Publicada na revista O Cruzeiro, 16 de abril de 1878.
Um dos bons e vivazes talentos da atual geração portuguesa, o Sr. Eça de
Queirós, acaba de publicar o seu segundo romance, O Primo Basílio. O primeiro,
O Crime do Padre Amaro, não foi decerto a sua estréia literária. De ambos os
lados do Atlântico, apreciávamos há muito o estilo vigoroso e brilhante do
colaborador do Sr. Ramalho Ortigão, naquelas agudas Farpas, em que aliás os
dois notáveis escritores formaram um só. Foi a estréia no romance, e tão
ruidosa estréia, que a crítica e o público, de mãos dadas, puseram desde logo o
nome do autor na primeira galeria dos contemporâneos. Estava obrigado a
prosseguir na carreira encetada; digamos melhor, a colher a palma do triunfo.
Que é, e completo e incontestável.
Mas esse triunfo é somente devido ao trabalho real do autor? O Crime do Padre
Amaro revelou desde logo as tendências literárias do Sr. Eça de Queirós e a
escola a que abertamente se filiava. O Sr. Eça de Queirós é um fiel e aspérrimo
discípulo do realismo propagado pelo autor do Assommoir. Se fora simples
copista, o dever da crítica era deixá-lo, sem defesa, nas mãos do entusiasmo
cego, que acabaria por matá-lo; mas é homem de talento, transpôs ainda há pouco
as portas da oficina literária; e eu, que lhe não nego a minha admiração, tomo
a peito dizer-lhe francamente o que penso, já da obra em si, já das doutrinas e
práticas, cujo iniciador é, na pátria de Alexandre Herculano e no idioma de Gonçalves
Dias.
Que o sr. Eça de Queirós é discípulo do autor do Assommoir, ninguém há que o
não conheça. O próprio Crime do Padre Amaro é imitação do romance de Zola, La
Faute de l’Abbé Mouret. Situação análoga, iguais tendências; diferença do meio;
diferença do desenlace; idêntico estilo; algumas reminiscências, como no
capítulo da missa, e outras; enfim, o mesmo título. Quem os leu a ambos, não
contestou decerto a originalidade do Sr. Eça de Queirós, porque ele a tinha, e
tem, e a manifesta de modo afirmativo; creio até que essa mesma originalidade
deu motivo ao maior defeito na concepção do Crime do Padre Amaro. O Sr. Eça dc
Queirós alterou naturalmente as circunstâncias que rodeavam o padre Mouret,
administrador espiritual de uma paróquia rústica, flanqueado de um padre
austero e ríspido; o padre Amaro vive numa cidade de província, no meio de
mulheres, ao lado de outros que do sacerdócio só têm a batina e as propinas;
vê-os concupiscentes e maritalmente estabelecidos, sem perderem um só átomo de
influência e consideração. Sendo assim, não se compreende o terror do padre
Amaro, no dia em que do seu erro lhe nasce um filho, e muito menos se
compreende que o mate. Das duas forças que lutam na alma do padre Amaro, uma é
real e efetiva - o sentimento da paternidade; a outra é quimérica e impossível
- o terror da opinião, que ele tem visto tolerante e cúmplice no desvio dos
seus confrades; e não obstante, é esta a força que triunfa. Haverá aí alguma
verdade moral?
Ora bem, compreende-se a ruidosa aceitação do Crime do Padre Amaro. Era
realismo implacável, conseqüente, lógico, levado à puerilidade e à obscuridade.
Víamos aparecer na nossa língua um realista sem rebuço, sem atenuações, sem
melindres, resoluto a vibrar o camartelo no mármore da outra escola, que aos
olhos do Sr. Eça de Queirós parecia uma simples ruína, unia tradição acabada.
Não se conhecia no nosso idioma aquela reprodução fotográfica e servil das
coisas mínimas e ignóbeis. Pela primeira vez, aparecia um livro em que o escuso
e o - digamos o próprio termo, pois tratamos de repelir a doutrina, não o
talento, e menos o homem, - em que o escuso e o torpe eram tratados com um
carinho minucioso e relacionados com uma exação de inventário. A gente de gosto
leu com prazer alguns quadros, excelentemente acabados, em que o Sr. Eça de
Queirós esquecia por minutos as preocupações da escola; e, ainda nos quadros
que lhe destoavam, achou mais de um rasgo feliz, mais de uma expressão
verdadeira a maioria, porém, atirou-se ao inventário. Pois que havia de fazer a
maioria, senão admirar a fidelidade de um autor, que não esquece nada, e não
oculta nada? Porque a nova poética é isto, e só chegará à perfeição no dia em
que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou
um esfregão de cozinha. Quanto à ação em si, e os episódios que a esmaltam,
foram um dos atrativos do Crime do Padre Amaro, e o maior deles; tinham o
mérito do pomo defeso. E tudo isso, saindo das mãos de um homem de talento,
produziu o sucesso da obra.
