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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

HOMOAFETIVIDADE NO ROMANCE BRASILEIRO DO SÉCULO XIX: BOM CRIOULO, de Adolfo Caminha

 

 

 

HOMOAFETIVIDADE NO ROMANCE BRASILEIRO DO SÉCULO XIX: BOM CRIOULO, de Adolfo Caminha

Lucas Santos de Assis

 Orientador: Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto (UNEAL/ UPE)



1      Uma pequena aventura: o percurso homoafetivo em solo brasileiro

 

Levando em consideração a necessidade de compreender como a relação entre indivíduos do mesmo sexo eram tidas nos mais diferentes contextos históricos, neste primeiro capítulo, apresentamos um pequeno panorama sobre as práticas homoeróticas presentes no meio social ao longo da história brasileira, e como/quando passou a ser retratada no campo literário. No tópico 2.1 A homoafetividade da Colônia ao século XXI, discorremos sobre o tratamento designado às relações homoafetivas pelas leis governamentais e clericais que ordenavam no Brasil, desde o período colonial ao nosso tempo atual. O ponto 2.2 Literatura brasileira: homoafetividade em foco, traz um apanhando de obras de autores consagrados que se propuseram a escrever sobre relações homo, apresentando produções precursoras responsáveis por trazer esse tema à corrente literária brasileira, bem como as contemporâneas que firmam cada vez mais a necessidade dessa discussão.

 

1.1    A homoafetividade da Colônia ao século XXI

 

No período medieval, dominado pela teologia da Igreja Católica, a homoafetividade era considerada como um dos maiores pecados cometidos, referindo-se a ela como peccatum nedandum (pecado nefasto). Com a chegada dos portugueses às terras que então seriam batizadas de Brasil, foram notados nas tribos indígenas costumes que alarmaram os colonos adaptados ao modo de vida europeu. Apesar de possuir terras férteis e paisagens deslumbrantes, como Pero Vaz de Caminha veio descrever em uma carta ao então rei de Portugal, o que chamava a atenção dos viajantes de além-mar eram as “criaturas” que viviam nessas terras como animais, andavam nus e não tinham o menor senso de pudor, as tornando difíceis de serem consideradas como humanas, pois não portavam hábitos como tal.

Dentre vários costumes que os habitantes nativos dessa nova terra possuíam, o que mais veio chocar os colonos portugueses, principalmente os mais ligados à religião, foi por praticarem entre si a relação sexual entre indivíduos do mesmo sexo, que tinham como termos a “sodomia/pederastia” para designar a relação homoafetiva na época. Posteriormente, como foi comprovada por diversos antropólogos, a relação homoafetiva entre índios era tida como normal em diversas tribos.

 

Em 1859, ao viajar pelo Nordeste brasileiro, o pesquisador Avé-Lallement tentava uma explicação ao escrever que, entre os índios Botocudo, não havia homens e mulheres mas homens-mulheres e mulheres-homens [...] (TREVISAN, 2018, p.64).

 

Os papeis sociais do gênero feminino e masculino impostos pela sociedade branca europeia da época não existiam nas tribos dos povos indígenas, ou seja, a idealização da “mulher frágil” e do “homem forte” não prevalecia sobre esses povos, uma vez que, atividades que de certa forma eram direcionadas aos homens por exigir certo grau de força, tanto eram realizadas por índias ou índios. E os traços físicos não variavam muito de um sexo para outro.

O alemão Karl von den Steinen, fazendo uma excursão pelo Brasil central em 1894, pode testemunhar que dentro do baito (casa dos homens) os rapazes de determinada tribo mantinham relações homoeróticas entre si. Tais relações não se estendiam somente aos membros masculinos, mas também aos femininos. Encontram-se relatos de mulheres indígenas que seguiam firmemente o papel dos homens, por assim dizer, caçavam, pescavam e chegavam a casar com outras mulheres.

