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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Análise de dois livros de Carlos Drummond de Andrade (A Rosa do Povo, de 1945, e Sentimento do Mundo, de 1940)

A Rosa Do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, por Moisés Neto

O 1º poema é “CONSIDERAÇÃO DO POEMA”: um metapoema. Não quer rimar sono com outono e sim rimar carne com o que lhe convier. Palavras nascem soltas. É tema recorrente nele comentar sua própria poesia: “Uma pedra no meio do caminho ou apenas um rastro, não importa”. Cita os amigos: Vinícius, Murilo Mendes e ainda outros poetas como Neruda (Chile), Apollinaire (França) e Maiakovski: “São todos meus irmãos, não são jornais.”

A guerra dá sinais, ainda: “Há mortes (...) é tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras(...) nas principiantes rugas (...) poeta do finito e da matéria / cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas, / boca seca, mas ardor tão casto (...) eis aí o meu canto(...) o povo, meu poema, te atravessa”. Vemos aqui a poesia social e os estilhaços da crise mundial se abatendo sobre o indivíduo.

O 2º poema também usa a metalinguagem (“Procura da poesia”): “Penetra surdamente no reino das palavras / lá estão os poemas que esperam ser escritos (...) Convive com teus poemas antes de escrevê-los”. São conselhos de um mineiro que reflete antes de agir e busca interlocutores até dentro de si mesmo.

O 3º é o existencialista “A flor e a náusea”: Drummond coisifica tudo até o tempo e as classes sociais: “Posso, sem armas, revoltar-me? (...) há cifras e códigos (...)Quarenta anos (...) homens (...) levam jornais / e soletram o mundo, sabendo que o perdem // Crimes da terra, como perdoá-los? / Tomei parte em muitos, outros escondi. / Alguns achei belos, foram publicados”. E volta à juventude (memorialista?):“Ao menino de 1918 chamavam anarquista. / Porém meu ódio é o melhor de mim (...)Uma flor nasceu na rua! (...) ilude a polícia, rompe o asfalto (...) sua cor não se percebe / Suas pétalas não se abrem (...) É feia mas é realmente uma flor”.

O 4º poema é “Carrego comigo”: “O pequeno embrulho (...) cartas? (...) flor? (...)retrato? (...) lenço talvez? // Não me recordo / onde o encontrei / Se foi um presente / ou se foi furtado. “Se os anjos desceram / trazendo-o nas mãos, / se boiava no rio, / se pairava no ar // não ouso entreabri-lo (...) o mundo te chama: / Carlos! Não respondes?”.

Parece que o misterioso embrulho é o próprio ser: “Ai, fardo sutil / que antes me carregas / do que és carregado, / para onde me levas? (...) Sou um homem livre / mas levo uma coisa (...) algo indescritível”.

5º Poema: “Anoitecer” (dedicado a uma tal Dolores) Aqui sinos são substituídos por buzinas e barulhos que “uivam escuro segredo” e o poeta sente um certo medo na hora (crepúsculo) em que os pássaros voltam, mas não há mais pássaros e seu corpo pede morte, mergulho, delicadeza que falta no mundo, pois “é hora dos corvos” que bicam o passado e o futuro.

O 6º poema é dedicado ao escritor/ crítico literário/ professor Antônio Cândido e chama-se “O medo”, coisa comum naqueles anos trágicos: “Nascemos escuros (...)carteiro, ditador, soldado. / Nosso destino, incompleto (...) a natureza traiu-nos. Há as árvores, as fábricas, / doenças galopantes, fomes. // Refugiamo-nos no amor, / este célebre sentimento, / e o amor faltou: Chovia / Fazia frio em São Paulo.../ Nevava (...) fiquei com medo de ti, / meu companheiro moreno. / De nós, de vós; e de tudo.“

A burguesia é criticada, exposta, devorada, organizada e desmontada pelo mineiro de Itabira: “Assim nos criam burgueses. / Nosso caminho: traçado (...) Fiéis herdeiros do medo”.

7º Poema: “Nosso tempo”: O homem fragmentado, no tempo político de “homens partidos” quando “a hora pressentida esmigalha-se”.

E o eu-lírico ressente-se: “São tão fortes as coisas!/ Mas eu não sou as coisas e me revolto” neste “tempo de gente cortada/ mãos viajando seus braços”. Na guerra não havia brisa só o sopro que parecia vir dos laboratórios e que sempre “cresta as faces/ dissipa, na praia, as palavras (...) escuridão (...) é tempo de muletas (...) conduz a quartos terríveis (...) crimes?”.

A voz poética pede: “pessoas e coisas enigmáticas, contai (...) o espião janta conosco”. Nosso campo semântico (palavras) aqui é de guerra; como vemos, o mundo explode: “o espião janta conosco”.

É tempo de “olhos pintados, / dentes de vidro (...) colarinhos sujos (...) rio de carne”. O poeta tem dentro de si o estranhamento: “come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida, / mais tarde será de amor”.

É um longo poema onde se lê: “o horrível emprego do dia / em todos os países da fala humana, / a falsificação das palavras pingando nos jornais (...) formigas e usurários(...) sinistro crepúsculo (...) há pranto (...) já tarde, já confuso (...) e dentro do pranto minha face trocista / meu olho que ri e despreza”. O poeta ataca certo viés capitalista e quer destruí-lo.

E no 8º poema chega “A passagem do ano”. Os versos anunciam: “Outros dias virão”. A visão é um tanto cubista, de colagem até: mulher, pé, corpo, memória, olho, Deus, pai, avô, embriagar, dançar, bola colorida, Kant, poesia. Nada se resolve e o primeiro dia do ano novo nasce: “Vida gorda, oleosa, mortal”.

O 9º é “Passagem da noite”: “Não porque a sombra desce (...) no fundo de mim o grito, / se calou, fez-se desânimo (...) somos noite (...) palpitamos no escuro”. O poeta é todo estados e coisas: “É noite” e ele faz novamente referencia às coisas das guerras: submarinos versus roças e mais um dia nasce: “Clara manhã, obrigado, / o essencial é viver!”. São muitas exclamações.

O 10º poema: “Uma hora e mais outra” – Versos curtos em sua maioria. O eu-poético aponta: “a cabeça cobres / com frio lençol, antecipando outro/ mais gelado pano (...)assistes ao dia / perseverar no câncer (...) besta caçada (...) gelatina humana (...)lixo tão burguês (...) a falta de amor” (Repete três vezes). É o peito deserto que não vê sair com conforto nada de si nenhum pouco, que seja, nem na “hora da evacuação”. Estaria usando o ato de defecar como metáfora?

