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terça-feira, 18 de agosto de 2026

CONTRACULTURA & HISTÓRIA Palestra do Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto na XVI Semana de História da UPE

 

 

CONTRACULTURA & HISTÓRIA

Palestra do Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto

(Professor adjunto de literatura na Universidade de Pernambuco e na Universidade Estadual de Alagoas)

 

 

Agradeço o convite do CAHIS da UPE,  Centro Acadêmico de História Maria Giseuda, que organizou a  XVI Semana de História da UPE (Campus Garanhuns),  e cumprimento esta mesa intitulada "Teoria da História, Cultura e Arte: reflexões sobre modernos e pós-modernos", composta pelos professores Joachin de Melo Azevedo Sobrinho Neto, Professor Adjunto de História Contemporânea na Universidade de Pernambuco e Professor Gervácio Batista Aranha, da Universidade Federal de Campina Grande.

 


A Contracultura, um fenômeno efervescente por liberdade e transformação. Não se trata de fazer mera compilação de fatos históricos, mas sim de  dar uma espécie de mergulho em atitude, através dos tempos,  nos quais as normas foram questionadas, dogmas foram desafiados e a criatividade floresceu em novas e inesperadas direções. A contracultura: um caleidoscópio de ideias, práticas e aspirações que se manifestaram em diversas esferas: da arte à política, da arte à vida cotidiana.

Faremos referências às vozes, às imagens e às ideias que moldaram essa “emergência” singular. Aqui aqueles cuja força motriz por trás dessa revolução silenciosa, buscando alternativas para um mundo que parecia conformista e restritivo investiram no legado duradouro na sua potencialidade expansiva. Quais sementes foram plantadas? Que ideais sobreviveram ao teste do tempo? E, mais importante, o que podemos aprender hoje com a coragem e a resiliência daqueles que se atreveram a sonhar com um mundo diferente. História, e micro-história e contracultura nos lembram que o conformismo é uma escolha, e que a busca por uma sociedade mais justa, livre e criativa é um caminho contínuo de libertação.

Eis o poder da dissidência, a beleza da expressão individual e a eterna busca humana por um sentido maior. Que esta fala convide a questionar o estabelecido e a encontrar uma voz própria, da mesma forma que tantos o fizeram na contracultura que, em sua essência, pode ser vista como um "experimento perigoso" em um sentido alegórico, não tolhedor ou preconceituoso, por diversas razões que exploram os limites da sociedade, da identidade e da liberdade.

O perigo alegórico reside no fato de que a contracultura, ao desafiar as estruturas políticas, econômicas e sociais dominantes, tendia a gerar instabilidade e incerteza, como um “terremoto cultural” abalando alicerces, forçando uma reavaliação do que é considerado "normal" ou "aceitável". Esse “abalo”, embora potencialmente transformador, pode ser percebido como ameaçador por aqueles que se beneficiam ou se sentem seguros nas estruturas tradicionais predominantes.

A busca por novas formas de viver e pensar muitas vezes envolve a experimentação com a consciência e a percepção, incluindo a adoção de estilos de vida que fogem do convencional.

A contracultura, esse rompimento, embora muitas vezes necessário para a evolução, pode ser visto como um "perigo" para a coesão social, especialmente por aqueles que acreditam na importância da ordem e da hierarquia. É como um barco que se liberta das amarras do porto e se lança ao mar aberto, enfrentando as tempestades, mas buscando novos horizontes.

O INÍCIO O FIM E O MEIO

A contracultura é coisa que sempre existiu? Sim, na mitologia grega temos, por exemplo, Prometeu; no Éden, Satã, mitos quase incomparáveis. Na filosofia, a gente, como Sócrates, nos leva a ver que o que não muda é a mudança. Continuamos a surfar no caos, que é a realidade perturbada pela revolução, como um meme que se multiplica na internet. Resumindo, contracultura é tão velha quanto a civilização. Líderes como Jesus são exemplo: um catalisador de mudanças. Na psicanálise, talvez Jung seja o exemplo mais claro da contracultura. Da Grécia até chegar em 1922 com James Joyce, o escritor irlandês, temos um notável exemplo de uma linguagem alternativa que o contraculturalismo evolui. Até o pós-Hiroshima e muito além. Contracultura só existe como vivida. Eis o seu resumo enquanto possibilidades. Enquanto expressão dinâmica. Sócrates é exemplo da contracultura.

Os mitos e a contracultura se abraçam. Esta é quase sempre vanguarda. Nietzsche dizia que eles criavam uma conexão espiritual negada pela história, raramente mítica .

No Velho testamento Abraão sai de Ur, rica e importante cidade-estado da antiga Suméria, no sul da Mesopotâmia, localizada no atual Iraque, em busca de Canaã, lugar de mudança, exílio. Ele disse aos seus irmãos: “vivo entre vocês, mas sou um estrangeiro, aqui em Ur, como pastor”. Uma atitude contracultural, em dropout. Ele se torna líder de uma pequena minoria dissidente. Ele não era um alienado. Em Canaã, ele propõe coletivismo voluntário. Ele foi um revolucionário há 4 mil anos. Um pioneiro espiritual. Ele saiu do sul do Iraque, Ur, e foi para Israel e Jordânia, Canaã, em processo contracultural. Lá se tornam os habirus, raiz da palavra hebreu, possivelmente, portanto, um fundador de uma subcultura, cultura alternativa, onde ele chegou, rompeu com a cultura do local estrangeiro, onde chegou, e com o consenso social de lá. Ele era fruto de uma cultura nômade.

