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sexta-feira, 21 de maio de 2021

Livro sobre Chico Science e o Movimento Mangue

 

A década de 1990 foi marcada pela afirmação e contestação do modelo econômico do neoliberalismo e pelos desdobramentos da globalização. No Recife surgiu o Movimento Manguebeat que produziu deslocamentos e rompeu com os paradigmas estéticos. Este importante livro (re) constrói o universo cultural da capital de Pernambuco nos anos 90. A poética, as representações, as demandas sociais de um movimento que pensou os mangues e a periferia da cidade como centro. Na obra do Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto o encontro entre o pensamento de Josué de Castro, a poesia de Chico Science, e os “caranguejos com cérebro” potencializam a narrativa.

 

Helder Remigio de Amorim

 

Coordenador do Mestrado em História da Universidade Católica de Pernambuco (PPG História/ UNICAP)




Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto em entrevista sobre livro que publicou sobre
os poetas do  Movimento Mangue


 

 


Este livro não teria sido escrito sem que antes houvesse uma série de personagens reais, “pessoas extraordinárias”, na expressão roubada aqui do historiador inglês Eric Hobsbawn. Refiro-me a Chico Science, Fred 04, Renato L. e muitos outros músicos, roadies, técnicos de som, promotores de eventos, cineastas, jornalistas, etc. que movimentaram e fizeram parte da cena recifense na década de 90. Na verdade, um dos capítulos mais importantes da história da música brasileira foi escrito ali, nas noites quentes da Manguetown. No entanto, esse livro e todas as histórias contidas nele não chegariam aos leitores sem que houvesse um escritor dedicado e comprometido como é o caso do autor deste livro, o professor Moisés Monteiro de Melo Neto.

Munido de vasta pesquisa e excelente aporte teórico, Moisés se propõe a discutir a poética diluída e condensada em letras de música, shows, filmes, manifestos, entrevistas etc. Esta poética é a peça-chave desse quebra-cabeça, fundamental na reconstrução dessa história, do que se viveu na agitada Cena Recifense daqueles anos. O que compunha toda a diversidade sonora e imagética, que iam dos batuques de terreiro, dos graves alcançados nos tambores de pele de bode, passando pelas guitarras distorcidas por overdrive, wah wah, delay e outros efeitos, era a palavra, ou melhor, uma série de escritos, poesias em forma de letras de músicas que foram amplificadas nos alto-falantes e fizeram a cabeça de uma geração, movimentando a “cultura quatrocentona de Pernambuco”, na expressão do autor. De fato, o solo da Manguetown foi fértil, um ecossistema completo. Quase três décadas depois, discos como Da Lama ao Caos (Chico Science e Nação Zumbi) e Samba Esquema Noise (Mundo Livre S/A) ainda impressionam pela qualidade da gravação, a escolha dos timbres, arte visual das capas e encartes, temática das letras etc. Toda a estética do movimento e padrões de comportamento nasciam ali. Esses discos, de tão perfeitos, podem ser comparados a outros tão importantes da Música Popular Brasileira, como Construção (Chico Buarque) ou Expresso 2222 (Gilberto Gil), tamanha a força e a perenidade das composições prensadas no vinil. Obras primas da criação humana que inspiraram outros trabalhos, provocando metamorfoses e deslocamentos. Depois deles, poética nunca deixou de brotar no solo fértil da Manguetown.

O legado deixado pelas bandas e outros artistas que compunham esse cenário é inegável. Muito já se escreveu, de forma geral ou pontual, sobre o Movimento Mangue. Pela diversidade característica das bandas e produções artísticas, as interpretações são muito distintas, quase particulares.

O professor Moises Monteiro de Melo Neto foi um dos primeiros autores, ainda nos anos 2000, a dedicar um livro sobre o Movimento Mangue, na intenção de fornecer uma compreensão teórica sobre a cena e seu principal mentor, o Chico Science, figura carismática e uma das cabeças mais brilhantes que já nasceu nessas paragens. O valor daquela incursão foi grande, gerando uma dissertação de mestrado em Letras da UFPE, defendida em 2004, onde o tema foi mais que aprofundado. O que o leitor tem hoje em mãos são anos de investigação, de trabalho dedicados a compreender da melhor forma possível aquele movimento, um fenômeno cultural que levou a imprensa nacional e internacional a focar seus holofotes na cidade estuário do Recife.