Ele fala de alguém que não quer solução benigna de cristo (“c” minúsculo) e arsênico:“Tu vives, cadáver / malogro”, que mal sabe que existe amanhã e que “a hora mais bela / surge da mais triste”.

11º: “Nos áureos tempos”, uma meditação sobre a passagem do tempo e de quando“um coqueiro atroz” farto da cidade ia para o mato. Áureos tempos que “dormem no chão”.

O poeta confessa que não se sente forte para interpretar aqueles tempos, mistura complicada que de repente é presente e é futuro (que poderiam ser bem melhores).

O 12º é “Rola mundo” e fala de moças “dançando num baile de ar” com coração na jaula e de brandura transformada em violência, de enigmas como flores abertas no vácuo, da própria vida contrair-se em inseto.

Seria melhor “deitar fora” os “olhos e os óculos”? Responde: “Rola, mundo (...)desintegra-te, explode, acaba!”. Um certo niilismo, pessimismo. Não?

13º “Áporo” (que é inelutável): fala de “inseto” cavando para nada, de “país bloqueado”, exaustão, “labirinto”. De uma orquídea formando-se. Há sempre o belo no meio da impossibilidade, incomunicabilidade, necessidade de solidariedade, drummondianos.

14º “Ontem”: perplexo “ante o que murchou” em si, o poeta escreve, desabafa, usa seu lirismo de guerreiro das letras misturando indiferença e amor.

15º “Fragilidade”: Metapoema usando as palavras navio, ondas, sono, terra esfacelada, olho, cristal. O verso como um desenho da conturbada realidade que o cerca.

16º: “O poeta escolhe seu túmulo”: ele usa Tróia e Helena para falar onde despiu alguém um dia. Ali ele sepulta-se “para sempre e um dia”. Vida e morte estão em xeque neste livro de 1945, composto durante a segunda guerra mundial.

17º: “A vida menor” fala de fuga, exílio, gestos inúteis. Morte (mais uma vez!) versus vida “captada”, “irredutível”. Paz no cansaço. Procura.

18º: “Campo, chinês e sono” é dedicado a João Cabral de Melo Neto (que três anos antes lançara seu primeiro livro – “Pedra do Sono”): é como se fosse um quadro, um poema-edifício/ construção, nos moldes cabralinos: “O Chinês deitado (...) como saber se está sonhando? (...) formigas (...) peixes (...) o campo está dormindo e forma um chinês / de suave rosto inclinado / no vão do tempo”.

19º: “Episódio” na imagem de um boi que pára à sua porta, o poeta reflete e é transportado ao “País Profundo”.

20º: “Nova canção do exílio” (ao escritor Josué Montelo) parafraseia o famoso poema do romântico maranhense Gonçalves Dias. “Voltar / para onde tudo é belo”.

21º: “Economia dos mares terrestres” é sobre a “queixa / comprimida na garrafa / quer escapar / reunir os povos”. O clima de Drummond é quase sempre o de urgência e pede que sejamos enérgicos, firmes. Raciocinar com emoção, se isto for possível. Seu ritmo conduz o leitor num labirinto permeado de cotidiano.

22º: “Equívoco”: “Na noite de lua perdi o chapéu (...) sou um peixe, mas que fuma e que ri,/ e que ri e detesta”. Puro surrealismo e pessimismo.

23º: “Movimento da Espada”: “irmão vingador (...) justiça (...) já podes sorrir”. O eu-lírico sofre golpe e se acha bom: “o que perdi se multiplica (...) sobre minha cova, como brilha o sol!”. Novamente uma alusão às batalhas.

24º: “Assalto: Tempo transcorrido, traças, “perna que pensa”: o tempo se retrai, o concha “concha”. Mais uma vez a ruptura com a linearidade do tempo traz todas as épocas (até o futuro!) para um presente cheio de calamidades e prazeres suspeitos.

25º “Anúncio da rosa”: “Tão meiga (...) onde abrirá? (...) nunca (...) é sete (...)exóticas (...) históricas. (...) patéticas (...) autor da rosa, sou eu, quem sou? (...)amplo vazio”. Aliteração: “Rosa na roda / rosa na máquina / apenas rósea (...) meu comércio incompreendido (...) ó fim do parnasiano / começo da era difícil, a burguesia apodrece / aproveitem. A última / rosa desfolha-se”. Os novos tempos exigem cautela, a nova poesia tem o ranço das máquinas.

26º “Edifício São Borja”. Um poema caleidoscópico: "Cidade / infância / Santo / caos/ espasmo / vento / Edifício poço luz / esperança de emergência / mar / caça / canoa sem peixes / tempo despencando”. O poeta em delicado transtorno tenta compreender o estranho quebra-cabeça em que a vida está representada.

27º: “O Mito” fala do amor moderno, a mulher-objeto que ri de quem a cobiça, rimmel, marxismo, táxi: “O amor é tão disparatado”, “sequer conheço Fulana”: “Vem fulana”,“Será gente?” (“às vezes existe”). “Insuportável riso (...) sem cabeça e sem perna”. O feminino em Drummond é transparência com erotismo, desespero com suavidade. Aqui temos mais um pouco do peculiar humor do nosso bom itabirano.

28º “Resíduo”: Medo, ponte bombardeada, áspero silêncio, muros zangados. O universo do poeta agoniza, de tudo ficou um pouco (e que é terrível): túneis, labaredas, sarcasmo, “um botão, um rato”.

29º: “Caso do vestido” (composto em dísticos) mãe e filhas falam sobre um vestido “morto”, pendurado, de uma tal dona de longe com quem o pai / marido enamorou-se tempos atrás.

Por causa desta indiferente amante ele maltratou, bebeu (o pai até pediu à esposa/ eu-lírico que pedisse àquela mulher para “dormir” com ele, e ela, mãe/ dona de casa, foi e fez” pelo sinal “diante da pecadora. Pensou na morte. Ficou de cabeça branca. Perdeu assim o marido e dinheiro. A tal dona/ amante descarada reaparece anos depois e lhe dá o tal vestido, símbolo do caso que teve com o marido que transloucado pelo desejo abandonara o lar. No início “vadia nem queria o sujeito, a esposa dele insistira. É a volta do pai arrependido: apareceu, nem estava mais velho, a mãe conta às filhas. Ele sobe as escadas. É narrativa em versos. A perversa se arrependera. A esposa submissa guarda o vestido como símbolo. Troféu? Uma narrativa em versos cheia de metáforas e reflexões sutis.

