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terça-feira, 8 de julho de 2014

A trilogia de Kiera Cass e Cidade do Fogo Celestial de Cassandra Clare: redundâncias e resiliências



por Moisés Neto


A velha fórmula de fazer um best seller continua funcionando no século XXI? Parece que sim. A experiência do primeiro amor, cujo portal principal é a descrição do  primeiro beijo ainda permeia certos romances que teem principalmente adolescentes como público-alvo. Explorar a fantasia é algo que quase sempre dá certo. É nessa configuração que podemos detectar a trilogia de Kiera Cass, cujo primeiro livro é A seleção. Como em Divergente, há também aqui um futuro onde depois de algumas guerras mundiais, persistem as dificuldades sociais e  a sociedade está em... castas, no seguinte esquema: a família dos nobres é a claro é #1, as mais destacadas #2, as #3, # 4, já os operários são as de #5, e os pobres são # 6.
A proposta é a seguinte: fazer com que as coisas comuns para todos nós surjam, sejam decalcadas, num universo diferente do nosso onde tudo pareça diferente, como em Jogos Vorazes, onde acontecem coisas que a gente entende e conhece, num mundo que é diferente do que a gente vive. As regras são diferentes, o jeito como as coisas funcionam, tudo parece diferente. Eis a questão: no fundo é a mesma ideologia do “quero minha felicidade a qualquer custo”, do tipo loteria etc.
Nos livros da Cass temos o seguinte enredo: toda vez que a “família real” for casar um dos seus herdeiros (o príncipe encantado!?), eles fazem um concurso com donzelas de todas as “castas” para escolher a nova... princesa numa espécie de reality show. Ela para aí no primeiro volume e no segundo, chamado sugestivamente de A elite, selecionaram 6 meninas, num total de 35. A personagem principal tem o “inocente” nome de... America, é tão doce que deveria ser proibida para diabéticos, ela pertence à  casta 5 dos artistas, mas o problema é que, para dar um nó, ela está apaixonada por um rapaz, Aspen, da casta 6 e..., pasmem, não quer ser princesa! Dá para ser mais redundante? Claro que sim: essa paixão dela pelo menino é...secreta, mas resolveu inscrever-se no tal concurso (seguindo o lema romântico: cuidado com o que você quer, pois você pode conseguir!), só para se divertir e agora tem fortes chances de ganhar. Mas que coisa, não?
 Já a série Instrumentos mortais está chegando ao fim com a publicação do sexto(!) e último livro  que é o famigerado Cidade do Fogo Celestial, o anterior foi Cidade das Almas Perdidas, lançado pela editora Galera Record . O mais recente traz assim a “grande batalha” entre Clary com o seu terrível irmão Sebastian, o quando ele já abandonou o corpo da personagem Jace.
Os dois aparecem na capa do livro de  Cassandra Clare explica a imagem: o bem e o mal, seguram armas tendo como pano de fundo um impressionante cenário:

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Pois é, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, mudam os meios mas a essência humana é a mesma, desde as cavernas até hoje, uma modificação genética ou outra, mas as redundâncias e resiliências que nos são peculiares continuam presentes, quase eternas. 

Vejamos as frases mais repetidas desses livros:

“Tudo o que ele queria era não ter medo, e então ele estava com medo o tempo todo.”



“- (…) Clary, desde a primeira vez em que a vi, pertenci completamente a você. E continuo pertencendo. Se você me quiser.”



“- Olhe pra mim - disse Jace. - Olhe pra mim e me diga que sou apenas um garoto de 17 anos comum.
Luke suspirou.
- Não há nada de comum em você.”



“O erro que eu fiz foi não dizer a você o que estava acontecendo comigo, não contar a você sobre meus sonhos.”


“— Você podia ter pedido qualquer coisa no mundo, e você pediu por mim.

Ela sorriu para ele. Imundo como ele estava, coberto com sangue e terra, ele era a coisa mais linda que ela tinha visto.
— Mas eu não quero mais nada no mundo.”


“Você não pode apagar tudo o que causou dor a você com suas lembranças.”




