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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

INCENSO, FILME PERNAMBUCANO A PARTIR DA OBRA DE ASCENSO FERREIRA




Diretor, roteirista e artista plástico, Marco Hanois faleceu em de novembro de 2007, aos 42 anos. Como realizador de TV, Vídeo e Cinema, o artista tem no seu currículo mais de 10 curtas-metragens. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão: “Cassino Americano” (diálogos do professor Moisés Monteiro de Melo Neto) Odoyá (adaptado pelo professor da Universidade de Pernambuco Moisés Monteiro de Melo Neto), premiado no Festival de Vídeo de Tokyo, “Chega de Cangaço”, exibido pela TV Globo, “Objeto Abjeto”, vencedor do prêmio de roteiro do 45º Salão de Artes de Pernambuco e melhor documentário do VI Festival de Vídeo do Recife e o mais recente “Incenso”, que recebeu o prêmio de roteiro no Concurso Firmo Neto – Edição 2005, da Prefeitura da Cidade do Recife e foi contemplado com o 2º Edital do Programa de Fomento à Produção Audiovisual de Pernambuco/ 2009 para finalização.

Ivonete melo em cena de INCENSO, o filme


Marco Hanois, Moisés Monteiro de Melo Neto e parte da equipe do filme INCENSO




Incenso na Escola aborda a obra de Ascenso Ferreira

Projeto foi contemplado no Sistema de Incentivo à Cultura de Pernambuco

Publicado em 16/05/2011, às 19h31
Do JC Online
Começou nesta segunda-feira (16/05), na cidade de Salgueiro, interior do Estado, o projeto Incenso na Escola, que visa o reconhecimento da literatura pernambucana, através da leitura cinematográfica de Marcos Hanois, cineasta que filmografou a poesia de Ascenso Ferreira no curta-metragem Incenso. O filme será exibido em escolas de dez cidades pernambucanas - Salgueiro, Exu, Santa Maria da Boa Vista, Floresta, Serra Talhada, Arcoverde, Nazaré da Mata, Palmares, Jaboatão dos Guararapes e Recife - e será seguido de debate com o pesquisador, doutor em Letras pela UFPE, dramaturgo  Moisés Monteiro de Melo Neto, que escreveu vários roteiros para cinema com Marco Hanois e fez a assistência de direção deste INCENSO, e performance poética da atriz Daniela Câmara.
Contemplado no Sistema de Incentivo à Cultura - SIC/PE, o Incenso na Escola ainda vai distribuir cinco mil cordéis inéditos para as Bibliotecas Públicas dos locais percorridos. O trabalho segue até o dia 9 de junho, quando o projeto chega a Recife, onde será realizado na Escola Estadual Ginásio Pernambucano. O Incenso na Escola é uma realização do Funcultura, Fundarpe e Secretaria de Educação/Governo de Pernambuco, com o apoio das Prefeituras Municipais/ Secretarias de Educação, da editora WMF Martins Fontes e da TV Pernambuco. O serviço completo de cada cidade pode ser conferido no blog www.incensonaescola.blogspot.com



SINOPSE





Numa imaginária cidade da Zona da Mata de Pernambuco, a vida, os costumes, as crenças, o jeito de ser, pensar e falar das pessoas comuns. O Coronel, o Padre, o Catimbozeiro, o Cachaceiro, a Beata e uma série de tipos que compõem um contexto cultural e humano. A voz do povo do Nordeste do Brasil, captada pelo poeta Ascenso Ferreira e adaptada para o cinema. O contraste entre o arcaico e o moderno, simbolizado pela Usina, pelo Cinema e o Zeppelin, uma sociedade dividida em classes, um povo emotivo, sentimental e místico, como os versos de Ascenso Ferreira, numa viagem ao coração da alma brasileira.




 Parte do roteiro de INCENSO

A História se passa nos anos 30 do século 20


1 – Ext/Dia – P.G. Canavial, céu, vento balança as folhas das canas.

1a – Estrada de terra corta o canavial. Carro de boi carregado de cana passa pela estrada. Uma placa indica o caminho do Engenho Esperança.

1b – Usina de açúcar no meio da paisagem verde. Usina.

1c – O carro de boi segue na perspectiva da estrada.

1d – Canas Passam (P.V. do Carreiro).

2 – Ext/Dia – P.G. canavial, estrada, carro de boi visto de uma posição mais alta – correção – casa grande, o senhor de engenho observa o carro de boi que passa lá embaixo, depois vira-se  para alguém fora de quadro e grita, depois aproxima-se Zé Estribeiro.

Coronel – Ô Zé Estribeiro! Zé Estribeiro!

Zé (off) – Inhôôr!

Coronel – Quantos litros de leite deu a vaca cumbuca?

Zé (off) – 25, seu Curuné.

Coronel – E a vaca malhada?

 – 27 seu Curuné.

Coronel  – E a vaca Pedrês?

­­Zé – 35 seu curuné.

Coronel – Só?! Diabo, os meninos hoje não tem o que mamar.

3 – Ext/Dia – Mãos de menino com castanhas de caju.

3a – Estrada de terra do canavial. Na beira da estrada estão alguns meninos pobres que brincam de castanha. O carro de boi passa por eles.

3b – Um dos meninos vê algo e avisa para os outros.

Menino 1 – O arco-íris!

3c – (P.V. o Menino) Campo. Arco-íris no céu.

3d – Os meninos correm pelo campo. O menino 2 grita. (aproxima-se da câmera).

Menino 2  – Está bebendo água no riacho.

3e – (Contra Plano) Meninos correm na perspectiva por uma outra estrada. Uma placa indica o caminho do engenho “Estrela D`alva”.

Menino 3  – Vamos cercá-lo. Vamos cercá-lo!

3f – (Traveling de) Crianças correm e gritam uns para os outros. Passam pela estrada de terra.

Menino 1 – Vamos passar nele por baixo!

Menino 2  – Vamos passá-lo... Vamos passá-lo!

3g – (traveling para trás) Menino corre olhando para o horizonte, sorrindo e grita para os outros.

Menino 3  – Fugiu do Riacho... Subiu o Monte...

4 – Ext/Dia – Riacho, crianças correm até o riacho. Param de correr, cansados.

Menino 2  – Vamos pegá-lo... Vamos pegá-lo.

4a– P.P. dos meninos cansados, ofegantes (Pan).

4b – P.M. menino 1 salta no riacho.

4c – P.A. (câmera baixa) Menino 2 salta no rio.

4d – P.P. Água do rio sacudida pelo mergulho de menino.

4e – P.G. Riacho, menino 1 e 2 nadam na água do rio. Menino 3 mergulha no rio. Uma placa indica a direção para o engenho “Flor do Bosque”.

5 – Int/Dia – Menino estudante olha pela janela gradeada da sala de aula, ele observa os meninos brincando lá fora.

6 – Ext/Dia – Riacho, meninos, nadam. (P.V. do estudante).

7 – Int/Dia – Na sala de aula o estudante observa os meninos brincando. Quando ouve a voz do homem, o estudante vira-se assustado.

Professor (off)  – As armas e os barões assinalados.

7a – Sala de aula, diante de um quadro negro e atrás de um birô cheio de livros grossos empilhados, o professor, irritado com a distração do aluno, pergunta.

Professor  – Quantas orações?

7b – P.P. do estudante que hesita e não responde.

7c – P.A O professor fica impaciente e faz logo outra pergunta.


Professor – Qual é o maior rio da China?

7d – P.P.P. – Palmatória pendurada na parede.

7e – O professor risca com giz uma equação no quadro negro e vira-se para continuar a perguntar ao aluno.

Professor – A2 + 2AB igual a quanto?

7f – P.P. O estudante fica cada vez mais angustiado com as perguntas.

Professor (off) – Que é curvilíneo, convexo?

7g – P.M. Sala de aula, o professor acena para que o estudante se aproxime, o estudante obedece e aproxima-se temeroso.

Professor – Menino, vem dar sua lição de retórica.

7h – P.A. Estudante na frente do quadro negro fala decorado depois para o professor que faz uma expressão de aprovação.

Estudante – “Eu começo, atenienses, invocando a proteção dos deuses do Olimpo para os destinos da Grécia”.

Professor  – Muito bem! Isto é do grande Demóstenes. Agora a de francês.

7i – Detalhe das mãos nervosas do professor.

7j – (P.V. do professor – câmera alta) P.A. do estudante, nervoso, esforçando-se para não errar. Concentra-se e fala num francês com sotaque nordestino.

Estudante – “Quand le christianisme avait apparu sur la terre...”

7k – Plano detalhe da boca do professor.

Professor – Basta.

7l – (P.V. do Estudante – câmera baixa) P.A do professor ameaçador.

Professor  – Hoje temos sabatina... o argumento é a bolo! Qual é a distância da terra ao sol?

7m – Detalhe do rosto do estudante, suando, nervoso, não consegue lembrar, não consegue falar. Olho do estudante.

7n – (P.V. do estudante – câmera baixa) P.P. O professor está zangado e pega a palmatória da parede.

Professor – Não sabe? Passe a mão à palmatória.

7o – Detalhe da mão do estudante aberta, recebendo a palmada do professor.

7p – P.A. O professor ameaça o aluno, que tenta segurar o choro, soluçando. Ouve-se o sino encerrando a aula.

Professor – Bem, amanhã quero isso de cor.


8 – Int/Dia – Sino tocado pela secretária no corredor da escola. Alguns alunos passam.

9 – Ext/Dia – P.M. Rua, escola, alunos saem da escola para a rua. Algumas mães acompanham. O menino que apanhou passa acompanhado de uma velha. Câmera acompanha (traveling) a velha e o estudante até passarem por uma casa. Janela da casa onde se vê Dona Nina e a mulher.

10 – Int/Dia – Casa de D. Nina, sala, próximo à janela estão D. Nina e a mulher. Conversam. A mulher folheia uma revista e mostra à D. Nina, ao fundo, na rua algumas crianças passam, saindo da escola.

10a – Detalhe da revista que a mulher mostra para D. Nina. Fotos de filmes.

Mulher (off) – ... Mas D. Nina, aquilo que é o tal de cinema?

10b – A mulher segura a revista e fala em tom de censura para D. Nina que escuta atentamente, enquanto faz um trabalho manual (bordado, costura ou renda).

Mulher – O homem saiu atrás da moça, pega aqui, pega acolá, pega aqui, pega acolá, até que pegou-la.

10c – D. Nina espanta-se (pan – correção) para a mulher que continua o relato.

Mulher – Pegou-la e sustentou-la. Danou-lhe beijo, danou-lhe beijo, danou-lhe beijo.

(inclusão de uma cena de filme do ciclo do Recife, “A Filha do Advogado”)

10d – (close) da Mulher que continua a falar para D. Nina.

Mulher – ... Depois entraram pra dentro dum quarto! Fez-se aquela escuridão (...)

10e – Detalhe da boca da mulher falando.

Mulher – (...) e só se via o lençol bulindo...

10f – D. Nina escuta horrorizada o que a mulher está dizendo, faz uma expressão de desgosto, benze-se, pensa um pouco, olha pela janela e vê algo que não gosta.

Mulher (off) – Me diga uma coisa D. Nina. Isso presta pra moça ver?

11 – Ext/Dia – (P.V. de D. Nina) Na rua, Chiquinha conversa com alguns rapazes que cortejam-na, um deles toca-lhes os cabelos e fala coisas no ouvido dela que ri. O rapaz dá uma flor para Chiquinha.

D. Nina (off) – Entra pra dentro Chiquinha...

12 – Int/Dia – Da janela D. Nina grita para Chiquinha.

