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quinta-feira, 3 de maio de 2018

REGIONALISMO EM XEQUE?




Creio que a linha de pensamento que procura descobrir nos fenômenos de desenvolvimento cultural o papel desempenhado por um superego promete ainda outras descobertas.[...] Por uma ampla gama de razões, está muito longe de minha intenção exprimir uma opinião sobre o valor da civilização humana. Esforcei-me por resguardar-me contra o preconceito entusiástico que sustenta ser a nossa civilização a coisa mais preciosa que possuímos ou poderíamos adquirir, e que seu caminho necessariamente conduzirá a ápices de perfeição inimaginada.  (FREUD in O Mal-estar na Civilização)

Veja as cores destas casas antigas: excelentes; repare na pintura destas casas modernas: horríveis...E não pense que há incoerência nas minhas expressões, porque sou modernista. Sou-o sobretudo, por ser brasileiro. Quero, por isso, a formação de uma arte nacional, que se há de extrair, sem dúvida, da obra dos antepassados. (Oswald de Andrade)



No meu blog publiquei: O Manifesto Regionalista faz 90 anos. Ainda fez sentido? Se pensarmos o que as rodas pensantes discutiam no início dos anos 20 / 30 do século passado, as idéias de Inojosa sobre o Modernismo, Freyre e Zé Lins sobre a civilização do açúcar, Rachel, Graciliano e Amado com seus vieses mais políticos e olharmos para nossos dias temos muito a discutir sobre o Nordeste no Brasil.
 (Estas “rodas”: seriampequenos grupos de artistas e intelectuais que, ao longo das décadas de 1920 e 30, se uniam para conduzir o espaço de produção cultural; eram compostas, dentre outras categorias sociais, por pintores, editores e escultores. Porém, os escritores constituíam o maior número entre seus integrantes). Raymond Williams (1980, cujos escritos em política, cultura, literatura e cultura de massas traduz pensamento marxista e na teoria cultural em geral) fala sobre o grupo de intelectuais londrinos – The Bloomsbury e seu significado social e cultural)  

Por exemplo, olhando para esta foto de Ariano e Chico fiquei aqui pensando:
Ariano Suassuna encontra Chico Science no Recife

Num mundo cada vez mais misturado e embalado em redes, vale a pena falar de Nordeste independente? Pãos ou pães: questão de opiniães, diz o peculiar Guimarães (regionalista universalizante e cheio de além) Rosa. Ah! Saudade do Futuro, eu juro. Vamos rasurar fronteiras ou deixo logo de besteira? Não fique magoado, vou falar do passado. Em 2016, o Manifesto Regionalista do Recife completou 90 anos. Este Movimento, nas palavras de Mauro Mota: teve e tem uma filosofia, tais as vigências dos seus métodos e suas diretrizes.
O Movimento Armorial e o nome do pai

O  Armorial foi forjado em que fogo? A oligarquia do couro e do algodão, decaída, queria manter nas mãos o poder cultural? O “nome do Pai”? (essa grande frase que quem está no poder chama “realidade”, e  a última “palavra” da severa figura que “cumpre” a função “paterna”, aqui  em relação à... cultura, isto é, um  parâmetro definidor da subjetividade); lembremos também O mal-estar na civilização é um texto do médico e fundador da psicanálise (Freud) que discute o fato da cultura - termo que o autor iguala à civilização - produzir um mal-estar nos seres humanos, pois que existe uma dicotomia entre os impulsos pulsionais e a civilização. Portanto, para o bem da civilização, o indivíduo é oprimido em suas pulsões e vive em mal-estar; neste trabalho Freud esboça a relação entre os elementos de sua teoria da consciência com uma teoria social.