Certo da vitória, o Sr. Eça de Queirós reincidiu no gênero, e trouxe-nos o
Primo Basílio, cujo êxito é evidentemente maior que o do primeiro romance, sem
que, aliás, a ação seja mais intensa, mais interessante ou vivaz, nem mais
perfeito o estilo. A que atribuir a maior aceitação deste livro? Ao próprio
fato da reincidência, e, outrossim, ao requinte de certos lances, que não
destoaram do paladar público. Talvez o autor se enganou em um ponto. Uma das
passagens que maior impressão fizeram, no Crime do Padre Amaro, foi a palavra de
calculado cinismo, dita pelo herói. O herói do Primo Basílio remata o livro com
um dito análogo; e, se no primeiro romance é ele característico e novo, no
segundo é já rebuscado, tem um ar de clichê; enfastia. Excluído esse lugar, a
reprodução dos lances e do estilo é feita com o artifício necessário, para lhes
dar novo aspecto e igual impressão.
Vejamos o que é o Primo Basílio e comecemos por uma palavra que há nele. Um dos
personagens, Sebastião, conta a outro o caso de Basílio, que, tendo namorado
Luísa em solteira, estivera para casar com ela; mas falindo o pai, veio para o
Brasil, donde escreveu desfazendo o casamento. - Mas é a Eugênia Grandet!
exclama o outro. O Sr. Eça de Queirós incumbiu-se de nos dar o fio da sua
concepção. Disse talvez consigo: - Balzac separa os dois primos, depois de um
beijo (aliás, o mais casto ios beijos). Carlos vai para a América; a outra
fica, e fica solteira. Se a casássemos com outro, qual seria o resultado do
encontro dos dois na Europa? - se tal foi a reflexão do autor, devo dizer,
desde já, que de nenhum modo plagiou os personagens de Balzac. A Eugênia deste,
a provinciana singela e boa, cujo corpo, aliás robusto, encerra uma alma
apaixonada e sublime, nada tem com a Luísa do Sr. Eça de Queirós. Na Eugênia,
há uma personalidade acentuada, uma figura moral, que por isso mesmo nos
interessa e prende; a Luísa - força é dizê-lo - a Luísa é um caráter negativo,
e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral.
Repito, é um títere; não quero dizer que não tenha nervos e músculos; não tem
mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos ainda consciência.
Casada com Jorge, faz este uma viagem ao Alentejo, ficando ela sozinha em
Lisboa; aparece-lhe o primo Basílio, que a amou em solteira. Ela já o não ama;
quando leu a notícia da chegada dele, doze dias antes, ficou muito “admirada”;
depois foi cuidar dos coletes do marido. Agora, que o vê, começa por ficar
nervosa; ele lhe fala das viagens, do patriarca de Jerusalém, do papa, das luvas
de oito botões, de um rosário e dos namoros de outro tempo; diz-lhe que
estimara ter vindo justamente na ocasião de estar o marido ausente. Era uma
injúria: Luísa fez-se escarlate; mas à despedida dá-lhe a mão a beijar, dá-lhe
até a entender que o espera no dia seguinte. ele sai; Luísa sente-se
“afogueada, cansada”, vai despir-se diante de um espelho, “olhando-se muito,
gostando de se ver branca”. A tarde e a noite gasta-as a pensar ora no primo,
ora no marido. Tal é o intróito, de uma queda, que nenhuma razão moral explica,
nenhuma paixão, sublime ou subalterna, nenhum amor, nenhum despeito, nenhuma
perversão sequer. Luísa resvala no lodo, sem vontade, sem repulsa, sem
consciência; Basílio não faz mais do que empuxá-la, como matéria inerte, que é.
Uma vez rolada ao erro, como nenhuma flama espiritual a alenta, não acha ali a
saciedade das grandes paixões criminosas: rebolca-se simplesmente. Assim, essa
ligação de algumas semanas, que é o fato inicial e essencial da ação, não passa
de um incidente erótico, sem relevo, repugnante, vulgar. Que tem o leitor do
livro com essas duas criaturas sem ocupação nem sentimentos? Positivamente
nada.
