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segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Jayro Luna,Jairo Luna, Jairo Nogueira Luna: Professor-artista

 

 

Jayro Luna - também assina como Jairo Luna ou Jairo Nogueira Luna – (SP, 1960, SP - julho de 2021, por Covid), poeta, músico, professor e pesquisador, criador do conceito de crítica literária denominadoNeo-estruturalismo Semiótico e do conceito de poesia chamada de Metmodernismo . Como poeta venceu concursos como o Projeto Nascente  - promovido pela USP e Editora Abril, duas vezes, em 1992 e 1993 com os livros de poesia Seleta de Versos de 8 Livros Inéditos e Livro de Palamedes, respectivamente. Publicou durante os anos 80 o fanzine Mimeógrafo Genertion, de poesia marginal Geração Mimeógrafo na época desta geração, que teve 28 números e compreendeu o período de !984 a 1993 Do Mimeógrafo Generation participaram poetas como Glauco Mattoso e Leila Míccolis, dentre Foi editor e webdesigner do site Orfeu Spam, dedicado à Literatura e Artes. Como jovem músico conhecera os integrantes do conjunto The Lee Bats, tornando-se amigo e frequentador dos ensaios da banda. Sua amizade com J.J. Gallahade  rendeu-lhe impulsos poéticos e ambos assinam vários poemas conjuntamente, assim como algumas das canções do grupo. Quando The Lee Bats se desfez, Jayro Luna ficou com todo um baú de obras raras, inéditas, dezenas de fitas k7, vídeos e alguns exemplares de discos independentes da banda. Em 1992, decide reiniciar The Lee Bats, um trio.


Professores da Universidade de Pernambuco (UPE)
destaque para Jairo Luna, Moisés Monteiro de Melo Neto e Acauam Oliveira, professores- artistas.



Com o apoio de Philadepho Menezes desenvolveu o conceito poético de METAMODERNISMO na década de 80. Por este conceito compreendia que as diferentes escolas literárias não se tornavam para o fim do século XX nem escolas do passado, nem eram excludentes. Transformavam-se, para o poeta contemporâneo, envolvido entre os limites da CULTURA MOSAICO, de Abraham Moles (estruturado  segundo  as  ideias  de  Abraham  Moles  em Sociodinâmica  da Cultura, obra que li no mesmo ano de sua publicação em francês, graças ao interesse  com  que  a  Livraria  Leonardo  da Vinci,  do  Rio  de  Janeiro, acompanha os estudos e as pesquisas de seus clientes. Somente  um  autor  como  Abraham  Moles —formado  em  Física  e  em Filosofia —poderia escrever uma obra como esta, que resultou da aplicação de um modelo cibernético na análise de fenômenos culturais —descoberta científica,  invenção  tecnológica,criação  literária  e  artística,  produção  e transmissão  de  sons  e  imagens —completando  suas  observações  com teorias que revelam um pensamento ao mesmo tempo analítico e sintético). Estudou a Cultura de Massa, Neo Barroco e Pós-Moderno em estratégias formais de construção de textos, num processo intersemiótico e semiótico de referências, traduções e transcriações.

Publica nesta época, marginalmente, plaquettes de poesia (livros em xerox): Bagg'Ave (1984), Ópium (1985), Metamorphoses n'Ovídio (1985) e Hiléia - poemeto épico amazônico (1986). Recuperou a forma do Soneto  para a poesia colocando nela temas como Rock, Contracultura, Tropicalismo, ideia que se tornou um marco na produção poética de Glauco Mattoso, nos anos1990.  Estas plaquettes são muito raras e disputadas entre colecionadores e pesquisadores da Poesia Marginal. Publicou em 1999 o livro Infernália Tropicalis que traz o conceito de associar notas de rodapéepígrafesdatas de publicação dos poemasilustrações e figuras como referências hipertextuais do corpo do poema, de modo que alguns dos poemas do livro têm até 11 epígrafes - o que cria um conjunto hipertextual - e várias notas de rodapé, estas, por sua vez, são outros poemas ou continuação dos poemas. Em 2002 reuniu algumas das plaquettes publicadas no livro Florilégio de Alfarrábio.

Na Teoria Literária, em 2006, publicou o livro Teoria do Neo-estruturalismo Semiótico (método que se fundamenta numa relação crítico-criativa entre leitor e obra por meio de relações simbólicas e arquetípicas) no qual concluiu ideias que já se esboçavam em Monografias de Literatura, Teatro, Comunicação & SemióticaParticipação e Forma(2001) e Caderno de Anotações(2005). No Neo-estruturalismo Semiótico o processo de análise busca demonstrar a relação fundada numa ligação simbólica e intersemiótica - por vezes formada no inconsciente coletivo - entre figuras e alegorias do texto e os usos culturais simbólicos em geral na sociedade ou no público leitor. Assim por exemplo identificou relações entre o livro Claro Enigma, de Drummond e a Bandeira do Brasil, e também entre a descrição das batalhas em Eurico, o Presbítero, do romântico português Alexandre Herculano,  e o jogo de Xadrez , entre o conceito machadiano de Humanistismo  e a estrutura do teatro vitoriano, notadamente da cornija, ou ainda, entre o livro Arco de Sant'Anna de Almeida Garret  e a bandeira do reinado de Dom João, Mestre de Avis. No âmbito da análise das formas, identificou uma relação entre a forma do soneto italiano e o conceito de número de ouro do Renascimento (O número de ouro é o representante matemático da perfeição na natureza. Ele é estudado desde a Antiguidade e muitas construções gregas e obras artísticas apresentam esse número como base. Mas por que esse número é tão importante? Por que ele representa a perfeição, a beleza da natureza? A resposta é simples: porque ele aparece em quase todo lugar na natureza e nas coisas que consideramos mais belas), bem como entre o soneto inglês e a forma dos castelos escoceses.