Aqui seria interessante  analisar as disputas ocorridas no mundo do livro dos anos 1930, a partir da “roda de
Maceió”. A escolha por essa década justifica-se pelo fato de ser o período de confronto entre as idéias lançadas no chamado Movimento Modernista e o projeto Regionalista preconizado por Gilberto Freyre, ambos com o propósito de pensar uma estética e linguagem estritamente nacionais. O interesse de tentar compreender a discussão a partir da “roda de Maceió” dá-se pelo fato de seu projeto regionalista imprimir uma narrativa contrária àquela do grupo paulista. Analisar o processo de construção da grande narrativa regional através
dos eventos e fatos nos quais a “roda de Maceió”foi protagonista.
Em Machado de Assis (século XIX), podemos encontrar registros de reuniões de amigos escritores, formação de grupos com ideologia semelhante, porém a base e a função dessas associações no início do século XX são muito diferentes. Elas deixam de ser uma simples associação de companheiros de ofício, para ser uma ‘instituição’ determinante para o mundo do livro. No tempo de Machado de Assis, essas associações não eram imprescindíveis ao mundo do livro quanto ao seu funcionamento. Até aproximadamente meados da década de
1920, o mundo do livro era restrito a um pequeno número de consumidores e os artistas continuavam, como em épocas anteriores, sendo patrocinados por mecenas;  eram inúmeras as interpretações do modernismo feitas pelas rodas de diferentes lugares do Brasil. E a década de 30 é o momento em que a arte produzida a partir dessas diferentes interpretações é divulgada. A publicação de livros nacionais era feita em tiragens restritas e ao processo de reprodução cultural. Havia a instituição oficial [jornal/revista], e os seus colaboradores, que quando consagrados, quase sempre também ocupavam um cargo público, o que lhe garantia também A constituição das rodas de artistas explicita uma ruptura com o sistema de dependência total dos artistas das elites econômicas. As rodas passam a ser o meio pelo qual os artistas produzem suas obras. Eram elas, as responsáveis pelo julgamento, pela crítica e pela divulgação do produto artístico. Elas são mais que associações de amigos; passam a dispor de mecanismos necessários e indispensáveis ao espaço literário. A participação dos mecenas, após a constituição e afirmação das rodas como parte do espaço de produção cultural, resumira-se em um patrocínio econômico. Já não cabia mais aos mecenas uma crítica ou uma determinação ‘estética’. Todas as atividades do espaço cultural, a partir da configuração das rodas como parte daquele sistema de produção, cabiam aos amigos pertencentes às mesmas. No caso do mundo do livro, por exemplo, evidencia-se a importância que as rodas passam a exercer no processo fundamental para a promoção do escritor – a publicação dos livros. Vejamos o caso específico da roda de Maceió.
Após sair de Manhuaçu (Minas Gerais), onde era promotor público, José Lins do Rego vai para Maceió. Lá, ele passa a fazer parte da roda de Maceió, da qual já eram “membros” Rachel Queiroz, Graciliano Ramos, Valdemar Cavalcanti (1912-1982), alagoano jornalista, crítico literário e funcionário público (IBGE), fez parte de uma das maiores e mais refinadas safras de escritores regionais brasileiros como Jorge de Lima, Jorge Amado, José Condé (de Caruaru) e Santa Rosa, entre outros. No jornalismo, Valdemar tornou-se o primeiro crítico literário, e o pioneiro como colunista diário do jornalismo impresso, pelo ‘O Jornal’, de Assis Chateaubriand, onde por duas décadas manteve a coluna ‘Jornal Literário’.) e Aurélio Buarque de Holanda (primo de Chico), entre outros. Quase todos esses escritores se assemelhavam, no que concerne à situação econômica e à formação escolar. Foi dentro desse clima quase familiar que o escritor José Lins do Rego, paralelo à sua atividade de fiscal de bancos, prosseguiu dedicando- se à literatura, chegando até a assinar críticas literárias e pequenos artigos. Menino de Engenho seria, a princípio, uma biografia do avô do autor. Conforme Rachel de Queiroz: “José Lins, já na casa dos trinta, começava como romancista, mas era nome feito nas rodas intelectuais do Recife e até do Rio, autor de artigos, ensaios e estudos de crítica, já tinha bem afiada a sua ferramenta e já completa a sua formação literária; e com Menino de Engenho [...]É que nós surgimos no mesmo tempo: Jorge, eu, Graciliano, Zé Lins, Amando Fontes(São Paulo e Sergipe, sua primeira obra, regionalista, Os Corumbás, ou Os Corumbas, sertanejos). Éramos um grupo de contemporâneos e ainda amigos. O José Américo era meu amigo pessoal. Eu conheci quando ele era Ministro do Getúlio... éramos grandes amigos, eu, Graciliano e a mulher dele. A gente se freqüentava muito. Nesse período em Maceió, por coincidência, Zé Lins morava lá, engraçado. Ele era fiscal de imposto de consumo e morava lá. E o Aurélio Buarque de Holanda também morava lá; era de lá. Era uma roda de tantos que depois vieram para o Rio! Então a gente tinha um botequim, um café, um ponto chique de Maceió, onde a gente reunia-se todas as tardes a tomar um choppinho, um cafezinho, a conversar.
Depois viemos para cá [Rio], o Alberto Passos Guimarães (jornalista alagoano de esquerda, perseguido em 1932), Valdemar Cavalcanti (também foi membro honorário da Academia Francesa de Letras e levantou, em 1965, o Prêmio Jabuti, como Melhor Crítica e/ou Noticiário Literário (Jornais), além do consagrado Prêmio Machado de Assis), Aurélio Buarque de Holanda, do dicionário, Graciliano, eu e Zé Lins.
Nos reunimos em Maceió nesse período.  (Entrevista de Rachel de Queiroz, concedida a Gustavo de SORÁ, em 25/02/1997).
Em 1934, Freyre escreve a  José Lins do Rego: “ [...] todos estão cheios de admiração por você. Nas RODAS mundanas, de que fugi, achei também sinais de uma admiração quase mística pelo grande romancista que o Norte (!) afinal deu (como era de seu dever) ao Brasil, depois de ter se ensaiado em Bagaceira, em O Quinze, Cacau[...]”.Alguns livros dos escritores da roda de Maceiópertenciam ao catálogo literário da Schmidt Editora; como exemplo, cito: João Miguel, 1932, de Rachel de Queiroz e Cahetés, 1933, de Graciliano Ramos; era importante para a roda ter amigos em outros lugares, principalmente em centros como Rio de Janeiro e São Paulo, que pudessem defender sua produção; da roda de Maceió. José Lins, por exemplo, foi o primeiro do grupo a ir para a Editora José Olympio. José Lins fez com que a terceira edição de A Bagaceira, de José Américo de Almeida, que era amigo dos artistas da roda de Maceió, saísse por essa Casa. E é através dessa dinâmica que, depois de 1935, temos quase toda a roda de Maceióno Rio deJaneiro.
A diferença entre as décadas de 1920 e 1930 está no fato de a partir dos anos 30, a prosa brasileira ser elaborada segundo um realismo ora ingênuo, ora crítico; política e não mais mítica; moderna e não mais modernista. O encontro das rodas no concorrido mercado do Rio de Janeiro gerou disputas de prestígio e poder entre elas; Os integrantes das rodas não trocavam palavras ofensivas em seus comentários
sobre um livro ou um quadro; mas os escritores, em suas respectivas rodas, lutavam para defender suas idéias e impô-las como as mais legítimas do mundo do livro. Mário de Andrade e seu grupo (dos “cinco”, pioneiros e mentores da introdução da arte moderna no Brasil: Tarsila, Oswald, Menotti, Anita) acreditavam que o nacional não poderia ser verdadeiramente representado, se partissem de uma descrição de uma região ou de um único local. Eles acreditavam na inserção da arte nacional no cenário internacional, e para isso tinha que ser uma arte menos regional e mais nacional. “A busca do nacional não pode perder-se nas particularidades de uma região. Daí as críticas ao regionalismo. Uma visão crítica e sintetizadora do Brasil como um todo é que permite o diálogo com o universal”; mas a  ficção hermética diluída, por exemplo,em Macunaíma “cedeu” espaço para uma narrativa neorrealista dos contos e romances dos anos 1930.

Da esquerda para direita Graciliano Ramos, Aluísio Branco, Théo Brandão, José Auto, Rachel de Queiroz e Valdemar Cavalcanti em Maceió



Enquanto isso, no Recife...
Influenciados por Gilberto Freyre, os artistas da roda de Maceióproduziram uma literatura nem mítica, nem citadina. Trouxeram para seus livros, para seus quadros, aqueles personagens do quintal de suas casas, ou aqueles de suas ruas, ou ainda os de sua cidade. Esse estilo de linguagem chegou a ser comparado, por alguns estudiosos do período, às descrições etnográficas. E assim foi surgindo nos romances um Moleque Ricardo, um São Bernardo, a família de retirantes, os mulatos de Di Cavalcanti, etc. (Gilberto Freyre dirigiu a coleção “Documentos Brasileiros”, editada, em 1936, pela José Olympio, na qual estava grande parte dos escritores
da roda de Maceió.)

Retirantes, Portinari, 1944

O Mulato, de Portinari



A 20 de abril de 1924, fundou-se no Recife o Centro Regionalista do Nordeste que, em 1926, organizou o Congresso Regionalista Tradicionalista e, ao seu modo, Modernista. Esse encontro deu ênfase à cozinha, sobretudo, à afro-brasileira, e à doçaria e confeitaria das senhoras de engenhos e dos NEGROS DE TABULEIRO do Nordeste. Ao mesmo tempo, enfatizaram as tendências modernas da pintura, escultura, arquitetura, móvel, cerâmica e renda. As reuniões desse grupo que organizou o congresso aconteciam na casa do professor Odilon Nestor; sobre o Movimento, este trecho é esclarecedor:
“[...] Seu fim não é desenvolver a mítica de que, no Brasil, só o Nordeste tenha valor, só sequilhos feitos por mãos pernambucanas ou paraibanas de sinhás sejam gostosos, só as rendas e redes feitas por cearenses ou alagoanos tenham graça, só os problemas da região da cana ou da área das secas ou da do algodão apresentam importância. Os animadores desta nova espécie de regionalismo desejam ver se desenvolverem no país outros regionalismos que se juntam ao do nordeste, dando ao movimento o sentido organicamente brasileiro... (...). Querer museus com panelas de barros, facas de ponta, cachimbo de matutos, sandálias de sertanejos, miniaturas de almanjarras, figuras de cerâmica, bonecos de pano, carros- de-boi, e não apenas com relíquias de heróis de guerras e mártires de revolução” gloriosa. Exaltar bumba-meu-boi, maracatus, mamulengos, pastoris e clubes populares de carnaval, em vez de trabalhar pelo desenvolvimento do ‘Rádio Clube’ ou concorrer para o brilho dos bailes do ‘Clube Internacional. (...). Ao voltar da Europa há três anos, um dos meus primeiros desapontamentos foi o de saber que a água de coco verde era refresco que não se servia nos cafés elegantes do Recife onde ninguém se devia lembrar de pedir uma tigela de arroz doce ou um prato de munguzá ou uma tapioca molhada. Os cafés elegantes do Recife não servem senão doces e pastéis afrancesados e bebidas engarrafadas. E nas casas? Nas velhas casas do Recife? Nas casas- grandes dos engenhos? Quase a mesma vergonha de servirem as senhoras os pratos regionais que nos cafés e hotéis elegantes da capital. [...]. Pois o Brasil é isto: combinação, fusão, mistura... Donde a necessidade deste Congresso de Regionalismo definir-se a favor dos valores assim negligenciados e não apenas em prol das igrejas maltratadas e dos jacarandás, das pratas e ouros de família e de igreja vendidos aos estrangeiros... (GILBERTO FREYRE).