“Infelizmente, você nunca realmente odeia ninguém tanto quanto a alguém com quem já se importou um dia.”



“Cada memória era valiosa; mesmo as ruins.”



“Eu é que deveria estar sentado com você. Que deveria tê-la feito rir daquele jeito. Não conseguia me livrar daquela sensação. Deveria ter sido eu. E quanto mais a conhecia, mais sentia; nunca tinha me acontecido isso antes. Sempre que eu queria uma garota, depois que conhecia, não queria mais; mas com você a sensação só se fortalecia.”




segunda-feira, 7 de julho de 2014

O Primo Basílio de Eça de Queirós: Crítica de Machado de Assis


Publicada na revista O Cruzeiro, 16 de abril de 1878.


Um dos bons e vivazes talentos da atual geração portuguesa, o Sr. Eça de Queirós, acaba de publicar o seu segundo romance, O Primo Basílio. O primeiro, O Crime do Padre Amaro, não foi decerto a sua estréia literária. De ambos os lados do Atlântico, apreciávamos há muito o estilo vigoroso e brilhante do colaborador do Sr. Ramalho Ortigão, naquelas agudas Farpas, em que aliás os dois notáveis escritores formaram um só. Foi a estréia no romance, e tão ruidosa estréia, que a crítica e o público, de mãos dadas, puseram desde logo o nome do autor na primeira galeria dos contemporâneos. Estava obrigado a prosseguir na carreira encetada; digamos melhor, a colher a palma do triunfo. Que é, e completo e incontestável.
Mas esse triunfo é somente devido ao trabalho real do autor? O Crime do Padre Amaro revelou desde logo as tendências literárias do Sr. Eça de Queirós e a escola a que abertamente se filiava. O Sr. Eça de Queirós é um fiel e aspérrimo discípulo do realismo propagado pelo autor do Assommoir. Se fora simples copista, o dever da crítica era deixá-lo, sem defesa, nas mãos do entusiasmo cego, que acabaria por matá-lo; mas é homem de talento, transpôs ainda há pouco as portas da oficina literária; e eu, que lhe não nego a minha admiração, tomo a peito dizer-lhe francamente o que penso, já da obra em si, já das doutrinas e práticas, cujo iniciador é, na pátria de Alexandre Herculano e no idioma de Gonçalves Dias.
Que o sr. Eça de Queirós é discípulo do autor do Assommoir, ninguém há que o não conheça. O próprio Crime do Padre Amaro é imitação do romance de Zola, La Faute de l’Abbé Mouret. Situação análoga, iguais tendências; diferença do meio; diferença do desenlace; idêntico estilo; algumas reminiscências, como no capítulo da missa, e outras; enfim, o mesmo título. Quem os leu a ambos, não contestou decerto a originalidade do Sr. Eça de Queirós, porque ele a tinha, e tem, e a manifesta de modo afirmativo; creio até que essa mesma originalidade deu motivo ao maior defeito na concepção do Crime do Padre Amaro. O Sr. Eça dc Queirós alterou naturalmente as circunstâncias que rodeavam o padre Mouret, administrador espiritual de uma paróquia rústica, flanqueado de um padre austero e ríspido; o padre Amaro vive numa cidade de província, no meio de mulheres, ao lado de outros que do sacerdócio só têm a batina e as propinas; vê-os concupiscentes e maritalmente estabelecidos, sem perderem um só átomo de influência e consideração. Sendo assim, não se compreende o terror do padre Amaro, no dia em que do seu erro lhe nasce um filho, e muito menos se compreende que o mate. Das duas forças que lutam na alma do padre Amaro, uma é real e efetiva - o sentimento da paternidade; a outra é quimérica e impossível - o terror da opinião, que ele tem visto tolerante e cúmplice no desvio dos seus confrades; e não obstante, é esta a força que triunfa. Haverá aí alguma verdade moral?