D. Nina – Entra pra dentro Chiquinha! No caminho que você vai você acaba prostituta.

13 – Ext/Dia – Rua, os rapazes afastam-se rindo, Chiquinha despede-se e caminha para casa. (aproxima-se da câmera)

Chiquinha – Deus te ouça, minha mãe... Deus te ouça.

13a – Ext/Dia – Na rua, Chiquinha passa em direção à casa, o cachaceiro observa-a e fala, não para ela, mas para o copo cheio de cachaça.

Cachaceiro – Branquinha, branquinha, é suco de cana caiana, pouquinho é rainha, muitão é tirana.

14 – Int/Dia – Copo d`água é colocado sobre a mesa. (câmera corrige revelando) o coronel que lê uma carta, um bilhete. O coronel acaba de ler, guarda o papel no envelope e deixa-o perto do copo, chama a mulher.

Coronel – Ô Maria! Maria! Cumpadre Cazuza vem almoçar amanhã aqui em casa (...)

14a – P.P.P. O coronel fala com a mulher.

Coronel – Que é que tu preparaste pra ele?

14b – Sala, Maria chega de outro cômodo, aproxima-se do marido e conversa com ele.

Maria ­– Eu matei uma galinha, matei um pato, matei um peru, mandei matar um cevado...

14c – close do coronel.

Coronel – Oxente, Mulher! Tú estás pensando que cumpadre Cazuza é pinto? Manda matar um boi!

15 – Int/Noite – Boi de brinquedo feito de barro, quarto de dormir. Na rede, o estudante é embalado pela velha.

Velha – ... Lindas histórias do reino da mãe d´água. ... Tomar a benção à lua nova...

16 – Ext/Noite – Casa Grande. Janela do quarto de dormir, luz fraca. (Câmera corrige para pátio, grupo de homens tomam café, fumam, conversam.

Peão – O avô de Zé Pinga-Fogo amanheceu morto na mata com o peito varado pela canela do Pé-de-Espeto.

16a – O vigia bebe café e conversa com os outros (depois correção para o Zé Estribeiro que também fala).

Vigia – O cachorro de Brabo-Manso levou, sexta-feira passada, uma surra das caiporas.

Zé Estribeiro – A Mula-de-Padre quis beber o sangue da mulher de Chico Lolão...

16b – Close de Zé Estribeiro que continua a história enquanto acende um cigarro de palha num lampeão.

Zé Estribeiro – ... Lá embaixo, a almanjarra, a rara almanjarra gemia e rangia, que o engenho Alegria é bom moedor...

17 – Ext/Dia – Pasto, bois e cavalos pastam. (pan). Bois passam tangidos por vaqueiro.

Vaqueiro (off) – Eh, andorinha! Eh, moça-branca! Eh, Beija-flor!

18 – Ext/Noite – Os homens escutam impressionados o relato de Zé Estribeiro que fala e gesticula.

Zé Estribeiro – ... Foi quando se deu a coisa esquisita: mordendo, rinchando e aos pulos, se pondo de pé...

18a – Close de Zé Estribeiro falando para os outros.

Zé Estribeiro – Com artes do cão, surgiu uma besta, sem ser dali não.

19 – Ext/Dia – Crepúsculo – Cavalos passam na contra-luz, silhuetas, patas galopando, corda é lançada, mão do vaqueiro puxa a corda, patas de cavalos, poeira.

Vaqueiro (off) – - Atalha a bicha, Baraúna!
- Sustenta o laço, maracanã!

20 – Ext/Noite – Zé Estribeiro continua o relato próximo do lampião.

Zé Estribeiro – ... E a besta agarrada entrou na almanjarra.

21 – Ext/Crepúsculo – Próximo ao engenho, homens aproximam-se com pedaços de pau, chicotes, galhos de árvores, tochas.

22 – Int/Noite – Tochas iluminam mãos com cacetes e chicotes. Mãos armadas com paus e galhos atacam, golpeiam. Escutam-se os ruídos dos golpes, o relinchar da besta e o bater dos cascos no chão. O sangue molha a almanjarra.

23 – Ext/Dia – Amanhece o dia, sol nascente. Escuta-se ainda os ruídos dos golpes e o relinchar da besta, cantar de galo.

24 – Ext/Noite – Close de Zé Estribeiro que toma café e continua o relato.

Zé Estribeiro – Depois que ela foi solta, entupiu no oco do mundo... num abrir e fechar de olhos, a maldita se encantou.

24a – Zé Estribeiro finaliza a narrativa, observado pelos outros dois. Detalhe do lampião. Fogo.

Zé Estribeiro – De tardinha, gente vinda da cidade trouxe a nova de que a ama do padre serrador amanhecera tão surrada que causava compaixão.

25 – Int/Dia – Chamas, velas acesas, o oratório, várias imagens de santos, corrige revelando casa do Padre. O padre com um tufo de algodão embebido em um remédio passa com cuidado o algodão nos ferimentos (escoriações e hematomas) que cobrem o corpo da ama. Ela está semi-despida com os pés dentro de uma bacia ou tina. A ama geme a cada toque do padre. Ouvem-se batidas na porta da frente. O padre interrompe o que está fazendo, cobre-a com um pano e vai atender a porta.

25a – Antes de abrir a porta, o padre olha por um buraco para ver quem são os visitantes.

26 – Ext/Dia – (P.V. do padre) Visão parcial (através do buraco). D. Nina e a mulher esperam que ele abra a porta.

27 – Int/Dia – Na sala, o padre fica entediado com a presença das duas e caminha na ponta dos pés para que elas não escutem  e desistam. As mulheres continuam a bater na porta, ouve-se a voz de D. Nina.

D. Nina (off) – Seu vigário!

28 – Ext/Dia – Na frente da casa do padre, D. Nina bate na porta e grita para dentro da casa. A mulher traz nas mãos uma galinha. A porta vai abrindo-se lentamente.

D. Nina – Está aqui esta galinha gorda que eu trouxe pro mártir São Sebastião!

Padre – Está falando com ele! Está falando com ele!

29 – Int/Dia – São Sebastião ocupa um lugar de destaque no meio das garrafas e outros produtos vendidos na bodega onde está o cachaceiro que toma outra lapada.

Cachaceiro – - Adeus, mamãe de Loanda!
- Adeus, meu filho Nogueira! O que tu viste na feira?

29a – Copo de cachaça é enchido (P.P.P.) Mão pega o copo e ergue-o.

Cachaceiro – Cair dez de cada banda.

29b – O cachaceiro contempla o copo de cachaça momentos antes de bebê-lo.

Cachaceiro – Simeão por terra bêbo, Rafael no chão deitado...
Minha mãe, venha mais branda
Que em jejum eu te arrecebo.

29c – Detalhe da mão segurando o copo e deixando pingar um pouquinho pro santo.

30 – Int/Noite – Água escorre (tilt down), mãos são lavadas. (Traveling para trás revelando) o coronel lavando as mãos, termina. Maria entrega-lhe uma toalha. O coronel comenta algo com ela e sai.

Coronel – Os olhos brilhantes de cocainômano parecem ter coisas para me contar.

30a – Ext/Int – No terraço está Pedro Velho olhando para o céu. Pela porta aparece o coronel que se aproxima de Pedro Velho e também olha para o céu.

Coronel – Pedro Velho, cadê o teu engenho?

30b – Primeiro plano de Pedro Velho, desolado, responde ao coronel sem tirar os olhos do horizonte.

Pedro Velho – A usina passou no papo.

30c – P.A. O coronel coloca a mão no ombro de Pedro Velho.

Coronel – E onde vais fundar safra este ano?

30d – Rosto de Pedro Velho, os olhos injetados, voz embargada.

Pedro Velho – Na barriga da mulher, na barriga da mulher.

30e – Pedro Velho fica olhando para o céu, o coronel se afasta, entra pela porta da sala.

30f – Os olhos de Pedro Velho, brilhando.

31 – Ext/Noite – Lua Cheia.

32 – Int/Noite – Na sala, o coronel vai até um móvel, tira uma garrafa de Whisky escocês e dois copos, vai voltando para o terraço, passa por Maria que está tocando piano e comenta...

Coronel – Os olhos brilhantes parecem, agora, duas poças d`água tremendo ao luar.

33 – Ext/Noite – Lua cheia.

34 – Ext/Noite – Igreja, lá dentro, luzes acesas, vozes. Na porta, rapazes olham para dentro. O homem se aproxima dos rapazes que estão na porta e entra.

35 – Int/Noite Altar adornado.

Rapaz 1 – (voz off) Parece um ninho de noivado...

35a – (pan) Rapaz que está na porta comenta algo, o amigo ao lado inspira o cheiro que vem de dentro da igreja e comenta, um terceiro rapaz também fala.

Rapaz 1 – E a gente chega a interrogar se Nossa Senhora vai se casar...

Rapaz 2 – Hum... perfume de rosas no ar trescala.

Rapaz 3 – São as rosas de carne que há na sala.

35b – Moças rezam baixinho. Uma morena, uma loura e uma pálida.

35c – O homem que havia entrado observa o culto, benze-se.

35d – Close no rapaz 1 que fala baixo como se rezasse.

Rapaz 1 – Oh perfumosas e puras rosas pálidas como açucenas.

35e – Diante do altar, o padre dá prosseguimento ao culto.

Padre – Kirie eleison...

Todos (off) – Kirie eleison

35f – O homem observa atentamente o padre, depois muda a direção do olhar e muda a expressão para uma expressão de fascínio, emoção.

35g – (P.V. do homem) A mulher que está especialmente bonita, reza.

Mulher – Oh mãe castíssima! Oh vaso espiritual! Oh espelho da justiça.

35h – Rosto de Chiquinha que também reza.

Chiquinha – - Oh rainha concebida sem pecado original!
- Oh consolação dos aflitos
- Oh senhora dos infinitos.

35I – Moça 1 reza (pan). Moça 2 também reza.

Moça 1 – Oh torre de Davi! Oh estrela da manhã! Oh escada de Jacó!

Moça 2 – Oh rosa de sião! Oh lírio de Jericó! Oh rainha cristã! Oh...

35j – Moças rezam ao mesmo tempo.

Moças – Rogai por nós que recorremos a voz.

35k – No altar, o incenso queima.

35l – O homem comenta consigo mesmo.

Homem – O mês de maio vai terminar.

35m – As moças com “seus deliciosos braços nús, fazem o sinal da cruz”.

Moças – Amém.

35n – Ext/Noite - O homem acompanha com o olhar a mulher que vai saindo da igreja.

36 – Ext/Noite – Na frente da igreja, fiéis saem, rapazes flertam. D. Nina, Chiquinha e a mulher passam.

37 – Int/Noite – Tambor é percutido por mãos de homem negro. Ouve-se o batuque e vozes cantando.

Vozes (off) – Mestre Carlos, Rei dos Mestres, aprendeu sem se ensinar...

37a – Terreiro de Umbanda. Homens e mulheres dançam em círculo, sentado, mestre Carlos faz sinal para que o homem se aproxime. Ele chega e se ajoelha diante de mestre Carlos.

Todos (cantando) – Ele reina no fogo! Ele reina na água! Ele reina no ar!

37b – Mestre Carlos bate com uma folha de pinhão roxo na cabeça, nos ombros, faz um sinal da cruz na testa e no peito do homem que reza contrito. Depois mestre Carlos passa incenso ao redor do homem. Mestre Carlos sussurra no ouvido do homem que repete em voz alta.

Homem – Por isso, em minha amada acenderá a paixão que consome! Umedecerá sempre em sua lembrança o meu nome! Levar-lhe-á o perfume do incenso que vivo a lhe queimar.