30º: “O Elefante”: “Fabrico um elefante (...) com madeira de velhos móveis (...)encho de algodão (...) orelhas (...) tromba (...) presas (...) olhos” (parte mais fluida). O elefante é o projeto humano do poeta num mundo enfastiado. Ele sai e volta se desmanchando. É o disfarce que amanhã recomeçará.

31º “Morte do leiteiro”: Jovem saudável entrega leite e é assassinado ao amanhecer por um dono de casa que o confunde com ladrão. Poema dramático sobre violência, desconfiança na metade num século (XX) que se encaminhava para o caos social. O modo vence e o dia nasce, róseo como sangue com leite. Outro poema que “conta” uma história, fabulando os versos recriam o cotidiano.

32º: “Noite na repartição”. Funcionário dividido entre burocracia e sentimento. O papel, a porta, a aranha, o oficial, a garrafa de uísque, a cachaça, a traça, o telefone, a pomba, a vassoura – todos conversam sobre o ser.

33º: “Morte no avião”: “Acordo (...) visito o banco (...) almoço, para quê? (...) ainda não é a morte (...) colchão de nuvens (...) nem ave nem mito (...) sem mistificação em vôo, / sou corpo voante (...) caio verticalmente e me transformo em notícia”.

34º “Desfile”: O poeta sonha e brinca com o tempo.

35º “Consolo na praia”. Parece uma voz experiente que fala ao eu-lírico, ou este quer consolar a humanidade, em vez do suicídio não seria melhor dormir?

36º “Retrato de família” – o poeta medita sobre os laços que unem passado e presente: a “estranha ideia de família / viajando através da carne”.

37º “Interpretação de dezembro”, nova reflexão passado/ presente.

38º “Como um presente”: “Teu aniversário, no escuro, / não se comemora (...) tira fome não come (...) compraste calma? (...) já não estás, e te sinto (...) no escuro é permitido sorrir”.

39º “Rua da madrugada”: O pai, a chuva, a luta pela vida, o nada, a estrada.

40º “Idade madura”: o menino no homem maduro que, resignado ou não, negocia no centro da cidade vencida. Há soldados e o clima é de guerra, circo, cada vez menos solitário, o poeta segue em ruas dispersas.

41º “Versos à boca da noite”: O tempo, a indecisão, o eu e o outro.

42º “No país dos Andrades”: o pai e o país se misturam na viagem de Drummond rumo ao âmago do ser e estar num mundo cheio de resíduos, laços que unem e separam os seres e as coisas.

43º “Notícias”: os mortos, o mar, os telegramas.

44º “América”: o homem se sente pequeno para compreender a América: “Uma rua começa em Itabira, que vai dar no meu coração” (parentes, a “preta que me criou”), o navio: “Sou apenas uma rua / na cidadezinha de Minas / humilde caminho da América (...) a canção (...) tantas cidades (...) desertos (...) desejo de ajudar (...) ilha (...) sou apenas o sorriso / na face de um homem calado”.

45º “Cidade prevista”: “Guardei-me para a epopéia / que jamais escreverei (...) o que desejei é tudo (...) Este país não é meu / nem vosso ainda poetas (de Minas Gerais). / Mas ele será um dia / o país de todo homem”. Nosso poeta em busca do outro, quase incomunicável, anuncia que haverá amor, um dia, melhor. Mundo mais justo?

46º “Carta a Stalingrado”: a política de esquerda atravessou os versos do poeta:“depois de Madri e Londres (...) entre Minas / outros homens surgem (...) se elevam(...) resistes (...) teu nome no alto da página (...) dá alento (...) Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente (...) esperanças (...) criatura humana (...) amanhã erguerá a sua Ordem”.

47º “Telegrama de Moscou”: “Reconstruiremos a cidade”. Poema-notícia, retrato de um tempo em que não se dizia mais “meu Deus”.

48º “Mas viveremos”: “Já não há mãos dadas no mundo”. O poeta cita a si mesmo, fala da necessidade de esperança.

49º “Visão de 1944”: “Meus olhos são pequenos para ver...” A desgraça da 2ª guerra mundial. No final, o novo brotando e os olhos que “pasmam, baixam, deslumbrados”.

50º “Com o russo em Berlim”: o poeta identifica-se com a esperança de um mundo mais justo pós-guerra.

51º “Indicações”: livros, cinema, caneta, cartas, poemas: tudo é imóvel. Palavras- objetos recriando o sentido da vida.

52º “Onde há pouco falávamos”: “O piano de alguma avó morta (...) gente morta (...)família, como explicar? (...) nesta sala”. Reminiscências e, será que podemos nos expressar assim? Bom, lá vai: Sentimentalismo crítico.

53º “Os últimos dias”: “De olhar esta folha (...) retê-la (...) cada homem é diferente, e somos todos iguais (...) silêncio global (...) irmãos (...) tristeza não me liquida”. Noventa por cento de ferro na alma. Drummond opera o seu singular amor, sua alma que não é totalmente impermeável.

54º “Mário de Andrade desce aos infernos” a dor pela morte do colega: “Tuas palavras(...) carinhosos diamantes”. Homenagem ao modernista da primeira safra. Oswald e Mário levaram o Modernismo a Minas.

55º “Canto ao homem do povo Charles Chaplin”: “Era preciso que um poeta brasileiro...”, assim começa a louvação ao personagem cinematográfico (mitopoético) Carlitos. Vagabundo, solitário, solidário. Magistral criação do artista inglês que mudou pra sempre o cinema, e por que não dizer? A arte ocidental na primeira metade do século XX. Cita filmes, encontra amor: “Contra a miséria e a fúria dos ditadores, (...) numa estrada de pó e esperança”.