Durante o período colonial, vigorava na Europa a Inquisição, e valendo da aceitação de certas manifestações devassas que prevaleciam nas terras brasileiras, os emigrantes da Europa encontraram aqui uma forma de manifestar seus desejos proibidos. Desde o Recife ao Rio de Janeiro, as ruas estavam abarrotadas de prostitutas e prostitutos. Os bordeis eram locais comumente frequentados por soldados, marinheiros e autoridades administrativas do corpo colonial. Viajantes que aqui aportavam se referiam ao Brasil como uma terra onde o clima tropical incitava nas pessoas as práticas mais sórdidas que se possa imaginar.

Por volta da segunda metade do século XVII a Inquisição chega ao Brasil para colocar sua população nas rédeas e começar uma verdadeira caça as bruxas. Punido severamente, o pecado da sodomia foi perseguido e farejado por todos os lados:

 

[...] Pierre Moreau reportou a grande incidência de incestos e pecados contra a natureza “pelos quais muitos portugueses foram condenados à morte”. Ele menciona ainda o caso de um capitão holandês que, por prática de sodomia, foi primeiro degredado para a Ilha de Fernando de Noronha e depois para os cárceres de Amsterdam. (TREVISAN, 2018, p.68).

 

Com uma variedade de métodos punitivos bastante sádicos, as vitimas não eram medidas por classe social, todas eram castigadas de acordo com o nível do pecado cometido. Afogamento, empalamento, banimento da cidade ou do país, prisão, pagamento de multa, confisco de bens, açoite, castração, amputação das orelhas, marca com ferro em brasa e morte na fogueira. Eram um dos caminhos para o sodomita.

Mesmo com tais medidas punitivas postas em vigor pela Inquisição, era comum membros da aristocracia cometerem o tal “pecado nefasto”. Comumente alguns estudiosos contestam a homossexualidade de alguns artistas europeus como Shakespeare, Leonardo da Vinci e Michelangelo. Que provocavam inquietações por dedicarem suas obras a amantes e a ostentarem os seus fetiches.

No Brasil colônia, os julgamentos eram regidos pelo Tribunal do Santo Oficio da Inquisição, que era o braço direito da Igreja Católica e possuía total apoio da realeza. Para medir os pecados e checar se tudo estava nas devidas ordens, era solicitado pelas autoridades de cada província um membro visitador do Conselho Português. Com a chegada do membro designado começava então as confissões de testemunhas que presenciaram pessoas cometendo algum tipo de desvio pecaminoso, caso a testemunha não denunciasse imediatamente esses atos, também viria a sofrer as devidas punições.

Submissos aos seus senhores, os escravos eram nitidamente assediados, tanto sexualmente como por outros meios. Podemos dá como exemplo as amas de leite, que amamentavam os filhos de seus patrões desde o momento do nascimento. Chegando a vida adulta do menino, muitas vezes, sua iniciação sexual se daria com uma escrava. Nesse meio de domínio entre patrão e escravo a homoafetividade não escapou, como relata Trevisan (2018):

 

[...] o mais contundente depoimento de estupro e sadismo contra escravos consta no Livro da Visitação do Santo Ofício ao Estado do Pará, em 1763, no qual um escravo de nome Joaquim Antonio, negro solteiro da nação Angola, entre 25 e 26 anos, contou como fora obrigado ao pecado da sodomia por Francisco Serrão de Castro, filho do seu senhor [...]

 

Amedrontados e intimidados pelo chicote, os escravizados não possuíam muitas opções a não ser sucumbirem aos desejos e caprichos de seus donos. Mesmo com a denuncia feita, o mal visto no final das contas era o negro pois, seu patrão, por possuir dinheiro e uma posição elevada na sociedade, não recebia as piores punições, muitas vezes chegando a pagar apenas uma pequena multa.

Durante o período inquisitorial brasileiro, diversas punições por sodomia foram realizadas nas mais distintas camadas sociais da época: membros do alto escalão social, meros camponeses e escravos. Banidos do país e condenados à pena de morte. A Inquisição então começou a esfriar até chegar ao seu fim total.

Proclamada a independência brasileira e a consolidação do Império do Brasil, novas ordens e leis foram promulgadas para regulamentar a nova nação ocidental e seus habitantes. Mesmo com essas mudanças legislativas, o código penal ainda vigente eram as Ordenações Filipinas, que foram adotadas ainda no tempo da colônia e adaptadas para o Império em 1823. Nesse conjunto de códigos era determinado que a pessoa apontada e acusada como “sodomita” deveria ser transformada em pó pelo fogo, para que de seu corpo não existisse o menor índice de lembrança, e seus bens confiscados pela Coroa, impedindo seus descendentes de usufruir, sendo assim condenados a infamidade.

