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terça-feira, 18 de junho de 2024

ENTERRADO VIVO: A HERANÇA CULTURAL COMO ALIMENTO DA LITERATURA POPULAR

 

ENTERRADO VIVO: MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO EA HERANÇA CULTURAL COMO ALIMENTO DA LITERATURA POPULAR

BURIED ALIVE: CULTURAL HERITAGE AS FOOD FOR POPULAR LITERATURE

 

 

Bárbara Maria Rodrigues de Oliveira ¹

Graduando em Letras-Português, pela Uneal.

Prof. Dr Moisés Monteiro de Melo Neto

 

 


RESUMO

O presente artigo propõe uma análise crítica da obra cordelística Enterrado Vivo: O homem Que Virou Cordel, de Moisés Monteiro de Melo Neto, adentrando a narrativa do universo fantástico da Literatura Popular. Abordaremos os aspectos empregados na narrativa entre o diálogo apresentado e o leitor, o uso da oralidade a importância do cordel, herança cultural e literatura popular. Para embasar a análise, utilizaremos como referencial teórico: Antônio Candido (1958); Raymond Cantel, Leandro Gomes de Barros (1865); Haurélio (1974), acerca das características presentes na obra de Melo Neto . A escolha por explorar o cordel em questão surgiu pela apresentação do mesmo, motivada pelo seu contexto sócio – histórico de como o autor aborda, os dilemas de sua vida por meio de sua autobiografia atrelada a narrativa do cordel, tornando- os acessíveis e compreensíveis para os leitores deste gênero. Seus cordéis cotidianos permitem que os públicos leitores se identifiquem por meio da natalidade dos espaços expostos em seus enredos, adjunto da temática da sua autobiografia sobre vida/ obra do escritor Melo Neto.

PALAVRAS- CHAVE: Melo Neto; Literatura Popular; Enterrado Vivo; Estudo Crítico.

 

ABSTRACT

This article proposes a critical analysis of the cordelist work Buried Alive: The Man Who Became string, Moisés Monteiro de Melo Neto, entering the narrative of the fantastic universe of Popular Literature.We Will address the aspects used in the narrative betweenthe dialogue present and the reader , the use of orality the importance of string,  cultural heritage and popular literature . To support the analysis , we Will use as a theoretical framework: Antônio Candido (1958); Raymond Cantel, Leandro Gomes de Barros (1865); Haurélio (1974), about the characteristics present in the work of Melo neto. The choice to explore the string in questions rose due to presentation of the same, motivated by its socio- historical context of the author addresses, the dolemmas of his life throung his autobiography linked to the narrative of the string, making them accessible and understandable for readers of this genre.Its daily threads allow readers  to identify themselves  thuough the natality of the spaces exposed in his plots, adjunt to the theme of his autobiography about the writer’s çife/work Moisés.

KEY WORDS : Moisés; Literature Popular; Buried Alive; Critical Study.

 

INTRODUÇÂO

 

A Literatura popular é patrimônio cultural da humanidade, propagada além – mar de geração a geração, representada através das heranças culturais  enaltecidas pela prosa e poesia, instrumentos literários que entrelaçam as narrativas populares, sejam estas produções acerca da literatura popular, em obras ou produzidas apenas por versos orais. Ao realizar a combinação entre os conjuntos de elementos , sobre a perspectiva da estilística do entreterimento enaltecidas através dos recursos multivariáveis da tradição oral, assim essas obras estimulam o desenvolvimento de habilidades acerca da viabilidade da visão de mundo, seja esta contemporânea, ou do autor sobre o fenômeno verbal por intermédio das formas típicas das culturas populares, tais como: contos, lendas, advinhas, quadras, anedotas, ditados, frases, trava-línguas e etc. Em destaque evidenciaremos o objeto de estudo que será: A poesia narrativa do gênero cordel , acerca da ótica do desenvolvimento da literatura popular. As configurações da literatura popular, denotam o envolvimento entre os fenótipos literários de ações e histórias narradas pelo povo e transmitida entre gerações.

De acordo com Barros (2002), faz uma bela narração acerca das produções da literatura popular, sobre sua manutenção e disseminação, conforme se vê abaixo:

A literatura popular mantém viva a memória das produções de uma sociedade e que estas produções consistem de uma tradição. Com o tempo, foram se agregando e definindo novos elementos, principalmente no campo da oralidade, práticas modernas que ampliam o contingente tradicional (BARROS, 2002, p.45).

 Dessa forma, o cordel e o repente dividem a mesma origem funcional, que é a literatura oral. A poesia popular impressa herdeira do romanceiro tradicional da literatura oral (em especial dos contos populares, com predominância dos contos do encantamento ). O cordel é um dos galhos da árvore da poesia popular, assim como o repente. Mas, cordel e repente não são a mesma coisa, pois, á medida que a árvore cresce, os galhos vão se distanciando, embora estejam unidos pela origem comum (HAURÉLIO, 2007, p.15). Assim, o cordel na forma escrita é caracterizado em folhetos impressos, compostos por rimas e sextilhas, que ao mesmo tempo podem se tornarem repentes se pronunciados oralmente em ritmo e sonoridade musical.

Nessa perspectiva, a literatura tem por objetivo recriar e transmitir a realidade por intermédio da mundividência do autor, a propagação dos sentimentos e a reprodução de técnicas narrativas, transmitem uma mensagem com enfoque crítico – social as histórias composta por personagens, em seus mais variados espaços e tempos, está inserido em seu processo de criação e expansão o recurso do “fantástico”, retratando os dilemas entre o escritor e seu alvo leitor. Desse modo, o cordel se fundamenta dos recursos listados acima, adjunto da sátira de entreter seu público, rebelando suas funções sociais e a caracterização da tradição literária narrada no gênero, a presença da natalidade, nos espaços dos cordéis nordestinos . Sobretudo, no processo demonstrativo da herança cultural e ancestralidade, por meio da prosa e poesia, disseminadas ao leitor forma oral /escrita o cordel poderá assumir suas mais variadas formas , seja em versos ou repentes a função social é a mesma.

Nesse contexto, o objetivo é realizar uma análise da obra cordelistica Enterrado Vivo: O Homem Que Virou Cordel , de Moisés Monteiro de Melo Neto, evidenciando o diálogo com o leitor, o uso da oralidade, o emprego da narrativa, acerca do auto- retrato biográfico, descrito sobre a configuração de seu cordel, de maneira assídua sobre sua própria viajem cronológica de Melo Neto, entre sua vida/obra, realizando uma descrição em prosa acerca de si mesmo sobre o processo do fazer cordelístico. Para embasar a análise, foi recorrido aos estudos de Antônio Candido (1958), Raymond Cantel (1905), Leandro  Barros (1865) , Haurélio (1974) acerca das características presentes na obra de Moisés.

Este estudo está dividido em três partes distintas. A primeira seção reflete sobre a literatura popular brasileira; a segunda seção oferece uma breve visão sobre a vida e as contribuições de Moisés Monteiro Melo Neto para a literatura popular brasileira; e por fim a terceira seção foca na análise dos aspectos apresentados pelo autor na narrativa. Esses temas serão desenvolvidos nas seguintes seções .

 

  1. LITERATURA BRASILEIRA E POPULAR

 

Os primeiros registros em literatura no Brasil se sucedeu ao nascimento derivada intimamente a Portugal. Visto que, a relação colonialista que a descoberta recente mantinha com o país europeu, assim, a literatura brasileira surgiu com o desdobramento da literatura da língua portuguesa. Desse modo, o primeiro escrito em terras brasileiras se denomina A Carta de Pero Vaz de Caminha, a crônica narrada pela viagem é considerada um documento histórica, devido aos detalhes e contextos descritos, sendo considerada como o primeiro texto literário brasileiro, a carta sendo uma descrição de terras brasileiras em meados de 1500, possuía a função de cunho informativo.