Sentimento do mundo : a guerra de Drummond
                                        por Moisés Neto.
“Esse incessante morrer/que nos teus versos encontro/é tua vida,poeta,/e por ele/te comunicas com o mundo em que te esvais.//Debruço-me em teus poemas/e nele percebo ilhas/em que nem tu nem nós habitamos/(ou jamais habitaremos)/e nessas ilhas me banho/num sol que não é dos trópicos,/numa água que não é das fontes/mas que ambos refletem a imagem/de um mundo amoroso e patético.//Tua violenta ternura,tua infinita polícia,/tua trágica existência/no entanto sem nenhum sulco/exterior-salvo tuas rugas,/tua gravidade simples,/a acidez e o carinho simples/que desbordam em teus retratos,/que capturo em teus poemas,/são razões por que te amamos/e por que nos fazes sofrer(...)Não é o canto da andorinha,debruçada nos telhados da Lapa,/anunciando que tua vida passou à toa,à toa/Não é o médico mandando exclusivamente tocar um tango argentino,/diante da escavação no pulmão esquerdo e do pulmão direito infiltrado(...)Não são os mortos do Recife dormindo profundamente na noite(...)és tu mesmo,é tua poesia,(...)é o fenômeno poético,de que te constituíste o misterioso portador”.

Assim expressou-se Drummomd quando Manuel Bandeira completou 50 anos (Ode no Cinquentenário do poeta Brasileiro-poema do livro SENTIMENTO DO MUNDO). O ano era 1940, marcado pela segunda guerra mundial.

O novo livro de Drummond trazia a necessidade de darmo-nos as mãos e sermos no futuro uma lembrança,como um retrato na parede, porque o amor resultou inútil e olhos não choram. Porque chegara um tempo em que não adiantava morrer. A vida? Uma ordem. Vida apenas, sem mistificação.

Drummond tinha a História como perspectiva e dizia-se poeta de “ritmos elementares”. Porém sua obra é uma espécie de suporte pra o viver, o sobreviver e o morrer. Onde o Bem, o Belo, a Forma,a Estrutura,a Verdade,a Realidade,o Indivíduo, as Pessoas,a Sociedade,o Canto,a Arte,o Artifício,o Menos e o Mais,o Sim e o Não, giram em alegorias no cotidiano do brasileiro simples.

O poeta de Itabira (MG) descobriu também que o sentido da vida é o seu sem-sentido onde tudo se comunica: o real e o imaginário de todas as épocas se misturam.

Assuntos,motivos,temas,tópicos que até então estavam banidos da poética aparecem na poesia dele numa espécie de novo “viva o dia”(carpe diem),como frisou Antônio Houaiss.

Drummond é mestre da língua.Sua invenção da modernidade é uma postura que se faz necessária,é pois um projeto de vida ou de carreira.Uma busca incessante,onde Linguagem e Homem reinauguram-se.

Sua busca da simplicidade,oralidade,é característica marcante,particularizante.

Suas utopias,sonhos,protestos,indagações,enlaces,desenlaces,fazem dele um “corajoso desor-ganizador”. Ele se escreve. Ele acusa o limite,não apenas entre o bem e o mal (que não existe,é apenas um contraste do bem).

Sua obra ”que não foi construída segundo um projeto,a partir de intenções e fôrmas e/ou formas externas- por exemplo a de `ser´ poeta,a de fazer um soneto,uma sextilha ou um poema de vanguarda,sobre este ou aquele tema,segundo esta ou aquela técnica”.

“O amor truncado,que não chega a ser amor,mas que perdido se revela amor que podia ter sido”.

O humor dessa vida que continuará nos outros,ou em “algo que talvez nem seja o Outro,mesmo que não valha a pena:continuará”: “Onde o diabo joga dama com o destino”.

“Debruça-se o autor sobre o próprio texto à medida que o elabora,inquirindo-lhe do cabimento,da legitimidade,da propriedade das palavras.Uma atitude metalingüística.É o cotidiano repetido num singular irrepetido.A técnica machadiana:espíritos afins,em determinadas condições histórico-sociais,são levados ao uso de técnicas de expressão afins”,ressaltou o mestre Houaiss.

O itabirano foi cristalizador do modernismo em sua plenitude cheia de crises,monstros e utopias. Crise totalizante,porque planetizada num mundo “fomicizado” pela mecanização “coisificante”,daí o conflito da mente do poeta com a realidade total em que vivia,

Luís Costa Lima afirmou: ”Drummond é o maior e último poeta modernista:seu riso corrói,dissolve aquelas dissonâncias que são a regra da vida.Ele assume com a História uma relação aberta”.

Ele se opõe ao “fluir sentimental de Manuel Bandeira,pois que não há piedade em si mesmo por uma vida que podia ter sido e que não foi e cujos elementos de saudade se constituem,assim,em força predominante de um poetar num infinito jogo de recursos para enunciação do inédito.Uma lição de vida”.

O livro “Sentimento do Mundo” contém os seguintes poemas:

SENTIMENTO DO MUNDO- o poeta é surpreendido pela guerra: ”Sinto-me disperso,/anterior a fronteiras,humildemente vos peço que me perdoeis.//Quando os corpos passarem,/eu ficarei sozinho(...)ao amanhecer//esse amanhecer/mais noite que a noite.”

CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO- as lembranças da cidade-natal: “Alguns anos vivi em Itabira./Principalmente nasci em Itabira./Por isso sou triste,orgulhoso:de ferro” (principal atividade da cidade) “A vontade de amar,que me paralisa o trabalho,vem de Itabira(...)E o hábito de sofrer,que tanto me diverte,é doce herança itabirana(...)Tive ouro,tive gado,tive fazendas./Hoje sou funcionário público./Itabira é apenas um retrato na parede./Mas como dói!”

CANÇÃO DA MOÇA-FANTASMA DE BELO HORIZONTE.- uma mistura de lenda e metáfora: ”Eu sou a Moça-Fantasma/que espera na rua do Chumbo/o carro da madrugada/Eu sou branca e longa e fria/a minha carne é um suspiro/na madrugada da serra/Eu sou a Moça-Fantasma/O meu nome era Maria,/Maria-Que Morreu –Antes.(...) Eu nunca fui deste mundo:/ Se beijava,minha boca/dizia outros planetas/em que os amantes se queima/num fogo casto e se tornam/estrelas sem ironia//Morri sem ter tido tempo/de ser vossa,como as outras.Não me conformo com isso(...)Não sei como libertar-me”.

POEMA DA NECESSIDADE - utilizando-se do recurso da anáfora(repetições),o poeta anuncia o “fim do mundo”,num cotidiano frenético : “É preciso casar João,/é preciso suportar Antônio,é preciso odiar Melquíades,/é preciso substituir nós todos.//É preciso salvar o país,é preciso crer em Deus,/é preciso pagar as dívidas(...)é preciso colher flores(...)É preciso viver com homens,/é preciso não assassiná-los,/é preciso ter mãos pálidas/e anunciar o FIM DO MUNDO”.