E aqui chegamos ao defeito capital da concepção do Sr. Eça de Queirós. A
situação tende a acabar, porque o marido está prestes a voltar do Alentejo, e
Basílio começa a enfastiar-se, e, já por isso, já porque o instiga um
companheiro seu, não tardará a trasladar-se a Paris. Interveio, neste ponto,
uma criada. Juliana, o caráter mais completo e verdadeiro do livro; Juliana
está enfadada de servir; espreita um meio de enriquecer depressa; logra
apoderar-se de quatro cartas; é o triunfo, é a opulência. Um dia em que a ama
lhe ralha com aspereza, Juliana denuncia as armas que possui. Luísa resolve
fugir com o primo; prepara um saco de viagem, mete dentro alguns objetos, entre
eles um retrato do marido. Ignoro inteiramente a razão fisiológica ou
psicológica desta precaução de ternura conjugal: deve haver alguma; em todo
caso, não é aparente. Não se efetua a fuga, porque o primo rejeita essa
complicação; limita-se a oferecer o dinheiro para reaver as cartas, - dinheiro
que a prima recusa - despede-se e retira-se de Lisboa. Daí em diante o cordel
que move a alma inerte de Luísa passa das mãos de Basílio para as da criada.
Juliana, com a ameaça nas mãos, obtém de Luísa tudo, que lhe dê roupa, que lhe
troque a alcova, que lha forre de palhinha, que a dispense de trabalhar. Faz
mais: obriga-a a varrer, a engomar, a desempenhar outros misteres imundos. Um
dia Luísa não se contém; confia tudo a um amigo de casa, que ameaça a criada
com a polícia e a prisão, e obtém assim as fatais letras. Juliana sucumbe a um
aneurisma; Luísa, que já padecia com a longa ameaça e perpétua humilhação,
expira alguns dias depois.
Um leitor perspicaz terá já visto a incongruência da concepção do Sr. Eça de
Queirós, e a inanidade do caráter da heroína. Suponhamos que tais cartas não
eram descobertas, ou que Juliana não tinha a malícia de as procurar, ou enfim
que não havia semelhante fâmula em casa, nem outra da mesma índole. Estava
acabado o romance, porque o primo enfastiado seguiria para França, e Jorge
regressaria do Alentejo; os dois esposos voltavam à vida exterior. Para obviar
a esse inconveniente, o autor inventou a criada e o episódio das cartas, as
ameaças, as humilhações, as angústias e logo a doença, e a morte da heroína.
Como é que um espírito tão esclarecido, como o do autor, não viu que semelhante
concepção era a coisa menos congruente e interessante do mundo? Que temos nós
com essa luta intestina entre a ama e a criada, e em que nos pode interessar a
doença de uma e a morte de ambas? Cá fora, uma senhora que sucumbisse às
hostilidades de pessoa de seu serviço, em conseqüência de cartas extraviadas,
despertaria certamente grande interesse, e imensa curiosidade; e, ou a
condenássemos, ou lhe perdoássemos, era sempre um caso digno de lástima. No
livro é outra coisa, Para que Luísa me atraia e me prenda, é preciso que as
tribulações que a afligem venham dela mesma; seja uma rebelde ou uma
arrependida; tenha remorsos ou imprecações; mas, por Deus! dê-me a sua pessoa
moral. Gastar o aço da paciência a fazer tapar a boca de uma cobiça subalterna,
a substituí-la nos misteres ínfimos, a defendê-la dos ralhos do marido, é
cortar todo o vínculo moral entre ela e nós. Já nenhum há, quando Luísa adoece
e morre. Por quê? porque sabemos que a catástrofe é o resultado de uma
circunstância fortuita, e nada mais; e conseqüentemente por esta razão capital:
Luísa não tem remorsos tem medo.
Se o autor, visto que o Realismo também inculca vocação social e apostólica,
intentou dar no seu romance algum ensinamento ou demonstrar com ele alguma
tese, força é confessar que o não conseguiu, a menos de supor que a tese ou
ensinamento seja isto: - A boa escolha dos fâmulos é uma condição de paz no
adultério. A um escritor esclarecido e de boa fé, como o Sr. Eça de Queirós,
não seria lícito contestar que, por mais singular que pareça a conclusão, não
há outra no seu livro. Mas o autor poderia retorquir: - Não, não quis formular
nenhuma lição social ou moral; quis somente escrever uma hipótese; adoto o
realismo, porque é a verdadeira forma da arte e a única própria do nosso tempo
e adiantamento mental; mas não me proponho a lecionar ou curar; exerço a
patologia, não a terapêutica. A isso responderia eu com vantagem: - Se
escreveis uma hipótese dai-me a hipótese lógica, humana, verdadeira. Sabemos
todos que é aflitivo o espetáculo de uma grande dor física; e, não obstante, é
máxima corrente em arte, que semelhante espetáculo, no teatro, não comove a
ninguém; ali vale somente a dor moral. Ora bem; aplicai esta máxima ao vosso
realismo, e sobretudo proporcionai o efeito à causa, e não exijais a minha
comoção a troco de um equívoco.
E passemos agora ao mais grave, ao gravíssimo.
