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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Brecht e os tubarões...

Se os tubarões fossem homens...


Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos?
Certamente, se os tubarões fossem homens, fariam construir resistentes gaiolas no mar para os peixes pequenos, com todo o tipo de alimento, tanto animal como vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adotariam todas as providências sanitárias. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nas aulas, os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a geografia para localizar os grandes tubarões deitados preguiçosamente por aí. A aula principal seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. A eles seria ensinado que o ato mais grandioso e mais sublime é o sacrifício alegre de um peixinho e que todos deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando estes dissessem que cuidavam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.
Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos seria condecorado com uma pequena Ordem das Algas e receberia o título de herói.

BRECHT, B. Histórias do Sr. Keuner

Relembrando: FUNÇÕES DA LINGUAGEM



Toda linguagem tem um objetivo. A linguagem verbal, por sua vez, tem alguns objetivos muito claros e por isso devem ser estudados para que possamos melhor entendê-la e utilizá-la.
Vejamos primeiramente como funciona o sistema de comunicação, utilizando a linguagem verbal.
- Aquele que emite a mensagem, codificando-a em palavras chama-se EMISSOR.
- Quem recebe a mensagem de a decodifica, ou seja, apreende a idéia, é chamado de RECEPTOR.
- Aquilo que é comunicado, o conteúdo da comunicação é chamado de MENSAGEM.
- CÓDIGO é o sistema linguístico escolhido para a transmissão e recepção da mensagem.
- REFERENTE, por sua vez, é o contexto em que se encontram o emissor e o receptor.
- O meio pelo qual esta mensagem é transmitida é nomeado CANAL.

São seis as funções básicas da linguagem verbal:

FUNÇÃO EMOTIVA / EXPRESSIVA
É centralizada no emissor. Como o próprio nome já diz, tem o papel de exprimir emoções, impressões pessoais a respeito de determinado assunto. Por esse motivo ela normalmente vem escrita em primeira pessoa e de forma bem subjetiva. Em textos que utilizam a função emotiva há uma presença marcante de figuras de linguagem, mensagens subentendidas, elementos nas entrelinhas, etc.
Os textos que mais comumente se utilizam desse tipo de linguagem são as cartas, as poesias líricas, as memórias, as biografias, entre outros.

FUNÇÃO REFERENCIAL / DENOTATIVA
Contrariamente à emotiva, esse tipo de linguagem é centralizada no receptor. Como seu foco seja transmitir a mensagem da melhor maneira possível, a linguagem utilizada é objetiva, recorrendo a conceitos gerais, vocabulário simples e claro, ou, dependendo do público alvo, vocabulário que melhor se adeque a ele. É chamada de denotativa devido à objetividade das informações, à clareza das idéias. Há uma prevalência do uso da terceira pessoa, o que torna o texto ainda mais impessoal.
Os textos que normalmente fazem uso dessa função são os textos jornalísticos e os científicos.

FUNÇÃO APELATIVA / CONATIVA
Como sugere a nomenclatura, essa função serve para fazer apelos, pedidos, para comover ou convencer alguém a respeito do que se diz. Centralizada no receptor, procura influenciá-lo em seus pensamentos ou ações. É bastante frequente o uso da segunda pessoa, dos vocativos e dos imperativos.
Essa função é aplicada particularmente nas propagandas ou outros textos publicitários, e também em campanhas sociais, com o objetivo de comover o leitor.

FUNÇÃO FÁTICA
Centraliza-se no canal. Tem o objetivo de estabelecer um contato ou comunicação, não necessariamente com uma carga semântica aparente.
É utilizada em saudações, cumprimentos do dia a dia, expressões idiomáticas, marcas orais, etc.

FUNÇÃO POÉTICA
Caracteriza-se basicamente pelo uso de linguagem figurada, metáforas e demais figuras de linguagem, rima, métrica, etc. É semelhante à linguagem emotiva, sendo que não necessariamente revela sentimentos ou impressões a respeito do mundo.
Como pode-se constatar essa função é aplicada em poesias, músicas e algumas obras literárias.

FUNÇÃO METALINGÜÍSTICA
Esta última função está presente principalmente em dicionários. Caracteriza-se por trazer consigo uma explicação da própria língua. Pode ocorrer também em poesias, obras literárias, etc.


