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domingo, 24 de abril de 2022

TEORIA LITERÁRIA

 



PROF.DR. MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO

 

 

1.      O QUE É TEORIA LITERÁRIA?

O conhecimento sobre este assunto pode ser PRÁTICO ou TEÓRICO:

PRÁTICO= produto da experiência

TEÓRICO= elaboração mental dessa experiência (em termos científicos e filosóficos)

 


Na LITERATURA, por exemplo: a PROSA é lida de um modo, a POESIA de outro.

Para definir cada uma dessas, teremos que observar suas características, o que as distingue e chegar a uma definição geral e teórica sobre elas.

Então, temos: um CONHECIMENTO PRÁTICO (pela experiência) e um CONHECIMENTO TEÓRICO (pela elaboração científica ou filosófica).

Ao CONHECIMENTO TEÓRICO chamamos TEORIA LITERÁRIA ou Teoria da Literatura.

 

2.      Vejamos exemplos para análise (entre PROSA E POESIA):

 

(texto UM)

 

Autopsicografia

 

O poeta é um fingidor.A

Finge tão completamenteB

Que chega a fingir que é dorA

A dor que deveras sente.B



E os que leem o que escreve, C

Na dor lida sentem bem,D

Não as duas que ele teve,C

Mas só a que eles não têm.D



E assim nas calhas de rodaE

Gira, a entreter a razão,F

Esse comboio de cordaE

Que se chama coração.F

 



(texto DOIS)

 

Capítulo I

Do título

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

-Continue, disse eu acordando.

-Já acabei, murmurou ele.

-São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: “Dom Casmurro, domingo vou jantar com você.” – “Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo.” – “Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça.”

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.




Capítulo II

Do livro

Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.

Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas creem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal frequência é cansativa.

Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.

Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Subúrbios, menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos, relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras...?

Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo.

 

 

ROMEU E JULIETA, ATO III, Cena V

O mesmo. Quarto de Julieta. Entram Romeu e Julieta.

JULIETA — Já vais partir? O dia ainda está longe. Não foi a cotovia, mas apenas o rouxinol que o fundo
amedrontado do ouvido te feriu. Todas as noites ele canta nos galhos da romeira. É o rouxinol, amor; crê
no que eu digo.

ROMEU — É a cotovia, o arauto da manhã; não foi o rouxinol. Olha, querida, para aquelas estrias
invejosas que cortam pelas nuvens do nascente. As candeias da noite se apagaram; sobre a ponta dos pés
o alegre dia se põe, no pico das montanhas úmidas. Ou parto, e vivo, ou morrerei, ficando.

JULIETA — Não é do dia aquela claridade, podes acreditar—me. É algum meteoro que o sol exala, para
que te sirva de tocheiro esta noite e te ilumine no caminho de Mântua. Assim, espera. Não precisas partir
assim tão cedo.

ROMEU — Que importa que me prendam, que me matem? Serei feliz, assim, se assim o quiseres. Direi
que aquele ponto acinzentado não é o olho do dia, mas o pálido reflexo do diadema da alta Cíntia, e
também que não foi a cotovia, cujas notas a abóbada celeste tão longe ferem sobre nossas frontes. Ficar é
para mim grande ventura; partir é dor. Vem logo, morte dura! Julieta quer assim. Não, não é dia.

JULIETA — É dia; foge! A noite se abrevia. Depressa! É a cotovia, sim, que canta desafinada e rouca,
discordantes modulações forçando e insuportáveis. Dizem que ela é só fonte de harmonia; não é assim,
pois ora nos divide. Há quem diga que o sapo e a cotovia mudam os olhos. Oh! quisera agora que ambos
a voz também trocado houvessem, pois ela nos separa e, assim tão cedo, como grito de caça mete medo.
Oh vai! A luz aumenta a cada instante.

ROMEU — A luz? A escuridão apavorante.
(Entra a ama.)

AMA — Senhora!

JULIETA — Ama?
AMA — Vossa mãe se dirige para cá. Sede prudente; já raiou o dia, como podereis ver.
(Sai.)
JULIETA — Então, janela, que o dia entre no quarto e a vida fuja.

ROMEU — Adeus, adeus! Um beijo, e desço logo.
(Desce.)

JULIETA — Já foste? Meu senhor! Amor! Amigo! Notícias quero ter todas as horas, porque um minuto
encerra muitos dias. Fazendo a conta assim, ficarei velha antes de ver de novo o meu Romeu.

ROMEU — Adeus. Não deixarei passar um só momento sem te mandar contar o meu tormento.

JULIETA — Oh! pensas mesmo que ainda nos veremos?

ROMEU — Não o duvides; todas estas dores nos servirão ainda unicamente para doces deixar nossos
colóquios.

JULIETA — Oh Deus! Um coração tenho agourento. Vendo-te assim, tão longe, só parece que estás sem
vida, dentro de um sepulcro. Ou vejo mal, ou estás, realmente, pálido.

ROMEU — Podes crer-me, querida; de igual modo tu me pareces. A aflição sedenta nos bebe todo o
sangue. Adeus! Adeus!
(Sai.)

 

 

 

Temos, nos exemplos acima, 3 textos cujas interpretações fazem parte do campo de trabalho dos que estudam literatura: um poema, dois capítulos iniciais de um romance. E um trecho de uma peça de teatro.

 

Existem: vida animal, vida vegetal, vida artística, vida política e vida literária (cujo fato principal é a obra literária.

 

Eis o tripé da literatura: toda obra literária tem autor e precisa de um leitor.

Surgem perguntas como: qual o meio cultural (o ambiente) no qual a obra foi produzida, ele se relaciona com a obra? Ou simplesmente estudamos o texto em si?

 

RELACIONADOS À OBRA LITERÁRIA:

 

1.      O LEITOR: interessa-se em compreender a obra.

2.      O ANALISTA: decompõe a obra em seus elementos para análise da forma e conteúdo.

3.      O CRÍTICO: julga o valor da obra (por exemplo: valor artístico, moral, intelectual...)

4.      O TEÓRICO: extrai da obra e tudo que com ela se relaciona, ideias gerais e formula teoria acerca do que é essencial nos fenômenos literários.

 

 

A TEORIA LITERÁRIA É O COMPORTAMENTO ESPECÍFICO DIANTE DOS FATOS LITERÁRIOS.

Não se trata aqui de tarefa para o leitor comum nem analista ou só crítico ou historiador, mas sim de um sistema de elaboração de teorias a respeito do assunto, tratado de modo científico: um sistema de teorias, elaborado por especialistas no assunto.

 

Tipos de ESTUDOS LITERÁRIOS:

ANÁLISE, CRÍTICA, HISTORIOGRAFIA.

O objeto de estudos deles: os FATOS LITERÁRIOS.

