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segunda-feira, 16 de março de 2020

Sobre Albert Camus e seu livro "A Peste" (reprodução)

 Quando o prêmio Nobel de Literatura de 1957 foi concedido ao escritor francês Albert Camus, ele já era considerado um dos autores mais significativos e representativos de seu tempo. Isso apesar da pouca idade. Camus recebeu o prêmio aos quarenta e quatro anos, e, depois do poeta inglês Rudyard Kipling - que o conquistou aos quarenta e dois anos -, era o mais jovem detentor do Nobel de literatura. Mas a idade pouco tinha a ver com a importância que Camus assumira gradativamente no panorama da cultura francesa. Como já acontecera outras vezes, o prêmio não foi concedido exclusivamente ao romancista, mas também ao pensador, ao homem preocupado com as angústias do século, o absurdo e o desespero que determinam o ato de existir, e decididamente envolvido na luta diária que tornava possível a esperança. Esperança que ele exerceu, com maior ou menor intensidade, por quarenta e sete anos, quando a morte o surpreendeu, a cem quilômetros de Paris. Uma câmara de ar estourada e o choque contra uma árvore. Muitos se lembraram do que Camus pensava sobre a existência do homem e seu destino no universo, sem um sentido, tendo apenas o absurdo para explicá-la. A frança ficou de luto pelo desaparecimento de uma de suas consciências mais honestas, como destacou André Malraux, também escritor e então ministro da Cultura: ”Há mais de vinte anos a obra de Albert Camus era inseparável da obsessão da justiça”. Há mais de vinte anos. . . Nascido em 1913, em Mondovi, departamento de Constantine, na Argélia, território francês que lutava por sua independência, filho de um operário, Camus teve uma infância difícil, entre duas culturas que seriam sempre cada vez mais antagônicas. 







