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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Breves notícias deThiago de Mello


 A poesia-seiva

 

“Thiago de Mello é um poeta na contramão da modernidade e isso bastaria para distanciá-lo de seus pares, mas há ainda um fator circunstancial a considerar: desde que retornou do exílio, em 1978, voltou a viver na distante Barreirinha, pequena vila de 5 mil habitantes encravada no Baixo Amazonas, em pleno coração da floresta. Quando volta do sul do País, depois de voar até Manaus e de lá num pequeno avião até Parintins, o poeta ainda é obrigado a enfrentar uma longa viagem de barco, de mais de cinco horas, até chegar em casa.” (JOSÉ CASTELLO)

“Precisamos do menino que você guarda em você e que ajuda a ser mais homem o homem que você é. Agüente o barco, querido amigo! Muitas madrugadas, cheias de orvalho macio, esperam por você. Andarilho da liberdade, você tem ainda muitos trilhos a percorrer; seus braços longos, muitas crianças a abraçar; suas mãos, muitos poemas a escrever."(PAULO FREIRE)

 

 

Thiago de Mello é de Barreirinha, coração do Amazonas, do dia 30 de março de 1926. Em Manaus, capital do Estado, fez seus primeiros estudos. Foi para o Rio de Janeiro (RJ) e fez Faculdade de Medicina até o quarto ano (trocou o curso por poesia!).
 
Os poetas Moises de Melo Neto e o Mestre Thiago de Mello
 

Luta direitos humanos, pela ecologia e pela paz mundial, sendo perseguido pela ditadura militar implantada no Brasil em 1964 se exilou no Chile, até a queda de Salvador Allende. Tem trabalhos publicados no Chile, Portugal, Uruguai, Estados Unidos da América, Argentina, Alemanha, Cuba, França e outros mais. É tradutor de Nicolas Guillén, Pablo Neruda, T. S. Elliot, César Vallejo, Eliseo Diego e Ernesto Cardenal.

Eis um trecho de um dos seus mais belos poemas:

 

 

A fruta aberta


Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore
plantada bem alta no meio da minha vida.


Agora sei as coisa como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.


(...) Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.

(Sobrevoando a Cordilheira dos Andes, 1962)

 

Thiago declarou: Trabalho muito para alcançar a simplicidade. Escrever difícil é muito fácil. Difícil e trabalhoso é chegar a uma linguagem que, sem perder o seu compromisso fundamental que é com a arte poética, seja acessível, a metáfora se abrindo feliz, ambígua, deixando que o leitor veja nela o que os seus olhos sabem enxergar. Você lê bem: preservo a métrica e o ritmo. Mas os meus versos livres, que não são poucos, têm cadência e principalmente música. A música é matéria prima do verso. Porventura a inclinação natural pelo verso medido me venha da infância, da leitura em voz alta, no Grupo Escolar José Paranaguá, em Manaus, dos versos cadenciados dos Meus oito anos, do Casimiro, do Y-Juca-Pirama, do Gonçalves Dias, do A Carolina, do Machado de Assis  a quem aprendi a amar menino e não o largo até hoje. Vou lhe contar: os meus primeiros versos já me saíram medidos. Vi quando um colega meu morreu afogado, na ribanceira do meio dia, de tardinha. Quando foi de noite, disse em voz alta e fui logo escrevendo: “Vi meu amigo morrer/ Afundando no perau./ O que vai acontecer?”. Era um terceto em redondilhas, só mais tarde  é que aprendi. Bandeira gostava do meu tercetozinho, ria muito me advertindo: “Você já andava de criança mexendo com a morte!” 
Estou de acordo com a primeira parte da pergunta final: acho, sim, que os jovens estão complicando o caminho de dar com a poesia, me chegam originais que sinceramente não consigo entender e alguns mostram deficiente manejo do idioma. Os poetas moços são pouco lidos, porque raros os que encontram editores, muitos pagam o custo da edição (o que autores maduros também fazem), alguns publicam por conta própria. Por sorte, cresce o número de revistas e publicações que dão acesso aos poetas e escritores moços.  No mais, o forte do Brasil nunca foi a leitura. A população aumenta, a tiragem dos livros diminui. Edita-se para iniciados.  (Trecho da Entrevista concedida a Fabrício Carpinejar)