A teoria mantém com esses estudos íntimas relações; estuda estruturas, categorias estéticas do fenômeno literário.

 

1.      A TEORIA LITERÁRIA É, OU NÃO PROPEDÊUTICA (corpo de ensinamentos introdutórios ou básicos de uma disciplina; ciência preliminar, introdução; conjunto de estudos nas áreas humanas e científica que precedem, como fase preparatória e indispensável, os cursos superiores de especialização profissional ou intelectual)?

2.      Deve-se evitar estabelecer regras, a teoria literária recorre as obras em si.

 

 

TEORIA DA LITERATURA

AULA SOBRE VISÃO EAGLETON (28/06/21)

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 1997).

 

Tornar a Teoria Literária Moderna inteligível e atraente ao maior número possível de leitores.

Algumas correntes parecem herméticas, devemos consertar esse estrago.

Teoria Literária deve ser democrática, nunca elitista, mergulhar no empolgadamente ilegível, fazendo isso ela está sendo desleal com suas próprias raízes históricas.

O início da transformação sofrida pela Teoria Literária: o ano de 1917 daí até os anos 1980, a teoria se desenvolveu rapidamente; o próprio conceito de literatura, leitura e crítica.

Alguns estudantes e críticos também objetam que a teoria literária se interpõe entre o leitor e a obra. Devemos eliminar esta repressão.

Alguns textos nascem literários, outros atingem a condição de literários. A Literatura poderia ser definida como A ESCRITA, no sentido de ficção mas será que esta definição procede? (ver Padre Antônio Vieira, Sóror Mariana Alcoforado, Pero Vaz de Caminha, Hobbes etc.).

Assim, a distinção entre fato e ficção, acima citada, não é muito útil.

Em inglês, a palavra “novel”, até princípios do século XVII, foi utilizada tanto para acontecimentos reais como para os fictícios.

HQs são ficção, mas não Literatura.

A Literatura emprega a linguagem de modo peculiar. Segundo o crítico formalista russo Jakobson, representa uma violência organizada contra a fala comum. (EAGLETON, 1997, p. 2).

Se alguém na rua me diz: “tu, noiva imaculada da quietude”, sei que estou na presença do literário, pois há aqui há  desconformidade entre significantes e significados.

Os FORMALISTAS DE 1917 (Vitor Chlovski, Roman Jakobson, Osip Brik, Vladimir Propp, Yuri Tynyanov, Boris Echenbaum e Boris Tomasheviski), que rejeitaram as doutrinas Simbolistas, que influenciaram a crítica literária até então, achavam-nas quase místicas (a crítica deve separar arte e mistério – verdade transcendental, tem leis específicas, estruturas e mecanismos), atuaram fortemente até que na década de 1920, até serem “silenciados” pelo Stalinismo, que queria uma literatura social (queriam usar a literatura para veicular a visão comunista).

Para os Formalistas a Literatura faz-se com palavras, não com sentimentos. Parece a aplicação da Linguística ao estudo da Literatura. Eles não se preocupam com o “conteúdo” literário; o personagem, por exemplo, seria apenas um artifício para se reunirem diferentes tipos de técnicas narrativas.  A Revolução dos Bichos, não seria uma alegoria sobre o Stalinismo, ao contrário, o Stalinismo ofereceria uma oportunidade perfeita para a criação de uma alegoria daquele porte (EAGLETON, 1997, p. 4), mesmo com todo o seu conteúdo social, que foge ao âmbito do trabalho do crítico formalista.

OBRA LITERÁRIA como reunião (mais ou menos arbitrária?) de artifícios, é o que pensavam. Utilização de sons, imagens, ritmo, sintaxe, métrica, rima, técnicas narrativas, enfim, elementos literários formais que provocariam o efeito de “ESTRANHAMENTO”, ou desfamiliarização. Sob a pressão de tais artifícios a linguagem comum era intensificada, condensada, torcida, reduzida, ampliada, invertida, renovando reações habituais, tornando os objetos mais perceptíveis. Resultado: intensificação de nossa vida material. OS FORMALISTAS RUSSOS NÃO QUERIAM DEFINIR A LITERATURA, MAS A LITERARIEDADE.

Para identificar como se dá o desvio da linguagem comum na Literatura seria necessário identificar a norma da qual esta se afasta.

Pensar assim seria como considerar toda a literatura como Poesia?

É problemática esta questão porque até anúncios comerciais apresentam técnicas verbais exuberantes, não é? Há muita ambiguidade envolvida aqui.

Quando o poeta nos diz que seu amor é como uma rosa vermelha, não devemos perguntar a ele que estranha razão o leva a dizer tal coisa.

A literatura é um discurso não-pragmático. Isto não significa que não possam ser lidos de maneira pragmática, não é? Está longe de ser clara a possibilidade de distinguirmos nitidamente entre as maneiras “prática” e não-prática” de nos relacionarmos com a linguagem.

Literatura seria o enfoque na maneira de falar e não na realidade daquilo que se fala. É uma espécie de linguagem autorreferencial.

A Literatura não pode ser definida “objetivamente”. (EAGLETON, 1997, p. 1).

Há pessoas comuns que consideram a “literatura” como a escrita que parece “bonita”. (EAGLETON, 1997, p. 14).

A literatura não é uma entidade estável e bem definida. São notoriamente variáveis os juízos de valor nesta área. Os interesses são constitutivos de nosso conhecimento

O ato de classificar algo como literatura é extremamente instável.

VALOR significando tudo aquilo que é considerado valoroso, por certas pessoas, em situações específicas, de acordo com critérios específicos e à luz de determinados objetivos.

Em seu famoso estudo A prática da crítica literária, (1929), o crítico Ivor Armstrong (I.A.) RICHARDS (Universidade de Cambridge) procurou demonstrar como os juízos de valor literários podem ser subjetivos e caprichosos. (EAGLETON, 1997, p. 21). Há uma estreita relação deles com as ideologias sociais.

Interpretamos LITERATURA, até certo ponto, à luz de nossos próprios interesses?

“Nosso” Homero não igual ao Homero da Idade Média, nem “nosso” Shakespeare igual ao dos contemporâneos deste autor. As obras literárias são “reescritas, mesmo que inconscientemente, pelas sociedades que as leem”, (EAGLETON, 1997, p. 17).

A pretensão de que o conhecimento deve ser isento de valores é, em si, um juízo de valor. (EAGLETON, 1997, p. 17).

 O que dizer de uma pessoa que acredita que os papéis sexuais têm raízes apenas na biologia humana?