Sua formação é francesa, seu compromisso é com os homens: ”Sou, antes de tudo, solidário do homem comum. Amanhã o mundo poderá romper-se em pedaços. Há uma lição de verdade nessa ameaça que paira sobre nossas cabeças”. Mecânico, professor primário, empregado no comércio, Camus publicaria seu primeiro livro em 1937, e no ano seguinte ingressaria no jornalismo, duas grandes paixões. Atuando em Paris, abandonou o jornal em que trabalhava por uma cama maior, a resistência à barbárie que ocupava parte da França. Participante ativo da luta contra os alemães, não desdenhava de sua obra literária. A ”Envers et endroit”, ”Núpcias” e ”O verão” - os dois últimos publicados pelo Círculo do Livro - seguiam-se ”O estrangeiro” também publicado pelo Círculo - e ”O mito de Sísifo”, além das peças ”Lê malentendu” e ”Calígula”. O jovem escritor expunha com uma lucidez dolorosa a precariedade da condição humana, ainda que em ”O mito de Sísifo” propusesse: ”É preciso imaginar Sísifo feliz”. Depois da libertação, com apenas trinta anos, ele se tornou o jornalista mais lido da França. Nas páginas do jornal ”Combat”, lutava para que não fossem esquecidas as lições da guerra, a indiferença. As lições foram esquecidas, Camus abandonou o jornalismo. ”A peste” data dessa época, 1947, e reporta-se à experiência que ele desejava presente na consciência dos franceses. Uma epidemia assola uma cidade, como a ocupação nazista assolara a França. A epidemia cessa - a ocupação termina -, e a apatia que cercava a vontade humana diante do elemento estranho volta a imperar. O livro foi um grande sucesso de livraria e se tornou uma obra clássica. Porém, ”A peste” seria também um passo decisivo no rompimento com o existencialista Jean-Paul Sartre, de quem Camus se aproximara. Como seria ”O homem revoltado”. Ele preconizava a revolta individual e libertária, enquanto Sartre colocava o existencialismo a serviço do marxismo, Camus estava só e preparava as últimas obras: ”Lê Minotaure ou La malte d’Oran” (1954), ”O exílio e o reino” e ”A queda” (1956), esta última também publicada pelo Círculo. A lição para o futuro permanece aquela que proferiu no Brasil, em 1949, numa frase: ”Não poderemos ficar alheios e distraídos. Nem o momento comporta atitudes de indiferença. Não durmamos, pois, que a paz será uma realidade, ela que, agora, não passa de uma promessa”. A Peste Os curiosos acontecimentos que são o objeto desta crónica ocorreram em 194..., .em Oran. Segundo a opinião geral, estavam deslocados, já que saíam um pouco do comum. À primeira vista, Oran é, na verdade, uma cidade comum e não passa de uma prefeitura francesa na costa argelina. A própria cidade, vamos admiti-lo, é feia. com seu aspecto tranqüilo, é preciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras cidades comerciais em todas as latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados. Durante o verão, o sol incendeia as casas muito secas e cobre as paredes de uma poeira cinzenta; então, só é possível viver à sombra das persianas fechadas. No outono, pelo contrário, é um dilúvio de lama. Os dias bonitos só chegam no inverno. Uma forma cómoda de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa pequena cidade, talvez por efeito do clima, tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético e distante. Quer dizer que as pessoas se entediam e se dedicam a criar hábitos. Nossos concidadãos trabalham muito, mas apenas para enriquecer. Interessam-se principalmente pelo comércio e ocupam-se, em primeiro lugar, conforme sua própria expressão, em fazer negócios. Naturalmente, apreciam prazeres simples, gostam das mulheres, de cinema e de banhos de mar. Muito sensatamente, porém, reservam os prazeres para os domingos e os sábados à noite, procurando, nos outros dias da semana, ganhar muito dinheiro. À tarde, quando saem dos escritórios, reúnem-se a uma hora fixa nos cafés, passeiam na mesma avenida ou instalam-se nas suas varandas. Os desejos dos mais velhos não vão além das associações de boulomanes’, os banquetes das amicales e os ambientes em que se aposta alto no jogo de cartas. Dirão sem dúvida que nada disso é característico de nossa cidade e que, em suma, todos os nossos contemporâneos são assim. Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viver. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez em quando, suspeitam que exista mais alguma coisa. Isso, em geral, não lhes modifica a vida. Simplesmente, houve a suspeita, o que já significa algo. Oran, pelo contrário, é uma cidade aparentemente sem suspeitas, quer dizer, uma cidade inteiramente moderna. Não é necessário, portanto, definir a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Isso tampouco é original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber. O que é mais original na nossa cidade é a dificuldade que se pode ter para morrer. Dificuldade, aliás, não é o termo exato: seria mais certo falar em desconforto. Nunca é agradável ficar doente, mas há cidades e países que nos amparam na doença e onde podemos, de certo modo, nos entregar. O doente precisa de carinho, gosta de se apoiar em alguma coisa. É bastante natural. Em Oran, porém, os excessos do clima, a importância dos negócios que se tratam, a insignificância do cenário, a rapidez do crepúsculo e a qualidade dos prazeres, tudo exige boa saúde. Lá o doente fica muito só. O que dizer então daquele que vai morrer, apanhado na armadilha por detrás das paredes crepitantes de calor, enquanto, no mesmo minuto, toda uma população, ao telefone ou nos cafés, fala de letras de câmbio, de conhecimentos ou de descontos? Compreenderão o que há de desconfortável na morte, mesmo moderna, quando ela chega assim, num lugar seco. 1 Neologismo que designa os entusiastas de jogo muito popular na frança. (N. do T.) 2 Nome das associações formadas por membros do ensino, etc. (N. do T.) Essas poucas indicações dão talvez uma ideia suficiente da nossa cidade. Aliás, é necessário não exagerar. O importante era ressaltar o aspecto banal da cidade e da vida. Mas os dias transcorrem sem dificuldades, desde que se tenham criado hábitos. A partir do momento em que nossa cidade favorece justamente os hábitos, pode-se dizer que tudo vai bem. Sob este aspecto, sem dúvida, a vida não é muito emocionante. Pelo menos, desconhece-se a desordem. E a nossa população franca, simpática e ativa sempre despertou no viajante uma estima considerável. Esta cidade sem pitoresco, sem vegetação e sem alma acaba parecendo repousante, e afinal adormece-se nela. Mas é justo acrescentar que está enxertada numa paisagem sem igual, no meio de um planalto nu, rodeada de colinas luminosas, diante de uma baía de desenho perfeito. Pode-se apenas lamentar que tenha sido construída de costas para essa baía e que, portanto, seja impossível ver o mar. É sempre preciso ir procurá-lo. Agora, podemos admitir sem dificuldade que nada podia fazer prever aos nossos cidadãos os incidentes que se produziram na primavera desse ano e que foram, como compreendemos depois, os primeiros sinais dos acontecimentos graves cuja crónica nos propusemos fazer aqui. Esses fatos parecerão a alguns perfeitamente naturais e a outros, pelo contrário, inverossímeis. Mas, afinal, um cronista não pode levar em conta essas contradições. Sua tarefa é apenas dizer: ”Isso aconteceu”, quando sabe que isso, na verdade, aconteceu; que isso interessou à vida de todo um povo, e que, portanto, há milhares de testemunhas que irão avaliar nos seus corações a verdade do que ele conta. Aliás, o narrador, que se revelará no momento oportuno, não disporia de meios para lançar- se num empreendimento desse gênero se o acaso não o tivesse posto em condições de recolher um certo número de depoimentos e se a força das circunstâncias não o tivesse envolvido em tudo o que pretende relatar. É isso que o autoriza a agir como historiador. É claro que um historiador, mesmo que não passe de um amador, tem sempre documentos. O narrador desta história tem, portanto, os seus: em primeiro lugar, o seu testemunho; em seguida, o dos outros, já que, pelo seu papel, foi levado a recolher as confidências de todas as personagens desta crônica; e, finalmente, os textos que acabaram caindo em suas mãos. Pretende servir-se deles quando lhe parecer útil e utilizá-los como lhe aprouver. Propõe-se ainda. .. Mas é talvez tempo de abandonar os comentários e as precauções de linguagem para passar ao assunto em si. O relato dos primeiros dias exige certa minúcia. Na manhã do dia 16 de abril, o Dr. Bernard Rieux saiu do consultório e tropeçou num rato morto, no meio do patamar. No momento, afastou o bicho sem prestar atenção e desceu a escada. Ao chegar à rua, porém, veio-lhe a ideia de