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sexta-feira, 11 de junho de 2021

Sobre o professor Moisés Monteiro de Melo Neto

 


O professor Moisés Monteiro de Melo Neto possui graduação em Letras (1992), mestrado e doutorado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (2011). Atualmente é professor da UNEAL (Universidade Estadual de Alagoas) e da UPE (Universidade Estadual de Pernambuco). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura, atuando principalmente nas seguintes Áreas: Dramaturgia, Literatura Comparada, Estudos Culturais, Produção Textual, Literaturas em Língua Portuguesa, Representações dos Gêneros na Literatura, Bioficção, Literatura e História, Literatura e Cinema. É professor desde 1992. Autor de vários livros (dentre os quais: Abismos da Poeticidade, publicado pelo SESC, Notícias Americanas, Anticânone: literatura em Pernambuco a partir do século XX e Movimento Mangue: Chico Science e outros artistas (2021). É autor de peças teatrais que receberam menções honrosas e prêmios; atuou como colaborador do Suplemento Literário (Caderno C) do Jornal do Commercio, Recife, nos anos 1990.

Foi responsável pelo dramaturgismo da peça Um minuto para dizer que te amo, vencedora de vários prêmios, ficando em cartaz de 2017 a 2019. Faz parte do Programa de Mestrado Profissional em Letras (ProfLetras), oferecido em rede nacional, é um curso de pós-graduação stricto sensu que conta com a participação de instituições de ensino superior públicas no âmbito do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), assim como integra o Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Alagoas e também da Pós-Graduação em História, na mesma Universidade. Em 2019 lançou o livro Shakespeare: um ensaio dramático. Colaborou de 2018 a 2020 com o jornal O SÉCULO, de Garanhuns.

Seu livro CIRCO MÁGICO ALAKAZAM lançado em outubro de 2019, selecionado pelo Governo do Estado de Pernambuco, através da Secretaria de Cultura, FUNCULTURA). Faz parte dos seguintes núcleos de pesquisa e extensão: NÚCLEO DE ESTUDOS POLÍTICOS, ESTRATÉGICOS E FILOSÓFICOS: NEPEF, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Estudos Literários, Artes e Ensino-NELIEN- UNEAL, Projeto de extensão e pesquisa Letramentos e práticas discursivas, LEPRADIS. Lepdic: Letramentos e Práticas Discursivas e Culturais. Centro de Pesquisa Educacional Experiência no magistério superior: 10 anos. Experiência Profissional: 30 anos de Magistério. Líder do Projeto TUPI Formação do Teatro Universitário em Palmeira dos Índios - Pesquisa e atuação: Teatro como instrumento pedagógico na prática do ensino de Literatura.

Lançou no final de 2020 o seu livro 'Biografia, Autobiografia e Ficção: Literatura e História em Entrelaçamentos Vivenciais', pela Editora Olyver, de Alagoas e tem participado de congressos, colóquios e encontros, mesmo durante a pandemia nos anos 2020/ 2021. Em março deste ano (2021) proferiu palestra dirigida aos alunos dos cursos EAD da UPE: "Literatura e Sociedade", a convite da Coordenação do Curso de Letras. Suas peças tem sido transmitidas pela Rádio Folha de Pernambuco. Teve publicado, com apoio do Lepdic, neste primeiro semestre de 2021 e está organizado mais dois com artigos científicos dos seus alunos.

Ministrou o minicurso Literatura africana de língua portuguesa, entre maio de junho de 2021, também integrando forças com o projeto do Lepdic, pelo Grupo TUPI, projeto de Extensão que ele coordena na Uneal. Vem apresentando trabalhos em encontros nacionais como o 5º Congresso Nacional de Educação, junho de 2021. Seus orientandos vêm defendendo seus trabalhos através de plataformas digitais.