 

 

Vamos entender mais sobre A POÉTICA DE ARISTÓTELES:

 

A Poética, Aristóteles tem por base a fundamentação da mimese, imitação ativa e criativa, e de catarse, que refere-se à purificação das almas por meio da descarga emocional provocada pela tragédia. A imitação, segundo Aristóteles, determina o modo de ser do poema trágico e está sempre ligada à ideia de arte (tecné) e natureza (physis).

 

Então, Aristóteles começa a Poética abordando alguns aspectos da poesia e da imitação segundo os meios, o objeto e o modo de imitação. São nestes pontos que se diferem a imitação. Todas as artes, realizam a imitação pelo ritmo, pela linguagem e pela melodia, empregados em conjunto ou separadamente (Modos de Imitação). A imitação aplica-se a pessoas em ação, que podem ser boas ou más, dependendo da prática da virtude ou do vício.

A origem da poesia teria duas causas devidas à natureza do homem, pois a imitação corresponde a um instinto humano, já que por ela são adquiridos os primeiros conhecimentos e experimentado o prazer. A poesia teria sido criada por homens aptos à imitação, por meio de ensaios improvisados.

Quanto à divisão em gêneros, tragédia e comédia, resultaria das diferenças de caráter, ou seja, enquanto a tragédia imitava os homens virtuosos e superiores, a comédia imitava os viciosos e inferiores.

Numa comparação entre epopeia e tragédia, diz Aristóteles que a epopeia, assim como a tragédia, imita em versos homens superiores, mas é menos limitada quanto à duração do que a tragédia.

Aristóteles define então a tragédia, como uma imitação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e adornos distribuídos pela peça com atores atuando e não narrando, despertando o temor e a piedade, tendo por efeito a catarse (purificação) destas emoções.

A tragédia é constituída por 6 elementos: a fábula, que é a imitação da ação; o caráter, que diz respeito à qualidade das personagens; as falas, que são o conjunto dos versos; as ideias, tudo o que dizem os personagens para manifestar seu pensamento; o espetáculo, que é a parte cênica; e o canto, principal adorno do espetáculo.

Os principais meios pelos quais a tragédia fascina as plateias fazem parte da fábula, que são as peripécias e o reconhecimento. As fábulas precisam ter uma extensão que a memória possa apreender por inteiro. Assim, a duração apropriada de uma tragédia é aquela que permite que nas ações, se passe da felicidade ao infortúnio ou do infortúnio à felicidade, o que torna a tragédia mais bela. A fábula precisa ter uma unidade, de maneira que, se acrescentada ou excluída parte dela, altera-se o todo.

Quanto à qualidade da fábula, esta só é bela se for complexa (peripécias e reconhecimento) e capaz de excitar temor e compaixão. Nelas, o infortúnio das personagens não são frutos de sua perversidade, mas sim das suas ações. Para ser bela, a fábula precisa propor um fim único, oferecendo a mudança da felicidade para o infortúnio em virtude de um erro grave.

Assim, o poeta deve criar fábulas e não versos, porque são as fábulas que imitam ações e fatos capazes de suscitar o temor e a compaixão.

As fábulas são classificadas em simples ou complexas de acordo com ações que imitam. Ações simples são as que produzem mudanças na sorte sem peripécias ou reconhecimento, e complexas, ações com peripécias, reconhecimento ou ambos.

A peripécia é a alteração das ações em sentido contrário ao que parecia natural. O reconhecimento é a passagem do desconhecimento ao conhecimento das personagens.

Sobre a divisão da tragédia, seus termos essenciais são: prólogo, que é a parte completa que antecede o coro; o episódio, parte encontrada entre 2 corais e o êxodo é a parte completa da tragédia da qual após não há coro. A tragédia se compõem de enredo e desfecho, além de apresentar estrutura dramática com início, meio e fim.

A tragédia deve ser construída de maneira que as pessoas, só ao ouvirem ou lerem, sem nada ver, possam aterrorizar-se e sentir piedade. Isso caracteriza o bom poeta.

Aristóteles destaca a competência do poeta ao narrar não o acontecido, mas o que poderia acontecer, o possível, a necessidade. Assim, a diferença entre o poeta e o historiador não está na forma da obra, mas no que relatam. Por isso, a poesia, segundo Aristóteles, é mais filosófica e de caráter mais elevado, pois permanece no universal.

Na visão de Aristóteles, o poeta, ao organizar sua fábula, deve sentir como se a tivesse diante de seus olhos e sentir o efeito do que é dito pelos personagens. Para isso, a poesia exige entusiasmo e talento.

O que concluo da Poética, é o fato da superioridade da tragédia sobre a epopeia. Argumenta-se que a menor extensão da tragédia proporciona maior prazer, sem contudo, deixar de atingir o seu objetivo, que é o de imitar ações. Além disso, a imitação da epopeia apresentaria menos unidade, pois trata de muitas fábulas ao mesmo tempo. A tragédia é superior porque atinge sua finalidade: produz não qualquer prazer, mas o sentimento desejado de temor e piedade.

 

 

CONHEÇAMOS MAIS SOBRE A ARTE POÉTICA, do romano HORÁCIO, escrito em forma de POEMA METALIGUÍSTICO SOBRE LITERATURA, EPÍSTOLA AOS PISÕES (família tradicional romana, Horácio dá conselhos a um jovem que queria ser poeta) SOBRE A POESIA NA IDADE CLÁSSICA (Horácio é epicurista e firmou o termo: carpe diem), a arte deve elevar o espírito, a beleza não pode ser gratuita, devem superar a contemplação em si, pura e simplesmente:

 

https://www.youtube.com/watch?v=JdtQzlZAumI

 

HORÁCIO CARTA (Epístola) AOS PISÕES (POÉTICA)

Objeção à poesia inconsistente

Falta de coesão

 Falta de coerência

Falta de articulação

 Falta de unidade

A liberdade poética tem limites

Unidade e Verossimilhança

Virtudes e defeitos

Clareza

Leveza

Unidade/ harmonia das partes, uma não pode contradizer a anterior.

Sublimidade

Sobriedade

NUNCA: Deselegância Extravagância; pedantismo Exagero

Quanto ao tema Verossimilhança (que inclui a fantasia e o maravilhoso) versus Inverossimilhança.

Obra de arte deve ser composição de um todo uno

Dominar o tema escolhido Saber ordenar

O artista deve Tornar novo o lugar-comum

Enriquecer a língua (neologismos e arcaísmos)

A Métrica ideal

Respeitar o domínio e o tom de cada gênero “Guarde cada gênero o lugar que lhe coube e lhe assenta”

O artista deve Decoro “Não basta serem belos os poemas, têm de ser emocionantes [...], se me queres ver chorar, tens de sentir a dor primeiro.”

Efetividade da poesia

A linguagem deve ser adequada ao caráter, que deve ser coerente.

As emoções da alma são interpretadas pela linguagem.