Ora bem, compreende-se a ruidosa aceitação do Crime do Padre Amaro. Era realismo implacável, conseqüente, lógico, levado à puerilidade e à obscuridade. Víamos aparecer na nossa língua um realista sem rebuço, sem atenuações, sem melindres, resoluto a vibrar o camartelo no mármore da outra escola, que aos olhos do Sr. Eça de Queirós parecia uma simples ruína, unia tradição acabada. Não se conhecia no nosso idioma aquela reprodução fotográfica e servil das coisas mínimas e ignóbeis. Pela primeira vez, aparecia um livro em que o escuso e o - digamos o próprio termo, pois tratamos de repelir a doutrina, não o talento, e menos o homem, - em que o escuso e o torpe eram tratados com um carinho minucioso e relacionados com uma exação de inventário. A gente de gosto leu com prazer alguns quadros, excelentemente acabados, em que o Sr. Eça de Queirós esquecia por minutos as preocupações da escola; e, ainda nos quadros que lhe destoavam, achou mais de um rasgo feliz, mais de uma expressão verdadeira a maioria, porém, atirou-se ao inventário. Pois que havia de fazer a maioria, senão admirar a fidelidade de um autor, que não esquece nada, e não oculta nada? Porque a nova poética é isto, e só chegará à perfeição no dia em que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha. Quanto à ação em si, e os episódios que a esmaltam, foram um dos atrativos do Crime do Padre Amaro, e o maior deles; tinham o mérito do pomo defeso. E tudo isso, saindo das mãos de um homem de talento, produziu o sucesso da obra.
Certo da vitória, o Sr. Eça de Queirós reincidiu no gênero, e trouxe-nos o Primo Basílio, cujo êxito é evidentemente maior que o do primeiro romance, sem que, aliás, a ação seja mais intensa, mais interessante ou vivaz, nem mais perfeito o estilo. A que atribuir a maior aceitação deste livro? Ao próprio fato da reincidência, e, outrossim, ao requinte de certos lances, que não destoaram do paladar público. Talvez o autor se enganou em um ponto. Uma das passagens que maior impressão fizeram, no Crime do Padre Amaro, foi a palavra de calculado cinismo, dita pelo herói. O herói do Primo Basílio remata o livro com um dito análogo; e, se no primeiro romance é ele característico e novo, no segundo é já rebuscado, tem um ar de clichê; enfastia. Excluído esse lugar, a reprodução dos lances e do estilo é feita com o artifício necessário, para lhes dar novo aspecto e igual impressão.
Vejamos o que é o Primo Basílio e comecemos por uma palavra que há nele. Um dos personagens, Sebastião, conta a outro o caso de Basílio, que, tendo namorado Luísa em solteira, estivera para casar com ela; mas falindo o pai, veio para o Brasil, donde escreveu desfazendo o casamento. - Mas é a Eugênia Grandet! exclama o outro. O Sr. Eça de Queirós incumbiu-se de nos dar o fio da sua concepção. Disse talvez consigo: - Balzac separa os dois primos, depois de um beijo (aliás, o mais casto ios beijos). Carlos vai para a América; a outra fica, e fica solteira. Se a casássemos com outro, qual seria o resultado do encontro dos dois na Europa? - se tal foi a reflexão do autor, devo dizer, desde já, que de nenhum modo plagiou os personagens de Balzac. A Eugênia deste, a provinciana singela e boa, cujo corpo, aliás robusto, encerra uma alma apaixonada e sublime, nada tem com a Luísa do Sr. Eça de Queirós. Na Eugênia, há uma personalidade acentuada, uma figura moral, que por isso mesmo nos interessa e prende; a Luísa - força é dizê-lo - a Luísa é um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral.
Repito, é um títere; não quero dizer que não tenha nervos e músculos; não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos ainda consciência.