 

ORCID:     https://orcid.org/0000-0002-1186-7334

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Livro sobre Chico Science e o Movimento Mangue

 

A década de 1990 foi marcada pela afirmação e contestação do modelo econômico do neoliberalismo e pelos desdobramentos da globalização. No Recife surgiu o Movimento Manguebeat que produziu deslocamentos e rompeu com os paradigmas estéticos. Este importante livro (re) constrói o universo cultural da capital de Pernambuco nos anos 90. A poética, as representações, as demandas sociais de um movimento que pensou os mangues e a periferia da cidade como centro. Na obra do Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto o encontro entre o pensamento de Josué de Castro, a poesia de Chico Science, e os “caranguejos com cérebro” potencializam a narrativa.

 

Helder Remigio de Amorim

 

Coordenador do Mestrado em História da Universidade Católica de Pernambuco (PPG História/ UNICAP)




Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto em entrevista sobre livro que publicou sobre
os poetas do  Movimento Mangue


 

 


Este livro não teria sido escrito sem que antes houvesse uma série de personagens reais, “pessoas extraordinárias”, na expressão roubada aqui do historiador inglês Eric Hobsbawn. Refiro-me a Chico Science, Fred 04, Renato L. e muitos outros músicos, roadies, técnicos de som, promotores de eventos, cineastas, jornalistas, etc. que movimentaram e fizeram parte da cena recifense na década de 90. Na verdade, um dos capítulos mais importantes da história da música brasileira foi escrito ali, nas noites quentes da Manguetown. No entanto, esse livro e todas as histórias contidas nele não chegariam aos leitores sem que houvesse um escritor dedicado e comprometido como é o caso do autor deste livro, o professor Moisés Monteiro de Melo Neto.

Munido de vasta pesquisa e excelente aporte teórico, Moisés se propõe a discutir a poética diluída e condensada em letras de música, shows, filmes, manifestos, entrevistas etc. Esta poética é a peça-chave desse quebra-cabeça, fundamental na reconstrução dessa história, do que se viveu na agitada Cena Recifense daqueles anos. O que compunha toda a diversidade sonora e imagética, que iam dos batuques de terreiro, dos graves alcançados nos tambores de pele de bode, passando pelas guitarras distorcidas por overdrive, wah wah, delay e outros efeitos, era a palavra, ou melhor, uma série de escritos, poesias em forma de letras de músicas que foram amplificadas nos alto-falantes e fizeram a cabeça de uma geração, movimentando a “cultura quatrocentona de Pernambuco”, na expressão do autor. De fato, o solo da Manguetown foi fértil, um ecossistema completo. Quase três décadas depois, discos como Da Lama ao Caos (Chico Science e Nação Zumbi) e Samba Esquema Noise (Mundo Livre S/A) ainda impressionam pela qualidade da gravação, a escolha dos timbres, arte visual das capas e encartes, temática das letras etc. Toda a estética do movimento e padrões de comportamento nasciam ali. Esses discos, de tão perfeitos, podem ser comparados a outros tão importantes da Música Popular Brasileira, como Construção (Chico Buarque) ou Expresso 2222 (Gilberto Gil), tamanha a força e a perenidade das composições prensadas no vinil. Obras primas da criação humana que inspiraram outros trabalhos, provocando metamorfoses e deslocamentos. Depois deles, poética nunca deixou de brotar no solo fértil da Manguetown.

O legado deixado pelas bandas e outros artistas que compunham esse cenário é inegável. Muito já se escreveu, de forma geral ou pontual, sobre o Movimento Mangue. Pela diversidade característica das bandas e produções artísticas, as interpretações são muito distintas, quase particulares.

O professor Moises Monteiro de Melo Neto foi um dos primeiros autores, ainda nos anos 2000, a dedicar um livro sobre o Movimento Mangue, na intenção de fornecer uma compreensão teórica sobre a cena e seu principal mentor, o Chico Science, figura carismática e uma das cabeças mais brilhantes que já nasceu nessas paragens. O valor daquela incursão foi grande, gerando uma dissertação de mestrado em Letras da UFPE, defendida em 2004, onde o tema foi mais que aprofundado. O que o leitor tem hoje em mãos são anos de investigação, de trabalho dedicados a compreender da melhor forma possível aquele movimento, um fenômeno cultural que levou a imprensa nacional e internacional a focar seus holofotes na cidade estuário do Recife.