37c – Close do homem falando concentrado.

Homem – E ela há de me amar... Há de me amar... Há de me amar...

37d – Mestre Carlos passando incenso interfere na oração.

Mestre Carlos – Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar.

37e – O homem cercado pela fumaça do incenso continua a prece sussurrada por mestre Carlos.

Homem – À luz do sete estrelo nós havemos de casar e há de ser bem perto. Há de ser tão certo como este mundo tem de se acabar...

37f – Mestre Carlos se aproxima do homem com uma garrafa de cachaça, dá ao homem que toma um grande gole e depois fala para mestre Carlos. A fumaça cobre tudo.

Homem – Foi a jurema de sua beleza que embriagou os meus sentidos! Eu vivo tão triste como os ventos perdidos que passam gritando na noite enorme...

38 – Int/Noite – Na cama entre lençóis, o corpo da mulher dormindo, tendo um sonho erótico, ela se acaricia. As mãos nos lábios, na pele, nos cabelos, nos seios. Tudo à “meia-luz”. Depois ela desperta suada, ofegante. A voz do homem e a voz da mulher misturam-se.

Homem (off) – Mulher(in) – Porque quero gozar o viço que no seu lábio estua, quero sentir sua carícia branda como um raio de lua, quero acordar a volúpia que no teu seio dorme.

39 – Int/Noite – Terreiro de umbanda, o homem continua o ritual.

39/0 – Mãos batem no tambor

Homem – E hei de tê-la, hei de vencê-la, ainda mesmo contra seu querer... Porque de mestre Carlos é grande o poder.

39a – Mãos batem nos tambores freneticamente.

39b – O homem fecha os olhos enquanto mestre Carlos incensa-o novamente.

Mestre Carlos – Pelas três Marias... Pelos três Reis Magos... Pelo Sete Estrelo...

39c – Rosto de mestre Carlos, sério, concentrado.

Mestre Carlos – Eu firmo esta intenção, bem no fundo do coração, e o signo de Salomão ponho como selo...

39d – Mestre Carlos anda ao redor do homem que está quase em transe.

Homem – E ela há de me amar... Há de me amar... Há de me amar...

Mestre Carlos – Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar.

39e – Terreiro, o homem levanta-se ao lado de mestre Carlos, as pessoas dançam em círculo cantando, com mais intensidade.

Todos – ... Mestre Carlos Rei dos Mestres. Reina no fogo... Reina na água... Reina no ar.

40 – Ext/Dia – Sol nasce, canavial.

Todos(off) – ... Ele aprendeu sem se ensinar.

41 – Ext/Dia – Rua da cidade. O cachaceiro está deitado no chão. Acorda-se, levanta-se, bebe no gargalo da garrafa. Cambaleia, apruma-se, arruma-se e caminha pela rua.

Cachaceiro – Em jejum eu te arrecebo cuma xarope dos bêbo... tu puxas eu arrepuxo, bates comigo no chão, bato contigo no bucho. Adeus mamãe de Luanda. Adeus meu filho Nogueira.

42 – Int/Dia – Diante de um espelho, no quarto, o coronel endireita o nó da gravata, a mulher também se apronta, borrifa perfume.

43 – Ext/Dia – Canavial, riacho, as crianças passam correndo. Placa “Engenho Bom Mirar”.

44 – Ext/Dia – Na frente da igreja, a secretária, o professor e o padre.

45 – Ext/Dia – Porta da frente da casa de D. Nina abre-se. A mulher está do lado de fora da casa aguardando D. Nina e Chiquinha que saem. As três caminham juntas.

46 – Ext/Dia – Na frente da casa grande todos esperam olhando para o céu. (Coronel, Maria, Zé Estribeiro, Peão, Vigia).

47 – Ext/Dia – Frente da Igreja. Pequena aglomeração.

47a – A secretária está cansada. O padre está suando e enxuga-se com um lenço.

48 – Ext/Dia na cidade. O bêbado passa e percebe que todos estão parados olhando para o céu.

48a – Todos ficam virados para a mesma direção e olham para o céu.

48b – Os rostos das pessoas olhando para o céu.

49 – Ext/Dia – Aéreas de canaviais, velho engenho, usina, paisagem aérea da zona da mata de Pernambuco.

Piloto (off) – WZ! KDKA! UZQP!

Voz Rádio (off) – Alô Zeppelín! Alô Zeppelín! Jequiá!

50 – Int/Dia – Estação de rádio. Operador de rádio tenta fazer contato com o Zeppelin ou outro operador de rádio.

Operador de Rádio – Usted me puede dar nuevas dez Zepelin?

50a – Close do operador de rádio.

Op. Rádio – Dove il Zeppelin?

51 – Ext/Dia – (pan) Nuvens, céu.

Op. Rádio (off) – Where is the Zepelling?

52 – Ext/Dia – Fotos aéreas de Fernando de Noronha.

Op. Rádio 2 (off) - Passou agorinha em Fernando de Noronha, ia fumaçando.

53 – Ext/Dia – (Arquivo – filme da época) Zeppelin no céu.

Op. Rádio 3 (off) – Chegou em Natal! Augusto Severo, acorda de teu sono bichão.

54 – Int/Dia – Close do operador de rádio.

Op. Rádio ­– Alô Zeppelin! Alô Zeppelín!

55 – Ext/Dia – (arquivo – filme de época) Zeppelin voando.

Piloto (off) – Rádio! Rádio! Rádio! QZQPQP. GQAA…

56 – Ext/Dia – (tilt down) Pessoas (D. Nina, a mulher, o cachaceiro, o padre, as crianças, etc...) que olham para o céu. Uma menina é a primeira que vê.

Menina – Apontou!

Padre – Parece uma baleia se movendo no mar!

56a – (pan) Cachaceiro comenta, ao lado, Dona Nina benze-se e também comenta. Chiquinha também fala.

Cachaceiro  – Parece um navio avoando nos ares.

D. Nina – Credo, isso é invento do cão.

Chiquinha – Ó coisa bonita danada.

56b – Close do Cachaceiro.

Cachaceiro – Viva seu Zé Pelin!

56c – menina vibra.

Menina – Vivô!

57 – Ext/Dia – Zeppelin voando (imagens da época).

Piloto (off) – Deutschland uber Alles!

58 – Ext/Dia – O cachaceiro olhando para o Zeppelin que passa.

Cachaceiro – Olá, seu ferramenta, você sobe ou se arrebenta?

59 – Ext/Dia – (fotos da época) Zeppelin no solo pernambucano, oficiais alemães, populares. (foto do Zeppelin no jornal).

60 – Ext/Dia – (Fazenda, curral. Perto do curral, conversam Zé Estribeiro e meninos. Riem.

Zé Estribeiro  – O Coronel não gostava de apelido. Assim por volta das seis horas da tarde, ele estava sentado no terraço da Casa Grande, passeando prá lá e prá cá, quando aparece um sujeitinho...

61 – Ext/Noite – Campo, casa grande, o coronel na cadeira de balanço no terraço.

61a – O coronel avista alguma coisa.

61b – Um homem pobre aproxima-se da casa grande. Os cachorros latem. O coronel observa o homem pobre.

61c – Zé Estribeiro e depois mais dois peões vêem ver quem é.

61d – O homem pobre tira o chapéu respeitosamente, quando fica próximo à casa grande, pára e fala com o coronel.

Homem Pobre – Bom noite, seu curuné.

Coronel – Bom noite!

61e – Close do homem pobre.

Homem Pobre – Seu curuné, não tem um servicinho por aí pra mim não?

61f – (P.V. do homem pobre) P.A. o coronel conversa com o homem.

Coronel – Talvez se arrume, talvez se arrume. Como é que você se chama?

61g – O homem fala com o coronel, atrás estão Zé Estribeiro e outros peões observando.

Engole Cobra – Eu me chamo Engole Cobra.

Coronel – Engole Cobra?

61h – Na frente da casa grande o coronel chama a mulher.

Coronel – Engole cobra?... Ô Maria! Maria! Anda ver o homem que Engole Cobra.

62 – Ext/Dia. Fazenda, curral, Zé Estribeiro continua a contar a história.

Zé Estribeiro    Chamou a mulher que estava lá dentro. A mulher apareceu. Ele fez a apresentação e disse...

63 – Ext/Noite  - Casa Grande, o Coronel perto de Maria, fala ao Engole Cobre.

Coronel – Engole Cobra, meu nego, você vai morar aí naquele ranchinho pra você ficar.

64 – Ext/Dia – Fazenda, curral, Zé Estribeiro contando a história para os peões.

Zé Estribeiro – Passou-se sexta, sábado, no domingo o sujeito veio reclamar.

65 – Ext/Dia – Sol nasce, galo canta. O coronel está no terraço, Engole Cobra se aproxima tirando o chapéu.

65a – Engole Cobra fala com o coronel.

Engole Cobra – Seu curuné, não tem um servicinho pra mim, não?

Coronel – O que é que o senhor está reclamando, não recebeu suas férias?

Engole Cobra – Recebi, sim senhor.

65b – Close do coronel.

Coronel – Não se incomode. Logo aparece! Logo aparece!

66 – .Ext/Dia – Fazenda, curral, Zé Estribeiro continua a contar a história.

Zé Estribeiro  – Lá para o meio da outra semana, descobriram uma surucucu que não tinha mais prá onde crescer.

67 – Ext/Dia – Casa Grande, P.P., Coronel abre um sorriso e fala com Zé Estribeiro.

Coronel – Não bole com ela não, vai chamar ali seu Engole Cobra.

68 – Ext/Dia – Fazenda, curral, cocheira. Zé Estribeiro concluindo a história.

Zé Estribeiro – O Engole Cobra veio nas carreiras. Disse:

69 – Ext/Dia – Fazenda, curral, cocheira. Engole Cobra conversa com o coronel que lhe aponta uma coisa, Engole Cobra olha para onde o coronel apontou.

Coronel – Engole Cobra, meu nego, está aí um servicinho pra você!

70 – Ext/Dia - (P.P.) Coronel apontando o lugar.

Coronel – É só essa besteirinha pra você engolir.

71 – Ext/Dia – Num canto da cocheira, uma enorme cobra.

72 – Ext/Dia – (pan) Próximo a cocheira, Engole Cobra com riso amarelo. O coronel observa calado. Zé Estribeiro coça a cabeça prevendo que aquilo não vai acabar bem.

Engole Cobra – Está doido, seu curuné, eu nunca engoli cobra, isso é apelido.

72a – Close do coronel zangado.

Coronel – Ahh... é apelido? Vigia! Vigia! Dá uma surra neste homem, vigia! (Zé Estribeiro ri e Vigia se aproxima).

73 – Ext/Dia – Chaminé da usina.

74 – Ext/Dia – Canavial

75 – Ext/Dia – Almanjarra

76 – Ext/Dia – Canavial, carro-de-boi passa na estrada de terra. Crianças passam correndo.

77 – Ext/Dia – Rua da cidade. Placa numa casa indica o nome da rua. Rua do Rio. (plano seqüência). Na frente da casa um homem deficiente físico come alguma coisa que ele esconde na mão. Mastiga. Olha para os lados, desconfiado. Câmera desloca-se até outra casa seguindo D. Nina e a mulher que passam. Elas param para cumprimentar um pedreiro que organiza uma pilha de tijolos. Elas falam com ele que responde grosseiramente. Elas despedem-se e caminham comentando algo entre si. D. Nina vê alguma coisa que não gosta, benze-se e segura a mulher pelo braço para mudarem de caminho, saindo empertigadas, virando o rosto para não cruzarem com a preta Inês (a câmera acompanha a preta Inês). Inês que passa segurando algumas penas pretas na mão. Preta Inês aproxima-se cobrindo todo o quadro. (Cortina)

Voz (off) – No começo da rua morava agostinho, o aleijado, a quem o povo acusava de alimentar-se de coisas imundas: bichos mortos apanhados no fundo dos quintais!