Havia também a penalidade para o travestismo, o homem que usasse trajes de mulher ou a mulher trajes de homem, seria punido (a) variando entre açoite, expulsão do país e o pagamento de multa para a pessoa denunciante.  Nas punições de sodomia eram delimitadas certas diferenças peculiares, uma delas era que o ato ocorrido sem penetração (a sodomia imprópria), nesses casos as mulheres eram as sua maioria, sua pena seria apenas o degredo de três anos e a pena pecuniária estabelecida pelas quantidades de provas.

Diante desses pretextos é notório que a homoafetividade era tratada como algo “anormal” e não pertencente à natureza humana. Tratando o indivíduo homoafetivo como um ser asqueroso e repulsivo, merecedor do tratamento mais horrendo possível.

Na França, em 1810, Napoleão estabelece novos códigos penais, os então “Códigos Napoleônicos”, que retirava o crime do homossexualismo da sua listagem de delitos. Inspirado no que havia de mais recente e considerado avançado na jurisdição da época, o Império do Brasil atualiza as Ordenações Filipinas no ano de 1830. Nessa nova atualização o delito da “pederastia” deixa de existir e passa a integrar uma nova categoria, as de crimes por ofensa á moral e aos bons costumes.

 

... o Artigo 280 do Código brasileiro punia atos públicos de indecência com dez a quarenta dias de prisão e uma multa correspondente à metade do tempo de reclusão. Essa provisão deu margem para que a polícia pudesse determinar o que constituía um ato de indecência. Deu-lhe também o poder de extorquir dinheiro daqueles ameaçados de detenção ou reclusão. (GREEN, 2019, p. 67)

 

Trevisan (2018, p.164) afirma que com a chegada da Republica um novo código penal foi estabelecido em 1890, tais crimes ainda eram determinados como atentado e ofensa à moral, nomeados de “crimes contra a segurança da honra e honestidade das famílias” e também como “ultraje publico ao pudor”. Entretanto, sua penalidade era mais rígida que a adotada pelo Império, variando de um a seis meses de reclusão social.

É nesse momento, com um acréscimo de cinco anos após a elaboração do novo código penal republicano, que é publicado o primeiro romance inteiramente homoerótico da literária brasileira, Bom-Crioulo. Logo, a obra foi massacrada pela critica e pelas personalidades de maior poder. Com seu tema centrado na relação homoafetiva entre dois homens, especificamente da Marinha Brasileira, esse trabalho do cearense Adolfo Caminha foi classificado como atentando aos bons costumes das “famílias de bem” do final do século XIX.

O Código Penal Republicano sofre pequenas alterações nos anos de 1932 e 1940. Essas modificações não foram tão relevantes, apenas diminuíam o tempo de prisão do crime contra os “bons costumes” e repudiavam a divulgação de matérias midiáticos que trouxessem ofensa aos mesmos.

Todavia, em 1964 com a ditadura instaurada em todo o território nacional, a censura vem para sufocar as manifestações dos grupos minoritários da sociedade. A Lei n. 5250, de 9 de fevereiro de 1967, que ficou conhecida como Lei de Imprensa, punia severamente qualquer tipo de atentado ao pudor nos meios comunicativos do país. Amparado de tal lei, o governo ditatorial crava com força as garras da censura na imprensa brasileira, reprimindo qualquer tipo de apoio aos direitos de pessoas homoeróticamente inclinadas.

Nas décadas de 60, 70 e 80, mesmo sobre o tenaz olhar dos militares da ditadura brasileira, diversos artistas das diversas ramificações da arte conseguiram driblar a censura e manifestar, em suas produções, conteúdos até então “proibidos”, mesmo que para isso fizessem o uso de figuras de linguagem para não deixarem de forma tão explicita seus temas.