Como integrante do grupo The Lee Bats na sua segunda formação (1992-1994), Jairo desenvolveu o resultado de suas convicções musicais desenvolvidas na época em que fora amigo dos integrantes na primeira formação do grupo. Com o fim da primeira formação em 1985 e a perda de contato com os integrantes daquela formação, ficou em posse de um baú de obras inéditas, gravações raras e muitas ideias. Os Lee Bats desenvolveram o conceito de Rock-poesia, pelo qual musicaram vários poemas da literatura em língua portuguesa e da literatura mundial como Tarde de Verão de um Fauno de Stéphane Mallarmé, Psiquetipia de Fernando Pessoa, Poética de Manuel Bandeira, entre outras muitas musicalizações. Traduziam letras de canções do rock internacional, colocando-as num contexto cultural brasileiro, modificando as referências originais para as da nossa cultura e sociedade, o que era fundado na concepção de Haroldo de Campos, de transcriação poética.

OBRAS LITERÁRIAS DE JAIRO LUNA: Bagg'Ave. Edição do autor. São Paulo, 1984; Ópium. Edição do autor. São Paulo, 1986; Metamorphoses n'Ovídio. Edição do autor. São Paulo, 1989; Infernália Tropicalis. São Paulo, Epsilon Volantis, 1998; Florilégio de Alfarrábio. São Paulo, Epsilon Volantis, 2002.

Ensaios e crítica

·   Monografias de Literatura, Teatro, Comunicação e Semiótica. São Paulo, Epsilon Volantis, 1998.

·   Participação e Forma: Algumas reflexões acerca da função social da poesia. São Paulo, Epsilon Volantis, 2002.

·   Caderno de Anotações. São Paulo, Opportuno, 2005.

·   Teoria do Neo-estruturalismo Semiótico. São Paulo, Vila Rica, 2006.

·   A Chave Esotérica de Mensagem de Fernando Pesso: Abordagem Numerológica, Astrológica e Cabalíostica. São Paulo, Epsilon Volantis, 2006.

·   The Lee Bats: Todas as Letras. São Paulo, Signos, 2011.

·   Acerca de Música, Poesia & Cinema. São Paulo, Signos, 2011.

·   Poetas do Imperador: Estudo da Poesia Lírica de Gonçalves de Magalhães e Manuel de Araújo Porto-Alegre. São Paulo, Signos, 2012. (baseada em pesquisa de pós-doutoramento na FFLCH/USP, título homônimo sob orientação de Cilaine Alves Cunha).

·   Língua, Literatura e Ensino. Com Benedito Gomes Bezerra (organizadores). Recife, Edupe, 2009.

Antologias

·   Saciedade dos Poetas Vivos - Vol. 5: Poesia Visual. Rio de Janeiro, Blocos, 1992.

·   Quem Sente Somos Nós. São Paulo, Scortecci, 2003.

 

 

domingo, 25 de julho de 2021

CONTO Um incidente na ponte de Owl Creek, de Ambrose Bierce, autor estadunidense

 

Um incidente na ponte de Owl Creek*


                      (um conto de Ambrose Bierce)







Um homem estava de pé sobre uma ponte férrea no Norte do Alabama, olhando para as águas que corriam ligeiras seis metros abaixo. Tinha as mãos às costas, os pulsos atados por uma corda. Outra corda fora enrolada em seu pescoço. Esta última estava amarrada a uma estaca sólida acima de sua cabeça e a ponta caía-lhe até a altura dos joelhos. Algumas tábuas soltas, colocadas sobre os dormentes que suportavam os trilhos da via férrea, sustentavam os pés do homem, assim como os de seus executores — dois paramilitares do Exército Confederado, liderados por um sargento que na vida civil talvez tivesse sido um subxerife. Sobre a mesma plataforma provisória, mas a uma certa distância, estava um oficial armado, com seu uniforme de graduado. Era um capitão. Em cada extremidade da ponte havia um sentinela segurando seu rifle em posição de "apoio", o que significa na vertical à frente do ombro esquerdo e com o cão apoiado ao antebraço atravessando o peito em diagonal — uma posição rígida e pouco natural, obrigando os soldados a permanecer numa postura muito ereta. Aparentemente, os dois não tinham obrigação de saber o que se passava no meio da ponte. Eles se limitavam a bloquear a passagem nas duas extremidades do caminho de pedestres que ladeava o pontilhão.


