CONTRACULTURA & HISTÓRIA
Palestra do Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto
(Professor adjunto de literatura na Universidade de Pernambuco e na Universidade
Estadual de Alagoas)
Agradeço o convite do CAHIS da UPE, Centro Acadêmico de História Maria Giseuda, que organizou a XVI Semana de História da UPE (Campus Garanhuns), e cumprimento esta mesa intitulada "Teoria da História, Cultura e Arte: reflexões sobre modernos e pós-modernos", composta pelos professores Joachin de Melo Azevedo Sobrinho Neto, Professor Adjunto de História Contemporânea na Universidade de Pernambuco e Professor Gervácio Batista Aranha, da Universidade Federal de Campina Grande.
A Contracultura, um fenômeno efervescente por liberdade
e transformação. Não se trata de fazer mera compilação de fatos históricos, mas
sim de dar uma espécie de mergulho
em atitude, através dos tempos, nos
quais as normas foram questionadas, dogmas foram desafiados e a criatividade
floresceu em novas e inesperadas direções. A contracultura: um caleidoscópio
de ideias, práticas e aspirações que se manifestaram em diversas esferas:
da arte à política, da arte à vida cotidiana.
Faremos referências às vozes, às imagens e às ideias que moldaram essa
“emergência” singular. Aqui aqueles cuja força motriz por trás dessa revolução
silenciosa, buscando alternativas para um mundo que parecia conformista e
restritivo investiram no legado duradouro na sua potencialidade
expansiva. Quais sementes foram plantadas? Que ideais sobreviveram ao
teste do tempo? E, mais importante, o que podemos aprender hoje com a coragem e
a resiliência daqueles que se atreveram a sonhar com um mundo diferente.
História, e micro-história e contracultura nos lembram que o conformismo é uma
escolha, e que a busca por uma sociedade mais justa, livre e criativa é um
caminho contínuo de libertação.
Eis o poder da dissidência, a beleza da expressão
individual e a eterna busca humana por um sentido maior. Que esta fala convide
a questionar o estabelecido e a encontrar uma voz própria, da mesma forma que
tantos o fizeram na contracultura que, em sua essência, pode ser vista como um
"experimento perigoso" em um sentido alegórico, não tolhedor ou preconceituoso,
por diversas razões que exploram os limites da sociedade, da identidade e da
liberdade.
O perigo alegórico reside no fato de que a contracultura, ao desafiar as
estruturas políticas, econômicas e sociais dominantes, tendia a gerar
instabilidade e incerteza, como um “terremoto cultural” abalando alicerces,
forçando uma reavaliação do que é considerado "normal" ou
"aceitável". Esse “abalo”, embora potencialmente transformador, pode
ser percebido como ameaçador por aqueles que se beneficiam ou se sentem seguros
nas estruturas tradicionais predominantes.
A busca por novas formas de viver e pensar muitas vezes envolve a
experimentação com a consciência e a percepção, incluindo a adoção de estilos
de vida que fogem do convencional.
A contracultura, esse rompimento, embora muitas vezes necessário para a
evolução, pode ser visto como um "perigo" para a coesão social,
especialmente por aqueles que acreditam na importância da ordem e da
hierarquia. É como um barco que se liberta das amarras do porto e se lança ao
mar aberto, enfrentando as tempestades, mas buscando novos horizontes.
O INÍCIO O FIM E O MEIO
A contracultura é coisa que sempre
existiu? Sim, na mitologia grega temos, por exemplo, Prometeu; no Éden, Satã,
mitos quase incomparáveis. Na filosofia, a gente, como Sócrates, nos leva a ver
que o que não muda é a mudança. Continuamos a surfar no caos, que é a realidade
perturbada pela revolução, como um meme que se multiplica na internet. Resumindo, contracultura é tão velha
quanto a civilização. Líderes como Jesus são exemplo: um catalisador de
mudanças. Na psicanálise, talvez Jung seja o exemplo mais claro da
contracultura. Da Grécia até chegar em 1922 com James Joyce, o escritor
irlandês, temos um notável exemplo de uma linguagem alternativa que o contraculturalismo
evolui. Até o pós-Hiroshima e muito além. Contracultura só existe como vivida.
Eis o seu resumo enquanto possibilidades. Enquanto expressão dinâmica. Sócrates é exemplo da contracultura.
Os mitos e a contracultura se abraçam.
Esta é quase sempre vanguarda. Nietzsche dizia que eles criavam uma conexão
espiritual negada pela história, raramente mítica .
No Velho testamento Abraão sai de Ur, rica
e importante cidade-estado da antiga Suméria, no sul da Mesopotâmia, localizada
no atual Iraque, em busca de
Canaã, lugar de mudança, exílio. Ele disse aos seus irmãos: “vivo entre vocês,
mas sou um estrangeiro, aqui em Ur, como pastor”. Uma atitude contracultural,
em dropout. Ele se torna líder de uma pequena minoria dissidente. Ele
não era um alienado. Em Canaã, ele propõe coletivismo voluntário. Ele foi um
revolucionário há 4 mil anos. Um pioneiro espiritual. Ele saiu do sul do
Iraque, Ur, e foi para Israel e Jordânia, Canaã, em processo contracultural. Lá
se tornam os habirus, raiz da palavra hebreu, possivelmente,
portanto, um fundador de uma subcultura, cultura alternativa, onde ele chegou,
rompeu com a cultura do local estrangeiro, onde chegou, e com o consenso social
de lá. Ele era fruto de uma cultura nômade.