Fronteiro à ele morava o pedreiro Manuel Belo, que por ter sido mordido de cachorro da moléstia, quando falava com a gente avançava como um cão.

No meio da rua morava a celebérrima preta Inês. Catimbozeira afamada sempre às voltas com sapos e urubus!

77a – Ext/Dia – (cortina) Rua do rio, Preta Inês descortina o quadro passando pela frente da casa onde na janela, está a mulata Filomena  que observa a rua e penteia os cabelos.

Voz (off) – Na outra ponta morava a mulata Filomena, a quem um jacaré acuou...

78 – Ext/Dia – Água, jacaré meio submerso observa.

Voz (off) – ...Dentro de um banheiro no rio.

79 – Ext/Dia – Estrada de terra no meio da floresta. A mulata Filomena, nua, corre assustada.

Filomena – Me acudam! Me acudam!

80 – Ext/Dia – Calçamento de pedra (traveling). Pedras ocupam todo o quadro.

81 – Ext/Noite – Calçamento de pedra (traveling).

Voz (off) – Mas nem tudo, na rua do rio, era infâmia, nojo, abominação!

82 – Ext/Noite – (traveling – câmera na mão). Casa, frente, lateral, fundos, quintal,  muro, outra casa, homem toca pífano, pára, acende um foguete e volta a tocar pífano, pára de tocar outra vez e acende outro foguete, voltando a tocar o pífano em seguida.

Voz (off) – ... Na outra ponta da rua, bem nos fundos do quintal da casa da minha mãe, morava o fogueteiro Lulu Higino, que, no silêncio das noites consteladas...

82a – Ext/Noite – Lulu Higino toca pífano.

Voz (off) – Arrancava da flauta uns acordes tão suaves, que até parecia...

83 – Ext/Noite – Céu estrelado. Fogos de artifício.

Voz (off) – ... Serem as estrelas lá no céu que estavam tocando.



FIM


A oralidade da poesia de Ascenso Ferreira em curta-metragem

Cineasta Marco Hanois começou a gravar Incenso, filme que presta homenagem ao poeta Ascenso Ferreira

O Engenho Massangana, no Cabo de Santo Agostinho, foi moradia do escritor e abolicionista Joaquim Nabuco até os oito anos e é uma das construções mais representativas do Pernambuco do século 19. O espaço, atualmente funcionando como centro cultural, emprestou suas particularidades históricas ao início das gravações do novo curta de Marco Hanois, Incenso, no último sábado.
O filme presta homenagem à obra de Ascenso Ferreira e busca, segundo o diretor e roteirista, “resgatar as peculiaridades orais do texto do poeta e reviver um período da história pernambucana, que ficou esquecido”: as primeiras décadas do século 20, com suas beatas, coronéis, crendices e o espanto diante da modernidade tardia que o Brasil começava a vivenciar. Uma das cenas de Incenso mostra a perplexidade dos personagens diante de um Zeppelin rasgando os céus de um Pernambuco ainda rural.
Apesar de Ascenso Ferreira ter nascido em Palmares, o curta de Hanois não se fecha numa cidade específica. Sua proposta é ter como cenário um interior arquetípico, que traga pormenores de todas as cidades pernambucanas do início do século passado sendo apresentadas ao espectador durante os 20 minutos da trama. Dessa forma, as filmagens, que se prolongam até o próximo mês, terão como cenário ainda os casarões antigos e ruas do Poço da Panela.
O primeiro dia de filmagens de Incenso registrou os diálogos entre os atores Alexandre Zachia e Tuca Andrada. Zachia interpreta um personagem chamado apenas de Coronel, que funciona como uma espécie de “alter ego” do próprio Ascenso. O poeta costumava dizer que um dos seus sonhos era ter sido coronel de engenho, figura das mais representativas do imaginário nordestino. Tuca vive Zé Estribeiro, que serve como elo das várias tramas do curta.
Amigo de longa data de Hanois, Tuca explicou que, por pouco, ficou de fora do elenco de Incenso devido à sua apertada agenda, que divide espaço entre a novela Cidadão brasileiro e a turnê da peça Orlando Silva, o cantor das multidões. “Eu queria muito fazer esse curta, tanto por minha amizade com Hanois quanto pela homenagem que ele faz à obra de Ascenso, um poeta importantíssimo. Foi um verdadeiro milagre que neste fim de semana eu tenha conseguido participar das gravações”, explicou o ator, durante uma das pausas da filmagem.
Incenso tem um elenco numeroso com mais de 30 atores, que conta ainda com nomes como Bruno Garcia, Aramis Trindade e com as cantoras Lia de Itamaracá e Mônica Feijó. No caso de Mônica, que atualmente participa do elenco de Páginas da vida, ela volta a Pernambuco nas próximas semanas especialmente para gravar sua participação em Incenso. A assistência de direção fica a cargo de Moisés Neto. A atriz Patrícia França foi um nome cotado para atuar no curta, mas acabou ficando de fora por problemas na sua agenda. Patricia, nos anos 80, trabalhou em projetos teatrais de Hanois.
Todos os diálogos de Incenso são permeados por fragmentos de textos de Ascenso. O título do curta faz referência ao poema Mês de maio: “O incenso queima diante do altar,/ o mês de maio vai terminar.../ Com seus deliciosos braços nus,/ as rosas fazem o sinal-da-cruz.../ Amém...” - presente no livro Catimbó, de 1927. Ao fragmentar diversos textos de Ascenso, segundo o diretor, o curta resgata para toda uma nova geração a oralidade típica da obra do poeta.
O roteiro do curta foi vencedor do prêmio Ary Severo-Firmo Neto, concedido pela Prefeitura do Recife no ano passado, e foi orçado em R$ 80 mil. Durante a fase de gravação, o filme está contando ainda com apoio de, entre outras instituições, Chesf e Fundação Joaquim Nabuco, que cedeu gratuitamente a utilização do Engenho Massangana. No entanto, a equipe ainda procura recursos para a etapa de pós-produção.
Marco Hanois chega a Incenso depois de trabalhos bem-sucedidos como Objeto abjeto e Cassino Americano, que recebeu Menção Honrosa no festival Internacional de Vídeo promovido pela JVC em Tóquio. Sua homenagem a Ascenso será lançada no primeiro semestre de 2007. “Ainda não sei se a estréia será no Festival de Cinema do Recife, mas quero muito que ele faça parte da programação do evento”, afirmou o diretor.



Ascenso Ferreira



O VII Festival de Vídeo de Pernambuco divulgou os vencedores de 2005 em cerimônia realizada nesta quinta-feira, 15 de dezembro, no Teatro Arraial, na Rua da Aurora. Este ano, foram inscritos 73 vídeos, dos quais 38 foram selecionados para a Mostra Competitiva, ocorrida esta semana no Teatro do Parque.

Os prêmios do Júri Popular foram os primeiros a serem entregues. Na Categoria Documentário ganhou Daniel Barros, com Mais Um Domingo; Dando Crédito, de Rafael Infa levou em Ficção; Plínio Uchôa e Marcos Buccini em Experimental com A Morte do Rei de Barro e Ireny, de Gabriel Mascaro e Daniel Aragão venceu na categoria Vídeo Clip.

A Comissão Julgadora, composta pelas jornalistas Clara Angélica e Carol Almeida, pelo programador visual Fernando Vasconcelos, pelo produtor Osmar Barbalho e pela cineasta Kátia Mesel, premiou nove vídeos em três categorias e decidiu também premiar cinco vídeos com Menções Honrosas, atribuindo a cada um o valor de R$ 1.000,00, equivalente a um terceiro lugar.

Já o Concurso de Roteiros Firmo Neto/Ary Severo teve, este ano, 47 projetos inscritos, que foram analisados pelo jornalista Ernesto Barros, pelo pesquisador Lula Cardoso Ayres, pelos cineastas Osman Godoy e Fernando Monteiro e pelo fotógrafo Roberto Santos Filhos.

O Prêmio Ary Severo, pago pelo Governo do Estado de Pernambuco, foi para Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro e o Prêmio Firmo Neto, pago pela Prefeitura do Recife, escolheu  Incenso, de Marco Hanois (assistência de direção Moisés Neto). Cada um receberá R$ 80 mil para produzirem um curta-metragem de 15 minutos. Ambos os vencedores ganham pela primeira vez o concurso público.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010
INCENSO DE MARCOS HANOIS PERFUMOU A TÃO AGUARADADA ESTREIA DO NOVO PROJETOR DO CINE THEATRO GUARANY
Por Lucivaldo Ferreira

Foi assim, sem nenhum alarde, sem pronunciamentos oficiais e casa praticamente vazia que o Cine Theatro Guarany viu a máquina de mais de 50 mil dólares lançar oficialmente sobre a grande tela seus primeiros feixes de luz.
Talvez o pequeno publico ali presente sequer houvesse se apercebido, mas viviam naquele instante, exatamente às 17:39h da tarde do dia 04 de agosto de 2010, um momento histórico. Ali, depois de tantos anos o Cine Theatro Guarany dava um talvez pequeno, porém importante passo em seu renascimento. Rodava em seu projetor o curta-metragem do cineasta pernambucano Marcos Hanois, “Incenso”.
O curta 35mm pintou a tela da despercebida festa com a oralidade e a poesia do grande poeta Ascenso Ferreira e trouxe ao baile de cores e sensações beatas, coronéis, crendices e memórias de um Pernambuco esquecido nas prateleiras das bibliotecas.
De repente um Zeppelin rasga o céu do filme e seus personagens de olhos arregalados se espantam diante da bela “espaçonave” e toda sua modernidade naquele Pernambuco rural. E ali na sessão das cinco outro grande Zeppelin irrompia a escuridão com suas fotografias correndo um após a outra. Fotografias do nosso povo, fotografias de mim, de quem ali esteve vendo a “história” passar.

