JOMARD MUNIZ DE BRITTO
ESCRITOR, PROFESSOR E CINEASTA FALA SOBRE CINEMA
PERNAMBUCANO, CULTURA NORDESTINA E A EXPERIÊNCIA DE TER SIDO PARTE DA EQUIPE DO
EDUCADOR PAULO FREIRE NA DÉCADA DE 1960
Intelectual de
diversas facetas, Jomard Muniz de Britto é escritor, poeta, cineasta e
professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Formado em Filosofia
pela Universidade do Recife (hoje UFPE), integrou a equipe inicial do Sistema
Paulo Freire de Educação de Adultos na década de 1960. Foi realizador de filmes
emblemáticos como O Palhaço Degolado (1977), assinou o histórico manifesto do
Movimento Tropicalista publicado em 1968 e é autor de livros como Do Modernismo
à Bossa Nova (Ateliê Editorial, 2009), Contradições do Homem Brasileiro (Tempo
Brasileiro, 1964), Atentados Poéticos (Edições Bagaço, 2002) e Arrecife de
Desejo (com João Denys; Editora Leviatã, 1994). Nesta entrevista, Jomard fala
sobre cultura, cinema pernambucano e educação no Brasil.
Você fez parte da equipe de Paulo Freire e acabou sendo afastado
da universidade durante a ditadura. Como foi aquela experiência?
Nós, que éramos da
equipe inicial do Paulo Freire, fomos todos responder a um inquérito e fomos
aposentados. No meu caso, eu tinha 27 anos de idade e fui aposentado. Paulo
Freire lançou uma proposta muito curiosa em que não queria livros de leitura,
que ele achava que já estavam condicionados. Fazia-se antes uma pesquisa do
universo vocabular daqueles que seriam alfabetizados e a partir dali você via
quais palavras seriam debatidas dentro desse universo.
Para mim, o mais importante do Paulo Freire é que antes de entrar a
palavra em discussão ele fazia uma apresentação sobre natureza e cultura,
porque os não alfabetizados, com esse debate, chegavam à conclusão de que o ser
humano, mesmo analfabeto, tinha cultura, produzia cultura. A novidade é que
Paulo Freire introduziu o debate antropológico, porque eram os seres humanos
diante da natureza e da cultura, como eles transformavam isso. Era tudo em
círculos de cultura, não havia sala de aula. Para mim, essa é a grande
originalidade do Paulo Freire.
A educação, naquele momento no Brasil, dava cadeia. Hoje, mudou a
visão sobre educação? Como você vê essa questão?
Nas décadas de 1960 e 1970, a palavra planejamento era considerada uma
palavra perigosa, porque lembrava os planos quinquenais da Rússia, e quando o
Celso Furtado falava em planejamento para o desenvolvimento, nas reformas de
base, os golpistas não aceitavam nada disso por ser um processo de
democratização. Os analfabetos não tinham direito ao voto e passariam a ter
direito a voto. Ultimamente, o que eu vejo é que tem se enfatizado muito a
importância da educação, junto da saúde e da segurança. O movimento maior que
eu vi em relação a isso foi em junho de 2013, em que se falava da educação
junto da saúde e da segurança.
Como professor aposentado, você acha que, no caso brasileiro, o
caminho da modificação do Brasil continua sendo a educação?
Não é, porque nunca foi. No tempo do Paulo Freire, na década de 1960,
não se dizia que a educação era tudo. Falava-se nas reformas de base, incluindo
o processo educativo. Acho que a educação que se defende hoje é uma educação de
atualização tecnológica. Acho que continua sendo tão politizado quanto na
década de 1960. O problema do analfabetismo ainda continua, e é um problema
sério. Não acho que exista nenhuma apropriação por governo nenhum da educação.
As coisas hoje em dia não têm aquela preocupação de conscientização
sociopolítica que havia na década de 1960. Hoje o Brasil é diferente e não
sinto nenhuma tentativa de apropriação da educação dando uma nova tonalidade. A
revolução da educação hoje é a internet, a atualização das coisas.
Quanto à internet e
essas tecnologias, como você observa que tudo isso pode ter modificado o sertão
nordestino?
Acho que ninguém tem nada ainda estudado sobre isso. Se você vai para o
sertão, você vê mesmo as casas pobres com antenas parabólicas. Não estou
dizendo que isso é bom nem ruim. São fontes de informação. A cultura regional
nordestina como existia antigamente não existe mais. Ela existe nos folguedos,
cirandas, bumba meu boi, que se movimentam, se transformam, se atualizam, são
influenciados.
Tudo isso continua existindo, e é ótimo que isso esteja em
transformação. Tem que estar. Agora não vamos ficar preocupados em rotular isso
como sendo para melhor ou pior. Acho que é um processo. Você encontra pessoas
morando no centro da cidade e muito ligadas a fazer poesia de cordel, que é uma
coisa mais relacionada ao interior, a regiões mais afastadas. A poesia de
cordel hoje em dia é objeto de doutorado na USP, então a literatura de cordel
continua existindo e vai se transformando.
No interior de Pernambuco você encontra os cordelistas que fazem poesia
dentro do esquema do cordel e usam a internet, estão antenados. As tecnologias
vão atualizando essas culturas que antes a gente chamava de regionais. A coisa
do regionalismo como existiu na década de 1930, 40 e 50 não existe mais. Não
existe essa separação entre nordestino, regional e internacional. Tudo está
existindo ao mesmo tempo.
Como fica a imagem do sertão diante disso tudo?