 Por mais que alguns historiadores sociais ou literários o excluam ou reduzam em comentários e até citações, o "Movimento Regionalista de 1926" no Recife, comandado pelos estudos de Gilberto Freyre (que a esquerda ainda não perdoa e nós arregalamos também os olhos para o que ele fez no período 1964-79) e por Gilberto Freyre em pessoa, significou o início de uma fase nova na cultura brasileira, aí tida, não em termos de localização geográfica ou cronológica, mas em termos do espírito mais autenticamente brasileiro, que ganharia espaço, tempo e seguidores nas diversas regiões brasileiras, sem perda das características de cada uma. 
Enquanto isso... ao mesmo tempo em que se defendia, atacando a produção da roda adversária, o grupo dos cinco era frequentemente acusado de falhar, ao tentar fazer arte nacional baseando-se em parâmetros internacionais.



Em nota de 1952, o autor do "Manifesto do Movimento de 1926" define o Regionalismo, como criação pura no que assumiu de complexo em suas combinações novas de idéias porventura velhas, sistematização brasileira, realizada por um grupo de homens do Recife, não só de novos critérios regionais de vida, de estudo e de arte como de vagas e dispersas tendências para-regionalistas já antigas no Brasil, mas quase sempre absorvidas pelo caipirismo ou deformadas em aventuras de pitorescos ou cor local, está, de modo geral, para a cultura brasileira, que libertou dos excessos de centralização, como o Federalismo está, em particular, para a vida política do país, descentralizada, embora sob alguns aspectos erradamente descentralizada pelo ideal da República. Essa definição corresponde a uma realidade, a que o Movimento deu corpo, vida, expressão e expansão. A esta altura, além de estudá-lo nas origens, seria de mais interesse estudá-la nas conseqüências, através do levantamento de território e implicações. Um dos mais importantes domínios é o domínio sobre o tempo. Enquanto nem se fala mais em outras tentativas renovadoras ou assim apresentadas, vale perguntar: a chama de 26 continua acesa diante das novas gerações? Aqui devemos lembrar do potiguar
Luís da Câmara Cascudo.


Voltemos ao mito da antropofagia (antes da proposta de Oswald, em 1928; eis um escritor querendo definir o que era um canibal, no caso João Valério, do romance  CAETÉS, de 1933):
“Entrei no quarto, abri a janela que deita para a rua, tirei o manuscrito da gaveta. A dificuldade era apanhar os portugueses que tinham escapado ao naufrágio, amarrá-los, levá-los para a taba e preparar um banquete de carne humana. Trabalhei danadamente, e o resultado foi medíocre. Sou incapaz de saber o que se passa na alma de um antropófago. De indivíduos das minhas relações o que tem parecença moral com antropófago é o Miranda, mas o Miranda é inteligente, não serve para caeté. Conheço também Pedro Antônio e Balbino, índios. Moram aqui ao pé da cidade, na Cafurna, onde houve aldeia deles. São dois pobres degenerados, bebem como raposas e não comem gente. O que me convinha eram canibais autênticos, e disso já não há. [...] eu disse que não sabia o que se passava na alma de um caeté! Provavelmente o que se passa na minha com algumas diferenças." (RAMOS, Graciliano in CAETÉS)