O PROJETOR

Na manhã da terça-feira, dia 22 de setembro de 2009 teve fim uma longa espera. O Cine Theatro Guarany finalmete recebeu o seu tão aguardado projetor.
O equipamento de última geração vindo diretamente de Miami (FL USA), custou mais de 50 mil dólares e opera nos sistemas analógico e digital.
A montagem do novo equipamento foi feita pelo Sr. Zé Hildo, o único técnico responsável pela montagem dos cinemas em Pernambuco e pelo engenheiro Sr. Claudiney , que veio diretamente de São Paulo para executar a tarefa de instalar o projetor. Ambos foram auxiliados pelos triunfenses Sandro Martins e Serginho.
O projetor da marca Christie é um dos poucos do país. Segundo o Sr. Zé Hildo, o novo equipamento é o que há de mais moderno em se tratando de projeção, e no Brasil só existem três além do nosso: um fica em Aracaju/SE, outro em Natal/RN e o outro em São Paulo/SP.
Capturado em 30 de julho de 2012
in  http://www.triunfob.com/2010/08/incenso-marcos-hanois-perfumou-tao.html


Ascenso era um humanista
Publicado em 08.05.2008
Viúva queixa-se do descaso com a memória do poeta. D. Lourdes rejeita rótulo de que ele era comunista e lembra a amizade com Arraes


Dona Lourdes mora numa casa no bairro de Campo Grande. Tem um cachorro e 23 gatos. Mas seu sonho é criar cavalo. Não só um, mas muitos. “O bicho que eu mais gosto é cavalo, mas não dá para ter um cavalo dentro de casa”, justifica cheia de dó. Mas tantos animais não dão trabalho? “Se não fossem por esses gatos, não haveria trabalho nessa casa”, diz e aponta para uma cadeira de balanço que comprou para um dos seus gatos, o mais novo deles. “Só quem senta é ele.”
D. Lourdes vive também cercada por imagens do poeta e ex-companheiro Ascenso. O corredor que dá para o seu quarto tem a placa “R. Ascenso Ferreira”. Ela pede para o caseiro colocar uma fita VHS com um documentário de imagens do poeta. “Olhem ele”, aponta para uma foto de Ascenso que aparece na TV.
Ela diz que nem se lembra quantos anos morou com o poeta – “Parece que foi a vida inteira.” Tanto foi/é a vida inteira que “parece que ele está vivo, que nunca foi embora”. Após a morte de Ascenso, D. Lourdes saiu de Pernambuco. “Tive de ir embora porque as pessoas achavam que eu era comunista. Mas nunca fui comunista, nem eu nem Ascenso. As pessoas achavam isso dele porque era um homem que falava com todo mundo, tinha uma personalidade bastante forte. Ascenso não era comunista, era humanista”.
D. Lourdes tem na ponta da língua as razões do esquecimento em torno do nome do seu marido. “Primeiro porque ele foi muito amigo de Miguel Arraes, diziam que Miguel Arraes era comunista, mas nunca foi comunista. Ele foi um grande amigo da gente, um amigo de verdade, um pai de família linha dura. A outra, é que as pessoas tinham inveja da personalidade dele”, destaca. “As pessoas esquecem de tudo com o tempo, o tempo corrói tudo. Tanta gente importante e ninguém lembra”, reflete D. Lourdes.
Outra frustração de D. Lourdes é o filme Incenso, de Marco Hanois, que está parado. “O diretor faleceu ano passado mas não teve dinheiro para terminar o projeto”, reclama. O filme coloca em imagens os poemas de Ascenso, com um elenco formado por nomes como Aramis Trindade e Bruno Garcia. “São todos atores da Globo e tem um personagem que faz Ascenso, ele é igual a Ascenso, igual. Parece que você está vendo ele”.
Quando Marco Hanois faleceu em novembro passado, deixou o filme montado. Falta apenas a finalização. “Colocamos no concurso de audiovisual da Fundarpe, mas ele não foi aprovado. Isso é incrível, sobretudo se lembramos a importância da obra de Ascenso Ferreira e a própria carreira de Hanois, que teve filmes premiados no exterior”, destaca o produtor de Incenso, Pedro Celso, que diz que o projeto precisa reunir ainda R$ 50 mil. “Como é que deixam parado um projeto desses, o filme é emocionante”, diz D. Lourdes.
Enquanto o filme não fica pronto, é o Ascenso poeta que chega ao público com a cuidadosa edição da Martins Fontes. E desta vez é importante que apareça o poeta e não o homem. “Uma das coisas que chamam a atenção de quem se propõe a estudar a poesia de Ascenso Ferreira é o contraste entre a escassez de textos críticos e a abundância do anedotário a seu respeito. Com efeito, nas escassas publicações sobre Ascenso Ferreira, os comentadores centram-se sobremodo na sua figura ‘descomunal’, na espirituosidade, nas atitudes pouco convencionais, no vozeirão e no modo único de recitar suas próprias poesias”, explica Valéria Torres Costa e Silva.
ANIVERSÁRIO
O aniversário de 113 anos de Ascenso Ferreira, que acontece amanhã, é duplamente comemorado. Às 18h30, a Livraria Cultura recebe o lançamento da edição que reúne Catimbó, Cana caiana e Xenhenhéim. Haverá encenação de poesia com as participações de Geninha da Rosa Borges e Adriano Cabral e uma mesa-redonda com Nagib Jorge Neto, Fernando da Mota Lima, Juareiz Correya e a própria Valéria. Às 22h, haverá recital da poesia de Ascenso no bar Casa da Moeda, com nomes como Jomard Muniz de Brito e Cida Pedrosa. (S.C.)
Prefeitura entrega novo túmulo de Ascenso Ferreira


Um dos nomes mais importantes do Modernismo no Brasil, o poeta pernambucano Ascenso Ferreira recebe uma homenagem nesta segunda-feira, quando a Prefeitura do Recife entrega à viúva do escritor, Lurdes Ascenso, o novo túmulo do poeta, no Cemitério de Santo Amaro. Na ocasião, às 10h, alguns poemas do autor pernambucano serão recitados e o toque de silêncio será executado pelos clarins da Polícia Militar.

Todo em granito, o túmulo ocupa um terreno de 3m2, doado pelo Governo Municipal. Na lápide, foi reproduzido o poema “Noturno”, em que Ascenso Ferreira alude a ícones da capital pernambucana, como as ruas do Bairro do Recife e o rio Capibaribe.

A cerimônia também marca os 43 anos da morte do poeta, que aconteceu em 05 de maio de 1965. Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira nasceu, no ano de 1895, na cidade de Palmares. Em 1920, mudou-se para o Recife, onde foi colaborador de alguns jornais locais e deu início a sua carreira literária. Ele se voltou para temas regionais que foram reunidos em livros, como "Catimbó" (1927), "Cana caiana" (1939), "Poemas 1922-1951" (1951), entre outros.


terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Adaptação do romance O GUARANI, de José de Alencar


GUARANIS
(texto de caráter infantojuvenil; autor: Moisés Monteiro de Melo Neto)


         CENA 1

         ISABEL – Peri Queria lhe dizer algo
         PERI– Diga,  Isabel.
ISABEL – Aposte-se da casa de Cecília enquanto  pode.
PERI – Mas você, Isabel,  dizer algo assim logo você que tem o  sangue deles nas veias.
ISABEL – Sangue indígena com sangue azul – nem branca nem  índia. Afaste-se.  Antônio  foi amaldiçoado pelo padre Loredano. Ele agora é um...
PERI – A força e a fé  que tenho tudo  vencerão.
ISABEL – Eles  dizem que querem lhe  batizar. N]ao é?
PERI – Sim. Foi o que lhe impuseram  como condição para levar Ceci.
ISABEL – Eles vão  lhe  morder. Cuidado.
PERI – O fato da família  Mariz ter sido vampirizada por... Loredano,  não me amedronta. Os aimorés, sim.
ISABEL – A única coisa que pode  destiná-los  é o fogo. Por isso queimaram Loredano... e a estaca no coração...
PERI – Os aimorés sabem disso. Por que D.  Antônio não parte.
ISABEL – Ele acha que pode vencer os aimoré.
PERI – Será que é isso?
ISABEL – Os aimorés dominam o segredo da Selva. Há uma guerra física e espiritual  em ação. Eles não  perdoam o irmão de Cecília por ter matando uma índia querida.
PERI – E quanto a você?  Você também é uma...
ISABEL – Não completamente... Mas eu já  estou perdida  de qualquer forma.
PERI – Não diga  isso.
ISABEL – Mas eu  conseguirei  pelo menos lutar ao lado do homem  que ama... Álvaro!  Durante a  batalha ele estará do meu lado.  Então terei  forças para enfrentar qualquer coisa.
PERI – Eu tenho que afastar Cecília,  ela não pode se transformar numa, bem, você sabe.
ISABEL – Cuidado, Peri.  Esse é um assunto muito delicado. D. Antônio  continua tingindo que a índia é um cristão,  mas você sabe...
PERI – é difícil de acreditar!  E a esposa dele,  a mãe de Ceci?
ISABEL – Dona Lauriana  foi enganada.
PERI – Oh,  não. E agora?  Como escaparemos?
ISABEL – A única chance é você levar Cecília até a idade de São Sebastião.
PERI – É  o que pretendo, mas o que será de mim? Ficar sem Ceci é morrer.
ISABEL – Não seja tolo. Perigo maior você contar aqui. Fuja! No meio do caminho você e Cecília podem se entender e aí, quem sabe?  Não é?
PERI – Entendo.
ISABEL – Entendo um plano.  Siga-me.
PERI – Obrigado, Isabel.
CENA 2      
PERI – Afirmo que os poderes da selva triunfarão.
CECI – Corta essa, Peri. Algo muito estranho está acontecendo lá em casa e eu não acredito nessas crendices.
PERI – Ceci não deveria duvidar, Peri tem  sangue do povo da selva. Há algo misterioso.
CECI – Pare. Já não basta?
PERI – Devo confessar: quando era criança fui  atacado por  um estranho felino e desde então  acontecem  coisas que eu não sei explicar.  Uma espécie de mudança em certos momentos.
CECI – O que você quer dizer com isso?  Oh, meu Deus!
PERI – Não precisa se assustar.  Só não gosto que duvide do que não conhece. Ceci corre grande perigo.
CECI – Todos da minha família. O que  faremos?
PERI – Isabel tem um plano.
CECI – E por que ela não conversou comigo?
PERI – Por medo. E um plano muito ousado.
CECI – Conte-me tudo.
PERI – Por enquanto não posso.
CECI – Como não pode?  Eu lhe ordeno! Fale, já!  Isso tem a ver com Álvaro,  não é?  Ele anda esquisito e vive de cochichos com Isabel.
PERI – Não posso dizer nada, por enquanto  é para o próprio bem de Ceci,  acredite.



CENA 3

CECI – Isso não faz sentido. Morrer assim... ser destruído tão inutilmente!
ISABEL – Não será em vão... o plano...
CECI – Do que se trata? Diga, Isabel! Estou ficando nervosa.
ISABEL – Peri tomará veneno poderoso e milhares morrerão envenenados quando  beberem o seu sangue... comerem  sua carne! Leopardos e vampiros...
CECI – Que horror!  Que coisa bárbara!  Não vou deixar que isso aconteça.
ISABEL – E como você pode impedir?
CECI – Álvaro!  Pedirei a Álvaro  que ele vá a aldeia  dos aimorés e resgate Peri.
ISABEL – É muito  arriscado.
CECI – Peri é guerreiro importante. Meu pai vai concordar. Vamos!  Temos que nos apressar.
ISABEL – Talvez você tenha razão. O meu plano talvez não tenha sido bom.
CECI – Esqueça este plano. Apresse-se.  Temos que encontrar papai e Álvaro.

