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sábado, 4 de janeiro de 2014

Sábado com letras norte-americanas

Sábado sem eles

Na saudade  norte-americana das letras
Há best-Sellers & malditos
Contos de cubículos e do infinito
Walt Whitman, querido
Edgar Allan Poe nem tão perdido querer
Henry James com mais uma volta no parafuso
Mark Twain com Tom Sawyer e Huckleberry profusos
Edith Warthon,  Stephen Crane, Theodore Dreiser... que prazer
Herman Melville, Nathaniel Hawthorne e Emily Dickson inclusos
Tenho saudades desses meus amigos
De Scott Fitzgerald e seus perigos
De passear com John Steinbeck pela vinhas da ira
De me achar na  Geração Perdida com Ernest Hemingway
Divagar com Sinclair Lewis, Pearl S. Buck (primeira das Américas com o Nobel)
William Faulkner, John dos Passos no infernopurgatóriocéu (sem tanta religião!)
Ah!Gertrude Stein, com quem bebi
Truman Capote, com quem escutei música para camaleões (à sague frio!)
Saul Bellow, Henry Miller, J. D. Salinger (eu matei John Lennon!)
Jack Kerouac,Allen Ginsberg,William Burroughs, me deixaram na Estrada...
Peguei carona com Paul Auster, Paul Bowles e Philip Roth, mas não fui longe...
Restam tantos outros, logo ali, ao meu alcance, enquanto o mundo gira...


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

POR QUE LITERATURA?


                                    por Moisés Neto


            Sempre procurei algo que fosse interessante em alguém. É mais ou menos assim a minha vontade de escrever e tornar público o que eu escrevo. Sempre amei o Recife além de toda repressão contida neste lugar e sempre quis expressar a minha opinião sobre o que é viver aqui, como escritor, como intelectual, etc. Escrevo para me inventar. Como autor uso a minha literatura para unir as letras e a civilização em seus detalhes. Ser escritor é ser pai e mãe. Começo às vezes, paradoxalmente, com uma narrativa pré-verbal que busco dentro e fora de mim: grunhidos, suspiros, gritos, sussurros, etc. É muito difícil chegar até a arqueologia deste meu experimento, atrás das barricadas desse meu desejo, desta minha ambição, recusa, reclusão, liberdade (?). Escrever é dar primazia ao pensamento sobre a ação, ao macro sobre o micro: Diacronia (a evolução no tempo – fenômenos culturais, sociais, linguísticos, etc.) e Sincronia (isolar o fenômeno num certo tempo uma época que em retrato). Já viajei por muitos lugares do mundo em busca de contrastes que refletissem a minha tese. Terminei por quase não acreditar que houvesse uma mudança no mundo: há uma troca de pensadores no poder, mas existe sempre a necessidade de limites, como esses tão necessários na educação das nossas crianças. Vi logo que a liberdade só se justifica pelo jogo arriscado cuja regra principal é o tudo ou nada. Percebi que na minha escrita está refletida a urgência a ditar a matéria dos meus passos. Nunca fui contra a fome do capital, apenas não suporto muito bem as suas, digamos assim, torturas. Houve em mim sempre a alegria de pensar, de criar e de oferecer meus textos escolhendo a mídia a meu alcance. Cai sobre mim o peso da disciplina que barra um agir livre, que sufocou tantas vezes minha aparente revolta, mas por dentro eu sempre soube que realizo o possível.Duvido um pouco de conceitos totalizantes sobre “certo” e “errado”. Como esta “certeza” está vinculada ao poder (político, econômico, social, afetivo, sexual, etc.)? Devemos tentar entender a vida não apenas pelo conhecimento dividido das épocas passadas, o que foi, mas sim pelo que já não somos ou pelo que poderemos ser. Eu quero interrogar o espaço (mítico e real) que nos cerca. Meus textos são como embarcações: espaços flutuantes lançados na imensidão das águas, são reflexos, como este agora o é, dos outros textos que leio e, ouço e sinto no mundo. Abraço a literatura porque a linguagem para mim funciona como o espaço do possível de ruptura com a noção primitiva do tempo. A linguagem supera o tempo (embora aconteça dentro dele): realizando, e desrealizando, busco nas palavras a presença dos seres e vejo a literatura como sendo um “outro” lugar, um acesso a um mundo onde se pode enxergar o que não se deveria ver: uma experiência extrema do pensamento. Ela nos faz reinventar as palavras, deslizar entre os sentidos, penetrar espaços, habitar neles, sem se fixar num lugar, sem estar em terra firme, rumo ao horizonte da compreensão, do ser enquanto ser múltiplo, plural, mutante. Temo que ao ansiar por uma nova mecânica de poder eu rasure ou... reforce ao mesmo tempo certos valores antigos que se embutem, de alguma forma, às minhas estratégias de composição e divulgação de textos. A guerra não é o contrário da paz quando se trata, por assim dizer, de literatura, nela a história de uns  pode ou não ser a história de todos? É uma anti-história o que a minha literatura reflete, uma reflexão contraditória entre o ser e o não-ser. Prazer e trabalho. Mãos à obra!
                                   
                                              Moisés Neto (professor , pesquisador, escritor, doutor em letras pela Ufpe)
                                                                                                Recife, junho de 2013


Quem mantém o luxo do mundo?