Temas como “tradição” e “cultura popular”, entre muitos outros, são discutidos com maestria por Moisés, sem correr o risco de cair numa mera folclorização ou mesmo em fomentar antagonismo simplórios e batidos, como por exemplo, modernidade versus conservadorismo. De forma simples, o autor parte para desenvolver ideias instigantes que dialogam com autores da pós-modernidade, dos Estudos Culturais etc. A construção dos argumentos é bem ancorada não apenas nas pesquisas empreendidas pelo autor, mas também nos aportes teóricos, utilizando gente de peso, como Bhabha, Hall, Barthes, Octavio Paz, entre outros. Apesar da complexidade de alguns temas, a escrita de Moisés não se faz entendida apenas ao leitor versado nos jargões do mundo acadêmico. Pelo contrário, o leitor comum vai se deliciar com o que vai encontrar nessas páginas.

Ao leitor que começou esse livro pela leitura desse prefácio, faço questão de ressaltar que a escrita de Moisés Monteiro de Melo Neto é extremamente versátil, misturando com maestria análise acadêmica profícua, fruto de extensa pesquisa e reflexão teórica, com aquele gostinho de crônica domingueira, que encontrávamos nos bons jornais de outrora, quando a leitura era feita com leveza e prazer. Mas não é só isso, como toda boa obra literária, o texto cresce, fica denso, nervoso, como se o leitor estivesse participando diretamente dos embates que se travaram na legitimação daquele tipo de arte que era produzido ali no Recife dos anos 90. Por fim, espero que esse livro seja tão estimulante quanto foi para mim. Ler o livro de Moisés Neto me fez voltar no tempo, de quando frequentava as festas, discotecagem e show na Soparia, na Oficina Mecânica, no Pina de Copacabana, no Abril pro Rock e muitos outros “lugares de memória”, das minhas memórias e de toda uma geração que viveu e se criou ao som do que se produziu na Manguetown. O que se viveu naqueles anos foi de fato uma experiência única.

Bruno Augusto Dornelas Câmara*

Garanhuns, 25 de abril de 2021.

* Professor adjunto do Curso de Licenciatura em História da Universidade de Pernambuco – UPE, Campus Garanhuns, e docente permanente do Programa de Mestrado Profissional em Culturas Africanas, da Diáspora, e dos Povos Indígenas – PROCADI, docente colaborador no Programa de Pós-Graduação em História – UFPE.

 

 

 

 

sábado, 1 de maio de 2021

Ali Se Maravilha No País Virtual , por Moisés Monteiro de Melo Neto

 


“... e seria assim até o fim do mundo, rodando, rodando e rodando. Um cara enorme, assim, o velho Deus em pessoa (por cortesia do Leite-Bar Korova) girando e girando uma laranja cheirosa e estranha nas suas mãos gigantescas. [...] E tudo que foi, foi que eu era jovem [...] mas pra onde estou indo agora, é segredo, vocês não podem ir. Amanhã é tudo assim: meigas flores e terra perfumada que roda e as estrelas e a velha lua lá em cima. O resto que se dane. Mas vós, oh meus irmãos, lembrem-se de mim de vez em quando, como eu era. Amém e essa coisa toda...”. (Anthony Burgess in Clockwork Orange, A Laranja Mecânica)





O Baile dos Artistas de 99 também prestou sua homenagem, através do manguebit artista plástico Evêncio Vasconcelos, velho parceiro do Science. A jornalista Fabiana Freire escreveu no Jornal do Commercio de 29 de janeiro de 1999: “Na versão do escritor britânico Lewis Carroll, ao entrar no espelho, Alice percebe o reverso do mundo. Ao utilizar o mote, para conceber a decoração do XXI Baile dos Artistas do Recife, a prévia do Carnaval pernambucano que será realizada hoje no Sport Club do Recife, o artista plástico Evêncio Vasconcelos substitui o mundo ao avesso por Pernambuco. Ou dito de outra forma: ao entrar no espelho, Alice aporta em Pernambuco e montada num bumba-meu-boi. Numa imagem, a marca da modernidade ou da pós-modernidade, defenderiam alguns”.






 

Foram alguns artesãos de Bezerros, a partir dos desenhos de Evêncio, que construíram Alice e o boi, as máscaras (três gigantes e dezenas de médio porte) e as cartas de baralho. Todos os objetos foram construídos com papel machê e estrutura metálica.

 

“As peças vão estar suspensas no teto ou dispostas em pontos estratégicos”, disse Evêncio. Segundo ele, o que se pretendia era criar um ambiente lúdico, em clima de conto de fadas. Mesmo antes de Lewis Carroll e sua ficção entrarem nessa história, os organizadores do Baile dos Artistas já eram fãs de carteirinha do duplo sentido. Ali Se Maravilha No País Virtual foi o nome do Baile. O avental de Alice a voar sugeria que ela estivesse surfando. Em vez de prancha, um bumba-meu-boi mágico pernambucano a conduzia até a Manguiceia inclemente e antenável a qualquer onda.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Por que escrevo?