Para além de um dos sentinelas, não havia ninguém à vista. A linha férrea cruzava a floresta numa reta por quase cem metros, para em seguida desaparecer, numa curva. Com certeza havia um posto avançado mais adiante. A outra margem do rio era um campo aberto — uma colina suave, no alto da qual havia uma barricada feita com troncos de árvores, com seteiras para os rifles e um único canhoneiro do qual surgia a extremidade de um canhão de bronze, apontado para a ponte. Na metade da colina, entre a ponte e a fortaleza, estavam os espectadores — uma única companhia de infantaria perfilada, em posição de "descansar", a base dos rifles tocando o chão, os canos levemente inclinados para trás e apoiados ao ombro direito, as mãos cruzadas à frente das coronhas. Um tenente encontrava-se de pé à direita da fila, com a ponta de sua espada no chão e a mão esquerda repousando sobre a direita. Com exceção do grupo de quatro pessoas no centro do pontilhão, ninguém se movia. A companhia estava de frente para a ponte, observando-a na mais absoluta imobilidade. Os sentinelas, voltados para as margens do rio, poderiam ser confundidos com estátuas que adornassem o lugar. O capitão estava de braços cruzados, em silêncio, observando o trabalho de seus dois subordinados, mas sem fazer qualquer sinal. A morte é um dignitário que, ao ser anunciado, deve ser recebido com manifestações formais de respeito, mesmo entre aqueles que lhe são mais familiares. No código da etiqueta militar, o silêncio e a imobilidade eram formas de deferência.
O homem que estava para ser enforcado aparentava cerca de 35 anos. Era um civil, a julgar por suas roupas, que pareciam as de um fazendeiro. Tinha boa aparência — o nariz reto, a boca firme e uma testa larga de onde surgia o cabelo comprido e escuro, penteado para trás, passando por trás das orelhas e indo até o colarinho do casaco de trabalho, que lhe caía bem. Usava bigode e uma barba pontuda, mas sem costeletas. Os olhos eram grandes, cinza-escuros, com uma expressão gentil que dificilmente se poderia esperar de um homem cujo pescoço estivesse no laço de uma corda. Com toda certeza não era um assassino vulgar. O código militar, liberal, permite o enforcamento de toda sorte de indivíduos, e os cavalheiros não estão excluídos.
Assim que tudo estava pronto, os dois paramilitares, dando um passo para o lado, tiraram a tábua sobre a qual caminhavam. O sargento virou-se para o capitão, fez continência e colocou-se imediatamente atrás do oficial, que por sua vez afastou-se um passo. Tais movimentos deixaram o condenado e o sargento sozinhos de pé sobre as duas extremidades da mesma tábua, que se estendia por cima de três dos dormentes da linha férrea. A extremidade sobre a qual se encontrava o civil quase alcançava, mas não chegava a fazê-lo, um quarto dormente. Essa tábua estivera sendo mantida ali pelo peso do capitão. Agora, o que a mantinha ali era o peso do sargento. A um sinal do primeiro, este último daria um passo para o lado, a tábua daria um salto e o condenado despencaria pelo espaço entre os dormentes. O arranjo, por simples e efetivo, parecia confiável. O rosto do homem não estava encoberto, nem seus olhos vendados. Por um instante, ele olhou para o chão instável onde pisava e em seguida deixou que o olhar se perdesse na corrente d'água que passava lá embaixo, a toda velocidade. Uma tora de madeira boiando chamou sua atenção e seus olhos seguiram-na, rio abaixo. Parecia mover-se tão devagar, como se levada por águas indolentes...
Fechou os olhos tentando fixar os últimos pensamentos na mulher e nos filhos. A água, tingida de ouro pelos primeiros raios de sol, a bruma melancólica que recobria as margens rio abaixo, a fortaleza, os soldados, a tora de madeira — tudo distraía sua atenção. E agora ele se dava conta de alguma coisa nova, que surgia para perturbá-lo. Chocando-se com o pensamento de seus entes queridos, vinha um som que ele não conseguia nem identificar nem ignorar, um ruído agudo, nítido, metálico, como o som do martelo do ferreiro contra a bigorna. A ressonância era a mesma. O homem se perguntou o que seria aquilo e de onde vinha tal som, se de longe ou de perto — pois parecia as duas coisas ao mesmo tempo. Batia a intervalos regulares, mas num ritmo lento, como o dobrar dos sinos de Finados. Ele aguardava cada batida com impaciência e — sem que soubesse por quê — com apreensão. Os intervalos de silêncio pareciam cada vez maiores. E esses momentos de suspensão começavam a enlouquecê-lo. Embora cada vez mais espaçados, os sons cresciam em força e agudez. Feriam-lhe os ouvidos como a estocada de um punhal. Estava a ponto de gritar. O que ele ouvia era o tique-taque de seu relógio.
Abriu os olhos e viu novamente a água a seus pés. "Se eu pudesse soltar as mãos", pensou, "poderia afrouxar o laço e pular na água. Afundando, fugiria das balas e, nadando a toda velocidade, conseguiria chegar à margem, embrenhar-me na floresta e fugir para casa. Minha casa, graças a Deus, fica para além das linhas deles. Minha mulher e meus filhos estão na região que ainda não foi tomada pelos invasores.”
Enquanto esses pensamentos, aqui descritos em palavras, passavam pela cabeça do condenado, e mal acabavam de ser formulados, o capitão fez um sinal para o sargento. E o sargento deu um passo para o lado.

II

Peyton Farquhar era um próspero fazendeiro, de uma família antiga e altamente respeitada no Alabama. Sendo dono de escravos e, como todo dono de escravos, um político, era naturalmente a favor da Guerra Civil e ardorosamente devotado à causa do Sul. Por motivos de força maior, que não cabe aqui relatar, não pudera servir ao galante exército que lutaria nas desastrosas campanhas culminando com a queda de Corinto, e se irritava com isso, ansiando por externar suas energias, por viver a vida mais expansiva dos soldados, pela oportunidade de se destacar. Essa oportunidade, sentia, acabaria chegando, porque chega para todos durante a guerra. Enquanto isso, ia fazendo o que podia. Não se importava de desempenhar a mais humilde tarefa, desde que fosse para ajudar a causa dos sulistas, nem de se meter na mais perigosa das aventuras, desde que fosse coerente com o papel de um civil cujo coração era de soldado e que, de boa-fé, mesmo não sendo muito qualificado, concordava, ao menos em parte, com o ditado sabidamente infame segundo o qual na guerra e no amor tudo vale.
Certa noite, quando Farquhar e sua mulher estavam sentados no banco rústico junto à entrada do jardim, surgiu no portão um soldado de uniforme cinza que pediu um copo d'água. Foi com satisfação que a Sra. Farquhar foi buscá-lo com suas próprias mãos, muito brancas. O marido se aproximou do cavaleiro empoeirado e, ansioso, pediu notícias do front.
"Os ianques estão consertando as estradas", respondeu o homem," e estão prontos para um novo avanço. Já chegaram à ponte de Owl Creek, fizeram reparos e construíram uma barricada na margem norte. O comandante mandou espalhar cartazes dizendo que qualquer civil que bloquear estradas, pontes, túneis ou trens será sumariamente enforcado. Eu vi a ordem.”
"A ponte de Owl Creek é muito longe?", quis saber Farquhar.
"Uns cinquenta quilômetros.”
"E há soldados deste lado do rio?”
"Só um posto avançado menos de um quilômetro à frente, na estrada, além de um sentinela na ponta de cá da ponte.”
"E se um homem — um civil, especialista em enforcamentos — conseguisse passar pelo posto avançado e enganar o sentinela", disse Farquhar, rindo, "o que será que ele conseguiria? “
O soldado parou para pensar.
"Há um mês eu estava lá", respondeu. "E notei que a correnteza do último inverno tinha deixado muitas toras encalhadas no píer de madeira, na extremidade da ponte. Agora f está tudo seco e poderia queimar como uma tocha.”
A mulher já se encaminhava com a água, que o soldado bebeu. Em seguida agradeceu, cerimonioso, fez uma mesura para o marido e se foi. Uma hora depois, quando a noite já havia caído, ele voltou a cruzar a fazenda em direção ao Norte, de onde viera. Era um espião dos Confederados.