"Misturando prosa e poesia, crônica e até anúncio imobiliário, o amazonense de Barreirinha, o cidadão do mundo, o personagem de nossa época, o poeta de A Canção do Amor Armado penetra na memória, obtendo a síntese do urbano e do telúrico, do lírico e do social. Comprometido com a sua terra e com a sua gente, de uma vez por todas Thiago de Mello assume a expressão de um poeta verdadeiramente universal.(CARLOS HEITOR CONY)

“A candente autenticidade de seus versos decorre, além do mais, da firme coerência que existe entre a obra e o modo de ser do poeta. Não se fechando em gabinetes, ele se põe por inteiro nessa luta em busca da justiça e da dignidade, e tem pago duro preço por isso, inclusive detenções arbitrárias e o amargor do exílio."(ÊNIO SILVEIRA)


 

Os estatutos do homem

 

ARTIGO I.

 

Fica decretado que agora vale a verdade,

que agora vale a vida,

e que, de mãos dadas,

trabalharemos todos pela vida verdadeira.

 

ARTIGO II.

 

Fica decretado que todos os dias da semana,

inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

 

ARTIGO III.

 

Fica decretado que, a partir deste instante,

haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.

 

ARTIGO IV.

 

Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.

 

PARÁGRAFO ÚNICO:

 

O homem confiará no homem

como um menino confia em outro menino.

 

ARTIGO V.

 

Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras.

O homem se sentará à mesa

com seu olhar limpo

porque a verdade passará a ser servida

antes da sobremesa.

 

ARTIGO VI.

 

Fica estabelecida, durante os séculos da vida,

a prática sonhada pelo profeta Isaías,

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos

e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

 

ARTIGO VII.

 

Por decreto irrevogável fica estabelecido

o reinado permanente da justiça e da claridade,

e a alegria será uma bandeira generosa

para sempre desfraldada na alma do povo.

 

ARTIGO VIII.

 

Fica decretado que a maior dor

sempre foi e será sempre

não poder dar-se amor a quem se ama

sabendo que é a água

que dá à planta o milagre da flor.

 

ARTIGO IX.

 

Fica permitido que o pão de cada dia

tenha no homem o sinal de seu suor.

Mas que sobretudo tenha sempre

o quente sabor da ternura.

 

ARTIGO X.

 

Fica permitido a qualquer pessoa,

a qualquer hora da vida,

o uso do traje branco.

 

ARTIGO XI.

 

Fica decretado, por definição,

que o homem é um animal que ama

e que por isso é belo,

muito mais belo que a estrela da manhã.

 

ARTIGO XII.

 

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.

Tudo será permitido,

inclusive brincar com os rinocerontes

e caminhar pelas tardes

com uma imensa begônia na lapela.

 

PARÁGRAFO ÚNICO:

 

Só uma coisa fica proibida:

amar sem amor.

 

ARTIGO XIII.

 

Fica decretado que o dinheiro

não poderá nunca mais comprar

o sol das manhãs vindouras.

Expulso do grande baú do medo,

o dinheiro se transformará em uma espada fraternal

para defender o direito de cantar

e a festa do dia que chegou.

 

ARTIGO FINAL.

 

Fica proibido o uso da palavra liberdade,

a qual será suprimida dos dicionários

e do pântano enganoso das bocas.

A partir deste instante

a liberdade será algo vivo e transparente

como um fogo ou um rio,

e a sua morada será sempre

o coração do homem.

 

A vida verdadeira

 

Pois aqui está a minha vida.

Pronta para ser usada.

 

Vida que não se guarda

nem se esquiva, assustada.

Vida sempre a serviço

da vida.

Para servir ao que vale

a pena e o preço do amor.

 

Ainda que o gesto me doa,

não encolho a mão: avanço

levando um ramo de sol.

Mesmo enrolada de pó,

dentro da noite mais fria,

a vida que vai comigo

é fogo:

está sempre acesa.