domingo, 12 de janeiro de 2020

MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO, em Tanger, Marrocos


A palavra tangerina viria de Tanger, local onde o fruto se adaptou melhor, quando foi transplantado da China. Os árabes, na maior parte completamente homofóbicos, se beijam na face se tocam de maneira carinhosa, no meio da rua, já vi isso também no Egito, onde passei um mês. Quanto às crianças em Tanger, elas brincam muito com socos e tapas. Talvez aprendam desde cedo. Mas o curioso é que elas parecem não se machucar. É muito comum encontrar com grupos de crianças jogando futebol dentro da Medina. Às vezes deixam a bola de lado pra chutar a perna do marcador, que chuta de volta. Estão o tempo todo gritando, mas rindo ao mesmo tempo. É um tipo de briga bem saudável. 
Tânger (em árabe: طنجة; em tifinague: ⵜⵉⵏ ⵉⴳⴳⵉ; transl.: Tin Iggi; em inglês: Tangier; em grego clássico e latim: Tingis) é uma cidade do norte de Marrocos, capital da prefeitura de Tânger-Arzila e da região de Tânger-Tetuão. Tem 253,5 km² de área [nt 1] e em 2004 tinha 669 685 habitantes[1] (densidade: 2 641,8 hab./km²). Situa-se no topo noroeste de África, na costa atlântica e na entrada ocidental do estreito de Gibraltar, que une o Atlântico ao Mediterrâneo e separa Marrocos de Espanha. Dista 14 km em linha reta da península Ibérica.
 Não senti choque cultural, de certa forma, me assustou , aprendi logo a lidar com a vida em Tânger. Li sobre um pai educando seus filhos. Ao sair do hotel, dei de cara com duas crianças gritando, correndo e distribuindo o caos na vizinhança. Um pai andando rápido e, com fortes pisadas, chegou descarregando um tapa na nuca de uma das crianças, que correu desequilibrada por alguns segundos, mas a criança que apanhou terminou se rachando de rir, fez alguns gestos para o pai e da Medina com ele correndo atrás dela. 
A cidade tem uma história riquíssima - por ali onde passaram várias civilizações e culturas desde a Antiguidade - que remonta pelo menos ao século V a.C., quando os fenícios ou cartagineses ali fundaram uma colônia que substituiu um assentamento berbere. Foi uma colôniaromana, capital da província da Mauritânia Tingitana, tendo sido depois conquistada pelos vândalos. Ao longo da Idade Média foi disputada por vários reinos muçulmanos e cristãos de ambos os lados do estreito. No século XVII foi oferecida por Portugal à Inglaterra, que só a ocupou de facto muito brevemente. De 1923 a 1956 teve estatuto de "cidade internacional", administrada conjuntamente por várias potências coloniais, entre as quais Portugal, e tornou-se um destino para muitos diplomatas, espiões, escritores e homens de negócio europeus e norte-americanos.Nas últimas décadas assistiu a um rápido desenvolvimento e modernização, que passou, por exemplo, pela construção de hotéis luxuosos ao longo da sua extensa baía bordejada por uma praia de areia, um bairro de negócios moderno (Tangier City Center), um novo terminal de aeroporto e um novo estádio de futebol.Segundo a tradição mitológica greco-romana, Tinjis (ou Tinge), que deu o nome original à cidade, era a esposa do gigante Anteu,rei líbio filho de Posídon e Gaia, que foi vencido e morto por Héracles (Hércules para os romanos). Héracles casou depois com Tinjis e dessa união nasceu Sufax, que fundaria a cidade, à qual deu o nome da sua mãe.Plutarco relata que Quinto Sertório descobriu o túmulo de Anteu e Tânger; o esqueleto do gigante media 60 côvados. As grutas de Hércules - situadas poucos quilômetros a sudoeste da cidade, perto do cabo Spartel, que marca a entrada do estreito de Gibraltar (Colunas de Hércules na Antiguidade) - estão entre as principais atrações turísticas de Tânger. De acordo com a lenda, Hércules teria passado a noite ali antes de realizar o penúltimo dos seus doze trabalhos, o roubo das maçãs do Jardim das Hespérides. O geógrafo romano do século I d.C. Pompónio Mela, que possivelmente seria natural de Tingis, relata que na cidade se conservava o enorme escudo de Anteu, em pele de elefante, que era objeto de grande veneração por parte dos habitantes.Segundo os registos históricos e arqueológicos, há indícios de ocupação pré-histórica e mais tarde, alguns restos de presença fenícia (nomeadamente duas necrópoles),[ possivelmente devido ao seu excelente porto. A cidade é mencionada por navegadores jónios no século VI a.C. (segundo Hecateu de Mileto) com o nome de Thigge (pronúncia aproximada: tingue). Desde o século IV a.C. aparece como feitoria comercial cartaginesa, onde era cunhada moeda com a legenda púnica TNG’. Aparece na obra helenística Périplo de Pseudo-Cílax  e no Périplo de Hanão como Timiatéria (Thymiateria) e Timiatério (Thymiaterion), cuja corrupção pode ter dado origem à Tingentera que aparece nos escritos de Pompónio Mela como sua cidade natal, aludindo a uma migração norte-africana na época púnica para a zona ibérica do estreito,possivelmente muito próxima das atuais Tarifa ou então Algeciras. O topónimo Tingi (ou Tiggin, pronúncia aproximada: tinguim em grego, em Estrabão  estabiliza-se na época romana. Tingis passou para o domínio romano no século I a.C., inicialmente como uma aliada independente.[carece de fontes] Cerca da década de 40 a.C., segundo Dião Cássio era um município, a cujos habitantes Augusto concedeu a cidadania romana por o terem apoiado na sua guerra civil contra Marco António, rebelando-se contra o seu rei Bogudes, apoiante de Marco António. Segundo Tácito, durante o reinado de Calígula (r. 37–41 d.C.), a antiga província da Mauritânia foi dividida em duas, a Mauritânia Cesariense a leste, e a Mauritânia Tingitana a oeste, ambas imperiais e governadas por um procurador da ordem equestre, passando Tingis a ser a capital da segunda, à qual deu o nome.[8] Pouco depois o imperador Cláudio (r. 41–54) eleva Tingis à categoria de colónia romana, provavelmente com o nome de Colónia Cláudia Cesareia Tingi (em latim: Colonia Claudia Caesarea Tingi). Várias cidades da Tingitana dependiam administrativamente da Bética, entre elas Tingi. A cidade fornecia Roma principalmente de peixe em conserva e púrpura.No século III substitui Volubilis como capital da Mauritânia Tingitana. No mesmo século, segundo a tradição, o cristianismo implantou-se em Tingis, tendo lugar ali o martírio de São Marcelo a 28 de julho de 298. Devido ao seu passado cristão, Tânger ainda é uma sé titular da Igreja Católica.Durante a Tetrarquia, após as reformas de Diocleciano em 296, toda a Mauritânia Tingitana passou a fazer parte da Diocese da Hispânia e por conseguinte a depender da Prefeitura das Gálias.No século V, os vândalos liderados por Genserico conquistaram e ocuparam a Tingitana e de lá partiram para a conquista do Norte da África. Um século mais tarde, em 534, durante o reinado de Justiniano, a região passou a fazer parte do Império Bizantino, uma situação que se manteve até 682, quando foi invadida pelos árabes comandados pelo general omíada Muça ibne Noçáir e apoiados pelos berberes Gomaras. Em 711 foi de Tânger que partiram as tropas de Tárique que invadiram a península Ibérica.Durante os cinco séculos seguintes, as dinastias de Marrocos, a Ifríquia e da península Ibérica disputam a soberania de Tânger. Durante mais de cem anos, os Idríssidas com capital em Volubilis e depois em Fez enfrentam-se com os Omíadas de Córdova pelo controlo da cidade. O califa andalusino (do Alandalus, a Ibéria muçulmana) Abderramão III (r. 912–961) teve entre os territórios sob o seu domínio Tânger, Ceuta e Melilha. Esse controlo dos califas omíadas de Córdova sobre o norte do que é hoje Marrocos e do Magrebe Central (aproximadamente a atual Argélia) manteve-se com o neto de Abderramão, Hixam II (r. 976–1016), Almançor (m. 1002), o filho deste, Malique (m. 1009) e Hixam III (r. 1026–1031). Tânger pertenceu à taifa de Málaga a partir de 1026, pouco antes da junta de vizires declarar em 1031 a dissolução do Califado de Córdova. Por esta altura, o historiador andalusino Albacri chama à cidade Ţania Albaida ("Tânger, a Branca", um epíteto que ainda hoje seria adequado). [nt 1] Em meados do século X, os Fatímidas da Ifríquia estendem a sua autoridade a Tânger. Entre 1075 e 1148 ou 1149 a cidade esteve nas mãos dos Almorávidas, a que se seguiram os Almóadas. Tânger foi ocupada primeiro pelas tropas do califa Abde Almumine e em 1196 por Abu Iúçufe Iacube Almançor. Pertencerá depois ao Reino Haféssida da Ifríquia.Durante o século XIII, o início da era dos Merínidas, a praça de Tânger conheceu alguns anos de independência com o emir al-Hamdani. Quando este morreu, às mãos dos seus próprios súbditos, foi sucedido pelo seu filhos. Por esses anos, já durante o reinado de Iacube ibne Abdelhalak, Tânger sofreu um tremendo assédio por terra e por mar. Em 1274 tornou-se uma possessão merínida. O explorador, escritor e geógrafo ibne Batuta nasceu na cidade em 1304. Sendo contemporâneo de Marco Polo, a sua imagem e fama nunca foi ensombrada por este. Viajante incansável, dedicou a sua vida ao estudo da geografia. Em 1359, a cidade foi conquistada por Abu Salem, irmão de Abu Inam, que vindo da península Ibérica conquistou o trono.Os portugueses tentaram conquistar a cidade em 1437, durante o período henriquino. Apesar da oposição inicial do rei D. Duarte e da desaprovação do infante D. Pedro, as cortes reunidas em Évora em Abril de 1436 votaram os créditos para a empresa. Rui de Pina afirma que na armada havia apenas 6 000 homens, número insuficiente para atacar a poderosa praça do Magrebe.Em setembro de 1437, após partir de Ceuta, chega a Tânger. Uma parte das forças seguiram caminho por terra, comandadas pelo infante D. Henrique, e a outra por mar, comandadas pelo infante D. Fernando. A cidade norte africana era defendida por Çala-ibn-Çala, o antigo capitão de Ceuta aquando da conquista de 1415.Dia de mercado no exterior das muralhas de Tânger (1873)Os portugueses, sob a chefia do infante D. Henrique, foram derrotados e deixaram ficar o infante D. Fernando como prisioneiro, uma vez que o seu resgate passava pela devolução da praça de Ceuta aos marroquinos, o que não foi aceite pelas Cortes portuguesas. Por este motivo, D. Fernando viria a falecer cativo em Fez, em 1443, às mãos dos mouros; o seu cativeiro é tradicionalmente visto como motivo de santidade, que está na origem do seu cognome de Infante Santo. Estudos como o do padre Domingos Maurício dos Santos, autor do livro D. Duarte e as responsabilidades de Tânger (1433-1438), revelam as responsabilidades do infante D. Henrique no desastre militar,[14] bem como o de Peter Russell, biógrafo do infante D. Henrique,[15] e o de Luís Miguel Duarte, biógrafo do rei D. Duarte, onde esta questão é amplamente abordada.Em 1458, antes de atacar Alcácer-Ceguer, a armada de D. Afonso V esteve dois dias ancorada na baía de Tânger, tendo o rei planeado a sua conquista, no que foi contrariado pelo Conselho. Três vezes tentou atacar a cidade, sempre sem êxito. A 24 de Agosto de 1471, com a tomada de Arzila, os habitantes de Tânger, compreendendo que o objetivo final era a tomada da sua cidade, abandonaram-na. Foi então ocupada por D. João, filho do duque de Bragança no mesmo ano por ordem de D. Afonso V.As relíquias de D. Fernando só então foram recuperadas e solenemente transladadas para o Panteão Régio na Batalha, onde ainda hoje repousam, sob domínio eclesiástico, Tânger pertenceu ao bispado unido de Ceuta e Tânger.No início do século XVI, Tânger permaneceria sempre em pé de guerra, com raros e breves períodos de tréguas. Surgiu então o plano de abandono de algumas praças portuguesas de Marrocos exposto por João III de Portugal, em 1532, ao papa. No entanto, em 1534, num pedido de consulta aos principais conselheiros do Reino, o monarca demonstrou a sua vontade de conservar Tânger como base de ataque ao Reino de Fez. As Cortes de 1562-63, reunidas depois do cerco de Mazagão, insistiram na sua defesa e pediram o reforço da guarnição.Em 1578, por alturas da expedição que viria a partir de Arzila para Alcácer-Quibir, o rei encontrou em Tânger Mulei Moamede Almotoaquil, o xerife deposto por Mulei Abde Almélique.Tânger permaneceu em mãos portuguesas até 1661, altura em que, ao abrigo do tratado de paz e amizade firmado com a Grã-Bretanha, a mão da princesa Catarina de Bragança, filha de João IV de Portugal, foi dada em casamento ao rei Carlos II de Inglaterra, levando no seu dote as cidades de Tânger e de Bombaim (na Índia). Uma esquadra desembarcou ali nesse mesmo ano e a guarnição e quase toda a população portuguesa regressaram ao Reino. No entanto o domínio inglês sobre a cidade durou pouco tempo. Em 1679, o sultão alauita Moulay Ismail de Marrocos falha na primeira tentativa de conquistar a cidade, mas mantém um grande bloqueio que finalmente leva à retirada inglesa no dia 6 de fevereiro de 1684 — Carlos II considerou que a posse da cidade era inútil e muito onerosa.[nt 5] Antes de retirarem, os ingleses destruíram a cidade e o seu porto. O sultão levou a cabo obras de reconstrução, que no entanto não impedem um lento declínio, a ponto de, no início do século XIX, a população não ultrapassar os 5 000 habitantes. Isso apesar de em 1786 se ter tornado a capital diplomática de Marrocos, onde se instalaram os consulados estrangeiros no sultanato, nomeadamente o espanhol e a primeira legação diplomática dos Estados Unidos (em 1797).Em 1818, uma epidemia de peste dizimou 20% da população, um flagelo que se repetiu em 1825. Em 1821, a embaixada norte-americana em Tânger torna-se a primeira propriedade do governo dos Estados Unidos no estrangeiro, um presente do sultão Slimane.Como represália ao apoio do sultão marroquino Abd-el-Rhaman ao seu genro, o emir argelino Abd el-Kader, que liderou a resistência contra os franceses, estes levam a cabo um bombardeamento de Tânger em 1844, comandado pelo príncipe de Joinville, que destruiu as fortificações.Em 1849, tropas italianas comandadas por Garibaldi instalam-se em Tânger por um breve período.A localização geográfica de Tânger - porta aberta para Marrocos e ponto chave para o controlo do estreito de Gibraltar - e a rivalidade das potências europeias pelo seu controlo converte-a num centro da diplomacia e num importante centro da atividade comercial marroquina no final do século XIX e início do século XX. A França, Espanha, Reino Unido e Alemanha multiplicam as missões diplomáticas e comerciais, tentando ganhar vantagem no xadrez político-estratégico, colocando Tânger no centro de grandes rivalidades internacionais. Em 1880, na convenção de Madrid, tenta-se definir as relações entre as grandes potências sobre a questão marroquina. Nos primeiros anos do século XX, a Alemanha tentou usar a questão da manutenção da independência de Marrocos para - ao mesmo tempo que assegurava o acesso ao estreito e ao país - tentar impedir a partilha do sultanato acordado entre a Espanha e a França com a aprovação do Reino Unido e aumentar as tensões entre as duas últimas potências. Impelido pelo chanceler von Bülow - que anuncia de forma sensacionalista que a Alemanha não permitirá ser posta de parte e que a França não pode alterar o estatuto político de Marrocos sem a autorização de uma nova conferência internacional - o imperador Guilherme II vai a Tânger a bordo do iate imperial Hohenzollern, onde desembarca a 31 de março de 1905; após encontrar-se com um tio do sultão, ele denuncia as intenções espanholas e francesas e pronuncia-se a favor da continuidade da independência marroquina. Este episódio desencadeia a chamada primeira crise de Marrocos, também chamada crise de Tânger, a qual é apontada como uma das causas da Primeira Guerra Mundial, pois piorou de sobremaneira as relações franco-alemãs e ajudou a garantir o sucesso da Entente Cordiale, a aliança entre os rivais coloniais França e Reino Unido.A 24 de julho de 1925 a Bélgica, Espanha, Estados Unidos, França, Países Baixos, Portugal, Reino Unido e a União Soviética assinaram um acordo que estabelecia a administração conjunta da cidade de Tânger, que passava a ser uma zona livre de impostos dita com "estatuto internacional". Mais tarde, em 1928, foi também incluída na administração a Itália. A cidade passou a ser autónoma financeiramente e governada por uma administração internacional, nomeadamente uma assembleia legislativa composta por trinta funcionários internacionais nomeados pelos respetivos cônsules e nove funcionários marroquinos. Essa época do "estatuto internacional" foi um período de grande projeção internacional para Tânger, tanto no plano cultural como no dos negócios, favorecidos pelas facilidades proporcionadas ao contrabando, à espionagem e à contrafação.Durante a Segunda Guerra Mundial, entre 14 de junho de 1940 (o dia da entrada das tropas do Terceiro Reich em Paris) e 1945, Tânger esteve ocupada por tropas espanholas enviadas por Franco. Esta situação de facto não foi aceite formalmente por nenhum país à exceção da Alemanha Nazi, que colocou um cônsul na cidade na Mendoubia (palácio do mendoub, o alto funcionário do makhzen delegado do sultão), onde esteve içada permanentemente a bandeira nazi. Em março de 1944, a Espanha retira o consulado alemão da Mendoubia e, com o avanço vitorioso do exército aliado, as tropas espanholas acabam por retirar a 9 de outubro de 1945. A cidade recupera então o seu estatuto internacional. Entre 1939 e 1950, a cidade viu a sua população triplicar, alcançando os 150 000 habitantes.A 10 de abril de 1947, o sultão Mohammed V, acompanhado do príncipe herdeiro Moulay Hassan (futuro rei Hassan II) pronuncia o seu primeiro discurso onde fala de um Marrocos unificado e independente, ligado à nação árabe. Com a independência de Marrocos, a 20 de outubro de 1956, inicia-se um processo político que culminaria com o reconhecimento internacional da anexação de Tânger por aquele país, a 18 de abril de 1960, acordada na Conferência de Fedala realizada entre 8 e 29 de outubro de 1956. Um decreto real mantém a liberdade de câmbio e de comércio até 1960, ano em que o governo marroquino decreta a abolição das vantagens fiscais, passando a cidade a ter um estatuto igual à de outras cidades do reino. No entanto, a fim de evitar uma grande fuga de capitais, o porto de Tânger é dotado de uma zona franca.[carece de fontes] [nt 5] Curiosamente, a catedral de Tânger, construída pelos espanhóis - um dos símbolos da presença espanhola e da missão franciscana em Marrocos - foi inaugurada em 1961