A sua presença universal apenas existe e pendura pela sua contribuição no desenvolvimento de mundo. A literatura pode ser um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de restrição dos direitos, ou de negação deles, como a miséria, a servidão, a mutilação espiritual. Tanto num nível quando no outro ela tem muito a ver com a luta pelos direitos humanos (CÂNDIDO, 1988). Dessa forma, quando o leitor realizar a compreensão dos textos, de maneira decodifica o mesmo, transcende sua interpretação além do texto, suas conclusões e percepções vão além, identificando assim, que as interpretações da visões de mundo partem a partir da narrativa inserida, por meio da cultura transferida.

A literatura brasileira realizou uma longa viagem por alguns períodos, tais como: Quinhetismo, Barroco, Arcadismo e Romantismo até se configurar ao modelo atual que temos nos dias de hoje. No entanto, apesar de alguns textos literários serem escritos no período do Quinhetismo, essas confecções não foram nomeadas como textos literários, devido a intencionalidade da iniciação de seu procedimento na ação criativa, pois não possuíam a intencionalidade artística ou estética no ápice de suas criações, antes de mais nada a literatura, seria formada de um sistema composto por obras literárias de características dominantes de uma escola literária.

Primordialmente, a literatura brasileira fica evidente assim, apenas no século XIX, após o período do Romantismo, em detrimento as produções de cunho literário de outros períodos listados acima, apesar de não serem identificadas como obras literárias as mesmas, contribuíram de forma significativa ao processo de formação do sistema vigente da literatura brasileira. Desse modo, uma das faces da literatura é a literatura popular, que é a designação da literatura oral, um conjunto de arte verbal de um povo, sobre o processo cultural artístico, introduzida e permeada através do gêneros que compõem este aglomerado, evidenciando seu enfoque objetivo que é a representação cultural, em ênfase a representação do espaço/ tempo nordestino evidenciados como tal, nas produções cordelísticas, podendo ser na perspectiva política ou social.

A literatura popular se centraliza em rebelar suas mensagens sociais, por meio da propagação das narrativas, por exemplo: os cordéis sejam estes, em versos ou em repentes , utilizando a sátira do humor é enaltecido sua função social de forma clara e objetiva, utilizando os recursos culturais que retratam o seu contexto, e a linguagem  daquele povo representado e ouvinte, denominando assim, o ato  do fazer literário através do advento dos fenômenos artísticos culturais, por meio da propagação e disseminação dos cordéis. Conforme os exemplos supracitados acima, percebe-se que a literatura promove o entrelaçamento entre as manifestações culturais e artísticas, através das junções entre escrita e oralidade.

Reymond Cantel (1914-1986), professor de literatura portuguesa e brasileira ¹, foi um pioneiro da divulgação da poesia popular brasileira em França, juntou ao longo das viagens e conferências que fez no Brasil a partir dos 1950, uma rica coleção que nunca reduziu á expressão ingênua dum folclore ”Esta literatura não contém nenhuma obra – prima no sentido clássico do termo, mas o conjunto é impressionante e o seu poder de fecundação notável todas as artes no Brasil se devem algo” (CANTEL, 2005, p. 83).

 

  1. SOBRE MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO : UM PASSEIO SOBRE A VIDA E PRODUÇÃO DO ESCRITOR

 

Moisés Monteiro de Melo Neto , veio ao mundo em 27 de março Dia Mundial do Circo e do Teatro, a data de seu nascimento já marcava sua narrativa que seria para o teatro, “uma vida artística”, nascido na Avenida Conde da Boa Vista, na capital pernambucana. Moisés iniciou sua trajetória descendente da Família Belli, seu bisavô materno Felici de Beli, veio de Napóles. O nome Belli tem origem de Tyrol na Itália, o mesmo obteve dificuldades em seu território após o Império Romano, foi ocupado sobre fortes poderes políticos e religiosos. Os país do escritor são: Mário Monteiro Muniz e Célia de Lourdes de Belli Peixoto Monteiro, seus irmãos são: Mário e Fátima, tios: Osíris e João de Bell, poetas paraibanos e membros do teatro paraibano.

Sua infância foi marcada de acontecimentos, o pequeno Melo Neto sofria de crises respiratórias fortíssimas, as madrugadas eram difícies e dolorosas  marcadas por uso de remédio fortes e que o debilitavam, o pequeno era apelidado por “cigano” e “bandoleiro”, por viver sempre com uma mochila pronta para ir para algum lugar, possuí no mínimo três endereços diferentes. No entanto, neste mesmo período, participou de um concurso de escrita e obteve a premiação em segundo lugar, aos 11 anos de idade decidiu morar com seus avós, pois a convivência com seu pai era difícil, seu genitor não o compreendia. Na sua adolescência curso o Ensino Fundamental: Instituto Andrade e Colégio Santos Dummont, seu ensino médio foi cursado no Colégio Contato e Colégio Americano Batista, possuía como lazer Cinema Vera Cruz

A fase adulta de Moisés foi marcada pela iniciação de sua carreira artística, em 1979 ele estava com a Trupe do Frei Caneca, sendo que aos 18 anos participou do especial: A Cartomante na Tv Universitária, fundou o grupo ilusionista na década de 80, em 1982 realiza  sua primeira produção literária denominada como: “A Incrível Noite”, com gênero: ficção. Dessa forma, o escritor possuí cerca de 10 livros publicados e mais de 40 peças de teatro, com sucesso de público e de escrita, entre suas peças teatrais premiadas está: “Sonho de Primavera”, voltada ao público infantil a mesma permaneceu em cartaz por cerca de sete anos, entre outras obras.

Ao realizarmos está viagem cronológica, chegamos aos dias atuais com sua experiência profissional: na área de Letras com ênfase em Literatura Comparada, Estudos Culturais, Produção Textual, Literatura Portuguesa e Indígena, é professor universitário, escritor e dramaturgo, está na Academia Palmeirense de Letras, Pesquisador do Grupo de Pesquisa (NEAB): Identidades Culturais: Preservação e Transitoriedade na Cultura Afro-brasileira da universidade de Pernambuco, Líder do Projeto (TUPI) Teatro Universitário Palmeira dos Índios.

 

  1. A IMPORTÂNCIA DO CORDEL PARA A LITERATURA POPULAR

 

A Literatura de Cordel  é determinada por uma grande manifestação literária da cultura popular brasileira, que especificamente retrata o espaço e tempo nordestino, estado ao qual denota sua consolidação histórica através de rimas e versos. O Cordel por vezes, utiliza de uma linguagem informal local, assim, o mesmo não segue os padrões da norma culta padrão da língua portuguesa, caracterizados por resquícios da variação lingüística e vícios de linguagens derivados da natalidade local presentes no Nordeste/Sertão. O modelo de escrita encontrado nos cordéis, pode estar presente em folhetos acompanhados pela capa em xilogravura e os recursos de imagens ilustrativas associados a tal técnica.

Os cordéis chegaram ao Brasil em meados do século XVIII, com os trovadores que remetiam o legado da cultura  portuguesa. O cordel possui conceitos múltiplos e recebe, em sua estrutura temática , peculiaridade da cultura popular, levantando questões  e raízes históricas de modo a retratar uma poética formada por rimas. Considerando as acepções acerca dessa temática. Haurélio (2016) assegura que:                                        

A Literatura de Cordel é a poesia popular herdeira do romanceiro tradicional, e, em linhas gerais, tributária da literatura oral ( em especial dos contos populares ), desenvolvida no Nordeste e espalhada por todo Brasil pelas muitas diásporas sertanejas. Refiro-me, evidentemente, á literatura que reaproveita temas da tradição oral, com raízes no trovadorismo medieval lusitano, continuadora das canções de gesta , mas, também, espelho social de seu tempo. (HAURÈLIO, 2016, p.9-10).