 

Vem da terra dos barrancos

o jeito doce e violento

da minha vida: esse gosto

da água negra transparente.

 

A vida vai no meu peito,

mas é quem vai me levando:

tição ardente velando,

girassol na escuridão.

 

Carrego um grito que cresce

cada vez mais na garganta,

cravando seu travo triste

na verdade do meu canto.

 

Canto molhado e barrento

de menino do Amazonas

que viu a vida crescer

nos centros da terra firme.

Que sabe a vinda da chuva

pelo estremecer dos verdes

e sabe ler os recados

que chegam na asa do vento.

Mas sabe também o tempo

da febre e o gosto da fome.

 

Nas águas da minha infância

perdi o medo entre os rebojos.

Por isso avanço cantando.

 

Estou no centro do rio,

estou no meio da praça.

Piso firme no meu chão,

sei que estou no meu lugar,

como a panela no fogo

e a estrela na escuridão.

 

O que passou não conta?, indagarão

as bocas desprovidas.

 

Não deixa de valer nunca.

O que passou ensina

com sua garra e seu mel.

 

Por isso é que agora vou assim

no meu caminho. Publicamente andando.

 

Não, não tenho caminho novo.

O que tenho de novo

é o jeito de caminhar.

Aprendi

(o caminho me ensinou)

a caminhar cantando

como convém

a mim

e aos que vão comigo.

Pois já não vou mais sozinho.

 

Aqui tenho a minha vida:

feita à imagem do menino

que continua varando

os campos gerais

e que reparte o seu canto

como o seu avô

repartia o cacau

e fazia da colheita

uma ilha de bom socorro.

 

Feita à imagem do menino

mas à semelhança do homem:

com tudo que ele tem de primavera

de valente esperança e rebeldia.

 

Vida, casa encantada,

onde eu moro e mora em mim,

te quero assim verdadeira

cheirando a manga e jasmim.

Que me sejas deslumbrada

como ternura de moça

rolando sobre o capim.

 

Vida, toalha limpa,

vida posta na mesa,

vida brasa vigilante,

vida pedra e espuma,

alçapão de amapolas,

o sol dentro do mar,

estrume e rosa do amor:

a vida.

 

Há que merecê-la.

 

 

 

A aprendizagem amarga

  

Chega um dia em que o dia se termina

antes que a noite caia inteiramente.

Chega um dia em que a mão, já no caminho,

de repente se esquece do seu gesto.

Chega um dia em que a lenha já não chega

para acender o fogo da lareira.

Chega um dia em que o amor, que era infinito,

de repente se acaba, de repente.

 

Força é saber amar, perto e distante,

com o encanto de rosa livre na haste,

para que o amor ferido não se acabe

na eternidade amarga de um instante.

 

Botão de rosa

 

Nos recôncavos da vida

jaz a morte.

                Germinando

no silêncio.

                Floresce

como um girassol no escuro.

De repente vai se abrir.

No meio da vida, a morte

jaz profundamente viva.

 

EPITÁFIO

 

O canto desse menino

talvez tenha sido em vão.

Mas ele fez o que pôde.

Fez sobretudo o que sempre

lhe mandava o coração.

 


Algumas obras do autor:

Poemas:

Silêncio e Palavra, 1951

Narciso Cego, 1952

A Lenda da Rosa, 1956

Vento Geral, 1960 (reunião dos livros anteriores e mais dois inéditos: Tenebrosa Acqua e Ponderações que faz o defunto aos que lhe fazem o velório)

Faz Escuro, mas eu Canto, 1965

A Canção do Amor Armado, 1966

Poesia comprometida com a minha e a tua vida, 1975

Os Estatutos do Homem, 1977 (com desenhos de Aldemir Martins)

Horóscopo para os que estão Vivos, 1984

Mormaço na Floresta, 1984

Vento Geral – Poesia 1951-1981, 1981

Num Campo de Margaridas, 1986

De uma Vez por Todas, 1996

Prosa:

Notícia da Visitação que fiz no Verão de 1953 ao rio Amazonas e seus Barrancos, 1957

A Estrela da Manhã, 1968;

Arte e Ciência de Empinar Papagaio, 1983

Manaus, Amor e Memória, 1984

Amazonas, Pátria da Água, 1991 (edição de luxo, bilíngüe (português e inglês), com fotografias de Luiz Cláudio Marigo).