Temas como “tradição” e “cultura popular”, entre muitos outros, são discutidos com maestria por Moisés, sem correr o risco de cair numa mera folclorização ou mesmo em fomentar antagonismo simplórios e batidos, como por exemplo, modernidade versus conservadorismo. De forma simples, o autor parte para desenvolver ideias instigantes que dialogam com autores da pós-modernidade, dos Estudos Culturais etc. A construção dos argumentos é bem ancorada não apenas nas pesquisas empreendidas pelo autor, mas também nos aportes teóricos, utilizando gente de peso, como Bhabha, Hall, Barthes, Octavio Paz, entre outros. Apesar da complexidade de alguns temas, a escrita de Moisés não se faz entendida apenas ao leitor versado nos jargões do mundo acadêmico. Pelo contrário, o leitor comum vai se deliciar com o que vai encontrar nessas páginas.

Ao leitor que começou esse livro pela leitura desse prefácio, faço questão de ressaltar que a escrita de Moisés Monteiro de Melo Neto é extremamente versátil, misturando com maestria análise acadêmica profícua, fruto de extensa pesquisa e reflexão teórica, com aquele gostinho de crônica domingueira, que encontrávamos nos bons jornais de outrora, quando a leitura era feita com leveza e prazer. Mas não é só isso, como toda boa obra literária, o texto cresce, fica denso, nervoso, como se o leitor estivesse participando diretamente dos embates que se travaram na legitimação daquele tipo de arte que era produzido ali no Recife dos anos 90. Por fim, espero que esse livro seja tão estimulante quanto foi para mim. Ler o livro de Moisés Neto me fez voltar no tempo, de quando frequentava as festas, discotecagem e show na Soparia, na Oficina Mecânica, no Pina de Copacabana, no Abril pro Rock e muitos outros “lugares de memória”, das minhas memórias e de toda uma geração que viveu e se criou ao som do que se produziu na Manguetown. O que se viveu naqueles anos foi de fato uma experiência única.

Bruno Augusto Dornelas Câmara*

Garanhuns, 25 de abril de 2021.

* Professor adjunto do Curso de Licenciatura em História da Universidade de Pernambuco – UPE, Campus Garanhuns, e docente permanente do Programa de Mestrado Profissional em Culturas Africanas, da Diáspora, e dos Povos Indígenas – PROCADI, docente colaborador no Programa de Pós-Graduação em História – UFPE.

 

 

 

 

sábado, 1 de maio de 2021

Ali Se Maravilha No País Virtual , por Moisés Monteiro de Melo Neto

 


“... e seria assim até o fim do mundo, rodando, rodando e rodando. Um cara enorme, assim, o velho Deus em pessoa (por cortesia do Leite-Bar Korova) girando e girando uma laranja cheirosa e estranha nas suas mãos gigantescas. [...] E tudo que foi, foi que eu era jovem [...] mas pra onde estou indo agora, é segredo, vocês não podem ir. Amanhã é tudo assim: meigas flores e terra perfumada que roda e as estrelas e a velha lua lá em cima. O resto que se dane. Mas vós, oh meus irmãos, lembrem-se de mim de vez em quando, como eu era. Amém e essa coisa toda...”. (Anthony Burgess in Clockwork Orange, A Laranja Mecânica)





O Baile dos Artistas de 99 também prestou sua homenagem, através do manguebit artista plástico Evêncio Vasconcelos, velho parceiro do Science. A jornalista Fabiana Freire escreveu no Jornal do Commercio de 29 de janeiro de 1999: “Na versão do escritor britânico Lewis Carroll, ao entrar no espelho, Alice percebe o reverso do mundo. Ao utilizar o mote, para conceber a decoração do XXI Baile dos Artistas do Recife, a prévia do Carnaval pernambucano que será realizada hoje no Sport Club do Recife, o artista plástico Evêncio Vasconcelos substitui o mundo ao avesso por Pernambuco. Ou dito de outra forma: ao entrar no espelho, Alice aporta em Pernambuco e montada num bumba-meu-boi. Numa imagem, a marca da modernidade ou da pós-modernidade, defenderiam alguns”.