que esse rato não estava no lugar devido e voltou para avisar o porteiro. Diante da reação do velho Michel sentiu melhor o que sua descoberta tinha de insólito. A presença desse rato morto parecera-lhe apenas estranha, enquanto para o porteiro constituía um escândalo. A posição deste último era aliás categórica: não havia ratos na casa. Por mais que o médico lhe garantisse que havia um no patamar do primeiro andar, provavelmente morto, a convicção de Michel permanecia firme. Não havia ratos na casa, e era necessário que tivessem trazido este de fora. Em resumo, tratava-se de uma brincadeira. Nessa mesma noite, Bernard Rieux, de pé no corredor do prédio, procurava as chaves antes de subir para sua casa, quando viu surgir, do fundo obscuro do corredor, um rato enorme, de passo incerto e pêlo molhado. O animal parou, pareceu procurar o equilíbrio, correu em direção ao médico, parou de novo, deu uma cambalhota com um pequeno guincho e parou, por fim, lançando sangue pela boca entreaberta. O médico contemplou-o por um momento e subiu. Não era no rato que ele pensava. Aquele sangue fazia-o voltar à sua preocupação. Sua mulher, doente há um ano, devia partir no dia seguinte para uma temporada na montanha. Foi encontrá-la deitada no quarto, como lhe pedira que fizesse. Assim, preparava-se para o cansaço da viagem. Sorria. - Sinto-me muito bem - dizia. O médico olhou o rosto voltado para ele, à luz da lâmpada de cabeceira. Para Rieux, aos trinta anos e a despeito das marcas da doença, esse rosto era sempre o da mocidade devido talvez ao sorriso que dominava todo o resto. - Veja se consegue dormir -• disse. - A enfermeira vem às onze horas, e eu vou levá-las até o trem do meio-dia. Beijou uma testa ligeiramente úmida. O sorriso acompanhou-o até a porta. No dia seguinte, 17 de abril, às oito horas, o porteiro deteve o médico e acusou gracej adores de mau gosto de haverem posto três ratos mortos no meio do corredor. Deviam 10 tê-los apanhado com grandes ratoeiras, pois estavam cheios de sangue. O porteiro ficara algum tempo à porta, segurando os ratos pelas patas, esperando que os culpados se traíssem por algum sarcasmo. Mas nada acontecera. - Ah - dizia Michel -, esses eu acabo apanhando. Intrigado, Rieux decidiu começar sua: visitas pelos bairros exteriores onde moravam os clientes mais pobres. A coleta do lixo era feita muito mais tarde no local, e o automóvel, que corria ao longo das ruas retas e poeirentas do bairro, roçava os caixotes de detritos deixados à beira da calçada. Numa rua que percorria assim, o médico contou uma dúzia de ratos jogados sobre restos de legumes e trapos sujos. Encontrou o primeiro doente na cama, num quarto que dava para a rua e que servia ao mesmo tempo de quarto e de sala de jantar. Era um velho espanhol de rosto duro e vincado. Tinha à frente, sobre a coberta, duas marmitas cheias de ervilhas. No momento em que o médico entrou, o doente, meio erguido no leito, inclinava-se para trás numa tentativa de recuperar seu fôlego penoso de velho asmático. A mulher trouxe uma bacia. - Hem, doutor - disse ele durante a injeção -, eles estão saindo, já viu? - É verdade - confirmou a mulher; - o vizinho apanhou três. O velho esfregava as mãos. - Começam a sair, vêem-se em todas as latas de lixo. É a fome. Rieux não teve dificuldade em constatar, em seguida, que todo o bairro falava dos ratos. Acabadas as visitas, voltou para casa. - Há um telegrama para o senhor lá em cima informou Michel. O médico perguntou-lhe se tinha visto novos ratos. - Ah, não - disse o porteiro. - É que estou tomando conta, compreende, e esses safados não se atrevem. O telegrama avisava Rieux da chegada de sua mãe no dia seguinte. Vinha ocupar-se da casa do filho durante a ausência da doente. Quando o médico entrou em casa, a enfermeira já estava lá. Rieux viu a mulher de pé, como de costume, já pintada. - Está bem - disse -, muito bem. Momentos depois, na estação, instalava-a no carro-leito. Ela percorreu com o olhar o compartimento. 11 - É caro demais para nós, não é verdade? - É preciso - respondeu Rieux. - Que história de ratos é essa? - Não sei. É estranho, mas vai passar. Depois, disse-lhe muito rapidamente que lhe pedia perdão, que devia ter olhado por ela e que se descuidara muito. Ela sacudia a cabeça, como para lhe dizer que se calasse. Mas Rieux acrescentou: - Tudo correrá melhor quando voltar. Vamos recomeçar. - Sim - concordou ela, com os olhos brilhantes -, vamos recomeçar. Um instante depois, voltava-lhe as costas e olhava pela vidraça. Na plataforma, as pessoas apressavam-se aos empurrões. O guincho da locomotiva chegava até eles. O médico chamou a mulher pelo nome e quando ela se voltou, viu que o rosto estava coberto de lágrimas. - Não - disse ele, carinhosamente. Sob as lágrimas, voltou o sorriso, um pouco crispado. Ela respirou profundamente. - Vá embora, tudo correrá bem. Rieux abraçou-a e, na plataforma, nada via agora a não ser o seu sorriso. - Cuide-se, por favor - pediu. Mas ela não podia ouvi-lo. Perto da saída, Rieux encontrou o Sr. Othon, o juiz de instrução, que trazia pela mão o filho pequeno. O médico perguntou-lhe se ia viajar. Othon, alto e escuro, que parecia, em parte, o que se chamava outrora um homem de sociedade e, em parte, um coveiro, respondeu com uma voz amável, mas breve: - Estou à espera da Sra. Othon, que foi apresentar seus respeitos à minha família. A locomotiva apitou. - Os ratos. . . - disse o juiz. Rieux teve um movimento na direção do trem, mas voltou-se para a saída. - Sim, não é nada. Tudo o que guardou desse momento foi a passagem de um empregado que levava debaixo do braço um caixote cheio de ratos mortos. Na tarde do mesmo dia, Rieux, no início de suas consultas, atendeu um rapaz que lhe disseram ser jornalista e que já viera de manhã. Chamava-se Raymond Rambert.  Baixo de estatura, ombros largos, rosto decidido, olhos claros e inteligentes, Rambert vestia roupa esporte e parecia à vontade na vida. Foi direto ao assunto. Fazia uma pesquisa para um grande jornal de Paris sobre as condições de vida dos árabes e queria informações sobre o seu estado sanitário. Rieux informou-o de que esse estado não era bom, mas quis saber, antes de ir mais longe, se o jornalista podia dizer a verdade. - Certamente - disse o outro. - Quero dizei, pode fazer a condenação total? - Total, não, devo dizê-lo. Mas creio que essa condenação não teria fundamento. com delicadeza, Rieux disse que na verdade semelhante condenação não teria fundamento, mas que, ao fazer essa pergunta, procurava apenas saber se o testemunho de Rambert podia ou não ser feito sem reservas. - Só admito os testemunhos sem reservas. Não estou, pois, disposto a apoiar o seu com as minhas informações. - É a linguagem de Saint-Just - disse o jornalista, sorrindo. Sem elevar a voz, Rieux disse que não sabia nada disso, mas que era a linguagem de um homem cansado do mundo em que vivia, mas que amava, contudo, seus semelhantes e estava decidido a recusar, de sua parte, a injustiça das concessões. Rambert, com o pescoço enterrado nos ombros, olhava para o médico. - Creio que o compreendo - disse por fim, levantando-se. O médico acompanhou-o à porta. - Agradeço-lhe por aceitar as coisas assim. Rambert pareceu impaciente. - Sim, compreendo, perdoe-me o incómodo. O médico apertou-lhe a mão e informou-o de que haveria uma curiosa reportagem a fazer sobre a quantidade de ratos mortos que se encontravam na cidade nesse momento. - Ah! - exclamou Rambert. - Isso me interessa. As cinco horas, ao sair para novas visitas, o médico encontrou na escada um homem ainda novo, de silhueta pesada, de rosto maciço e cansado, riscado por sobrancelhas espessas. Tinha-o encontrado algumas vezes em casa dos bailarinos espanhóis que moravam no último andar de seu prédio. Jean Tarrou fumava com empenho um cigarro e contemplava as últimas convulsões de um rato que morria num 13 degrau, a seus pés. Levantou para o médico um olhar calmo e um pouco fixo nos olhos cinzentos e acrescentou que aquela aparição de ratos era uma coisa bastante curiosa. - É verdade - respondeu Rieux -, mas acaba por tornar-se irritante. - Num sentido, doutor, só num sentido. Nunca vimos nada de semelhante, eis tudo, mas eu acho isso interessante, sim, positivamente interessante. - Tarrou passou a mão pelos cabelos, para atirá-los para trás, olhou de novo para o rato agora imóvel e depois sorriu para Rieux. - Mas, afinal, doutor, isso é sobretudo com o porteiro. De fato, o médico encontrou o porteiro em frente à casa, encostado à parede, perto da entrada, com uma expressão de cansaço no rosto habitualmente congestionado. - Bem sei - disse o velho Michel a Rieux, que lhe comunicava a nova descoberta.