Enquanto isso algumas pessoas morreram no Camboja (grevistas na capital Phnom Penh): polícia contra os manifestantes que pedem aumento do salário mínimo. Os operários cambojanos mantêm algumas grandes marcas têxteis internacionais; o salário mínimo deles é de US$ 81 (R$ 193). 
Sorry... 
Miséria é miséria em qualquer canto, riquezas são diferentes, ainda. Precisamos de uma nova  Revolução Cultural? Lembremos que o projeto chinês levado adiante por Mao Tse-tung, teve como consequência 70 milhões de mortes e contou com os estudantes para tirar o seu país da crise e fez isso a partir do campo, pelos camponeses, e não das cidades, pelos operários, mas os tempos são outros, não é? Vejam essa foto do manifesto cambojano:

Grevista do setor têxtil do Camboja ferido após polícia usar fuzis AK-47 para disparar contra manifestantes; três morreram
Ontem, no Camboja


Identidade e Alteridade nas Fases Da Vida


         Infância e Adolescência, Um Espaço Chamado Adulto, Velhice ou Idos-Idade.


Trecho da Palestra proferida por Moisés Neto no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE
“HERÓIS SEM ADOLESCÊNCIA NEM INFÂNCIA OU AS MANGAS COLHIDAS ANTES DO AMADURECIMENTO”.




“O abismo bate palmas, / a noite aponta o revólver. / ouço a multidão, o coro do universo, / o trote das estrelas / já nos subúrbios da caneta: / as rosas perderam a fala. / entrega-se a morte a domicílio. / dos braços... / pende a ópera do mundo” (Murilo Mendes).




                         Sim, viver é difícil. O fluir da vida é um curso dadivoso cuja perenidade, mesmo dentre obras de arte é estranho e periclitante.

Quem gostaria de viver para sempre? Quem como a personagem Norma Desmond do filme Sunset Boulevard, poderá dizer, enlouquecida, na última cena “agora estou pronta para o meu close up”?

Quando uma vida se completa? Quando nos livramos dos exageros e das indecisões? Há um momento exato em que se atinge a maturidade?

Nossas estantes estão cheias de livros como “Capitães da Areia” de Jorge Amado ou “Oliver Twist” de Charles Dickens, onde crianças de rua são utilizadas por pessoas mais velhas e forma pequenas gangues. Crianças com pais ausentes, destinos entrelaçados formando um espaço alheio ao entendimento das metrópoles, Londres / Salvador.

O Recife acostumou-se a olhar as centenas de cheira-colas. 5, 10 anos de idade quantos anos? As drogas fortalecem cartéis e exigem reis, dirigentes fortes.

Entre o  caos e a melancolia de entender-se humano, adulto, maduro, velho ou verde, interpõe-se o conceito de 3º espaço, de entrelugar, proporcionado também pelo álcool, pela migração, pela sexualidade proibida. Vamos então à (re)construção da felicidade?

                        Manga verde dá cólica, mas as crianças, os miseráveis, os menos favorecidos, as colhem na forme, na pressa para não cair. Falo de quem tem fome e conta somente consigo. “Serei o herói da minha existência?”, perguntava-se o David Coperfield de Dickens. Serei um anti-herói? A tragicidade que envolve certas adolescências sufocadas nos faz pensar numa plateia de clowns a assistir o desespero de uma juventude sufocada, não por vivermos num sistema capitalista que devora os mais fracos sem remorsos, mas por não haver muitas saídas para o ser humano a não ser procriar, ou aceitar calmamente a cria dos outros, ocupando assim este espaço chamado adulto.

                        O Brasil entra numa nova fase? Talvez, num admirável mundo novo, possamos, todos nós, conviver, aí sim, como produtos de uma mesma máquina. Talvez, como no romance de Huxley, reste-nos a soma, poderosa panaceia para tantos males que insistimos em rotular de angústia, culpa, insatisfação, etc.

“Como está cheio/ de folhas secas o horto/ e de palavras santas / meu coração! / tempo é que não sobrou / que fossem ditas / nem variadas...”, diz João Jandelino Câmara. Sim, o não-dito está condenado a transformar-se em esquecimento, arrependimento. O não-amor torna-se objeto de consumo. Os pais envelhecidos vão olhar antigas fotos e achar ali, estranhas meninas do ano 2003, pintadas e erotizadas, afetadas pela média. Garotas que se educaram em X-Men e Matrix, Digimons e tantos outros produtos que impuseram um peculiar acento a uma juventude imediatista e não adepta da meditação/reflexão.

                Muito além dos  Shopping Centers estão as ruas imundas como leitos, o leite dos peitos sujos e sem perspectivas, a ruína das escolas públicas e o jogo imperfeito das instituições pagas de ensinos médio e fundamental. Tudo caleidoscópio neste mundo pós-moderno onde o preservativo é aconselhável antes até da primeira explosão de hormônios. Síria, Sudão do Sul,
Bagdá, Afeganistão, Nova York, Bush de canhão apontado para “infratores”, Obama, heróis de um sistema tristonho, composto por fraudes na eleição, na religião, no preconceito. Encruzilhadas sustentam placas que indicam os entrelugares, mas nestes, como no caos, sempre vão instalar-se novos ranços, como num jogo sem perspectivas para detectarmos quem vence, quem perde. Como na máxima alquímica. O que está embaixo é igual ao que está em cima.
                 Sequestros, tiros, facadas, câncer. Roubos, prêmios inesperados, mas também muita esperança. Nasce o cidadão do ano novo. Guerreiro e solidário.

                    E os artistas? Como representam tudo isso? Freud diz o artista é, basicamente, um introvertido, em virtude da dificuldade que sente de adaptar-se à realidade em decorrência dos seus fortes impulsos: não podendo satisfazer diretamente as suas exigências, se realiza no mundo da fantasia, o que o aproxima dos que têm perturbações mentais. Sua salvação é tornar suas fantasias agradáveis. Como estão se posicionando nossos artistas autores diante do caos recifense? Como se reflete aqui tamanha desordem? De crianças e gente de toda idade comendo lixo? De salários pequenos e impostos enormes? De que é que temos fome zero? Será que temos mesmo algo a ver com o que aconteceu com Adão e Eva no paraíso? Será que somos nós que martelamos os novos crucificados no Oriente Médio? Somos escravos do feijão e do sonho. Da velhice e da infância.