 

Foram alguns artesãos de Bezerros, a partir dos desenhos de Evêncio, que construíram Alice e o boi, as máscaras (três gigantes e dezenas de médio porte) e as cartas de baralho. Todos os objetos foram construídos com papel machê e estrutura metálica.

 

“As peças vão estar suspensas no teto ou dispostas em pontos estratégicos”, disse Evêncio. Segundo ele, o que se pretendia era criar um ambiente lúdico, em clima de conto de fadas. Mesmo antes de Lewis Carroll e sua ficção entrarem nessa história, os organizadores do Baile dos Artistas já eram fãs de carteirinha do duplo sentido. Ali Se Maravilha No País Virtual foi o nome do Baile. O avental de Alice a voar sugeria que ela estivesse surfando. Em vez de prancha, um bumba-meu-boi mágico pernambucano a conduzia até a Manguiceia inclemente e antenável a qualquer onda.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Por que escrevo?

George Orwell, autor de 1984 e Revolução dos Bichos responde que são 4 os os combustíveis da escrita, segundo ele são: puro egoísmo, entusiasmo estético, impulso histórico e propósito político

segunda-feira, 22 de março de 2021

PALESTRA "TEATRO E SOCIEDADE", dirigida aos alunos da EAD, UPE, 19 de março de 2021

 


Da antiguidade clássica aos dias de hoje: a representação da sociedade nas artes cênicas, gerando reflexões, diversão e compromisso com o processo educativo.

quinta-feira, 18 de março de 2021

MAIS UM POEMA DA PANDEMIA PÓS-19

                                                                         ...por  Moisés Monteiro de Melo Neto


ISSO VAI PASSAR...TODOS ESCREVIFALAM PANDEMIA: ARTE DE TREINAR SER  NOVA VIDA DIVIDIDA. DOENÇA-PADRÃO. Bem aqui EQUIDISTANTE NÃO POR FALTA DE FÉ, pois LÁ NO FIM JÁ ESTAVA o NOVO ÉDEN, HARPAS DE SIÃO, JARDIM DE ALÁ ALÉM ZEN. POR ENQUANTO POSSO ESCRELERTODOS numa só: cor classe gêneros? No. Rimas e remos, seremos. Shiva, Diva, privativa assistência: trilhões de dólares em XEQUE Mate Leão gelado com mel e limão. Sem tempo para roxos funerais;  PRA QUE ESTAS COVAS abertas, vovó? Pra te comer virgem, ainda ou quem for mais degastadx entre TODXS, ainda. Do samba´n´roll, do passinho, chula, xaxado cangaço ao som da balalaika mais próxima, no terreiro de Sabá. Não esquecer que o vírus não impedirá o FLORESCER DAS CEREJEIRAS, logo mais, aqui no Ibura-Japão de todos nós. E os que vivem no amanhã mandam lembranças para os dinossauros que (re)nasceram no segundo milênio! E para os mais novinhos deste século high tech? Ah! Muitos gigas! GRATO A QUEM ESTÁ TRABALHANDO NA SAÚDE, SEGURANÇA, MERCADOS, DELIVERY, PORTEIROS, ZELADORES. E AOS QUE TRABALHAM EM CASA. Grato ao sagrado, também! HOC SIGNO VINCES!



ENQUANTO ISSO...PELA JANELA DO MEU APARTAMENTO...


 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

NELSON RODRIGUES: ONTEM, HOJE, SEMPRE por Moisés Monteiro de Melo Neto

 


                      por Moisés Monteiro de Melo Neto*[i]

 

Que fazemos nós desde que nascemos, senão teatro, autêntico, válido, incoercível teatro?

A ficção para ser purificadora tem que ser atroz. O personagem é vil para que não sejamos...             

                                                   ( frase lapidares de Nelson Rodrigues)


1.       Características de Nelson: Em Nelson, é a partir da tragicidade e do mergulho no inconsciente (onde estariam os rejeitos do consciente) que o desespero, o êxtase, o retorno do recalcado fazem a negociação intensa entre real, simbólico e imaginário (ou o poético). A linguagem é usada para livrar os personagens do sentimento de culpa. O inconsciente coletivo seria a camada mais profunda da psique: um material herdado da humanidade, nele todos os humanos são iguais. Nelson busca essa raiz comum, dentre outras coisas e o faz de maneira um tanto quanto cínica e exagerada na expressão. Está atento ao perigo do homem se ligar ao papel (persona) e se esquecer de si. Mas o registro aqui vai além dos clichês freudo-marxistas e os põe em xeque. O choque de ricos / granfinos com pobres é também transgressão. Há que se estilhaçar esse painel rodriguiano e reorganizá-lo acentuando o que há de comédia, não de cômico, em Nelson, afastando-se do naturalismo, mas partindo da constituição realista.

