂNCIA
Djael
Martins Pedro da Silva[14]
Guilherme
da Silva Vale[15]
RESUMO: Este artigo tem como objetivo salientar a importância da obra A cidade e a infância, bem como as
questões sociais expostas na obra pelo o autor José Luandino Vieira, com um
foco particular em uma análise dos contos Faustino
e A fronteira de asfalto, evidenciando
as temáticas sociais representadas nessas narrativas. Esta pesquisa também tem
como objetivo destacar a importância da obra na literatura africana de língua
portuguesa, assim como destacar o papel do gênero conto na composição da obra,
e a relevância desses temas em sala de aula.
Palavras-chave: Literatura africana; A cidade e a infância;
José Luandino Vieira; Conto.
ABSTRACT: The objective of this article is to points the importance of A cidade e a infância, also the social
questions exposed in work by the author José Luandino Vieira, with a special
focus in a analisis of the tales Faustino
and A fronteira de asfalto,
evidencing social thematics represented in this narratives. This research also
haves the objetive to highlight the importance of this work in portuguese
language's african literature, also to highlights the role of tale textual
genre in composition of this work, and the relevance of this themes in
classroom.
Keywords: Portuguese language’s african literature; A cidade e a infância; José
Luandino Vieira; Tale.
INTRODUÇÃO
A literatura africana de língua portuguesa possui uma grande variedade
de escritores consagrados, dos quais José Luandino Vieira se encontra entre os
mesmos. Possuindo uma sequência de obras que destacam seu nome entre as
literaturas de cunho social, e que lhe alçaram o prêmio Camões em 2006 (embora
rejeitado), Luandino dirige os rumos de sua escrita em um contexto em que a
Angola lutava contra a colonização portuguesa, e enxergava em sua sociedade,
uma contextualização de desigualdade social. Sua obra retrata aspectos que se
expandem desde a segregação social, até problemáticas como o preconceito racial
e semelhantes. Os contos que estruturam a obra A cidade e a infância assumem o papel de denúncia, e lançam à
sociedade, reflexões sobre a condição da mulher, relações de poder,
discriminação racial e outros temas que lançam olhar sobre estas chagas da
sociedade que se encontravam abertas no passado, com o decorrer dos séculos, e
continuam abertas até hoje. Esta pesquisa ainda traz uma análise de dois contos
específicos da obra, onde é mostrada uma observação de fatores ligados à
escrita social de Luandino vieira, como o racismo e o preconceito social
vivenciados pelos personagens, e a segregação socioespacial decorrente da desigualdade
social, estas que são problemáticas que representam os chagas abertas do meio
social.
Objetivos
Analisar pontos específicos da obra A cidade e a infância, do escritor José
Luandino Vieira. Entre esses pontos, estão: A representação dos excluídos, a
segregação social na narrativa, problemáticas de cunho social vividas pelos
personagens como racismo e a discriminação pela classe social.
Abordar a literatura africana de
língua portuguesa.
Promover uma abordagem do gênero
textual “conto” e lançar um olhar sobre a formação de leitores no espaço
escolar.
Promover um olhar sobre contos
específicos desta obra, entre eles: Faustino
e A fronteira de asfalto, lançando
sobre estes, um olhar de análise social e observando a construção da
representação destas temáticas.
Justificativa
A produção deste trabalho se justifica por
procurar aprofundar os estudos relacionados à literatura africana de língua
portuguesa, embasando-se em uma obra de um dos grandes escritores desta
literatura. Procurou-se lançar um olhar sobre o gênero textual “conto” e a
prática de leitura em sala de aula, apresentando estudos sobre este gênero e
analisando contos específicos desta obra, que possui um vasto contexto e
crítica social em sua composição. Procuramos levantar questões sobre esta obra
e sobre a literatura africana para que se reflita sobre o conteúdo do texto de
Luandino e sua ligação com a sociedade, a partir das problemáticas vividas
pelos personagens.
Metodologia
Para a produção deste artigo, o
conhecimento da obra integral A cidade e
a infância, se fez de suma importância. Estudos que analisassem de maneira
aprofundada os contos aqui estudados não foram encontrados, logo, este trabalho
assume nesta linha de pesquisa, um protagonismo voltado ao estudo destes contos
selecionados com a literatura africana de língua portuguesa e o gênero textual
desta obra em sala de aula. Para compor a estrutura de argumentações, além da
obra, foram utilizados teóricos/as que abordam: a literatura africana de língua
portuguesa, o gênero conto e recortes da obra para dissertar sobre o texto de
Luandino Vieira. A escassez de pesquisas relacionadas à obra A cidade e a infância, permitiu um maior
aprofundamento desta pesquisa em um viés social sobre a narrativa de Luandino.
- A OBRA
A obra A
cidade e a infância, escrita pelo escritor luso-angolano José Luandino
Vieira (este nome é um pseudônimo literário para seu nome real: José Vieira
Mateus da Graça), faz parte de sua sequência de produções literárias referentes
ao gênero conto. Esta obra é a união de 10 (dez) contos escritos separadamente
e com temáticas que embora distintas, possuem aproximação em relação às
abordagens expostas por um viés social.
Tendo a primeira versão desta obra publicada no
ano de 1960, Lisboa (após uma não sucedida tentativa de publicação em 1957),
esta produção marca a estreia deste escritor na literatura africana da época,
carregando em sua produção uma grande ligação com as lutas pela libertação de
Angola. Os contos de A cidade e a
infância possuem características que estruturam a escrita de José Luandino
Vieira, tais fatores ligam-se diretamente com a exposição de assuntos sociais
dentro das tramas dos contos: a paisagem urbana e o contexto de pobreza e
marginalidade em Luanda (capital da Angola), a exposição do convívio e da forte
tensão existente entre negros, brancos e mulatos; uma presente crítica à
modernização excludente (tal fator recebe atenção especial em um dos contos),
entre outros pontos singulares da narrativa deste grande nome da literatura
africana de língua portuguesa.
Esta obra traz uma série de breves
narrativas que são inspiradas também na infância do autor, este que teve a
infância vivida em bairros pobres de Luanda, e possuía contato com meninos de
raças que são representadas na sua obra: negros e mestiços. Dentro de sua
narrativa, fatores como a segregação social, racismo, representação de classes
excluídas, uma modernização excludente, e assuntos relacionados, recebem uma
representação baseada em situações que o próprio autor observara e que possui
ligação com o contexto social atual. A obra de José Luandino Vieira propõe uma
releitura às condições sociais de outrora que ainda se fazem presente em
diversos lugares, lançando à sociedade situações que fazem parte do cotidiano
das classes menos favorecidas.
A escrita de Luandino possui
singulares aspectos que vão desde a representação da oralidade presente na
escrita, do uso de termos regionalistas, a utilização de neologismos, até a
mudança de um foco de narrativa para um outro tema de maneira súbita. A representação
de uma infância ligada ao contexto de desigualdade social expressa-se de
maneira profunda nos contos que completam a obra, e assim, tais fatores
estruturam A cidade e a infância como
uma obra além da literatura, mas social, política e histórica, este último por
haver ligação com o contexto histórico de lutas contra a colonização
portuguesa.
- O GÊNERO TEXTUAL “CONTO” E A FORMAÇÃO DE LEITORES EM SALA DE AULA
2.1 . A FORMAÇÃO DE LEITORES EM SALA DE AULA
Lançando-se um olhar sobre o sistema educacional
atual, é perceptível que dentro do espaço escolar, a leitura se encontra
distante das práticas exercidas pelo alunado. As abordagens que são expostas em
sala de aula, sejam nas aulas de língua portuguesa e/ou em outras disciplinas,
em grande parte não está atraindo os estudantes e despertando o gosto
consciente pela prática da leitura; muitos discentes encaram as atividades
solicitadas pelos professores referente à leitura, como repetitivas cobranças
de resumos e fichas de leituras. Este sistema coloca a prática de leitura como
sendo não-atrativa aos olhos dos discentes, isto implica numa perca de
aproveitamento do conteúdo daquilo que se lê, a leitura passa a ser algo
automático; passando a ser (quando feita) apenas uma decodificação das
palavras, sem compreensão do texto.
O professor em sala de aula tem que
atuar como um mediador entre o texto literário e seus alunos; procurando
instigar nestes, o prazer pela realização da leitura, e além disto, a
compreensão e reflexão daquele texto trabalhado em sala de aula. É necessário
que se busque por metodologias que despertem o anseio da prática de leitura nos
jovens estudantes, rompendo com o ensino tradicional de apenas solicitar a
leitura de uma determinada obra, sem preparar e contextualizar o discente para
a prática e o conhecimento daquele texto.
Seguindo o pensamento de Fischer (2005),
entende-se que durante grande parte da história, ler significava falar. Com
essa fragilidade associada ao significado de ler, instruções e assuntos
importantes como acordos verbais podiam ser adulterados, e para que se pudesse
registrar tais fatores e os imortalizar, surgiu a necessária escrita. A escrita
surge como a concretização da língua oralizada, auxiliando no arquivamento de
informações, e servindo como consulta cada vez que necessária. A finalidade da
documentação escrita, é a leitura oral.
A leitura sempre foi diferente da escrita. A
escrita prioriza o som, uma vez que a palavra falada deve ser transformada ou
desmembrada em sinais representativos. A leitura, no entanto, prioriza o
significado. A aptidão para ler, na verdade, pouco tem a ver com a habilidade
de escrever. (FISCHER, 2005, p. 09)
O autor ainda afirma que a leitura é
a capacidade de se extrair sentidos de símbolos impressos. A leitura quando realizada
corretamente, busca a compreensão total daquilo que se apresenta dentro de um
texto, expandindo-se além da decodificação dos códigos linguísticos, procurando
explorar os significados das sentenças que estruturam um fragmento e/ou um
texto literário. Entende-se então pela compreensão e capacidade de extrair
sentidos.
A leitura não é apenas a união do som ao
grafema, o que ocorre apenas no nível mais básico. O significado está
envolvido, e de modo fundamental. Em um nível mais avançado de percepção, a
leitura pode, até mesmo, exprimir significado isoladamente, sem recorrer ao
som. (FISCHER, 2005, p. 11)
Para que se possa formar bons
leitores, Kleiman (2012) aponta que é necessário despertar no aluno uma paixão
pela leitura. Este pensamento aponta para a realidade de jovens não-leitores em
um contexto atual, pois justamente pela não atração pelo ato de ler, o sistema
educacional enfrenta uma escassez de discentes que frequentam os espaços de
leitura como bibliotecas e semelhantes, isso acarreta na dificuldade em sala de
aula; uma vez que não havendo a prática de leitura, o discente encontra
dificuldade em trabalhos que integrem a utilização de textos, e de atividades
que vão da interpretação textual à escrita.
2.2.
GÊNERO CONTO
De acordo com o teórico Saraiva
(2001), a indicação de narrativas curtas para leitores iniciantes, seja aqueles
que estão em fase de aquisição da leitura, ou aqueles que estão iniciando a
prática de leitura, independentemente da idade, se dá por fatores que vão desde
a simplicidade da linguagem encontrada nestes escritos, até a brevidade da
narrativa que a distância da complexidade de um romance, e a torna mais
acessível e compreensível aos leitores iniciantes.
Os temas dessas obras relacionam-se a vivências
infantis (brincadeiras, passeios, pequenas aventuras), aspectos ligados à
interioridade das personagens (busca de identidade, insegurança e medos) ou
relações interpessoais (desentendimentos familiares e solidariedade). (SARAIVA,
2001, p. 48)
A utilização de textos curtos para
leitores iniciantes, contém uma série de fatores positivos que gradativamente
concretizam uma aquisição melhor por parte daquele que está iniciando no mundo
da leitura. Inicialmente porque os textos curtos são fáceis de serem
compreendidos, não possuem um grande número de núcleos narrativos e a numeração
de personagens e situações vivenciadas por estes, são limitadas. Possuindo um
enredo simples, os leitores iniciantes encontram um texto de fácil compreensão,
e que gradativamente podem ir avançando até poderem fazer a leitura de uma obra
mais complexa.
De acordo com Soares (1993), as
principais diferenças entre o gênero conto e o romance dizem respeito a
aspectos estruturais e em relação à extensão.
Ao invés de representar o desenvolvimento ou o
corte na vida das personagens, visando a abarcar a totalidade, o conto aparece
como uma amostragem, como um flagrante ou instantâneo, pelo que vemos
registrado literariamente um episódio singular e representativo. (SOARES, 1993,
p. 54)
Ao referir-se ao conteúdo predominante
do conto, Gotlib (1990) defende que o conto não tem necessariamente um
compromisso em narrar um acontecimento passado; dentro de sua narrativa, o
autor pode inserir fatores originados da ficção. Desta forma, o conto:
Não se refere só ao acontecido. Não tem
compromisso com o evento real. Nele, realidade e ficção não têm limites
precisos. [...] A esta altura, não importa averiguar se há verdade ou
falsidade: o que existe é já a ficção, a arte de inventar um modo de se
representar algo. (GOTLIB, 1990, p. 12).