 

Finalmente as ruas da cidade se tornam espaço de visibilidade de personagens gays, seja numa tônica entre libertário e o panfletário, reveladores até do lado odara de tantos super-homens, seja simplesmente com um tom neo-naturalista, que mescla as questões de sexualidade com as mazelas sociais, econômicas e políticas de um país que implementa cada vez mais um projeto modernizante excludente, às sombras de um regime autoritário. (LOPES, 2002, p.135)

 

O meio musical foi um dos mais efervescentes críticos do regime ditatorial. Esses artistas denunciavam as políticas adotadas pelos governantes e as péssimas condições em que as classes sociais menos favorecidas eram submetidas, foram acusados de causarem desordem e tumulto contra a pátria, sofrendo severamente com prisões e exílios em outros países. Caetano Veloso, grande compositor e cantor, conseguiu quebrar as barreiras com seu estilo único de fazer música. Junto com seu amigo/colega Gilberto Gil, idealizaram o movimento Tropicália, que visava criar músicas com um modo bem brasileiro. Essa nova estética artística buscou suas inspirações no Movimento Antropofágico de Oswald de Andrade, que pretendia “canibalizar” elementos da cultura internacional e mistura-los com os brasileiros, para assim surgir algo considerado legitimamente brasileiro.

As referências ao homoerotismo não foram excluídas nesse meio, emergindo nas letras das músicas de talentosos cantores, não só nas letras como também em seus modos de se apresentarem. O já citado Caetano Veloso, em algumas de suas músicas, perceptivelmente traz traços homoeróticos, exemplo disso é a canção Menino do Rio, que vem tratar de certo fascínio pelos rapazes que frequentam as ensolaradas praias cariocas.

[...]

Menino vadio

Tensão flutuante do Rio
Eu canto pra Deus proteger-te
O Havaí seja aqui
Tudo o que sonhares
Todos os lugares
As ondas dos mares
Pois quando eu te vejo eu desejo o teu desejo

 

Menino do Rio
Calor que provoca arrepio
Toma esta canção como um beijo. (VELOSO, 1979).

 

Aspectos homoeróticos são identificados em composições de outros notáveis artistas, como Ney Matogrosso. Que se tornou um dos verdadeiros precursores desse aspecto. Com o seu jeito de se vestir em apresentações com maquiagens chamativas e roupas bem exóticas, quase beirando a nudez em alguns momentos, Ney é uma figura onde a homoidentidade é palpável, como discorre Green:

 

Na condição de superastro do rock, a forma aberta com que Ney Matogrosso abordava sua sexualidade ofereceu um novo modelo para muitos homossexuais. Ele falava com orgulho do modo como provocava desejo tato em homens quanto em mulheres. (GREEN, 2019, p. 423).

 

Suas músicas balançavam entre o ser masculino e o homoafetivo: “Diz que vai dar, meu bem/ Seu coração pra mim/ Eu deixei aquela vida de lado/ E não sou mais um transviado”.

Indiscutivelmente é de suma relevância o grupo teatral Dzi Croquettes, que colocaram em cena o travestismo. Composto por um grupo de homens que se vestiam de mulher, vieram transgredir com a forma a qual os gêneros sexuais eram retratados nos palcos brasileiros. As vestimentas utilizadas nas apresentações eram uma verdadeira mistura de peças masculinas e femininas, que muitas vezes fazia duvidar se de fato eles eram “eles” ou “elas”.

Os anos 60 e 70 marcaram com seu modo de emergir na sociedade o então tema do grupo LGBT. Todavia, com o aparecimento da AIDS nos anos 80, é instaurado certo pânico nessa comunidade, uma vez que, seu surgimento e sua proliferação foram atribuídos às relações intimas entre pessoas do mesmo sexo. O indivíduo de inclinação homoafetiva foi, mais uma vez, marginalizado e massacrado por toda a comunidade, onde ser “gay” agora era sinônimo de algo doentio e contagioso.

A AIDS veio a configurar-se como uma mazela punitiva ao grupo LGBT pelo motivo de não seguirem com o estigma normativo da sexualidade humana, “... a Aids é não só um elemento de afirmação da condição estrangeira do homossexual mas de redefinição de sua afetividade, de reencontro. ” (LOPES, 2002, p.144).