III

Assim que despencou da ponte, Peyton Farquhar perdeu os sentidos, como se já estivesse morto. Mas foi despertado desse estado — após o que lhe pareceu um tempo enorme — por uma dor fina na garganta, seguida de uma sensação de sufocamento. Uma agonia aguda, mortal, parecia espraiar-se do pescoço, tocando cada fibra de seu corpo e membros, Tais dores aparentemente corriam por linhas de ramificações bem definidas, martelando a uma velocidade inconcebível. Eram como rios de fogo pulsante que o queimassem inteiro. Quanto à cabeça, parecia-lhe completamente tomada — por uma congestão. Essas sensações não vinham acompanhadas de pensamentos. A parte intelectual de sua natureza se esvanecera. Tinha poder apenas para sentir, e o que sentia era tormento. Percebia um movimento. Envolto por uma nuvem luminosa, da qual ele agora era apenas o núcleo em brasa, oscilava sobre um arco imponderável, como se fosse imenso pêndulo. E então, de repente, de forma terrivelmente súbita, a luz que o cercava disparou para cima, com um gigantesco estrondo d'água. Um troar ameaçador atingiu-lhe os ouvidos e tudo foi escuridão e gelo. O poder do pensamento foi restaurado. Agora ele sabia que a corda se rompera e que ele caíra na correnteza. Mas não sufocava mais do que antes. A corda em torno de seu pescoço já o estrangulava, mantendo a água fora de seus pulmões. Morrer enforcado no fundo de um rio! A idéia lhe parecia ridícula. Abriu os olhos na escuridão e viu acima uma luminosidade, embora muito longe, inacessível. Continuava afundando, pois a luz tornava-se mais e mais fraca, até virar apenas um lampejo. Mas logo começou a crescer e a tornar-se mais brilhante, até que ele percebeu que retornava à superfície — e relutava em admitir isso, pois já sentia um certo conforto em estar no fundo. "Ser enforcado e afogado", pensou, "não é tão mau assim. Mas não quero levar um tiro. Não quero e não vou. Não é justo.”
Não tinha consciência do esforço que fazia, mas uma dor fina no pulso lhe dizia que estava tentando soltar as mãos. Concentrou-se naquela luta, como um errante admirando a proeza de um malabarista, sem muito interesse no resultado. Que esforço sensacional! Que força magnífica, sobre-humana! O empenho era impressionante. Muito bem! A corda soltou-se. Seus braços separaram-se, flutuando em direção à tona, as mãos como sombras de um lado e outro, que mal podia enxergar na luminosidade crescente. Ele as olhou com interesse renovado à medida que, primeiro uma, depois a outra, elas buscaram o nó que apertava seu pescoço. Afrouxaram-no, abrindo-o, as ondulações da corda lembrando as de uma cobra d'água. "Ponham-na de volta!", gritou para as mãos em pensamento, pois assim que o nó se desfez ele foi assaltado pela dor mais cruciante que jamais experimentara. O pescoço lhe doía horrivelmente. Seu cérebro estava em fogo. E o coração que antes batia manso de repente deu um salto, parecendo a ponto de sair-lhe pela boca. Todo seu corpo foi varrido e sacudido por uma angústia insuportável. Mas as mãos desobedientes não atenderam a seu comando. Batiam na água com vigor, em movimentos rápidos, para baixo, forçando-o rumo à superfície. Até que sentiu a cabeça emergir. A luz do sol cegou-o. Sentiu o peito expandir-se em convulsões e, em suprema agonia, seus pulmões sorveram uma enorme golfada de ar, que ele expeliu no mesmo instante, com um grito agudo.
Agora tinha total controle dos sentidos físicos. Na verdade, eles estavam extraordinariamente aguçados e em alerta. Diante da brutal agressão ao organismo, algo acentuara e refinara seus sentidos a ponto de eles lhe mostrarem coisas que antes não era capaz de perceber. Observava as ondas do rio junto a seu rosto, ouvindo o bater de cada uma delas. Olhava para a floresta além da margem e via árvore por árvore com suas folhas, assim como os veios em cada uma dessas folhas, Via até mesmo os insetos sobre elas: as cigarras, as moscas com seus corpos brilhantes, as aranhas cinzentas espalhando suas teias de um ramo a outro. Notava o prisma das cores nas gotas de orvalho sobre um milhão de lâminas de relva. E o zumbido dos mosquitos que dançavam sobre a tona, o bater das asas das libélulas, o choque das patas das aranhas-d'água, como remos que impulsionassem seus barcos — e tudo isso lhe soava claro como música. Lá se ia um peixe deslizando no fundo e ele podia ouvir o ruído de seu corpo fendendo as águas.
Chegara à superfície de frente para a correnteza. Por um instante, o mundo visível parecera girar a uma velocidade muito lenta, sendo ele seu ponto central. E ele via a ponte, a fortaleza, os soldados sobre a ponte, o capitão, o sargento, os dois paramilitares, seus executores. Via apenas suas silhuetas contra o céu. Gritavam e gesticulavam, apontando para ele. O capitão tinha empunhado a pistola, mas não atirara. Os outros estavam desarmados. Seus movimentos eram grotescos, terríveis, suas formas gigantescas.
De repente, ouviu um estampido agudo e um projétil atingiu a água a poucos centímetros de sua cabeça, borrifando-lhe o rosto. Veio um segundo estampido e ele viu um dos sentinelas com o rifle ao ombro, enquanto uma nuvem de fumaça azulada subia do cano da arma. Da água, pôde ver os olhos do homem na ponte encarando-o, por trás da mira. Notou que ele tinha olhos cinzentos e lembrou-se de já ter ouvido falar que olhos assim são os mais espertos e que homens de grande pontaria costumam ter olhos dessa cor. E, no entanto, aquele acabara de errar.
Um rodamoinho envolvera Farquhar e ele agora estava de lado para a ponte. De frente para a floresta que ficava na margem oposta à fortaleza. E o som claro, alto, de uma voz entoando uma melodia monocórdia, chegava a seus ouvidos vindo de trás, cruzando a água com tanta nitidez que sobrepujava todos os outros sons, até mesmo a batida das ondas em seu rosto. Embora não fosse soldado, ele já freqüentara os acampamentos e conhecia o terrível significado daquele canto arrastado, entoado com força e deliberação. O tenente, na margem, fazia sua parte no trabalho da manhã. Ditas com toda a frieza, sem piedade — com uma entonação que era calma, serena, agourenta, mas que infundia tranquilidade na tropa —, a intervalos bem medidos, ele ouviu aquelas palavras cruéis:
"Atenção, companhia!... Preparar!... Apontar!... Fogo!”