George Orwell, autor de 1984 e Revolução dos Bichos responde que são 4 os os combustíveis da escrita, segundo ele são: puro egoísmo, entusiasmo estético, impulso histórico e propósito político

segunda-feira, 22 de março de 2021

PALESTRA "TEATRO E SOCIEDADE", dirigida aos alunos da EAD, UPE, 19 de março de 2021

 


Da antiguidade clássica aos dias de hoje: a representação da sociedade nas artes cênicas, gerando reflexões, diversão e compromisso com o processo educativo.

quinta-feira, 18 de março de 2021

MAIS UM POEMA DA PANDEMIA PÓS-19

                                                                         ...por  Moisés Monteiro de Melo Neto


ISSO VAI PASSAR...TODOS ESCREVIFALAM PANDEMIA: ARTE DE TREINAR SER  NOVA VIDA DIVIDIDA. DOENÇA-PADRÃO. Bem aqui EQUIDISTANTE NÃO POR FALTA DE FÉ, pois LÁ NO FIM JÁ ESTAVA o NOVO ÉDEN, HARPAS DE SIÃO, JARDIM DE ALÁ ALÉM ZEN. POR ENQUANTO POSSO ESCRELERTODOS numa só: cor classe gêneros? No. Rimas e remos, seremos. Shiva, Diva, privativa assistência: trilhões de dólares em XEQUE Mate Leão gelado com mel e limão. Sem tempo para roxos funerais;  PRA QUE ESTAS COVAS abertas, vovó? Pra te comer virgem, ainda ou quem for mais degastadx entre TODXS, ainda. Do samba´n´roll, do passinho, chula, xaxado cangaço ao som da balalaika mais próxima, no terreiro de Sabá. Não esquecer que o vírus não impedirá o FLORESCER DAS CEREJEIRAS, logo mais, aqui no Ibura-Japão de todos nós. E os que vivem no amanhã mandam lembranças para os dinossauros que (re)nasceram no segundo milênio! E para os mais novinhos deste século high tech? Ah! Muitos gigas! GRATO A QUEM ESTÁ TRABALHANDO NA SAÚDE, SEGURANÇA, MERCADOS, DELIVERY, PORTEIROS, ZELADORES. E AOS QUE TRABALHAM EM CASA. Grato ao sagrado, também! HOC SIGNO VINCES!



ENQUANTO ISSO...PELA JANELA DO MEU APARTAMENTO...


 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

NELSON RODRIGUES: ONTEM, HOJE, SEMPRE por Moisés Monteiro de Melo Neto

 


                      por Moisés Monteiro de Melo Neto*[i]

 

Que fazemos nós desde que nascemos, senão teatro, autêntico, válido, incoercível teatro?

A ficção para ser purificadora tem que ser atroz. O personagem é vil para que não sejamos...             

                                                   ( frase lapidares de Nelson Rodrigues)


1.       Características de Nelson: Em Nelson, é a partir da tragicidade e do mergulho no inconsciente (onde estariam os rejeitos do consciente) que o desespero, o êxtase, o retorno do recalcado fazem a negociação intensa entre real, simbólico e imaginário (ou o poético). A linguagem é usada para livrar os personagens do sentimento de culpa. O inconsciente coletivo seria a camada mais profunda da psique: um material herdado da humanidade, nele todos os humanos são iguais. Nelson busca essa raiz comum, dentre outras coisas e o faz de maneira um tanto quanto cínica e exagerada na expressão. Está atento ao perigo do homem se ligar ao papel (persona) e se esquecer de si. Mas o registro aqui vai além dos clichês freudo-marxistas e os põe em xeque. O choque de ricos / granfinos com pobres é também transgressão. Há que se estilhaçar esse painel rodriguiano e reorganizá-lo acentuando o que há de comédia, não de cômico, em Nelson, afastando-se do naturalismo, mas partindo da constituição realista.