Casada com Jorge, faz este uma viagem ao Alentejo, ficando ela sozinha em Lisboa; aparece-lhe o primo Basílio, que a amou em solteira. Ela já o não ama; quando leu a notícia da chegada dele, doze dias antes, ficou muito “admirada”; depois foi cuidar dos coletes do marido. Agora, que o vê, começa por ficar nervosa; ele lhe fala das viagens, do patriarca de Jerusalém, do papa, das luvas de oito botões, de um rosário e dos namoros de outro tempo; diz-lhe que estimara ter vindo justamente na ocasião de estar o marido ausente. Era uma injúria: Luísa fez-se escarlate; mas à despedida dá-lhe a mão a beijar, dá-lhe até a entender que o espera no dia seguinte. ele sai; Luísa sente-se “afogueada, cansada”, vai despir-se diante de um espelho, “olhando-se muito, gostando de se ver branca”. A tarde e a noite gasta-as a pensar ora no primo, ora no marido. Tal é o intróito, de uma queda, que nenhuma razão moral explica, nenhuma paixão, sublime ou subalterna, nenhum amor, nenhum despeito, nenhuma perversão sequer. Luísa resvala no lodo, sem vontade, sem repulsa, sem consciência; Basílio não faz mais do que empuxá-la, como matéria inerte, que é. Uma vez rolada ao erro, como nenhuma flama espiritual a alenta, não acha ali a saciedade das grandes paixões criminosas: rebolca-se simplesmente. Assim, essa ligação de algumas semanas, que é o fato inicial e essencial da ação, não passa de um incidente erótico, sem relevo, repugnante, vulgar. Que tem o leitor do livro com essas duas criaturas sem ocupação nem sentimentos? Positivamente nada.
E aqui chegamos ao defeito capital da concepção do Sr. Eça de Queirós. A situação tende a acabar, porque o marido está prestes a voltar do Alentejo, e Basílio começa a enfastiar-se, e, já por isso, já porque o instiga um companheiro seu, não tardará a trasladar-se a Paris. Interveio, neste ponto, uma criada. Juliana, o caráter mais completo e verdadeiro do livro; Juliana está enfadada de servir; espreita um meio de enriquecer depressa; logra apoderar-se de quatro cartas; é o triunfo, é a opulência. Um dia em que a ama lhe ralha com aspereza, Juliana denuncia as armas que possui. Luísa resolve fugir com o primo; prepara um saco de viagem, mete dentro alguns objetos, entre eles um retrato do marido. Ignoro inteiramente a razão fisiológica ou psicológica desta precaução de ternura conjugal: deve haver alguma; em todo caso, não é aparente. Não se efetua a fuga, porque o primo rejeita essa complicação; limita-se a oferecer o dinheiro para reaver as cartas, - dinheiro que a prima recusa - despede-se e retira-se de Lisboa. Daí em diante o cordel que move a alma inerte de Luísa passa das mãos de Basílio para as da criada. Juliana, com a ameaça nas mãos, obtém de Luísa tudo, que lhe dê roupa, que lhe troque a alcova, que lha forre de palhinha, que a dispense de trabalhar. Faz mais: obriga-a a varrer, a engomar, a desempenhar outros misteres imundos. Um dia Luísa não se contém; confia tudo a um amigo de casa, que ameaça a criada com a polícia e a prisão, e obtém assim as fatais letras. Juliana sucumbe a um aneurisma; Luísa, que já padecia com a longa ameaça e perpétua humilhação, expira alguns dias depois.