E Farquhar mergulhou. Mergulhou o mais fundo que pôde. A água borbulhava em seus ouvidos como as vozes do Niágara e ainda assim ele ouvia o ruído surdo das rajadas. Ao retornar à superfície, pôde ver as cápsulas de metal, significativamente achatadas, que, brilhantes, desciam correnteza abaixo. Algumas chegaram a tocar-lhe o rosto e as mãos, depois se foram, seguindo seu curso. Uma delas alojou-se entre seu pescoço e a gola da camisa. Sentindo, com um arrepio, que ainda estava quente, atirou-a longe.
No instante em que chegou à tona, em busca de ar, notou que ficara muito tempo debaixo d'água. Encontrava-se muito longe rio abaixo — onde era mais seguro. Os soldados estavam quase acabando de recarregar as armas. Viu as varetas todas brilhando ao sol à medida que eram retiradas dos barris, viradas no ar e introduzidas nos soquetes. Os dois sentinelas dispararam de novo, por conta própria, mas sem sucesso.
O homem caçado observava tudo isso por cima do ombro. Nadava agora com todo o vigor, correnteza abaixo. Seu cérebro estava tão aguçado quanto seus braços e pernas. Raciocinava na velocidade da luz.
"O oficial", pensou, "não vai cometer um erro outra vez por excesso de zelo. Dá na mesma esquivar-se de uma rajada de tiros ou de um tiro só. Com certeza ele já deu ordens para que cada um atire à vontade. Deus me ajude, pois não vou conseguir escapar de todos eles!”
Foi sacudido por um choque na água a menos de dois metros de onde estava, seguido de um estrondo violento, que foi decrescendo como se ricocheteasse e cruzasse o ar de volta em direção à fortaleza, até morrer com uma explosão que fez todo o rio estremecer. Uma coluna d'água ergueu-se, encobrindo-o, e depois despencou sobre ele, cegando-o, sufocando-o. O canhão entrara no jogo. Ao sacudir a água que lhe encharcava a cabeça ouviu o zumbido da bala rompendo o ar acima dele, e em seguida seu impacto contra os galhos da floresta mais além, que se despedaçaram.
"Não vão fazer isso de novo", pensou. "Da próxima vez vão usar uma carga de balim. Preciso ficar de olho nesse canhão. A fumaça vai me alertar porque o estampido chega tarde demais. É posterior ao projétil. É uma arma e tanto.”
De repente, sentiu-se envolver por um rodamoinho, todo ele rodando e rodando como um pião. A água, as margens, a floresta, a ponte agora distante, a fortaleza e os soldados — tudo se confundia, num borrão. Os objetos eram perceptíveis apenas por sua cor. Traços circulares e horizontais de cor — era tudo o que via. Fora apanhado num turbilhão, girando e rodopiando a uma velocidade cada vez maior, que o deixava tonto, enjoado. Em instantes, foi atirado contra o cascalho ao pé da margem esquerda do rio —no lado sul — e atrás de uma ponta que o abrigava dos inimigos. A súbita parada e a aspereza do cascalho na palma da mão de repente o fizeram despertar, e ele chorou de alegria. Enterrou os dedos na areia, atirando-a sobre o próprio corpo enquanto agradecia em voz alta. Aquela areia era para ele como se feita de diamantes, rubis, esmeraldas. Tudo o que era belo parecia-se com ela. As árvores sobre a margem eram um gigantesco jardim. E ele notou que as plantas ali estavam compostas como se num arranjo, ao mesmo tempo que inalava seu perfume. Uma luz estranha, rosada, brilhava no espaço entre os troncos e o vento, em seus galhos, produzia a melodia de uma harpa. Já não queria fugir — estaria satisfeito em ficar naquele lugar encantador até ser recapturado.
Um zumbido e um martelar por entre os galhos, acima de sua cabeça, despertaram-no de seu sonho. O artilheiro frustrado fazia novo disparo a esmo. Farquhar pôs-se de pé e saiu correndo em direção à margem escarpada, penetrando na floresta.
Durante todo o dia caminhou, guiando-se pelo sol. A floresta parecia interminável. Em nenhum ponto encontrou uma só clareira, uma só trilha de lenhadores. Não sabia que vivia numa região de mata tão fechada. E havia nessa revelação qualquer coisa de sobrenatural.
Quando a noite caiu, estava exausto, faminto, com os pés feridos. Mas quando pensava na mulher e nos filhos, sentia-se encorajado a prosseguir. Finalmente deu numa estrada que o levou na direção que ele sabia ser a certa. Era larga e reta como a rua de uma cidade e contudo parecia não ter sido jamais trilhada. Não havia fazendas em suas margens, nem sinal de qualquer atividade. Nem mesmo o latido de um cão sugerindo que o lugar era habitado por humanos. Apenas o corpo negro das árvores formando uma muralha, de ambos os lados, desaparecendo em algum ponto no horizonte, como o desenho de uma lição de perspectiva. No alto, quando ele olhava através das copas das árvores, via o brilho de gigantescas estrelas cor de ouro, que lhe pareciam estranhas e agrupadas em constelações desconhecidas. Tinha certeza de que formavam um padrão cujo significado era secreto e maligno. E a floresta, de um lado e outro, emitia ruídos singulares, entre os quais — uma, duas, várias vezes — pôde distinguir sussurros numa língua que jamais ouvira.
Seu pescoço doía e ao passar a mão nele viu que estava horrivelmente inchado. Sabia que tinha um círculo escuro no lugar onde a corda o ferira. Seus olhos estavam congestionados. Já não conseguia fechá-los. A língua inchara de tanta sede. Procurou aliviar a febre botando a língua para fora por entre os dentes e buscando o contato com o ar frio. A relva macia cobrira de tal forma a estrada deserta que ele já não sentia o chão sob seus pés.
Com certeza, apesar de todo o sofrimento, adormeceu enquanto caminhava, pois agora via outro cenário — ou talvez tivesse acordado de um delírio. Está de pé diante do portão de sua própria casa. Tudo continua como ele deixou, brilhando com beleza à luz do sol da manhã. Deve ter caminhado durante toda a noite. Assim que empurra o portão e atravessa a calçada larga e branca, percebe um ondear de saias femininas. É sua esposa, parecendo tão fresca, tão calma e tão doce que desce os degraus da varanda para encontrá-lo. Ao pé do degraus ela pára, esperando, com um sorriso de imensa alegria, com graça e dignidade incomparáveis. Ah, como é bela E ele corre, com os braços estendidos. Quando está a ponto de abraçá-la sente uma violenta pancada na nuca. Uma luz branca, capaz de cegar, explode à sua volta com um som que se assemelha ao tiro de um canhão — e depois é tudo escuridão e silêncio.
Peyton Farquhar estava morto. Seu corpo, com o pescoço quebrado, balançava lentamente de um lado para outro por entre os dormentes da ponte de Owl Creek.