2.       O TEATRO E O ROMANCE: Gosto de O casamento, um romance lançado em 1966, censurado, como tantas obras deste recifense, considero-o uma das melhores produções do autor. Temos mais uma vez, como acontece nas peças um mergulho psicanalítico, ao modo dele, nas personagens. As técnicas utilizadas continuam as mesmas e os personagens continuam sufocados em busca de exercer sua liberdade a qualquer custo. Quando Nelson escreve peças de teatro vemos muitas rubricas, é como se ele quisesse dirigi-las, também. Já nas suas narrativas a construção do narrador facilita isso. Temos o autor mexendo todos os fios do enredo. Ele é áspero e ao mesmo tempo sedutor na sua técnica narrativa. Sempre leva muito da concisão jornalística. para compor o espaço de suas produções. Um  Freud popular a tratar de certos arquétipos, aí o inconsciente e subconsciente dos personagens são descritos de forma ainda mais, grosso modo, íntima e quando as convenções sociais vão sendo desconstruídas por ele, vêm à tona instintos terríveis. São parágrafos de tirar o fôlego e não precisamos de atores. Nelson é personagem, ator e diretor em tais casos, além de sonoplasta iluminador, tudo.  Nelson é um narrador tão bom quanto criador de cenas para teatro.

3.       A FAMÍLIA EM NELSON:  em Álbum de Família, Os sete gatinhos, Toda Nudez será castigada e outras peças o que vemos é algo aterrador, ácido de uma sordidez visceral. Discuti muito isso com o diretor Antunes Filho. Para Antunes esse viés de  Nelson Rodrigues é algo similar a um desafio cósmico: desdobrar a totalidade da existência, dessa instituição (família) e de tantas outras; ele observa a sociedade  no seu todo desdobrado em si numa estranha relação com a “realidade”. Nelson oferece uma catalisação em textos  onde cada parte, estilhaça o contexto do todo, recompondo-o em superposições alucinantes. Isto é, cada acontecimento cruza o outro, em simultaneidade (tão presente na vida), em ritmo frenético. A mãe erotizada, a tia virgem, o pai adúltero e pervertido, os jovens depravados, a entrega explosiva na reunião familiar, os preconceitos explícitos e implícitos, tudo isso a girar num frenesi extasiante.

4.       O RETRATO DA CONDIÇÃO HUMANA: NELSON faz nossos sentidos ficarem ligados em várias coisas, simultaneamente. Fazer o tempo comprimir-se ao ponto de explodir. Dá sua versão da condição humana através de um barroquismo típico de parte da sua escrita de ficção. É um texto de sentido dialético  levado ao extremo e a verdade dramática, as formas estéticas, tempo, espaço e ação não se dobram a disposição de análises sociológicas ou psicológicas. Nele, o castigo pela nudez é também imagem caleidoscópica sempre aberta a um novo giro, novo desenho, oferecendo múltipla percepção e estabelecendo insólitas relações.

5.       NELSON NO DIÁLOGO COM O SEU TEMPO E COM O NOSSO: “Quando com dificuldade não conseguimos entender ou ver claramente um acontecimento, seja em lugar público ou num espetáculo teatral, a nossa imaginação vem sempre nos socorrer preenchendo os vazios”, me ensinou  Antunes Filho. Através de cenas articuladas de tal modo, que gestos e olhares, efeitos plásticos e sonoros, o texto rodriguiano é ao mesmo tempo retrato da sua época e sinal atemporal da nossa catastrófica sociedade. Nelson nos a uma  percepção aguda, que não quer se alienar e que se mantém longe do convencional, em linguagem própria e dinâmica. Nelson visto ou lido no nesta década de 20 do século XXI parece uma visita ao Hades, sem possíveis Eurídices a resgatar, Ele ainda nos olha pelo buraco da fechadura do mundo dos mortos. O anjo pornográfico ainda paira sobre nós. Não é a poderosa música de Orfeu, é literatura esfuziante. O Brasil de ontem e o de hoje passam pelo crivo do seu anátema de escritor viril.

6.       O TEATRO “DESAGRADÁVEL DE NELSON”:  onde o ator é um servidor do poeta, sendo ele mesmo um poeta, um criador. É bom não esquecer que Nelson é também essa expressão brasileira, não através de filtros intelectuais ou conceitos generalizantes, mas de um farto material humano que é oferecido para a criação do ator.