Amazônia — A Menina dos Olhos do Mundo, 1992

O Povo sabe o que Diz, 1993

Borges na Luz de Borges, 1993.

 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Moises de Melo Neto atiça o fogo de Paglia

 
Ainda agora peguei no meu exemplar do livro de Camille Paglia, Break, Blow, Burn, onde ela analisa 43 poemas que vão de Shakespeare a Joni Mitchell, falando sobre solidão, epifania, alienação, percepção, perversão, humanismo e mediocridade. E tenta salvar a arte da teoria. O que vejo neste livro é uma personalidade que se impõe ao assunto criticado (?)
Eu a conheci pessoalmente há alguns atrás e li  muito da sua obra.
 
 Ela é irreverente, perversa, adora literatura e dona de um texto muito próprio. Ela diz que o poeta não pode ser classificado pelo “conjunto” da obra e sim por detalhes. Dá vontade de decorar os poemas depois de ler Camille. Ela personaliza sua leitura. Amar é quase uma religião para ela. não quer ser futurista, nem política (?) e entrecruza as várias expressões artísticas, apontando para múltiplas percepções. Ao visitar Sylvia Plath, em “Daddy”, ela eletriza o leitor e na minha opinião reconstrói (em menor proporção) o poema ao desconstruí-lo contrapondo imagens e palavras.
 
Paglia em Olinda (PE)