O Zen rejeita a metafísica,
dessimboliza o mundo e tudo nele. A contracultura faz ressalvas, mas ambos são
anti-autoritários. A única autoridade sobre nós vem do nosso espírito, não da
vida cívica, digamos assim, ou da sobrevivência pessoal
No Brasil, Recife e Salvador, Gregório
de Matos, poeta do século XII, usava até pornografia na sua contracultural
poesia, expondo trapaças e falsidades, o que nos traz à mente a região da
Aquitânia, do trovadorismo, Provença, e seus liberalismos para a época, claro.
Sim, a contracultura pode também distrair e fascinar, amenizar o meio
conservador da tradição. Das empoderadas contraculturalistas, lembremos de
Eleonor da Aquitânia (século XII), que
conseguiu ser rainha. Ela apoiava os trovadores até em suas gozações de
livres-pensadores, alguns de origem árabe. Daí veio também que os casamentos
não fossem apenas acordo entre famílias, mas as pessoas escolhessem seus
parceiros em amor desligado da ideia de reprodução da espécie, isso com
poesia ao som da rabeca, instrumento bem popular no nordeste do Brasil, também.
A elite cristã debochava da linguagem das ruas, fator contracultural, mas
alguns jovens gostavam muito disso, eles refinaram esta linguagem como forma de
diversão até para a corte. A igreja, desde a idade média, buscava desinfetar o
conceito de amor e a catolicizar a poesia. A inquisição estava de olho na
contracultura, embora os trovadores fossem utilizados pelo clero.
As comunidades hippies, na virada dos
1960, 1970, que o digam, o que inclui choque de personalidades, há sobre isso
uma visão poética de indiferença. Walt Whitman retratou Nova Iorque na sua
poesia, que incluía a vagabundagem e o trabalho pesado, em prosa e verso,
livre, em bissexualidade implícita, cheia de presença de espírito, esprit
de corps, servindo de modelo para o uivo de Allen Ginsberg,
judeu. Ambos gostavam de auto-afirmação, cada um em sua época e ao seu modo.
A tela da consciência é
caleidoscópica, impressões a mudar, como em palimpsesto, resíduos de impressões
passadas em jogo entre consciente e subconsciente, em múltipla exposição.
.
Não importa o que aconteceu, e sim o
que somos. Tal impulso contracultural integra a raça humana no mito e sua
disposição à rebeldia, humanismo revolucionário. Em meio a tantos significados
sem sentido, a contracultura é desafio à história. Ela busca
novos territórios conceituais, não por ser exótica, não quer a história como
narrativa continuada, visão hegemônica do potencial da humanidade. Recordar é
repetir? Era assim há cinco minutos, diria Geração X. Contracultura.
Fácil de reconhecer, difícil de definir. Esta Geração também dizia que a
tecnologia nos libertaria da miséria humana. Foi? Está sendo? Os hippies, como
na peça HAIR, anunciavam a Era de Aquarius. Houve? Há? O zeitgeist
contracultural ainda se estica desde a socrática Grécia.
O contracultural é livre da certeza.
Não é fácil viver verdadeiramente livre. Defender mudanças sociais e
individuais parece ser uma das respostas a isto. O livre pensar parece repleto
de riscos levando a solidão existencial e a falta de compaixão. Faça o que
quiser com a lei, disse o bruxo Aleister Crowley. Mas temos que saber bem qual
a nossa vontade.
Hoje, a cultura mundial é uma confusão
de valores. Desordem mundial. Parece que há um vácuo ético. Relativismo moral.
Cidadãos perdidos. Sócrates nunca questionou a escravidão
negra ou branca e o oráculo de Delfos o apontou como o homem mais sábio de
todos. Com sua filosofia dialética. Sem doutrina, na emocionante busca sobre a
verdade. Que é pensar sobre o pensamento. Ele foi o primeiro indivíduo. Até ele
o coletivo era lei. Sócrates teria sido o primeiro a sugerir conhece-te.
Arrancando o indivíduo do seu contexto histórico. Questionava todos os
sistemas. Interessava-lhe o processo não a burocracia. Já seu aluno Platão
imagina uma república quase fascista. Como um lugar utópico quase perfeito.
Meritocrático. Onde apenas os ricos podiam ter tempo para o autoconhecimento. O
governo por expertise (competência).
Assim,
a contracultura é tão antiga quanto à própria cultura, e, neste sentido, os
autores fazem uma “viagem” pela história mundial, a fim de evidenciar esta
afirmação. A contracultura seria uma “ruptura” e também uma espécie de
tradição. É a tradição de romper com a tradição, ou de atravessar as tradições
do presente de modo a abrir uma janela para aquela dimensão mais profunda da
possibilidade humana.
A
contracultura é a representação do que há de verdadeiramente novo e
verdadeiramente grandioso na expressão e no esforço humano. No entanto eles
destacam que nem todos os movimentos culturais e políticos que se opõem com
ideias inovadoras são por si só contracultura.
A
contracultura foi certamente propiciada pelas próprias doenças de nossa cultura
tradicional. Tais doenças condicionaram seu surgimento, como um antídoto, ou
anticorpo, necessário à preservação de um mínimo de saúde existencial, que
passou a ser socialmente exigido pelo próprio instinto de sobrevivência de
nossa vida em comum. Nossa cultura é, ela própria, uma doença. Uma arte
mórbida. O pensamento do século XIX tentou diagnosticar essa doença de
diferentes maneiras. Chama-se “alienação”, em Marx — e “neurose”, em Freud.
Este é o fim desta fala. Apenas o fim.
O fim, deste modo, como naqueles filmes, com uma cena bem chocante no final.
Mas como se fosse uma esperança. Um plot twist, no que seja a
contracultura e suas propostas. Misturando utopia e distopia, relaxamento e
aceleração. O que eu te escrevo continua.
O que nos resta nesta reta final?
Amanhãs...
O que te escrevemos continua: em histórica
contracultura.


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