                  “Música... que sei eu de mim? / Que sei eu de ser ou estar? / Música... sei só que sem ficar / Quero saber só de sonhar...” (Fernando Pessoa).

                   “Não há muitos jantares no mundo, já sabias, / E os mais belos frangos / são protegidos em pratos chineses, por vidros espessos / Há sempre o vidro e não se quebra, / Há o aço, o amianto, a lei, / há milícias inteiras protegendo o frango, / e há uma fome que vem do Canadá, um vento, / uma voz glacial, um sopro de inverno, uma folha baila indecisa e pousa em teu ombro: mensagem pálida / que mal decifras. Entre o frango e a fome, / o cristal infrangível. Entre a mão e a fome, / os valos da lei, as léguas” (Drummond).

                   Há o véu do esquecimento sobre os olhos no Recife, como buscar. O apedrejamento, a fúria incendiária, os cadáveres insepultos, as colunas sociais, a mídia que precisa de novas sensações e as prateleiras das lojas que precisam ser renovadas, consumidas. Há crianças colhendo frutos não maduros, imperfeitos. Há tantos livros que a academia e os autodidatas se impõe. Há pouco  Paulo Coelho, Harry Potter ou os velhos anéis de Tolkien tlintavam em jogos vorazes. Há enchentes que derrubam casebres nos morros, que poderiam servir de metáforas para identidades, alteridades nas fases da vida, para infância e adolescência, para um espaço chamado adulto, ou este caminho chamado velhice ou Idos-idade.

                     Perde-se sempre a adolescência, a infância. Restam-nos fotos, saudades das primeiras impressões, de algum sexo, ou mágoa por tê-los inadequadamente. Sobrevive em todos nós apenas a constatação de que precisamos mortalmente da próxima refeição e de cumprir as tarefas que nos aguardam com primor, com resignação. Hamlets que somos com indeciso punhal na mão diante do ser ou não ser, estar ou não estar. Catedráticos do entrelugar: o novo mal-do-século se anuncia! Requer uma nova retórica.

                     “São ventos feridos,/ são ventos antigos,/ saudades de amigos,/ lembranças, rumores;/ são ventos irados/ batendo em meu rosto,/ marchando em rajada / rufando tambores” (Joaquim Cardozo): “Figuras do Vento”). Nossos espíritos precisam de novas metáforas, de mais liberdade, justiça. Algo que nos faça estar mais com os jovens, pobres, médios, ricos. Fazer com que se unam.
                       Nós escritores, professores. Nós que lidamos com teorias, nós que devemos ter a nova escrita e transformar estas mangas colhidas, antes do amadurecimento, em ícones de salvação, de respeito às diferenças que nos cercam. A condição humana nos impõe estarmos sempre atentos e fortes, principalmente quando as coisas não saem como planejamos.

                       

Vamos à luta com otimismo.


Que venham os frutos!




quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Parnasianismo de Olavo Bilac encontra Ruy Castro


        


Por Moisés de Melo Neto


Do Parnaso (monte grego onde “moravam” Apolo e suas musas e aonde os poetas iam em busca de inspiração) da França veio o modelo para um novo tipo de poesia no século XIX- 1866: Laconte de Lisle, Théophile Gautier eram os principais poetas do então chamado “Parnasse Contemporain”(antologias poéticas publicadas naquela época ).


          A busca da palavra exata, o preciosismo(delicadeza excessiva no falar e no escrever- como na França do século XVII), descrevendo a realidade objetivamente,plasticamente. Tudo isso com maestria. Saber manejar o verso,lembrando-se dos gregos e dos latinos,das cenas históricas,da sensualidade feminina.
“Fanfarras” (significa toques de trompas e clarins), livro com poemas de Teófilo Dias, deu fim à sentimental poesia romântica no Brasil, inaugurando entre nós O Parnasianismo.Vieram Alberto de Oliveira, carioca eleito príncipe dos poetas em 1924, Raimundo Correia, do Maranhão, e Vicente Carvalho. Sobreviventes da “Batalha do Parnaso”- polêmica dos adeptos do Romantismo contra os desbravadores Realistas e Parnasianos, o palco da disputa foi o jornal Diário do Rio de Janeiro, o ano 1878.

Os parnasianos basearam-se no Neoclassicismo.

Nos seus poemas de forma fixa(soneto,por exemplo) buscaram a perfeita construção fônica e sintática.
Rimas ricas(classes gramaticais diferentes),raras(inusitadas não usavam como tema os problemas morais,políticos, religiosos ou sociais.Em vez disso, a Beleza! A Arte! A sensualidade “palpável”!
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (RJ-1865/1918) abandonou a Faculdade de Medicina no 5º ano e mudou-se para São Paulo onde cursou um ano de Direito e então voltou para o Rio e dedicou-se aos seus escritos, tendo como “missão” espalhar o “patriotismo” ,ele,que só conhecera o próprio pai aos cinco anos, quando o mesmo voltou da Guerra do Paraguai.

Escreveu poemas sobre obras de arte, foi comedido e técnico,chegou ao tom épico em “O Caçador de Esmeraldas”, epopéea sertanista sobre o bandeirante Fernão Dias Pais, onde a história brasileira serve de pano de fundo para a exibição do seu talento.

Sua poesia lírico–amorosa em certos momentos trai os ritos parnasianos pois “quebrando o gelo” questiona o sentido da vida e o que seria a morte.

Em “Panóplias” (armadura,escudo) ,um dos seus livros, inspira-se em Roma, em “Via Láctea” exibe seu lirismo em 35 sonetos. Já em “Sarças de Fogo” esparrama sua sensualidade através de pleonasmo e inversões. Outros livros seus: “Alma Inquieta”, “As Viagens” e “Tarde”, este póstumo-1919.