Com base nessa ideia, podemos
considerar que o conto pode sim ser uma boa opção para se trabalhar em sala de
aula como objetivo de buscar estimular a leitura por parte dos alunos.
- O ENSINO DE LITERATURA AFRICANA NO BRASIL
No Brasil, com base na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira
(LDB), mais especificamente com base na Lei 10.639/03, alterada pela Lei
11.645/08, é obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e
africana em todas as escolas, privadas e públicas, do ensino fundamental e
médio. Dessa forma, o ensino de literatura africana nas escolas de nosso país
não é facultativo, e sim obrigatório.
De acordo com Barbosa (1996), o ensino da literatura situa-se entre a
leitura e a crítica, e “é proposto, por um lado, como decorrência da (leitura)
e por outro, como encontrando seu prolongamento na crítica”. (BARBOSA, 1996 p.
59). Assim, é defendida a ideia de que o ensino da literatura estimula a
construção de um pensamento crítico, e essa visão é extremamente importante
para a compreensão da suma importância não só da literatura, mas também de
práticas de estímulo a leitura em sala de aula.
Barbosa (1996) salienta também a importância de leituras e releituras de
obras literárias como forma de aquisição de conhecimentos sobre épocas,
contextos e culturas diferentes da realidade do leitor, afirmando que:
[...] cada século teve o seu Dante, o seu
Shakespeare, o seu Cervantes, sem
que, entretanto, sejam autores inteiramente diferentes daqueles que foram lidos
e apreciados por seus públicos imediatos. São obras que atravessam épocas... e
estabelecem um grau de valor com referência a leitura ou a releitura que delas
venham a ser feitas. Nesse sentido essa leitura, é quase sempre uma releitura
daquilo que significa a literatura, para o presente em que se situa o leitor.
(BARBOSA, 1996, p. 77-78).
Com base nessa visão, tratando-se obra A cidade e a infância, esta possui uma gama de representações da
sociedade africana, mais especificamente da capital de Angola, Luanda, onde o
autor descreve através de seus contos a realidade daquele país, cuja sociedade
permeada de preconceitos e desigualdades, dificultava drasticamente a vida da
população menos favorecida. É inegável o alto grau de representatividade social
dos contos presentes na obra de Luandino, dentre os dez contos desta,
destacamos os contos Faustino e A fronteira de asfalto bem como as
problemáticas que tais narrativas expõem, para uma análise e discussão sobre
como levar tais contos para sala de aula.
- O CONTO FAUSTINO: DISCUSSÕES
SOCIAIS SOBRE O PERSONAGEM
A obra A cidade e a infância, é uma coletânea de 10 (dez) contos escritos
pelo José Luandino Vieira, escritor angolano de literatura portuguesa. Sua obra
possui uma diversidade de temas com caráter social que se encontram inseridos
no enredo de suas narrativas; estas temáticas de cunho social vão desde a
representação da condição da mulher (representada em determinados fatores por
alguma personagem), até assuntos como segregação social e o racismo.
O conto Faustino possui um narrador em primeira pessoa, a trama gira em
torno da narração da vida deste personagem. O ambiente em que esta narrativa se
desdobra é o local de trabalho do personagem que nomeia o conto. Esta narrativa
se inicia expondo a identidade do protagonista, e expõe a relação entre um
empregado negro e seus empregadores (o destaque para a cor da pele deste
personagem se faz necessária, uma vez que esta é a causa das implicações e
provocações estimuladas pelo conto), a submissão necessária, a exploração e as
relações de poder.
Faustino é o seu nome. Faustino
Antônio.
O dia inteiro ele tira o boné, abre
a porta do elevador, fecha a porta do elevador, tira o boné, abre a porta do
elevador.
- Bom dia, m’nha senhora!
- Muito obrigado m’nha senhora!
Às vezes descansa. O prédio só tem
três andares. Mas há os miúdos todos que brincam no elevador. E ele é o
responsável. Pelo elevador e pelos meninos” (VIEIRA, 2007, p. 79)
A construção deste personagem se
configura como membro de uma classe social não privilegiada, no caso, um jovem
negro, e sua função é descrita como operador do elevador. No fragmento acima, é
descrito a condição de repetição de seu ofício, e a exposição por parte deste
personagem de um comportamento afável, procurando sempre exercer sua função com
o respeito aos seus superiores.
Embora a construção da personalidade
deste personagem seja descrita como gentil; as condições ligadas à raça e à
classe social, são mostradas na narrativa como obstáculos enfrentados pelo
personagem. Nos parágrafos iniciais, é exposto uma situação na qual após levar
um desses “miúdos” à sua mãe, por estar causando desordem no elevador, Faustino
é intimidado e até ameaçado de demissão; nesta ocasião, sua cor é citada com
desprezo, em um discurso de teor racista: “Se tornas a maltratar o meu filho,
já sabes. Vou lá abaixo ao escritório do teu patrão e tu vais p’ra rua. Não
querem lá ver o negro” (VIEIRA, 2007, p. 80).
A obra de Luandino explora em seus
personagens, o problema social do racismo que cria uma separação e até uma
tensão entre brancos e negros, um reflexo de aspectos sociais dentro da
narrativa literária. Esta abordagem social também é notória em uma narrativa de
outro conto deste livro, no conto Quinzinho,
onde há a construção de um trecho que provoca o leitor sobre o lugar das
classes sociais menos favorecidas dentro da sociedade: “Operário não pode
sonhar, Quinzinho, não pode. A vida não é para todos. Tudo realidades vivas,
cruéis. A luta com a vida” (VIEIRA, 2007, p. 87). Este outro personagem
(Quinzinho), também vivera a mesma luta que Faustino em relação aos
preconceitos sociais ligados à condição social e à cor da pele.
A condição social simples é exposta
por meio da realidade vivida por este personagem. Sendo um personagem que está
em processo de aprendizagem, e almeja continuar com seus estudos, em seus
poucos possíveis momentos de leitura, Faustino se depara com situações que
divergem da sua condição social, “e os olhos mostram-lhe casas novas, casas
nunca vistas no seu mundo. Nem mesmo no bairro dos brancos” (VIEIRA, 2007, p.
80); a leitura expande os horizontes deste personagem que possuía um
conhecimento limitado à sua realidade. A literatura promove no leitor, a
descoberta e o alargamento de horizontes que antes lhe era limitado; Cândido
afirma que para que uma sociedade seja justa “pressupõe o respeito pelos direitos humanos, e a fruição
da arte e da literatura em todas modalidades e em todos os níveis é um direito
inalienável” (CÂNDIDO, 1989, p. 126). A representação destas duas
realidades: o mundo aos olhos das classes pobres, e o mundo aos olhos das
classes ricas, estabelece um contraste sobre as desigualdades sociais que
delimita para o primeiro grupo, a existência a meios básicos, enquanto que
estabelece uma realidade supérflua para os dominantes do capital.
A declaração universal dos direitos
humanos afirma que:
“Toda pessoa tem direito à educação.
A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar
fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional
deve ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a
todos em plena igualdade, em função do seu mérito”. (DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS
DIREITOS HUMANOS)
Entretanto, este direito que também
compete ao personagem Faustino lhe é retirado. O contexto social da Angola
naquele momento, não abria espaço para que um negro adentrasse o mesmo espaço
intelectual que a classe branca. Uma das formas de dominação, é manter o
oprimido no cárcere da ignorância, para que não havendo mudança, e ascensão
através do estudo, a classe opressora possa se manter na sua posição de poder;
esta censura relacionada às práticas educacionais é exposta em trechos
semelhantes a este:
“Então hoje não regas as avencas e a
relva? As flores estão quase murchas. Caramba! P’ra que é que te dão duzentos
angolares por mês? Já não tens idade para estudar. Estudar não é para ti.
Trabalha, trabalha. Tens de lavar as escadas... (VIEIRA, 2007, p. 81)
Dentro do discurso de um destes
empregadores, há a clara exibição de uma necessidade de manter as coisas como
estão, isto consiste em não permitir/incentivar uma ascensão deste personagem
por meio do estudo. A figura do personagem Faustino ergue-se como sendo uma
oposição ao sistema normativo; uma vez que sendo um negro, além de querer,
gosta de estudar e enxerga nessa prática, um meio de ascensão social.
Luandino Vieira procura inserir em
sua obra, questões que fazem parte da representação dos excluídos. Seu conto
“Faustino” exibe um pouco deste personagem que depara-se constantemente com a
opressão relacionada à sua classe social, à sua cor (aqui pode-se inserir a não
aceitação de seu desejo e gosto pelos estudos, aos olhos dos empregadores), a
sua desvalorização enquanto funcionário, e o desejo (por parte de seus
superiores) de sua não ascensão social, para que estes que retém o capital
possam continuar no controle. Estas abordagens são questões atemporais e
universais, uma vez que a sociedade ainda dissemina discursos racistas contra
pessoas negras, e que estes se agravam quando a vítima pertence a uma classe
social menos favorecida.
5.
O CONTO A FRONTEIRA DE ASFALTO E A SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL REPRESENTADA NA
OBRA
Ao fazermos uma leitura não só de
contos isolados, mas de todo a obra em si, nota-se a escolha de Luandino em
querer abordar não só um, mas diversos temas referentes ao meio social que
desejava representar. Como é o caso dos contos Bebiana e Marcelina, que
nos apresenta um pouco da vida da mulher em camadas sociais mais baixas em seu
país, enquanto contos como Faustino e
Quinzinho nos traz histórias de
jovens rapazes vítimas de racismo e do preconceito social. Contudo, diante
dessa diversificação de problemáticas expostas nas narrativas presentes no
livro, uma delas, notoriamente, se destaca como sendo uma das mais trabalhadas
pelo autor, se não a mais trabalhada dentre todas elas, que é a segregação
socioespacial, mais especificamente a segregação urbana.
Se buscarmos o significado da palavra segregação em si, de acordo com
Dicionário Escolar da Academia Brasileira de Letras, organizado por
Bechara(2012), o verbo “segregar” apresenta o sentido de “colocar(-se) à margem
de; apartar(-se), isolar(-se); lançar para fora; excretar, expelir, expulsar
[...].” (BECHARA, 2012, p. 1166). Seguindo essa concepção, Castells (1977)
define a segregação socioespacial da seguinte forma:
[...] Tendência à organização do espaço urbano
em zonas de forte homogeneidade social interna e de forte disparidade social
entre elas, entendendo essa disparidade não somente em termos de diferença, mas
de hierarquia. (apud MIÑO, 1997, p. 2).
Com base nessa visão, segregação socioespacial é o processo de separação
de determinadas classes sociais por território, sendo a segregação urbana
quando esse processo ocorre neste determinado meio. É do processo de segregação
social urbana que surgem as periferias, os bairros pobres, as zonas de risco,
em contraponto aos condomínios elitizados, os bairros nobres, áreas de maior
estima social, geralmente com base nesta tendência hierárquica de organização
do espaço urbano citada por Castells.
A segregação social é tratada em muitos dos contos da obra de Luandino
de maneira sutil, como é o caso do conto Bebiana,
onde a personagem Don’Ana, em um diálogo com o protagonista, começa a
contar-lhe uma história do passado, dizendo: “[...] Já morei diante da vossa
casa naqueles tempos em que o musseque Braga não era aquele bairro de brancos
ricos [...]” (VIEIRA, 1960, p. 63), onde ela refere-se ao antigo bairro onde
morava como sendo um bairro atualmente elitizado, e que ela já não pode mais
adentrar em tal região, por ser tratada como sendo parte de uma classe social
considerada inferior, como ela mesmo comenta fazendo referência a cor do
protagonista em um trecho anterior a este acima citado, onde diz “o menino é
branco, gosta das minhas filhas porque são mulatas. Eu sei... mulato é mulato.
A gente pode desrespeitar mesmo”. (VIEIRA,1960, p. 62).
No conto que dá título à obra, A
cidade e a infância, ao descrever o ambiente onde se passa a narrativa, o
narrador ressalta que “as casas de pau-a-pique e zinco foram substituídas por
prédios de ferro e cimento, a areia vermelha coberta pelo asfalto negro e a rua
deixou de ser a Rua do Lima. Deram-lhe outro nome” (VIEIRA, 1960, P. 27),
fazendo uma alusão as construções decorrentes da transformação espaço
geográfica, que fez de um determinado local, mais especificamente uma rua,
muito presente na vida dos personagens envolvidos na trama no passado,
tornar-se algo totalmente desconhecido para eles, pois estes, assim como
Don’Ana, tornaram-se vítimas deste mesmo estigma social acarretado pela
segregação, e com isso, não puderam mais retornar a tal região.