terça-feira, 3 de março de 2020

No portal da literatura afro-brasileira: Literafro

Francisco Solano Trindade nasceu em 24 de julho de 1908, no bairro de São José, em Recife-PE, filho do sapateiro Manoel Abílio e da doméstica Emerenciana Quituteira. A miscigenação está presente nas origens étnicas do autor: neto de negro e branca, pelo lado paterno; e negro e índia, do lado materno. Estudou no Liceu de Artes e Ofícios da capital pernambucana, tendo concluído o equivalente ao ensino médio atual.
Desde cedo, estabeleceu contato com a cultura popular e o folclore, levado pelas mãos do pai que, nos dias de folga, dançava Pastoril e Bumba-meu-boi nas ruas do Recife. O carnaval, suas figuras, o maracatu, e o frevo fascinavam o menino. A pedido da mãe, analfabeta, lia novelas, literatura de cordel e poesia romântica, que ambos apreciavam. Já adulto, o autor se casa em 1935 com Maria Margarida – terapeuta ocupacional e coreógrafa – com quem teve quatro filhos.

Escultura representando o escritor Solano Trindade, Pátio de São Pedro, Recife

(foto: Moisés Monteiro de Melo Neto)


A década de 1930 é marcada em todo o mundo pela ascensão do nazismo e do fascismo, que iriam controlar quase toda a Europa a partir da deflagração da Segunda Guerra Mundial, em 1939. A polarização ideológica entre direita e esquerda contamina as discussões sobre arte e literatura. E a noção mítica de "raça superior", oriunda cientificismo do século XIX, impulsiona fortemente a discriminação racial existente no Brasil desde a colonização. O autoritarismo segregador defendido pelo discurso nazi-fascista se espalha pelo país a partir da crescente pregação do Partido Integralista, dirigido pelo também escritor Plínio Salgado.
Em contrapartida, dá-se o fortalecimento na Imprensa Negra e a criação da Frente Negra Brasileira, que também se organiza em forma de partido político e fortalece a resistência dos afrodescendentes em sua luta pela obtenção da cidadania plena, a começar pelo direito à Educação, passados pouco mais de 40 anos de vigência da Lei Áurea.
Nesse período, Solano Trindade participa em Recife do I Congresso Afro-brasileiro, organizado por Gilberto Freyre, que reúne dezenas de intelectuais voltados para a discussão da contribuição cultural da diáspora africana em nosso país. Participa também do II Congresso Afro-brasileiro, realizado posteriormente em Salvador.
Em 1936, entusiasmado com os movimentos em prol da consciência negra, que se espalhavam nas principais cidades do país, funda a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-Brasileira, juntamente com o poeta Ascenso Ferreira, o pintor Barros e o escritor José Vicente Lima. Esse órgão tinha como objetivo, dentre outros, promover a pesquisa da afrodescendência na cultura e na história, buscar a expressão afro-brasileira na literatura e nas artes em geral, além de promover a divulgação de intelectuais e artistas negros. Em seu documento de fundação, o Centro de Cultura Afro-brasileira proclama: “não faremos lutas de raças, porém ensinaremos aos irmãos negros que não há raça superior, nem inferior, e o que faz distinguir uns dos outros é o desenvolvimento cultural. São anseios legítimos a que ninguém de boa fé poderá recusar cooperação.” (Apud FARIA, in: TRINDADE, 1981, p. 15).
Ainda em 1936, estréia na literatura com a publicação de Poemas negros. Editada em Recife, a coletânea de Solano Trindade polemiza com o livro homônimo do também nordestino Jorge de Lima, lançado no mesmo ano e trazendo a público o discutido poema "Nêga Fulô".
Na década seguinte, depois de passar por Belo Horizonte e Porto Alegre, fixa residência no Rio de Janeiro, onde se integra aos círculos literários e culturais e trava conhecimento com outros artistas afrodescendentes. Em 1944, lança seu segundo livro, Poemas d’uma vida simples, que obteve boa repercussão junto à crítica da época. Amante devotado das formas populares de representação, o poeta assiste à criação do  TEN – Teatro Experimental do Negro – fundado em 1944 por Abdias Nascimento. 
Em 1950, Solano Trindade funda em Caxias, na Baixada Fluminense,  ao lado da esposa, Margarida Trindade, e do sociólogo Edison Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro, que contava com um elenco formado por domésticas, operários e estudantes e tinha como projeto estético-ideológico "pesquisar na fonte de origem e devolver ao povo em forna de arte." Ainda na década de 1950, os espetáculos de canto e dança apresentados pelo TPB foram levados a vários países da Europa.
Em 1958, lança seu terceiro livro, Seis tempos de poesia, publicado em São Paulo.
A partir dos anos 1960, o poeta passa a residir em Embu, nas cercanias de São Paulo. Ato contínuo, deflagra grande movimentação artística e cultural na cidade. Espetáculos sucedem-se, atraindo público da capital e estimulando o desenvolvimento da pintura e do artesanato locais. A pequena Embu transforma-se mais tarde em “Embu das Artes” e vira atração turística.
Em 1961, sai o quarto livro, Cantares ao meu povo, cujos originais haviam sido enviados a Roger Bastide, um dos primeiros estudiosos da poesia afro-brasileira, que se encanta com os poemas.
Doente e cansado, Solano Trindade deixa Embu para residir em São Paulo. Termina seus dias pobre e esquecido numa clínica no Rio de Janeiro, onde faleceu em 1974, vítima de pneumonia.
Referências