Escolhas autorais

O artista deve evitar que o começo prometa demais: “Vai parir a montanha, nascerá um ridículo camundongo.”

Avançar sempre rápido para o desfecho e arrebatar o ouvinte para o centro dos acontecimentos.

Misturar verdade e mentira de tal modo que do começo não destoe o meio, nem, do meio, o fim.

Ação Dramática

Narrativa

Recomendações ao dramaturgo: não mostrar em cena ações repugnantes ou irracionais (metamorfoses). Não exceder a extensão de 5 atos. Evitar o deus ex machina. Limitar a três as personagens que falam em cena. Que o coro desempenhe uma parte na ação e um papel pessoal. “Que gosto podia ter um campônio sem instrução, um pé-rapado entre gente distinta?

Contra o gosto vulgar

Escrever e reescrever, guardar (por 8 anos!), não ter pressa em publicar, apresentá-lo a alguém, antes, cuidado com os bajuladores.

 Comporei um poema sobre matéria conhecida, de modo que um qualquer espere fazer o mesmo, porém, atrevendo-se a igual empresa, sue muito e se esforce; tal é a força da ordem e do arranjo, tal beleza ganham termos tomados ao trivial.”

 A arte está na ordem e no arranjo Rigor formal: obediência aos modelos gregos de excelência. Defesa das regras

“Retenham o poema que não tenha sido apurado em longos dias por muita rasura, polido dez vezes até que uma unha bem aparada não sinta asperezas.”

Trabalho formal “Farei trabalho de pedra de amolar, que não tem fio para cortar, mas é capaz de dar gume ao ferro; sem nada escrever eu próprio, ensinarei as regras do mister, as fontes de recursos, o que nutre e forma o poeta, o que fica bem, o que não, aonde leva o acerto, aonde o erro.”

O crítico e a educação do gosto: Rem tene, verba sequentur (domina o assunto, que as palavras virão).

Mais recomendações ao escritor: dar a cada personagem a conveniente caracterização.  

Rigor e perfeição (cálculo).

Brevidade e concisão (evitar o supérfluo).

A ficção não deve distanciar-se da realidade.

O escritor bem-sucedido “Arrebata todos os corações quem mistura o útil ao agradável, deleitando e ao mesmo tempo instruindo o leitor; esse livro, sim, rende lucro; esse transpõe os mares e dilata a longa permanência do escritor.”

A boa poesia exige tensão e precisão.

 Poemas de grande extensão (epopeias) propiciam momentos de menor tensão poética.

Ut pictura poesis (Poesia é como pintura)

Variedade de formas e efeitos. “Aos poetas, nem os homens, nem os deuses, nem as colunas das livrarias perdoam a mediocridade.”

“O poeta deve conhecer o seu mister: compor versos.”

 “O poeta deve submeter sua produção a um crítico confiável e guardá-la por oito anos antes de publicá-la: ‘a palavra lançada não sabe voltar atrás’.”

“O poeta é um civilizador.”

O valor de um poema está na natureza (“gênio”) ou na arte (cultivo)? Solução: conspiração amistosa entre ambos.

O bom crítico louva o que merecer louvor e aponta os defeitos.

A crítica: critério para edição.

 

 

 

 

PAUSA PARA FALARMOS DE BOILEAU

SOBRE A ARTE POÉTICA, de BOILEAU / Antoine Albalat

Nicolas Boileau Despréaux (1636-1711). Crítico e poeta francês. Publicou seu primeiro livro, um volume de sátiras, em 1666. É considerado o fundador do Arcadismo, movimento literário surgido na França no século XVII que depois se espalhou por toda a Europa. Entre as obras de Boileau, encontra-se L’ Art Poétique (A Arte Poética), de 1674.

NICOLAS BOILEAU, eis aí um nome que fermentou toda a Europa e atingiu o nosso continente. Nasceu em Paris e viveu entre 1636 e 1711. Percorreu os caminhos do Direito, mas não se encontrou dentro dos tribunais. Também trilhou os conhecimentos da Teologia e não se realizou dentro deles. Ficou órfão de mãe ainda criança e de pai quando estava com 21 anos. Tal infortúnio lhe rendeu uma fortuna da qual desfrutou até o fim de sua existência. Amou uma mulher, no entanto não teve um desfecho feliz. Apaixonou-se pelos versos e a eles dedicou-se até à morte. Homem amado e odiado, irônico e bondoso, tinha na sátira o elemento básico de seu trabalho. Seu temperamento agressivo às vezes ultrapassava os limites da crítica e decência. Odiava os maus poetas e a má poesia. Foi crítico severo da Academia de Paris e da corte francesa, que premiava os maus poetas e não dava valor aos bons.

            Teve como amigos as pessoas mais importantes e qualificadas no reino. Foi amicíssimo de Molière, de quem sofreu grande influência, um poeta libertino e perseguidor da Igreja Católica e dos jesuítas, e de Jean Racine, calcado em valores morais. A base cultural de Boileau foi fundamentada em pensadores antes de Cristo: Horácio, Homero, Platão, Aristóteles e outros, que registraram sua forma de pensar dentro de normas rígidas, objetivando demonstrar a beleza das palavras e os efeitos que iriam provocar e transformá-las numa obra de arte. Aristóteles definiu num trabalho incompleto as leis da poesia e do drama. Foi o primeiro filósofo a deixar um tratado sobre a arte poética. Com esse embasamento cultural e riqueza secular, Boileau desafiava os poetas da sua época, cujos escritos, segundo ele, eram de péssima qualidade. Faltava-lhes conhecimento, e essa era a chave da sua crítica. Segundo Nicolas, os versos deveriam ser trabalhados, escritos e reescritos! Foi considerado um poeta da regra, de ajustagem de forma fria e perfeita?. Pairava sobre ele a crítica de que havia plagiado Horácio? Boileau afirmava ser ele mesmo o Horácio francês

Publicou em 1674 A Arte Poética, tornada padrão para a técnica da poesia francesa e mundial arcádica. Com essa obra alcançou popularidade e glória, sendo reconhecido na França e Europa. Recebeu o título de ? O Poeta da Razão? no século XVII. Anos após a publicação, o Rei Luís XIV o designou historiador do reino, com Racine. Boileau foi o fundador do Arcadismo no final do século XVII. Isso foi possível porque a França não se curvou à contrarreforma católica, que possibilitou o desenvolvimento do Barroco, especialmente na Espanha, de tradição católica, e Itália, um pouco menos. Sob influência francesa, fiel aos padrões clássicos em pleno Barroco, e de Boileau, a Rainha Cristina da Suécia e Crescimbeni fundaram a Academia Arcádica Romana, em Roma, propiciando o aparecimento da filosofia racionalista, com Vico, e da poesia arcádica italiana, com Metastasio, Gravina e tantos outros. O Arcadismo, ou Neoclassicismo, influenciou toda a Europa, incluindo Portugal, onde no reinado de D. João V foi fundada a Academia Ulissiponense, e também poetas brasileiros, tendo como seguidor o fundador da Arcádia Ultramarina, Cláudio Manuel da Costa, em Ouro Preto (MG).