Dessa forma, o gênero textual cordel abrange a representação cultural com objetivo de transmitir e propagar aquela cultura, abrangido no decorrer dos tempos os ciclos históricos, e a poesia tradicional por meio das manifestações culturais e artísticas, evidenciando a poética cordelística, assim como o lirismo  enaltecendo os processos sociais e culturais de um povo, pode- se destacar a importância do cordel sobre a perspectiva histórica, através desta narrativa fica evidente compreender a origem da Literatura de Cordel:

Quando a Literatura de Cordel , ou de folhetos , estava tomando forma, viviam na Região do Teixeira afamados cantadores como o escravo Inácio da Cantigueira e Romano da Mãe d’ Água. Inácio, embora analfabeto, era brilhante improvisador e Romano, seu oponente numa peleja, possuía rudimentar instrução. Leandro, por outro lado, mesmo sendo bom glosador, decidiu – se por registrar no papel os seus versos, possivelmente ainda no Teixeira, levando – os ao Prelo em Pernambuco. A peleja de Inácio com Romano foi recontada em folheto por Leandro – que reaproveitou trechos caídos na oralidade-e por Silvino Piraruá de Lima. ( HAURÈLIO, 2016, p.14)

 

3.1.CORDEL: ENTERRADO VIVO : O HOMEM QUE VIROU CORDEL

 

Sou enterrado vivo

Pense você o que pensar

Tudo começou bem cedo

Não precisa adivinhar

Porque vou contar tudinho

Só Você acompanhar

 

Vi peleja em Pernambuco

Do litoral ao Sertão

Foi assim que o cordel

Tomou o meu coração

Eu pensei que era brinquedo

Era mesmo possessão

 

Balançando numa rede

Comecei a ler livrinhos

Mergulhei como no mar

Pareciam tão fininhos

Pensamentos na fundura

Voltaram á tona , mansinhos

 

Mas era tarde demais

Eu já estava destinado

A ser poeta errante

Santo e amaldiçoado

Às torturas e aos gozos

De um cabra bem letrado 

 

Hoje vou contar a história

Neste folheto assim

Pra que você não se esqueça

Uma autor igual a mim

Perdi-me cedo nas sendas

Deste cordel sem fim

 

O vento soprava forte

Vindo ali do litoral

Parecia assombração

Chamando para o umbral

Gostava daqueles versos

Parecia tão natural

 

Na verdade era vertigem

Da entrada ao quintal

E o menino que eu era

Fugia assim do seu mal

Na estranha solidão

Esse encontro fatal

 

Eu tinha uma doença

Que eu não quero nem falar

Melhorei um pouco ali

Mas meu Deus a me olhar

Disse : “estás assinalado”

E não tente escapar

 

O primeiro romance fiz

Daí eu desembestei

Foram tantos folhetos

Reparando só  eu sei

“Oropa” , França , juazeiro

Pelas estradas eu viajei

 

Até que chegou o dia

Na faculdade estudei

Me formei e fui doutor

E a muitos ajudei

Mas vida de poeta

Só do preço eu sei

 

Tive mulheres e homens

Que seguiram meu cantar

Como flautista em Hamelin

Limpando o meu lugar

Por um preço requerido

E não quiseram pagar

 

E eu tive destino

Trabalhando pra esquecer

Da dor no meu coração

Mas eu fiz isso valer

E não sei dizer como

Àgua virou pó , pode crer

 

Vi o peso da fumaça

A seca e a enchente

Se feliz não fiz alguns

Mas não deixei  de estar crente

Que Jesus me ajudaria

Se eu caísse doente

 

Foram tantos os caminhos

Nos quais cantei por aí

Você , nunca me pergunte

Como foi que eu saí

Das encrencas , desacertos

Surfei até o Havaí

 

De jovem me fiz mais velho

Vendo tudo como um novo

Para não perder a esperança

À Virgem Maria eu louvo

Nessa tal Literatura

Dentro da qual eu me movo

 

Agora eu vou lhes contar

O que foi que sucedeu

Tocaram fogo no circo

E disseram que fui eu

Foi um jogo tão perverso

E roubaram o que era meu

 

Joguei fora o casamento

Em nome da aventura

Tudo para mim eram as Letras

Essa tal Literatura

Eu fui enterrado vivo

Em mágica sepultura

 

O truque reconheci

Mas o tempo foi passando

Eu só vivia escrevendo

Lendo tudo pesquisando

E fui nos tais folhetos

Versos aperfeiçoando

 

Agora aqui eu me encontro

Resolvendo essa questão

Foi a fé que me salvou

Me trouxe consolação

Não jogo mais minha sorte

Nas mãos de assombração

 

O castelo que criei

A minha ciência , enfim

Está tudo espalhado

Como se fosse um jardim

Padim Ciço me proteja

Padrinho cuide de mim !

 

Foi banquete e homenagem

Meu caminho teve disso

Mas tive que cumprir tudo

Concluindo o compromisso

Início de um novo tempo

Dando ás ilusões sumiço

 

Vou dedicar a existência

Os anos que me restam

A este que é meu ofício

Dando amor aos que me prestam

Os outros eu vou perdoar

Assim eles desembestam

 

Mas para continuar essa parte

O acréscimo se anuncia

Isso não acaba aqui

È assim que eu prometo

Salve Deus , Jesus e Maria.

 

 

3.2. ANÁLISE DO CORDEL ENTERRADO VIVO : O HOEM QUE VIROU CORDEL

 

Sou o enterrado Vivo

Pense você o que pensar

Tudo começou bem cedo

Não precisa adivinhar

Porque vou contar tudinho

Só você acompanhar

 

A produção cordelistica é composta por 24 estrofes. Melo Neto retrata por meio de versos a sua autobiografia enquanto cordelista, através dos elementos transitórios que derivaram o autor a seguir a escrita no determinado gênero. Nessa perspectiva, em cada estrofe, é possível reconhecer por meio da prosa e poesia os seus relatos contextualizando o desejo e prazer a qual possuí pelo universo literário em especifico pela literatura de cordel é identificada de forma clara e objetiva sua lírica, remetendo por intermédio da escolha do título: Enterrado Vivo: O Homem Que Virou Cordel, direciona o público leitor a uma manifestação literária construída a sua narrativa autobiográfica, evidenciando a licença poética do público leitor em localizar e interpretar as idéias expostas l.

O cordel intitulado acima, apresenta a sua produção autobiográfica. No entanto, mantém os traços originários do cordel, tais como: a rima e métrica de forma acentuada e seguindo os termos estéticos e linguísticos e os estudos acerca da Literatura de Cordel, podendo ser utilizado de diversas formas desde culminância literária, como objeto de estudo e sequência didática em escolas e universidades. Dessa forma, na última estrofe podemos encontrar um acróstico evidenciando o nome do escritor Moisés, concluindo assim, que a obra é sua produção autobiografia, e que o mesmo pretender transcender suas obras literárias, como se destaca abaixo:

Mas pra continuar essa parte

O acréscimo se anuncia

Isso não acaba aqui

Só noutro cordel , cantoria

È assim que eu prometo

Salve Deus , Jesus e Maria.

 

3.3. A MULTIVIDENCIA DE MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO

 

A visão de mundo de Melo Neto é configurada pelo universo do “fantástico”, sendo possível observar e destacar este fenômeno em suas produções, assim, como as produções de recursos dicreativos retratando o discurso discursivo, especificamente nas produções de cordéis destaca-se: os recursos de polifonia na escrita de cordéis, a utilização de gêneros dramáticos com objetivo de fixar o leitor no clímax de suas narrativas, e a natalidade, tempo e espaço atreladas as vivencias do autor constituí  seu processo criativo literário. O escritor destacado acima, é o narrador transgressor em sua escrita literária expõe os eixos sociais da sociedade por intermédio do recursos líricos nas configurações das narrativas.

Nesse viés, em suas obras identifica-se o recurso da expressão “Além – mar”, a qual o escritor utiliza para transcender que aqueles fenômenos supracitados, irão além de suas idéias centralizadas e expostas que terão continuidade, com enfoque no  social e interpretativo, adjunto da representatividade do modelo de escrita que é caracterizado como: atemporal  literário, é identificada assim em seus enredos os elementos de autoficção, atrelados aos  recursos de ficcionalidade em seu modo de escrita, técnicas utilizadas para envolver seu público leitor, para que os mesmos se identifiquem e evidencializem as mensagens sociais ao quais o autor, retratam em suas narrativas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Por meio desta análise, fica evidente que a narrativa da literatura popular do autor , de maneira denotativa aos recursos da literatura popular, aborda os dilemas acerca da importância da literatura para configuração e retratação do modelo de escrita do cordel, permitindo que o público leitor compreendam e interpretem a narrativa em volta do cordel supracitado. Moisés domina a arte de nos envolver em suas idiossincrasias , fazendo com que nossos leitores se identifiquem com as histórias no cotidiano e em suas próprias vivências. Os recursos de imagens adjuntos da linguagem popular, sugerem ao leitor a criação de novas imagens acerca do fazer cordelístico e sensações, ampliando assim, o alcance de sua escrita literária.