Também a alimentação no Marrocos não é cara. Exemplo: uma sopa de grãos semelhantes a ervilhas, com várias fatias de pães acompanhadas de uma porção de azeitonas, um prato chamado omelette persillée, um dos mais baratos, é enorme com batatas-fritas, tomate e cebola! Muito bom e baratos são os tajines.  Vinte Dirhams pelo omelete e vinte Dirhams porf duas latas de refrigerante, que hoje seriam equivalentes a R$11,40.Sim, fui constantemente  abordado, mas me desvencilhava de quem não queria. Outros eu perguntava logo: nquanto? E começava a curtir os lugares que eu queria ir, na companhia deles; aos outros, eu agradecia em árabe, shukran,  houve vezes que vesti um djellabas, aquela roupa árabe. Sempre que viajo procuro logo um teatro na cidade onde chego. Se possível assisto algo em exibição Tanger foi uma decepção; lá, não encontrei nenhum Levaram-me a um local onde um grupo de dança  misturada com texto em árabe fez algo que não sei nem como classificar. Vi um prédio em estado lamentável fechado há décadas e fundado em 1913 por dois emigrantes espanhóis de Cádiz: o Gran Teatro Cervantes, símbolo da relação marroquino-espanhola, que já foi considerado o maior cenário artístico do norte da África, esse lugar emblemático em perigo sofre com o desacordo de Marrocos e Espanha sobre um plano de backup que o faria subir das cinzas. EstA joia do estilo art nouveau,  já acolheu grandes tenores como Caruso e atores de todo o mundo antes de se converter em cinema ... e até palco de luta livre. A origem deste teatro está em Manuel Peña Rodríguez, um pescador de Cádiz que em 1903 desembarcou em Tanger para fazer uma fortuna lá e se juntar a Antonio Núñez Reina, o tio de sua esposa, um homem rico. Após sua morte, o casal herdou todas as suas propriedades. O pescador que entretanto entrou no comércio de sanguessugas medicinais decide então fundar um teatro para agradar sua esposa, apaixonada por teatro e nostálgica por sua cultura espanhola.Numa cidade que acolhe todas as religiões e principalmente investida pelos franceses e britânicos, Manuel Peña Rodríguez quis fazer a Espanha brilhar em um lugar emblemático.  A construção foi confiada a Diego Jiménez Armstrong, um arquiteto espanhol nascido em Tanger e que construiu muitos edifícios famosos em sua cidade natal. Em 11 de dezembro de 1913, o Gran Teatro Cervantes foi inaugurado com grande alarde e se tornou a Meca dos exilados espanhóis em Tanger, estabelecendo-se imediatamente como ato importante na mistura de culturas específicas para Marrocos e Tanger, mas a partir da década de 1950, o teatro perdeu seu esplendor. Óperas, peças e shows não atraíam mais um grande número de pessoas. Foi aí que os gerentes do local fizeram uma aposta arriscada: converter o local em uma sala de luta livre. O público respondeu inicialmente, mas a maioria dos lutadores eram espanhóis no final de suas carreiras, e não deu certo. Em 1956, soou a independência e, com a saída dos espanhóis de Tanger, o local foi novamente convertido, mas desta vez em cinema. Como as condições técnicas não eram boas para abrigar um projeto desse tipo, o teatro morria um pouco mais a cada dia, até cair no esquecimento. Abandonado, fechou-se permanentemente em 1962. Desde seu fechamento, Marrocos e Espanha continuam o diálogo sobre os termos de um plano para salvar o local sem concordar. Entre 1972 e 1992, a Espanha alugou à cidade de Tanger por um dirham simbólico sem que fosse reaberta. Defendido pelo arquiteto Mariano Vázquez Espí fez campanha com o governo espanhol desde 1994 para sua salvaguarda, em 2004 pela Associação Cervantes de Ação Cultural e Amizade Hispano-Marroquina, o teatro ainda está parado. Classificado como patrimônio nacional desde 2007, sua sobrevivência hoje depende de obras avaliadas pela Espanha em 5 milhões de euros.