 

 

16 perguntas sobre LITERATURA para hoje:

1.        Que estudamos na escola?

2.       Qual o objeto desta educação?

3.       Alguns decidem ser escritores ou professores de Literatura: o que os levaria a isso?

4.       O que é VALOR, quando falamos de LITERATURA (ou de outra arte)?

5.       O que seria a VERDADE na Literatura?

6.       O que é a Beleza na Arte?

7.       O que levaria alguém a seguir pelo caminho da LITERATURA?

8.       O que é a Vida e como a Literatura pode lidar com ela?

9.       O que faz um romancista para criar o seu livro?

10.   Como se dá o uso da palavra na Literatura?

11.   Como o escritor de Literatura trabalha a palavra?

12.   Como assim “trabalha a palavra”?

13.   Como você definiria a Literatura?

14.   COMO ERA A POESIA DOS ANTIGOS AUTORES GREGOS?

15.   Ainda hoje temos as divisões (“tipos” de poesia) que os gregos usavam?

16.   Como está representada, hoje, esta divisão da antiga poesia grega (épica, lírica e dramática?

 

 

 

 

 

 

 



 

 


sábado, 16 de abril de 2022

CLARANÃ: O Teatro no Recife mostra sua força na Pesquisa e engajamento

 

                                                                             Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto                                  (Universidade de Pernambuco, Universidade Estadual de Alagoas, ProfLetras Garanhuns, NEAB, Núcleo de Estudos sobre África e Brasil, Projeto TUPI de Extensão/, NEPEF Núcleo de Estudos Políticos, Estratégicos e Filosóficos)

 

   Da obra de Cida Pedrosa assisti, nesta sexta-feira da Paixão, um espetáculo teatral baseado em Claranã, encenado pelo grupo O poste Soluções Luminosas, dirigido pela caríssima Naná Sodré, uma carioca que mora no Recife há 26 anos, esposa do diretor Samuel Santos, pessoa cujo trabalho eu aprecio muito. Lançado em 2015, Claranã é uma obra toda metrificada, que bebe no canto lírico e na literatura de cordel, cujo nome evoca uma pedreira envolta em atmosfera mística, à sombra da Chapada do Araripe, que tanto povoou a imaginação de Cida Pedrosa durante sua juventude em Bodocó (da casa dela ela via o mencionado rochedo). 

   O grupo segue a linha da ANTROPOLOGIA TEATRAL (voz criativa- equivalência vocal focada nas potencialidades vocais de cada ator- pesquisador explorando diversidades culturais na criação de uma partitura vocal criativa. A interpretação segue as técnicas de Eugenio Barba e Jerzy Grotowski, estimulando assim a atriz no seu processo a pensar a interpretação através do corpo: energia, irradiação, contração, dilatação, oposições, ações e partituras físicas, estado de prontidão, transformação do corpo cotidiano em extra cotidiano, autonomia e dramaturgia criativa da atriz serão trabalhados dentro dos princípios de teatro físico e antropológico). 



Lázaro Ramos é um dos admiradores do trabalho do POSTE




   No elenco e trilha sonora está Luana Santos, filha de Samuel e Naná, uma estrela desde criança; com seu cello e apurada percussão e efeitos, a jovem deu um show de talento e simpatia. 


Agrinez Melo, Naná Sodré, João Augusto Lira, Luana Santos, Moisés Monteiro de Melo Neto e Kadydja Erlen (foto: Roger Bravo)



   Ao meu lado, na plateia estavam os atores Roger Bravo (que interpretou o meu Rimbaud no teatro) e João Augusto Lira. Essencial a fala de AGRINEZ MELO, atriz, educadora e pesquisadora do grupo O Poste, no debate após o espetáculo, sobre o olhara afropindorâmico.  O Poste dentro da sua pesquisa O CORPO ANCESTRAL DENTRO DA CENA CONTEMPORÂNEA cuja pesquisa se deu no terreiro de Matriz Africana baseado nos movimentos  dos  orixás . Muito bom o trabalho de Kadydja Erlen.


A atriz Kadydja Erlen, em cena do espetáculo





 

domingo, 3 de abril de 2022

Lygia Fagundes Telles

 


A Estrutura da Bolha de sabão

                                       
por Moisés Monteiro de Melo Neto

 


A narrativa de Lygia é cheia de pequenas delicadezas. Nas suas entrelinhas movem-se céus e terras. Nasceu em São Paulo, seu pai era promotor público, morou em vários lugares. Desde pequena gostava de ouvir / ler histórias, algumas, desde pequena, ela anotava nos seus cadernos. Gostava de recontá-las ao seu modo. Mesmo as que as assombrava, ela confessa: ao transmiti-las, livrava-se das inquietações que elas lhe causavam. Cursou Direito e Educação Física em São Paulo. Quando jovem, apreciava Casimiro de Abreu e Olavo Bilac. Escreveu para os jornais da Faculdade e depois em órgãos da imprensa. Formou-se na época da ditadura Vargas. E isso respinga em sua literatura como no Conto O Espartilho (a avó “nazista” e a neta problematicamente judia numa sociedade hipócrita/preconceituosa). Em 1944 teve seu primeiro livro de contos publicado: Praia Viva. Em 1949, o segundo: O cacto vermelho.

Alguns destes contos, retrabalhados, estão em A Estrutura Da Bolha De Sabão, inicialmente publicado em 1978. Lygia ganhou prêmios no Brasil e na França. Em 58 publica Histórias do Desencontro (Contos). Em 1954, vem o primeiro romance: Ciranda de Pedra. Em 73, publica As Meninas, romance com o qual busca detectar o perfil do jovem daquela época. Um dos contos de A estrutura..., “Missa do Galo – variações sobre o mesmo tema”, recontando Machado de Assis, é reescritura para um livro organizado pelo pernambucano Osman Lins: a conversa entre Conceição e seu hóspede, uma intertextualidade com o toque de Lygia. Quando a perguntaram sobre a função do escritor, ela respondeu: “Escrever por aqueles que esperam ouvir de nossa boca a palavra que gostariam de dizer”.

Na literatura dela, memória e invenção se confundem, se misturam. Ela se protege com a “idéia”. Boa parte dos seus contos está em 1ª pessoa e cheiram a autobiografia, como se lêssemos sobre ela. Lygia adora mergulhar nos detalhes e incógnitas / enigmas / charadas, como no 1º conto da “bolha” (“a medalha”, que a protagonista amarra no gato).