Principalmente em sua escrita, Moisés aborda os dilemas associados a construção do processo de escrita da sua autobiografia , de maneira clara e objetiva retratando por meio da narrativa do cordel, direciona ao leitor para a idéia que Moisés, foi enterrado em um sepultamento de cunho literário, desde o primórdio de seu nascimento e o mesmo, carrega este processo do fazer literário, sendo a retratação por meio de cordel a uma manifestação literária de cunho biográfico do autor, a produção cordelística apresenta seus traços biográficos, de forma atemporal , mantendo a originalidade do processo de escrita da estrutura de um cordel. Um dos pontos fortes do cordel, é que mesmo sendo um retrato vivo, seguem–se o sistema de rima e métrica estabelecidos no âmbito literário, o autor consegue envolver todos os elementos em função da configuração do produto de seu cordel, de domínio de escrita de representação de si mesmo , fica evidente na última estrofe de seu cordel, pela utilização do recurso de acróstico utilizado em ênfase de seu nome.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CANDIDO , Antonio. O direito á literatura . In _____________.Vários Escritos . são Paulo : Duas Cidades ,1995, p.253-263.

 

CANTEL ,R.(2005), La litterature populaire brésilienne, CRLA , Poitiers.

 

MAXADO , Frankilin. O que é literatura de cordel? São Paulo: Hedra,2007.

 

HAURÉLIO , Marco. A trajetória do cordel No Brasil , em prosa e verso . In: Cultura Crí-ti-ca (Revista Cultural da APROPUC-SP) N°8 .Dossiê sobre Literatura de cordel . São Paulo, 2007.

 

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Entrevista sobre literatura colonial no Brasil, alunos com o professor Moisés Monteiro de Melo Neto


 

1. Como a literatura brasileira aborda as razões e as origens do escravismo indígena durante o período colonial, revelando perspectivas e interpretações sobre essa fase da nossa história?

 

De 1540 até 1570 a escravidão indígena tentou se impor nos engenhos brasileiros, principalmete Pernambuco e Bahia. Os colonos tentavam escravizar os índios roubando-os de tribos que os tinham aprisionado e também, atacando as próprias tribos aliadas.

por razões óbvias — junto com os europeus, vieram as epidemias: a gripe, o sarampo e todas as febres, que dizimaram a população indígena

resistência indígena se dava pelas fugas dos aldeamentos missionários e de outros tipos de cativeiro, vilas e fazendas, havia também o suicídio quando presos.

 

2. De que maneira as obras literárias produzidas durante o período colonial refletem as relações entre colonizadores e povos indígenas, evidenciando a complexidade das dinâmicas sociais e econômicas que levaram ao surgimento do escravismo indígena no Brasil?

Dos mil e 500 temos a literatura informativa e alguns tetos do período chamado barroco, o índio é tratado de maneira terrível, nos 1700, Cláudio Manoel os inclui, de modo discreto, como construtores, ao lado dos negros e brancos, de Vila Rica (nome de um poemeto épico de Suicidado Cláudio, nosso Glauceste Saturno, chamado por Doroteu, por Tomás Antônio

Mas os pontos de maior destaque são os épicos O Uruguai (1769) e Caramuru  (1781)

 

 

3. Qual é o papel da literatura contemporânea brasileira na revisão e na problematização das narrativas tradicionais sobre o escravismo indígena, contribuindo para uma compreensão mais ampla e crítica desse aspecto da história colonial do país?

 

 

A atual literatura indígena impressa vem crescendo em qualidade e quantidade, problemas mais graves têm aparecido,

 

41  Ambígua, híbrida é local e nacional , nova escrita e deveria estar na escola, sendo ensinada no Brasil em geral; mas deixada em terceiro plano

 

4mas aNova Literatura Indígena

 Está Se espalhando no país

Munduruku, Jekupé,

Yaman, Pataxó, diz

Kithaulu, Potiguara, fala

Terena, Guará, raiz

 

43 Haki'y, Wapixana, Yaguakãg

 Makuxi, Kerexu Mirim

Não digo que não é sem preconceitos

 Mas seu conteúdo cognitivo  é fortíssimo

 Tem valor próprio de sedução

Como arte tão importante e Função simbolizadora

 Precisa de espaço próprio

 Ma

 

Para presentificar-se plenamente

E ser cada vez mais estudada

Não apenas como local de fala, que ela tem

 

Mas pelo reconhecimento das Autorias indígenas na nossa literatura brasileira

É Literatura forte

Erroneamente escondida

Era entregue à própria sorte

questões indígenas, são Letras diferenciadas

direito de expor essa  arte

sua

propriedade intelectual

 

Oral e escrita

Oratura ou impressa

saberes, fazeres e crenças

apontando saídas

sobre crise ambiental

a muitos ela interessa

 

4. Quais são alguns exemplos de manifestações culturais que têm suas raízes na experiência dos povos indígenas como escravos, e como essas influências se manifestam na cultura popular contemporânea?

 

Pouco posso dizer cobre manifestações culturais que têm suas raízes na experiência dos povos indígenas como escravos, e como essas influências se manifestam na cultura popular contemporânea. Se formos assim também tocaremos na questão afro e no subemprego dos brancos e mestiços, também. A cultura brasileira é amálgama, mas não é homogênea.

Vemos várias tendências no nosso país. Tenhamos, quanto a isso, também, Liberdade, Igualdade e fraternidade.

 

5. Qual foi o papel do teatro na representação do escravismo indígena do Brasil colônia?

 

A catequização promovida pelo teatro de Anchieta é o mais forte exemplo da demonização da cultura indígena. O índio do romantismo, em romance que virou ópera, o Guarani, e outras obras, tem todas as fronteiras que asseguravam direitos aos povos primitivos, rasuradas.

quinta-feira, 21 de março de 2024

Nova PAIXÃO DE CRISTO. Texto de Moisés Monteiro de Melo Neto. Direção José Francisco Filho

 

Recife recebe espetáculo inovador 'A Paixão' na Igreja de Santa Tereza D'Ávila

Com uma duração de uma hora, a obra apresenta uma visão singular de Jesus Cristo, retratado como um homem nordestino

20/03/2024 às 17h31Atualizada em 20/03/2024 às 19h12
Por: Agenda News PE
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Foto: Assessoria de Comunicação/divulgação
Foto: Assessoria de Comunicação/divulgação

Na quarta-feira (27), celebrando o Dia Internacional do Teatro e o aniversário do autor Moisés Monteiro de Melo Neto, chega o tão aguardado espetáculo "A Paixão". Com direção de Zé Francisco, a peça será encenada na majestosa Igreja de Santa Tereza D'Ávila, localizada na Avenida Dantas Barreto, no bairro de São José, ao lado da Basílica de Nossa Senhora do Carmo. O espetáculo também será apresentando nos dias 28 e 29 de março, às 18h, mesmo horário do dia 27.

O diretor (camisa vermelha) com o autor (às sua direita) e o elenco desta nova PAIXÃO DE CRISTO


"A Paixão", escrita por Moisés Neto, promete surpreender e emocionar o público. Com uma duração de uma hora, a obra apresenta uma visão singular de Jesus Cristo, retratado como um homem nordestino, pernambucano, recifense, com uma conexão profunda com a terra e a cultura do sertão de Pernambuco. Apesar de idealizada para ser apresentada no Vale do Catimbau, a pandemia forçou a produção artística a adaptar o espetáculo para a magnífica Igreja de Santa Tereza D'Ávila.

Moisés Neto, inspirado por autores como Nikos Kasantzákis e José Saramago, compartilha que a criação de seu Jesus Cristo foi impulsionada por reflexões profundas sobre a figura histórica e religiosa. Para o dramaturgo, Jesus é não apenas um ícone religioso, mas também um grande pensador, cujo legado transcende séculos.