7.       COMO NELSON DEVE SER LIDO / VISTO ATUALMENTE? E você? Nunca pisou num rendez-vous? É um habitué? Conhece o método do nosso regisseur?  Leu os registros anteriores? Sabe onde está se metendo? Tem conhecimento de causa? Acredita em anjo pornográfico? Nelson Rodrigues expõe sua arte sarcástica, pura e perversa demais. Ele desenha, pinta, arquiteta meticulosamente: mostra a prostitua da peça TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA: nem santa nem dominatrix, Geni é claro enigma do bordel Brasil. à sala da família. Ela é noiva, esposa, morta rediviva, muito além de Eros e Tânatos. Da cornucópia verbal do autor ainda estão intactos o sarcasmo e o humor. Nelson escrevia escutando ópera, seu método abarca tudo, suas dezessete peças ecoam tragédias para rir, são textos escandalosamente líricos. Este autor exibe de maneira primorosa seu implacável senso crítico na sua crítica ao cretino fundamental, aos imbecis que tentavam arruiná-lo. Pressinto dentro da mente oceânica de Nelson, um Pierrô de antigos carnavais, cheio de fúria, frustração, insatisfação ao constatar sempre que todos nós somos cruéis e ferimos, que o brasileiro é um cafajeste em seu complexo de vira-lata, no seu empate pior do que a derrota.  Os personagens de Toda Nudez...detonam frases como “o ser humano é louco” (o maquiavélico Patrício), “eu mesma não me entendo”, “vou me entregar a qualquer um, na primeira esquina”, “beije meus sapatos, como eu beijei os teus”, “não quero nada senão um prato de comida e um canto para dormir” (a suicida Geni), “pederasta, eu matava”, “o menino serviu de mulher [...] o guarda viu, mas não fez nada” (a tia solteirona), “o sujeito mais degradado tem a salvação dentro de si, lá dentro” (o médico). Em seu folhetinesco mundanismo vermelho-sangue dito reacionário Nelson explorou os limites da virtude e do maniqueísmo em ritmo frenético, compulsivo, desconstruindo o senso comum. O câncer no seio que matou a falecida esposa de Herculano é o mesmo da praga rogada pela mãe de Geni à filha.

 

Para salvar a plateia, Rodrigues encheu o palco com seus “monstros”, quis forçar ao seu público um “pavoroso fluxo de consciência”. Suas frases curtas, o jeito malcriado de escrever, seu conhecimento das condições do gênero teatral. O bom teatro sacode o público, não teme o grotesco e questiona conceitos, afinal o homem só se salva se reconhecer sua própria hediondez, não é? O teatro é também uma espécie de expurgo, acerto de contas do ser humano com sua história, com todos os homens, com a vida e Nelson o faz de modo cético, sombrio e até... romântico.  Sábato Magaldi enquadrou Toda nudez... como uma tragédia carioca, mas o que temos aqui, com essa montagem do CPT, é a voz de todos os homens e mulheres de todos os tempos e lugares.

Pausa.

Grito.

Rompe-se o limite entre lua de mel e separação final dos amantes.

Como anda sua nudez? Você pensa que sabe de tudo? Você não sabe de nada!


Moisés Monteiro de Melo Neto, professor da UNEAL, ao lado do já saudoso diretor paulista  Antunes Filho, que tão bem encenou o dramaturgo recifense Nelson Rodrigues.






 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

 

 Literatura de Viagem e Teoria do Conto

                                                                                        Moisés Monteiro de Melo Neto




 

             Comecei 2020, em Tanger, Marrocos, noroeste da África, às margens de um estreito que une o Atlântico ao Mediterrâneo e separa o país da Espanha (a alguns minutos de barco que utilizei algumas vezes). Ela foi cenário para muitos filmes como os de James Bond, Risco Imediato e Spectre. Fica a 14 km em linha reta da península Ibérica, palco de várias civilizações e culturas desde o século V a.C., fenícios, cartagineses, romanos (vi as ruínas) desde os berberes Foi disputada por vários reinos muçulmanos e cristãos. Hoje com um milhão e meio de habitantes é uma cidade cosmopolita do reino de Maomé VI, lugar multicultural. Passei o réveillon na boate do Hilton Garden, convidado por um engenheiro marroquino que conheci em Tarifa, comunidade autônoma da Andaluzia, dias antes. Dancei até de madrugada e bebi. Voltei no frio pelo calçadão à beira-mar, Estreito de Gibraltar, até a Medina, a cidade antiga, com suas ruas apertadas, sinuosas, deslumbrantes, onde estava hospedado. Entrei no meu quarto e fiquei a imaginar mil e uma coisas. Olhei-me no espelho: eu exalava vapores de amor químico, como se aquele momento significasse outra vida para mim, que me encontrava meio sem sonhos. Queria dar um tempo de tantas viagens na minha vida, mas o amor à estrada me impediu. No Brasil não havia mais “lar” para mim?  Hit the road, Jack! E eis-me no amanhecer do primeiro dia de 2020, meu olhar estrangeiro emergindo do meu oceano mental, como se fosse um submarino bêbado. Acordei no final da manhã. Deixei-me envolver pelo vento e senti que tudo era o que era, tautológico assim, como num alvorecer na minha mente de homem descasado, mas em mim havia muito mais do que sonhos. Saí do hotel sentindo-me renovado. Fui até um restaurante, lá embaixo.