TRISTEZA DO IMPÉRIO - a relação irônica do modernismo com a História,prato preferido de Oswald,aparece na poesia de Drummond: ”esqueciam a Guerra do Paraguai (...)a dor cada vez mais forte dos negros/e sorvendo mecânicos/uma pitada de rapé,/sonhavam com a libertação dos instintos/e ninhos de amor a serem instalados nos arranha-céus de Copacabana,com rádio e telefone automático”.

O OPERÁRIO DO MAR- o homem do povo : “Para onde vai o operário?/Teria vergonha de chamá-lo meu irmão./Ele sabe que não é,nunca foi meu irmão,que não nos entenderemos nunca.E me despreza...(...) quem sabe se um dia o compreenderei?”

MENINO CHORANDO NA NOITE- a união entre seres humanos,flagrados em atitudes simples: “Na noite lenta e morna,morta noite sem ruído,um menino chora./O choro atrás da parede,a luz atrás da vidraça(...) E não há ninguém mais nesse mundo a não ser esse menino chorando.”

MORRO DA BABILÔNIA - a gente brasileira: ”Há mesmo um cavaquinho bem afinado/que domina os ruídos da pedra e da folhagem/e desce até nós,modesto e recreativo,/como uma gentileza do morro”.

CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO - “Provisoriamente não cantaremos o amor(...depois morreremos de medo” .

OS MORTOS DE SOBRECASACA- “Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis/alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,/em que todos se debruçavam/na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca//Um verme principiou a roer(...) Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava/que rebentava daquelas páginas”.

BRINDE AO JUÍZO FINAL- “Em vão assassinaram a poesia nos livros(...)Os sobreviventes aqui estão”.

PRIVILÉGIOS DO MAR - “Neste terraço mediocremente confortável,/bebemos cerveja e olhamos o mar./Sabemos que nada nos acontecerá.”

INOCENTES DO LEBLON - “Os inocentes do Leblon/não viram o navio entrar(...)tudo ignoram,/mas a areia é quente,e há um óleo suave/que lês passam nas costas,e esquecem”.

CANÇÃO DE BERÇO - “O amor não tem importância(...)Mas também a carne não tem importância(...)Também a vida é sem importância./Os homens não me repetem/nem me prolongo até eles./A vida é tênue,tênue/O grito mais alto ainda é suspiro,/os oceanos calaram-se há muito./Em tua boca,menina,/ficou o gosto de leite?/ficará o gosto de álcool? // Os beijos não são importantes./No teu tempo nem haverá beijos./Os lábios serão metálicos,/civil,e mais nada,será o amor/dos indivíduos perdidos na massa/e uma só estrela/guardará o reflexo/do mundo esvaído/(aliás sem importância).”

INDECISÃO DO MÉIER - “Teus dois cinemas,um ao pé do outro,por que não se afastam/para não criar,todas as noites,o problema da opção.”

BOLERO DE RAVEL - “Alma cativa e obcecada/enrola-se infinitamente numa espiral de desejo/e melancolia(...)Os tambores abafam a morte do Imperador”

LA POSSESSION DU MONDE - “Os homens célebres visitam a cidade./Obrigatoriamente exaltam a paisagem./Alguns se arriscam no mangue,/outros se limitam ao Pão de Açúcar,/mas somente Georges Duhamel/passou a manhã inteira no meu quintal./Ou antes no quintal vizinho do meu quintal”.

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO- um dos poemas mais conhecidos de Drummond da vida,simplesmente,sem mistificação: “Chega um tempo em que não se diz mais :meu Deus(...)não se diz mais:meu amor./Porque o amor resultou inútil./E os olhos não choram/E as mãos tecem apenas o rude trabalho./E o coração está seco.(...)Chegou um tempo em que não adianta morrer”.

MÃOS DADAS - aqui o poeta diz que é melhor não fazer poesia “alienada”.Fala também na necessidade de união para resolver os problemas(“a enorme realidade”).Uma resposta à aflição da guerra: “Não serei o poeta de um mundo caduco./Também não cantarei o mundo futuro./Estou preso à vida e olho meus companheiros./Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças”.

DENTADURAS DUPLAS - a velhice ,num poema dedicado a Onestaldo de Pennafort :”Dentaduras duplas!/Inda não sou bem velho/para merecer-vos(...)daí-me enfim a calma /que Bilac não teve/para envelhecer(...)feéricas dentaduras,admiráveis presas,/mastigando lestas/e indiferentes/a carne da vida!”

A NOITE DISSOLVE OS HOMENS - a Portinari : “A noite desceu.Que noite!/Já não enxergo meus irmãos(...) Tremenda,/sem esperança...Os suspiros/acusam a presença negra/que paralisa os guerreiros./E o amor não abre caminhão/na noite.(...)A noite anoiteceu tudo.../O mundo não tem remédio.../Os suicidas tinham razão(...) O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos(...) O mundo /se tinge com as tintas da antemanhã/e o sangue é doce,de tão necessário/para cobrir tuas pálidas faces,aurora.”

MADRIGAL LÚGUBRE - “Em vossa casa feita d cadáveres(...)quisera eu morar(...)Cá fora é o jornal sujo embrulhando fatos,homens e comida guardada.(...)Dai-me vossa cama,princesa,(...)sutil flui o sangue nas escadarias”.

LEMBRANÇA DO MUNDO ANTIGO - “Clara passeava no jardim com as crianças./O céu era verde sobre o gramado,/a água era dourada sob as pontes,/outros elementos eram azuis,róseos,alaranjados(...)Havia jardins,havia manhãs naquele tempo!!!”

ELEGIA 1938 - “Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,/onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.(...)Aceitas a chuva,a guerra,o desemprego e a injusta distribuição/porque não podes,sozinho,dinamitar a ilha de Manhattan.”