Essas sutis menções ao fenômeno da segregação socioespacial não só
aparecem nestes contos, mas também podem ser encontradas em contos como Faustino, Quinzinho e Encontro de acaso.
Entretanto, vale ressaltar que dentre os dez contos da obra, um deles, é
dedicado totalmente a essa questão de segregação, que é o conto A
fronteira de asfalto. Este conto trabalha a questão da segregação desde o
título, sendo a fronteira de asfalto uma metáfora referindo-se à rua asfaltada
que separa o bairro pobre da região elitizada presentes na trama. Como é
descrito neste trecho a seguir, quando Ricardo, um dos protagonistas da
narrativa, um garoto negro que após uma discussão com sua amiga, Marina, a
outra protagonista da narrativa, uma menina branca que residia no bairro rico,
retira-se do local:
Virou os olhos para o seu mundo. Do outro lado
da rua asfaltada não havia passeio. Nem árvores de flores violeta. A terra era
vermelha. Piteiras. Casas de pau-a-pique à sombra de mulembas. As ruas de areia
eram sinuosas. Uma tênue nuvem de poeira que o vento levantava, cobria tudo. A
casa dele ficava ao fundo. Via-se do sítio donde estava [...]. (VIEIRA, 1960,
p. 40).
É nessa ambientação que se passa a narrativa do conto A fronteira de asfalto: uma rua
asfaltada que serve como marca divisória das duas diferentes regiões urbanas,
onde de um lado encontra-se o bairro de Marina, a menina branca, um bairro
elitizado povoado por pessoas da alta sociedade; enquanto do outro lado,
encontra-se a região onde Ricardo mora, um espaço de estruturas precárias onde
moram pessoas pobres e carentes. Com isso, fica evidentemente nítido na
narrativa a divisão espacial proposta pelo conceito da segregação urbana.
Essa metáfora da fronteira de asfalto é aludida durante todo o conto,
como quando, posteriormente a tal discussão entre Ricardo e Marina, a menina,
enfurecida, vira as costas para o amigo, e o narrador descreve que a menina
“[...] Depois, com passos decididos atravessou a rua, pisando com raiva a areia
vermelha e sumiu-se no emaranhado de seu mundo.” (VIEIRA, 1960, p. 41), com o
termo “seu mundo” referindo-se a área onde mora a menina rica como sendo um
espaço particular dela, longe do alcance de Ricardo, este que por pertencer a
uma diferente classe social não poderia visitar, ou sequer aproximar-se de tal
região.
Após esse momento, outra alusão a metáfora da fronteira de asfalto pode
se apresenta, quando Marina põe-se a ponderar sobre a situação de seu amigo e a
sua:
[...] E subitamente ficou a pensar no mundo para
lá da rua asfaltada. E reviu as casas de pau-a-pique onde viviam famílias
numerosas. Num quatro como o dela dormiam os quatro irmãos de Ricardo [...].
(VIEIRA, 1960, p. 42).
Aqui novamente o narrador menciona a ideia de mundos diferentes, desta
vez referindo-se a menina e sua concepção sobre o local onde Ricardo morava
como sendo algo totalmente alheio a sua realidade. Não só essa segregação
espacial chega a trazer perturbações a menina, como também sua família a
repreende por manter contato com alguém como Ricardo, como quando a mãe de
Marina lhe dá um sermão dizendo: “[...] Marina, já não és nenhuma criança para
que não compreendas que a tua amizade por esse teu amigo Ricardo não pode
continuar. Isso é muito bonito em criança. Duas crianças. Mas agora... um preto
é um preto [...]” (VIEIRA, 1960, p. 42), considerando Ricardo como um ser de
classes inferiores, de maneira explicitamente preconceituosa e racista.
Nota-se então que a segregação socioespacial, neste caso a segregação
urbana está presente no conto A fronteira
de asfalto desde seu título, como já mencionado, passando pela ambientação,
pelas ideias dos personagens, até em metáforas que aludem a tal separação
hierárquica. Juntamente com o fato de que tal ideia também está presente em
outros contos da obra, mesmo que de forma menos abrangentes, fica claro o
enfoque dado pelo autor à essa problemática diante das diversas outras questões
sociais tratadas nos contos presentes na obra A cidade e a infância.
Esse destaque pelo autor ao fenômeno da segregação ocorre pela posição
tomada por Luandino durante a época em que o livro foi lançado. Participante do
MPLA (Movimento Popular Libertação de Angola), que lutava pela independência do
país, Luandino utilizou a literatura para denunciar problemas presentes no dia
a dia das pessoas menos favorecidas em seu meio social, e sua aversão ao
movimento de colonização dos portugueses no país, estes sendo os responsáveis
pela fomentação da desigualdade social no país, estimulando a segregação socioespacial.
- CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base nas análises destes dois contos, nota-se que a obra de Luandino
expõe de maneira extremamente abrangente as problemáticas sociais vivenciadas
pelo povo angolano. A obra A cidade e a
infância nos traz narrativas reflexivas e profundas sobre aspectos sociais
que em nenhum momento devem ser ignorados.
É indiscutível também a importância da literatura africana de língua
portuguesa, seja ela no ensino de literaturas no Brasil, até no fator
representativo da sociedade, esta possui um valor cultural e histórico que
jamais deverá ser ignorado. As discussões, ideias, e argumentos expostos nesta
pesquisa, somente enfatiza tais características valiosas da literatura
africana, com foco nos contos de Luandino, estes que denunciam diversas
situações de desigualdade em suas narrativas.
Luandino nos mostra como questões sociais podem ser trabalhadas de
maneira eficaz com o gênero conto. Narrativas como Faustino e A fronteira de
asfalto lançam um olhar profundo sobre problemáticas presentes não só na
sociedade africana, mas também no mundo inteiro, e por isso ganharam um cunho
representativo da obra e um destaque especial nesta pesquisa. Vale lembrar, que
todos os outros contos da obra também fazem denúncias, e todas elas possuem
valor e caráter representativo social.
- REFERÊNCIAS
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João Alexandre. A Biblioteca Imaginária.
São Paulo: Ateliê Editorial, 1996. p. 59 e 77-78.
BECHARA,
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uma leitura do conto “Faustino”, de José Luandino Vieira. Disponível em:
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GOTLIB, N.B.
Teoria do conto. São Paulo: Ática,
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UMBERLINO,
Cristiane da Silva; PEREIRA, Danglei de Castro. O ensino de literatura africana em língua portuguesa e suas
perspectivas. In: Congresso Internacional 2018: Circulação, Tramas e
Sentido na Literatura. Brasília, 2018.
VAZARIN,
Valdéres Bilhas. Oralidade na obra A
cidade e a infância de Luandino Vieira. Dissertação (Mestrado em Letras) –
Instituto de Biociência, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual
Paulista Júlio de Mesquita Filho”. São José do Rio Preto, 2019. p. 84-87.
VIEIRA, J. L. A cidade e a
infância: contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
A
LITERATURA AFRICANA EM SALA DE AULA: MULTICULTURALIDADE ENTRE ÁFRICA E BRASIL
Brisa Laudicéia do Couto Lima[16]
Erlane da Silva[17]
Janicleide dos Santos Bastos[18]
RESUMO
Este trabalho trata da Literatura
africana em sala de aula; da importância do autor Agostino Neto e de suas obras
para essa enriquecedora literatura, trazendo reflexões e ideias do artigo de
Airton Souza de Oliveira, intitulado “A literatura de testemunho na expressão
poética do poeta Agostinho Neto”. Dessa forma, este artigo tem como objetivo
principal a inserção da literatura africana em sala de aula; o conhecimento
acerca do movimento conhecido como negritude; também a reflexão a respeito de
como o professor de língua portuguesa precisa trabalhar a literatura africana
em sala de aula; além de abordar a sua importância no contexto escolar e
social. Abordaremos a vida e a obra de Agostinho Neto e analisaremos alguns de
seus poemas inseridos no livro “Poemas de Angola”. E por fim, elaboraremos um
plano de aula detalhado de como seria trabalhado as obras de Agostinho Neto no
ambiente escolar, trazendo um olhar histórico, para refletirmos o quão
importante é trabalhar a Literatura africana na atualidade.
PALAVRAS-CHAVE:
LITERATURA AFRICANA. AGOSTINHO NETO. SALA DE AULA
ABSTRACT
This paper deals with African
Literature in the classroom and the importance of the author Agostino Neto and
his works for this enriching literature. Its main objective is the insertion of
African literature in the classroom and the knowledge about the movement known
as negritude; and also the reflection about how the Portuguese language teacher
needs to work African literature in the classroom and its importance in the
school and social context. We will approach the life and work of Agostinho Neto
and analyze some of his poems in the book "Poems of Angola" and a
detailed lesson plan of how the works of Agostinho Neto would be worked in the
school environment. Bringing a historical look, to reflect how important it is
to work African Literature today.
KEYWORDS:
AFRICAN LITERATURE. AGOSTINHO NETO. CLASSROOM.
INTRODUÇÃO
É a partir da aprovação da lei nº 10.639, realizada no dia 09 de janeiro
de 2003, a qual insere o estudo da literatura africana – bem como sua história
e cultura – no ensino fundamental e médio das escolas brasileiras, que faz-nos
refletir acerca de como a literatura mencionada nasceu e criou notoriedade não
só nas escolas, como também no meio acadêmico e de pesquisas.
É indubitável que a literatura africana
de língua portuguesa vem atingindo destaque por meio de suas obras que estão
inseridas no meio educacional. Entretanto, esse reconhecimento tem suas raízes
no movimento conhecido como Negritude, corrente literária que exalta os valores
culturais dos povos negros, assim como a população afro- descendentes que foram
vítimas da opressão colonialista.
A partir disso, podemos refletir a respeito de como o professor de
língua portuguesa precisa/pode trabalhar a literatura africana em sala de aula,
tendo como perspectiva o olhar sensível à multiculturalidade do Brasil, assim
como a influencia africana no nosso cotidiano. Portanto, este trabalho tem como
objetivo primordial a elaboração de um plano de aula que contemple a literatura
africana no ensino de Língua Portuguesa por meio da obra do escritor Agostinho
Neto: Poemas de Angola; além de fazer um estudo diacrônico do reconhecimento e
notoriedade da literatura mencionada, e por fim, compreender a
interdisciplinaridade entre as duas vertentes analisadas.
Em 11 de novembro
de 1975 Angola é declarada independente e Agostinho Neto é proclamado seu
primeiro presidente, continuando Comandante-em-Chefe das FAPLA e Presidente do
MPLA. Neto alinha a MPLA ao bloco
socialista e
estabelece um regime mono-partidário, inspirado no modelo então praticado nos
países do Leste Europeu. No que se refere à poesia de Agostinho Neto, suas
obras apresentam imagens poéticas das vivências do homem angolano, abordando o
passado, o presente e o futuro. Como podemos observar no poema a seguir:
Havemos de Voltar
Às casas, às nossas
lavras
às praias, aos nossos
campos
havemos de voltar
Às nossas terras
vermelhas do café
brancas de algodão
verdes dos milharais
havemos de voltar
Às nossas minas de
diamantes
ouro, cobre, de
petróleo
havemos de voltar
Aos nossos rios,
nossos lagos
às montanhas, às
florestas
havemos de voltar
À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às
fogueiras
havemos de voltar
À marimba e ao
quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar
À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar
Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente.
Percebemos através do poema de Agostinho Neto que o autor aborda o
sofrimento que os angolanos passaram no período da colonização e a esperança de
encontrar a luz e o sentido da vida. Além da necessidade
de lutar, sonhar pela esperança da independência, lutando por uma nova Angola e
reconquistar sua identidade. As obras de
Agostinho Neto obtinham um reconhecimento esplêndido, como podemos observar.
“A poesia de Neto traz o reconhecimento de que
nunca se está só, de que não se pode ignorar a presença do outro, mesmo que o
outro reduza suas possibilidades de ser. O outro, nas palavras de Agostinho
neto, mistura-se ao Eu-angolano, define-o, mas não lhe rouba as origens.