*Owl Creek — rio da Coruja.

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Sobre o professor Moisés Monteiro de Melo Neto

 


O professor Moisés Monteiro de Melo Neto possui graduação em Letras (1992), mestrado e doutorado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (2011). Atualmente é professor da UNEAL (Universidade Estadual de Alagoas) e da UPE (Universidade Estadual de Pernambuco). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura, atuando principalmente nas seguintes Áreas: Dramaturgia, Literatura Comparada, Estudos Culturais, Produção Textual, Literaturas em Língua Portuguesa, Representações dos Gêneros na Literatura, Bioficção, Literatura e História, Literatura e Cinema. É professor desde 1992. Autor de vários livros (dentre os quais: Abismos da Poeticidade, publicado pelo SESC, Notícias Americanas, Anticânone: literatura em Pernambuco a partir do século XX e Movimento Mangue: Chico Science e outros artistas (2021). É autor de peças teatrais que receberam menções honrosas e prêmios; atuou como colaborador do Suplemento Literário (Caderno C) do Jornal do Commercio, Recife, nos anos 1990.

Foi responsável pelo dramaturgismo da peça Um minuto para dizer que te amo, vencedora de vários prêmios, ficando em cartaz de 2017 a 2019. Faz parte do Programa de Mestrado Profissional em Letras (ProfLetras), oferecido em rede nacional, é um curso de pós-graduação stricto sensu que conta com a participação de instituições de ensino superior públicas no âmbito do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), assim como integra o Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Alagoas e também da Pós-Graduação em História, na mesma Universidade. Em 2019 lançou o livro Shakespeare: um ensaio dramático. Colaborou de 2018 a 2020 com o jornal O SÉCULO, de Garanhuns.

Seu livro CIRCO MÁGICO ALAKAZAM lançado em outubro de 2019, selecionado pelo Governo do Estado de Pernambuco, através da Secretaria de Cultura, FUNCULTURA). Faz parte dos seguintes núcleos de pesquisa e extensão: NÚCLEO DE ESTUDOS POLÍTICOS, ESTRATÉGICOS E FILOSÓFICOS: NEPEF, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Estudos Literários, Artes e Ensino-NELIEN- UNEAL, Projeto de extensão e pesquisa Letramentos e práticas discursivas, LEPRADIS. Lepdic: Letramentos e Práticas Discursivas e Culturais. Centro de Pesquisa Educacional Experiência no magistério superior: 10 anos. Experiência Profissional: 30 anos de Magistério. Líder do Projeto TUPI Formação do Teatro Universitário em Palmeira dos Índios - Pesquisa e atuação: Teatro como instrumento pedagógico na prática do ensino de Literatura.