FARIA, Àlvaro Alves de. Poesia simples como a vida. In: TRINDADE, Solano. Cantares ano meu povo. São Paulo: Brasiliense, 1981.
TRINDADE, Raquel. Dados biográficos. In: TRINDADE, Solano. O poeta do povo. São Paulo: Cantos e Prantos Editora, 1999.


PUBLICAÇÕES
Obra individual
Poemas negros. Recife: Edição do autor, 1936.
Poemas d´uma vida simples. Rio de Janeiro, 1944.
Seis tempos de poesia. São Paulo: A. Melo, 1958.
Cantares ao meu povo. São Paulo: Editora Fulgor, 1961.
Edições Póstumas
Cantares ao meu povo. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1981.
Tem gente com fome e outros poemas. Rio de Janeiro: Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro,1988.
Solano Trindade: o poeta do povo. Organização de Raquel Trindade. São Paulo: Cantos e Prantos Editora,1999.
Poemas antológicos de Solano Trindade. Seleção, organização e prefácio de Zenir Campos Reis. São Paulo: Nova Alexandria, 2006.
Canto negro. Apresentação de Zenir Campos Reis. São Paulo: Nova Alexandria, 2006.
Antologias
Poesia negra brasileira: antologia. Organização de Zilá Bernd. Porto Alegre: AGE : IEL : IGEL, 1992.
A razão da chama: antologia de poetas negros brasileiros.  Organização de Oswaldo de Camargo. São Paulo: GRD, 1986.
O negro escrito. Organização de Oswaldo de Camargo. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura, 1987.
O negro em versos: antologia da poesia negra brasileira. Organização de Luiz Carlos Santos, Maria Galas e Ulisses Tavares. São Paulo: Moderna, 2005.
Antologia de poesia afro-brasileira: 150 anos de consciência negra no Brasil. Organização de Zilá Bernd. Belo Horizonte: Mazza edioções, 2011.
Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Organização de Eduardo de Assis Duarte. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, vol. 1, Precursores.


TEXTOS


CRÍTICA

FONTES DE CONSULTA
BERND, Zilá (Org.). Poesia negra brasileira: antologia. Porto Alegre: AGE: IEL: IGEL, 1992.
BROOKSHAW, David. Raça e cor na literatura brasileira. Trad. Marta Kirst. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983. 183-186.
ALMEIDA E SILVA, Denivaldo. M. M. A escrita negra de Solano Trindade: movimentos de resistência e modos de identidade da consciência poética. 2013. 135 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Pontifica Universidade Católica. São Paulo, 2013.
FARIA, Álvaro Alves de. A poesia simples como a vida. In: TRINDADE, Solano. Cantares ao meu povo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.
GREGÓRIO, Maria do Carmo. Solano Trindade o poeta das artes do povo. Rio de Janeiro: CEAP, 2009.
LIMA, Vicente. Os poemas negros de Solano Trindade. Recife: Casa da Cultura Afro-brasileira, 1940.
MACHADO, Serafina Ferreira. Literatura como movimento humanizador: o projeto poético de Solano Trindade. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2006.
MARTINS, Leda Maria. Solano Trindade. In: DUARTE, Eduardo de Assis (Org.). Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, vol. 1, Precursores..
SANTOS, Suely Maria Bispo Dos. A importância da obra de Solano Trindade no panorama da literatura brasileira: uma reflexão sobre o processo de seleção e exclusão canônicos. 2012. 147 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2012.
SANTOS, Oluemi Aparecido Dos. Nas sendas da revolução: a poesia de Agostinho Neto e Solano Trindade. 2009. 168 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.
SOUZA, Elio Ferreira de. Memória, construção de identidades e utopia em Canto dos Palmares, de Solano Trindade. In: FERREIRA, E.; MENDES, A. M. (Org.). Literatura afrodescendente: memória e construção de identidades. São Paulo: Quilombhoje, 2011, p. 61-74.
SOUZA, Elio Ferreira de. Poesia Negra das Américas: Solano Trindade e Langston Hughes. 2006. 371 f. Tese (Doutorado) – UFPE, Recife, 2006.
SOUZA, Elio Ferreira de. Poesia Negra: Solano Trindade e Langston Hughes. Curitiba: Appris Editora, 2017.
SOUZA, Florentina. Solano Trindade e a produção literária afro-brasileira. In: JÚNIOR, Robert Daibert; PEREIRA, Edimilson de Almeida (Orgs.). No berço da noite: religião e arte em encenações de subjetividades afrodescendentes. Juiz de Fora: MAMM Ed., 2012.
TRINDADE, Raquel. Dados biográficos. In: TRINDADE, Solano. Cantares ao meu povo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.


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domingo, 1 de março de 2020

O que pode um professor de Literatura? Perguntou-me um aluno, durante as minhas férias de final de ano... (Moisés Monteiro de Melo Neto)



PARTE 2


   Se Proust, Virginia Woolf e Joyce inventaram o monólogo interior no romance do século 20, numa mistura de vários seguimentos temporais cravejados de digressões e experimentação (vide Ulysses, Joyce), isto agora parece não ser mais o que  nos interessa tanto, hoje, neste torvelinho no qual  as referências éticas estão intrinsecamente ligadas a uma direita desconcertante em seus propósitos elitistas e a uma esquerda não se decide por uma epistemologia mais criteriosa (no sentido acadêmico).  Dar sentido à vida parece uma tarefa cada vez mais supérflua no processo da transmodernidade líquida, sólida ou gasosa que nos abate em números avassaladores. Presos a smartphones, vivemos num mundo de siglas,  códigos,  novidades que nos cerceiam e alucinam com sua velocidade inessencial.  Há muito tempo que não adianta ser realista.