A Semana de Arte Moderna de 22 em São Paulo “avacalhou” os parnasianos ao extremo,se bem que Mário de Andrade o valor que eles tiveram naquele culto à forma, naquela “impassibilidade, impessoalidade, racionalismo na busca da perfeição.

Em Alexandrinos e decassílabos(12 e 10 sílabas poéticas por verso) expuseram um dom de assimilação ao “transubstanciar em próprias ,emoções alheias, emprestando-lhes um sentimento mais profundo e uma expressão mais intensa e formosa”, como bem disse o crítico José Veríssimo.

Bilac era uma amante da língua portuguesa, carinhosamente chamou-a de “última flor” do latim, é o que vemos no soneto “Língua Portuguesa”: “Última flor do Lácio,/Inculta e bela,/ És, a um tempo,esplendor e sepultura./Ouro nativo,que na ganga impura/A bruta mina entre os cascalhos vela...”. Ele ignorou a campanha abolicionista e só se tornou republicano depois da Proclamação da República (inclusive satirizou Floriano Peixoto).Mais tarde ignorou também a Primeira Guerra Mundial,preferindo a galhofa em suas crônicas que vão do reacionário até contestadoras.

Pois bem,depois deste preâmbulo sobre Bilac e o Parnasianismo vamos ao prato principal: “Bilac vê Estrelas”(Série “Literatura ou morte”.Companhia das LetrasSp.2000) romance de Ruy Castro inspirado na vida do nosso poeta.

Ruy Castro é jornalista mineiro,nasceu em 1948 escreveu livros como “Chega de Saudade-a História e as histórias da Bossa Nova” /1990, “O Anjo Pornográfico-A Vida de Nelson Rodrigues”/1992 e ”Estrela Solitária- Um Brasileiro Chamado Garrincha”/1995.

O tom de pastelão já se anuncia desde o começo da narrativa. A farofa começa a se apimentar numa paródia à música “Sassaricando”.Uma chuva de adjetivos estende-se pelas páginas seguintes buscando um efeito cômico tão querido dos jornalistas de hoje , com a ironia de sempre: “Saçaricando na porta da Colombo Bilac, era um assombro.Viúvas,brotinhos e madames passavam pela famosa confeitaria da rua Gonçalves Dias lambendo-o com o rabo dos olhos .Não que Bilac fosse irresistivelmente lambível .Podia ser alto,esbelto,elegante e o poeta mais querido do Brasil, mas era vesgo(...)era como se com o olho direito estivesse fritando o peixe e com o direito olhando o gato.Tentando disfarçar o estrabismo Bilac decidiu passar o resto da vida de perfil (...)Ouvir Bilac em pessoa recitando alguns dos seus versos de vinte e quatro quilates mesmo enquanto mastigava um croquete de siri,devia ser até melhor do que ouvir as estrelas propriamente ditas”.

O ano é 1903.

A narrativa na 3ª pessoa personaliza-se com verbos na 1ª, como na página 14: “estávamos no século XX...”. O efeito buscado lembra em muito algumas passagens do programa “Os Trapalhões” do comediante Renato Aragão ou ainda os humoristas do cinema mudo norte-americano.Como no trecho que descreve o primeiro acidente de automóvel no Brasil, que foi protagonizado por Bilac que havia pedido emprestado o carro de José do Patrocínio, ele, “o tigre da abolição” que é o segundo personagem principal do romance cujo tema é a construção do seu dirigível, à qual Bilac dá o maior apoio, sob às vistas de uma narrativa que insinua que Bilac era um pouco gay.

Ruy não mede esforços para impactar o leitor com suas tiradas hilariantes, como por exemplo “ejaculou Bilac” (p-16) ou mesmo pilhérias vulgares:”tão queridos e, agora,tão cadáveres” (p-20) e essa:”Na Colombo(onde Patrocínio era Deus e Bilac o Filho,sobrando uma vaga apertada para o Espírito Santo”.
Machado de Assis aparece como personagem durante exatamente nove linhas (p -38 e 39) para comentar as diabruras do “tigre” e seu dirigível, o balão “Santa Cruz”, louvadas pelo nosso parnasiano Bilac numa crônica na Gazeta de Notícias : Machado “Meditou profundamente antes de fazer tsk,tsk,e só então comentou com a mulher:`Carolina,temo ter sido imprudente ao fazer de Bilac meu sucessor na Gazeta. Quanto a Patrocínio,acho que umas chibatadas em criança não lhe teriam feito mal´ ”.
O trecho acima além de tudo traduz um preconceito de cor como se Ruy quisesse criticar tal atitude em Machado.

Na página 31 surgem recursos que lembram muito a carpintaria teatral,por exemplo colocar o que está acontecendo, as “marcas” teatrais, entre parênteses no caso “Ah,ah,ah!(gargalhadas sarcásticas)”.
Às vezes surgem pérolas em forma de verbo.Lá estão nas páginas 32 2 77: “Lá do alto (do balão) Patrocínio jogaria beijos para o povo e este o vivaria atirando chapéus e bengalas para o ar” e “Esse detalhe estomagou Bilac de tal forma que a farofa de miúdos do marreco engasgou-se-lhe na glote e ele só a desencalhou à custa de goles de vinho e tapas nas costas dados por um garçom”. É uma atitude que tem a ver com o Parnasianismo esta de buscar palavras pouco usuais.