Lançou no final de 2020 o seu livro 'Biografia, Autobiografia e Ficção: Literatura e História em Entrelaçamentos Vivenciais', pela Editora Olyver, de Alagoas e tem participado de congressos, colóquios e encontros, mesmo durante a pandemia nos anos 2020/ 2021. Em março deste ano (2021) proferiu palestra dirigida aos alunos dos cursos EAD da UPE: "Literatura e Sociedade", a convite da Coordenação do Curso de Letras. Suas peças tem sido transmitidas pela Rádio Folha de Pernambuco. Teve publicado, com apoio do Lepdic, neste primeiro semestre de 2021 e está organizado mais dois com artigos científicos dos seus alunos.

Ministrou o minicurso Literatura africana de língua portuguesa, entre maio de junho de 2021, também integrando forças com o projeto do Lepdic, pelo Grupo TUPI, projeto de Extensão que ele coordena na Uneal. Vem apresentando trabalhos em encontros nacionais como o 5º Congresso Nacional de Educação, junho de 2021. Seus orientandos vêm defendendo seus trabalhos através de plataformas digitais.

 

ORCID:     https://orcid.org/0000-0002-1186-7334

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Livro sobre Chico Science e o Movimento Mangue

 

A década de 1990 foi marcada pela afirmação e contestação do modelo econômico do neoliberalismo e pelos desdobramentos da globalização. No Recife surgiu o Movimento Manguebeat que produziu deslocamentos e rompeu com os paradigmas estéticos. Este importante livro (re) constrói o universo cultural da capital de Pernambuco nos anos 90. A poética, as representações, as demandas sociais de um movimento que pensou os mangues e a periferia da cidade como centro. Na obra do Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto o encontro entre o pensamento de Josué de Castro, a poesia de Chico Science, e os “caranguejos com cérebro” potencializam a narrativa.

 

Helder Remigio de Amorim

 

Coordenador do Mestrado em História da Universidade Católica de Pernambuco (PPG História/ UNICAP)




Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto em entrevista sobre livro que publicou sobre
os poetas do  Movimento Mangue


 

 


Este livro não teria sido escrito sem que antes houvesse uma série de personagens reais, “pessoas extraordinárias”, na expressão roubada aqui do historiador inglês Eric Hobsbawn. Refiro-me a Chico Science, Fred 04, Renato L. e muitos outros músicos, roadies, técnicos de som, promotores de eventos, cineastas, jornalistas, etc. que movimentaram e fizeram parte da cena recifense na década de 90. Na verdade, um dos capítulos mais importantes da história da música brasileira foi escrito ali, nas noites quentes da Manguetown. No entanto, esse livro e todas as histórias contidas nele não chegariam aos leitores sem que houvesse um escritor dedicado e comprometido como é o caso do autor deste livro, o professor Moisés Monteiro de Melo Neto.

Munido de vasta pesquisa e excelente aporte teórico, Moisés se propõe a discutir a poética diluída e condensada em letras de música, shows, filmes, manifestos, entrevistas etc. Esta poética é a peça-chave desse quebra-cabeça, fundamental na reconstrução dessa história, do que se viveu na agitada Cena Recifense daqueles anos. O que compunha toda a diversidade sonora e imagética, que iam dos batuques de terreiro, dos graves alcançados nos tambores de pele de bode, passando pelas guitarras distorcidas por overdrive, wah wah, delay e outros efeitos, era a palavra, ou melhor, uma série de escritos, poesias em forma de letras de músicas que foram amplificadas nos alto-falantes e fizeram a cabeça de uma geração, movimentando a “cultura quatrocentona de Pernambuco”, na expressão do autor. De fato, o solo da Manguetown foi fértil, um ecossistema completo. Quase três décadas depois, discos como Da Lama ao Caos (Chico Science e Nação Zumbi) e Samba Esquema Noise (Mundo Livre S/A) ainda impressionam pela qualidade da gravação, a escolha dos timbres, arte visual das capas e encartes, temática das letras etc. Toda a estética do movimento e padrões de comportamento nasciam ali. Esses discos, de tão perfeitos, podem ser comparados a outros tão importantes da Música Popular Brasileira, como Construção (Chico Buarque) ou Expresso 2222 (Gilberto Gil), tamanha a força e a perenidade das composições prensadas no vinil. Obras primas da criação humana que inspiraram outros trabalhos, provocando metamorfoses e deslocamentos. Depois deles, poética nunca deixou de brotar no solo fértil da Manguetown.

O legado deixado pelas bandas e outros artistas que compunham esse cenário é inegável. Muito já se escreveu, de forma geral ou pontual, sobre o Movimento Mangue. Pela diversidade característica das bandas e produções artísticas, as interpretações são muito distintas, quase particulares.

O professor Moises Monteiro de Melo Neto foi um dos primeiros autores, ainda nos anos 2000, a dedicar um livro sobre o Movimento Mangue, na intenção de fornecer uma compreensão teórica sobre a cena e seu principal mentor, o Chico Science, figura carismática e uma das cabeças mais brilhantes que já nasceu nessas paragens. O valor daquela incursão foi grande, gerando uma dissertação de mestrado em Letras da UFPE, defendida em 2004, onde o tema foi mais que aprofundado. O que o leitor tem hoje em mãos são anos de investigação, de trabalho dedicados a compreender da melhor forma possível aquele movimento, um fenômeno cultural que levou a imprensa nacional e internacional a focar seus holofotes na cidade estuário do Recife.