FOLHA DE PERNAMBUCO noticia lançamento de livro de Moisés Monteiro de Melo Neto (Moisés Neto) sobre JMB

http://www.folhape.com.br/edicaodigital/2015/setembro/27/files-2015-09-27/assets/basic-html/page24.html


Jornal do Commercio noticia lançamento de livro de Moisés Monteiro de Melo Neto sobre Jomard Muniz de Britto, pelo SESC

Jornal do Commercio  (Recife, 26/ 09/15)
Pesquisador lança livro sobre poesia de Jomard Muniz de Britto

Moisés Monteiro de Melo Neto fez doutorado sobre a obra do pernambucano e transformou pesquisa em livro

Publicado em 26/09/2015, às 05h47



O autor Moisés Neto ao lado do poeta Jomard / Divulgação


O autor Moisés Monteiro de Melo Neto ao lado do poeta Jomard Muniz de Britto

      Ao sair de uma aula de Ciências Sociais no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE no início da década de 1980, o então estudante Moisés Monteiro de Melo Neto (Moisés Neto)  encontrou no Centro de Artes e Comunicação um professor lançando um livro chamado terceira aquarela do brasil. Desde aquele momento, Moisés se surpreendeu com a atitude do autor – uma pessoa antes de tudo crítica, mas que não abria mão do lúdico e do afetivo nos diálogos, nos textos e na arte. Era o seu primeiro contato com o escritor, cineasta, pensador, crítico cultural, performer poético, enfim, com o infinito Jomard Muniz de Britto.
Muito tempo depois, o fascínio que os textos e a figura de Jomard exerceram sobre o estudante Moisés viraram o ponto de partida para uma pesquisa de doutorado sobre a obra em versos do autor. O trabalho, orientado pela poeta e professora Lucila Nogueira, é publicado agora em livro, no volume intitulado Os Abismos da Poeticidade em Jomard Muniz de Britto: Do Escrevivendo aos Atentados Poéticos (Sesc). DOmingo (27), a partir das 17h30, Moisés apresenta a obra ao público no Projeto Aldeia Yapoatan, na Jeimes Recepções, em Candeias.
A obra faz uma justiça com a fundamental e ainda pouco estudada obra poética de Jomard, analisando-a com profundidade e tentando dar conta da multiplicidade de facetas e referências que a compõem. Moisés divide a produção do autor, distribuída em sete livros e incontáveis atentados poéticos, versos que Jomard imprime e distribui pela rua e pelos e-mail: os anos 1970-80, a década de 1990 e o século 21.
“Jomard tem esse método da pedagogia, da discussão política, da poesia. A arte, para ele, é de uma só vez combativa e divertida. Ele é uma figura icônica anti-icônica”, descreve o pesquisador. Nas palavras de Anco Márcio Tenório, citado pelo próprio autor, ele é uma “espécie de pêndulo”, um “oxigênio necessário” para a cidade, que se desequilibra e reequilibra a partir de outras leituras e possibilidades. “Ele também sabe ser uma pessoa rígida, que questiona. Mas até na discussão ele gera afetos, amolece o terreno e é flexível”, ressalta Moisés.
“A arte dele é feita para mudar a cabeça das pessoas, mas sem destruir o que ela já tem ali dentro. É algo que ele traz da pedagogia de Paulo Freire, de dialogar através dos afetos que as pessoas já têm. Assim, ele consegue catalisar muita coisa”, explica o autor. Segundo Moisés, foi preciso deixar esse fascínio pela figura e pela obra de Jomard de lado para poder analisá-lo ao longo de quase 400 páginas. Ali, ele mostra a continuidade e descontinuidade das obras do diretor e poeta, além de estabelecer pontos de contato de discordância dele com vários filósofos e pensadores, especialmente Roland Barthes.
Além disso, ao longo das mais de quatro décadas acompanhadas no trabalho, Moisés vê a presença da Tropicália, do desbunde e do pensando de Paulo Freire na poesia de Jomard, sempre com um caráter experimental, inquieto. “Os atentados são um trabalho em progresso, uma forma de falar com as massas e fugir do meio acadêmico. Como o nome deles indica, tentam solapar o que é rígido na nossa cultura”, afirma.

http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2015/09/26/pesquisador-lanca-livro-sobre-poesia-de-jomard-muniz-de-britto-200890.php

domingo, 18 de outubro de 2015

MANIFESTO NEOCONCRETO: mais de meio século, ainda polêmico?



expressão neoconcreto indica uma tomada de posição em face da arte não-figurativa "geométrica" (neoplasticismo, construtivismo, suprematismo, escola de Ulm) e particularmente em face da arte concreta levada a uma perigosa exacerbação racionalista. Trabalhando no campo da pintura, escultura, gravura e literatura, os artistas que participam dessa I Exposição Neoconcreta encontraram-se, por força de suas experiências, na contingência de rever as posições teóricas adotadas até aqui em face da arte concreta, uma vez que nenhuma delas "compreende" satisfatoriamente as possibilidades expressivas abertas por estas experiências.