Com óbvias influencias de Clarice Lispector e Hilda Hilst, ela traz o cósmico e o erótico equilibrado em textos como “A confissão de Leontina” e “A fuga”. Pululam as reflexões sobre fidelidade, Deus, a morte e o sonho.

Ela poderia então estar enquadrada na Geração 45. A pesquisa lingüística e as inquietações temáticas.

Aborda sobretudo o universo feminino e suas diversas facetas: percepções e desejos próprios da mulher. Não que sua visão seja unilateral.

Educação castradora (“O Espartilho”), mau ambiente familiar ou relacionamento insatisfatório (“A Estrutura da bolha de sabão”) produzem o ser humano mutilado e infeliz, pessoas / personagens conflituosas, desencontradas de si ou do mundo, como Leontina, nem as crianças são poupadas: Luzia, irmã de Leontina sofre lesão cerebral e morre afogada por causa do primo Pedro, que também arruína a vida da protagonista deste conto. São personagens que buscam respostas que dêem sentido à vida. Como interagir da melhor forma com o mundo externo (como Clarice Lispector buscava), buscando interagir, querendo reconhecimento nos outros, presas ao passado dentro do presente, prisioneiras de um tempo esgarçado. Lygia prende o leitor guardando as chaves que esclarecem os dramas dos personagens. Entrega-as em uma espécie de ritual, onde ontem e hoje se confundem.

Seu enfoque é urbano e intimista, psicológico. Cheiros, lugares, objetos, roupas, sensações importam apenas como acesso ao mundo interior.

Trafega bem na burguesia, mas vai até os menos favorecidos como Leontina.

É um panorama da nossa sociedade: desestruturação do grupo familiar, dissolução dos costumes, conflito de pais e filhos, luta pela maturidade, desajuste social, miséria, desamparo, prostituição, resumindo: o relacionamento pesonagem/mundo. São romances de personagens e tem “ação” lenta. Sugerem mais que descrevem. Constantemente lança mão do discurso indireto livre. O que os personagens dizem não corresponde a uma forma convencional de ver o mundo e sim com seu estado psicológico, isso sem usar palavras difíceis nem frases que soem artificiais, pelo contrário: um texto que busca a oralidade. Quando é narrador em 1ª pessoa, ele se interrompe e faz perguntas, sugerem ao leitor sem gestos e expressões, amalgamando forme e conteúdo.
 
 
Os contos do livro A Estrutura Da Bolha De Sabão:

A Medalha: Em 3ª pessoa o narrador. Trama insólita em torno de uma jovem na época da revolução sexual, anos 60/70 racismo: há um negro com quem a protagonista deve se casar - ele é tolo - e um branco, com quem ela acabou de fazer sexo. Por trás da banalidade. Lygia sonda a alma humana.

Adriana, eis o nome da moça, chega da farra de manhã. A mãe, burguesa, chama-a de “Cadela”. Tem cabelos oxigenados de louro. Diz que é branca, mas tem “sangue podre” e assusta a mãe dizendo que os netos vão nascer morenos. A mãe diz que a filha puxou ao pai: cara de anão, pescoço curto, jeito mole, balofo. Adriana não está nem aí, vai se casar com o que for conveniente e levar a vida que quiser. A mãe ainda tenta ser tradicional e dá à filha uma medalha que estava na família há três gerações. Adriana pega. Vai para o quarto. Amarra a medalha no pescoço de um gato e o empurra porta a dentro do quanto da mãe. São apenas duas personagens, os outros são citados.

No seguno conto A Testemunha, dois amigos passeiam pela cidade em um dia de inverno. Rolf e o “esquecido” do Miguel (na casa dos 50 anos), que quer a todo custo fazer o outro lembrar do que aconteceu: “preciso saber até que ponto eu cheguei”. Ao que Rolf responde: “Somos todos normalmente loucos”. Este conto também só tem duas personagens, além de um guarda no final. Eles parecem duas metades de um só homem em busca de si (ou querendo se esquecer?). Há aqui a sombra da mãe.

Vão por uma rua escura, “quase deserta, no fim da rua, a ponte, curvo traço de união entre as margens do rio. A névoa subia densa”. Rolf é a ponte que liga Miguel ao ontem, ele não se lembra bem do que aconteceu. Miguel perdeu seu cão, o Rex. Miguel pede o último cigarro e subitamente joga o amigo da ponte: “as águas se abriram e se fecharam sobre o grito afogado, se engasgando” (Rolf não sabia nadar). Miguel amassa o pacote do cigarro e joga-o no rio. Aparece um policial e reclama: “É proibido atirar coisas no rio (...) é a lei”. Miguel se desculpa e some no nevoeiro. Livrou-se de parte do seu passado. De si mesmo?

No terceiro conto O Espartilho, parece que toda a estrutura familiar é posta em xeque. Narrativa em 1ª pessoa (Ana Luíza, órfã de um clã conservador, sua mãe era judia, o que sua avó, mãe do seu pai, faz questão de mostrar como herança genética maldita). Tricô, bíblia, álbum, chaves, cheiro de altar, seda, tesourinha, rendas, eis o campo semântico para lances abruptos: a “tia Ofélia tomou veneno um mês depois do casamento”, a família que tinha “olhos verde-água". Ana Luíza é reprimida e vê sensualidade na empregada negra que foge com um homem. Percebe a hipocrisia do jogo social burguês. Conhece Rodrigo e faz sexo com ele, tudo parece acontecer nos anos 40, “a guerra”, Hitler (a avó até que o admira); a avó dá um cheque e Rodrigo troca a neta por uma viagem. O total espartilho é metáfora da contenção emocional e do preconceito burguês. Ana fica só no final e a velha, com o espartilho, vai dormir: “os mortos já haviam sido devorados, agora era a vez dos retratos”. Aquela família estava cheia de “podres”: tio Maximiliano engravidou uma negra e foi mandado às pressas para a Europa. “Por que eu que começara tão bem, tinha que me transformar naquela mosca morta?”, pergunta-se a protagonista. Na noite de natal, os parentes se amavam e se detestavam com igual intensidade: “Sentei-me para comer sossegada minha fatia de peru”, narra. “Você parece com sua avó”, disse Rodrigo: “Uma burguesinha empoeirada”.

“O que perdi em ilusão, ganhei em segurança”, reflete a narradora Ana Luíza.

“Quer que eu tire seu espartilho?, perguntei quando meus dedos tocaram a rigidez das barbatanas.
– Não minha filha. Eu me sentiria pior sem ele. Já estou bem, vá, querida. Vá dormir.
Antes de sair, abri a janela. A Via-Láctea palpitava de estrelas. Respirei o hálito da noite: logo iríamos amanhecer”.