Temas como “tradição” e “cultura popular”, entre muitos outros, são discutidos com maestria por Moisés, sem correr o risco de cair numa mera folclorização ou mesmo em fomentar antagonismo simplórios e batidos, como por exemplo, modernidade versus conservadorismo. De forma simples, o autor parte para desenvolver ideias instigantes que dialogam com autores da pós-modernidade, dos Estudos Culturais etc. A construção dos argumentos é bem ancorada não apenas nas pesquisas empreendidas pelo autor, mas também nos aportes teóricos, utilizando gente de peso, como Bhabha, Hall, Barthes, Octavio Paz, entre outros. Apesar da complexidade de alguns temas, a escrita de Moisés não se faz entendida apenas ao leitor versado nos jargões do mundo acadêmico. Pelo contrário, o leitor comum vai se deliciar com o que vai encontrar nessas páginas.

Ao leitor que começou esse livro pela leitura desse prefácio, faço questão de ressaltar que a escrita de Moisés Monteiro de Melo Neto é extremamente versátil, misturando com maestria análise acadêmica profícua, fruto de extensa pesquisa e reflexão teórica, com aquele gostinho de crônica domingueira, que encontrávamos nos bons jornais de outrora, quando a leitura era feita com leveza e prazer. Mas não é só isso, como toda boa obra literária, o texto cresce, fica denso, nervoso, como se o leitor estivesse participando diretamente dos embates que se travaram na legitimação daquele tipo de arte que era produzido ali no Recife dos anos 90. Por fim, espero que esse livro seja tão estimulante quanto foi para mim. Ler o livro de Moisés Neto me fez voltar no tempo, de quando frequentava as festas, discotecagem e show na Soparia, na Oficina Mecânica, no Pina de Copacabana, no Abril pro Rock e muitos outros “lugares de memória”, das minhas memórias e de toda uma geração que viveu e se criou ao som do que se produziu na Manguetown. O que se viveu naqueles anos foi de fato uma experiência única.

Bruno Augusto Dornelas Câmara*

Garanhuns, 25 de abril de 2021.

* Professor adjunto do Curso de Licenciatura em História da Universidade de Pernambuco – UPE, Campus Garanhuns, e docente permanente do Programa de Mestrado Profissional em Culturas Africanas, da Diáspora, e dos Povos Indígenas – PROCADI, docente colaborador no Programa de Pós-Graduação em História – UFPE.

 

 

 

 

sábado, 1 de maio de 2021

Ali Se Maravilha No País Virtual , por Moisés Monteiro de Melo Neto

 


“... e seria assim até o fim do mundo, rodando, rodando e rodando. Um cara enorme, assim, o velho Deus em pessoa (por cortesia do Leite-Bar Korova) girando e girando uma laranja cheirosa e estranha nas suas mãos gigantescas. [...] E tudo que foi, foi que eu era jovem [...] mas pra onde estou indo agora, é segredo, vocês não podem ir. Amanhã é tudo assim: meigas flores e terra perfumada que roda e as estrelas e a velha lua lá em cima. O resto que se dane. Mas vós, oh meus irmãos, lembrem-se de mim de vez em quando, como eu era. Amém e essa coisa toda...”. (Anthony Burgess in Clockwork Orange, A Laranja Mecânica)





O Baile dos Artistas de 99 também prestou sua homenagem, através do manguebit artista plástico Evêncio Vasconcelos, velho parceiro do Science. A jornalista Fabiana Freire escreveu no Jornal do Commercio de 29 de janeiro de 1999: “Na versão do escritor britânico Lewis Carroll, ao entrar no espelho, Alice percebe o reverso do mundo. Ao utilizar o mote, para conceber a decoração do XXI Baile dos Artistas do Recife, a prévia do Carnaval pernambucano que será realizada hoje no Sport Club do Recife, o artista plástico Evêncio Vasconcelos substitui o mundo ao avesso por Pernambuco. Ou dito de outra forma: ao entrar no espelho, Alice aporta em Pernambuco e montada num bumba-meu-boi. Numa imagem, a marca da modernidade ou da pós-modernidade, defenderiam alguns”.






 

Foram alguns artesãos de Bezerros, a partir dos desenhos de Evêncio, que construíram Alice e o boi, as máscaras (três gigantes e dezenas de médio porte) e as cartas de baralho. Todos os objetos foram construídos com papel machê e estrutura metálica.

 

“As peças vão estar suspensas no teto ou dispostas em pontos estratégicos”, disse Evêncio. Segundo ele, o que se pretendia era criar um ambiente lúdico, em clima de conto de fadas. Mesmo antes de Lewis Carroll e sua ficção entrarem nessa história, os organizadores do Baile dos Artistas já eram fãs de carteirinha do duplo sentido. Ali Se Maravilha No País Virtual foi o nome do Baile. O avental de Alice a voar sugeria que ela estivesse surfando. Em vez de prancha, um bumba-meu-boi mágico pernambucano a conduzia até a Manguiceia inclemente e antenável a qualquer onda.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Por que escrevo?

George Orwell, autor de 1984 e Revolução dos Bichos responde que são 4 os os combustíveis da escrita, segundo ele são: puro egoísmo, entusiasmo estético, impulso histórico e propósito político

segunda-feira, 22 de março de 2021

PALESTRA "TEATRO E SOCIEDADE", dirigida aos alunos da EAD, UPE, 19 de março de 2021

 


Da antiguidade clássica aos dias de hoje: a representação da sociedade nas artes cênicas, gerando reflexões, diversão e compromisso com o processo educativo.