Peça de Moisés de Melo Neto que falava sobre o regime militar no Brasil

Peça de Moisés de Melo Neto que falava sobre o regime militar no Brasil

Eu, Jorge Luis Borges, Luis Fernando Verissimo e Poe: um jogo de espelhos

Jorge Luis Borges, Luis Fernando Verissimo e Poe: um jogo de espelhos
              Por Moisés (de Melo) Neto.
Foi a Companhia das Letras lançou (2000) o terceiro romance de L.F. Veríssimo: “Borges e os Orangotangos eternos” (os outros dois são: “O Jardim do Diabo” e Clube dos Anjos”) na coleção Literatura ou Morte, cujo motivo é mesclar um escritor famoso a uma intriga policial. Já foram lançados alguns sobre Kafka e Sade, entre outros.
Veríssimo nasceu em Porto Alegre(26/09/1936) e educou-se “principalmente” nos EUA. Não é formado em “nada” e iniciou sua carreira nos departamentos de  arte e planejamento gráfico da editora Globo, Porto Alegre em 1966. Seu primeiro livro (crônicas) é de 73, depois vieram “O Analista de Bagé”, “Ed Mort e outras histórias” e, nos quadrinhos, é autor da tira “As Cobras”.
Os escritores Moisés (de Melo) Neto e Luis Fernando Veríssimo
em Congresso Literário
Falar do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), cuja cegueira escancarou as portas para mistérios maiores que os visíveis, é seguir a trilha dos seus livros fantásticos, onde constantemente ensaio e ficção misturam-se magistralmente . Seu conto mais famoso chama-se “O Aleph” (um ponto de convergência no universo).
“Compreendi uma vez mais  que a arte moderna exige o bálsamo do riso”, escreveu Borges. Veríssimo é antes de tudo um humorista. Seu humor é intelectualizado. Suas blagues escoram-se em trocadilhos e hipérboles. Suas metáforas são grotescas: ”O sangue formou um  rastro no chão como um lençol vermelho(...) sua voz estava ainda mais fraca, Jorge, e Cuervo precisou se curvar, como uma garça indo buscar um peixe, para ouvi-lo”.
Veríssimo  relembra : “A paternidade e os espelhos são igualmente abomináveis, porque multiplicam o número de homens”. No livro, o  assassinato dos pais dança como sombra nas paredes da trama.
O enredo é simples: escritor gaúcho  de segunda classe envolve-se em crime durante congresso sobre  um autor do Romantismo  norte –americano, Edgar Allan Poe , num hotel em Buenos Aires .
A “Israfel Society” (fundada em 1937 por um imigrante tcheco nos EUA) junta neste congresso  os pro-fessored Xavier Urquiza, argentino católico;  Oliver Johnson, americano com tese sobre Poe ; Joachim Rotkopf, alemão que vive no México(por causa do sol de lá) e que tem idéias como: “A conquista da América nunca se dera, os primitivos tinham vencido, sua cultura indolente e fatalista ainda dominava o continente. Só deixavam os brancos pensar que mandavam para expô-los ao ridículo constante. América is the defeat of Europe(...) o México  era um lugar  para se acostumar com a morte (...Poe é a dissolução final, na necrofilia e na loucura, da imaginação gótica, o último suspiro da sensibilidade européia na fronteira selvagem, antes de ser comida pelos búfalos. Na história das relações da Europa com o Novo Mundo, era difícil saber quem estuprou quem” .
Urquiza e Johson odeiam  Rotkopf que iria desmascara-los como pseudo-intelectuais naquele  “congresso”: “As polêmicas intelectuais costumam ser como brigas de cachorro  (...) eles chegam quase a dentadas”(p-25).
O romance é narrado em primeira pessoa por Vogelstein, judeu alemão que fugiu do nazismo com a tia Raquel que o protegeu e criou o rebento de Miriam, sua irmã que preferiu ficar com o “monstro” nazista, seu “protetor” (amante). Descobriremos que Rotkopf tem tudo a ver com isso.
Inverno de 1985. Urquiza, Johnson, Voglestein e Rotkopf estão no mesmo hotel . Borges é convidado para a cerimônia de abertura do congresso.Champanhe, um japonês atrapalhado, três punhais misteriosos, tequila e é o fim de Rotkopf:duas punhaladas no ventre e uma no pescoço durante a madrugada. Trancado por dentro, como num conto de Poe(“Os Crimes da Rua Morgue”). Quem matou Rotkopf?
Entra em cena o inspetor Cuervo (como “O Corvo” do poema de Poe) e Borges com Voglestein - que já traduzira Borges para o português e ousara remexer nos seus contos - vão tentar resolver este “mistério”.
O livro é composto por sete   partes e é, como já dissemos, uma espécie de jogo de espelhos trincados por golpes de intelectualidade . Isto é, Veríssimo escora- se em textos alheios bem ao modo da literatura pós-moderna . O crime é pretexto para devaneios intelectuais .
As referências  são básicas . Por exemplo: “Cuervo”(o inspetor), “Alef” (o gato de Vogelstein) e o “escaravelho dourado” (várias vezes, sem razão nenhuma -só para despistar citando Poe) na composição da trama.
Sobre ser um péssimo tradutor de Borges, o narrador se defende: “Quem notaria as mudanças, numa tradução para o português de uma tradução para o inglês de uma história escrita em espanhol por um ar-gentino desconhecido que deveria era agradecer pelo sangue e o engenho  acrescentado ao seu texto ?” (p-18). É ou não é  “uma cola” grotesca?
Como diria Borges: “O Aleph é um dos pontos de espaço que contêm todos os pontos(...)o lugar onde estão , sem se confundirem, todos os lugares do mundo vistos de todos os ângulos(...) um copinho de falso conhaque e mergulharás no porão(...) em poucos minutos vês o Aleph. O microcosmo dos alquimistas e cabalistas (...) milhões de atos agradáveis ou atrozes...”.
Veríssimo produziu uma colagem brincalhona onde por fim das forças quis unir Borges, Lovecraft (escritor de mistério norte-americano ) e Poe num jogo misógino: a tia do narrador deixou que ele se casasse para “não ter que compartilhar seu protetorado”. Ele já está com 50 anos - Borges também preferia a mãe ao casamento, que só realizou aos 68 anos com Elsa Millán, divorciando-se três anos depois e  terminando a vida ao lado de sua então secretária Maria Kodama. O personagem de Joachim também é um “pai/ amante” desnaturado, o que lhe será fatal.
Mas este romance não é psicológico.
A narrativa é uma longa carta  para Borges, que nunca respondera as outras do narrador que queria um pouco mais de atenção do mestre.
O último capítulo é “escrito” por Borges a pedido do narrador, e o argentino, à beira da morte (1985), aponta o culpado (então, temos dois narradores) e escreve, referindo-se a si mesmo e ao narrador como personagem: “ Eu e Borges, interrompendo nosso trabalho no tratado final dos espelhos, viajando para Genebra, onde morreremos o ano que vem. Ou eu morrerei” ( o que bate com a biografia de Borges, que morreu em 86, Genebra ao lado de Maria Kodama).
“Borges” também deixa um recado para “V” (o narrador): “Mesmo as histórias mais fantásticas, meu caro V., requerem um mínimo de verossimilhança”.
Pois é, há um atropelo de erros, na narrativa de Veríssimo que demonstra insegurança no seu desenvolvimento. Uma hora diz que havia 4  cartas de baralho(p-39) ao lado do morto,  depois são 3 (p-46).
Se “a vaidade intelectual” é uma “força mais destrutiva que as outras, conhecidas ou ocultas”, ou se o cristianismo pertence à “história das superstições judaicas”(p-109), o “frio” e “neutro” narrador volta ao Brasil feliz por ter ficado “amigo” do seu ídolo : "e Cuervo saiu, me deixando a sós com você(Jorge), no paraíso” (p-58).
Resta-nos Poe, Borges e os Orangotangos Eternos, um devaneio sobre a possibilidade de tais animais escreverem um dia...