José Francisco, renomado diretor teatral, descreve "A Paixão" como uma experiência marcante em sua carreira. Ao contrário das tradicionais Paixões de Cristo, o espetáculo propõe uma abordagem diferenciada dos textos bíblicos, mantendo os elementos essenciais da narrativa, mas reinterpretando-os de forma única e inovadora.

Destacando a importância histórica de Antônio Conselheiro na fé popular brasileira, José Francisco e Moisés Neto exploram as semelhanças entre esse personagem e a figura de Jesus, enriquecendo ainda mais a trama e trazendo uma perspectiva revolucionária ao espetáculo.

Uma das características distintivas de "A Paixão" é seu elenco enxuto, com apenas 11 atores interpretando os papéis principais, o que possibilita sua apresentação em outras igrejas monumentais pelo Brasil. Essa abordagem, segundo o diretor, não apenas torna o espetáculo mais viável tecnicamente, mas também ressalta sua natureza inovadora.

O elenco, composto pelos atores Buarque de Aquino - Herodes, Flávio Freire - Antônio Conselheiro, Ismael Holanda - Antônio Conselheiro 2, Ibson Quirino - Jesus, Roberta Marciana - Maria, Alef Vidal - Soldado 1 - Wescley Mariano - Soldado 2, Emerson Rodrigues - Pilatos, Misia Coutinho - Madalena,  Ana Persi - Demônio. Com uma equipe técnica liderada por profissionais experientes como Luciano Rudrox, Jathyles Miranda e Ricardo Vendramini, "A Paixão" promete transportar o público para uma jornada única de reflexão e emoção.

segunda-feira, 4 de março de 2024

CALEIDOSCÓPIO A TRAJETÓRIA DE JOSÉ FRANCISCO FILHO TRANGRESSÃO NO PALCO E NA VIDA e O ROMANCE PALIMPSESTO, de Moisés Monteiro de Melo Neto

 

Não sei o que é o foco prioritário ao escrever sobre alguém, sempre quero saber mais e nunca penso em parar de escrever sobre o que gosto. François Dosse, em O Desafio biográfico, foi um dos que me serviram de inspiração para escrever esse livro, mas meu estilo é outro, bem diverso ao dele. Os planos de fundo que escolho são bem peculiares, nas escolhas dos meus ângulos fujo dos lugares comuns dos biógrafos.

Meu livro nada tem de oficialesco, limpo, chapa branca. Desde dois mil e quinze o STF liberou biografias não autorizadas, pois bem, comecei aí a escrever biografias. As biografias que escrevi são amálgamas.

 


MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO, autor da biografia de José Francisco Filho e do romance pernambucano Palimpsesto



CALEIDOSCÓPIO

A TRAJETÓRIA DE JOSÉ FRANCISCO FILHO

TRANGRESSÃO NO PALCO E NA VIDA

Uma pop-biografia de um artista recifense: como J.F.F. subiu ao palco, foi professor universitário e se manteve com a cabeça erguida, com amor, humor, dignidade, aventuras, gozo, sangue, suor e lágrimas

                                                                                                                               


(biografia escrita por Moisés Monteiro de Melo Neto)

 

 

 

 

Duvido de autores que dizem não praticar uma escrita rica de amálgamas. Busquei construir uma narrativa viva, mas não criando cenários, episódios, tensões, revelando vínculos, contextos de épocas diferentes, diferentes ensinamentos. No calor da escrita, quis saciar minha curiosidade. Ressaltar coisas vividas. É literatura, história e um pouco de jornalismo, mas é também arqueologia do saber, do fato criativo, fértil. Sugiro mais do que eu digo. É um texto de cunho biográfico, mas eu não evitei as licenças poéticas ao organizar as informações colhidas sobre J.F.F.

De tudo que coletei, busquei o mais fluido e colorido possível. Sou mais autor do que biógrafo, claro. Não fiz louvação ingênua, nem desconstrução do folclore teatral do provinciano Recife.

Meus amálgamas são misturas, movências. Houve mesmo prazer em trabalhar na investigação sobre. J.F.F. e fiz surgirem, ressurgirem vozes incontroladas, adormecidas. Heródoto (autor da história da invasão persa da Grécia, ocorrida no final do século V a.C., conhecida simplesmente como As histórias de Heródoto), ele foi colocado como o pai da história.

Muitos biógrafos buscam as particularidades das personalidades dos indivíduos, sem ressaltar nem qualidade, nem defeitos. É mais ou menos isso: criei apenas um amplo mosaico. Não sou um retratista de alma. Olhei pra J.F.F. como se fosse para um espelho, na verdade como uma sala de espelhos. Não era uma cronologia de fatos, o que eu buscava. Deixo isso aos jornalistas.

Ah, as biografias...só no final do século dezessete o termo biografia (isso é uma biografia?) surgiu no dicionário da Europa. Sabemos que na Escola dos Annales, na França (1929), Luciene Febre e Marc Bloch desprestigiaram o gênero biográfico. Queriam mais interpretação do que numeração de fatos. Escrevo pelo gozo da transgressão.

 Jacques Le Goff escreveu a biografia de São Luís e colocou em xeque as relações que existem entre a história vivida, a história "natural", senão "objetiva", das sociedades humanas, e o esforço científico para descrever, pensar e explicar esta evolução, a ciência histórica.

 Fala-se de micro-história. Será que é isso que estou fazendo ao contar episódios da vida de JFF? O historiador usa binóculo, o biógrafo lupa. Desertificaram a vida dos nossos astros do teatro recifense. Estou aqui para repovoar a de um deles. Sou um pesquisador e um sonhador, meio pedra e meio sonho. Quando eu entrevistava as pessoas que conviveram com o J.F.F., eu estava biografando parte da vida dessas pessoas também, jamais querendo fazer pedagogia moral. Não queria uma biografia seca, mas apaixonada. Escrevo sobre quem ou o que me fascina. Da massa caótica que reuni, ressurgiu um novo J.F.F.

 Não tenho pretensões de historiador: sou apenas contador de histórias e gosto de romper com a ordem cronológica, sempre. Gosto de apagar rastros, maquiar esforços, exaltar a nobreza atemporal. Escrevo sobre um diretor, mas percebo os seres e as coisas ao seu redor: ele não existiu no vazio histórico, no vácuo Trata-se de uma articulação com todos e tudo. Também não quero usá-lo como recheio de um sanduíche. Tentei não deixar mais de cinco parágrafos sem mencioná-lo. Sentei-o no centro.

Por que uma pop biografia? Pop também significa sem preconceitos, fugindo das armadilhas das biografias tradicionais, da “nobreza acadêmica”, mas elaborada, também, mesmo que paradoxalmente, a partir determinada tradição e de olho na indústria cultural. Trabalhamos a partir de fontes usuais e dos conteúdos do gênero biografia, mas com um olhar mais contemporâneo, defendendo a experimentação dialógica com a construção literária no sentido político e cultural.

Buscamos, nessa biografia de J.F.F., estampar formas da cultura que marcaram sua vida cotidiana, artística, afetiva, profissional, tendo em vista algumas formas de pensar e viver das pessoas que constroem seu tempo, devolvendo mais poder ao leitores e leitoras, para que sejam mais livres, talvez, integrá-lo às suas vidas.

Pierre Bourdieu alcunhou como ilusão biográfica uma espécie de ficção de si, apoiada em instituições de totalização e de unificação de si que direcionam a atribuição de sentidos e a busca de coerência aos acontecimentos considerados, pelo narrador, como mais significativos na história de sua vida, fiz isso.

Não quis explicar as coisas retrospectivamente. Encontram-se aqui os elementos que compõem a peça central e os personagens, mas a vida em si ninguém pode expressar. Também não gozo aqui da mesma liberdade que tenho quando escrevo ficção. Num misto de vida e literatura J.F.F. se ergue, se reconstrói. Sou como um artista mais ou menos sob juramento. Numa espécie de ilusão controlada. Busquei sinais, indícios, resquícios. Garimpei buscando a essência das minhas descobertas. Procurei aquilo que não se conhecia, ou não se lembrava, sobre o biografado, mas que poderia defini-lo para outras gerações, também.