Será que no romance CAETÉS, podemos detectar uma crítica ao atraso da civilização brasileira entre as mais desenvolvidas do mundo, e que o autor  busca, talvez pela negatividade da paródia moderna, trabalhar uma forma de representar nosso país em seu novo momento histórico e estético? Em algo nos lembraria o autor do Realismo português Eça de Queiroz?
 Vejamos.
 1928:  entre  jornalistas, políticos, padres, bacharéis, farmacêuticos, médicos, comerciantes, etc. de Palmeira dos Índios, há um funcionário que tem alguma inserção na classe alta do meio onde vive, mas que se sente inferiorizado e busca ascender socialmente. Conheça João Valério. Ele quer ser escritor e está envolvido num caso de adultério com a esposa do seu chefe. Porém, mais do que ser escritor ou do que sua paixão, estaria sua intenção de ascensão social acima de tudo?
Que “vozes” podem ser ouvidas no discurso de CAETÉS? Podemos realmente distinguir, dentro do fenômeno estético que é a obra literária, a polifonia, no sentido bakhtiniano do termo (ver a ligação deste teórico com os Formalistas russos, focados em análise puramente linguístico-textuais? Como podemos avaliar, na referida obra de Graciliano (agente da unidade tensamente ativa do todo acabado, do todo da personagem e do todo da obra), a questão da ética em cotejo com a estética?
Estaria o autor distanciado da voz do narrador (João Valério, que tem pretensões estéticas “sei metrificar”)? Podemos  encontrar o plurilinguismo neste ,  o discurso de outrem na linguagem de outrem, que serve para refratar a expressão das intenções do autor (no dizer de Bakhtin)?  A palavra desse discurso é uma palavra bivocal especial e serve simultaneamente a dois locutores e exprime ao mesmo tempo duas intenções diferentes: a intenção direta do personagem que fala e a intenção refrangida do autor?
Podemos encontrar elementos paródicos na composição deste romance?
Gustavo Arnt, em artigo publicado na revista eletrônica Darandina, levanta questões interessantes a este respeito. 
PERSONAGENS: João Valério (de contador a sócio da firma), Adrião Teixeira, Luísa, Marta Varejão, os Mendonça, Evaristo Barroca, Isidoro, Padre Atanásio
O que parece é que para Valério: Literatura e propriedade são incompatíveis. Atingida uma posição social mais proeminente, Valério já não precisa mais da literatura.
Observar diferenças entre Graciliano e João Valério, por exemplo, quando este afirma que: leu “na escola primária, uns carapetões [mentiras] interessantes no Gonçalves Dias e no Alencar [os dois maiores autores do Romantismo brasileiro], mas já esqueci tudo. Sorria-me, entretanto, a esperança de poder transformar esse material arcaico numa brochura de cem a duzentas páginas, cheia de lorotas em bom estilo, editada no Ramalho” (crítica IRÔNICA-PARODÍSTICA ao NACIONALISMO UFANISTA, como neste outro trecho: “De repente imaginei o morubixaba pregando dois beijos na filha do pajé. Mas, refletindo, compreendi que era tolice. Um selvagem, no meu caso, não teria beijado Luísa, tê-la-ia provavelmente jogado para cima do piano, com dentadas e coices, se ela se fizesse arisca. Infelizmente não sou selvagem. E ali estava, mudando a roupa com desânimo, civilizado, triste, de cuecas “).Ao fim do romance, o narrador diz “caetés somos nós”, isto é, o Brasil foi construído graças à barbárie, à exploração, ao extermínio de índios (e o trabalho forçado dos escravos).
E a questão da METALINGUAGEM [“Caciques. Que entendia eu de caciques? Melhor seria compor uma novela em que arrumasse Padre Atanásio, o Dr. Liberato, Nicolau Varejão, o Pinheiro, D. Engrácia. Mas como achar enredo, dispor as personagens, dar-lhes vida? Decididamente não tinha habilidade para a empresa: por mais que me esforçasse, só conseguiria garatujar uma narrativa embaciada e amorfa.”] ? O capítulo 7, todo ele destinado ao romance de Valério: “O guarda-livros começa, então, a narrar sua empreitada em descrever um “cemitério indígena, que havia imaginado no escritório, enquanto Vitorino folheava o caixa [...] O meu fito era empregar uma palavra de grande efeito: tibicoara. Se alguém me lesse, pensaria talvez que entendo de tupi, e isto me seria agradável. Continuei. Suando, escrevi dez tiras salpicadas de maracás, igaçabas, penas de araras, cestos, redes de caroá, jiraus, cabaças, arcos e tacapes. Dei pedaços de AdriãoTeixeira ao pajé: o beiço caído, a perna claudicante, os olhos embaçados; para completá-lo, emprestei-lhe as orelhas de Padre Atanásio. Fiz do morubixaba um bicho feroz, pintei-lhe o corpo e enfeitei-o. Mas aqui surgiu uma dúvida: fiquei sem saber se devia amarrar-lhe na cintura o enduape ou o canitar. Vacilei alguns minutos e afinal me resolvi a pôr-lhe o enduape na cabeça e o canitar entre parênteses.” (notem o humor sarcástico). O narrador acha que dominar a língua, o que poderia lhe render distinção social. Valério também diz ter escrito (percebam os traços cômicos e grotescos) “dez tiras salpicadas de maracás, igaçabas, penas de araras, cestos, redes de caroá, jiraus, cabaças, arcos e tacapes” e, em seguida, descreve os procedimentos por meio dos quais compôs a figura de um índio (de forma cômica): feito de pedaços de outras pessoas: Adrião Teixeira e Padre Atanásio;
No contexto histórico em que Graciliano produz, os anos 1930, já não há mais as convenções literárias e sociais que permitissem um romance histórico nos moldes do indianismo. A década de 1930 já está marcada pelo que o crítico Antônio Candido chamava de “consciência catastrófica do atraso”, e Graça, num gesto quase paródico zomba: tentando elaborar uma cena ritualística de antropofagia, apela a D. Maria José, sua locatária, para saber como “se prepara uma buchada”. Ao passo que ela vai dando a receita, Valério elabora a cena e faz observações, como “Exatamente, numa gamela, já ouvi dizer. E viram-se as tripas pelo avesso, também já ouvi dizer. Mas os caetés não tinham higiene.”; “vou preparar o Sardinha pela receita e misturo com pirão de farinha de mandioca. Fica uma porcaria”. Percebendo que a hora já se ia adiantada, se admira do tempo gasto em sua tarefa: “Será possível? Ora veja. A arte é coisa admirável. Com a preocupação de arranjar os jantares dos índios, esqueci o meu jantar.” E se decide a mais uma vez abandonar sua empreitada literária: “Pois eles que esperem, não comem hoje. E traga-me o conhaque. Deus lhe pague D. Maria. A senhora acaba de prestar um grande serviço à pátria.”
Vejamos outro romance de 30, regionalista, JOÃO MIGUEL, de Rachel de Queiroz: Na obra o narrador acompanha o drama de um homem simples que, sob efeito momentâneo do álcool, assassina um desafeto e vai para a prisão.
A intenção da romancista parece ter sido apreender a origem, no plano subconsciente e sob determinado condicionamento social, do impulso assassino, que sobrepuja por instantes o sentimento de humanidade passiva e submissa do caboclo sertanejo. Não se sabe por que e nem ele próprio formará a consciência moral do ato praticado. Não alimentará, portanto, qualquer sentimento de culpa. Seu ato impulsivo, num instante cego, exprime o afloramento de elementos atávicos, revivendo atos de seres primários. E isto pode ser por um instante, como no caso de João Miguel, ou por períodos longos, como nas manifestações múltiplas do cangaço (MARCADO TAMBÉM PELO PODER DO HOMEM).
Só Rachel se sobrepôs e escreveu seu nome no CÂNONE com mais força). O romance se faz sobretudo com situações e fatos tomados como elementos de ambientação, num presídio de interior, no Nordeste, em que avulta a figura de João Miguel, que depois de ter matado seu oponente... Houve um crime num ambiente ruralista e o drama surge daí. João precisa aprender a lidar bem com seu tempo na cadeia, a preencher as horas ociosas, e vendo seu relacionamento com Santa ir minguando com o decorrer dos meses... 
Considereda do ponto de vista regionaista, apresenta acentuadas características peculiares ao linguajar caboclo ou próprio da massa sertaneja.
Pelo estilo dos modernistas como Rachel, o leitor é levado a conhecer as instalações da prisão, desde células individuais, presos dormindo em suas redes, ou fazendo trabalhos artesanais, o transito relativamente livre dos detentos. João Miguel,  um pobre sem pai nem mãe, que sempre viveu da enxada, até o dia do CRIME. a realidade carcerária do Brasil numa cidade (Baturité do Riachão) da caatinga nordestina nos idos do início do séc. XX. Aliás, aqui, a leitura do romance se combina com alguns pressupostos da história do Brasil: o ambiente em que se dá a narrativa é de um Brasil ainda distante de qualquer traço de modernidade, em que o poder econômico se funda no poder do latifúndio, o Brasil dos coronéis, onde o próprio João Miguel já reconhece, que apenas o pobre vai para a cadeia. A ausência de modernidade também diz respeito a uma cultura patriarcal baseada em relações de favor: não existe distribuição de comida aos presos, a não ser mediante algum pagamento à cozinheira, a disciplina interna é toda ela centralizada na figura de seu Doca que dirige o estabelecimento baseado em relações de confiança pessoal. 