Moisés Monteiro de Melo Neto


            Narrativas ao modo de Hemingway, Fitzgerald e Faulkner, que refletem certo tom jornalístico que difere das filosóficas inserções no absurdo de Camus e do apogeu de narrativa enigma, nos moldes de Clarice Lispector, Herman Hesse ou a estilística excepcional de Thomas Mann (vide Doutor Fausto), tudo isto parece meio distante do que se faz, agora e não adianta buscarmos nos contos de Borges,  Murilo Rubião, nos romances do Realismo Mágico, nas distopias de Orwell, no horror kafkiano, nas revoltas de J. D.  Salinger,  no erotismo intelectualizado (e até biográfico) de Marguerite yourcenal (Memórias de Adriano), ou insisitir que o que temos em Saramago também nos aliviaria (por, por exemplo, não apelar para o consumismo e tender para a esquerda política). A que conclusão eu chego? A arte é o absoluto mais possível e ela não tem que ser engajada, o mesmo em meio a esta época de desprezo e esquecimento e à literatura cabe suprir o que não é dito pelos outros textos. Ela não precisa mostrar o mundo e nem acrescentar algo a ele.  O que a literatura pode é fazer saber que não há verdade absoluta e sim verdades relativas (que se contradizem recheadas de incertezas em meio a alucinação coletiva produto da cultura de massa da indústria cultural etc.), só aí é que a literatura pode ser crítica e resistência, desconstruir o “não  pensamento” das  ideias recebidas nos smartphones e computadores, a esmagar todo pensamento original  e individual (e a crítica literária parece preguiçosa diante disto).
            Parece que a ficção está no mundo para as pessoas que querem uma vida diferente da que vivem. Em toda obra literária lateja um desejo insatisfeito. Seria a literatura um sonho lúcido? Provavelmente não. Uma fantasia sobre existência?  Lembrando aqui que os meios audiovisuais não podem substituir a literatura, no que se trata das possibilidades que a língua escrita oferece no sentido de ampliação  lexical, por exemplo (a exceção seria a literatura oral de alto nível). E aqui não estamos ó nos referindo ao livro de papel.
            Para ser político um escritor só precisa mostrar bem uma situação e deixar que o leitor reflita sobre ela. O escritor tem que resistir ao desencanto?  Possivelmente. As novas tendências como a autoficção pelulam e em meio a tanta diversidade é oferecido o pacto fáustico com o capitalismo: o best-seller ou ser autor de séries de TV com histórias que desobrigam os espectadores de juízes morais. Isso só para falar de dois vieses que poderiam ser inimigos da escrita e da leitura da literatura séria. Tais escritores vivem de marketing.
            Ah!  Como continuarmos humanos diante dos mais terríveis verdades sobre  nós num mundo múltiplo que  a literatura tenta abarcar  e onde a ontologia, política religiosidade, moral estão a girar numa espiral caótica de tantos hipertextos? Mesmo assim a literatura, no que trata da sua produção e consumo, caminha pelo século 21: apesar de tantas incertezas e da fragmentação excessiva do saber.  Sobrepõe-se a curiosidade sobre a vida dos outros (na leitura de ficção) e apontar as mazelas contemporâneas exige dose forte de ironia (para evitar o moralismo que quer ser o dono da verdade. As desgraças da realidade nos ameaçam cada vez mais? Talvez se buscássemos descrever o real sem o interpretar, numa espécie de redução fenomenológica (processo pelo qual tudo que é informado pelos sentidos é mudado em uma experiência de consciência, em um fenômeno que consiste em se estar consciente de algo, como o novo romance francês o fez, nos anos 50, com seus experimentalismos) e buscássemos nesta descrição um modo de juntar pela memória nosso mundo tão fragmentado, talvez aí ficássemos mais calmos diante de tão acelerada transformação. Mas devemos mesmo recusar a indústria cultural?  Acho que pelo menos temos que analisar os danos que ela causa e os quase impossíveis  benefícios em  mio a tanto lugar-comum.
            Navegando pela TV ou pela internet o sujeito vai colocando tudo aquilo num amálgama alucinante sem se deter para refletir.  Cabe a nós, professores de Letras, também, buscar uma explicação e um modo novo para analisar isto na literatura. E distinguir os vieses multiculturais que se instalam como ideologia contrária à alta cultura como se esta fosse a única alternativa para enfrentar a economia globalizada:  termos que acertar identidades restritivas.
            Como trabalhar em sala de aula, por exemplo, a autobiografia ficcional ou autoficção, metaficção, que os grandes autores da literatura fizeram, Cervantes,  Machado de Assis, Julia Kristeva criou o termo intertextualidade a partir dos conceitos de polifonia e dialogismo, de Mikhail Bakhtin (1920). Gerard Genette preferiu falar sobre hipertexto (o texto B) e hipotexto (texto A), para comparar o original e a intertextualidade. Já o uso excessivo do hipertexto, hoje, talvez esteja ligado a uma grave crise ontológica, crivada pela preferência alusões. Paira aí um tom melancólico, nostálgico até: “você diz que depois deles não apareceu mais ninguém”, lamentava Belchior nos anos 70. Mas podemos ver aí algo de ironia, gosto pelo lúdico e pelos jogos sincrônicos na representação do passado.
   Todo escritor é um leitor que escreve e isso pode incluir resistência ética, desconstrução derridiana, a angustiante busca da essência da literatura (ou da “não literatura”) sofrer com o envelhecimento pessoal não é nada para um bom escritor. Também não é bom confiar demais na obsolência dos livros. Eles viverão para sempre, de uma forma ou de outra, mesmo entre culturas apocalípticas, de fim do trajeto, fim de mundo, numa espécie de melancolia irônica, trabalho de luto. Se o professor de literatura perguntar a si mesmo se deve cultuar radicalismos trágicos, ele deverá levar em consideração o alto grau de cabotinismo de quem se aproveita de tais coisas para se projetar numa sociedade cada vez mais artificial. Entre a informação e a invenção irá uma parte a lembrar que a crítica nunca terá a palavra final.
            Não acredito no fim dos heróis literários, como Ginsberg e o Kerouac se a sociedade de hoje oferece difíceis condições ao escritor, ela age mal, mas isto só  o  fortalece: não temos tempo de temer a morte nem a vulgaridade do seu  tempo e lugar. Os escritores não devem bancar os heróis. Não precisamos deles há muito tempo. Solidão, desamparo, trabalho insano? Problema de cada um. A literatura não é algo extra-humano, não precisa de “sacerdotes” de nenhuma força superior.  Religião é outra coisa.  Não quero aventureiros do absoluto. Quero o escritor comum, disposto a um trabalho bom. só isso. Literatura produzida por quem entende do assunto. Se cada vez o autor for personagem de sua obra ficcional,  e isto é quase certo, teremos aí a autoficção como tendência forte (e isso não é ficcionalizar uma biografia, como Jack Kerouac o fez), a metaderivação, autorreferência, a literatura sobreviverá  se multiplicando à custa de si mesma,  indefinidamente; não será explorando espíritos desmesurados que a humanidade vai saber como lidar com sua medida extrema. Os escritores transformar-se-ão em personagens centrais da sua ficção.  Usarão autores famosos como Saramago fez em O ano de morte de Ricardo Reis (1984) e Ana Miranda o fez em Boca do Inferno (1989)? O que difere estes livros uma biografia é a sua mistura com a ficção. Biografias romanceadas que inventam episódios ou tratam livremente de episódios conhecidos (Gore Vidal, em Lincoln e Criação, por exemplo). Eu mesmo fiz isto no teatro com Delmiro Gouveia, Padre Cícero, Rimbaud, Cleópatra: não mentia, mas imaginava como a verdade poderia ser trazida à cena. Como ator também, interpretei Pilatos e Kafka, dentre outros personagens reais, injetando neles algo da minha visão, a do autor e a do diretor. Jorge Amado ao escrever o romance e a peça sobre Castro Alves chegou a extremos antes impensáveis na literatura brasileira. O próprio Castro ao escrever peça sobre T. A. Gonzaga, exagerou.  
            Outras questões candentes atiçam nossa imaginação, como, por exemplo, as atuais democracias e os seus  regimes de classes,  a própria crise da antiga cultura como sustentáculo das ações  humanas, que está se agravando, principalmente no Brasil, onde religião, política e cultura estão se confundindo de modo avassalador e livros como Memórias Posturas de Brás Cubas,  Os Sertões,  dentre outros,  estão sendo proibidos nas escolas públicas (2020), por um  regime cheio de piadinhas muito bem inseridas que funcionam como cortina de fumaça para disfarçar  uma crise ética sem precedentes no país.
            O brasileiro, hoje, nada no mar da incerteza, tenta agarrar-se ao mastro de um barco quase à deriva, onde na corda bamba sobre o abismo,  indo com seus irmãos  e  engajar-se numa corrente fé, com pouquíssimo estudo, que devora almas incultas, com um discurso mal costurado e manipulador do desespero  que infringe o respeito ao próximo, ataca os professores, que  neste caso parecem mártires de um futuro que se anuncia reacionário onde o individualismo,  paradoxalmente, triunfa.
            O que faz o professor de literatura? Ganha a vida falando sobre escritores e suas obras?  Claro que não é exatamente isto, a questão da linguagem humana é o centro das suas preocupações, a técnica e a cristalização da experiência também contam muito. Enquanto isso, celebridades acadêmicas como Judith Butler fazem a festa da mídia, congressos, eventos literários. O que é a prática atual da literatura de ficção?  Há autores, hoje, que, como seus antecessores, possam servir como modelos de vida ou de escrita? Parece que a reposta é negativa. O retrocesso é indesejável, a nostalgia paralisa; o que parece mais possível é uma revitalização mesclada às marcas do nosso tempo que a condicionam de maneira persistente e colocam os escrúpulos como um fardo do qual a maior parte da população brasileira deseja se livrar e isto está refletido no modo como a mídia espelha a política, a economia, a moral, a tecnologia. Vivemos este interregno: um momento que as regras antigas estão em xeque, e outras estariam em gestação e o tempo é memória estilhaçada na internet, querem fazer dele um morto mal enterrado, mas há o retorno do recalcado que voltará para cobrar esta coisa em instância: o passado  se recusa a morrer, os  professores de literatura sabem disso muito bem.
Mandei este e-mail como resposta ao meu aluno. Saí de cabo Verde  e parti para Lisboa. Chegando lá fui surpreendido por uma greve dos funcionários do aeroporto. Depois de conseguir resgatar minhas malas segui para o hotel.  Descansei um pouco e saí para rever a nossa antiga metrópole,  sempre muito boa quando se tem dinheiro para gastar nela.