2.       O TEATRO E O ROMANCE: Gosto de O casamento, um romance lançado em 1966, censurado, como tantas obras deste recifense, considero-o uma das melhores produções do autor. Temos mais uma vez, como acontece nas peças um mergulho psicanalítico, ao modo dele, nas personagens. As técnicas utilizadas continuam as mesmas e os personagens continuam sufocados em busca de exercer sua liberdade a qualquer custo. Quando Nelson escreve peças de teatro vemos muitas rubricas, é como se ele quisesse dirigi-las, também. Já nas suas narrativas a construção do narrador facilita isso. Temos o autor mexendo todos os fios do enredo. Ele é áspero e ao mesmo tempo sedutor na sua técnica narrativa. Sempre leva muito da concisão jornalística. para compor o espaço de suas produções. Um  Freud popular a tratar de certos arquétipos, aí o inconsciente e subconsciente dos personagens são descritos de forma ainda mais, grosso modo, íntima e quando as convenções sociais vão sendo desconstruídas por ele, vêm à tona instintos terríveis. São parágrafos de tirar o fôlego e não precisamos de atores. Nelson é personagem, ator e diretor em tais casos, além de sonoplasta iluminador, tudo.  Nelson é um narrador tão bom quanto criador de cenas para teatro.

3.       A FAMÍLIA EM NELSON:  em Álbum de Família, Os sete gatinhos, Toda Nudez será castigada e outras peças o que vemos é algo aterrador, ácido de uma sordidez visceral. Discuti muito isso com o diretor Antunes Filho. Para Antunes esse viés de  Nelson Rodrigues é algo similar a um desafio cósmico: desdobrar a totalidade da existência, dessa instituição (família) e de tantas outras; ele observa a sociedade  no seu todo desdobrado em si numa estranha relação com a “realidade”. Nelson oferece uma catalisação em textos  onde cada parte, estilhaça o contexto do todo, recompondo-o em superposições alucinantes. Isto é, cada acontecimento cruza o outro, em simultaneidade (tão presente na vida), em ritmo frenético. A mãe erotizada, a tia virgem, o pai adúltero e pervertido, os jovens depravados, a entrega explosiva na reunião familiar, os preconceitos explícitos e implícitos, tudo isso a girar num frenesi extasiante.

4.       O RETRATO DA CONDIÇÃO HUMANA: NELSON faz nossos sentidos ficarem ligados em várias coisas, simultaneamente. Fazer o tempo comprimir-se ao ponto de explodir. Dá sua versão da condição humana através de um barroquismo típico de parte da sua escrita de ficção. É um texto de sentido dialético  levado ao extremo e a verdade dramática, as formas estéticas, tempo, espaço e ação não se dobram a disposição de análises sociológicas ou psicológicas. Nele, o castigo pela nudez é também imagem caleidoscópica sempre aberta a um novo giro, novo desenho, oferecendo múltipla percepção e estabelecendo insólitas relações.

5.       NELSON NO DIÁLOGO COM O SEU TEMPO E COM O NOSSO: “Quando com dificuldade não conseguimos entender ou ver claramente um acontecimento, seja em lugar público ou num espetáculo teatral, a nossa imaginação vem sempre nos socorrer preenchendo os vazios”, me ensinou  Antunes Filho. Através de cenas articuladas de tal modo, que gestos e olhares, efeitos plásticos e sonoros, o texto rodriguiano é ao mesmo tempo retrato da sua época e sinal atemporal da nossa catastrófica sociedade. Nelson nos a uma  percepção aguda, que não quer se alienar e que se mantém longe do convencional, em linguagem própria e dinâmica. Nelson visto ou lido no nesta década de 20 do século XXI parece uma visita ao Hades, sem possíveis Eurídices a resgatar, Ele ainda nos olha pelo buraco da fechadura do mundo dos mortos. O anjo pornográfico ainda paira sobre nós. Não é a poderosa música de Orfeu, é literatura esfuziante. O Brasil de ontem e o de hoje passam pelo crivo do seu anátema de escritor viril.