O 4º conto, Fuga, parece o mais estranho: em 3ª pessoa, o foco narrativo nos exibe o inseguro Rafael, que passou da idade e ainda mora com os pais, dependendo economicamente (e psicologicamente) deles. Sofre de uma doença que não ousa nem dizer o nome. Não, ele resfolega, não é asma. Está envolvido por uma misteriosa “névoa” que o absorve no meio de um parque, árvores que querem agarrá-lo. Ele quer dar de presente argolinhas de ouro para uma italiana virgem que tem joelhos que parecem “anjinhos barrocos”. Lygia usa o discurso indireto livre e joga com metáforas inusitadas, símbolos. O filho preso na teia familiar não consegue fugir: “Você sabe que não pode correr”. O conto finda com o rapaz retornando a casa e encontrando seu próprio caixão: ele estava lá dentro.

A Confissão De Leontina é o quinto conto do livro: a narradora é uma mulher pobre e de pouco verniz cultural, que reclama por não confiar em ninguém da cidade grande. Nasceu na pequena cidade Olhos D’Água e mal sabe ler e escrever, além de não ter ninguém por ela no mundo. Lembra do primo Pedro que, ao derrubar a pequena Luzia, irmã da narradora, atingiu o cérebro da menina, criada desde ali como um vegetal.

A mãe de Luzia e dela, Leontina, era uma lavadeira que criara o filho da irmã, Pedro, os poucos centavos, a melhor comida, a escola, tudo só dava a ele, em quem depositava falsas esperanças. Quando ela morreu, Leontina foi ser lavadeira. E também na formatura de Pedro, Luzia afogou-se. Pedro não a quisera no colégio, mal podia aturar a miséria da nossa narradora. Forma-se, pega o que pode e vai para São Paulo estudar medicina e fazer o possível para vencer e esquecer Leontina e todo aquele horrível passado de pobre. Obrigou-a a vender tudo que tinha e entregou-a aos cuidados de um padre que a empregou na casa de uma perversa mulher, mãe de um filho que quis abusar de Leontina.

Nossa heroína vai à luta na cidade grande fugindo do interior. Dançarina de aluguel, prostituta e... assassina?

Com tantos elementos assim, Lygia entrega ao leitor sua visão confortável de todo o nosso desconforto. É como perguntaria Machado de Assis sobre Dona Plácida, de Brás Cubas: para que existir deste modo?

A narradora dirige-se a alguém que mal conseguimos distinguir. Há um tom de tragicômico, desespero. A morte da mãe e da cachorra Titã no mesmo parágrafo revela que o mundo é dos fortes: Pedro venceu, mesmo quando nega conhecer Leo como sua prima. O primeiro “amor” da vida dela, já dançarina de aluguel: um marinheiro; seu primeiro vestido: aquele que vestiria na mãe para enterrá-la e que lhe foi deixado como herança.

“Minha mãe vivia lavando roupa na beira da lagoa (...) nunca vi minha mãe se queixar. Era miudinha e tão magra que até hoje fico pensando onde ia buscar forças para trabalhar tanto não parava (...) Pedro precisava estudar para ser médico”. Prometera a irmã e todos passavam necessidades em nome dele. E ele as renega.

Não podemos aqui falar em felicidade. Leontina é uma Macabéa (de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector – 1977) que foi à luta e acabou na prisão. Lygia vai tecendo a trama desta pequena novela. Onde está a narradora? O que aconteceu com ela para estar assim? Com quem fala?

A ruptura com o tempo cronológico faz o leitor viajar na mente tortuosa e ao mesmo tempo simplista da personagem. '“Essa daí não é a tua irmã?", um menino perguntou. Mas Pedro fez que não e foi saindo. Fiquei sozinha no palco com um sentimento muito grande”, diz diante da primeira negativa de Pedro.

“Não conheci meu pai. Morreu antes de você nascer, respondia minha mãe sempre que eu perguntava”. A narrativa é fragmentada e trabalha o discurso indireto livre imprimindo ao texto um ritmo ágil: “Meu pai feito um Deus desaparecendo atrás da montanha com sua capa de nuvem num carro de ouro”. É um pai mítico e a menina o cria com elementos do seu universo particular: as nuvens, quando se deitava na beira da lagoa e escolhia a cara que o pai devia ter.

A velha Gertrude (e o filho João Carlos), sua primeira “patroa”, a tratara como um animal: “Nem pra ir ao banheiro eu tinha sossego que ela ficava rodando a porta e resmungando que eu devia estar cagando prego pra demorar tanto assim”.

Pontuação e estilo de Lygia, um caso à parte.

Na fuga de trem, ela vê uma “estrelinha verde brilhando lá longe” que a acalma e também nos transmite o grau poético da cena.

Rogério era o nome do marinheiro com quem ela “se perdeu”. Um quartinho de hotel/ pensão barato. Ele a chamara de Joana e não de Leontina: “Seu cabelo encacheado é igual ao de São João do carneirinho”. 2ª referência à bíblia, Pedro a 1ª: “Conte só com você que todo mundo já está até as orelhas de tanto problema e não quer nem ouvir falar do problema do outro”, sentencia Rogério ao prometer levá-la para conhecer o mar, comer uma peixada em Santos: “Aprendi a tomar banho com Rogério. Você tem que tomar banho todo dia e lavar as partes (...) em casa a gente só tomava banho de bacia em dia de festa, mas outras vezes só lavava o pé. E na casa da patroa ela não gostava que eu me lavasse pra não gastar água quente”.

Às vezes o verde da tal estrelinha ou do sabonete do marinheiro esbarram com nossa frieza de leitor: “Não sei por que pensei no meu pai quando Rogério passou o braço por baixo da minha cabeça e me chamou, Vem Joana”. Depois da vírgula o “v” maiúsculo do “vem”. Uma felicidade clandestina e efêmera de fazer amor e fumar. Dava tristeza “fazer amor” com Rogério: ia “com cara de boi indo pro matadouro”. "Ele dizia que minhas sobrancelhas eram como as asas das gaivotas.”

Ele se foi. Ela decai e numa pensão, cheia de artistas de circo, conhece Rubi, quem levou Leontina para lá foi o Milani, colega de Rogério. Personagem secundário mas Lygia os tece com carinho de mãe.

Leontina trabalha em inferninhos rodeada da escória típica destes locais: “Nunca dizia não pro freguês”.

A segunda vez que encontra Pedro - e ele fingiu não conhecê-la - foi na enfermaria da santa casa. Aqui a narradora faz a inevitável comparação com Jesus. Leontina é tentada.