O crime como decorrência de impulso momentâneo João Miguel é um romance social, com um penetrante aprofundamento da análise psicológica. A autora conta uma estória sobre a prisão de um caboclo sertanejo que assassinou um homem, após uma discussão no bar onde bebiam. Sem motivo aparente João Miguel comete o crime cortando o homem com uma faca. Nem mesmo o próprio personagem formulou a consciência do ato que praticou. Desta forma também não alimentou qualquer sentimento de culpa, seu ato impulsivo, num instante cego,exprime o aflorar de elementos presentes só em seus ascendentes remotos, revivendo atos de seus primários. E isto pode ocorrer em um instante passageiro, como no caso de  João Miguel, ou por períodos longos, como nas manifestações múltiplas do cangaço.No plano do subconsciente e sob determinado condicionamento social, o impulso assassino sobrepuja por instantes o sentimento de humanidade passiva esubmissa do caboclo sertanejo.
“Sabemos que, frequentemente, os estados emocionais têm efeitos
perturbadores na realização de nossos objetivos. É sabido também, que algunspsicólogos afirmam que o efeito da emoção é
sempre
negativo e perturbador. Segundosua maneira de pensar, os processos racionais são necessariamente perturbados sempreque ocorre emoção, e essa perturbação é sempre prejudicial para a busca dos objetos.Outros psicólogos não têm uma opinião tão sombria quanto ao valor das emoções.Embora também admitam que as emoções frequentemente perturbam os processos
racionais, indicam seu valor na ativação do organismo.”
Quando João vai a julgamento, sua defesa alega a privação de sentidos e de inteligência provocadas pela embriaguez. Além da embriaguez, a cólera que surgiu no personagem na hora da discussão. Esta perturbação emocional levou João Miguel acometer o crime sem um motivo específico. E não só ele, mas outros personagens,companheiros de cadeia. Cada um com seu motivo, também cometeram assassinato. Podemos citar o Coronel Nonato que num impulso matou Dr. Barretinho com um tiro no peito,
após terem se encontrado na rua se “pegaram numa conversa alta”.Também Maria Elói, uma mulher sofredora, que abandonada pelo marido lutava com unhas e dentes para criar os dois filhos. Feriu a navalhadas com intenção de matar, a mulher que tomara seu marido, pois a mesma a provocara dizendo-lhe desaforos.

Pela sua presença e com as suas relações humanas na prisão, ele se torna o eixo do romance e o principal ângulo de observação e pesquisa da romancista. Forma-se assim um agrupamento humano, que continua a manter no presídio o sentido e os hábitos da vida cotidiana em liberdade. Compõem-no: Santa, companheira de João Miguel, e que o abandona pelo cabo Salu, Maria Elói, Filó, Zé Milagreiro ( que está preso na mesma cadeia, mata o tempo a fazer ex-votos, milagres de madeira, que são encomendados por gente que deseja pagar promessas. A angústia da prisão, a tensão de João Miguel  que, com a mão assassina vai compondo seus trabalhos manuais com a fibra da carnaúba. Nesse caso, a prisão vigora apenas como restrição circunstancial do espaço de relações, mas sem qualquer reflexo corretivo ou punitivo sobre os que lá vivem.


quarta-feira, 2 de maio de 2018

Poemapa (poesia do Recife)


Ah, Moisés, digo a mim mesmo,
para termos nesta vida
uma atmosfera mais afetuosa e mais estável
temos que aprender a moderar os jogos de poder
em nossos relacionamentos
aprender e  ensinar (não é, professor?)
que numa relação não devem existir "vencedores e vencidos",
só parceiros e, sobretudo, confiança...
E isso vale para qualquer qualidade de relação:
da conjugal às sociedades...
amo com toda intensidade a vida, os prazeres
os apetites desejosos são muito fortes em mim
e tudo isso é válido,
mas  não é a finalidade única de minha existência.
Bem sei que devo cultivar a moderação dos quereres
E o egoísmo básico que atrapalhar tantos relacionamentos.
Ver as coisas apenas sob o nosso ponto de vista
Pode ser até mais confortável,
Não é, Moisés?
Porém  não é justo.
(Moisés Monteiro de Melo Neto)


Fortuna crítica de ELES NÃO USAM BLACK-TIE


Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri

Primeira peça de Gianfrancesco Guarnieri, Eles não usam black-tie, de 1958, foi encenada pela primeira vez quando o movimento Cinema Novo começava a surgir e a convocar a arte ao neo-realismo. No lugar de cenários pomposos e figurinos luxuosos, ficaram apenas os elementos de cena indispensáveis. Ao invés de personagens ricos e nobres, operários e moradores do morro tomaram o palco. Ali, em plenos anos 50, negros eram cidadãos comuns. Pela primeira vez, os conflitos da realidade brasileira ganhavam espaço na caixa cênica.