A primeira parte do meu trabalho foi uma espécie de fichamento. Essa minha mania acadêmica, mas só para meu controle. Resolvi não expor explicitamente tais referências aqui. Substituí a ordem linear por um encadeamento diferente.  Algumas vezes eu voltava a um ponto da vida do biografado que parecia já estar resolvido em outra parte. Lembrar que todo discurso, parte de um lugar e serve a uma causa. Objetividade e imparcialidade são mitos? Era o que eu me perguntava.

Tratei de ouvir o outro lado. A busca documental era vertiginosa. A heteroglossia (a diversidade social de tipos de linguagens, produzida por forças sociais tais como profissão, gêneros discursivos, tendências particulares e personalidades individuais) bakhtiniana. Múltiplas falas de um mesmo sistema linguístico. Isso me assombrava nas variadas visões de mundo possíveis dentro das várias épocas vividas pelo meu objeto de pesquisa.

Todos temos várias faces, misturamos tantas informações. Será que eu conseguiria a face compósita desejada para expressar a trajetória do biografado, captar sua personalidade integral?

Busquei nas entrevistas com J.F.F. o que seria nele a escrita de si. E quis transcrever isso aqui nesse livro. Lembrando que o hoje tem maneira própria de selecionar os fatos e visões do ontem. Às vezes se dão as distorções inconscientes, as falsificações deliberadas (que não deixam de ser parte da verdade). Fantasias também são realidades que podem ser interpretadas, os silêncios são testemunhas que não falam.
Escalei as muralhas da intimidade zefrancisquiana sem feri-las sem me intrometer procurei não interiorizar as hesitações, não interromper as hesitações e silêncios dos meus entrevistados (como Ivonete Melo e Romildo Moreira, por exemplo). Eu não queria
bancar o invasor. Sempre entendi as variantes para cada história.

Percebo que a memória individual é bem seletiva possui falibilidades, criatividade, flexibilidade, as lembranças sofrem mudanças e redescobertas interpretamos as lembranças à luz do que veio depois, das necessidades posteriores. Surgem as reconstruções variadas, as sacadas posteriores, os códigos podem ser alterados e existem, também, as lembranças fabricadas, o que não era o caso.

 Às vezes ao me debruçar sobre o material colhido sobre J.F.F., eu espantava-me com o óbvio. Mas o que me excitava a imaginação não era a obviedade
era para o que isso apontava: a possibilidade de novas pistas Sentia-me um poeta do detalhe. Eu não pretendia analisar criticamente certas evidências, pois sabia que no fundo de tudo aquilo estava a teatralidade do meu biografado.

Era mais como se eu estivesse organizando um painel, orientado um jogral, juntando provas para um processo. Eu enfronhava-me no espírito da trajetória de J.F.F.  É isso: como se eu “calçasse os sapatos” dele, no sentido que os norte-americanos usam
essa expressão.

Eu queria oferecer ao leitor cenas de apelo sensorial e J.F.F. se transformava num nobre do povo. Perfumado, de bom gosto. Como se eu estivesse passeando com ele pelos locais onde tudo que está nesse livro aconteceu.

Repito, minha pior escolha seria contar tudo o que via do começo para o fim, em ordem cronológica. Eu não queria fazer o desenho para depois pintá-lo. Não. Decidi refazer tudo que tinha feito do modo linear. Eu não queria ser aborrecido, chato, lento. Gosto de velocidade. Eu queria que os leitores se identificassem com J.F.F. como se ele fosse um vizinho bom, de longa data. Mas eu queria apresentar um conflito, logo no início dessa, digamos assim, trama: a vida de um artista em forma de imagens de um caleidoscópio e as dificuldades que ele enfrentava para manter-se vivo em meio ao emaranhado de paixões e décadas. Como ele sai da areia movediça
da ampulheta do tempo, como na cena de um filme, em forma de biografia de cunho experimental.

Não era o tempo prouststiano da recherche (À la recherche du temps perdu) que eu buscava era o frenesi. Eu não queria fazer literatura, eu queria justificar esse livro e o que ele não é: um antiquário, um relicário carnudo. Eu queria que fosse como um ser vivo. Convidar o leitor para os detalhes quase imperceptíveis da fala de cada uma das pessoas que depõem aqui. Que esse livro fosse como um portal para uma existência. Um livro pirata, no sentido que Gilberto Gil usava quando era Ministro da Cultura e que eu amava. Transportar o leitor a um passado recente e colocá-lo numa mesa redonda, como fez o Rei Arthur. Como num brainstorm. Fazê-lo subir no palco, estabelecer nossa interlocução sem grandes esforços ou preocupação com um recurso especificamente cronológico reacionarista. Abrir um portal no tempo transformar-me em detetive, como aqueles que Humphrey Bogart interpretava, Raymond Chandler e Dashiell Hammett escreviam. Como um film noir, inspirado pelo Expressionismo, daqueles movimentados, com cenas em bares. Eu queria lançar as pistas, através de elementos prosaicos estabelecer um campo magnético numa rede de correlações, oferecer apenas o efeito do real, no sentido de Blanche Dubois tennesseewilliana e eu não ofereceria um objeto de cena que não fosse utilizado posteriormente, pois se assim não fosse, esse objeto não deveria estar lá. O leitor pode enumerar os “verbetes” /capítulos desse livro, ao seu modo.

Não queria que o leitor imaginasse, mas que ele visse, sentisse como se faz no teatro, o mundo do teatro, através de um dos seus maiores representantes: J.F.F.
Que, se possível, ficasse curioso. Que cada parte das divisões amplificasse as outras.
fosse acrescentando detalhes concretos até provocar um sorriso nesse leitor conquistá-lo para mais um parágrafo

Quis fundir personagem e enredo: um artista recifense, como ele subiu ao palco e se manteve com a cabeça erguida, amor, com humor, dignidade, aventuras, gozo, sangue, suor e lágrimas.

Eu tentei agir com moderação e cautela. Era um retrato escrito de J.F.F. que eu estava pintando. Eu queria entregar ao leitor minhas informações com prazer, e pensava no meu objeto de pesquisa com prazer, também.

Eu estava com a tendência a condensar o tempo, em algumas partes e em outras dilatá-lo, pois sabia que isso imprimiria ritmos diferentes ao texto não era questão de agradar ou não ao biografado exatamente. Era a necessidade que eu sentia de ressaltar certas declarações dos entrevistados e do material de pesquisa que eu havia coletado. Certos verbetes do livro são enormes outros minúsculos. O interesse era manter o leitor como quase presenciando, ouvindo o texto na hora. Acentuei as variações de perspectivas propositalmente, era como edições de vídeo, não acelerando muito ou tornando muito lento. Não era essa a intenção. Nem ficar abrindo e fechando cortinas sobre a cena nos seus interstícios, como num teatro mal feito. Também não quis
usar espaços de duas linhas para separar blocos dentro dos verbetes, e transgredir as regras sobre eles, ou usar asterisco central (seria necessário?) para dar respiro ao texto. Não dividir o livro em capítulos e fiquei titubeando se o dividiria ou não por partes, mas não encontrei motivos para dividir o texto total em, digamos assim, na linguagem teatral atos. Não havia gancho para isso.

Como mover a curiosidade do leitor até a página seguinte, o verbete seguinte? Era o que eu me perguntava. Achei interessante alongar partes como as sobre Rubem Rocha Filho e O Beijo da mulher Aranha. E também dar destaque à voz de Valdi Coutinho, o crítico teatral recifense que, além de ser dirigido por ele, falou muito sobre J.F.F. e foi um dos representantes da mídia brasileira (atuou durante décadas no Diário de Pernambuco). Também enfatizei as informações sobre o processo das montagens das peças Torturas de um Coração e A Barca da Ajuda. Ambas trazem no bojo propostas sobre a questão de um posicionamento firme diante da opressão, tirania, conservadorismo, homofobia dominantes na época e por aí vai.

Eu não queria ser um narrador. Queria que o encadeamento do meu texto sofresse bruscos cortes. Selecionava a partir do material que eu coletei, dando voz aos originais a cada um deles.