Um leitor perspicaz terá já visto a incongruência da concepção do Sr. Eça de Queirós, e a inanidade do caráter da heroína. Suponhamos que tais cartas não eram descobertas, ou que Juliana não tinha a malícia de as procurar, ou enfim que não havia semelhante fâmula em casa, nem outra da mesma índole. Estava acabado o romance, porque o primo enfastiado seguiria para França, e Jorge regressaria do Alentejo; os dois esposos voltavam à vida exterior. Para obviar a esse inconveniente, o autor inventou a criada e o episódio das cartas, as ameaças, as humilhações, as angústias e logo a doença, e a morte da heroína. Como é que um espírito tão esclarecido, como o do autor, não viu que semelhante concepção era a coisa menos congruente e interessante do mundo? Que temos nós com essa luta intestina entre a ama e a criada, e em que nos pode interessar a doença de uma e a morte de ambas? Cá fora, uma senhora que sucumbisse às hostilidades de pessoa de seu serviço, em conseqüência de cartas extraviadas, despertaria certamente grande interesse, e imensa curiosidade; e, ou a condenássemos, ou lhe perdoássemos, era sempre um caso digno de lástima. No livro é outra coisa, Para que Luísa me atraia e me prenda, é preciso que as tribulações que a afligem venham dela mesma; seja uma rebelde ou uma arrependida; tenha remorsos ou imprecações; mas, por Deus! dê-me a sua pessoa moral. Gastar o aço da paciência a fazer tapar a boca de uma cobiça subalterna, a substituí-la nos misteres ínfimos, a defendê-la dos ralhos do marido, é cortar todo o vínculo moral entre ela e nós. Já nenhum há, quando Luísa adoece e morre. Por quê? porque sabemos que a catástrofe é o resultado de uma circunstância fortuita, e nada mais; e conseqüentemente por esta razão capital: Luísa não tem remorsos tem medo.
Se o autor, visto que o Realismo também inculca vocação social e apostólica, intentou dar no seu romance algum ensinamento ou demonstrar com ele alguma tese, força é confessar que o não conseguiu, a menos de supor que a tese ou ensinamento seja isto: - A boa escolha dos fâmulos é uma condição de paz no adultério. A um escritor esclarecido e de boa fé, como o Sr. Eça de Queirós, não seria lícito contestar que, por mais singular que pareça a conclusão, não há outra no seu livro. Mas o autor poderia retorquir: - Não, não quis formular nenhuma lição social ou moral; quis somente escrever uma hipótese; adoto o realismo, porque é a verdadeira forma da arte e a única própria do nosso tempo e adiantamento mental; mas não me proponho a lecionar ou curar; exerço a patologia, não a terapêutica. A isso responderia eu com vantagem: - Se escreveis uma hipótese dai-me a hipótese lógica, humana, verdadeira. Sabemos todos que é aflitivo o espetáculo de uma grande dor física; e, não obstante, é máxima corrente em arte, que semelhante espetáculo, no teatro, não comove a ninguém; ali vale somente a dor moral. Ora bem; aplicai esta máxima ao vosso realismo, e sobretudo proporcionai o efeito à causa, e não exijais a minha comoção a troco de um equívoco.
E passemos agora ao mais grave, ao gravíssimo.
Parece que o Sr. Eça de Queirós quis dar-nos na heroína um produto da educação frívola e da vida ociosa; não obstante, há aí traços que fazem supor, à primeira vista, uma vocação sensual. A razão disso é a fatalidade das obras do Sr. Eça de Queirós - ou, noutros termos, do seu realismo sem condescendência: é a sensação física. Os exemplos acumulam-se de página a página; apontá-los, seria reuni-los e agravar o que há neles desvendado e cru. Os que de boa fé supõem defender o livro, dizendo que podia ser expurgado de algumas cenas, para só ficar o pensamento moral ou social que o engendrou, esquecem ou não reparam que isso é justamente a medula da composição. Há episódios mais crus do que outros. Que importa eliminá-los? Não poderíamos eliminar o tom do livro. Ora, o tom é o espetáculo dos ardores, exigências e perversões físicas. Quando o fato lhe não parece bastante caracterizado com o termo próprio, o autor acrescenta-lhe outro impróprio. De uma carvoeira, à porta da loja, diz ele que apresentava a “gravidez bestial”. Bestial por quê? Naturalmente, porque o adjetivo avoluma o substantivo e o autor não vê ali o sinal da maternidade humana; vê um fenômeno animal, nada mais.