Imagem representativa do artigo
Eles não usam black-tie situa-se numa favela, nos anos 50, e tem como tema a greve, e ao lado da greve a peça tem como pano de fundo um debate sobre as grandes verdades eternas, reflexões universais sobre a frágil condição humana, sobre os homens e seus conflitos. É a história de um choque entre pai e filho com posições ideológicas e morais completamente opostas e divergentes, o que, por sinal, dá a tônica dramática ao texto.
O pai, Otávio, é operário de carreira, um sonhador, um idealista, leitor de autores socialistas e, ao mesmo tempo um revolucionário por convicção e consciente de suas lutas. Forte e corajoso entre os seus companheiros, experimentou várias lideranças, algumas prisões, com isso ganha destaque entre os seus transformando-se num dos cabeças do movimento grevista.
O filho, Tião, em razão das prisões do pai grevista, é criado praticamente, na cidade, longe do morro, com os padrinhos, sem conviver com esse mundo de luta e reivindicação da classe operária. Hoje adulto e morando no morro com os pais, vive um dos maiores conflitos de sua vida. Em primeiro lugar não quer aderir à greve, pois acha que essa é uma luta inglória, sem maiores resultados para a classe. Em segundo lugar pretende se casar com Maria, moça simples, porém determinada e leal ao seu povo, e está esperando um filho seu. Desta forma, Tião está mais preocupado com o seu futuro do que com a luta de seus companheiros, que sonham com melhores salários. Para Tião, greve é algo utópico. Ele não tem tempo para esperar, precisa resolver seus problemas de imediato, ou seja, se casar.
É preciso esclarecer que Tiäo, ao contrário de seu amigo Jesuíno, malandro, fraco e oportunista, é um jovem corajoso, mesmo porque fura a greve sem medo dos companheiros, achando que está agindo corretamente. Por essa atitude, acaba perdendo a amizade de todos de seu grupo, restando apenas um colega da fábrica e João, irmão de Maria, um homem ponderado e maduro capaz de compreender a situação conflitante vivida pelo amigo Tião e ainda apoiar sua irmã neste momento difícil.
Na realidade, Tião não tem medo do confronto com o inimigo. O seu medo é outro, é o grande medo de toda a sociedade, o medo de ser pobre, por isso quer subir na vida e deixar para trás a condição difícil e miserável do morro, que, por sinal, é desafiada cotidianamente pela coragem e bravura de Romana, sua mãe, mulher de pulso e determinação e responsável pelo equilíbrio da casa e da família.
Eles não usam black-tie é um texto político e social, sempre atual no qual Gianfracesco Guarnieri criou de um lado, personagens marcantes e populares como Terezinha, Chiquinho, Dalvinha e Jesuíno que nos revelam um mundo alegre, descontraído e aparentemente feliz. Já por outro lado a peça se apresenta forte e densa revelando de maneira real os conflitos que atormentam personagens como Otávio, Romana, Tião, Maria e Bráulio. São tais encontros e são esses momentos alegres e comoventes , que nos provocam o riso e a dor, alegria e tristeza. Assim, se por um lado mostra um olhar profundo dentro da sociedade brasileira, por outro esse olhar vem embalado por um valor poético materializado na visão romântica do mundo de seus personagens.
Embora, na convencional teoria de dramaturgia teatral não se enquadre essa abordagem, o drama social é de natureza épica e por isso mesmo uma contradição em si mesma. Aqui, novamente Guarnieri quebrou também outra regra essencial, presente nos manuais do "bom drama": ao invés de trazer personagens "superiores" como protagonistas, ele se utilizou de gente humilde, trabalhadores comuns, para conduzir sua história. Mesmo as mais simples metáforas, foram pinçadas nos mais básicos valores de nossa cultura popular, como por exemplo, na metáfora do amor, o feijão, prato massivo na América do Sul, teria um "coração de mãe".
A temática não é política, muito menos panfletária. O que discorre são relações de amor, solidariedade e esperança diante dos percalços de uma vida miserável. Assim, a peça alia temas como greve e vida operária com preocupações e reflexões universais do ser humano. Sob o olhar de Karl Marx, em um retrato iluminado por um feixe de luz na parede do cenário, o debate entre a coletividade e o individualismo, simultaneamente cru e sensível, vai crescendo.
Eles não usam black-tie é um marco do teatro de temática social.
Foi com a encenação de Eles não usam black-tie, que se iniciou uma produção sistemática e crítica de textos dispostos a representar as classes subalternas, com ênfase para a representação do proletariado. Nesse sentido, a peça de Guarnieri insere-se num quadro que se ampliou a partir da década de 1950, quando surgiu uma dramaturgia com preocupações ligadas à representação de uma camada específica da sociedade brasileira e, para além disso, em busca da construção de uma identidade nacional pautada em variedades culturais internas.
Histórico
Espetáculo que inicia a fase nacionalista do Teatro de Arena e lança o autor Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006), que serve de modelo e estimulo para outros jovens escritores dramáticos brasileiros.
Em 1957, José Renato resolve assumir a produção de O Cruzeiro Lá no Alto, texto de Gianfrancesco Guarnieri, prevista para ser a última montagem do grupo, que passa por graves dificuldades financeiras.
Rebatizada, por sugestão de José Renato, como Eles Não Usam Black-Tie, provocativa referência ao Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), e a seu público. A peça trata de uma greve operária, colocando em cena moradores de uma favela e seus problemas socioeconômicos. O texto faz um recorte preciso de um momento altamente dramático: o jovem operário Tião fura o movimento grevista, pois, tendo engravidado a namorada, teme perder o emprego na hora em que mais necessita dele. As conseqüências de sua atitude são dolorosas e ele é obrigado a enfrentar não apenas seu pai, o líder grevista, mas também sua própria namorada, que o impele à frente de luta e o abandona.
Eugênio Kusnet (1898-1975), com sua larga experiência no método de Stanislavski, encarna o velho Otávio; Lélia Abramo (1911-2004), politizada intelectual vinda de experiências junto a grupos operários anarquistas, vive a mãe Romana; Miriam Mehler (1935), recém-formada pela Escola de Arte Dramática (EAD), encarrega-se de Maria, amor de Tião, interpretado pelo melhor ator do Arena no período - Gianfrancesco Guarnieri, depois substituído por Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974). Os outros papéis cabem a Flávio Migliaccio, Riva Nimitz, Chico de Assis (1933-2015) e Milton Gonçalves (1934).
A encenação de José Renato é simples, direta e eficiente. Valoriza o enredo e dá corpo às personagens, imprimindo dramaticidade e energia à ação. Utiliza um samba composto por Adoniran Barbosa para pontuar passagens significativas da trama. Êxito surpreendente para quem pensava em fechar as portas, Black-Tie permanece um ano em cartaz, cumprindo posteriormente bem-sucedida carreira no interior de São Paulo e no Rio de Janeiro. Animado pelo sucesso, o Arena investe forças na criação de outros textos nacionais, instituindo o Seminário de Dramaturgia, de onde sairão os textos para as montagens seguintes, que respondiam à necessidade do público de ver nos palcos a realidade nacional. Até 1960, foram montados, entre outros: Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Vianna Filho; Quarto de Empregada, de Roberto Freire (1927-2008); Fogo Frio, de Benedito Ruy Barbosa.
Destaca o crítico Sábato Magaldi (1927): "A encenação de José Renato foi, até aquele momento, a mais homogênea e de rendimento uniforme e satisfatório. E a recompensa supunha muitas dificuldades para transmitir a veracidade do texto, porque formavam o elenco atores inexperientes ou estrangeiros. Valorizou a montagem a maturidade, orientada no sentido do despojamento. [...] Em poucos trabalhos ele não revela a preocupação de inventar algo, para que sua presença ficasse marcada. Aqui, o encenador se libertou da sedução de impor os próprios achados e atingiu a autenticidade, por despir o conjunto de efeitos. Não seguiu, também a falsa pista do pitoresco no morro, despreocupando-se da tarefa quase impossível, na arena, de mostrar a cor local".1
Eles Não Usam Black-Tie é a primeira de muitas outras encenações que colocam o Teatro de Arena como o conjunto de maior representatividade em São Paulo até meados da década de 1960.
Notas
1. MAGALDI, Sábato. Um palco brasileiro: o Arena em São Paulo. São Paulo: Brasiliense, 1984.

·         PRADO, Décio de Almeida. Teatro em progresso: crítica teatral, 1955-1964. São Paulo: Martins, 1964. 314 p.
·         ELES NÃO USAM BLACK-TIE. Direção José Renato. São Paulo, 1958. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado no Teatro de Arena em fevereiro de 1958.
·         MAGALDI, Sábato. Um palco brasileiro: o Arena em São Paulo. São Paulo: Brasiliense, 1984. 100 p.
·         MARQUES, Fernando. Poesia do real: Black-tie 50 anos, Folhetim n. 27. Rio de Janeiro: Teatro do Pequeno Gesto, 2008, p. 40-49.
·         MARTINS, Maria Helena Pires. Literatura comentada: Gianfrancesco Guarnieri. São Paulo: Abril Educação, 1980. 
·         MOSTAÇO, Edelcio. Teatro e política: Arena, Oficina e Opinião. São Paulo: Proposta: Secretaria de Estado da Cultura, 1982. 196 p.
·         PRADO, Décio de Almeida. Teatro em progresso. São Paulo: Martins, 1964. 316 p.
·         RENATO, José. Entrevista. Folhetim, Rio de Janeiro, n. 26, jul-dez 2007, p. 85-115.

Há 60 anos estreava no palco do Teatro Arena a peça Eles Não Usam Black-Tie escrita por Gianfrancesco Guarnieri. A peça ficou mais de um ano em cartaz em São Paulo, o que era inédito no teatro brasileiro. Ela aliou temas importantes como o movimento operário da década de 50 no Brasil e as difíceis condições de vida dos trabalhadores brasileiros, traçando um panorama realista das favelas dos grandes centros urbanos e apontando o cerne do abismo social entre dominantes e dominados.

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Guarnieri e Fernanda Montenegro em cena do filme de 1981
O Teatro de Arena foi fundado na cidade de São Paulo, em 1953, como o objetivo de se tornar uma alternativa à cena teatral da época. A intenção de seus idealizadores e fundadores era nacionalizar o palco brasileiro em contraposição ao tipo de teatro que se via praticado pelo TBC — Teatro Brasileiro de Comédia (um repertório exclusivamente internacional, com produções "sofisticadas" e que pouco ou nada retratavam a realidade nacional).