Há que se reconhecer o talento de Ruy mesmo quando ele parece exibir um conhecimento de almanaque: em “1709, o padre santista Bartolomeu de Gusmão, o `padre voador´,tentara conquistar os ares europeus com sua baldada Ventarola:Foi comovente lembrar a tragédia de outro aeronauta patrício, Augusto Severo,que,tão recentemente,em 1902,morrera em Paris na explosão do seu dirigível Pax. E ao citar Santos-Dumont como o brasileiro que redimiria o homem do `defeito de não ser pássaro ´ ”(p-42) “Uma nova invenção de Santos-Dumont” o relógio de pulso que ele desenhou e pediu ao joalheiro Louis Cartier que o “fabricasse”,modas que tomou toda a Paris de assalto. Dumont também inventou o hangar, a porta corrediça e a palavra “aeroporto” (p-54 e 55).

Em Paris Bilac encontra a princesa Isabel, o Conde d´Eu ,Santos-Dumont,Gertrude Stein e o cineasta Méliès , dentre outras pessoas famosas e/ou históricas.E... vai a uma cartomante!(uma vidente).Louva Eça de Queiroz (p-65) e mostra-se ateu:”não acreditava em Deus,nem em preces ou religiões mas se prostraria diante daquele Eça de mármore em busca de uma iluminação(...) Faria com a estátua o que o pudor o impedira de fazer com o homem doze anos antes, em Paris :encostaria nela todo o seu corpo e beijaria aquelas mão que haviam escrito `Os Maias´ .Nem que tivesse de escalar o pedestal usando as unhas, ou fosse apontado como louco pelos transeuntes, ou despencasse lá de cima ”.(p-66)
Os poemas de Bilac são salpicados aqui e acolá pela narrativa,sempre fragmentados, como nas páginas 55 e 56: “Viver não pude sem que o fel provasse/Desse outro amor que nos perverte e engana”.
Há índices de Naturalismo no capítulo 6 quando conhecemos a “vilã” da história, a marafona Eduarda,uma espiã portuguesa disposta a tudo para conseguir seus intentos,até seduzir um padre sedento de sexo : “matilhas de homens estavam sempre cercando-a,sôfregos e salivantes como cachorros”(p-71).Ela tenta em vão roubar os planos de Patrocínio, Bilac a detém resistindo-lhe aos encantos , mesmo quando ela entra no quarto dele ,fica nua e agarra-lhe o sexo enquanto ele dormia de camisola sem nada por debaixo, numa cena digna dos irmãos Marx.

Politicamente incorreto ao referir-se às minorias, deficientes : “Mãozinha-tinha esse apelido não por ser um dos bolinas que importunavam as mulheres nos bondes ,mas por um defeito congênito que fazia sua mão direita lembrar um mocotó”.(p-78)

A situação financeira de Bilac é passada a limpo na página 78”O que lhe permitia às vezes dar bordejos pela Europa eram os seus livros de história do Brasil para crianças”.

É óbvio o excelente levantamento jornalístico da época praticado por Ruy, um craque em sua profissão.Porém a sua “colcha de retalhos” tem seus excessos ,ao falar do passado da personagem Eduarda, então passando necessidades, diz que ela se hospedou no “humílimo hotel d´Alsace, na rue dês Beaux-Arts, em Saint-Germain (fora no Alsace que,havia três anos ,depois de longa agonia, morrera Oscar Wilde). (p-81)

As hipérboles e metáforas pipocam a cada página: “As cordas com que estava prendendo os equipamentos dariam para Carlos Gomes ter composto dez versões diferentes de O Guarany”.(p-79)
O promíscuo padre Maximiliano, “um divo italiano de ópera” (p-101) no “muque” dele ninguém se espantaria se,um dia encontrassem uma tatuagem de Santa Terezinha .Ele “punha à prova sua castidade todos os dias,perdendo sempre”. Fazer sexo com as fiéis para ele era prestar “assistência paroquial” e seu pênis era como um “mísero apêndice abaixo do umbigo”. Ele foi o primeiro padre que Eduarda viu “ gozar com citação de Horácio e Virgílio no original”. (p-104)

Há frases encantadoras como “uma inflexão tíbia que não parecia sair da sua boca ,mas de um ventríloquo invisível(p-88). “Eduarda deixou o vestido escorregar(...)revelando um perfeito par de seios- duas pêras morenas com uma pequena pitanga vermelha em cada uma”(p-95).
O chefe de polícia tem o sugestivo nome de Severo Pinto e passa o livro limpando seu pince-nez de lentes escuras , que tanto agrada Bilac que sonhava em com aqueles óculos escuros esconder seu estrabismo .

O narrador em terceira pessoa “conversa” com o leitor e diz não escutar o que foi que determinado personagem disse(p-103).

As estrelas do título surgem quando Eduarda dá uma bengalada na cabeça de Bilac ao tentar no hangar onde Patrocínio construíra seu dirigível,ela foi lá com o padre disposta, mais uma vez, a tudo,inclusive matar..Num delírio Bilac,num balão soltado por Victor Hugo(o clássico francês,em pessoa) vai parar no Monte Parnaso onde encontra Apolo (!) e as musas, acima das estrelas.
No final do livro uma festança para recepcionar Santos-Dumont na sua volta ao Brasil, enquanto Bilac e sua turma prendem Eduarda,o padre e a gangue de capoeiras que eles haviam contratado. Um quiprocó!

Geninha da Rosa Borges (Teatro de Amadores de Pernambuco- TAP, Recife)


Canção para Geninha
(poema de moisesdemeloneto)

 

Quando te fazes ausência

E nos entregas tantas personagens

Estás apenas dando-nos mais vida

Vida tão farta no teu coração de atriz

Quando tua voz acaricia nossos ouvidos

Tuas mãos tateiam buscando no ar a essência da vida

Estás a nos ninar também, Geninha querida

Como esquecer-te?

Como não lembrar de ti?

Se te queremos tanto

Se és flor tão magnífica

Neste teatral jardim?