Antropofagicamente, o outro é assumido, compondo a imagem autêntica do ser
angolano contemporânea: ser África porque, ‘calibanescamente’, o outro – que
historicamente determinou os desvios da cultura originária angolana – se fez
presença no corpo de Angola. Ser África dos caminhos entrecruzados, mas
fazer-se África.” (“O Eu e o Outro em Sagrada Esperança” de Marcelo José
Caetano – Caderno CESPUC de pesquisa PUC – Minas – BH, n.5, abr.1999)
HISTÓRIA
DA LITERATURA AFRICANA:
MOVIMENTO NEGRITUDE
O movimento negritude foi concebido fora da África. Pode ter surgido nos
Estados Unidos, passando pelas Antilhas, depois chegou à Europa e chegou à
França, onde adquiriu corpo e foi obtido e sistematizado. Desde então, o
movimento se expandiu para toda a África negra e América (incluindo o Brasil),
transmitindo assim esta mensagem entre a diáspora negra. O movimento negritude
é uma tendência literária que reúne escritores negros dos países que foram
colonizados pelos franceses. O objetivo da Negritude é valorizar a cultura
negra em países africanos ou descendentes de afrodescendentes vítimas da
opressão colonial.
O afro-americano WEB Du Bois (1868-1963) é considerado um defensor do
pan-africanismo. O pan-africanismo é um movimento político e cultural que não
só ajuda os países africanos a fugir do domínio colonial, mas também estabelece
a unidade e as lutas africanas. Como Du Bois foi um dos primeiros líderes a
defender veementemente o orgulho racial e o retorno à ancestralidade negra, ele
foi considerado um símbolo do movimento que conhecia o pai simbólico de
movimento de tomada de consciência de ser negro. Embora o termo negritude tenha
sido criado somente anos mais tarde. Considera-se geralmente que foi René
Maran, autor de Batouala, o precursor da negritude. Todavia, foi Aimé Césaire
quem criou o termo em 1935. Com este conceito, primeiro declarou a identidade
negra e sua cultura diante da cultura francesa dominante e opressora.
AGOSTINHO
NETO E SUA OBRA “POEMAS DE ANGOLA”
Antônio
Agostinho Neto, primeiro presidente da República de
Angola, era médico de profissão, poeta e um líder. Nasceu em 17 de
setembro de 1922 em Kaxicane, em Angola no Continente Africano e morreu num
hospital em Moscovo, em 10 de setembro de 1979, filho de Agostinho Neto e Maria
da Silva Neto, que em 1934 o colocou para estudar na escola primária e em 1937
inicia seus estudos secundários na escola Liceu Salvador Correia. Ao concluir
seus estudos, foi contratado pelos serviços administrativos da África para
servir como funcionário dos serviços de saúde. Assim, Agostinho pode ampliar
sua visão dos problemas que eram pertinentes naquela época.
Com o tempo, deixa a Angola e parte para Portugal com o intuito de frequentar
a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Lá, Agostinho torna-se um
dos fundadores da secção Casa dos Estudantes do Império (CEI). Na CEI,
Agostinho funda a revista Movimento com a ajuda de Lúcio Lara, Orlando de
Albuquerque e o grupo “Vamos descobrir Angola”, o qual deu origem ao “Movimento
dos Jovens Intelectuais”. Anos depois, por volta de 1948 ganha uma bolsa de
estudos e acaba transferindo a matrícula para a Faculdade de Medicina da
Universidade da Lisboa, mas permanece com suas atividades no CEI. Nesse mesmo
ano foi preso pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), em
Lisboa, quando estava recolhendo assinaturas para a Conferência Mundial da Paz,
onde ficou preso por três meses.
No ano de 1951 foi eleito representante da Juventude das Colônias
Portuguesas (JCP). Em 1955 foi novamente preso por suas atividades políticas no
JPC, sendo condenado a 18 meses de reclusão. Com isso, houve uma mobilização de
diversos intelectuais em seu apoio, tais como Simone de Beauvoir, François
Mauriac, Jean-Paul Sartre e o poeta cubano Nicolás Guillén. Ao ser liberto,
dedicou-se aos estudos e em 27 de outubro de 1958 concluiu sua licenciatura em
Medicina pela Universidade de Lisboa. Casou-se com a escritora, poetisa e
jornalista portuguesa Maria Eugenia Neto em 1958, conhecendo-a num circulo de
escritores dez anos antes.
Em 11 de novembro
de 1975 Angola é declarada independente e Agostinho Neto é proclamado seu
primeiro presidente, continuando Comandante-em-Chefe das FAPLA e Presidente do
MPLA. Neto alinha a MPLA ao bloco
socialista e
estabelece um regime mono-partidário, inspirado no modelo então praticado nos
países do Leste Europeu. No que se refere à poesia de Agostinho Neto, suas
obras apresentam imagens poéticas das vivências do homem angolano, abordando o
passado, o presente e o futuro.
Nos poema de Agostinho Neto o autor
aborda o sofrimento que os angolanos passaram no período da colonização e a
esperança de encontrar o sentido da vida. Além da necessidade
de lutar, sonhar pela esperança da independência, lutando por uma nova Angola e
reconquistar sua identidade. As obras de
Agostinho Neto obtinham um reconhecimento esplêndido.
Poemas
de Angola
Publicado em edição brasileira, em 1976, pela Editora Codecri Limitada
(Rio de Janeiro) na coleção Edições do Pasquim (quinto volume), o livro Poemas
de Angola, de Agostinho Neto, segundo Airton Souza de Oliveira traz diversas
questões que podem criticamente serem analisadas como elementos da literatura
de testemunho. Desde o título, a obra demarca e aponta uma geografia, um espaço
real e a marcação temporal do passado histórico colonial vivenciado por Angola.
Poemas de Angola conta com a apresentação/prefácio escrita pelo escritor
brasileiro Jorge Amado (Itabuna, 10 de
agosto de 1912 — Salvador, 6 de
agosto de 2001). No total, o livro possui 52 páginas, sendo que na
última consta A história oral do mandato de prisão, expedido em nove de junho
de 1960 pela (PIDE), delegação de
Angola. Agostinho Neto categoriza, por meio de uma voz lírica, o testemunho de
um espaço, nesse caso a geografia angolana, por isso mesmo o título Poemas de
Angola. Ele utiliza uma estratégia discursiva e poética em que a rememoração do
passado e a relação direta com o presente sintetizam a literatura de
testemunho, ao passo que o ser africano, ora em um íntimo “eu”, ora em diversos
personagens afetivos e simbolicamente “coletivos”, mantém relações intrínsecas
com as representações simbólicas de uma literatura testemunhal.
Por isso não é à toa que o livro Poemas de Angola inicie com um dos
poemas mais emblemáticos de Agostinho Neto, intitulado Poesia Africana. Nesse
poema, parte das dores, que o jugo do poder dos colonizadores produziu na
África, está reverberando a cada verso, de maneira incessante. Alongando o
tempo histórico e trazendo a poética de um horror por meio de uma voz, do
chamado herói anônimo.
Vejamos a estrofe inicial do poema: 276 OLIVEIRA, A. S. de. A literatura
de testemunho na expressão poética do poeta Agostinho Neto:
Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos
imbondeiros
de braços erguidos.
No ar o cheiro do verde das
palmeiras queimadas.
(Neto, 1976, p. 13).
versos
que tu não entendes!
Compreendes
a minha angústia?
(Neto, 1976, p. 18).
Airton Souza de Oliveira diz que:
“Dessa forma é que Agostinho Neto faz reverberar em sua
expressão poética, especialmente no livro aqui analisado, Poemas de Angola,
todo o testemunho de um passado histórico. Para tanto, o poeta reelabora forças
líricas históricas e contestadoras. Entre as quais podemos destacar, pelo
menos, duas condições primordiais de uma literatura de testemunho, que são, em
primeiro lugar, as relações intrínsecas demarcadas pelo espaço geográfico e a
temporalidade, ambas atreladas a uma determinada realidade histórica. Em
segundo lugar, o trabalho estético e ético com a linguagem, aqui no caso dessa
última, a literatura. A expressão poética presente no livro Poemas de Angola,
de Agostinho Neto, marca os espaços geográficos e as experiências coletivas dos
angolanos. A literatura de testemunho na expressão poética do poeta Agostinho
Neto no período colonial, quando Angola encontrava-se na condição de colônia
portuguesa, e convoca para o presente a esperança e a resistência, que
concernem à literatura de testemunho. A força da poética desse livro e toda a
sua relação com a literatura de testemunho é a representação de outras
realidades, o enfrentamento como resistência, além de toda a implicação de
grafar as manifestações de uma realidade histórica”.
A
LITERATURA AFRICANA INSERIDA EM SALA DE AULA
O currículo de Língua Portuguesa nos
conteúdos de Letramento literário do 8º ano do ensino fundamental (4º bimestre)
tem como objetivos:
“Conhecer e valorizar obras representativas da literatura
africana, indígena e latino-americana, traduzidos para a Língua Portuguesa ou
escritos originalmente nessa língua. Reconhecer a relevância da literatura
portuguesa e africana como parte constitutiva do patrimônio cultural brasileiro
(...). Reconhecer a importância de obras literárias nacionais para a formação
da consciência e da identidade do povo brasileiro (...). Reconhecer discursos
combativos em relação à condição de grupos objeto de discriminação, tais como o
índio, a mulher, o negro, o imigrante, o homossexual, o idoso, o pobre, em
contextos históricos e literários.”
A história da cultura
africana, sempre ocupou uma posição sucinta ou quase imperceptível na área
educacional. A sua influência, apesar de ampla, nunca possuiu o valor devido.
Com a promulgação da lei nº 10.639 no dia 09 de janeiro de 2003, que obrigam o
ensino literatura africana em sala de aula, a lei salienta a importância da
cultura negra na formação da sociedade brasileira, propondo novas diretrizes
curriculares, no ensino Fundamental e Médio. Logo, inicia-se uma série de
discussão e reflexão acerca do tema, possibilitando uma educação multicultural
no âmbito educacional.
“Todos, a par de suas diferentes posições
político-ideológicas, são unânimes em concordar que a característica marcante
de nossa cultura é a riqueza de sua diversidade, resultado de nosso processo
histórico-social e das dimensões continentais de nossa territorialidade”.
(FERNANDES, 2005, p. 379)
Nessa perspectiva, multiplicidade da cultura brasileira promove a
ruptura do pensamento eurocentrista, trazendo para os alunos reflexões acerca
da cultura africana, em que demostra uma visão multicultural, ou seja, a
diversidade do país. Porém, O ensino da cultura
africana é complexo, pois, exige muita desenvoltura dos docentes para
ultrapassarem as barreiras da resistência dos pais e alunos, contra o racismo
dentro do âmbito educacional.
Conforme esse viés, o ensino de literatura africana na escola, deve
acorrer, primeiramente com discussão dos seus aspectos teórico-metodológicos,
salientando a legislação destinada ao ensino da literatura africana. Nos
Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), na Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Brasileira (LDB), entre outras e na Lei 10.639/03, que torna
obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas
as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio.
Posteriormente, deve se pensar em propiciar a democratização do saber e a
diversidade na abordagem dos gêneros discursivos em ambiente escolar,
entendidos como heterogêneos. Ao interagir com os diferentes gêneros textuais e
discursivos, nas aulas de língua portuguesa (LP).
Dessa forma, faz-se indispensável que o docente propicie a formação
crítica e reflexiva dos discentes, indo além do livro didático, trazendo para a
sala de aula materiais e conteúdo que enalteçam a Literatura Africana em seu
aspecto cultural e de formação da identidade do povo brasileiro, tendo o
objetivo de tornar a sala de aula um ambiente de respeito às relações
étnico-raciais.
PLANO
DE AULA
Como já foi mencionado anteriormente, este artigo aborda um plano de
aula desenvolvido pelas autoras com o intuito de reconhecer a importância de
trabalhar a literatura africana em sala de aula, a fim de explanar um ensino
lúdico e efetivo. Portanto, dirigimos o plano de aula referido para o oitavo
ano do ensino fundamental, o qual pode observar com riqueza de detalhes na
planilha a seguir:
|
Disciplina |
Língua Portuguesa |
|
Ano |
8º ano do ensino fundamental |
|
Título
da aula |
A Literatura africana e a
multiculturalidade no Brasil |
|
Objetivos |
-Refletir a respeito de como o
professor de língua portuguesa precisa trabalhar a literatura africana em
sala de aula, tendo como perspectiva um olhar sensível à multiculturalidade
no Brasil; -Analisar a influência africana no
nosso cotidiano e sua importância; além de proporcionar aos alunos um
conhecimento acerca da literatura estudada. |
|
Recursos |
-Para o desenvolvimento das aulas
de literatura africana iremos utilizar recursos expositivos/audiovisuais como
vídeos e imagens; poemas impressos e materiais de papelaria como cartolina;
TNT; lápis piloto, etc. |
|
Duração
das aulas |
5 aulas de 45 minutos. |
|
Metodologia |
- Como mencionado acima, as aulas
serão divididas em cinco momentos para que o desfecho seja proveitoso e
produtivo. - No 1º momento iremos nos conter
a apresentar a literatura aos alunos. Assim, ao iniciar a aula faremos
algumas perguntas-chave: O que é literatura africana? Como nasceu? O que a
literatura africana tem a ver com a multiculturalidade do Brasil? Qual foi o
seu contexto histórico e suas dificuldades para que se tornasse reconhecida?