Uma curiosidade: nas crônicas de Verissimo encontramos este trecho: "Acho que falo por todos os gordinhos sem graça do mundo, por todos os homens por quem ninguém dá nada, todos os com cara daqueles tios que nas festas de família ficam num canto e nem os cachorros lhes dão atenção, ou fazem xixi no seu sapato, todos os que se apaixonam, mas não têm coragem de se aproximar da mulher amada, quanto mais declarar sua paixão, todos os que são chamados de “chuchu”, mas não é um termo carinhoso, é uma referência ao legume sem gosto, todos os sem sal, os sem encanto, os sem carisma, os sem traquejo, os sem lábia — enfim, os sem chance — do mundo se disser que o François Hollande é o nosso herói. Ele é tudo que nós somos e não somos.", isso foi quando publicaram que o francês tinha uma amante.
 

Moisés (de Melo) Neto e a dádiva dos judeus: um mar aberto

Análise do livro "A Dádiva dos Judeus " de Thomas por Moisés de Melo
A DÁDIVA DOS JUDEUS de Thomas Cahill (Editora Objetiva. 305 páginas. Publicado em 1999 . RJ) é um daqueles livros que, a exemplo dos escritos da professora Camille Paglia, misturam o erudito e o popular de forma inusitada. Composto de 7 capítulos, é escrito numa linguagem simples e que busca a comicidade a todo instante, Seu autor estudou com os maiores especialistas em Literatura e estudos bíblicos dos EUA e foi diretor da Editoria de livros religiosos da Doubleday.
Muito devemos aos judeus.