O regionalismo clássico da década de 1930 ficou lá. Essa imagem está
estilhaçada. O sertão sobrevive, com toda a sua ancestralidade, mas essa
ancestralidade convive com a contemporaneidade. A contemporaneidade é
justamente o embaralhamento de tudo. O único que teve essa visão do Nordeste
foi o Glauber Rocha, que é gênio. Agora o sertão não pode ser mais o de
Euclides da Cunha [autor de Os Sertões] e nem mesmo o de Vidas Secas [livro de
Graciliano Ramos]. Talvez o único que sobreviva na contemporaneidade é o sertão
de Grande Sertão Veredas [livro de João Guimarães Rosa], porque
psicanaliticamente trabalha com a linguagem e os significantes, não só com os
significados.
Quanto ao cinema pernambucano, você observa alguma característica
que una esses diversos diretores que surgiram no estado nas últimas décadas?
Não vejo isso. O Cinema Novo [movimento cinematográfico brasileiro
criado nos anos 1950] por exemplo, com toda a diversidade tinha um ideário de
pesquisar a linguagem para enfrentar a dominação dos cinemas nas salas de
exibição. Havia uma unidade. Desde o Super-8 [movimento do cinema pernambucano que
surgiu na década de 1970] duas tendências ficaram correndo paralelamente: uma
linha mais documental, mais ligada ao realismo, digamos assim, e uma linha mais
anarco-crítica.
Essas duas linhas do Super-8 estavam muito bem definidas. Hoje em dia a
coisa é bem mais diversificada. Não diria que há um diálogo entre correntes.
Cada cineasta tem a sua ou as suas propostas. É isso que eu gostaria que
tivesse na abordagem da educação, esse pluralismo estético e ideológico.
A diversidade temática e estilística do cinema contemporâneo
pernambucano pode ter influenciado o fato de esses cineastas estarem sendo
premiados mundo afora? Isso brotou de onde?
O novo cinema pernambucano foi iniciado com Baile Perfumado (1996), um
filme que vem com uma coisa da região, mas ao mesmo tempo com a mitologia,
porque o Lampião já é uma figura mitológica. Acho que esse cinema sabe jogar
com coisas que têm um enraizamento local, mas ao mesmo tempo um enraizamento
planetário.
Todos esses cineastas passaram pelos cursos da universidade, mas todos
têm a sua tendência própria, a sua pesquisa. Além disso, existe uma
camaradagem. Esse grupo colabora entre si. Embora com as diferenças todas, há
um sentido de colaborar.
No caso do cinema de Recife, existe uma urbanidade que aparece em
diversos filmes. Que urbanidade é essa que se vê hoje no cinema de Pernambuco?
A característica principal é a das contradições. Digo que além das
contradições são as contradicções, que é justamente você misturar o mito com o
contramito, o ancestral com o contemporâneo, aquilo que tem um espírito de
sublime com o grotesco. Mais do que uma bipolaridade, é uma transpolaridade.
Toda obra de criação mostra a sua cidade e tenta descobrir a poeticidade do
local, seja ela sublime ou grotesca.
O que me impressiona no cinema pernambucano são as estéticas e os
olhares múltiplos. Uma coisa que acho que é pernambucana é a visão
polêmica das coisas. Isso faz parte da nossa cultura. Esses filmes estão
fazendo sucesso porque têm um toque que não é consensual. Não existe consenso,
existe polêmica.
[...]
Essa contribuição do cinema pernambucano, que mostra uma realidade
de fora da visão do eixo Rio-São Paulo, é resultado de um Brasil contemporâneo?
E também das divisões culturais. Por exemplo, por que a Bahia, que tem
cineastas incríveis na nova geração, não conseguiu ter a repercussão que o
daqui teve? Aí entra um problema de marketing, entra a ligação entre cineastas
e o pessoal da imprensa do Rio e de São Paulo. O cinema de Pernambuco
conseguiu, realmente.
O fundo setorial
para financiamento de audiovisual influenciou esse desenvolvimento em
Pernambuco?
Todos os estados têm esse financiamento, mas aqui isso foi muito
cobrado. É interessante porque nos últimos anos as autoridades perceberam a
importância desse setor do audiovisual para o próprio país. Há uma percepção de
que o audiovisual conta a história e leva o país de uma maneira muito forte e
muito fácil para diversos lugares.
“TODA OBRA
DE CRIAÇÃO MOSTRA A SUA CIDADE E TENTA DESCOBRIR A POETICIDADE DO LOCAL, SEJA
ELA SUBLIME OU GROTESCA. O QUE ME IMPRESSIONA NO CINEMA PERNAMBUCANO SÃO AS
ESTÉTICAS E OS OLHARES MÚLTIPLOS”
“A CULTURA
REGIONAL NORDESTINA COMO EXISTIA ANTIGAMENTE NÃO EXISTE MAIS. ELA EXISTE NOS
FOLGUEDOS, CIRANDAS, BUMBA MEU BOI, QUE SE MOVIMENTAM, SE TRANSFORMAM, SE
ATUALIZAM, SÃO INFLUENCIADOS. TUDO ISSO CONTINUA EXISTINDO, E É ÓTIMO QUE ISSO
ESTEJA EM TRANSFORMAÇÃO”
“CADA CINEASTA [DO NOVO CINEMA PERNAMBUCANO] TEM A
SUA OU AS SUAS PROPOSTAS. É ISSO QUE EU GOSTARIA QUE TIVESSE NA ABORDAGEM DA
EDUCAÇÃO, ESSE PLURALISMO ESTÉTICO E IDEOLÓGICO”
“UMA COISA
QUE ACHO QUE É PERNAMBUCANA É A VISÃO POLÊMICA DAS COISAS. ISSO FAZ PARTE DA
NOSSA CULTURA. ESSES FILMES ESTÃO FAZENDO SUCESSO PORQUE TÊM UM TOQUE QUE NÃO É
CONSENSUAL. NÃO EXISTE CONSENSO, EXISTE POLÊMICA”