E minuciosamente ouviremos as respostas. - Em seguida o professor irá
responder cada pergunta citada acima através de um slide que facilitará a
explicação. - No 2º e 3º momento, quando os
discentes estiverem seguros que compreenderam o contexto histórico da
literatura africana, iremos apresentar o autor “Agostinho Neto” e sua obra
“Poemas de Angola.” Para isso, levaremos poemas do escritor para fazermos uma
leitura compartilhada e entender características da sua escrita. Além de
analisar o que o autor traz em sua obra, qual sua perspectiva naquele momento
e o que ele queria passar através de seus escritos. Por fim, o professor
divide a turma em 5 grupos e solicita
trabalhos de diversos gêneros para a culminância dessa temática. Assim, o 1º
grupo irá recitar o poema “Havemos de mudar” de Agostinho Neto. O 2º grupo
ficará responsável pela elaboração de um cordel sobre a literatura estudada.
O 3º produzirá uma paródia acerca da temática, o 4º irá apresentar um teatro
sobre a vida dos angolanos naquele contexto analisado e por fim, o 5º grupo
irá fazer uma personificação do autor. Logo após as instruções do docente, os
alunos confeccionarão cartazes com poemas de Agostinho Neto e com imagens que
fazem referência à África para a apresentação em classe. -Ademais, no 4º e 5º encontro, os
alunos chegam cedo à sala e junto com o professor irão decorar a sala com a
temática trabalhada. Em seguida, cada grupo vai à frente e faz a sua
apresentação, além de explicar a sua reflexão sobre o que a obra aborda e o
que ela quer nos passar. E para finalizar o professor fará um comentário
geral das apresentações. |
|
Avaliação: |
-Observação da participação em
aula; - A apresentação dos temas
propostos. |
|
Livro
Didático utilizado: |
(livro disponível no ano referido) |
|
Referências
do livro Didático: |
|
Considerações
Finais
Diante das pesquisas feitas e da
proposta apresentada, é possível detectar que é primordial o ensino de
Literatura africana em sala de aula, desde o contexto histórico até a vasta
diversificação de autores e obras que trazem grandes visões da África naquele
momento. E cabe ao professor fazer com que sua aula de Literatura africana seja
dinâmica, enriquecedora e atraente para seus alunos. Trazendo reflexões não
apenas para o ambiente de avaliação, mas para a vida em sociedade, para que o
preconceito seja cada dia erradicado do País. Pois a Literatura africana exerce
até os dias atuais importante papel para a literatura de uma forma geral, que
influenciou e foi influenciado por autores brasileiros como Drummond de
Andrade, Graciliano Ramos, Jorge Amado. O professor precisa conhecer o seu
público-alvo e elaborar estratégias para que esse ensino seja eficaz e
reflexivo.
Referências
Disponível
em<https://pt.wikipedia.org/wiki/AgostinhoNeto>Acesso em 02 de Março de
2021.
FERNANDES, José Ricardo Oriá. Ensino
de História e Diversidade Cultural: Desafios e Possibilidades. Cad. Cedes,
Campinas, vol. 25, n. 67, p. 378-388, set./dez. 2005.
Oliveira, Airton Souza de. A
literatura de testemunho na expressão poética do poeta Agostinho Neto. 1- 19 p.
04 maio 2019.
Disponível
em<https://en.wikipedia.org/wiki/Agostinho_Neto>Acesso em 02 de Março de
2021.
LITERATURA
AFRICANA E LÍNGUA PORTUGUESA: UMA PROPOSTA DE ENSINO COM A OBRA “TERRA
SONÂMBULA” DE MIA COUTO
Alberto César Simplício1
Giuliana Nunes Barbosa2
Inês Gabriela Oliveira Valença3
Tamara de Góis da Silva[19]4
A guerra mostra que
somos resistentes ao que podem pensar os militares.
Mia Couto
- INTRODUÇÃO
O romance, onde Mia Couto utiliza
das diversas vezes de duas personagens para contar a história de seu povo,
possui muita carga de saberes acumulados através de sua experiência histórica e
vivida, tem muita variedade linguística, ou seja, visto que a língua falada tem
muito poder sobre as pessoas, o autor utiliza disso para passar, de forma
imaginativa, seus recursos linguísticos.
A cultura africana é extremamente
vasta e diversificada, possui muitas riquezas imateriais que perpassam
quaisquer que sejam as influências externas, pois também tem uma variedade de
etnias grande devido aos povos do Oriente Médio e europeus. Aspectos
importantes a serem abordados são as influências desses povos à nossa cultura,
tais como: culinária, dança, música etc. A África é muito rica culturalmente,
dentre os povos do norte, por exemplo, destacam-se hábitos e costumes
islâmicos, como o uso de véu e um modelo familiar patriarcal, enquanto os povos
do Sul possuem uma cultura mais diversificada.
Os povos africanos também desenvolveram várias
artes ligadas às suas religiões, por exemplo, artefatos, máscaras, estátuas, a
maioria esculpidas em madeira, pedras ou feitas de tecidos, geralmente
representando suas divindades. A música e a dança também fazem parte das
culturas tribais africanas, tem instrumentos de percussão predominantes e também
possuem viés religioso. Os negros africanos tem em sua bagagem muitas crenças,
porém, durante muito tempo, era proibido cultuar sua religião, encontraram no
sincretismo com o catolicismo uma maneira de preservarem suas traduções.
Algumas das principais religiões afro-brasileiras são o candomblé e a umbanda,
onde cultuam orixás e divindades das nações africanas.
A Guerra Civil moçambicana é uma
temática difícil de ser estudada e abordada, principalmente, por ser um assunto
relativamente recente e que mexe emocionalmente com as pessoas, visto que os
números do ocorrido são absurdamente grandes: pessoas desumanizadas, mortas e
esquecidas por muitos após a anistia. O autor reforça essa ideia em uma de suas
entrevistas:
"Tudo
se modifica quando estamos a viver uma guerra. Há um processo de desumanização
que atinge o outro, mas também nos atinge. Ninguém fica imune, ileso, nesse
processo todo. Para autorizar a violência, eu tenho que desumanizar o outro,
porque, se eu o reconheço como humano, eu tenho um bloqueio na minha violência.
O outro deve ser convertido numa coisa, num rato, num monstro. Mas esse
processo é uma faca de dois gumes: eu também me desumanizo para me legitimar
como autor de violência." (Entrevista para LeMonde Diplomatique Brasil)
A Lei 10.639/03, sancionada em 9 de
janeiro de 2003, assegura a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura
Afro-brasileira nos níveis fundamental e médio da educação básica – em
instituições públicas e privadas – nas
disciplinas de Educação Artística, Literatura e História Brasileira. “Os
conteúdos programáticos estabelecidos na lei incluem o estudo da África e dos
africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na
formação da sociedade nacional, o resgate da contribuição do povo negro nas
áreas sociais, econômicas e políticas pertinentes a história do Brasil”. Essa
lei representa, enquanto política governamental, um grande passo no combate ao
racismo e à discriminação étnica no país: “No
Brasil, a importância da África reafirma-se em políticas governamentais de
inclusão social, no reconhecimento das raízes africanas de nossa
multiculturalidade e da contribuição da África à constituição do Brasil”
(MACEDO; MAQUÊA, 2004, p.10), apesar de movimentos propagarem uma diminuição ou
mesmo negarem a existência do racismo no Brasil, a discriminação, a
intolerância e o preconceito seguem crescentes na sociedade, camuflando-se e
propagando-se um pouco mais a cada dia. Em resposta a isto, a lei 10.639/03
visa a ampliação do conhecimento dos alunos acerca da cultura e história dos
povos negros/ africanos, bem como a valorização desses povos de importância
crucial para a formação sócio-histórico-cultural dos brasileiros.
A literatura africana surgiu através
de um movimento chamado negritude, foi quando ocorreu a primeira leva dos
escritores que participaram do Congresso de Escritores da África em 1956. Os
escritos possuíam, principalmente, aspectos de caráter anticolonialistas.
Devido às diversas formas de sofrimento passadas pelas pessoas na época, a
literatura africana traz um reflexo dessa realidade, ou seja, a principal
inspiração é sua própria terra e cultura. As vozes que representam o cenário
literário africano na contemporaneidade fortalecem a luta travada no início,
onde as guerras eram frequentes. Os escritores dessa nova poética inserem em
suas poesias aspectos muito característicos verbais de seus povos, logo,
possuem lirismo com marcas próprias. A poesia faz circular saberes.
Dessa forma, chegamos às Mia Couto e
sua obra: Terra Sonâmbula. O título da obra faz referência à instabilidade do
país e, portanto, à falta de descanso da terra que permanece “sonâmbula".
Logo, o fio que conduz a obra é a perda de memória coletiva sobre as tradições
destruídas após a independência do país.
- O AUTOR
O escritor Antônio Emílio Leite
Couto, conhecido como Mia couto, é escritor, poeta, e jornalista moçambicano,
nasceu no ano de 1955, desde muito novo, Mia Couto já escrevia e aos 14 anos
publicou seus primeiros poemas, sendo um dos autores mais traduzidos para o
exterior, ganhou diversos prêmios dentre eles o prêmio de camões no ano de
2013, vale ressaltar que Couto é o único escritor Africano que foi membro da
academia de Letras, possuindo a 5° cadeira. Tendo uma trajetória excepcional,
se destacou por abordar em suas obras as tradições ocidentais e tradições
orais, usando a escrita como porta para mostrar a cultura moçambicana, as
lutas. A ficção coutiana traz, antes de qualquer coisa, os conflitos humanos,
dando voz aos sentimentos mais reais, das realidades mais duras, mostrando suas
raízes. Usando o espaço, o tempo, a cultura, a linguagem, juntos no mesmo
lugar, na mesma narrativa.
“Sou um escritor africano de raça
branca. Este seria o primeiro braço de uma apresentação de mim mesmo. Escolho
estas condições — a de africano e a de descendente de europeus — para definir
logo á partida a condição de potencial conflito de culturas que Transportam
(...) como outros brancos nascidos e criados em África, sou um ser de
fronteira. Para melhor sublinhar minha condição periférica, eu deveria
acrescentar: sou um escritor africano, branco e de língua portuguesa. Porque o
idioma estabelece o território referencial de mestiçagem, o lugar de reinvenção
de mim. necessito inscrever na língua de meu lado português a marca da minha
individualidade africana: Necessito tecer um tecido africano, mas só o sei
fazer usando panos e linhas europeias.” (COUTO, Mia, “O Gato e O Novelo”,
Entrevista a José E. Agualusa. JL, Lisboa, 8/10/1997. p.59)
A
violência que o colonizador português trouxe para as terras moçambicanas é o
tema mais abordado por Mia couto, esse processo foi marcado por um caos e uma
desumanidade sem tamanho, isso pode ser identificado facilmente em suas obras,
remetendo assim um resgate de valores e uma valorização dessas vidas, sua
postura política fortemente representada em suas linhas, levando em
consideração a guerra de 1977 que levou a morte de milhares de moçambicanos,
levando em consideração que a expectativa de vida era de apenas 41 anos, isso
reflete muito bem o cenário que existia, em Moçambique.
O
neologismo é muito presente em suas obras, sendo considerado o ser do
neologismo, Mia Couto explora essa grande variação em dialetos, assim como
Guimarães Rosa, ele cria seus próprios dialetos, como: Abensonhadas e
brinquiações. Ele põe em suas obras um encantamento, situações fora do comum,
que não podem ser explicados racionalmente, cria assim uma fantasia, porém uma
fantasia que se mistura com as lutas, com a guerra, com a religiosidade e é
isso que torna os escritos de Mia Couto, únicos, a junção da realidade dura com
a fantasia do sonhar, dentre as inúmeras narrativas ressaltamos Um rio chamado
tempo, uma casa chamada terra (2005) e A varanda do frangipani (1996), aqui
Couto procura com suas palavras trazer as tradições de Moçambique, o direito de
viver essas tradições sagradas que lhes foram retiradas pelo colonizador, Vinte
e zinco (1999), essa narrativa aborda uma ação política que traz as
barbaridades de uma colonização totalmente sangrenta e bárbara, entretanto não
podemos esquecer Terra sonâmbula (1995), através dos cadernos de Kindzu e seu
diálogo constante com as histórias do velho Muidinga, girando em torno do drama
do machimbombo queimado. E é sobre esta última obra citada que iremos fazer uma
breve análise.