Ao apreciar um vestido marrom com rosa de vidrilho vermelho no ombro, ela é assediada por um velho rico dono de jornais “e mais isso e mais aquilo”: “Amaldiçoada para que enveredei por aquela rua e parei naquela vitrina. O vestido estava numa boneca e tinha o meu corpo”.

O duplo está estabelecido: o jogo completamente armado. O ritual do sacrifício se encaminha para um desfecho dramático: ela deixa na loja o vestido branco. O velho a proíbe de voltar. Ele lhe comprara o vestido que ela queria. A estrada, o repúdio, o carrão, a estrada: “Era rico e feio com aquele jeito de peru do bico mole molhado de cuspe (...) boca inchada e roxa como se tivesse levado um murro”.

“O bofetão veio nessa hora e foi tão forte que me fez cair no banco (...) o punho do velho desceu fechado na minha cara. Foi como uma bomba (...) achei uma coisa pura e fria no chão. Era o ferro...”.

Depois de tudo ela volta à loja para buscar o vestido branco a polícia está lá. A vendedora dera a reconhecer.

Em Missa do Galo, Lygia disseca a intertextualidade com o conto de Machado de Assis, no qual nos é apresentada uma mulher da segunda metade do século XIX: Conceição, casada, vítima de um marido adúltero, que a deixa praticamente só numa noite de Natal. Esta senhora mantém um insinuante diálogo com um hóspede adolescente, o Nogueira (que é leitor, tal qual a senhora, de romances românticos, como Os três mosqueteiros, ou os do senhor Joaquim Manuel de Macedo). Ele faz hora esperando um amigo para juntos irem à tal missa do galo.

Ela “deixou travesseiro e quarto numa disponibilidade sem espartilho, livre o corpo” e Lygia cria um narrador que vai invadindo o espaço do não dito, nas entrelinhas, de Machado, coloca até na alcova do adúltero com uma certa “mulata”.

A relação do jovem Nogueira com Conceição também é, digamos assim, intensificada nesta recriação. Lygia apimenta-a, vasculha-a como um psicanalista provocador.

O insólito é observado: “Durante o dia Conceição parece tão objetiva, eficiente. E agora esta inconsistência”. Seu narrador observa pelas vidraças da casa, ele está na rua da “noite antiguíssima”. Sente desejo de entrar e vive um tempo anacrônico como a interferência de uma lembrança de algo escrito em um caminhão (!): “Matérias perecíveis”. Mas “aquela casa”, o narrador contrapõe, é “imperecível”, no ”bojo de tempo”. A obra de Machado.

Conceição: “bruxa” ou “belíssima”? Quer gritar, é hora de calar: “Vocês sabem que dentro de alguns minutos será nunca mais?”, pergunta-nos. O menino de 17 anos estará na igreja e ela no quarto.

Parece Clarice Lispector, amiga de Lygia: “Faça alguma coisa”, pede o narrador insistentemente com o coração pesado diante desses dois indefesos no tempo.

Metalinguagem e intertextualidade aqui se confundem quando o amigo do rapaz chega, ele vai para a missa, Conceição volta para o quarto e o narrador conclui: “Quando volta ao quarto, pisa na tábua do corredor, aquela que range. Rangeu, paciência! Agora está desinteressada da mãe e da tábua.
No canapé, a almofadinha das guirlandas um pouco amassada.
Apago o lampião.”

No conto Gaby, o penúltimo do livro, somos apresentados ao protagonista de apelido Andrógino, na verdade o mesmo do arcanjo, Gabriel. Ele está no bar com o garçom, Fredi, chegam clientes. Espelhos, mármore (balcão), ventiladores, calor. É pintor de “natureza morta”. Na infância a mãe o protegia. Tem uma amante velha pela qual sente repulsa, mas precisa do dinheiro dela. Ama uma jovem que não o suporta mais (Mariana). Vive com tédio a situação-limite em que chegou sua vida. É um indefinido a contemplar a vida. O pai doente está se acabando numa pensão pobre, sozinho. O garçom também é um insatisfeito.

Mariana tinha um primo deputado da oposição: “subversivo”. Esse conto fica datado nos anos 60/70. “Gabriel por que você não acaba o que começa?”. O pai dizia que o apelido “Gaby” era afeminado, nome de esmalte, creme, de mulher”.

Há uma “mosca” ao redor de Gaby durante quase todo o conto. A lembrança da velha com bochechas murchas, pintadas, com a peruca meio ridícula. A lembrança de ter denunciado ao pai que a mãe, que tanto o protegia, tinha um amante com um carro vermelho. Gaby fora reprovado duas vezes na escola. Na segunda parte do conto, Gaby recebe a carta de despedida de Mariana. Chora. Amadureceria um dia? Querer fugir dos beijos da velha, da dentadura dela. É um gigolô com problemas psicológicos, meio cafajeste inocente (?), traumatizado. A mãe desaparecera, “Como milhares desaparecem”. Está pintando uma maçã. Tudo é o vazio que se abate sobre tanta gente. Pensa de novo em matar a velha, que, ao perceber que ele estava um pouco febril, prepara-lhe um chá. Ele morde a maçã.

No conto A estrutura da bolha de sabão, Lygia cria um narrador em primeira pessoa: uma mulher que encontra o ex-marido com a atual esposa num bar. Sente ciúme e testa a incomunicabilidade entre os seres, a aprendizagem dos sentimentos: uma delicada teia de relacionamentos. Ele é físico e estuda a estrutura da bolha de sabão (sólida/líquida/gasosa): híbrida. Ele, ela percebe aos poucos, está com uma doença terminal. Ela pensa na própria infância, revê sua vida em labirinto: “No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima meu corpo”. Lygia é dona de uma sintaxe especial, particular. Pratica o intimismo com maestria. Sua poesia narrativa é uma espécie de ritual sem sangue, sem grito: “Amor de transparência e lembranças condenado à ruptura”.

Em relação à outra mulher, a narradora mostra-se superior: “Como ele podia amar uma mulher assim?”. São frases insólitas como: “Me refugiei nos cubos de gelo amontoados no fundo do copo”. Ela tem ciúmes e ao saber da doença do ex-marido vai à casa dele. É recebida pela fulana que agora ocupa o “seu” lugar. Quando a “outra” sai, ela se aproxima do homem que já foi seu. Ela não tem nome no conto. Ela flui. Ele usa um roupão verde, mãos “branquíssimas”, está quase lívido. Ela começa a sentir uma falta e não sabia do que era. Descobre: “Ô! Deus – agora eu sabia que ele ia morrer”.

Este final vago e brusco nos conduz ao amor interrompido, petrificado em narrativa de prosa lírica, urbana, metafísica? Tecida com mãos de carinho e confiança, em ternura pressentida por Lygia dentro de nós, seus enigmáticos leitores.