Moisés Monteiro de Melo Neto, entrevistando Ferreira Gullar


(...)

O neoconcreto, nascido de uma necessidade de exprimir a complexa realidade do homem moderno dentro da linguagem estrutural da nova plástica, nega a validez das atitudes cientificistas e positivistas em arte e repõe o problema da expressão, incorporando as novas dimensões "verbais" criadas pela arte não-figurativa construtiva. O racionalismo rouba à arte toda a autonomia e substitui as qualidades intransferíveis da obra de arte por noções da objetividade científica: assim os conceitos de forma, espaço, tempo, estrutura - que na linguagem das artes estão ligados a uma significação existencial, emotiva, afetiva - são confundidos com a aplicação teórica que deles faz a ciência. Na verdade, em nome de preconceitos que hoje a filosofia denuncia (M. Merleau-Ponty, E. Cassirer, S. Langer) - e que ruem em todos os campos a começar pela biologia moderna, que supero o mecanicismo pavloviano - os concretos-racionalistas ainda vêem o homem como uma máquina entre máquinas e procuram limitar a arte à expressão dessa realidade teórica.

Não concebemos a obra de arte nem como "máquina" nem como "objeto", mas como um quasi-corpus, isto é, um ser cuja realidade não se esgota nas relações exteriores de seus elementos; um ser que, decomponível em parte pela análise, só se dá plenamente à abordagem direta, fenomenológica. Acreditamos que a obra de arte supera o mecanicismo material sobre o qual repousa, não por alguma virtude extraterrena: supera-o por transcender essas relações mecânicas (que a Gestalt objetiva) e por criar para si uma significação tácita (M. Ponty) que emerge nela pela primeira vez. Se tivéssemos que buscar um símile para a obra de arte não o poderíamos encontrar, portanto, nem na máquina nem no objeto tomados objetivamente, mas, como S. Langer e W.Wleidlé nos organismos vivos. Essa comparação, entretanto, ainda não bastaria pra expressar a realidade específica do organismo estético. 
(...)
Por sua vez, a prosa neoconcreta, abrindo um novo campo para as experiências expressivas, recupera a linguagem como fluxo, superando suas contingências, sintáticas e dando um sentido novo, mais amplo, a certas soluções tidas até aqui equivocadamente como poesia. É assim que, na pintura como na poesia, na prosa como na escultura e na gravura, a arte neoconcreta reafirma a independência da criação artística em face do conhecimento prático (moral, política, indústria, etc.)



Os participantes desta I Exposição Neoconcreta não constituem um "grupo". Não os ligam princípios dogmáticos. A afinidade evidente as pesquisas que realizam em vários campos os aproximou e os reuniu aqui. O compromisso que os prende, prende-os primeiramente cada um à sua experiência, e eles estarão juntos enquanto dure a afinidade profunda que os aproximou.


(Ferreira Gullar, Lygia Clark, Lygia Pape, Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Reynaldo Jardim, Sergio Camargo e Theon Spanudis)

Assistir ao RODA VIVA:

https://www.youtube.com/watch?v=JOZIS-_Pwxo

sábado, 17 de outubro de 2015

Alquimia na prosa de valter hugo mãe: O remorso de baltazar serapião


por Moisés Monteiro de Melo Neto




Ele sofreu preconceito por ter nascido na África. O chamavam de preto, que tomava o lugar dos verdadeiramente portugueses. O sobrenome “mãe” é fictício, pseudônimo. O que sugere tanta coisa.
Primeiro livro deste autor português de origem angolana Valter Hugo Mãe a ser lançado no Brasil, foi “o remorso de baltazar serapião” (editora 34); é um romance de um regionalismo menos mágico do que experimental, com linguagem de ranço arcaico e sintaxe estonteante; a abolição das maiúsculas faz parte da arquitetura do estilo deste livro, cujos tema e recursos , memoráveis nos deixam satisfeitos. A brochura faz parte de uma tetralogia escrita com minúsculas (ele as acha fundamentais, e vê inutilidade das maiúsculas)
Raduan Nassar ao catalisar  linguagem e história, num tempo que tanto cheira à Idade Média, já foi lembrado como precursor de um abordagem equivalente.
É a história, cheia de estranhamento, da família (chamada) sarga (alguns membros teriam nascido de uma vaca) que lembra a comédia, no sentido dantesco, numa dicção que Saramago chamou de novo “parto da língua portuguesa”, entre o erudito e o popular.
baltazar serapião narra a história do seu amor selvagem por ermesinda, pelo irmão artista  o aldegundes, que como pintor teve favores do senhor feudal; tudo permeado de misoginia feroz (Baltasar,marido, submete, como seu pai o fez, as mulheres à violência extrema e metafórica (o parto seguido de assassinato do bebê, da mãe adúltera, o irmão recém-nascido e morto de baltasar). Destaque para a oralidade. O autor lê todos os seu textos em voz alta, antes de concluí-los.
 O remorso de baltazar serapião, de 2006, foi o segundo livro da referida tetralogia, que inclui  o nosso reino, 2004;o apocalipse dos trabalhadores, de 2008; a máquina de fazer espanhóis, de 2010 

valter hugo mãe conseguiu, com o remorso, criar, num vilarejo geograficamente metafórico, regido por um dono das terras, dom Afonso, (leia-se: corpos, almas/ etc.) e dos moradores (pobres como ermesinda,  jovem bela e pura do vilarejo).
A mãe do narrador, baltasar, sofre, do mesmo modo que o filho quebra a braço, entorta o pé e arranca um olho da esposa, agressões constantes do pai por motivos os mais esdrúxulos; a ordem do senhor feudal, para que a esposa do protagonista, visite-o e que ele não a proíba disto,o que transforma  Dona Catarina, esposa dele, num monstro; já a bruxa do vilarejo é queimada em praça pública (sobrevive para fazer pior (!)há algo que lembra Otelo, de Shakespeare.
 Quanto à busca da tentaticva de superação do humano bestial, mostra do trabalho escravo, da reificação do ser, zoomorfização, instinto de sobrevivência, sedução de Tânatos, faz tudo girar alucinadamente, como no torvelinho da exploração sexual das personagens brunilda e ermesinda; pululam os preconceitos nessa espécie de interior de Portugal; parece ligado também à literatura pós-colonial de países lusófonos no seu, digamos assim, engajamento social .
Aqui as mulheres só são belas porque têm “parecenças com os homens”, porém desprovidas de inteligência, porém perigosas, até assassinas e traidoras.
O final da narrativa é brusca, violenta, choque das possibilidades das palavras e dos sentimentos.




quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Miró e Moisés Monteiro de Melo Neto: poesia, sempre, Pernambuco sob os pés, mente na imensidão...