Vamos agora cantar o teu nome

Vamos mais ainda pensar na tua beleza eterna

E também neste passar do tempo

Na máquina do mundo

És agora uma estrela ainda mais cintilante

E todas as horas que nos deste

São como pedras preciosas e incandescentes

Que o céu do teatro iluminam

Do palco até a plateia

Hoje te homenageia

Este teu admirador

Mas são só teus

Querida Geninha

Os aplausos deste cantor

Que teu nome ecoe através de muitos anos!

 

Moisés de Melo Neto analisa Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz : " Memorial de


Rachel é polêmica a partir da grafia do seu nome. Muitos autores preferem "Raquel de Queirós", erroneamente.

Em 1992, a imortal lançou seu declarado último romance, o calhamaço "Memorial de Maria Moura" (482 páginas 11ª edição. Editora Siciliano, São Paulo,1998). Uma narrativa ágil. Uma trama cheia de aventuras folhetinescas. Rachel sempre flertou com o romance popular.


 
 
Inicialmente, o romance tem três núcleos de ação: O de Maria Moura, dos primos inimigos dela e o do Padre José Maria (Beato Romão). Posteriormente surge o sub- núcleo Marialva e Valentim (com seus parentes mãe, pai e tio , no "circo"). Os últimos capítulos são narrados por Moura e pelo Beato que se joga numa aventura suicida com ela.
Maria Moura mostra-se arisca desde os primeiros momentos em que aparece. Manda assassinar o padrasto que a assediava desde os tempos que a mãe dela era viva ( a mãe se enforcou no armador de rede: "Sonho com aquela cara de enforcada, a face roxa, os olhos estatelados , a ponta da língua saindo da boca" diz a sinhazinha, assim chamam Maria, cuja história se passa na época da escravidão no Brasil). A seguir, Maria trama a morte do assassino que ela mesma tinha seduzido para matar o padrasto. Enfrenta a ganância dos primos Irineu, Tonho e sua mulher Firma, já que a prima Marialva está mais interessada em fugir com um artista de circo de olhos verdes iguais aos dela. Maria incendeia sua casa no sítio Limoeiro, que fica próximo da Vila Vargem da Cruz. Foge com um bando de homens , que lembram em tudo cangaceiros. Rachel diz que se inspirou em Elisabeth I , Rainha da Inglaterra (1533-1603) para compor Maria.
Após a fuga do Limoeiro, Maria e seu bando vagam pelas brenhas do sertão ao relento, sem tomar banho e comendo o que aparecesse e aparecia muito pouco. Tudo com muito respeito e dignidade: Maria é a "chefe" do bando e a maior parte dos jagunços são jovens, sem ambição e querendo "aventura", como ela mesma sugere enquanto ia se enchendo do ouro que roubava, numa espécie de farra inconseqüente, até a metade do livro. Tudo para ela vai dando certo. Arranchados com escravos fugidos , Maria se estabelece por algum tempo junto à Lagoa do Socorro. Ela e seu bando roubam e levam para lá .
Junta-se ao bando o ex- padre José Maria, que recebe o nome de Beato Romão para fugir da culpa de um crime que cometeu em sua última paróquia : matou o marido de sua amante, Isabel. Rejeitada pelo marido e desejando um filho, ofereceu-se ao sacerdote, que resistiu um pouco mas terminou engravidando-a . O marido volta, esfaqueia-a e mata o bebê de seis meses no ventre da mãe. O padre, ao ver Isabel estraçalhada e o marido atacando-o com a mesma faca , quebra-lhe um banco na cabeça , matando-o.
Como vemos na primeira parte da trama do livro, a autora não dá sinal de cansaço. Tudo é estimulante e vigoroso . Ao ódio que cerca Maria, seus primos e o padre sobrepõe- se o romance de Marialva( a prima de Maria) e Valentim (o artista de circo com quem ela fugiu e casou).
Voltemos até o primeiro livro de Rachel, "O Quinze", escrito por uma jovem mal saída da adolescência e que foi publicado em 1930, sobre a seca de 1915, da qual Rachel também foi "retirante" (foi primeiro para o Rio de Janeiro e depois para Belém, só regressando ao Ceará em 1919), tinha então nove anos. Rachel nasceu em Fortaleza e lá ,em 1925 , concluiu o Curso Normal. Atua como jornalista de esquerda, porém em 64 Rachel apoiou o golpe militar desfechado pela direita elitista contra a esquerda radical.
Em "O Quinze", alguns personagens (Chico Bento, Dona Inácia e outros, como o afilhado de Conceição, heroína da trama, moça um tanto quanto romântica que tem um namoro frustrado com seu primo Vicente), têm como cenário o flagelo da seca, a miséria absoluta de um povo sofrido e conformado. Empolgada com a literatura popular , Rachel é vigorosa narradora, recheando seus romances com o modo de viver nordestino. A vida é a coisa mais valiosa e o ouro, teoricamente, é objeto de perdição. Injustiça é resolvida na faca ou por Nosso Senhor, assim é em Maria Moura. "A linguagem direta, límpida, fluente e desafetada que, realizando o ideal dos homens de 22 , apontava um manejo seguro e adulto do idioma" , escreveu Massaud Moisés. O instrumental lingüístico que Rachel utiliza em suas narrativas culmina com o "Memorial..." . De volta ao sertão, a velha dama realiza uma obra onde resplandece todo o seu talento .
Em "Memorial de Maria Moura"(92), a autora utiliza- se do discurso polifônico (várias vozes). São vários narradores, porém o que se pressente é que por trás deles esconde-se o pulso vigoroso da cearense e que os diversos narradores, dentre os quais Maria( cada capítulo carrega o nome de um deles) são como títeres da força reivindicativa de Rachel. Dentre os narradores estão: o Padre José Maria, Irineu e Tonho (primos da Moura, o primeiro solteiro; o segundo, casado com uma megera chamada Firma) e Marialva (prima de Maria que fugiu e casou com um artista de circo, Valentim ) . A participação dos diversos narradores propõe uma certa ruptura com a linearidade.