SOBRE “CALEIDOSCÓPIO”, o professor e multiartista teatral MARCONDES LIMA DISSE: “Se este livro está em suas mãos não é obra do acaso. Você o escolheu por algum motivo. Pode ter sido a curiosidade sobre a trajetória da personalidade “biografemada”, o apelo lançado pela conjunção das palavras transgressão+palco+vida, na segunda capa, ou a necessidade de conhecer os cenários e personagens envolvidos em tantos e tão ricos episódios desse drama da paixão de um homem pelo teatro. Se assim sucedeu, você não se arrependerá. Tudo isso verá deslizando por entre as páginas mais à frente. Se não foi, também está valendo. Não será exagero nenhum dizer que essa obra tem vida própria e que definiu quem seria seu autor. Do mesmo modo ela será capaz de eleger seus leitores, sejam pesquisadores, estudiosos do teatro, artistas ou pessoas comuns.  

Em seu corpo traz impresso o que promete na capa e contracapa: um caleidoscópio, uma pop-biografia de J.F.F que é Puro Teatro. Não como canta La Lupi, em tom de denúncia e desagrado, sobre um desencanto amoroso. Diferente do tipo descrito no bolerão, a pessoa que tem sua vida aqui oferecida em doses pequenas, como shots ou como hóstias consagradas, é das mais verdadeiras que já conheci. De uma sinceridade por vezes desconcertante, sem papas na língua, de extrema lucidez e confiabilidade. Dono de um bom humor que vai do fino ao grosso, sem pruridos, sem rodeios ou maneirismos floreados. Um criador multifacetado, capaz de encantar espectadores adultos e crianças, compondo com a mesma competência e destreza o tecido cênico de uma tragédia, uma comédia, um drama burguês ou histórico, uma fábula infantil ou poemas do romantismo brasileiro ou do modernismo português. Você verá como ele é capaz de ir do escracho à elegia. 

Aqui terá a oportunidade de se deleitar com a escrita de Moisés Monteiro de Melo Neto, quase como uma desmontagem cênica posta em palavras. Somente um artista também multifacetado e sem medo de purismos formais seria capaz  de promover o desnudamento sensível de um outro artista, em jogo de espelhamentos, como bem diz aquele que se define como “um retratista de alma”. A cronologia dos fatos foi propositadamente deixada para jornalistas, para historiadores. Se tomar a afoiteza do autor como inspiração poderá ler como quiser este livro irreverente. Do começo para o fim ou vice-versa, na ordem que mais lhe agradar, brincando à semelhança do que propôs Júlio Cortázar em seu Jogo de Amarelinha. A matéria é outra e os efeitos idem. Mas não deixe de ver nenhuma cena. Essa é uma daquelas narrativas que, em um piscar de olhos desatento, você pode perder de vista pérolas de inestimável valor.

Se o jogo fosse com cartas do tarô, o artista professor ou professor artista aqui apresentado, seria vinculado ao Le Bateleur, o primeiro arcano: o Mago ou Mágico saltimbanco, entre o malabarista e o cômico, entre o bufão e o cientista. Alguém cujo maior dom é fazer alquimias e transmutações cênicas. Um dos mestres que me fizeram embarcar nessa brincadeira séria que é o teatro. A primeira lição que tive com ele foi sobre a importância da diversão para quem está dentro e fora da cena. Sem isso pouca coisa importa. É assim desejo que seja a leitura desses lampejos sobre sua vida e obra. O francês Roland Barthes lançou a noção de biografema diante da certeza de ser impossível biografar na inteireza uma pessoa. Pois Moisés Monteiro de Melo Neto seguiu ao seu modo essa senha conceitual produzindo não uma sopa de letrinhas mas, sim, um delicioso milk-shake. Uma bebida servida em tragos, uma batida a um só tempo doce e ácida, sóbria e embriagada, de sabores leves e profundos, com uma complexidade que passa longe do aborrecido. Divirtam-se enquanto passeiam pela história do teatro moderno e contemporâneo em Recife, sem a pompa dos formalismos acadêmicos do qual tanto o biógrafo quanto o biografado são avessos, mesmo sendo a academia a casa dos dois durante muito tempo.” (Marcondes Lima)

 

 

 

 

O ROMANCE PALIMPSESTO, de Moisés Monteiro

Sob três olhares distintos, MICHELLE nos é apresentada de forma inusitada e plural. Inicialmente, LUCAS. Ele nos conta a sua versão da história da sua amada Michelle e os envolvimentos deles com a cena recifense dos anos 90. Aparentemente mais experiente que a mocinha, Lucas se apaixona pela jovem e tenta tê-la só para si apresentando um mundo atraente que a jovem não conhecia. Filha bastarda da empregada com o patrão, Michelle perde os pais num acidente de carro e é enfurnada dentro de um colégio de freiras pela madrasta a fim de se livrar da enteada que, mesmo bastarda, possui parte dos bens deixada pelo pai.

O enredo se desenvolve com a participação de EMERSON e MAGNO: dois homens distintos unidos pelo amor à Michelle. São três os que amam a jovem aparentemente tão indefesa, frágil e inexperiente formando quase um quarteto amoroso. Lucas, o primeiro narrador da história, jornalista e jovem visionário mergulhado na fantástica fase vivida pelo Recife na década de 90. Numa mistura entre caranguejos e coca cola, ele vai, aos poucos cercando e conquistando a protagonista. Magno, jovem rico e ‘dono do mundo’, meio irmão de Michelle e apaixonado por ela. Emerson, amante da (má)drasta de Michelle, Antonieta, menino de rua resgatado pela socialite, esperto e aproveitador das situações diversas vividas.

O fato é que Magno têm como arquirrival-inimigo o Emerson e bola um crime monstruoso para destruir de uma vez por todas a memória física e moral do rapaz. Impedida de se relacionar com qualquer um dos dois jovens atrapalhadamente transpostos, Lucas surge como o porto seguro de Michelle. Casam-se e vivem uma vida agradável.

O romance é dividido em três partes se assemelhando a um modelo de texto teatral. Moisés fantasticamente consegue dar cortes bruscos no enredo, mas sem despistar o leitor de vista. Ao contrário, o leitor se põe mais atento cada vez que uma nova parte se inicia.

A segunda parte da trama é narrada por um amigo de Lucas que não tem seu nome revelado. Aquele outrora jovem e visionário rapaz é apresentado agora como um homem já bem vivido, todavia, aparentemente cansado de viver. Entretanto, de modo não tão pleonástico cansado que o impeça de se envolver com Saluá, uma sexy mulher egípcia. De forma ligeira e delirante Lucas vive um romance ardente com ela nos seus últimos dias de vida. Michelle, que antes foi apresentada como frágil e indefesa, agora se torna uma mulher adulta, solitária e serena.

O mocinho Lucas parece ter sido trocado por um homem real. Muito distante dos contos de fadas e dos romances românticos. Trapaceiro em suas próprias pernas, às vezes, Lucas é, ainda assim, uma pessoa admirável. Um pouco futurista, ainda embebido pelo passado americanizado, sempre que possível, vislumbra e resgata na memória sua época de glória recifense.

Já Michelle, que pouco aparece nesta segunda parte dedicada a Lucas, foi parcialmente engolida por Saluá, sua faceirice e destreza. O amor de Lucas e Michelle, que parecia ser um romance quase platônico, foi trocado pela volúpia egípcia e enigmática de Saluá e Lucas. É esta jovem que comanda o bon vivant Lucas e não o contrário - como acontece na primeira parte do livro, onde é Lucas que comanda a relação com Michelle.

Por fim a terceira parte do romance é narrada pela própria protagonista Michelle. Lucas sai de cena por completo após sua fase in memoriam e agora Michelle tem a oportunidade de se mostrar por conta própria. Entretanto, não é o que acontece. A insegurança da personagem parece reger sua vida. Sem Emerson, sem Magno e, agora, sem Lucas, Michelle se vê atônita e incapaz de seguir uma vida plena, quando seus três alicerces não estão mais presentes com ela.