Terra
sonâmbula foi publicada em 1992 e é considerada uma das maiores obras Africanas
do século XX, fazendo um apanhado em volta da guerra civil de 1977- 1992. Foi
seu primeiro romance, escrito em prosa e ganhou inúmeros prêmios. Terra
Sonâmbula traz além da religiosidade fortemente representada, a relação de vida
e morte como base durante toda a narrativa, sendo assim algo inerente ao homem.
- GUERRA CIVIL MOÇAMBICANA
(1977-1992)
Moçambique se tornou um estado
independente em 25 de junho de 1975. O conflito foi marcado pelos combates entre o governo da
Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e a Resistência Nacional de
Moçambique (Renamo). A Renamo, que virou o principal partido de oposição,
voltou às armas em 2013 para denunciar o controle do país pela Frelimo, no
poder sem interrupção desde a independência.
O governo da Frelimo (Frente de
libertação de Moçambique), um partido político,
apoiou o movimento de libertação da Rodésia (Estado não
reconhecido), lhe permitindo a
utilização de bases no território Moçambicano, seu objetivo era construir um
estado moderno de feições marxistas que batia de frente com a organização
tradicional da sociedade Moçambicana. A Rodésia, então, armou e treinou a
Renamo (resistência nacional moçambicana). Quando terminou a luta na Rodésia, a
África do Sul a substituiu, passando Pretória (capital da áfrica do sul) a
apoiar a Renamo.
A
guerra civil seguiu durante quinze anos e devastou a economia, a infraestrutura
e a organização social de Moçambique, ou seja, sofreu uma escalada e o conflito
tornou- se extremamente brutal.
Sistemas de saúde e educação
entraram em colapso, diversas regiões de produção agrícola simplesmente
desapareceram, foram executadas pela FRELIMO, além da grande seca que ocorreu
em meados da década que provocou uma terrível fome. Em 1990 tinha morrido um milhão
de pessoas, cerca de um milhão e meio tinham ido embora dos campos, e mais ou
menos 5 milhões tinham deixado o país. Tanto a Frelimo quanto a Renamo foram
acusadas de violações generalizadas de direitos humanos e das leis da guerra.
Massacres de comunidades inteiras vistas como corretas e necessárias aos
inimigos eram algo comum.
Após isso, os soviéticos, que
passavam por uma teia de problemas devido a guerra fria, já não teria mais
interesse em apoiar a Frelimo. Desprovidos de seus patronos internacionais, os
movimentos iniciaram conversações de paz que resultaram nos Acordos de paz, que
em 1992 encerraram a guerra civil de Moçambique. A força de paz da ONU foi
colocada no terreno e pôs-se em marcha um programa de repatriação e
restabelecimento dos refugiados.
Nesse mesmo ano Mia Couto lançaria o
romance no qual o conflito que devastou seu país ocuparia papel central na
narrativa: Terra Sonâmbula.
3.1 Terra Sonâmbula: o reflexo de
uma nação
Mia Couto, escritor do livro “Terra
Sonâmbula” representa uma das melhores literaturas de Língua Portuguesa. O
livro ainda se destaca como sendo o romance de estreia do escritor e um dos
mais aclamados de sua trajetória. A sua linguagem é tratada de forma poética,
podendo fazer assim uma ponte entre duas vertentes: sonho e guerra.
Contextualizando sobre a guerra, a
pelo menos 200 anos acontecem guerras ininterruptas no continente africano.
Guerras coloniais, civis, massacres, de independência etc. Muito se fala das
guerras que existem em outros países/continentes (oriente médio é uma prova
disso), mas esses outros ainda recebem uma certa atenção da imprensa mundial. É
difícil ouvir falar de guerras africanas. Desprezo! Alguns historiadores falam
que, isso tudo acontece no continente africano, se deve por conta da
colonização europeia, que foi dividida por nações europeias.
O modelo de colonização foi o mais
perverso e o mais extrativista. Diferente do país em que vivemos, sendo
independentes a 200 anos, a maioria dos pais africanos se tornaram
independentes à 50, 60, 70 anos atrás, através de muita luta e muito
derramamento de sangue. Moçambique passou mais de 10 anos lutando contra
Portugal para conseguir sua independência em 1975. Logo após, grupos políticos
locais começaram a disputar o poder dando início a uma guerra civil que durou
15 anos. Nesse período, Mia Couto viu e viveu tudo de perto. Mais de
1.000.000,00 de pessoas morreram, estima-se. Não apenas em combate, mas
principalmente de fome. Em 1992, ano em que a guerra terminou, Mia Couto
publicou o livro Terra Sonâmbula, que é dividido em 11 capítulos, com o
contexto que estava vivendo. O livro fala de como fica um país depois de um
longo período de guerras e sobre como fica o povo com raízes antigas. Mia Couto
não transparece o horror e o caos daquele momento, usando mais de metáforas. A
mais pertinente é a metáfora dos sonhos. Para Mia, é como se Moçambique durante
a guerra fosse um país sonâmbulo, como se o país tivesse preso em um sonho
ruim.
Mia Couto acrescenta um toque de
fantasia e surrealismo poético no romance, mesclando a realidade com a
fantasia. Ora é narrado em terceira pessoa, ora em primeira. Personagens em
crise identitária, os quais transparecem uma transgressão em seus sentidos,
sentimentos e memória, precedentes à guerra, desenham os sonhos construídos em
meio a todo o caos que está sendo vivido.
A história se passa em Moçambique,
após sua independência e, em plena guerra civil, quando o velho Tuahir e o
“miúdo” Muidinga tornam-se companheiros de viagem, fugitivos das atrocidades do
tempo presente. As guerrilhas haviam lhes destruído a base material da
existência e sua teia de relações familiares e sociais. Encontrar os
verdadeiros pais de Muidinga, que foi recolhido por Tuahir num campo de
refugiados, é o objetivo da viagem. Todo o fundo da história é Moçambique,
destroçado pela guerra pós-colonial, e a trama se passa, na maior parte, à
beira da estrada, e é nela que eles encontram um machimbombo cheio de corpos
carbonizados e uma misteriosa mala ao lado de um cadáver. Dentro dela são
encontrados cadernos que contam a história de Kindzu, o morto em questão. Esses
manuscritos, recheados de histórias, ancoradas na cultura da África, informes
dos horrores de um conflito, é o que mantém o velho e o menino vivos. Com
efeito, as palavras de Kindzu lançam raízes e plantam, no pequeno Muidinga, a
memória de um passado que lhe falta e desabrocham, no velho Tuahir, sua
capacidade de sonhar. O menino não se recorda de sua infância, não se lembra de
nada. É como se sua vida começasse depois do encontro com Tuahir, que o
recolheu quando, à beira da morte, ia sendo enterrado. Uma doença deixou-o sem
memória e Tuahir “teve que lhe ensinar
todos os inícios: andar, falar, pensar” (COUTO, 1992, p.4).
As duas histórias passam, então, a
ser narradas paralelamente durante toda a obra. As histórias de Muidinga e de
Kindzu se encontram e se misturam, da mesma forma que a história e a ficção. A
narrativa mostra-se muito enraizada às origens locais, pois apresenta o
vocabulário, a cultura, as angústias e as alegrias de Moçambique nesse difícil
período, além de ilustrar, nas identidades das personagens, a força que a
guerra tem na destruição.
No desfecho da história, há o
encontro do passado desmemoriado e o presente a ser (re)construído, a tradição
que é semeada no futuro. Nasce, junto com Muidinga, a esperança de um tempo,
uma redescoberta identitária que havia sido perdida, o “miúdo” renasce ao
descobrir a si mesmo. Mia Couto mostra que a sabedoria do passado pode ser
semente do futuro se lançada em um terreno fértil, perpetuando uma identidade
cultural.
3.2 Representação da Guerra Civil na
obra
Terra
Sonâmbula foi publicado em 1992, coincidentemente, no ano em que a guerra civil
moçambicana foi encerrada e o acordo de paz assinado.
O
romance divide-se entre duas narrativas que se inter-relacionam com o real e o
mágico, onde encontraremos saberes tradicionalistas, lendas e mitos locais,
entretanto, o pano de fundo que desenrola a narrativa é bem real: a guerra
civil que assolou o país que conduz os dois personagens, Tuahir e Muidinga a se
esconderem em um ônibus carbonizado e Kindzu a abandonar sua vila e partir em
busca de guerreiros naparamas. Os dois personagens encontram uma mala ao lado
de um corpo, onde estão os cadernos de Kindzu. A história dele começa no dia 25
de junho, na independência nacional, dia do nascimento do seu irmão Junhito
(homenagem à emancipação política do país). Junhito acaba sendo uma
personificação da nova nação, mal havia nascido e já era assombrado pelos
presságios do seu pai, que o agoura dizendo que irá morrer em breve. O pai,
segundo ele, "sofria de sonhos”.
Kindzu,
aterrorizado, foge de sua aldeia em busca de guerreiros naparamas que
supostamente teriam o poder de defender o seu povo do conflito:
"Naparama? Nunca eu tinha
ouvido falar em gente dessa. Surendra (Amigo de kindzu. Um único comerciante ficara na vila) me explicou vagamente. Eram guerreiros
tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que lutavam contra os fazedores da
guerra. Nas terras do Norte eles tinham trazido a paz. Combatiam com lanças,
zagaias, arcos. Nenhum tiro lhes incomodava, eles estavam blindados, protegidos
contra balas."
Notamos nesse trecho uma metáfora,
aspecto muito presente na obra. Naparamas seriam guerreiros com poderes
mágicos, representando a esperança e a solução para os problemas. Eram seres
invulneráveis a balas, o que retrata o anseio de derrotar as mazelas do mundo
moderno utilizando raízes ancestrais.
Enquanto isso, Tuahir e Muidinga
continuam nas redondezas do ônibus, até cair em uma armadilha e serem
resgatados por Siqueleto, a mesma pessoa que havia armado. Muidinga reclama por
não ter sido recebido da mesma forma que antes, e é replicado por: "de fato, não é assim de maneira de
nossa raça. Antigamente quem chegava era em bondade de intenção. Agora quem vem
traz a morte na ponta dos dedos." (p.67).
O trecho dá ênfase à extensão do
dano psicológico e físico que o conflito causou na sociedade, destruiu os
costumes e a confiança. Essa destruição da organização social que existia antes
da guerra é uma temática muito frequente na narrativa.
Com o decorrer da narrativa, Kindzu
retorna à Matimati e se depara com a normalização do conflito: a guerra já se
prolongava a tanto tempo que havia se tornado uma parte da vida das pessoas,
que agiam com aceitação passiva como se fizesse parte do ciclo de natureza,
algo que não poderia ser mudado. Em contraponto a isto, Tuahir tem uma reflexão
nostálgica quando relembra seu trabalho numa estação de trem nos tempos de paz,
ou seja, ao contrário dos outros habitantes, ele lembra dos tempos de paz e
alimenta sua esperança de dias tranquilos novamente. São poucas as passagens da
obra na qual um personagem manifesta esperança de um futuro pacífico.
No final da narrativa, há um retorno
ao início: o ônibus carbonizado onde Muidinga encontra os escritos de Kindzu,
enquanto sonha com um futuro que estaria prestes a viver. Kindzu é levado pela
estrada e encontra Muidinga com seus cadernos na mão. Há muitas idas e vindas
temporais na obra, com o propósito de descrever a fase cíclica da guerra civil;
pausas, recomeços, tréguas, intensificações… A literatura está também
direcionada para o presente e o futuro. São espaços onde o autor coloca suas
expectativas, cria saberes e estabelece uma visão de mundo a partir de sua
posição na sociedade. A guerra civil mudou a sociedade e toda a estrutura de
pensamento sobre a nação, sobre a identidade nacional. Essa mudança foi
percebida e representada pela literatura da época. Embora o livro esteja nessa
linha entre sonho e realidade, onde a guerra e os conflitos predominam, há
também a esperança que num mundo de sonhos a guerra acabe e a terra entre em um
novo futuro.
PROPOSTA DE ENSINO
A proposta sugerida no presente
trabalho tem o intuito de oportunizar uma metodologia dinâmica para trabalhar,
na disciplina de Literatura, Literaturas africanas de Língua Portuguesa e sua
importância. Tem por objetivo central a apresentação do conteúdo e a
compreensão efetiva do aluno acerca da importância social/cultural do ensino
aprendizagem do mesmo. Ademais, compreende-se que levar a Literatura africana
de Língua Portuguesa para a sala e aula é, e certa maneira, um abrir portas
para a formação de um aluno mais consciente e tolerante, que compreende,
respeita e valoriza a história e a cultura dos povos negros/africanos.