O Zen rejeita a metafísica, dessimboliza o mundo e tudo nele. A contracultura faz ressalvas, mas ambos são anti-autoritários. A única autoridade sobre nós vem do nosso espírito, não da vida cívica, digamos assim, ou da sobrevivência pessoal

No Brasil, Recife e Salvador, Gregório de Matos, poeta do século XII, usava até pornografia na sua contracultural poesia, expondo trapaças e falsidades, o que nos traz à mente a região da Aquitânia, do trovadorismo, Provença, e seus liberalismos para a época, claro. Sim, a contracultura pode também distrair e fascinar, amenizar o meio conservador da tradição. Das empoderadas contraculturalistas, lembremos de Eleonor da Aquitânia  (século XII), que conseguiu ser rainha. Ela apoiava os trovadores até em suas gozações de livres-pensadores, alguns de origem árabe. Daí veio também que os casamentos não fossem apenas acordo entre famílias, mas as pessoas escolhessem seus parceiros em amor desligado da ideia de reprodução da espécie, isso com poesia ao som da rabeca, instrumento bem popular no nordeste do Brasil, também. A elite cristã debochava da linguagem das ruas, fator contracultural, mas alguns jovens gostavam muito disso, eles refinaram esta linguagem como forma de diversão até para a corte. A igreja, desde a idade média, buscava desinfetar o conceito de amor e a catolicizar a poesia. A inquisição estava de olho na contracultura, embora os trovadores fossem utilizados pelo clero.

As comunidades hippies, na virada dos 1960, 1970, que o digam, o que inclui choque de personalidades, há sobre isso uma visão poética de indiferença. Walt Whitman retratou Nova Iorque na sua poesia, que incluía a vagabundagem e o trabalho pesado, em prosa e verso, livre, em bissexualidade implícita, cheia de presença de espírito, esprit de corps, servindo de modelo para o uivo de Allen Ginsberg, judeu. Ambos gostavam de auto-afirmação, cada um em sua época e ao seu modo.

A tela da consciência é caleidoscópica, impressões a mudar, como em palimpsesto, resíduos de impressões passadas em jogo entre consciente e subconsciente, em múltipla exposição.

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Não importa o que aconteceu, e sim o que somos. Tal impulso contracultural integra a raça humana no mito e sua disposição à rebeldia, humanismo revolucionário. Em meio a tantos significados sem sentido, a contracultura é desafio à história. Ela busca novos territórios conceituais, não por ser exótica, não quer a história como narrativa continuada, visão hegemônica do potencial da humanidade. Recordar é repetir? Era assim há cinco minutos, diria Geração X. Contracultura. Fácil de reconhecer, difícil de definir. Esta Geração também dizia que a tecnologia nos libertaria da miséria humana. Foi? Está sendo? Os hippies, como na peça HAIR, anunciavam a Era de Aquarius. Houve? Há? O zeitgeist contracultural ainda se estica desde a socrática Grécia.

O contracultural é livre da certeza. Não é fácil viver verdadeiramente livre. Defender mudanças sociais e individuais parece ser uma das respostas a isto. O livre pensar parece repleto de riscos levando a solidão existencial e a falta de compaixão. Faça o que quiser com a lei, disse o bruxo Aleister Crowley. Mas temos que saber bem qual a nossa vontade.

Hoje, a cultura mundial é uma confusão de valores. Desordem mundial. Parece que há um vácuo ético. Relativismo moral. Cidadãos perdidos. Sócrates nunca questionou a escravidão negra ou branca e o oráculo de Delfos o apontou como o homem mais sábio de todos. Com sua filosofia dialética. Sem doutrina, na emocionante busca sobre a verdade. Que é pensar sobre o pensamento. Ele foi o primeiro indivíduo. Até ele o coletivo era lei. Sócrates teria sido o primeiro a sugerir conhece-te. Arrancando o indivíduo do seu contexto histórico. Questionava todos os sistemas. Interessava-lhe o processo não a burocracia. Já seu aluno Platão imagina uma república quase fascista. Como um lugar utópico quase perfeito. Meritocrático. Onde apenas os ricos podiam ter tempo para o autoconhecimento. O governo por expertise (competência).  

Assim, a contracultura é tão antiga quanto à própria cultura, e, neste sentido, os autores fazem uma “viagem” pela história mundial, a fim de evidenciar esta afirmação. A contracultura seria uma “ruptura” e também uma espécie de tradição. É a tradição de romper com a tradição, ou de atravessar as tradições do presente de modo a abrir uma janela para aquela dimensão mais profunda da possibilidade humana.

A contracultura é a representação do que há de verdadeiramente novo e verdadeiramente grandioso na expressão e no esforço humano. No entanto eles destacam que nem todos os movimentos culturais e políticos que se opõem com ideias inovadoras são por si só contracultura.

A contracultura foi certamente propiciada pelas próprias doenças de nossa cultura tradicional. Tais doenças condicionaram seu surgimento, como um antídoto, ou anticorpo, necessário à preservação de um mínimo de saúde existencial, que passou a ser socialmente exigido pelo próprio instinto de sobrevivência de nossa vida em comum. Nossa cultura é, ela própria, uma doença. Uma arte mórbida. O pensamento do século XIX tentou diagnosticar essa doença de diferentes maneiras. Chama-se “alienação”, em Marx — e “neurose”, em Freud.

Este é o fim desta fala. Apenas o fim. O fim, deste modo, como naqueles filmes, com uma cena bem chocante no final. Mas como se fosse uma esperança. Um plot twist, no que seja a contracultura e suas propostas. Misturando utopia e distopia, relaxamento e aceleração. O que eu te escrevo continua.

O que nos resta nesta reta final? Amanhãs...

O que te escrevemos continua: em histórica contracultura.

 


 

 

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