Esse novo tipo de teatro, voltado para discussões sobre a realidade do país, chamou a atenção de vários segmentos da sociedade (e incomodou outros tantos), já que personagens como operários em greve e moradores das periferias, por exemplo, passaram a ser protagonistas de uma peça de teatro.

Em 1958, o Teatro Arena enfrentava sérias dificuldades econômicas e estava prestes a fechar suas portas quando ingressa no grupo o jovem ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri. Este jovem talento, que tinha sérias convicções sobre o teatro que deveria ser feito no Brasil, contribuiu enormemente para reerguer o grupo, que alcançou um estrondoso sucesso com Eles Não Usam Black-Tie.

Um teatro nacional é possível

Eles Não Usam Black-Tie,escrita por Guarnieri e dirigida por José Renato, um dos fundadores do movimento do teatro de arena no Brasil, trata da greve operária, colocando em cena  trabalhadores (moradores de uma favela) e seus problemas socioeconômicos. O TBC e a grande maioria das peças produzidas no país antes da década de 50 não tratavam da realidade vivida pelo nosso povo, ou seja, era o chamado teatro do entretenimento, muito presente ainda no cenário do teatro nacional. Ademais, esses textos tratavam da burguesia em peças geralmente cômicas, muito distantes da realidade brasileira. Daí o próprio nome Eles Não Usam Black-Tie, uma clara provocação a este velho teatro engessado das classes reacionárias.

A peça escrita por Guarnieri pode ser considerada precursora do movimento por um teatro realmente brasileiro. E por que não dizer, além de uma bandeira nacional, Eles Não Usam Black-Tie também desfraldou uma bandeira antiimperialista e democrática, haja vista o ódio que despertou nos "Generais de 64" a temporada da peça em Salvador.

Dramaturgia da vida operária

Com trilha musical de Adoniran Barbosa, a primeira apresentação em público teve um "elenco de primeira": Eugênio Kusnet, ator experiente do teatro e cinema nacional, viveu o velho Otávio; Lélia Abramo, intelectual, politizada, vinda de experiências junto a grupos operários anarquistas, vive a mãe Romana; Miriam Mehler, recém-formada pela Escola de Arte Dramática, EAD, encarrega-se de Maria, amor de Tião, interpretado pelo autor da peça — o jovem Gianfrancesco Guarnieri. Outros papéis cabem a Flávio Migliaccio, Riva Nimitz, Chico de Assis e Milton Gonçalves.

A peça tem um roteiro consistente: o jovem operário Tião fura o movimento grevista, pois tendo engravidado a namorada teme perder o emprego na hora em que mais necessita de recursos. As consequências de sua atitude são dolorosas, enfrentando não apenas seu pai, o líder grevista, como sua própria namorada grávida, que o impele a frente da luta e o abandona no final.

Tudo isso tendo como pano de fundo a São Paulo do final dos anos 50, o grande impulso industrial e com isso a carestia que passava o proletariado, o que exigia um movimento operário à altura.

E mais do que isso, a peça é a história de um choque entre pai e filho com posições ideológicas e morais completamente opostas e divergentes, o que, por sinal, dá a tônica dramática ao texto.

O pai, Otávio, operário de idéias progressistas, leitor de autores socialistas e, ao mesmo tempo um revolucionário por convicção e consciente de suas lutas. Forte e corajoso entre os seus companheiros, experimentou várias lutas, algumas prisões, com isso ganha destaque entre os seus transformando-se numa das principais lideranças da fábrica que trabalhava.

O filho Tião, que, em razão das prisões do pai grevista, é criado praticamente na cidade, longe do morro, com os padrinhos, sem conviver com esse mundo de luta e reivindicação da classe operária. Já adulto e morando no morro com os pais, vive um dos maiores conflitos de sua vida. Em primeiro lugar não quer aderir à greve, pois acha que essa é uma luta inglória, sem maiores resultados para a classe. Em segundo lugar pretende se casar com Maria, moça simples, porém determinada e leal ao seu povo, e está esperando um filho seu. Desta forma, Tião está mais preocupado com o seu futuro do que com a luta de seus companheiros por melhores salários e pela transformação da realidade que viviam.

Com diálogos emocionantes e o bom samba de Adoniran no fundo, todas as contradições vividas por aquela família operária são retratadas, apontando uma realidade que certamente era vivida por outras famílias de trabalhadores pelos outros cantos do país e do mundo.

Riso e dor, alegrias e tristezas...e reflexões!

Foi quase uma década de sucesso em turnês por todo o Brasil. Assistida por milhares de pessoas, dentre estudantes, operários, intelectuais, pode-se dizer que os sessenta minutos de peça provocavam grandes reflexões.

Eles Não Usam Black-Tie é um texto político e social, sempre atual, no qual Gianfracesco Guarnieri trouxe ao público uma peça forte e densa, revelando de maneira real os conflitos que atormentam personagens como Otávio, Romana, Tião, Maria e Bráulio. São tais encontros e são esses momentos alegres e comoventes que nos provocam o riso e a dor, alegria e tristeza.

A qualidade da peça fez com que anos depois, em 1981, ela fosse adaptada para o cinema. Coube a Leon Hirszman produzir o roteiro e dirigir o filme. Ele convidou Guarnieri, 20 anos "mais vivido" para encarnar o velho Otávio. Fernanda Montenegro viveu a brava Romana. Carlos Alberto Riccelli e Bete Mendes interpretaram Tião e Maria respectivamente.

O filme recebeu o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes e com certeza é um dos clássicos do cinema nacional.
Teatro de Arena Eugenio Kusnet

Informações ao público:(11) 3259-6409(11) 3256-9463comunicacaosp@funarte.gov.brLocal:Rua Teodoro Baima, 94 - Vila Buarque - Centro, São Paulo
CEP 20220-202