Segue a proposta de ensino:
|
PLANO DE AULA DISCIPLINA: LITERATURA |
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Tema: Literatura africana de língua
portuguesa: Uma proposta de ensino com a obra “Terra Sonâmbula”, de Mia
Couto. |
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Turma: 1° ano – Ensino Médio |
|
Tempo
de duração:
Duas aulas de 50 minutos cada. |
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Objetivos: Conhecer África, sua cultura e
costumes; Conhecer a lei 10. 639/2003 e
compreender a importância de sua aplicação no ambiente escolar; Apreender o que é a literatura
africana de língua portuguesa, conhecer seus principais representantes e
perceber sua importância. |
|
Conteúdo: Introdução à África: aspectos
gerais, cultura e religião; Lei
10.639/2003: o que dita, sua importância; Literatura
africana de Língua Portuguesa: o que é, principais representantes, exemplos
de obras; Apresentação
da obra a ser trabalhada: “Terra sonâmbula” – Mia Couto |
|
Metodologia: Aula expositiva com o
desenvolvimento de mostra sobre as temáticas apontadas. Proposta de leitura
da obra “Terra sonâmbula” – Mia Couto, para desenvolvimento de atividades
posteriores. |
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Recursos
didáticos: Projetor Multimídia; Material
impresso para mostra das obras literárias; Livro (impresso/digital) “Terra
sonâmbula" do autor Mia Couto |
|
PLANO DE AULA DISCIPLINA: LITERATURA |
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Tema: Literatura africana de língua
portuguesa: Uma proposta de ensino com a obra “Terra Sonâmbula”, de Mia
Couto. |
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Turma: 1° ano – Ensino Médio |
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Tempo
de duração:
Duas aulas de 50 minutos cada. |
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Objetivos: Refletir
sobre a obra “Terra sonâmbula” de Mia Couto; Analisar,
de maneira comparativa, recortes do filme “Terra sonâmbula”, baseado na obra
de Mia Couto. |
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Conteúdo: “Terra
sonâmbula”: contexto sociocultural; Conhecendo
o autor: Mia Couto – Vida, obra e curiosidades; Reflexão
acerca da obra: aspectos estruturais, personagens e enredo; Análise
comparativa filme/livro “Terra sonâmbula”. |
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Metodologia: Aula expositiva com a realização
de debates/reflexões acerca da obra estudada e desenvolvimento de atividade
lúdico-pedagógica visando à avaliação da leitura/compreensão da mesma. |
|
Avaliação: Proposta
1 = Dominó pedagógico – Tipos de sujeito: Separados em grupos de 4
participantes, os alunos deverão receber um dominó e jogar combinando
corretamente os tipos de sujeito com os termos destacados nas orações das
peças; Proposta
2 = Competição Quiz: Dividido em 2 grandes grupos, ou 4 grupos menores, os alunos deverão
responder à perguntas de um quiz, elaborado pelo professor (a), com questões sobre
o conteúdo explanado (cada aluno deve responder ao menos 1 questão). Vence a
equipe que, ao final, possuir o maior número de acertos. |
|
Recursos
didáticos: Projetor Multimídia; Livro
(impresso/digital) “Terra sonambula” do autor Mia Couto. |
REFERÊNCIAS
COUTO, Mia. Terra sonâmbula. 2 ed.
Portugal: Caminho Editorial, 1996.
DE O. IVO, Angélica; ALMEIDA ,
Marinei. Artigo. Literatura Africana de Língua Portuguesa no Ensino Médio:
Mobilizando Memórias em Comum, UNEMAT, ano 2016, v. 09, n. 01, p. 13, jul.
2016.
MACEDO, Tânia; Maquêda, Vera.
Literaturas de língua portuguesa: marcos e marcas. São Paulo: Arte &
Ciência, 2007.
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Lei 10.639,
de 9 de janeiro de 2003.
OSTES, Paulo roberto Machado. Entre
margens: o espaço e o tempo na escrita de Mia Couto. Universidade Federal de
Juiz de Fora. Juiz de Fora, 2007.
Diversidade [recurso eletrônico] :
diferentes, não desiguais 2 / Organizadora Denise Pereira. – Ponta Grossa (PR):
Atena Editora,2019. – (Diversidade: Diferentes, Não Desiguais; v.2)
PARA CONHECER a literatura africana.
Carta Capital, 6 mar. 2014. Disponível em:
https://www.cartacapital.com.br/opiniao/paraconheceraliteraturaafricana/.
Acesso em: 20 mar. 2021.
O CAMINHO de Moçambique, da guerra
civil a uma paz ainda frágil. In: O caminho de Moçambique, da guerra civil a
uma paz ainda frágil. ESTADO DE MINAS Internacional, 2 set. 2019. Disponível em:
https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2019/09/02/interna_internacional,1081795/
o-caminho-de-mocambique-da-guerra-civil-a-uma-paz-ainda-fragil.shtml.
TRABALHANDO COM O CONTO: LUANDA
ASSIM, NOSSA
Emanuela Ferreira da Rocha1
Gabriele de Melo Cordeiro2[20]
PLANO
DE AULA
Inicialmente, será levado para os
alunos um pouco sobre o contexto histórico da literatura africana por meio de
slides, buscando refletir sobre a importância e como ela é contemplada no livro
didático de Língua portuguesa. Em seguida, será apresentado o conto a ser
trabalhado “Luanda assim, nossa", fazendo também um breve resumo sobre a
obra "O Cão e os Caluandas" na qual o conto está presente. Após a
leitura do conto, serão trazidas algumas informações sobre o autor, ressaltando
a sua importância na literatura africana.
No segundo momento, será feito uma reflexão sobre a obra e os
personagens através de um debate, para que os alunos interajam manifestando sua
compreensão a respeito do conto.
Ao final será solicitada como forma de avaliação, a produção de um texto
discursivo-argumentativo com o respectivo tema: O que a chegada da pandemia
dispertou na sócio-política brasileira, onde os alunos terão que fazer uma
alusão com o conto trabalhado. A fim de ter uma melhor percepção sobre a
compreensão adquirida e a visão que eles têm sobre o momento crítico que a
sociedade brasileira está enfrentando, dessa forma será trabalhado tanto o
aspecto da interpretação quanto o da crítica através da produção textual.
A
LITERATURA AFRICANA NO CONTEXTO ESCOLAR
A
literatura africana traz em si histórias de luta, de vida, de cultura de um
povo que por muito tempo foi escravizado por seus colonizadores europeus,
mostrando o quão cruel e traumático foi esse período.
Através
da literatura africana o povo foi ganhando vez e voz e ganhando mais firmeza e
confiança para assim lutar pelos seus direitos, ter orgulho de sua identidade,
regressar às suas origens, resistir aos seus colonizadores que impunham sua
cultura.
Negritude, foi um movimento que deu
nome a um “movimento artístico” que, juntando escritores africanos, prezava por
valorizar, reconhecer e divulgar a cultura negra em países africanos ou
afrodescendentes. Eles traziam uma ideologia de valorização e aceitação, da
cultura e combate ao preconceito.
Como resultado dos movimentos de
Negritude da cultura e combate ao preconceito, uma das conquista seguintes foi
a aprovação da Lei 10. 639/03, que torna determinado o ensino da história e
cultura africana nas escolas brasileiras.
A literatura é como um bem cultural que
contribui para o desenvolvimento da educação, além, de proporcionar o
achegamento aos diferentes conhecimentos sobre a cultura de povos e lugares
desconhecidos, seja por meio do universo irreal ou real.
É
comum nas escolas estudarmos Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, mas
infelizmente uma das mais ricas das literaturas é pouco vista nos livros
didáticos, que é a Literatura Africana.
Sabemos
que, é com a ajuda dos livros didáticos que os professores seguem e propõem
conteúdos dos que são propostos a ele, pela escola, um planejamento anual ou
bimestral.
Os
alunos começam a ter contato com o estudo da Literatura em si, no Ensino Médio,
através de textos, fragmentos, autores que “pertencem” a determinados período
literário presentes nos livros didáticos. Mas, na maioria das vezes o ensino
segue sempre a mesma abordagem, que é como já dito, o processo de didatizar a
História da Literatura de Portugal e a Brasileira.
Não
são apenas os livros de literatura paradidática ou infantojuvenil ajudarão a
construir (ou descontruir) uma visão histórica do continente africano. Mas a
literatura se mostra, cada vez mais, como importante ferramenta para construir
e descobrir novos valores.
Alguns
autores como Mia Couto, Pepetela, Ondjaki, vêm sendo cada vez mais lidos e
estudados nas escolas brasileiras. Estes, africanos, apresentam outra África,
transmitindo a atmosfera dos países e cidades onde se passam as histórias de
seus livros, sem generalizações ou estereótipos.
PEPETELA
O
escritor Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido pelo pseudônimo de
Pepetela nasceu no dia 29 de outubro de 1941, em Benguela na Angola. Formou-se
em Sociologia e militou junto com o MPLA (movimento popular para a libertação
de Angola) no ano de 1963, a fim de conquistar a independência de sua terra.
Em
1975, com a independência da Angola, foi nomeado Vice ministro da Educação no
governo de Agostinho Neto; em 1993, ele ganhou ganhou o Prêmio da Associação
Paulista de Críticos de Arte; em 1997, foi o primeiro escritor angolano a
ganhar o Prêmio Camões, pelo conjunto de sua obra, um dos mais importantes
prêmios da literatura mundial.
Atualmente ele é professor de sociologia em uma faculdade de Arquitetura
de Luanda, que é onde ele mora.
CARACTERÍSTICAS
DE SUAS OBRAS
Em suas obras, Pepetela busca representar e reinterpretar a
história do povo angolano por meio da ficção, da mesma maneira que Mia Couto e
Luandino Vieira também fizeram.
É possível observar
nas narrativas, a presença da ancestralidade; a realidade do povo; a oralidade,
sobretudo dos mais velhos, figuras que resgatam mitos; e a natureza como meio
para compreender o mundo.
Segundo
críticos, é atribuída a característica de "escrita da nação" à obra
de Pepetela, que nada mais é que uma construção narrativa que desconstrói o
discurso original para construir uma memória geral, recriando Angola através da
ficção.
UM
POUCO SOBRE A OBRA: O CÃO E OS CALUANDAS
A obra "O Cão e os Caluandas" de Pepetela onde o conto
"Luanda assim, nossa" está situado, traz um conjunto de relatos onde
o cão é a peça principal, durante a narrativa as andanças do mesmo irá provocar
sentimentos de desconfiança e receio nos personagens. Os relatos reunidos no
livro vão falar sobre o período pré independência e pós independência em Angola.
Durante toda a obra, o autor evidencia no seu discurso as influências do
colonialismo na sociedade luandense, no ponto de vista da Angola de um passado
rejeitável e de um presente que rompa definitivamente com o período da
colonização.
Os personagens defendem os benefícios da independência, como: a abolição
das classes sociais, os direitos adquiridos por parte dos caluandas, a noção de
propriedade e a luta por ela, a consciência sobre a exploração capitalista do
tempo do colono e exigência de que a classe operária fosse superior.
No entanto, todos estes benefícios sociais são expressos apenas pelos
personagens. O autor vai desconstruir de forma discreta e irônica, o discurso
dos personagens em oposição com a realidade angolana da época. Fazendo assim,
várias referências a Marx, enfatizando os personagens na luta contra a
exploração, a preferência pelo plebeísmo (linguagem informal). Porém, é visível
que o período pós-independência, são tempos de corrupção.
Pepetela, não se limita em levar a realidade para a ficção apenas, ele
faz uma crítica social, realizada através da ironia e da sátira.
“LUANDA ASSIM, NOSSA”
O conto de Pepetela intitulado
"Luanda assim, nossa" trata de dois grupos étnicos, onde um cão é a
peça central no decorrer de toda a história. O relato acontece no período
pós-independência da Angola, momento em que se passava pelo processo de
reconstrução social.
Após o aparecimento do cão resurge o
ódio e o rancor de um grupo contra o outro. O narrador, Catetense, relembra com
rancor dos malanjinos, ao contar que seu amigo Malaquias abrigou o cão em sua
casa. A briga por conta do aparecimento do cão traz à tona o passado e o ódio
que sente do outro grupo. O título "Luanda assim, nossa" é de fato
uma ironia diante do relato, onde a presença do cão faz saltar aos olhos a
existência do conflito étnico, da Luanda dividida.
"A maka foi fruto de ressentimentos antigos deles que
ainda hoje estão vivos; malanjinos escondem, mas esperam a desforra. Digo-lhe,
deixem os malanjinos tentar levantar a cabeça que lha cortamos de vez. Depois
da maka acabar, ficamos amigos. É a única exceção que faço, é o Malaquias.