MUNDO GRANDE - “Não,meu coração não é maior que o mundo./É muito menor./Nele não cabem as minhas dores/Por isso gosto tanto de me contar./por isso me dispo,/por isso me grito,/por isso freqüento os jornais,me exponho cruamente nas livrarias:/preciso de todos(...)o grande mundo está crescendo todos os dias,/entre o fogo e o amor.//Então,meu coração também pode crescer(...) – Ó vida futura!nós te criaremos”.


sábado, 10 de agosto de 2013

5 minutos de brainstorm


E Jens Stoltenberg, o primeiro-ministro da Noruega, bancou o motorista de táxi nas ruas de Oslo, para conhecer as opiniões dos eleitores. Ele é líder do Partido Trabalhista e se recandidata ao cargo nas eleições legislativas de 9 de Setembro. “Para mim é muito importante saber o que pensam os cidadãos, e não há lugar mais propício à expressão de opiniões do que um táxi”, explicou ele (que é um dos políticos mais queridos do país). A propósito: Jens não cobrou a corrida a nenhum dos seus passageiros. Se fosse no Brasil...J
á a ex-senadora Marina Silva não consegue jogar sua Rede. O tal partido que não seria exatamente um partido não consegue decolar, sair do projeto. A  popularidade de Dilma volta a subir e atinge  7% a mais. Feliciano, o religioso, reclama que sofreu assédio numa viagem aérea, cantaram Robocop Gay, música dos Mamonas Assassinas,  para ele. Enquanto isso no mundo surreal Lady Gaga volta do limbo para lançar mais uma "obra": Artpop e pede que escutem suas novas músicas, docinhos high tech, com fones de ouvido e não com caixinhas de computador! E é da terra dela que vem a notícia de que um filme com o nosso Wagner Moura está fazendo sucesso (pelo menos na sua semana de estreia).
Uma brainstorm assim faz-nos voltar aos clássicos e esquecer de um presente que se faz tudo menos indicativo tranquilizador de futuro, espero.Enquanto isso todas as novelas da Globo continuam com a confusão de sempre: quem é filho de quem? E os novos atores têm o rosto tão pasteurizado que só faltam derreter.Numa espécie de arremedo das ruas tipo espetinho e cerveja sem banheiro, o Brasil vai andando em círculo e crescendo tanto que deve ser gigantismo reverso.A política internacional gira em torno de terroristas e antiterroristas; o Japão admite que a água radioativa deles (muita) pode ser jogada no oceano, os aviões não pilotados financiados pela milionária indústria bélica vão matando gregos e troianos ao menor sinal (ou suspeita) de rebelião, ou não. 
E há uma senhora que trabalha no ramo da política, eleita por algum partido potiguar, salvo engano, que sugeriu acabar com o cargo de senador, que segundo ela, só atrapalha e não serve para nada.
Hollywood e a maior emissora dentre as de canal aberto continuam dando as cartas, então importa muito em que grau nos encontramos de homogeneização nos encontramos (ou nos perdemos?): a diferença torna-se o... óbvio; é bom não ficar nervoso: ainda são os mesmos caciques que ditam as regras e o V de vingança voltou a ser uma outra letra qualquer que pode significar tudo menos Esperança de um futuro mais brilhante.
Talvez... quando entrar setembro...

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

HÁ MAIS DE UM SÉCULO O FANTASMA DA ÓPERA NOS ASSUSTA

O FANTASMA DA ÓPERA
                                      por  Moisés Neto

No romance “O Fantasma da Ópera”, de Gaston Leroux (Ediouro, RJ, 2005, 254 p.) Encontramos um homem misterioso que espalhava terror pelas catacumbas e corredores da ópera de Paris.
Leroux insinua que este romance (1910) seria uma “reportagem”. Vários ingredientes pululam neste romantismo tardio francês (já ganhou 18 versões para cinema e 4 para o teatro -3 musicais).
O triângulo amoroso Erik (fantasma, anjo da música, uma caveira que dorme num caixão de defunto e faz coisas inverossímeis), Christine Daeé (cantora lírica, filha de violinista, acredita em anjos, consegue sucesso com ajuda de Erik, por quem sente repulsa) e Raoul de Chagny (visconde, seu irmão, conde, quer impedir sua união com a heroína): um jogo com poucas cenas ao ar livre.
            Christine ao substituir a já aclamada Carlotta num importante recital na Ópera de Paris, impressiona a todos e se revela o grande triunfo da noite. A jovem acredita que o seu sucesso é obra do “Anjo da Música”, uma voz que a visita todos os dias em seu camarim para dar-lhe aulas de canto.
Enquanto isso, os novos diretores da Ópera de Paris, Armand Moncharmin e Richard, recebem de seus predecessores um livro de regulamentos da casa que inclui estranhas exigências atribuídas a um tal “Fantasma da Ópera”; entre elas, extravagantes e caras necessidades financeiras. Imaginando se tratar de uma brincadeira, eles resolvem ignorar todos os avisos que recebem para manter os caprichos do Fantasma e se envolvem numa seqüência de trágicos acontecimentos, entre os quais o estranho rapto de Christine. Torturado pela dor do amor não correspondido e pelo abandono, o Fantasma se revela uma criatura assustadora.