       Daniel Radcliffe
Daniel Radcliffe é um dos mais queridos
 
 
Se Deus nos expulsou do Paraíso muito antes de nascermos por causa de uma coisa que Adão e Eva fizeram, nós cristãos vivemos de algo que perdemos e que sabemos que vamos perder por sermos tão pequenos diante de Deus, exigimos de nós mesmos coisas tão terríveis, como por exemplo a transcendência, o eterno, a busca de uma pedra filosofal que desmistifique esse mundo tão chatinho que nos cerca, no qual não há conclusão para nada . Será que devemos sacrificar nossos Egos por uma causa que, no entanto nos responsabilizará por nossos erros individuais? Questiona o autor em certa parte do livro e continua com admirável verve : "Os americanos descobriram os meios mais terríveis de destruir outros seres humanos, porém os judeus promoveram um banho de sangue na conquista da terra prometida também. A conquista de Canaã é pavorosa: os judeus passam à espada homens, mulheres , jovens e velhos, bois e carneiros, incendeiam povoados inteiros e saqueiam tudo de valor. Os empoeirados que fugiram do Egito e passaram 40 anos no deserto mostravam-se audazes guerreiros. De Moisés aprenderam o categórico imperativo kantiano do "Dever Fazer" e com o descanso aos sábados , proposto nos dez mandamentos, tornaram moda a compreensão israelita do tempo. E com todas aquelas ordens a respeito do que é certo fazer, os judeus não perderam tempo em transgredi-las." Thomas sugere que todos nós temos na vida um momento de insight muito forte, todos teríamos nosso Monte Sinai ( página 181).Com a tomada de Jericó em 1200 a C , Israel passa de tribos a nação. O Sinai foi uma experiência misteriosa além-túmulo que "parou o tempo", que de alguma maneira fez com que se atravessasse o presente sujo e tumultuoso , um INSIGHT que, se permitido, sustentaria os judeus para sempre: "Nada do que é verdadeiro, belo ou bom faz total sentido em qualquer contexto da história, portanto temos que ser salvos pela fé", sugere nosso escritor. Depois de tomar posse da terra e ameaçar os vizinhos, os israelitas decidiram que precisavam de um Rei, já tinham Deus, precisavam agora de uma "unidade visível". Foi quando Deus falou através do Profeta Samuel e escolhem Saul, o Belo. ("Não havia ninguém mais bonito", declara o Livro de Samuel , na Bíblia) . Depois veio Davi que, para casar com a filha de Saul, teve que lutar bravamente e ...trazer 200 prepúcios de 200 filisteus. Por esta proeza, Davi ficou mais querido para os israelitas do que pela morte de Golias (página 194). Após a morte de Saul , Davi é consagrado Rei aos 30 anos e com fama de bom escritor em Canaã, a partir de então chamada ISRAEL. Davi teve várias esposas e concubinas . Ele uniu a nação. "Davi dançou rodopiante diante de Deus ( "YHWH " - O NOME DE Deus era impronunciável) com toda a sua pujança, usando uma tanga" (página 202), ofereceu holocaustos e sacrifícios em ação de graças. Morre Absalão, seu filho mais querido e que tentou roubar-lhe o trono várias vezes. Davi então engravida Betsabe, a mulher de um soldado seu. Manda o marido da amante para uma missão mortal na guerra onde o coitado morre. Davi pede perdão a Deus. Nasce o fruto do adultério: SALOMÃO é o seu nome e ele será o novo rei, chegando ao poder por meio de uma trama de sua mãe, Betsabe e do profeta Natã. Salomão teve 700 esposas e 300 concubinas. Uma das suas esposa era a filha do faraó. Se Davi venceu os filisteus , Salomão buscou consolidar Israel, forçou os israelitas ao trabalho, pôs- se a cobrar impostos exorbitantes e deixou uma DESORDEM atrás de si, para seu filho Roboão administrar (página 217).

Thomas Cahill prossegue na sua devassa aos arquivos judeus: "Roboão destruiu Israel" com sua falta de autoridade . Os judeus então começam a esperar a chegada do Messias. Cresce a "crença continuamente detalhada de que um dia Deus enviará seu verdadeiro representante, que virá salvar seu povo". Usando o primeiro alfabeto inventado no mundo, pelos vizinhos do norte de Israel, os semitas da Fenícia, escreve-se a Torá. Os Salmos de Davi, as histórias antigas, tudo depois seria também chamado de "Bíblia", um conjunto de livros. No 2º semestre do século IX AC, sobe ao trono Acab (nome sugestivo em português, não ?) e sua poderosa rainha fenícia, JEZEBEL, que o LIVRO DOS REIS retrata como uma "prostituta pintada", adoradora de BAAL, deus cananeu da tempestade. Baal, o touro! Foi a decadência de Israel. Deus fora perturbado em sua unidade. Os assírios invadem tudo, destruindo nobres e pobres: O povo de Israel simplesmente evaporara, dez tribos perdidas. O profeta Isaías avisou:" Deus afugentará o povo e o país ficará completamente abandonado" .

Nabucodonosor, rei da Babilônia, que eclipsara a Assíria com a política de poder da Mesopotâmia, derruba Jerusalém e os judeus passam 70 anos como escravos. Sedecias é o último rei de Judá. O profeta Sedecias consola, dizendo que Deus avisou: "Eu os trarei de volta e os reunirei".