E indo muito bem. Fui logo até o Kasbah, que é uma espécie de castelo onde fica a parte antiga de Tânger, no alto de um morro, onde é possível avistar o Estreito de Gibraltar e as barcas que transportam as pessoas de Tânger pra Tarifa, na Espanha, coisa que fiz 2 dias depois com um grupo de 3 brasileiros; um é engenheiro e ensina na Universidade de Sidney, Austrália. Com outro engenheiro passei a virada do ano no Hotel Hilton, numa boate bem legal e fomos , no dia seguinte, sacar a  casa alugada por Mick Jagger e Keith Richards, um passeio de quase uma hora até lá; As casas antigas que eram pintadas de azul representam a religião dos moradores . Kasbah símbolo da bela arquitetura marroquina.    
A orla de Tânger encontrei-a cheia de sol, água gelada e com cavalos para alugar à beira- mar. 
Perto do Cinma RIF, meu local favorito lá para ber cerveja, difícil de comprar, lá, fica perto de onde  Henri Matisse pintou, em 1912, uma de suas mais belas obras: “Janela em Tânger”: 

Henri Matisse-Vue de  Tanger HuilesurToile Moscou Musee Pouchkine


Quando Matisse chegou a Tânger, cidade ao norte do Marrocos, ele estava deprimido com a morte de seu pai e com a rejeição a suas telas por parte de um rico colecionador russo. A cidade foi uma espécie de oásis para o pintor, que recuperou o vigor e produziu outras vinte obras durante suas várias passagens pelo lugar. Matisse confessou ter sido envolvido pelas cores e luzes de Tânger, e as viagens converteram-se numa grande jornada interior, tornando-o um ser humano mais forte. O azul do Mediterrâneo e do Atlântico, o branco das construções, a brisa que sopra na Baía de Tânger, o burburinho dos bares e dos estreitos caminhos da Medina (a cidade antiga) que encantaram Matisse atraíram outros pintores à cidade. Os também franceses Delacroix e Degas, além do anglo-irlandês Francis Bacon e do britânico George Apperley, viram em Tânger fonte de inspiração. E a cidade continua envolvendo e atraindo turistas de todo o mundo. O descanso para Hércules e o farol dos navegantesAo lado do Cinema RIF, em  Tânger, vista para o Grand Souk, local mais frequentado dentro da Medina, área histórica da cidade.

Como o continente europeu está a apenas 14km de Tânger, muita gente que tem curiosidade pela cultura árabe costuma fazer um bate-e-volta. Para atravessar de um continente a outro a bordo dos catamarãs que saem de Tarifa, na Espanha, até o porto Tangier Ville, o preço é € 35, e a viagem dura pouco mais de meia hora. Tânger mata essa curiosidade em um dia, com incontáveis mesquitas e seus minaretes espalhados pela cidade, mulheres envolvidas por burcas e sabores exóticos, como o do chá de menta ou dos temperos como o tagine spice — mix de coentro, páprica doce, canela, pimenta calabresa, cravo e cardamomo, usado para marinar carne de carneiro. No mesmo dia, é possível conhecer pontos turísticos disputados, como as Grutas de Hércules, um complexo de cavernas de formação calcária, carregado de histórias mitológicas, e o Cabo Spartel, ponto de encontro entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico. E ainda visitar a medina, a cidade antiga.
Ao longo dos anos, Tânger não perdeu a aura de mistério nem o charme das construções mediterrâneas, mas a cidade se modernizou. Há hotéis luxuosos ao longo da baía, shoppings em Tangier Ville — o novo Centro — e, ainda este ano, a cidade ganhará a primeira linha de Trem de Alta Velocidade (TGV) da África, rumo a Casablanca, numa viagem de 295km, aumentou a frequência de turistas nas duas pontas. Leva até 6 milhões de passageiros por ano. Além disso, o Tanger Med, um porto de carga a cerca de 40 km a leste de Tânger, ganhou recentemente um terminal de passageiros, com capacidade para 7 milhões de pessoas ao ano, aproximando a cidade de vários pontos da Europa.
https://ogimg.infoglobo.com.br/in/22324218-cd0-c3b/FT1086A/420/tanger_caverna.jpgGrutas de Hércules estão entre os pontos mais visitados da região de Tânger, no Marrocos Fui e achei ótimo.


Diz a mitologia grega que, depois de ter separado a Europa da África ao escavar o Estreito de Gibraltar — para concluir um dos 12 trabalhos que o Rei Euristeu lhe incumbiu — Hércules, filho de Zeus, descansou em uma gruta. Esse local fica a 15km ao sul de Tânger e é um dos pontos turísticos mais visitados do Marrocos. Sobre as Grutas de Hércules, os olhos perdem de vista os mais de 40km de praias na costa atlântica. No interior do complexo de cavernas, estão formações calcárias esculpidas não só pelas ondas e pelo vento, mas também pelas mãos de fenícios e romanos, dois povos que viveram na região. A maneira mais rápida de chegar às Grutas de Hércules, para quem tem apenas um dia de visita a Tânger, é de carro. Um táxi de Tangier Ville — o centro novo da cidade — até lá sai por cerca de 100 dirhams marroquinos (MAD) por passageiro, ou cerca de US$ 11 (MAD$ 10 valem cerca de US$ 1). O valor é cobrado por pessoa, mas dá para barganhar. Na conversa com o taxista, duas pessoas podem conseguir por MAD$ 150. Atenção: em Tânger há táxis compartilhados. Se o motorista cobrar uma valor muito baixo por passageiro (algo como MAD$ 20) com certeza vai colocar mais gente no carro. Também há ônibus, com bilhete a MAD$ 2, que saem do centro para as grutas, mas param longe, e é preciso caminhar até a entrada. A viagem é feita pela Rota das Grutas de Hércules, e uma das curiosidades é que, em determinado ponto da estrada, veem-se muitos militares guardando um palácio de muros brancos. Trata-se da casa de verão do rei Salman da Arábia Saudita, que nomeou seu filho Mohamed como príncipe herdeiro. Dizem os locais que o rei Salman costuma passar longas temporadas em seu palácio de Tânger, com vista deslumbrante para o Atlântico, para aproveitar a brisa marítima. E quer se mudar para lá no futuro. Se o taxista for paciente, vale pedir uma parada para matar a curiosidade, mas sem se aproximar muito.
No Cabo Spartel, a 5 km das Grutas de Hércules, em Tânger, Marrocos, há trilhas que levam à observação de falésias, a 110 m de altura - Divulgação / Ministério do Turismo do Marrocos As Grutas de Hércules foram descobertas durante escavações arqueológicas feitas no século XIX. Trata-se de um complexo de cavernas naturais moldadas pelas águas do mar. A ação do vento também esculpiu a rocha. Na região, foram encontrados vestígios da presença humana, como cerâmicas, ferramentas e estátuas, que datam do século V a.C., período que coincide com a fundação de Tânger. A história que se conta é que grandes pedras foram retiradas das grutas pelos romanos e depois cortadas e esculpidas para se fazerem moinhos. Na vizinhança, há outras grutas com a mesma formação geológica, mas a de Hércules é especial pela vista do mar. A gruta tem uma abertura para o Oceano Atlântico que se assemelha à forma do mapa da África. Conta-se que essa abertura foi feita pelos fenícios. Em dias ensolarados, a vista para o oceano é espetacular, e o azul do céu e do mar se confundem. Se a visita for no pôr do sol, trata-se de outro espetáculo à parte. Para descer na gruta de onde se avista o Atlântico não se paga nada. Mas quem quiser saber um pouco mais da história da gruta terá que desembolsar alguns dirhams aos guias locais, que estão por toda parte. Há venda de suvenires dentro da gruta e na praça por onde se entra na caverna, rodeada de colunas brancas. Ninguém deve deixar de apreciar o cuscuz marroquino, que em Tânger é servido com um molho bastante apimentado. O vinho marroquino — seja um cabernet sauvignon ou syrah —, que não fica nada a dever a vinhos tradicionais franceses ou portugueses. O rei do Marrocos, Mohammed VI, também tem uma casa que fica abaixo do Le Mirage, para aproveitar a magnífica vista do Atlântico, como faz o seu colega saudita. Mas, oficialmente, ninguém confirma essa informação, que acabou virando mais uma lenda da região.Das Grutas de Hércules ao Cabo Spartel são cerca de 5km de distância. É nesse ponto que as águas agitadas do Atlântico se encontram com o mais tranquilo Mar Mediterrâneo. No Cabo Spartel há um farol que os navegantes conseguem enxergar a até 40km de distância. Para o turista, o cabo é um local com trilhas de onde se pode observar as falésias, com altura de 110 metros. 

MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO, PASSEANDO PELAS PRAIAS DO MARROCOS




O ecletismo de Tânger: tanto nos costumes que mesclam as culturas árabe e europeia, quanto nos idiomas que se ouvem pela cidade, especialmente o espanhol. A cidade foi governada conjuntamente por vários países, entre eles França, Grã-Bretanha, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, Holanda, Suécia, Estados Unidos e até mesmo a União Soviética, numa experiência única que durou de 18 de dezembro de 1923 até 20 de outubro de 1956. Nesse período, Tânger tinha estatuto de “cidade internacional” e, protegida por um acordo político, era refúgio para quem queria escapar de conflitos como a Guerra Civil Espanhola (1936/1939) e a Segunda Guerra Mundial (1939/1945). Em 1956, Tânger foi incorporada ao Reino do Marrocos, que se tornava independente. Lembrando que o Marrocos é um reino, e a foto do rei Mohammed VI está espalhada por toda a cidade.

MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO,  em Tanger, Marrocos


MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO,  em Tanger, Marrocos


MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO,  em Tanger, Marrocos


MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO, nas ruínas do Gran Teatro Miguel de Cervantes, em Tanger, Marrocos


MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO,  em Tanger, Marrocos


MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO,  em Tanger, Marrocos, tradicional chá de menta


MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO,  em Tanger, Marrocos, na Gruta de Hércules


MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO,  em Tanger, Marrocos, em frente ao hotel que já hospedou grandes nomes, como Paul Bowles


MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO,  em Tanger, Marrocos, em Cap Spartel


MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO,  pelas ruas de  Tanger, Marrocos


MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO,  em frente ao CINEMA RIF,  Tanger, Marrocos



MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO,  em Tanger, Marrocos, no Gran Café de Paris, Tanger, ponto de encontro de Kerouac, Gisberg, Bourroughs, outros beatniks e tantos autores como Jean Genet



MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO,  em Tanger, Marrocos




As medinas (palavra que em árabe significa cidade antiga) abrigam a parte histórica de diversos municípios em países da região Noroeste da África, conhecida como Magreb. São labirintos de ruas estreitas, quase sempre murados, e com uma praça central. Essa espécie de centro urbano antigo já era erguida pelos árabes desde o século IX e, atualmente, abriga palácios, minaretes e mesquitas, muitos deles alçados a patrimônio da humanidade. Em medinas como a de Tânger e de Tetouan, o comércio é bem variado. Há pequenas lojas de especiarias, tapetes e sapatos, além de ateliês de alfaiates que tecem panos coloridos. O local mais frequentado da medina é o Grand Souk (grande mercado ou feira, em árabe), uma espécie de praça, com bares e comércio, onde se vendem tecidos, alimentos e especiarias (açafrão, em particular). Ambulantes oferecem frutas, hortaliças e bugigangas. Negociar é imperativo: os descontos variam de produto a produto, mas podem chegar a até 50% do preço inicial.

MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO, PASSEANDO PELAS PRAIAS DO MARROCOS



Tânger, no Marrocos, seduz com o azul do Mar Mediterrâneo e do Oceano Atlântico aí está a caverna de Hércules, gostei muito, adoro o mar.


É ali que está a cinemateca de Tânger, instalada no Cinema Rif, construído na década de 1930, e que exibe filmes locais. Tomar chá de menta em um dos bares é parte do programa. Da Casbá, o ponto mais alto da medina, se tem a melhor vista. Na Praça da Casbá está o Palácio do Sultão (em árabe, Dar El Makhzen). Era nesse edifício histórico que os sultões do Marrocos se hospedavam quando estavam na cidade, e as instalações abrigam hoje dois museus: o de Artes Marroquinas e o de antiguidades e arqueologia, ao lado, no palácio Dar Chorfa.


 Aqui estou, na sacada do Gran Teatro Miguel de Cervantes, com o zelador do prédio, que parece o Titanic, Abulah. Na Rua Anoual: é o Gran Teatro Cervantes, com sua fachada art déco. Inaugurado em 1913, foi considerado o mais importante teatro do Norte da África.