Com tais preocupações de escola, não admira que a pena do autor chegue ao extremo de correr o reposteiro conjugal; que nos talhe as suas mulheres pelos aspectos e trejeitos da concupiscência; que escreva reminiscências e alusões de um erotismo, que Proudhon chamaria onissexual e onímodo; que no meio das tribulações que assaltam a heroína, não lhe infunda no coração, em relação ao esposo, as esperanças de um sentimento superior, mas somente os cálculos da sensualidade e os “ímpetos de concubina”; que nos dê as cenas repugnantes do Paraíso; que não esqueça sequer os desenhos torpes de um corredor de teatro. Não admira; é fatal; tão fatal como a outra preocupação correlativa. Ruim moléstia é o catarro; mas por que hão de padecer dela os personagens do Sr. Eça de Queirós? No Crime do Padre Amaro há bastantes afetados de tal achaque; no Primo Basílio fala-se apenas de um caso: um indivíduo que morreu de catarro na bexiga. Em compensação há infinitos “jactos escuros de saliva”. Quanto à preocupação constante do acessório, bastará citar as confidências de Sebastião a Juliana, feitas casualmente à porta e dentro de uma confeitaria, para termos ocasião de ver reproduzidos o mostrador e as suas pirâmides de doces, os bancos, as mesas, um sujeito que lê um jornal e cospe a miúdo, o choque das bolas de bilhar, uma rixa interior, e outro sujeito que sai a vociferar contra o parceiro; bastará citar o longo jantar do conselheiro Acácio (transcrição do personagem de Henri Monier); finalmente, o capítulo do Teatro de S. Carlos, quase no fim do livro. Quando todo o interesse se concentra em casa de Luísa, onde Sebastião trata de reaver as cartas subtraídas pela criada, descreve-nos o autor uma noite inteira de espetáculos, a platéia, os camarotes, a cena, uma altercação de espectadores.
Que os três quadros estão acabados com muita arte, sobretudo o primeiro, é coisa que a crítica imparcial deve reconhecer; mas, por que avolumar tais acessórios até o ponto de abafar o principal?
Talvez estes reparos sejam menos atendíveis, desde que o nosso ponto de vista é diferente. O Sr. Eça de Queirós não quer ser realista mitigado, mas intenso e completo; e daí vem que o tom carregado das tintas, que nos assusta, para ele é simplesmente o tom próprio. Dado, porém, que a doutrina do Sr. Eça de Queirós fosse verdadeira, ainda assim cumpria não acumular tanto as cores, nem acentuar tanto as linhas; e quem o diz é o próprio chefe da escola, de quem li, há pouco, e não sem pasmo, que o perigo do movimento realista é haver quem suponha que o traço grosso é o traço exato. Digo isto no interesse do talento do Sr. Eça de Queirós, não no da doutrina que lhe é adversa; porque a esta o que mais importa é que o Sr. Eça de Queirós escreva outros livros como o Primo Basílio. Se tal suceder; o Realismo na nossa língua será estrangulado no berço; e a arte pura, apropriando-se do que ele contiver aproveitável (Porque o há; quando se não despenha no excessivo, no tedioso, no obsceno, e até no ridículo), a arte pura, digo eu, voltará a beber aquelas águas sadias do Monge de Cister, do Arco de Sant’Ana e do Guarani.
A atual literatura portuguesa é assaz rica de força e talento para podermos afiançar que este resultado será certo, e que a herança de Garrett se transmitirá intata às mãos da geração vindoura.