     Chegando ali, sentei pensativo: assim é o mundo, uma fila que anda. Tudo muda, afinal. senti por Tanger uma irresistível atração, a sensação de que era um personagem de um romance cujo autor ao morrer, deixou inacabado em meio aos cacos de amor. Lembrei dos meus autores beatniks que escreveram sobre Tanger, tiraram fotos aqui: Kerouac, Ginsberg, Tennessee Williams, Bowles, Genet e pintores como Delacroix e Matisse que a retrataram. Enquanto o primeiro dia do ano avançava. Pedi um copo de chá de menta, olhando para o mar. 2020! Pensar no Brasil, lembrança longe, de brilho estranho e ilógico, me fez sorrir, embora estivesse à beira das lágrimas. Entrei numa espécie de transe. Pelos vidros observei as gaivotas que disputavam restos de comidas na beira da praia. Dois dias antes eu fora visitar o abandonado desde os anos 60, Gran Teatro Cervantes, aberto em 1913, estilo art nouveau, onde se apresentaram Caruso e atores de todo o mundo antes de se converter em cinema e até palco de luta livre. Olhá-lo só ruínas, numa visita clandestina, guiada pelo zelador, me entristeceu: parecia o Titanic no fundo do mar. Pensei na arte toda que assimilei e que fazia parte de mim, ali, naquela cidade litorânea cheia de história milenares, distante da minha prática diária de professor universitário, pesquisador e escritor. Uma adorável sensação estranha tomou conta de mim. A tarde ia se derretendo e a noite se anunciava quando o jovem garçom árabe se aproximou perguntando se eu queria algo mais. Misturando inglês, francês e espanhol, pedi um filé de salmão, cuscuz e figos frescos com calda. Ele anotou, sorriu e saiu. Eu buscava examinar naquele país as camadas de arqueologia dos que estiveram ali e daquele ponto, como no conto O Aleph, do argentino Jorge Luis Borges, viram o mundo. Sentindo-me um imperfeito estrangeiro, olhei no phone os meus olhos cor de chocolate. Reli o trecho final de O céu que nos Protege, ao celular, naquela semana eu iria ao Museu da Legação Americana, que também fica na Medina, antigo consulado em estilo mouro de 1821, pesquisar o acervo de Paul Bowles, autor que estudo. Depois, escutei algumas canções favoritas enquanto a noite estrelada e fria engolfava tudo lá fora, envolvendo-me numa proustiana sensação da busca do tempo perdido, como se eu extraísse minhas memórias de um compartimento secreto. De repente senti-me meio assim: fora do eixo, melancólico, mas equilibrei-me com humor, o mesmo acontecera na caverna de Hércules, no Cabo Esparte, no da anterior. Coisa de escritor, combinar palavras, desejá-las numa bravata da linguagem; como minha escrita meio poesia cinematográfica, humor ácido, mas um olho na tradição outro na vanguarda. O ar frio soprou vindo do mar. Comi e saí a andar pela Avenida à beira-mar. A atração gravitacional dos lugares que visito é que me chama, me atrai.  Não consigo resistir.



              De volta ao hotel a pensar que há pelo menos dois dentro de mim: um anda pela vida, outro pela literatura. Ainda na Avenida, parei. O céu parecia faiscar. Voltei ao meu quarto e liguei o notebook para revisar um texto meu que me intimaram a publicar, logo. Era sobre a Bioficção e deveria discutir também a Teoria do Conto. Eu não gostava do que tinha escrito, resolvi melhorar um pouco aquilo. Eis o material a trabalhar, começava assim:

            Chorei muito durante a viagem noturna, saindo do Recife.  Nos cochilos encontrava sobre a terra, e no fundo do mar, um tempo oceânico, uma luz, insubserviente, naquele verão dezembro se anunciava como um assobio, quente e salgado, num teatro de vozes sem rosto. Eu estava ali como quem foge, se entrega, luta, em gozo e dor, entre choques, indiferente exilado, desvendando problemas e soluções, espírito nada servil, num mundo cristalizado, na passagem das horas, sem ranços... pelos campos saqueados, solo vencido, natureza despedaçada ... espírito seco ... alma úmida ... sei lá ... vendo anjos na neblina da madrugada enorme ... dentro do ônibus interestadual. Tentando uma síntese de uma paradoxal limpidez mental. No verde, cinza, branco, pescando imagens pelas enormes janelas: árvore, flor na paisagem do dia amanhecendo como lâmina ligeira domando a vegetação sobrevivente; enquanto minha visão que velava o escuro, em compreensão sensível, intelectiva, jogava-me a alcances impossíveis, libertando as distâncias, seguindo, trafegando dentro do destino de uma nova manhã antiga, ia desconstruindo a estrada Sentia-me como quem vai desenrolando um fio dentro de um labirinto para não se perder. Sentindo-me como a sombra de uma nuvem correndo na estrada, sob a lua cheia. Olhei através da janela do ônibus. Tanta coisa ao longe: gente, bicho, mato. Eu, ali, naquela estrada de Alagoas, vindo do Recife, travessia, querendo dar às coisas não-sensatas, paixão e sentido, naquele novo alvorecer incerto da minha alma, manhã de novos perfumes, no tempo cósmico quase imóvel, cuja ilusão de movimento criamos no alheamento da paisagem passageira, como eu, no fim de madrugada veloz. Orei baixinho, por mim e pelos exilados deste mundo, nesta minha incursão, chuva com sol, viagem a trabalho, na Universidade. Estrada molhada, escrever-me num conto assim, híbrido, em livros, companheiros silenciosos de vida nos jardins do vento. Às vezes o ímpeto criador apossa-se de mim quase como um mal. Passo a vida olhando-a em dimensão universal e atemporal. O jogo dos homens? Brinquedo.

        Cheguei ao hotel e tentei dormir, após o café da manhã. Despertei depois de um sono inquieto e peguei um táxi para a Universidade. Entrei na sala de aula. Estava cansado. Há quantos anos ensinando? Quase três décadas. Uau! E agora solteiro... novamente: acabado um casamento que pensava seria para sempre. A disciplina era Teoria da Literatura. Havia apenas 13 pessoas na sala, uma delas, a monitora, gravaria a aula e me enviaria depois. Eu estava com a visão turva de sono. Não conseguira dormir direito no hotel São Bernardo. A aula era sobre a estrutura do conto: vamos lá: um só conflito, uma só ação. Bobagem, nem sempre era assim, pensei. Mas tinha que sustentar algo científico. Literatura era mistério profundo transformado em objeto lógico (pudesse ser o mais inusitado) por uma linguagem técnica. O conto: a narrativa deveria ser curta. Poucas personagens, presas às unidades de ação, tempo e lugar. Vejam Aristóteles, com sua velha épica, trágica Grécia que resultou em tanta África transposta para essa América em texto que a língua que roçava em tanta mistura. Segui: por consequência das unidades que governam a estrutura do conto, as personagens tendem a ser lineares. Por que disse isso? Prossegui: o conto expõe o personagem no clímax da sua existência cristalizado no tempo, espaço, personalidade, num viés particular do seu... caráter, como numa foto em que se fixasse o ponto onde não houvesse retorno numa situação humana, desumana, trans-humana. A estrutura deve ser bem objetiva, horizontal e de preferência narrado em terceira pessoa. Evitar-se-ia certo introspectivismo em nome de uma realidade viva Aí falei do microconto em Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Marcelino Freire. (autor que,  falando comigo, aconselhou “nunca escreva ‘respirou fundo’). Aí analisei a estrutura de “Os dentes de Berenice”, de Edgar Allan Poe, algo de “Os dublinenses”, de James Joyce e provoquei a turma insistindo numa diegese que fosse buscar o presente, o concreto, onde as divagações deveriam ser evitadas. Short story. E os limites com a novela? E O alienista de Machado de Assis? Poucas palavras: suficientes e necessárias, convergindo para o mesmo alvo. O dado imaginativo superposto ao dado observado. A imaginação, necessariamente presente, é que vai conferir à obra o caráter estético. Nunca entregar-se ao vago. Buscar a realidade concreta, se for o caso de realismo: a mimese, evitando abstrações desnecessárias trazidas pelo uso do rebuscamento. Contrário a isso temos Clarice Lispector, por exemplo. Devemos evitar armadilhas nas entrelinhas, segundas intenções, mas no primeiro caso, os fatos devem triunfar: ação antes da intenção. Agora vamos ao diálogo. Este é o elemento mais importante num conto. Para algo que se queira convencional, isto estaria em primeiro lugar; conflitos e dramas residem no diálogo, não no resto, nele residiria a discórdia, sem isso, não há conflito, ação. Palavras são signos e o diálogo é a base expressiva do conto: diálogo direto, indireto e interior, enfim. Que predomine o diálogo direto que permita uma comunicação imediata entre o leitor e a narrativa, pois o diálogo indireto em excesso, induz à falha; já o diálogo interior é expediente formal, complexo, difícil. A narração deve aparecer em quantidade reduzida, proporcional ao diálogo, ela é mais fácil que o trabalho coerente com o diálogo. Cuidado com o desenho acabado das coisas. O conto não é um retrato completo das personagens, é apenas conflito. A descrição ocupa lugar modesto, pois o diálogo, às vezes, dispensa cenário. O drama está nas pessoas e não nas coisas. Lembro-me aqui de certos contos que desdizem tudo isso e rompem com todas as regras que acham arcaicas. Vejamos como trabalhar o tempo no conto: no cronológico o leitor vê os fatos se sucederem numa continuidade semelhante à vida real. O conto, ao começar, já está próximo do fim. A precipitação domina o conto desde a primeira linha. No conto, a ação caminha claramente à frente. Todavia, como na vida real, que pretende espelhar, de um momento para o outro deflagra o estopim e o drama explode imprevistamente. A grande força do conto está no jogo narrativo para prender o interesse do leitor até fim, eis o enigma. Um final enigmático deve surpreender o leitor, deixar um convite à meditação ou deixá-lo pasmo perante a nova situação conhecida, ou com o rancor do estranhamento. O enigma pode diluir-se no decorrer do conto. Neste caso ele se aproxima da crônica ou corresponde a episódio de romance. O contista deve estar preocupado com o começo, pois das primeiras linhas depende o resto; não tempo para delongas: vá ao âmago da história. O início é a grande escolha. O contista deve saber como começar. A posição do leitor diante do conto é de quem deseja, às pressas, o antídoto para o tédio, o desenfado e, quem sabe? Certo deslumbramento perante o talento que coloca em reduzidas páginas tanta humanidade em chamas. O contista deveria sacrificar tudo quanto possa perturbar a ideia de completude e unidade. Mas o que dizer, diante disso, sobre uma contista como Agatha Christie? Nesse momento eu, paralelamente ao raciocínio sobre a aula, pensava em como resolver meu caso particular. Precisava concluir aquela exposição, quase mecânica. Eu estava muito cansado, queria voltar para o hotel, logo, mas sentia muito prazer em estar ali.