Parece que o Sr. Eça de Queirós quis dar-nos na heroína um produto da educação
frívola e da vida ociosa; não obstante, há aí traços que fazem supor, à
primeira vista, uma vocação sensual. A razão disso é a fatalidade das obras do
Sr. Eça de Queirós - ou, noutros termos, do seu realismo sem condescendência: é
a sensação física. Os exemplos acumulam-se de página a página; apontá-los,
seria reuni-los e agravar o que há neles desvendado e cru. Os que de boa fé
supõem defender o livro, dizendo que podia ser expurgado de algumas cenas, para
só ficar o pensamento moral ou social que o engendrou, esquecem ou não reparam
que isso é justamente a medula da composição. Há episódios mais crus do que
outros. Que importa eliminá-los? Não poderíamos eliminar o tom do livro. Ora, o
tom é o espetáculo dos ardores, exigências e perversões físicas. Quando o fato
lhe não parece bastante caracterizado com o termo próprio, o autor
acrescenta-lhe outro impróprio. De uma carvoeira, à porta da loja, diz ele que
apresentava a “gravidez bestial”. Bestial por quê? Naturalmente, porque o
adjetivo avoluma o substantivo e o autor não vê ali o sinal da maternidade
humana; vê um fenômeno animal, nada mais.
Com tais preocupações de escola, não admira que a pena do autor chegue ao
extremo de correr o reposteiro conjugal; que nos talhe as suas mulheres pelos
aspectos e trejeitos da concupiscência; que escreva reminiscências e alusões de
um erotismo, que Proudhon chamaria onissexual e onímodo; que no meio das
tribulações que assaltam a heroína, não lhe infunda no coração, em relação ao
esposo, as esperanças de um sentimento superior, mas somente os cálculos da
sensualidade e os “ímpetos de concubina”; que nos dê as cenas repugnantes do
Paraíso; que não esqueça sequer os desenhos torpes de um corredor de teatro.
Não admira; é fatal; tão fatal como a outra preocupação correlativa. Ruim
moléstia é o catarro; mas por que hão de padecer dela os personagens do Sr. Eça
de Queirós? No Crime do Padre Amaro há bastantes afetados de tal achaque; no
Primo Basílio fala-se apenas de um caso: um indivíduo que morreu de catarro na
bexiga. Em compensação há infinitos “jactos escuros de saliva”. Quanto à
preocupação constante do acessório, bastará citar as confidências de Sebastião
a Juliana, feitas casualmente à porta e dentro de uma confeitaria, para termos
ocasião de ver reproduzidos o mostrador e as suas pirâmides de doces, os
bancos, as mesas, um sujeito que lê um jornal e cospe a miúdo, o choque das
bolas de bilhar, uma rixa interior, e outro sujeito que sai a vociferar contra
o parceiro; bastará citar o longo jantar do conselheiro Acácio (transcrição do
personagem de Henri Monier); finalmente, o capítulo do Teatro de S. Carlos,
quase no fim do livro. Quando todo o interesse se concentra em casa de Luísa,
onde Sebastião trata de reaver as cartas subtraídas pela criada, descreve-nos o
autor uma noite inteira de espetáculos, a platéia, os camarotes, a cena, uma
altercação de espectadores.
Que os três quadros estão acabados com muita arte, sobretudo o primeiro, é
coisa que a crítica imparcial deve reconhecer; mas, por que avolumar tais
acessórios até o ponto de abafar o principal?
Talvez estes reparos sejam menos atendíveis, desde que o nosso ponto de vista é
diferente. O Sr. Eça de Queirós não quer ser realista mitigado, mas intenso e
completo; e daí vem que o tom carregado das tintas, que nos assusta, para ele é
simplesmente o tom próprio. Dado, porém, que a doutrina do Sr. Eça de Queirós
fosse verdadeira, ainda assim cumpria não acumular tanto as cores, nem acentuar
tanto as linhas; e quem o diz é o próprio chefe da escola, de quem li, há
pouco, e não sem pasmo, que o perigo do movimento realista é haver quem suponha
que o traço grosso é o traço exato. Digo isto no interesse do talento do Sr.
Eça de Queirós, não no da doutrina que lhe é adversa; porque a esta o que mais
importa é que o Sr. Eça de Queirós escreva outros livros como o Primo Basílio.
Se tal suceder; o Realismo na nossa língua será estrangulado no berço; e a arte
pura, apropriando-se do que ele contiver aproveitável (Porque o há; quando se
não despenha no excessivo, no tedioso, no obsceno, e até no ridículo), a arte
pura, digo eu, voltará a beber aquelas águas sadias do Monge de Cister, do Arco
de Sant’Ana e do Guarani.
A atual literatura portuguesa é assaz rica de força e talento para podermos
afiançar que este resultado será certo, e que a herança de Garrett se
transmitirá intata às mãos da geração vindoura.