6.       O TEATRO “DESAGRADÁVEL DE NELSON”:  onde o ator é um servidor do poeta, sendo ele mesmo um poeta, um criador. É bom não esquecer que Nelson é também essa expressão brasileira, não através de filtros intelectuais ou conceitos generalizantes, mas de um farto material humano que é oferecido para a criação do ator.

7.       COMO NELSON DEVE SER LIDO / VISTO ATUALMENTE? E você? Nunca pisou num rendez-vous? É um habitué? Conhece o método do nosso regisseur?  Leu os registros anteriores? Sabe onde está se metendo? Tem conhecimento de causa? Acredita em anjo pornográfico? Nelson Rodrigues expõe sua arte sarcástica, pura e perversa demais. Ele desenha, pinta, arquiteta meticulosamente: mostra a prostitua da peça TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA: nem santa nem dominatrix, Geni é claro enigma do bordel Brasil. à sala da família. Ela é noiva, esposa, morta rediviva, muito além de Eros e Tânatos. Da cornucópia verbal do autor ainda estão intactos o sarcasmo e o humor. Nelson escrevia escutando ópera, seu método abarca tudo, suas dezessete peças ecoam tragédias para rir, são textos escandalosamente líricos. Este autor exibe de maneira primorosa seu implacável senso crítico na sua crítica ao cretino fundamental, aos imbecis que tentavam arruiná-lo. Pressinto dentro da mente oceânica de Nelson, um Pierrô de antigos carnavais, cheio de fúria, frustração, insatisfação ao constatar sempre que todos nós somos cruéis e ferimos, que o brasileiro é um cafajeste em seu complexo de vira-lata, no seu empate pior do que a derrota.  Os personagens de Toda Nudez...detonam frases como “o ser humano é louco” (o maquiavélico Patrício), “eu mesma não me entendo”, “vou me entregar a qualquer um, na primeira esquina”, “beije meus sapatos, como eu beijei os teus”, “não quero nada senão um prato de comida e um canto para dormir” (a suicida Geni), “pederasta, eu matava”, “o menino serviu de mulher [...] o guarda viu, mas não fez nada” (a tia solteirona), “o sujeito mais degradado tem a salvação dentro de si, lá dentro” (o médico). Em seu folhetinesco mundanismo vermelho-sangue dito reacionário Nelson explorou os limites da virtude e do maniqueísmo em ritmo frenético, compulsivo, desconstruindo o senso comum. O câncer no seio que matou a falecida esposa de Herculano é o mesmo da praga rogada pela mãe de Geni à filha.

 

Para salvar a plateia, Rodrigues encheu o palco com seus “monstros”, quis forçar ao seu público um “pavoroso fluxo de consciência”. Suas frases curtas, o jeito malcriado de escrever, seu conhecimento das condições do gênero teatral. O bom teatro sacode o público, não teme o grotesco e questiona conceitos, afinal o homem só se salva se reconhecer sua própria hediondez, não é? O teatro é também uma espécie de expurgo, acerto de contas do ser humano com sua história, com todos os homens, com a vida e Nelson o faz de modo cético, sombrio e até... romântico.  Sábato Magaldi enquadrou Toda nudez... como uma tragédia carioca, mas o que temos aqui, com essa montagem do CPT, é a voz de todos os homens e mulheres de todos os tempos e lugares.

Pausa.

Grito.

Rompe-se o limite entre lua de mel e separação final dos amantes.

Como anda sua nudez? Você pensa que sabe de tudo? Você não sabe de nada!


Moisés Monteiro de Melo Neto, professor da UNEAL, ao lado do já saudoso diretor paulista  Antunes Filho, que tão bem encenou o dramaturgo recifense Nelson Rodrigues.