domingo, 6 de julho de 2014

Água com açúcar e câncer: a culpa é das estrelas ou não?




por Moisés Neto


Seria inconsequente da minha parte dizer que não sofro com amigos e parentes meus que lutam contra o câncer.
É cruel.
Mas viver é lutar.
Admiro a força de quem combate ao lado de quem precisa.
Estou procurando me engajar mais nesse front.

Depois de tantos filmes sobre pessoas com câncer, e filmes como Love Story, Sunshine etc. temos agora, baseado num romance  best seller americano, The fault in our stars, um arrasa quarteirão explosivo, uma granada de lágrimas e humor perverso, tipicamente norte-americano, ah, coração americano, acordei de um sonho estranho, um gosto vidro e morte, um sabor de chocolate... água com açúcar e câncer.

A Culpa é Das Estrelas (Capa do Filme)

Inspirado na frase de Shakespeare: Júlio César (Ato 1, cena 2) quando Cassius diz a Brutus: "A culpa, caro Brutus, não é de nossas estrelas, mas de nós mesmos, que somos subordinados.", John Green, haja técnica de colagem de aforismos e de escrita dirigida, teceu, numa espécie de fábula pop, onde os animaizinhos são doentes terminais, um enredo envolvente, cheio de carícias e que ao tratar do geral, enfoca o particular com poeticidade superficial o bastante para agarrar os adolescentes fugitivos das aulas de literatura clássica.
Não, não é nada grandioso, mas é algo reconfortante nesses dias em que o isolamento se dá por redes sociais.
A adaptação cinematográfica traz os dois atores estrelas de Divergente, com um material bem legal para interpretar, pois não exige tanto esforço, é cool, o filme.
Discute-se sobre metáfora e há, sim, há, o papel da memória e da catarse na escrita. Os protagonistas leram um livro sobre uma garota com câncer e foram até Amsterdã encontrar, o autor recluso, abusado e caricato, bêbado e sarcástico, o oposto do sempre bem disposto e sociável John Green que até para Ana Maria Braga dá entrevistas quando o assunto é marketing. E por falar em negócios, o ator principal está aproveitando o sucesso da adaptação para ser catapultado ao estrelato.
It´s a hard life, isn´t it?




Bem, não podemos culpar as estrelas, não é?
Mas há mais coisas entre o céu e a Terra do que  supõe a nossa vã filosofia...
Agora vamos a algumas frases do livro, amalgamadas por Mr. Green na sua costura de aforismos:

“Meus pensamentos são estrelas que eu não consigo arrumar em constelações”
“Todo mundo deveria ter um amor verdadeiro, que deveria durar pelo menos até o fim da vida da pessoa.”
“As marcas que os seres humanos deixam são, com frequência, cicatrizes.”
[sobre om autor do livro que os adolescentes na trama leem] “Ele registra a morte com fidelidade. Você morre no meio da vida, no meio de uma frase.
“O verdadeiro amor nasce em tempos difíceis.”

“Não dá para escolher se você vai ou não vai se ferir neste mundo, meu velho, mas é possível escolher quem vai feri-lo.”

sábado, 5 de julho de 2014

Moendo tudo



por Moisés Neto


PSDB foi com recurso  ao Supremo tribunal Federal para liberar protestos nos estádios onde aconteciam os jogos da Copa 2014 (FIFA): negado. Ainda sobre a Copa? Camarões tem sete jogadores envolvidos com escândalos de manipulação de resultados, os chamam "as 7 maçãs" podres. Só? Colômbia sai de cena e leva Neymar Júnior junto com joelhada nas costas, Thiago é suspenso e Júlio César leva cartão amarelo em jogo que vi na Fan Fest Recife (17 mil pessoas onde cabiam 5). Acusados de chorões e tratados por uma psicóloga às pressas , os milionários jogadores brasileiros (maioria católica) enfrentariam a fúria alemã (maioria protestante) na terça (perderiam de 7 a 1!). Por falar em Alemanha, o governo de lá prendeu ontem um possível espião norte-americano e já tem vários outros na mira (vão enfrentar a Argentina no final da Copa 2014, no Maracanã).
Sudão: 158 mortos em atentado numa agência de ajuda humanitária, já são 1,4 milhão de pessoas que fugiram do país.
Na China habitantes de Hong Kong (capitalista, livre do governo britânico): 100 mil fazem protesto por mais democracia.
Na França: Sarkosy, que chamou os manifestantes contra ele, nas ruas durante o seu governo, de gentalha (recaille), detonou a economia do país antes de sair do cargo e agora responde na justiça por tráfico de influências. Também na terra de Victor Hugo: uma professora foi assassinada pela mãe de um aluno do jardim da infância.
Recife é um caos: a avenida central, Conde da Boa Vista segue em crescente caos: na cidade os táxis tiveram aumento de tarifa: 6,37 %, as paradas de BRT estão atrapalhando o trânsito etc.
Melismas e agudos que fizeram de Mariah Carey um ícone retornam em Me. Mariah: The elusive chanteuse, seu novo álbum.
Extra! Planeta dos macacos, o confronto, de Matt Reeves vai concorrer na bilheteria com filmes espíritas em dobradinha: O céu é de verdade e Causa e efeito.