Os Poemas de Moisés Monteiro de Melo Neto pelo escritor e filósofo Ednaldo Isidoro



Moisés Monteiro de Melo Neto, sua literatura – música dançante no cinema da vida – esculpe a pintura da própria essência retratada no teatro de sua história. Moisés é Literatura: ela sendo ele é sua senhora. Querem a prova? Então vejam quando ele resolveu abandoná-la. Não conseguiu. Ele estava lá escrevendo as palavras da renúncia, debruçado sobre o papel com a sua caneta. Pronto! A Literatura se fazia presente na carta. A vida dele, registrada nesta Passagem  em poemas e contos, faz-nos – à medida que vamos andando pelos poemas – participantes dela. Transeuntes nesta obra, Moisés nos dá dois mandamentos para que possamos compreendê-la: abre bem os Teus Olhos e fique atento até chegar “A Hora e o Lugar” – princípio e fim de uma autobiografia inovadora: vida através da poesia. Ao posicionar os poemas na linearidade do tempo, vamos flagramos o autor criança, adolescente, jovem e  adulto através de suas análises da realidade e de sua introspecção.



 “Teus Olhos” e “Lobos” constituem a infância de Moisés. O primeiro mostra-nos o momento de encontro com o amor  e a decepção que veio tão cedo, mas tão urgente. Tudo isso resumido nas características explícitas do ser que o aprisiona e o faz verter forças, loucura e fome, em penumbra gradiente, êxtase suprimido, faminto,  à mercê de calmos lobos soltos que têm apetite pelos seus olhos, todos os lobos. Quem são estes lobos? E por que eles só comeram os seus olhos? Nós mesmos os animais que lemos Moisés Neto. O autor quer revelar o dualismo na arte. O radical ‘calm’ está presente nos dois poemas que, como já falei, denotam a infância do autor. Assim, formando palavras com este núcleo semântico, Moisés faz-nos conhecer que a seu desejo de permanecer calmo não é atingido.
O autor ao quebrar as regras, cria uma nova regra e por isso, ele continua o ciclo selvagem do poema agora arrancando os olhos dos lobos, que outrora comeram os seus.
 “Canto Liso”:  como na história sagrada do Moisés Libertador, que vê a situação dos hebreus escravos no Egito, o Moisés Neto Criador em sua história viva também observa a vida dos esquecidos e vivos súditos pernambucanos do eleito Sidarta Tudo em “Canto Liso” é começo. Chuva – água, vapor – ar, ruas – terra, sol – fogo, mulheres e crias – o homem, anjos (demônio) – pecado, líquido pastoso e ventres férteis (sexo) – a queda, não morriam – a expulsão do Paraíso e ao invés da mítica folha cobrindo os sexos, o cheiro de cravo no corpo.
Eis como é a narração da queda na Passagem de Moisés Neto, que também reflete o seu afastamento do Paraíso em “Um Momento que se Perde” – lembrança do rosto que se tornou Deus. E essa divindade tem anatomia humana. Não! Não! Não é nenhum deus grego. É o rosto brasileiro da essência (amor, prazer  e medo). Medo de se entregar à loucura (o “suor frio” expresso no corpo e “suando frio” pelo rosto daquele cujos ossos que o sustentam não foram capazes de deixá-lo ereto). Moises caiu. Sucumbiu ao veneno da tarântula.
Pseudônimo da paixão, “Tarântula!” é a personificação concreta da face oculta do poeta. Ora ele envenena deixando febre e delírio, ora ele veste a armadura e monta no seu cavalo voador, Pégaso,  para juntar e recompor os seus próprios sonhos – quando diz que é “neblina do sonho de alguém” – que foi despejado.
Isso se comprova em “Plenitude”, quando vemos a relação entre os versos “...que voa despreocupado em sue galope...” e “...parece um galope...”. Mas aqui o desejo de estar com sua “musa” está na ‘montanha’, pois ao que parece ele percebeu que duas montanhas poderiam (?) permanecer eternamente lado a lado. Entretanto, elas nunca poderão se juntar enquanto uma das duas não ceder, morrer. Ele relacionou os fenômenos da natureza: só a ação do vento, do sol e das águas é que pode uni-los. Pois, a morte leve... traz o néctar nascente da esperança.
Palavra-chave do “Licor”: Delírio – A luz branca e efervescente de que relata o poema não ilumina, ofusca e faz cair ou ainda só ilumina uma parte da lua – inspiração para os amantes. Desespero -  Luz branca... o ar extraía luz/ a forte luz.../ Licor. Metáforas da mesma coisa silenciadas nas palavras e transmitidas em silêncio que migraram para o poema seguinte.
A inquietação pela necessidade de amar e por não amar veio-lhe como um turbilhão de questionamentos sobre a sua existência. Pura filosofia que desvendou o mistério da iniqüidade quando provou que o dinheiro de sua carteira não foi parar nas mãos estendidas do pedinte. Moisés Neto aqui vive a sua criação. Não era um súdito, era o próprio príncipe da Índia que largou seu palácio e foi viver como mendigo que procurava amor. Pois teve muitos amores, mas agora não é amado. O semblante da musa desapareceu naquela que “Era Uma Tarde Quente de Verão e Coca-Cola”. Porém, o recifense atingiu o ápice da purificação ao escrever que  cada passo é a prova de que ainda vivemos”. Em “A Mais Doce Alucinação”, como se fosse um poema continuado, Moisés Neto vai  reclamando a paixão não correspondida ao lembrar as tentativas de sedução e revelando as mesmas inquietações somadas às alucinações do outro – projeção do seu mistério. Moisés Neto, vive uma descrença? Talvez essa dúvida inspirada pela “Trindade”, que quer confundir e deixar bem claro que os “os três parados” não é a tríade cristã, faz  com que ele fale da Trindade num tom inquietante – “à espera de um Deus” – para salientar a imparcialidade divina, que não se sensibiliza com os vermes do Mundo Complicado.
Divindades e Deidades esquecidas, ele volta ao mundo dos mortais que amam solitários. Mas não por muito tempo, pois o amor está sempre de volta cada vez que a mente, pelo simples ato de pensar, torna o que está distante em presença. E com ele vem a sua atmosfera, aquela mesma lua com sua cor de Platina. Esta imagem da lua que mais uma vez aparece nos poemas de Moisés torna perceptível que os momentos românticos de sua vida são mais intensos à noite – tempo bom pra romances. Com isso, a comparação entre o canto do amado que o afaga e o gorgolejar das corujas era inevitável. Nisto, como não sentir o silêncio gritante da escura saudade, que o faz relutar (“registro sinistro”) e debruçar-se sobre os corpos espalhados da lembrança?
Lembrança de “Dois Corpos” que se tornou real. O amor enfim chegou na vida do jovem. Aquilo que ele tanto esperava está com ele. Não há mais lamentações. Os perigos de amar devolvem-lhe a vida. Jovem realizado. Todavia, esta alegria não durou muito. Em “Imagem Noturna”, um conto em versos, o amor vai embora em lágrimas e bebedeiras. O amor que quis procurar outros afagos. Que o realizassem mais. Levando o outro à exaustão da vida.
Visitando a antiga casa abandonada, transformada em ruínas, o passeio pelo poema “Sem Gente” dá ao leitor a suposição que o nosso poeta está nas andanças da vida para revitalizar suas forças. Mas, não seria a casa velha sobre a montanha o seu próprio ser? E o entrar nela, a sua introspecção?
Uma viagem  solitária. Ninguém o acompanha. É crise decisiva para tentar dissipar a frustração que o persegue, que lhe rouba a vida ao deixar tudo em preto e branco no “Furta-Cor”.
Transição. Esta é a palavra que marca “Para Dormir no Escuro”. Pois “o laço frouxo – esperança” do “Furta-Cor” realiza-se na mudança feita por quem observava a nova moradia. Entretanto, também fica explícito que ele se ainda não adquiriu a nova casa – queria se esquecer da velha casa “Sem Gente” – haveria de transformar o seu casulo barroco para poder dormir em paz. “Mormaço”, traduzindo “Os Pássaros” para o significado real: os sonhos. Assim, fazendo a ligação pássaros / sonhos, vemos que os sonhos de Moisés Neto, no poema, estão se acabando à medida que os pássaros não voam. Então ele perpetua-os, renova-os, transforma-os não em simples pássaros, mas em metáforas de Fênix.
Porque o autor desta Passagem  por um instante se esquece de suas três identidades concêntricas. Ele em “A Breve Imagem de Um Homem” faz da ficção uma verdade ou será o inverso? Na sua poética o eu-lírico sente muita vontade de rir da própria desgraça denotativamente deixa visível que não deseja ver as suas mazelas. Eis porque ali, querendo rir e já com um riso reprimido, ele põe a máscara do profissional, do artista.
 A esta altura todos já se deram conta de que a Passagem de Moisés Neto remete-nos ao nosso próprio passado e presente nas nossas inquietações – também presente no poema “Heaven”.
Nele a solidão se expressa fortemente: o jovem errante transmuta-se no silêncio, na companhia de alguém. os “Lobos” que comeram os seus olhos o vêem n no divã. Fazem-no um regresso à uma infância mítica. trazem loucuras. Poderiam dizer “Teus Olhos”? Seriam mesmo jovens comportados? Mesmo com o quebrado juramento de ser um jovem comportado quebrado, o trem percorre os trilhos das ilusões em “Vagão - I”, cheio de superficialidades odiadas, falsas juras de amor, iguais às coisas e às pessoas. Vida: vagão com paredes de  vidro incolor como cristal. O cristal como metáfora da personalidade do autor.
 “A Imagem do Silêncio”: introspecção profunda, que  retrabalha sofrimento ao descobrir que dentro de si mesmo as fases da sua existência navegam entre a busca do equilíbrio na sua tumultuada lira. O poeta queria livra-se das lembranças que o atormentavam principalmente quando ele homologava em frente ao espelho.
Faz da poesia seu espelho e como Picasso fragmenta o que vê e o que pressente: Deus, o Universo, a Terra, a Vida, o Homem, a si mesmo como numa caça ao tesouro. O sonho de um desejo antigo que perdura por toda a sua juventude e que está batendo a porta de sua vida buscando, como no poema “Bar”, o hall de acesso à uma nova fase .