             Mame Giry é a personagem que serve como intermediária ao fantasma e é porteira da ópera. Quer ver sua filha imperatriz, é o que lhe prometeu o fantasma, que já ajudara Lola Montez, a bailarina, a entrar para nobreza. Os diretores de missionários (Poligny e Debienne) e os novos (Richard e Mouncharmin) negociam com o fantasma através dela. Há o misterioso persa que leva Raoul ao fantasma, há golpes teatrais como: o sumiço de Christine diante dos olhos da platéia, a queda do lustre.
O fantasma não tem pátria e sua mãe comprou-lhe a primeira máscara. Seu pai o rejeitou e ele compõe uma ópera “Don Juan Triunfante”, que enfeitiça quem a ouve Christine é prisioneira por 15 dias. Ele cobra-lhe higiene matinal. Passeiam à noite pelo Bois de Bologne. Ele destrói a voz da diva Carlota, que atrapalhava o estrelato de Christine.
Na montagem do “Fausto” ela é Margarida. Na cena em que pede aos anjos que a carregue, é carregada. Pânico geral. Consternação até entrar ricos preconceituosos que lhe vetavam ascensão social.
Christine vai a um cemitério próximo ao mar. Quer visitar o túmulo do pai sobre a neve, sob a lua, em clima gótico Erik toca o violino do morto e Raoul tenta roubar a cena. Há uma misteriosa rosa deixada pelo fantasma, que vence a luta. Christine volta ao hotel, Raoul desmaia.
Na ópera, em um cemitério, nas catacumbas, Erik age. Mexe-se com destreza e é vítima do amor. Anda com capa, máscara, chapéu. Tem um cavalo branco, roubado dos da ópera, cujo nome é César.
Metáforas em excesso, como o sapo que sai da garganta de Carlotta no seu clímax do “Fausto”, rebuscam um texto que propõe instantes terríveis e que parecem intermináveis, deixando a sensação de medo. Mas, quem tem medo do fantasma? Seria o este personagem em si, apenas uma metáfora? Quem eram aquelas garotinhas da ópera que tomavam cerveja, copinhos de cassis e rum. O que faziam antes que o toque da sineta as chamasse à cena? Podemos quase sentir o seu bafejo. Elas temiam, pensavam em fugir? Não ousavam. A pobre Christine é uma espécie de Wendy às avessas. E o caráter de Erick, sua inverossimilhança é patente. A fantasia é marcada como num palco. O prédio da ópera, com mais de oito andares, é um chamariz para leitores/espectadores hipnotizados por um cenário de sonho/pesadelo. Conseguirá nossa Cinderela terminar feliz ao lado do seu noivo (por um dia, ela ganhou um beijo no teto da ópera, sob a mira dos olhos de fogo de Erik, que tudo espiava, desta vez dor entre a lira da estátua de Apolo, sobre o prédio).
Bruxaria? Heresia? O quarto dele é vermelho e negro. As paredes dos seus aposentos, forradas de caros tecidos. Ele desfruta de um lago, ele parece maléfico, ele é assassino, é “feio”, o que quer da jovem “honrada” (virgem)? Ele a faz atravessar espelhos (metáfora). Um baile de máscaras o monstro circula: é a morte vermelha pressionando e dividindo o primeiro amor do mocinho Raul na festa que precede o carnaval.
O final do romance segue  com empolgação quando Christine Daaé é raptada para a catacumba do fantasma. Raoul e o persa vão tentar salvá-la e terminam em um alçapão que o fantasma Erik usa como câmara de torturas. Ela aceita casar-se com o “monstro”, porém este, comovido com suas sinceras lágrimas, solta-a com a condição que ela use sempre a aliança dele, mesmo quando case com Raoul (o que aconteceu). Pede que o enterre quando ele morrer. Quem conta o final da história de Erik é o persa. Erik era tão feio que foi rejeitado até pela própria mãe (que nunca o beijara, o primeiro beijo, na testa, ele receberá de Christine, nos subterrâneos da ópera de Paris, que ele, com seus dons, ajudou a construir. Vemos aqui o avesso de Quasímodo, ou, um arremedo do romance de Hugo, “O Corcunda de Notre Dame”). Ainda jovem fugira e aprendera a ser arquiteto e ilusionista, planejou e supervisionou a construção de palácios no Oriente médio, foi então que conheceu o  persa, que o salvou quando um poderoso queria assassiná-lo para manter um segredo de construção. Ao chegar em Paris participou das obras da Ópera e em suas entranhas alojou-se até a morte dramática.
Trata-se de um libelo do Romantismo tardio (1910), agonizante, este...Fantôme de l´opéra!
Com grande habilidade na construção do suspense. Leroux misturou acontecimentos reais e ficção para criar um ambiente realista e dotar o seu romance de caráter investigativo:
 “O FANTASMA DA ÓPERA EXISTIU, NÃO É PRODUTO DE IMAGINAÇÃO. Existiu em carne e osso, embora com todas as características de um fantasma” . Ao vasculhar os arquivos da Academia Nacional de Música, encontrei coincidência entre os fenômenos atribuídos ao “Fantasma” e a tragédia que abalou a sociedade parisiense, e ocorreu-me que esta poderia ser explicada por aqueles. Como isso data de menos de trinta anos, não seria difícil localizar no foyer do teatro homens idosos cuja palavra não pode ser questionada e que se lembrariam das condições que cercaram o rapto de Christine Daaé, o sumiço do Visconde de Chagny e a morte de seu irmão mais velho, o conde Philippe, cujo corpo foi encontrado às margens do lago existente nos fundos da Ópera, do lado da rua Scribe. Custei a aceitar a verdade e”, por mais de uma vez, quase desisti de buscá-la. Até que tive a prova de que meus pressentimentos não me haviam enganado. Nesse dia eu passara horas lendo Memórias de um diretor, de Moncharmin, que, quando à frente da Ópera e sem entender o comportamento do Fantasma, chegou a zombar dele.
Também achei alguns manuscritos de Christine, além de sua correspondência, e vi que a caligrafia era a mesma..
Finalmente, com meu dossiê, voltei a percorrer os domínios do Fantasma. Tudo o que vi confirmou os documentos do Persa e maravilhosa descoberta coroou meus esforços. Recentemente, ao escavar o subsolo da Ópera para enterrar discos com vozes dos artistas, as picaretas dos operários revelaram um cadáver. Tive logo a prova de que eram os restos mortais do Fantasma da Ópera. E, depois de chamar a atenção do administrador do teatro para o caso, pouco me importa que os jornais afirmem que o corpo era de uma vítima da Comuna.
Ora, as vítimas da Comuna nos porões da Ópera não foram enterradas desse lado. Suas ossadas estão bem longe da cripta onde se cumularam, durante o cerco, as provisões. Achei a pista quando buscava os restos do Fantasma, afinal localizados graças à casualidade.
Gaston Leroux


GASTON LEROUX nasceu em Paris, em 1868. Após a morte de seu pai, trabalhou como correspondente no jornal Le Matin. Publicou o primeiro livro em 1903, mas foi com o sucesso de  O mistério da casa amarela, de 1907, que decidiu deixar o jornalismo para se dedicar somente ao romance. No entanto, sua prática em reportagem lhe permitiu criar em seus livros uma atmosfera de grande verossimilhança através do uso de fatos reais, “documentos” e “depoimentos”. A sua principal obra. O Fantasma da Ópera, foi publicada em 1910 e sua primeira adaptação de sucesso para o cinema, em 1925, um clássico do cinema mundo, contou com a colaboração do autor. Gaston Leroux faleceu em 1927, em Nice.



domingo, 4 de agosto de 2013

Tubarões virtuais e outros ais ais

Andar pela praia de Boa Viagem, Recife, hoje me deixou bem triste. Lembrei de quando os tubarões nos deixavam em paz e quando havia menos gente. Quando a poesia era possível e havia algo não tão virtual que nos unia... hoje há muitos versos, mas o essencial é a tecnologia, não é? Resolvi sentar com alguns amigos e relaxar ouvindo e vendo o que se passava ao redor me fez perceber em que espécie de mundo transformamos nossa cidade. Meu Deus, isto está uma loucura que espero seja reversível. Os jovens, os mais velhos, as crianças... a agitação daquela orla. O materialismo chegou ao ponto de ebulição. Denegrimos os sonhos a cada toque... resta-nos um conjunto de futilidades e a certeza, por parte de alguns, que algo de menos mundano pode acontecer... a grande metáfora é o barulho do mar e o mergulho proibido... a luz intensa... o esplendor perigoso...