LITERATURA: Osman Lins faria 90 anos hoje.
Lucélia Santos, nossa eterna escrava Isaura, a quem tive o prazer de conhecer pessoalmente numa rápida entrevista, ressuscita A FALECIDA, do pernambucano Nelson Rodrigues, no Teatro RIO MAR, no Recife. Por falar em Pernambuco, Dom Vital completaria 136 anos e seu mistério continua: teria sido envenenado por aqueles que não suportam certo tipo de cristãos? Seria um mártir. dizem que há provas de milagres. A Igreja quer beatificá-lo como tal, haverá exumação do seu corpo.
Salve Nossa Senhora do Carmo! Recife está em festa por sua padroeira (16 de julho). por outro lado a cidade está entregue à própria sorte. A avenida central da cidade, a Conde da Boa Vista está um lixo de dar dó:  tomada por camelôs em número assustadoramente crescente, um escândalo a céu aberto, a Prefeitura não sabe o que fazer com o bairro da Boa Vista! Na minha querida rua Almirante Tamandaré, nº 170, em Setúbal, Boa Viagem, Recife, o Restaurante Tio Pepe me acalma os nervos enquanto escrevo para vocês.
ESCÂNDALO! Os planos de saúde aumentaram em 9, 65 %com o apoio do Governo!
Há 50 anos os Beatles lançavam o filme A hard day´s night.
É fogo: começa a temporada de furacões nos EUA.
Israel movimenta tropas em Gaza.
Argentina tenta dar calote na dívida externa.
Coreia do Sul e China fazem bons negócios.
A epidemia de ebola se alastra pela África.
O pastor Everaldo (PSC) cresce nas pesquisas como candidato à Presidência do Brasil (4,5%). O candidato Eduardo Campos declara seu patrimônio: 547 mil reais,  (uma casa, um apartamento, dois terrenos, dois carros, um Kia e um Fiat e 16 mil reais em depósito bancário. Sua campanha custará 150 milhões.




sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Grande Meio-dia...

Zaratustra nos lembra que o homem é camelo, na primeira fase da busca espiritual (Deves! Ajoelha-te e carrega), na segunda é leão ruge e quer mais), na terceira é criança a aprender e seguir. Nos dias de hoje, com tanta divulgação de onde estamos e fazendo as mínimas bobagens enquanto o mundo manipulado na era digital finge que o simulacro é realidade, ser e estar de verdade é raro.
Afeganistão, Iraque, Irã, o carrasco da Colômbia, a Colombina traidora, os EUA, a Rússia, o Plano Real, o imaginário, o simbólico lacaniano, o fim do Orkut, o Google +, o amor que n ão se aba e se transforma em isolamento, amortevida, a novelha China, ricos, pobres e todo o resto infinito virando pó e renascendo: tudo é semente?
Quando o Grande Meio-dia?
Não esquecer que hoje o Brasil passa por uma prova simbólica muito forte às 17 horas... nunca houve uma Copa como essa!
Será?

Poema de Tânia Lima

Para minha mãe que se foi nesta madrugada azul
À dona Janoca

Retorno de mãos vazias
embrulho perguntas sem respostas
Somos companheiras do tempo
Abrimos as janelas do século XXI
e chegamos à casa - coração!!!
É de lá que escuto a orquestra de palavras
a tocar a pequena flauta feita de cuidado
O que nos revela teus ensinamentos, minha mãe,
se teu nome tem o cheiro da palavra lealdade.
Haverá palavra mais leal que amar?
Haverá gesto mais singelo que teus cuidados?
Não sei onde deixei meu rosto
Talvez em algum lugar da casa esquecida
Onde ainda escuto o velho piano
desafiando a tecla da existência
Há orquídeas amanhecendo
por trás das folhas de bétula
pra onde as ondas vão, minha mãe
quando as lembranças vem?
A madrugada azul neste instante adormece contigo
sem teus cabelos brancos
sem teus olhinhos miúdos
sem tuas lindas rugas
sem tuas mãos de afeto
e todo esse sentimento que fica por ti
minha mãe
fica como quem carrega uma pétala
(às 4:39 da madrugada, Tânia Lima)