Michelle tenta se envolver com outros amores, mas sem sucesso. Não obstante, aos ares estudantis, surge um quarto homem em sua vida. De identidade e feições não reveladas, este homem é o oposto de tudo que os três homens anteriores eram: rápido, decidido, cruel?! Ligeiramente vão morar debaixo do mesmo teto e ligeiramente também o mesmo homem se vai da vida de Michelle. Apressado por Rosana Costa, amiga de Michelle há décadas sua amiga, o encanto do amado se esvai com uma traição carnavalesca premeditada por e com Rosana. Fica uma Michelle triturada em infinitos pedaços tentando se refazer, se entender.

Seria Michelle o grande problema da questão, afinal já se passaram quatro amores?! Ou seriam pseudoamores?! Moisés não nos revela isto. O que ele nos apresenta, com seguridade, é que estamos diante de uma trama de uma vida real: sem maquiagens, sem sorvetes, sem brilhos. São personagens comuns criados, eternizados e reaproveitados nas folhas do seu livro. Uma mulher comum rodeada de homens também comuns. O que nos prende é a inovação das ações e a habilidade em desenrolar o enredo além de conseguir driblar três narradores distintos.

De traços tipicamente memorialistas, o escritor, amigo e mestre Moisés Monteiro de Melo Neto, deixa transparecer, ora de forma discreta, ora de forma arraigada, traços da vida nesta azucrinada metrópole chamada Recife e dos que vivem nela; dos que vivem com ele próprio, dos que marcaram sua cena, deixando a dúvida do que é ficção e do que foi realidade na década de 90, a era do badalado Movimento Mangue, do qual são ouvidos ecos neste romance, entre rios, pontes e overdrives.

Palimpsesto parece ter sido escrito num único fôlego embora o título nos revele outra coisa. Como um tiro, este romance transpassa com força a mente do leitor. Um leitor que hoje pede tanta agilidade frente ao mundo cibernético. É um frenesi. São textos-chave em meio à modernidade.  O autor recifense reaproveita vidas comuns e as transforma num livro diferente e cotidiano.

A lemniscata aparece sempre na memória e se renova neste romance que parece não ter um fim próprio. E não tem mesmo, já que seus personagens flertam com personagens reais. Nossas vidas, ainda que aparentemente tenha um fim físico, se esforçam e se renovam sempre transbordando em novos olhares matinais. Imagino que este romance não tenha fim, pois, está acontecendo aí agora ao lado do leitor. Fim para Lucas e talvez para Michelle, mas não para suas ações. Para tanto, tomo a liberdade de colocar o símbolo do infinito em homenagem ao próprio romance que segue nas próximas páginas a fim de que não esqueçamos de que todo fim se renova, transborda e reluz.

SOBRE A 1ª VERSÃO DE PALIMPSESTO, quando o romance de Moisés ainda se chamava Michelle, o escritor Raimundo Carrero disse:


AS TÁBUAS DE MOISÉS

 

Moisés Monteiro de Melo Neto conhece os segredos da invenção, como poucos. Isto é, sabe inventar e sabe, sobretudo, harmonizar esta invenção, quando ela exige perícia e sacrifício. Os textos que tenho lido dele comprovam sua habilidade. Não se contenta com o óbvio e com o lugar- comum, vai adiante, investe nas especulações criativas. Reinventa.

 

O que se tem visto, quase sistematicamente, são escritores, mesmo aqueles mais jovens, repetirem fórmulas antigas, superadas, repetidas. No romance, por exemplo, quase não se avança mais na questão das novas fórmulas. Em Moisés, todavia, o caminho é diferente. Ele é capaz de revolucionar sem provocar dramas no leitor. Sem torturas e mágicas mal elaboradas.

 

Além do mais sabe ser sutil. As palavras nascem, vêm com leveza, montam a história, num clima quase de sonho, mesmo quando enfocam os caminhos mais cruéis. Esta é a impressão que me ficou de um dos seus textos mais recentes, o romance Palimpsesto, cheio de truques e arrebatamentos. Uma fábula fabulosa.

 

Se no teatro, Moisés tem o domínio do que vem (ou vinha) a se chamar de "carpintaria cênica", personagens seguros e determinados na criação, diálogos sóbrios e envolventes, cenas sequenciadas pela lógica da invenção, palavras definitivas e verdadeiras, situações trabalhadas. Inventando ou adaptando conquista pela convicção.

 

Tudo isso é resultado da extrema familiaridade com o texto literário: Conhece os melhores escritores, estuda diversas técnicas narrativas, elabora novas conquistas, enfim, desenvolve sua capacidade de inventar. Estou seguro de que se trata de um desses autores difíceis de esquecer. Para sempre. (Raimundo Carrero)

 

 

 

DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR: Moisés Monteiro de Melo Neto possui graduação em Letras (1992), mestrado e doutorado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (2011). É professor da UNEAL (Universidade Estadual de Alagoas) e da UPE (Universidade Estadual de Pernambuco). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura, nas seguintes Áreas: Dramaturgia, Literatura Comparada, Estudos Culturais, Produção Textual, Literaturas em Língua Portuguesa, Cordel, Literatura Indígena, Representações dos Gêneros na Literatura, Bioficção, Literatura e História, Literatura e Cinema. É professor desde 1992. Autor de vários livros, dentre os quais: Abismos da Poeticidade, publicado pelo SESC, LITERATURA DE AUTORIA INDÍGENA E A REPRESENTAÇÃO DO ÍNDIO EM OUTRAS LITERATURAS, CIRCO MÁGICO ALAKAZAM (publicado pelo Governo de Pernambuco), Anticânone: literatura em Pernambuco, Movimento Mangue: Chico Science e outros artistas (2021).

Autor de peças teatrais que receberam menções honrosas e prêmios, Foi dramaturgista da peça Um minuto para dizer que te amo, vencedora de vários prêmios; atuou como colaborador do Suplemento Literário do Jornal do Commercio, Recife, nos anos 1990. Está na Academia Palmeirense de Letras. É pesquisador no grupo de pesquisa NEAB: Identidades culturais: preservação e transitoriedade na cultura afro-brasileira, da Universidade de Pernambuco. Faz parte do Programa de Mestrado em Letras (ProfLetras), oferecido em rede nacional, integra o Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Alagoas e também da Pós-Graduação em História, na mesma Universidade. Profissional: 30 anos de Magistério. Líder do Projeto TUPI Formação do Teatro Universitário em Palmeira dos Índios - Pesquisa e atuação: Teatro como instrumento pedagógico na prática do ensino de Literatura. Lançou no final de 2020 os livros 'Biografia, Autobiografia e Ficção: Literatura e História em Entrelaçamentos Vivenciais', e "Literatura africana de língua portuguesa. Tem participado de congressos, colóquios e encontros, mesmo durante a pandemia nos anos 2020/ 2021. Publicou vários dos seus cordéis e teve, em 2023, uma antologia deles organizada pelos Professores Bethânia Rocha (UNEAL) e José Nogueira (Universidade Federal Vale do São Francisco), lançado pela Editora Coqueiro, uma das melhores do país na área. Lançou pelo Sesc seu livro CALEIDOSCÓPIO, a biografia de um dos maiores diretores teatrais do país: José Francisco Filho. Seu romance PALIMPSESTO, foi selecionado e publicado pela Editora Paradox. Suas peças tem sido transmitidas pela Rádio Folha de Pernambuco. Teve publicados artigos científicos com os seus alunos. Ministrou o minicurso Literatura africana de língua portuguesa, pela UNEAL, integrando forças com o projeto do Lepdic, pelo Grupo. Professor no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC). Atua no Curso de Licenciatura Intercultural Indígena de Alagoas/CLIND-AL. Vem apresentando trabalhos em encontros nacionais como o 5º Congresso Nacional de Educação, junho de 2021. Em julho de 2021 organizou o livro LITERATURA AFRICANA DE LÍNGUA PORTUGUESA: UMA PRÁTICA DE ENSINO. Compôs Banca Avaliadora no VII CONGRESSO INTERNACIONAL SESC DE EDUCAÇÃO (UFPE/SEBRAE) /2021 e do Prêmio Sesc de Literatura, 2022. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1186-7