Mas... fundamental é mesmo amor, como disse o poetinha, não foi?


Quanto à tecnologia... sem ela não estaríamos aqui, não é? Deus seja louvado...

Ah! Vamos ouvir uma bela canção?


http://www.youtube.com/watch?v=uGUg60az2gs

E por falar nisso... onde anda você?

Z: nossa guerra de cada dia

No filme GUERRA MUNDIAL Z, vemos o avesso da “Metamorfose”, romance de Kafka, onde um homem acorda transformado em algo similar a uma... barata: OS INSETOS SÃO OS OUTROS. Ou ainda um pouco do texto teatral de IONESCO: “Os rinocerontes, peça na qual um cidadão percebe que todos  na sua cidade/mundo estão se transformando em rinocerontes. Mas em “Z”, filme de ação, terror e suspense estadunidense, dirigido por Marc Forster e escrito por Matthew Michael Carnahan,  baseado no romance literário de mesmo nome de Max Brooks, é o funcionário da ONU Gerry Lane (Brad Pitt, sempre rodeado de muitas armas) que atravessa o mundo numa “corrida contra o tempo” tentando impedir uma pandemia que estava desafiando exércitos e governos e ameaçando dizimar a humanidade inteira: TODOS ESTAVAM VIRANDO ZUMBIS.

Cena da invasão de Jerusalém, hilariante

GUERRA MUNDIAL Z é um dos filmes mais caros produzidos em Hollywood,mas não mostra tanto como gastou seus dólares. Parece lavagem de dinheiro, ou então a propaganda estava inclusa no orçamento. Enfim, mais uma vez Nova York  é ameaçada, e também outras cidades estadunidenses, mas o negócio alastra-se no mundo todo enquanto o herói, que havia pedido demissão de um emprego na área de segurança nacional, é convocado e encontra ali o meio de proteger sua família. A garotinha asmática, o jovem ingênuo cientista assassinado, e outros clichês repetem-se à exaustão, mas o PONTO X talvez esteja nas metáforas espalhadas aos borbotões pela película: Israel era a única nação protegida (por grossas muralhas) até os zumbis escalarem em massa, daí o caos e nosso herói fugindo para onde for possível num avião com centenas de passageiros sem saber o destino, com novo acidente e os zumbis atacando os tripulantes. Ao saber que o sinal do avião e do rádio/ telefone do herói saiu do ar, os funcionários do governo preparam-se para jogar a família do agente na rua, já que precisam de espaço no navio par mais pessoas que possam “solucionar” o “problema”.
Por que tanta gente diz que isso é bom? Os estudiosos da comunicação preferem a tese que diz que devemos analisar a obra em si, em suas partes estruturais e efeitos. Vá lá que seja. Mas que dá vontade de esmiuçarmos o conteúdo ideológico, isso dá.
A interpretação de Brad e dos outros atores? Bem, acho que não vão ganhar prêmios por isso, talvez uns fãs a mais, muito dinheiro também.
Quando se trata de um produto que já conhecemos não é necessário, mas estes produtos para as multidões atraem minha atenção no sentido de saber como as massas são manipuladas e, claro, como estes textos se articulam por dentro e lançam seus tentáculos em direção ao inconsciente coletivo.
Quem joga seu dinheiro neste investimento o faz por: diversão? Instinto? Paixão? Tédio? Falta de opção? Poucos o fazem como estudo, com certeza, mas alguns o fazem, sim. E a que conclusões chegam? Talvez a de que a redundância arquetípica atinge nesta obra patamares altíssimos.
Imaginar um final melhor do que o proposto ali seria um jogo interessante. Usar o produto com o contraponto para uma discussão mais profícua sobre que rumos tomar para aliviar as dores humanas talvez fosse um delírio deste vosso escriba.


sábado, 3 de agosto de 2013

A rede e Clarice

Clarice Lispector sentenciou nos seus últimos dias: "Quase não sei o que sinto, se na verdade sinto. O que não existe passa a existir se receber um nome. Eu escrevo para fazer existir e para existir-me".
Assim é que me sinto neste momento de tamanha transição no que sinto neste planeta. As coisas estão tomando um rumo inesperado e o que vemos é que o poder da mídia está deturpando o caráter humano como o conhecíamos até agora.
Claro que que todo este processo que une Oriente e Ocidente era previsível, porém o que mais choca é o fato de que as pessoas agora se distinguem uma das outras por uma rede eletrônica que não é tecida exatamente por ninguém, mas que funciona de modo a colocar máscaras em todos.
É bom ter tanta informação....
Falar aqui em redes sociais ou de terrorismo parece significar a mesma coisa, porque o que parece devastador ou construtivo vira uma coisa muito amarga quando se trata de poder verbal ou bélico. Um motim silencioso parece estourar em cantoras de brega quando elas ganham status de divas e acenam com possibilidades que antes só eram concedidas a pessoas que levavam adiante um ideal de amor mais tranquilo e igualdade social.
Os livros impressos vão cedendo lugar a um frenesi diferente que é o estar no mesmo espaço de milhões de outros textos: a telinha móvel de celulares, tablets etc.
Nada mal, tudo demais.
A concisão vai se transformando em palavra chave na invenção da existência e eu fico a imaginar a Lispector nos dias de hoje: confronto ou absorção...


Que mistérios tem Clarice?


Sem impossíveis saudosismos! Nem utópicas máquinas do tempo ou de teletransporte (ainda!)
Que importa agora, francamente, e os continentes são apenas conteúdos? Grande Clarice, o que você escreve continua e eu misturo neste coquetel em forma de blog...
Não esquecer que é tempo de morangos...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O caos mundial segue bombando. O Cairo está em polvorosa com manifestantes dispostos a entregar a própria vida em nome de uma causa. Em Moscou o agente  da espionagem estadunidense recebe abrigo por um ano. A China mostra que não está perdendo tempo no seu processo de ascensão e as Coreias também estão, de certo modo, unidas por uma proposta ainda mais arrojada de crescimento. O Brasil parece meio devagar nesta conjuntura, mas isso pode ser apenas o silêncio antes da explosão.