Leia mais:
Sala Augusto Boal
Sala de espetáculos do Teatro de Arena Eugênio Kusnet, espaço histórico do teatro brasileiro que foi aberto nos anos 1950 e é administrado pela Funarte desde o final dos anos 1970. Com capacidade para 99 espectadores, mantém até hoje as mesmas características de sua concepção original, com o palco circular e as arquibancadas circundantes, em formato de arena. Sua ocupação se dá por meio de edital ou cessão de espaço.
Sala Umberto Magnani
Batizada e inaugurada para a finalidade atual em 2017, destina-se a exposições relacionadas às artes cênicas, especialmente ao teatro. Localizada no segundo andar do Teatro de Arena Eugênio Kusnet, cumpre assim a vocação do espaço para a preservação da memória do teatro brasileiro. Sua ocupação acontece por termo de cessão, mediante apresentação de projeto.  A Sala tem aproximadamente 108 metros quadrados.
Clique aquipara baixar o rider do Teatro de Arena Eugênio Kusnet.
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Sobre Eugênio Kusnet (1898, Kherson – 1975, São Paulo)
Considerado o mais importante ator de formação stanislavskiana do teatro brasileiro, teve atuação fundamental também como professor.  Formado em Moscou, mudou-se para o Brasil em 1926. Estreou nos palcos brasileiros apenas em 1951, a convite de Ziembinski, pelo TBC – Teatro Brasileiro de Comédia. Depois, trabalhou no TPA – Teatro Popular de Arte, no Teatro de Arena e no Teatro Oficina. Sua reflexão pedagógica pode ser conhecida pelo livro Ator e Método, organizado no início dos anos 1970.
Sobre Augusto Boal (Rio de Janeiro, 1931 – Rio de Janeiro, 2009)
Além de diretor e autor, foi também um teórico do teatro. Bastante reconhecido dentro e fora do Brasil – possivelmente o artista brasileiro mais famoso no mundo –, notabilizou-se entre outras coisas pela criação de métodos como o Teatro do Oprimido, que estreitam os laços entre o palco e a ação social. Sua intensa colaboração com o Teatro de Arena teve início em 1956 e se estendeu até o início dos anos 1970. Em espetáculos como Arena Conta Zumbi (1965) e Arena Conta Tiradentes (1966) aliou a pesquisa de linguagem à reflexão atuante sobre a realidade brasileira.
Sobre Umberto Magnani (Santa Cruz do Rio Pardo, 1941 – Rio de Janeiro, 2016 )
Reconhecido pela longa e premiada carreira como ator, com atuações em mais de 70 montagens teatrais, foi também produtor e gestor cultural. Sua colaboração com o Teatro de Arena teve início em 1968, a convite de Augusto Boal, e prosseguiu nos anos seguintes. Entre 1977 e 1990, dirigiu o Serviço Nacional de Teatro – SNT (integrado à Funarte em 1978), que havia comprado a sede física do Arena.  Ajudou a fundar e foi também diretor da Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo – APETESP.




Ontem fui ao Santa Isabel, o Teatro abriu suas portas em pleno feriado do dia 1º de maio para o projeto Teatrando!

Ontem fui ao Santa Isabel, o Teatro abriu suas portas em pleno feriado do dia 1º de maio para receber os trabalhadores que estiveram de folga para uma programação gratuita e palpitante, que misturou adrenalina, história e jogo. O projeto Teatrando! ofereceu um passeio encenado pelo passado, pelas instalações e pelos mistérios de um dos mais antigos e bonitos teatros do Brasil. A visita é gratuita e começa às 15h, com duração média de duas horas.




Parabéns Célio PontesQuiercles SantanaDouglas DuanPaulo De PontesRomildo Moreira Moreira e toda a equipe. Que tarde boa com vocês. querida e talentosa Sephora Silva, que com seus traços reinventou o Santa Isabel em poucos minutos...
O enredo que conduz os visitantes Santa Isabel adentro é de Analice Croccia, Célio Pontes e Quiercles Santana. O diminuto, porém grandioso elenco que apresenta o teatro do sótão ao porão, lembrando capítulos importantes de sua história e ainda desafiando o público a resolver alguns desafios, é formado pelos atores Alexandre Sampaio, Bruna Luiza Barros, Douglas Duan, Ellis Regina, Kadydja Erlen, Luciana Lemos, Paulo de Pontes e Rafael Dyon. A direção geral da visita espetáculo, que leva o nome de Proscenium!, é de Célio Pontes e Quiercles Santana.
Criado pela Prefeitura do Recife, com execução do IDG e patrocínio do Santander, via Lei Rouanet, o Teatrando! ocupará a pauta do Teatro de Santa Isabel toda terça-feira, até o mês de agosto, numa caprichada estratégia de formação de público e de educação patrimonial.
Para participar, aprender, rir e chorar com o Proscenium! neste feriado, basta se inscrever pelos telefones 3355-3323 ou 3355-3324. A indicação é etária é de 10 anos em diante.

Moisés Monteiro de Melo Neto

terça-feira, 1 de maio de 2018

MANIFESTO DA POESIA ILUSIONISTA DO RECIFE




Queremos uma ação poética de consumo; não escreveremos mais sobre temas e sim sobre  fatos (externos ou emocionais), exploraremos significados e contradições possíveis e atuantes observando elementos que confiram a suas  realidades e, claro,  existência(s);
Depois de  ter o vocabulário (da área, não o do autor), partiremos para a sintaxe de manipulação (do vocabulário)  numa pragmática que parta do vocabulário até o (pré) texto;
Incentivaremos o leitor a praticar tal  processo;
Nosso  poema será  autocentrado, mas submetido à realidade social, sem perder a  subjetividade lírica!?
Daremos vez  também ao poema autobiográfico, mesmo anárquico, afinal desejo e memória terão, em nossa poesia, um viés de  experimentalismo que envolva o caráter público-político, tal autocentramento (auto-espelhamento?)  exporá  o objeto poético à verdade (pós-kantianamente falando: o que  é o Real? Translacanianamente o que é o simbólico e enfim: o imaginário?) do grupo e, claro do sujeito poético (kkkkkkkkkk);
Propomos a fragmentação do discurso, o fluxo de consciência, a intertextualidade intensa!
Somos o cotidiano, a auto-ironia, o existencial, o social e (oh!) o...político!
Nossas obras são (im)puras fragmentação e deglutição;
Queremos justapor imagens em enunciação meio caótica, louvando e destruindo a rebeldia  através  da intervenção na problemática do cotidiano;
Queremos mais vida, corpo, cultura em sentido bem mais amplo, louvando e destruindo, simultaneamente, a indústria cultural!
Queremos refletir o jogo do século XXI, seu atrito, tensão (não apenas na linguagem poética, mas no nosso visual , nossos corpos, sexos, jeito de comer e falar, sempre!
Guerrilha, de novo! Pela gozo do CIBERDESEJO, já!
Sim à linguagem fragmentada das cibernéticas passeatas/ cruzadas, com suas POSTAGENS -relâmpago, em CIBERRETÓRICA descentralizadora;
Propomos a revolução do conhecimento, a dissolução regenerativa de qualquer possível consciência política!
Queremos uma revolução não só formal, mas o estilhaçar da própria gênese de todos os fenômenos; retrabalharemos signos, metáforas, símbolos; queremos o poeta como imperador e escravo colonial, no CIBERCOLISEU, espaço poético virtual em que a vida possa se cumprir SATILIRICAMENTE;
Tela-praça, portátil/fixa, doa em quem doer (é bom que seja no outro, não em você!);
Luta e fúria: viver é guerra!
Viva o poemas esgrimista! Touché!
Propomos INTERSECCIONADAS  coexistências, isto é: o CRUZAMENTO: tempo VERSUS  poesia: presença versus eterna ausência antifreudiana materna da pátria ou do ser que pariu o poeta e/ou o leitor.
Urgência no COLAR dos fragmentos da INESPERADAMENTE NUA unidade!
Que o corte recupere sua autonomia: Poesia–cirurgia!
Pela  invencionice destabocando o papai e mamãe pós-marxista!
Contra o tratamento da elegância e delicadeza,  sim à exploração da eterna e trágica solidão do homulher luciferinos, pré-edênicos nesta vida tão cheia de... palavras, olhares de cobiça!
Pelo desnudamento total da verdade, pois a mentira triunfou até agora de qualquer modo através da linguagem áspera dos tribunais populares e eruditos!
Se você disser que é mentira será mentira sua...
Malvados, tremei!  KKKKKKKKKKKKKKKKKKK

Recife,  dezembro de 2012                                          

Moisés Monteiro de Melo Neto