Outros personagens vão ganhando destaque na trama: Duarte, meio irmão dos primos de Maria e filho da ex- escrava Rubina, ajudou Marialva a fugir ; os capangas de Maria: João Rufo, antigo e fiel empregado do Limoeiro e "padrinho" da heroína , Zé Vicente, Juco e outros.
No início, Maria confessou ao Padre José Maria que ia mandar assassinar seu padrasto por ter abusado dela. Após os crimes, Maria arrancha- se com Amaro e Libânia, na Lagoa do Socorro. A miséria era absoluta. Maria assaltou umas pessoas e as coisas foram melhorando. Comida e equipamentos vão fortalecendo Maria e seu bando. Com o estilo folhetinesco nos são apresentados os colonizadores do sertão nordestino. Os que resistem agem de maneira brusca , lembrando muitas vezes um comportamento instintivo, atávico, onde o meio dita as regras. A Moura é o eixo , o ponto de convergência, símbolo do poder e da ambição. No final do livro, apenas ela e o Beato Romano narram. A narrativa em primeira pessoa vai impregnando o romance de subjetividade . Maria desafia o poder masculino .
O Neo- Realismo aplicado nas narrativas de "O Quinze" e "João Miguel" (ambientados no Ceará) exibe parágrafos curtos na transcrição de atos e acontecimentos, o que também é corrente em "Maria Moura", assim como o Regionalismo que está presente nas suas peças de teatro "Lampião" e em "A Beata Maria do Egito". No romance "Caminho de Pedras" (1936), Rachel polemiza o Integralismo em oposição ao Comunismo: a narrativa em terceira pessoa vai desnudando a vida de um casal de esquerda. Outro destaque da carreira literária de Rachel são suas crônicas.
Passada a ditadura Vargas, Rachel assume espírito conservador "identificando-se com a defesa passional das raízes do status quo ; roteiro que a aproxima de Gilberto Freyre, cuja presença na cultura nordestina ultrapassou de longe, a área do ensaísmo sociológico e incindiu diretamente na valorização das tradições, dos estilos de viver e pensar herdados à sociedade patriarcal. De onde a nostalgia dos bom tempo antigo que até recebeu o batismo de ciência: É a Lusotropicologia" , ensina- nos Alfredo Bosi. Além dos romances citados Rachel escreveu: "As Três Marias"(1939) , "Dôra Doralina" (1975) e "Galo de Ouro" (1986). Além do Regionalismo, outro clichê sobre Rachel é a "narrativa de cunho psicológico e/ou social".
Voltemos Ao "Memorial" : "Não sei bem se sou capaz de ver sangue derramado. Nunca experimentei ver de perto o sangue dos outros; e pior será se for tirado pela minha mão". O que era mais importante para Maria, naquele ponto em que ela falou do sangue, era o ouro. Maria se acha superior aos índios e escravos, como vemos por exemplo na página 178: "...aquela negrinha ...bem que eu gostaria de ter uma bichinha daquelas para mim...e até que poderia ter pegado ela junto com as jóias". O livro tem passagens curiosas, como por exemplo, quando o padre José Maria fala sobre as lembranças: "O homem feliz é o que não tem passado. O pior dos castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. O passado te persegue como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro que resista aos assaltos da lembranças".
Já Maria busca construir seu mito de mulher forte, decidida, fria e calculista, que no final vai desafiar o perigo por não dar valor à vida (tudo que conquista , deixará para Alexandre, filho de Marialva e Valentim): "Minha idéia era meter na cabeça dos cabras e do povo em geral que ninguém pode avaliar do que Maria Moura é capaz".
Logo, Duarte , primo bastardo de Maria, junta-se ao bando com sua mãe, a ex- escrava Rubina (eles moravam com Irineu, Tonho e Firma ). Maria começa a fabricar pólvora com a ajuda de Duarte, que também se torna seu amante. Chega então Cirino, cujo pai paga para que ele se esconda nas terras de Maria, a fim de fugir da perseguição por causa de um crime. Cirino é louro e conquistador. "Rouba" Maria de Duarte e depois a trai por ambição, ao que Maria vai responder mandando Valentim esfaqueá-lo no coração.
Maria, quando jovem, leu "A Vida do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares da França", (um dos livros que Ariano Suassuna usa na composição do Romance d'A Pedra do Reino. Aliás, ao buscar inspiração em Elisabeth I , Rachel aproxima- se mais ainda do mestre paraibano e de sua visão mítica da história antiga européia). Maria Moura refere-se a sua Casa Forte como se fosse um castelo.
Ao saber que o Beato Romano (Padre José Maria) está evangelizando seus capangas, Maria fica preocupada :" O senhor quando me procurou , não sabia qual era o nosso meio de vida? Não vá longe demais. Se minha cabocrina se converter? Virar tudo penitente e sair tocando matraca- o que é que eu faço?" Maria acha que o "Não matarás " dos mandamentos sagrados é uma coisa relativa.(p-369).
Sozinha no seu quarto, Maria chora quando está longe de Cirino: "Te aquieta Maria Moura. Você não é mulher de chorar, nem mesmo escondida(...) cadê o cabecel desses homens todos, que comanda de garrucha na mão e punhal no cinto?" . Pensa, porém, em entregar tudo que tem para o amado. Observar que não mata ninguém, ela manda matar, durante todo o romance.