Os três poemas – “Revolução”, “O Monstro” e “Balada no Janga” – são respectivamente o encontro com algo novo, uma luta desigual e uma suposta vitória conta o monstro que está no centro de tudo.
Em “Revolução” o eu- poético vai ao encontro da esperança, ao que parece, mas desperdiça tudo: sonhos, trabalho, pessoas. A revolução o faz fugir da realidade. E ele é o filho inesperado, o estopim da alegria ou melancolia. Quer o êxtase que ela lhe proporcionava. Refúgio para uns, sonhos pelo chão para outros. Aborto, casamento, goles e gozos. Deste modo, “O Monstro” (imagem selvagem de sua natureza que é manipulada por alguém), abre a jaula do monstro que é o espinho na carne do autor – ele não queria tê-lo nem sê-lo. Mas este monstro que nasceu com ele, desenvolveu-se  e continua atormentando-lhe especialmente na intimidade de sua casa. Por esta razão, Moisés nos apresenta a fase de suas viagens pelo mundo. Parece que ele desejava deixar o monstro no seu país. Mas o tal indesejado acompanhante é sua própria sombra e por isso ele vai abrir as fronteiras das paixões ardentes como um intercâmbio de sensações.
As viagens apenas o levaram para perto de outras realidades: concreto e razão – e esta última por sua vez o lançou contra a muralha de sua consciência. Longe, o nosso turista é o filho pródigo da norma culta. Deseja voltar para casa parece implorar: “Quero voltar ao meu Marco Zero onde o mundo começa no Recife”. Recife  seu primeiro e último mundo.
O monstro está espremido em dimensões geográficas e espirituais. Nem no teatro Moisés conseguiu escapar. O personagem sorri para o nosso viajante. Porém, ele encontrou uma saída: transformar o monstro em inocente. Não conseguiu e teve a satisfação. Mas o dominado está desesperado e tenta justificar a sua fragilidade ao diminuir a credibilidade das interpretações que a sua escrita possibilita. Tarde demais. O seu monstro é sexo. Está agora na outra pessoa, na matéria, na sua frente.
A sua felicidade desde a concepção, parece ligada à sua própria caverna e não há abismo que o elimine, poema que o acabe, arma que o mate. Se o Monstro for mesmo invencível enquanto Moisés viver travará o bom combate, disso parece não haver como escapar. Resta-lhe resistir, chamar a Literatura.
“Balada no Janga” é a narração da vitória mosaica contra aquele que o atormentava. Mas esta vitória não significa morte e sim domínio. O poeta se arrisca e os seus aliados se manifestam. Estavam do lado dele. É assim que termina a fase do jovem adulto.
Graça”, a lira da morte, parece-nos o nascimento do homem que lida com a crueldade e insensibilidade humana mesmo quando não há mais palavras para descrevê-las e ele pede ao leitor que, como Graça, suspire, transpire, respire, se vire. Sua poesia é dura demais.
E a arte? A perversa: é o “Gato Preto em Céu Azul” – soneto que salienta a  inocente armadilha do desejo.
Em “Folhetim” pressuponho ébrio uma miscigenação da cultura pernambucana ou até simplesmente final de um romance proibido. É verdade. A arte imita a vida. Quase que eu engolia essa de ficção como verdade.
Já em “Roma”, o elo que este dramaturgo usa é o próprio amor, que na contradição da cidade imortal, ele se vê dentro da história da arte e deste modo parece viver num eterno barroco. A sedutora e charmosa Roma lhe faz esperar a hora tão triste. É a história do passado de Moisés, cuja família veio da Itália no final do século XIX: os Belli. Impérios, jogos, monumentos, basílicas, praças, religião, catolicismo, Vaticano, Deus. Moisés é  tudo isso enquanto passeava pelo jardim do amoR a procura da mais perfeita criação. Ele não encontra. E vai sem vergonha de ter cometido um crime contra os céus. O Neto do verdadeiro Moisés está perdido. É estrangeiro na terra da própria família, das suas raízes. Ele não teme seu momento de êxtase, tal qual santa Terezinha do Menino Jesus. Mas teve o seu breve instante. Ímpar. Sem igual. A vida lhe deu o roteiro. Seu filme estava na tela do cinema mundial que todos os cegos puderam ver. RomA não era mais a mesma. O seu amoR não era um simples amar. Ah! Dolce Vita, deste ao transeunte a Passagem para o beijo tão esperado.
 Ode ao Livro”. Que livro? O livro da sua vida, história contada para si mesmo por não poder contá-la a ninguém. Ninguém merece ouvi-la. E é gozado, não é? Perguntas também permeiam este irmão de “Lobos”. O que está por traz do vinho escuro, de Deus e das maravilhas no quarto? E crucificam, perigo, serpente e sangue na sala? É aquele mesmo monstro que o perseguiu. Ele está querendo voltar ao comando. O livro restaurou as suas forças e fez parte dele quando sentiu sem lê-lo. Ficou dentro das páginas para que o outro também pudesse tê-lo. E assim, sendo um verme rasteiro, o leitor seria o veneno e o soro para a ficção de Moisés Neto, que aqui revela outra categoria para os seus lobos –  suas paixões compulsivas e desordenadas, típica característica do jovem eterno.
 Agnus Castus” – um poema-personagem de Moisés Neto que inspira outra ficção. E como em um oficio eclesiástico, traduzo aqui: um jovem descobre sua vocação sacerdotal e se tranca no mundo do seminário. E já renunciando ao sexo, ele resiste às tentações da carne. O seu poder está no mar divino, onde ele busca pelo barco da oração e do altruísmo-caridade a força de manter-se seguro na tempestade que o Mestre acalma.
Ele, casto cordeiro, nascido numa família pobre. E  por ter esta condição, o medo de estar seguindo o caminho errado que o atormentou: ‘Será que estou querendo ser padre pra livrar minha família da miséria?’ E a resposta só veio quando ele visitou seus pais e viu a realidade: ‘Eu sei que fui chamado e sou chamado por Deus. O povo está precisando. Escutei a voz divina através do clamor do povo. Eu sou o Moisés do meu tempo.’
Foi após essa conclusão que o seminarista seguiu na companhia do Cordeiro de Deus. E assim ele foi ordenado padre, tornou-se um referencial para os outros presbíteros, modelo para os jovens e doutor da Igreja – quando foi eleito e consagrado bispo. Assim, ele chega ao episcopado como exemplo de vocação. Tão humilde ele era, que deu a sua comunidade o privilegio de ser conhecida por todos quando ele foi escolhido para ser o Sumo Pontífice em Roma. Deste modo, o antepenúltimo verso se concretiza. Deus sabia que ele chegaria até o fim.
“A Hora e o Lugar” é a sinopse da vida deste literato. Pois neste poema flashes de toda a sua história foi registrada fazendo dos momentos e das palavras decifradas as chaves de sua literatura. Aqui ele procurou ninguém e achou o monstro, encontrou uma paixão e a perdeu, encontrou outras e mesmo assim continuou só. Este poema também é uma carta. Uma carta ao ninguém de Odisseu. Pois ninguém quis conhecê-lo. Ninguém lhe revelou ficção, apenas verdades. Mas ele não quis entender e planejou a sua própria morte. Mas não perdeu; não morreu. Ninguém perdeu.
Foi assim, nesta guerra sem vencedores, que a arte superou a vida e a ficção, a realidade. Constrói. Destrói. Reconstrói. Tudo é verdade. E ela proporciona que a autor viva em seu livro. Os personagens estão vivos nas páginas da ficção. Só ali ela é verdade. É isso que Moisés nos mostra, apesar de relutar consigo mesmo. Ele tem a revelação e sabe que a ficção da arte é verdade.
E para fazer jus a esta afirmação, já que vocês estão na fronteira do mundo de Moisés Neto, virem a página e andem lentamente para perceber as maravilhas da vida dele exposta aqui em Passagem.
Boa Viagem!







Ednaldo Isidoro, durante seu doutorado, Paris



Tudo em Todos




Poema de Maximus Ventura
Para o Livro Passagem de Moisés Monteiro de Melo Neto






Como é possível
Transitar por este mundo
Sem deixar uma contribuição?
Tudo é um ciclo visível
Do sentido mais profundo
Da morte – vida, criação.
Uma Gaia, esfera
Concêntricas identidades
Centelhas do cósmico corpo.
Partícula da força – uma espera
Onde tudo é uma só verdade
Na pedra, no cavalo e no corvo.
Enigmas da Revelação
Ela é tudo em todos
Assim desde o primeiro instante
No seio da Terra -  a fecundação
A água, o ar e  o fogo
Na vida de um ser radiante
Eles não eram superiores
Nem os primeiros nem os últimos
Mas agora são aqueles
Que possuem simplesmente
Um corpo, uma alma, uma mente
Constituindo um vírus
Que a cada dia evolui
Sem se dar conta
Que sua evolução
Ao matar o hospedeiro
Também o levará à destruição.
Será um novo começo?
Início retrogrado?
Não se sabe.
Mas a Terra Mãe se defende
Desmatamento – Aids
Poluição – Câncer
Homem – Saúde.
E tudo isso vai perdurar
Até que se tenha consciência
De que na Lei Sagrada da Vida
Há respeito e responsabilidade
E quando os olhos
Do Homo Sapro Contemporâneo
Souber enxergar
Que o direito e o dever
De fazer o que for
Desde que não prejudique
A nada nem a ninguém,
Vivendo e deixando vier,
Lhe devolverá a conexão.
Só assim ele fará
Desta sua Passagem
Pelo Ventre da Grande Natureza
Um instante de Fecundação.