          A aluna enviara o áudio daquela aula e sua transcrição, como solicitei. Meu Deus, eu tinha que rever aquilo, depois. Adormeci sem saber a hora, cortinas fechadas eu ali, no centro de tantas ideias, em Tanger. Despertei. Comi uma fruta. Saí novamente, meio sonâmbulo. Veio a necessidade de ter contato mais íntimo com alguém igual a mim nas suas óbvias diferenças. No meu pensamento a pergunta inexprimível: o que fazer com os meus textos inacabados? Pondo um fim à confusão e ignorando quaisquer dúvidas, eu seguia com soluções práticas sobre a minha existência. Afinal, chega de aflições mundanas! O vento soprou o cheiro de mar e das plantas molhadas. No meu coração transparente alguém poderia ver a ebulição de minhas veias, o meu sangue? Nos momentos de medo sinto uma adaga invisível na minha mão direita e minha guarda pessoal fica pronta para o bom combate. Passou um bando de jovens, em erupção espontânea, barulhentos, uma garota me desejou feliz ano novo, em inglês. Desejei o mesmo. Sentei-me na semiescuridão numa mesa de canto de restaurante no calçadão, querendo ficar bêbado. Tive ideias sobre o texto que estava revisando e anotei no phone. Em poucos dias eu partiria para Lisboa, para o encontro com um romancista amigo meu, seriam dias bons. Se subi as ruas da cidade velha, cheguei ao bar do Cinema RIF, onde também está a Cinemateca, um dos meus lugares favoritos em Tanger. Pedi um sanduíche marroquino e uma cerveja Casablanca, minha favorita, no local. Bati um papo com um poeta local que foi caseiro do Rolling Stone Mick Jagger, que amava aquela cidade. E eu a divagar: o tempo transita, o futuro vem e vai na história do humano, cheio de injustiças dilacerantes e amor. Olhei para aquele escritor. O que sabemos nós uns sobre os outros, “de verdade? Seria a construção humana como um filme sem clímax nem desenlace? O tempo dá um jeito de continuar passando e diante de certas coisas novas que não se querem alterar, costumo rir de tal descompasso quando tentam conter o que não pode ser contido. O brilho da vida sempre está para acontecer. Quanto aos amanhãs: vamos lá, foco!  Ensinemos fraternidade às crianças do futuro! A vida continua e o conto acaba.