Ao descobrir que Cirino traiu a casa forte, Maria chora com tanta fúria que chega a rasgar o lençol com os dentes (p-404). Cirino traiu Maria porque "era ruim", por dinheiro de Judas. Rachel intensifica o código de honra proposto pelo Romantismo: "O meu mal era aquela grande fraqueza por ele que eu sentia. Eu gostava de comigo chamar aquilo de amor. Mas não era amor , era pior .Não era cio (...)E eu me imaginando tão forte, tão braba . Era afronta - Era para acabar comigo(...) aquele coisinha ruim(...) solapar os alicerces do meu castelo! (...) por amor dos trinta dinheiro de Judas! E eu adorar um desgraçado desses, abri para ele o meu quarto , a minha cama, o meu corpo. Foi humilhação demais. Se ainda soubesse rezar, rezava, tão desesperada me sentia. (...) Como é que vou acabar com o Cirino, sem acabar comigo?(...) Como posso arrancar o coração para fora? Ninguém pode fazer isso e continuar vivo. E se me matasse com ele?(...) Não. Eu quero morrer na minha grandeza " , lamenta-se Maria que, resgatando Cirino da cadeia, diz : "Quem segura os presos ricos na cadeia (Cirino era rico) é o medo de serem mortos pelos inimigos, mal ponham um pé fora".
Maria estava tão acostumada com a vida rude que aprendeu a comer e dormir enquanto cavalgava.
Levando Cirino para o cubico ( cômodo escondido na Casa Forte, cofre e esconderijo) , depois de dias fazem amor: " Foi um amor desesperado , furioso, que doía, machucava; amor de dois inimigos, se mordendo e se ferindo, como se quisessem que aquilo acabasse em morte (...) Quanto tempo durou?- nos separamos exaustos (...) entendia que no meio daquele desadoro , que eu tinha mesmo que matar Cirino . Entre nós dois não podia mais haver solução. Se ele escapasse vinha atrás de mim para me pegar . Não ia nunca me perdoar tinha que se vingar desta hora de humilhação. Era impossível ele esquecer. Agora era ele ou eu" ( Maria obrigava-o a ficar trancado num cubículo e ameaçava-o com uma arma). "Fiquei atirada na cama , sem poder chorar, cega , surda, vazia por dentro(...) não era dor propriamente que eu sentia , era mais um estupor que me deixava dormente , numa espécie de meia morte(...) eu pensava às vezes que estava a bem dizer igual à situação de Marialva , quando servia de alvo ao marido" (Valentim era atirador de facas , treinava, no circo) "Só que o atirador de faca acertava sempre em mim, mas sem me ferir mortalmente, só me pegando pela pele me pregando na tábua, por toda a volta do meu corpo. Escorchada e sangrando , eu ficava morrendo de dor, sem contudo morrer nunca ", lamenta-se após mandar executar seu amado.
Ouro, pedras preciosas, propriedades, sim, mas dinheiro de papel Maria não gosta. Quando aparece Francelino para negociar gado - o sul do país em guerra precisava da charque nordestina para alimentar soldados, Maria pretendia assaltar os negociantes - e lhe mostra uma cédula impressa em letras pretas Maria recorda:"Era muito feio. Fiquei desapontada. Pensava que dinheiro em papel era de cor, com a cara do rei, assim como a figura de santo(...) eu virei na mão a tal cédula. É. Não tinha graça nenhuma . Ainda vai levar muito tempo para aquilo ser considerado . O mais certo é que não vá pegar nunca . Quem troca ouro ou prata ou até mesmo cobre por um pedaço de papel? Você quer é sentir a moeda pesando na tua mão" .
Para o último assalto, que Rachel deixa em suspenso e o leitor não saberá o que aconteceu com Maria, seu bando e o Beato Romano, na sua mais arriscada investida, quase como um suicídio coletivo- Maria não distribui riqueza com seus cabras("O povo é engraçado, cada pessoa acredita no que quer e passa adiante o que entende") , guardou tudo para si, deixando para Alexandre, filho de Marialva , sua prima carnal, tudo em testamento. "Já tinha arma ali que dava para fazer uma guerra (...) nos nossos entreveros , em caso de muita pressa, eu preferia antes deixar o dinheiro que as armas(...) arma de fogo não se compra em mão de mascate nem em barraca de feira", diz a Moura.
Duarte vacila, falando da superioridade do inimigo , ao que Maria retruca: "Se eles correm a gente atira nas pernas dos cavalos, os homens rolam no chão. E quando baterem em terra, já atordoados, já se está em cima deles. Eu calculei tudo na minha cabeça. Fecho os olhos e vejo tudo como é que vai se passar". E quando o ex- amante pergunta sobre o risco de vida, ela responde: "E eu estou me importando em salvar esta desgraça de vida, Duarte?(...) Desça Deus do céu e me peça , que eu falto e faço que disse" . Já os cabras, pressentindo algo de estranho naquela última batalha, pedem que o Beato Romano vá junto na campanha :" Morrer não é nada, mas sempre se morria mais satisfeito tendo ele junto para abençoar. Pra dizer ' Jesus seja contigo' ", diz Zé Soldado, um dos principais jagunços de Maria. O padre e Maria concordam.
Na partida da tropa, Duarte diz. "Ainda está na hora de mudar de idéia, Sinhá . Vai ser uma luta muito dura, com esses homens traquejados para matar. Não é briga para mulher. E se lhe matam? " . Maria responde olho no olho: "Se tiver de morrer lá, eu morro e pronto. Mas ficando aqui eu morro muito mais".
E, nas duas últimas linhas da narrativa (do romance), Maria arremata :"Saí na frente, num trote largo. Só mais adiante segurei as rédeas , diminuí o passo do cavalo, para os homens poderem me acompanhar".
E Rachel de Queiroz localiza o tempo em que concluiu, com maestria, seu último romance, este "Memorial de Maria Moura" : Rio 22 de fevereiro de 1992- onze da manhã. onze da manhã.