Sempre um prazer estar com Miró, sobre quem pretendo escrever uma peça de teatro (André Telles Do Rosário, cadê você?), este poeta pernambucano que escreve poemas pra gente desde 1985, tem mais de 7 livros lançados por este Brasil afora: Que descobriu azul anil (1985), Ilusão de ética (1993), Entrando pra fora e saindo pra dentro (1995), Quebra a direita segue a esquerda e vai em frente (1997), São Paulo eu te amo mesmo andando de ônibus (2001), Poemas pra sentir tesão ou não (2002), Pra não dizer que não falei de flúor (2004) e recitais por todas as esquinas.
Miró foi tema da tese de mestrado de André Telles Corpoeticidade: Poeta Miró e sua literatura performática, na Universidade Federal de Pernambuco.
A poesia dele tem um certo toque de crônica e ele gosta de dizer que não tem papas na língua, no sentido de usar palavras difíceis para que o engraxate e a mulher que vende tapioca na rua entendam.
Eis um dos seus poemas:
CARLA
Conheci Carla catando lata
seus olhos brilhavam
como alumínio ao sol
São Paulo ardia num calor
de quase quarenta graus
pisou na lata,
como pisam os policiais
nos internos da Febem
jogou no saco
com a precisão
que os internos jogam
monitores dos telhados
e rápido foi embora,
tal qual seqüestro relâmpago
deixando a lembrança de um tempo
que não havia
seqüestros,
Febem,
nem tanta polícia,
muitos menos
catadores de lata
Os olhos de Carla
Nem desse poema precisavam.
Vemos o cotidiano esmagador ao som de uma lira incandescente. Nascer na Encruzilhada e morar no bairro que teve o lixão mais famoso da periferia do Grande Recife. Nem assim se deixou contaminar. Antes reviu tudo de forma também forte. Ele acha que os poetas devem parar de reclamar e fazer. Procurar espaços alternativos para divulgar os seus escritos longe dos mauricinhos brancos querendo resgatar a cultura popular. Prefere a postura "anti-istema". Sua pobreza suburbana deu-lhe um olhar com consciência de classe, revolta.
Sobre o seu trabalho, ele revelou à Agenda Cultural da Prefeitura do Recife: "Quando o André me escolheu para ser tema dessa tese, eu já vinha fazendo isso há muito tempo na rua, e sendo conceituado, sendo querido. Uma questão fundamental na história: fui muito conhecido, tive muita fama na rua, como P.F. (prato feito) de graça, minha poesia é exatamente a cara do ser humano na rua. Quando perguntam a mim: `Miró, o que você diria a um poeta novo?´, eu respondo: `Ande de ônibus, olhe pela janela do ônibus, seja observador, olhe as pessoas na rua conversando´. Eu escrevo só sobre isso, só que tem imagens poéticas e apuradas porque já faço poesia desde muito tempo. Você já levou sua poesia para a rua muitas vezes. Quais são as experiências pelas quais você já passou recitando poesia em espaços públicos? Muita coisa. Já passei pela experiência de estar falando em um poema: `o domingo era o dia mais feliz antes de Norma beijar um outro na boca´, e uma mulher disse: é gaia! Já levei mão na cara em Juazeiro da Bahia quando eu fazia isso, hoje em dia não faço mais, hoje eu sou convidado, mas quando eu comecei eu não podia ver cinco pessoas na rua que subia na mesa. Já fui aplaudido de pé em Niterói. O artista de rua passa coisas que nem Deus acredita. Ele vai ter aplausos, beijos de mulheres, vai ter casa pra dormir como eu já tive. A poesia me fez conhecer o Brasil, conhecer nossa gente, eu conheço quase o Brasil todo, a poesia me salvou, cara. Agora eu preciso ganhar dinheiro pra poder cuidar da minha mãe, dona Joaquina, que tem 82 anos, morar numa periferia onde todo mundo me ama, e chegar lá e ser considerado pelos policiais, pelos amigos, pela vizinha de baixo que nunca quis falar. Eu faço camisas, cartões-postais e não trabalho de segunda a sexta em lugar nenhum, eu nunca disse isso: desde 1985 que eu não saio de segunda a sexta pra canto nenhum tendo que ir, e fazendo poesia em um país que não lê."
Quanto à série Marginal Recife (série de quatro livros, com dez poetas cada, publicada pela Fundação de Cultura Cidade do Recife). Heloísa Arcoverde (Gerente de Literatura da FCCR), que viu Miró falando poesia na rua e quando foi pesquisar na prefeitura não achou nada. "Ela me chamou, chamou Cida e Valmir para que juntassem as pessoas que quisessem." Cida Pedrosa tem uma página na net: a Interpoética, há também recitais como o Quartas Literárias. Mas a união de sentar, "essa coisa política", segundo Miró, em Recife não acontece: "Agora tem sim um movimento que é forte e que quando quer bota pra quebrar. Os urbanos não têm paciência para reuniões. Eu sou um. Malungo tem o fanzine De Cara com a Poesia, eu tenho meu livro, Lara bota na internet, Chico Espinhara nunca quis nada com o poder, Érickson Luna era aquilo que todo mundo sabe. E o pior: o poder querendo ajudar. Quem fez o livro de Luna foram os amigos. Há uma coisa no Recife dos poetas urbanos de não quererem muita coisa com o sistema. E o sistema muitas vezes chamou a gente."
Todos os livros de Miró foram feitos de modo independente. O que não significa que recuse apoio de sindicatos. Foi publicado também em Marginal Recife (coletânea da FCCR) e pela "Livros e Letras", do Ceará (a segunda edição de seu único livro que fica em pé, o "Ilusão de ética"). Diz-se dono de uma poesia visceral. Começou a recitar nos anos 80 viajando pelo seu país e encontrando outros como ele. Recitador de Pernambuco, nas lidas do cotidiano, no pega mata e come da vida, de cada minuto. Oprimido, oprime. Ao falar do movimento cultural mais importante dos anos 90 no Brasil, o Manguebeat, Miró sustenta que Chico Science, Fred 04 e outros de sua geração sacudiram Pernambuco, o Brasil e o mundo. Mas que essa história de mistureba, Raul e Alceu já faziam.

                                                   por Moisés Monteiro de Melo Neto