Às margens do Eufrates e do Tigre, os judeus sentaram, choraram e meditaram sobre o seu destino: se Deus destruíra sua identidade, o que mais poderia querer deles? " (página 236). Quando os babilônios foram derrotados pelos persas, Ciro, em 538 AC, divulgou um decreto autorizando os judeus a partir. A coisa mais preciosa, no meio de tanta riqueza acumulada , que os judeus levaram da Babilônia foi a literatura, oral e escrita, "a literatura da sabedoria. A "distância cultural que os judeus conseguiram ter de sua literatura antiga os capacitou a lê-la com um discernimento mais aguçado". Na nova literatura, no "Cântico dos Cânticos", o amor é tão intenso quanto a morte. Grandes distâncias não podem extinguir o amor , e a relação Deus- Homem tornou finalmente possível a relação genuína entre dois seres humanos.
NO "LIVRO DE RUTE", AS PERSONAGENS PRINCIPAIS SÃO TODAS MULHERES , "Rute é quase como uma heroína de Jane Austen" , arrisca Thomas, "pelo seu jeito de maquinar", conclui. Rute é escritora e suas histórias , como outras da Bíblia, passaram de geração a geração. A história do Deus, cujo nome significa "eu estarei lá" (YHWH) , o Deus com quem se pode contar, que escreveu suas leis no coração dos homens, um Deus que só aceita como oferenda a justiça e a compaixão com o próximo. Diz Joel, um profeta tardio : "Derramarei o meu espírito sobre toda a humanidade e vossos jovens terão visões".
Ao lermos o livro "A Dádiva dos Judeus" , a impressão que nos fica é a de que "é praticamente impossível nos levantarmos de manhã ou atravessar a rua sem sermos judeus. Sonhamos sonhos judeus e temos esperança judias. A maior parte de nossas melhores palavras , de fato - NOVO, AVENTURA, SURPRESA, EXCLUSIVO, INDIVIDUAL, PESSOA, VOCAÇÃO, TEMPO, HISTÓRIA, FUTURO LIBERDADE, PROGRESSO, ESPÍRITO, FÉ, ESPERANÇA, JUSTIÇA - SÃO DÁDIVAS DOS JUDEUS".
Exageros à parte, os judeus ensinaram uma maneira completamente nova de viver a realidade e sua crença surgiu como a melhor alternativa para as visões que as religiões antigas tinham do mundo. Mesmo que alguns acreditem que a Bíblia seja só o registro de uma " família" ao longo de dois mil anos em suas contradições e confusões, glorificando a si mesma.
O autor termina o livro fazendo citação a Dom Helder Camara e a outros que usaram o saber do livro sagrado para o bem da humanidade, acusando o capitalismo e o comunismo de serem filhos bastardos deste saber no sentido de exigirem dos seus adeptos que nunca percam a fé no futuro e arremata: "SEM DEUS , CADA UM É UMA FORMA DE LOUCURA".
E sentencia "Sem justiça não há Deus".
Shalom 
 שָׁלוֹםשָׁלו
 

Like a rolling stone...

O livro de Bob Dylan, Crônicas - Volume Um, é cru e um tanto quanto cubista. Ele nos sacode numa viagem pelos anos 60 sob a ótica de um boy disposto a tudo para mostrar sua poesia cantada, ambiciosa e pouco complacente.

 
Dylan é incrédulo e estranho. Sai contando sua vida pessoal e dá para notar que inventa muito sobre ela (ninguém lembraria tantos detalhes depois de tanto tempo assim).

O tom é coloquial e a sintaxe bem particular. Às vezes o discurso cheira à maconha. Há uma espécie autocongratulação pairando sobre quase todas as páginas diante do nosso olhar (incrédulo?).

Robert Zimmerman, judeu, tem o dom de contar histórias, vide suas letras enormes, e não faria por menos ao contar a sua própria. É um jogo de cabra-cega no meio de um 4 de julho muito doido. Isto é apenas o volume 1.