Porque em minha casa nem cão, nem gato, nem malanjino".(p.36).
No relato, o cão representa uma alerta ou a presença real de uma guerra
ou então da colonização, mas uma colonização com outra roupagem, de forma
mascarada a hierarquia dos cargos públicos e a burocratização dos serviços e
como face o sistema Econômico Mundial.
Apesar de a liberdade ter chegado na Angola, ninguém se sentia livre de
verdade. Era perceptível que mesmo com o colonizador português expulso, ainda
havia outro colonizador, agora em nível mundial -- O sistema Econômico que gera
colonizadores e colonizados. Essa colonização se perpetua pela disputa de poder
por parte de facções étnicas que foram estrategicamente promovidas pelos
portugueses durante a colonização e por uma acomodação do povo, pois estavam
iludidos pensando que a maior libertação do povo angolano seria a expulsão dos
portugueses.
Após a independência, a
desumanização se enraizou de maneira tão forte em alguns setores da sociedade
angolana, que muitos oprimidos interpretaram a independência como justificativa
para se tornarem opressores. São os efeitos que a colonização dos portugueses
havia deixado uma visão de mundo onde não se pode haver outro tipo de relação a
não ser o de colonizador-colonizado.
Depois de citar vários grupos que viviam em
Luanda, inclusive os malanjinos, mulatos entre outros, o narrador descreve a
cidade de forma caótica:
“Isto é uma Babilônia ingovernável, uma Torre de Babel. Os
esgotos não funcionam, as ruas parecem queijos, as árvores imitam as ovelhas da
Europa, tosquiadas rentes, os ratos confundem-se com coelhos, os passeios
sujos, os prédios a feder de podres, a luz elétrica sempre com falhas, os
jardins mortos”. (p.36).
Em seguida, o Catetense questiona de
quem seria a culpa, o fato da cidade estar naquela situação, e ainda assim
responde que o problema, está na diversidade da população, que para ele, é uma
grande confusão, ou melhor, “o drama todo”.
“Se me deixassem, expulsava daqui todos os não-genuínos,
todos, esses é que empestam a cidade. Ia ver que num mês Luanda era uma cidade
orgulho nosso”. (p.36).
Como visto anteriormente, o narrador
atribuiu à desordem da cidade de Angola, a diversidade do povoamento. Visto
que, a diversidade costumava ser destruída pela sociedade a favor de alguma
ordem definitiva, a favor de uma “Luanda cidade orgulho nosso”, na incerteza
desse termo. A presença do cão que trouxe o “caos”, no momento em que o passado
veio à tona pela memória de cada um dos que a relataram, nas lembranças e
esquecimentos que construíram uma memória de Luanda.
Ademais, o narrador cita uma frase do capitalista e comunista Karl Marx,
como fruto de sua ignorância, a citação é verbalizada de maneira fortemente
irônica a fim de justificar o mais terrível egoísmo capitalista que havia
dentro de si e o ranço racista que carregava o narrador do conto.
“-- Marx disse: primeiro a barriga, depois as ideias e os
sentimentos. Malaquias abanou só a cabeça, não respondeu. Ficou esmagado com a
citação do ídolo, tinha o retrato desse branco judeu na sala de visitas."
(p.37).
"- Filho de cão racista é racista. Esse
cão tem o vírus do ódio ao negro, da desconfiança ao mulato, do respeito ao
branco. E de vírus percebo eu, tenho obrigação. Não há educação que lhe chegue,
vai morrer racista.” (p.38).
O personagem fala especificamente do
cão, mas poderíamos encarar esse trecho como uma metáfora, uma metáfora mesmo
do ele que ele sempre sentiu na sociedade. "Filho de cobra é cobra",
no caso cobra faz uma referência metafórica ao branco colonizador.
Essa expressão por ser recorrente,
faz uma retomada à imagem negativa a respeito dos brancos, existente no
contexto político, ela assim como outras, fizeram parte das tensões sociais no
processo de construção da identidade nacional angolana, o qual o livro foi
escrito.
Depois da chegada sorrateira do cão,
a memória do narrador foi muito atiçada, mas depois de Malaquias teimar em
levar o cão, o Catetense muda a conversa e relata que o seu amigo Malaquias
levou mesmo o cão, que era pastor alemão.
Segundo o narrador, o cão ficou em
casa por alguns tempos e depois desapareceu, e Malaquias nunca soube a razão.
Ainda inconformado que seu amigo não reconheceu a razão do mesmo e sempre dizia
que era o melhor cão do mundo, chega a citar
“Esses malanjinos mentirosos...”. (p.38).
O fruto de ressentimentos antigos dele que ainda hoje estão
vivos diante dos malanjinos o faz levantar uma hipótese, que o mesmo
pode até ter envenenado o cão só para se livrar dele.
CONCLUSÃO
É de grande importância ressaltar que a
proclamação da lei 10.639.03 representa uma grande conquista na luta
antirracial no Brasil. A inclusão da história da África e da sua cultura na
educação brasileira oferece um vasto conhecimento sobre a afrodescendência. É
necessário que os livros didáticos e os profissionais da educação apresentem de
maneira mais intensa fazendo uso da literatura.
É de suma importância à história narrada pelos africanos e fazer uso
dessas narrativas no âmbito escolar permite que os preconceitos e as ideias
enraizadas, sejam quebrados dentro da sociedade. As literaturas africanas são
capazes de descrever aos alunos e aos demais leitores a sua cultura,
permitindo-lhes que identifiquem vários elementos que até então pareciam muito
distante.
O conto de Pepetela, “Luanda assim,
nossa”, pode ser considerado um espaço importante a ser trabalhado em sala de
aula, abrindo espaço para novas discussões e reflexão a cerca da história que
se passava na cidade de Luanda, com a história da Literatura Africana.
Em alguns momentos o personagem Catetense deixa claro suas
dúvidas e angústias quanto aos rumos e consequências do movimento pela
independência, ficam
claras as impressões causadas, numa primeira leitura. Quer seja de curiosidade,
inconformismo, enfim, sentimentos que nos faz pensar a obra de Pepetela a
partir do peso com que o autor aborda as tradições rompidas, a guerra e
tristeza.
Nesse sentido, faz-se de grande
escolha a opção
pela literatura próxima da narrativa histórica, pois é um bom ponto de partida
para se compreender as relações que formam a história angolana: as contradições
de um país rico, consumido pela colonização e guerras, que resultaram em um
povo, marcado pelo sofrimento decorrente das mutilações físicas e sociais, mas
que persiste em sua busca por afirmação no cenário africano contemporâneo.
As obras de Pepetela podem contribuir para a exposição de
um painel cultural sobre a sociedade angolana e quem sabe, aproximá-la também
do contexto brasileiro, que durante séculos de colonização esteve intimamente
ligado àquele país.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
DUTRA, Robson. Literatura e Nação - Pepetela e a história. Revista de História Comparada, Rio de
Janeiro, 5-1: 149-178, 2011. p. 1-30.
SOUZA, Carolina Bezerra. Relações de Poder em Angola: Uma leitura
dos romances de Pepetela. 2019. f. 1-272. Tese de Doutorado em Universidade
Federal Fluminense, Niterói.
ROSA, João Martos; Backes, José
Licínio. O ensino da Literatura Africana
na Educação Básica: observações iniciais. Campo Grande, 2011. p.1-12;
[1]
O Professor, pesquisador e dramaturgo Moisés Monteiro de Melo Neto possui graduação em Letras (1992),
mestrado e doutorado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (2011).
Atualmente é professor da UNEAL (Universidade Estadual de Alagoas) e da UPE
(Universidade Estadual de Pernambuco). Tem experiência na área de Letras, com
ênfase em Literatura, atuando principalmente nas seguintes Áreas: Dramaturgia,
Literatura Comparada, Estudos Culturais, Produção Textual, Literaturas em
Língua Portuguesa, Representações dos Gêneros na Literatura, Bioficção,
Literatura e História, Literatura e Cinema. É professor desde 1992. Autor de
vários livros (dentre os quais: Abismos da Poeticidade, publicado pelo SESC,
Notícias Americanas, Anticânone: literatura em Pernambuco a partir do século XX
e Chico Science. É autor de peças teatrais que receberam menções honrosas e
prêmios; atuou como colaborador do Suplemento Literário (Caderno C) do Jornal
do Commercio, Recife, nos anos 1990. Foi responsável pelo dramaturgismo da peça
Um minuto para dizer que te amo, vencedora de vários prêmios, ficando em cartaz
de 2017 a 2019. Faz parte do Programa de Mestrado Profissional em Letras
(ProfLetras), oferecido em rede nacional, é um curso de pós-graduação stricto
sensu que conta com a participação de instituições de ensino superior públicas
no âmbito do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) e também do Programa
de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Alagoas. Em 2019 lançou o livro Shakespeare:
um ensaio dramático. Colaborou de 2018 a 2020 com o jornal O SÉCULO, de
Garanhuns. Seu livro CIRCO MÁGICO ALAKAZAM lançado em outubro de 2019,
selecionado pelo Governo do Estado de Pernambuco, através da Secretaria de
Cultura, FUNCULTURA). Faz parte dos seguintes núcleos de pesquisa e extensão:
NÚCLEO DE ESTUDOS POLÍTICOS, ESTRATÉGICOS E FILOSÓFICOS: NEPEF, Pesquisador do
Núcleo de Pesquisa em Estudos Literários, Artes e Ensino-NELIEN- UNEAL, Projeto
de extensão e pesquisa Letramentos e práticas discursivas, LEPRADIS. Lepdic:
Letramentos e Práticas Discursivas e Culturais. Centro de Pesquisa Educacional Experiência
no magistério superior: 10 anos. Experiência Profissional: 30 anos de
Magistério. Líder do Projeto TUPI Formação do Teatro Universitário em Palmeira
dos Índios - Pesquisa e atuação: Teatro como instrumento pedagógico na prática
do ensino de Literatura. Lançou no final de 2020 o seu livro 'Biografia,
Autobiografia e Ficção: Literatura e História em Entrelaçamentos Vivenciais',
pela Editora Olyver, de Alagoas e tem participado de congressos, colóquios e
encontros, mesmo durante a pandemia nos anos 2020/ 2021. Em março deste ano
(2021) proferiu palestra dirigida aos alunos dos cursos EAD da UPE:
"Literatura e Sociedade", a convite da Coordenação do Curso de
Letras. Suas peças tem sido transmitidas pela Rádio Folha de Pernambuco. Teve
publicado, com apoio do Lepdic, um livro mais amplo sobre o Movimento Mangue, neste
primeiro semestre de 2021. Ministrou o minicurso Literatura africana de língua
portuguesa, entre maio de junho de 2021, também integrando forças com o projeto
do Lepdic, pelo Grupo TUPI, projeto de Extensão que coordena na Uneal.
https://orcid.org/0000-0002-1186-7334
[2] Graduando em Letras pela
Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:
paulo.henriquealves@upe.br
[3] Graduanda em Letras pela
Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:
thalyta.machado@upe.br
[4] Graduanda em Letras pela
Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: contatoandreza7@gmail.com
[5] Graduanda em Letras pela
Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: annilacarolinacnn@gmail.com
[6] Graduanda em Letras pela
Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: jailmasilva121@gmail.com
[7] Graduanda em Letras pela
Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: anielimelo@yahoo.com
[8] Graduando em Letras pela
Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: joao.vilela@upe.br
[9] Graduanda em Letras pela
Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:
josefa.baltazarlima@upe.br
[10] Graduanda em Letras pela
Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: thais.deniz@upe.br
[11] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco –
UPE/Campus Garanhuns. E-mail: claudeaneferreira2000@hotmail.com
[12] Graduanda em Letras pela
Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail: lucianatteodosio@gmail.com
[13] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus
Garanhuns. E-mail: maylima2009@hotmail.com
[14] Graduando em Letras pela Universidade
de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:djaelmartins@gmail.com
[15] Graduando em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus
Garanhuns. E-mail:guilhermevalle397@gmail.com
[16] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns.
E-mail:brisalaudiceia@gmail.com
[17] Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus
Garanhuns. E-mail: erlanegoncalo@gmail.com
[18] Graduando em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus
Garanhuns. E-mail: janicleide053@gmail.com
1 Graduanda em
Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns.
E-mail:albertocesar12@hotmail.com
² Graduanda em Letras pela
Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns.
E-mail:giulianagiuh@gmail.com
³ Graduanda em Letras pela
Universidade de Pernambuco – UPE/Campus Garanhuns. E-mail:
inesgabriela11@gmail.com
4 Graduanda em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE/Campus
Garanhuns. E-mail:tamaracurvelo@gmail.com

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