Tratando-se de uma nova doença, o conhecimento acerca de seus sintomas era quase inexistente. Sem métodos adequados que pudessem impedi-la de se expandir e sem tratamentos eficientes, ela contaminou e matou milhares de pessoas em um curto período de tempo. O publico gay então se viu acuado e amedrontado.

Grandes nomes de figuras publicas foram vitimas de tal pandemia, podemos citar o grande Cazuza que veio a falecer com as sequelas da nova doença. Diante de tal caos, grupos e organizações LGBTs de vários estados do Brasil começaram a informar e conscientizar o publico sobre métodos de prevenção da doença.

A Parada do Orgulho LGBT, popularmente conhecida como “Parada Gay”, teve sua primeira edição no ano de 1997 na cidade de São Paulo, com a participação de apenas 2.000 pessoas. Entretanto, seus números vieram a crescer no decorrer dos anos. Considerada a maior concentração de domínio LGBT, foi e ainda é o maior evento de luta pelos direitos homossexuais no Brasil. Sua realização acontece anualmente e atrai pessoas de diversas regiões do Brasil e do mundo. É através de manifestações como essa que possibilitam as pessoas expressarem seus desejos e pedirem que os outros respeitem seus valores e sua forma de amar.

No decorrer dos anos 1990, após a queda da ditadura, o tema da homoafetividade já estava enraizado nas correntes publicitárias. Grandes meios comunicativos como revistas, jornais e programas já debatiam e divulgavam temas como sexo e sexualidade. Um grande exemplo disso é a revista G Magazine, a primeira revista em território nacional a tratar explicitamente do nu masculino. Seu publico alvo foi os homens gays, mas também cativou a atenção das mulheres heterossexuais.

 

Com seus nus radicalmente sexuais, a G Magazine abriu portas nunca sonhadas pelos militantes da visibilidade homossexual: através de tiragens médias de 90 mil exemplares, que chegaram a atingir o pico de 150 mil, o país inteiro podia conferir seus ídolos em poses explícitas ao gosto de outros homens, numa revista assumidamente guei (sic). (TREVISAN, 2018, p. 347).

 

 Chegando a vender milhares de exemplares mensalmente, seu sucesso foi absoluto. Em suas edições, modelos masculinos posavam totalmente sem nenhuma vestimenta, ostentando seus membros viris rígidos no chamado “mostrando tudo pra valer”. Os ídolos escolhidos para tal proeza variavam desde jogadores de futebol, modelos, atores e cantores. A revista encerrou suas atividades no ano de 2013.

Mesmo com esses novos ares do novo milênio que favoreciam a representatividade homoafetiva, o primeiro beijo gay a ser exibido em rede nacional brasileira, só veio acontecer em 2014, na Rede Globo com a novela do horário nobre Amor à Vida. Os atores responsáveis por contracenar esse marco na história televisiva brasileira foram Mateus Solano (no papel de Félix) e Thiago Fragoso (no papel de Niko).

Já no meio internacional tais feitos já tinham ocorrido há algum tempo. Em 2006 o filme Brokeback Mountain abordou nas grandes telas do mundo todo o amor homoafetivo entre dois cowboys, foi aplaudido de pé por numerosos críticos e indicado à vários prêmios incluindo oito indicações ao Oscar, saindo vencedor de três estatuetas, das quais Ang Lee levou a de Melhor Diretor. Mais recentemente temos o filme Call Me By Your Name de 2017, baseado no romance de mesmo nome escrito por André Anciman, onde vem narrar o calor da primeira paixão entre dois jovens gays.

Os anos de 2010 foram de enormes conquistas para esse grupo da sociedade tão marginalizado e massacrado em épocas anteriores. O contexto da homossexualidade agora é mostrado em todo o seu esplendor, desde o cinema a televisão, a exploração de personagens LGBTs é notável. E como não comentar o grande “BOOM” da carreira da cantora drag queen Pabllo Vittar no cenário musical contemporâneo? Vittar iniciou sua trajetória artística quebrando barreiras para inserir de forma bombástica a sua estética e forma de ser, possibilitando a imersão de novos nomes com o mesmo estilo, conseguindo se firmar como a drag queen mais famosa do mundo.

 Atualmente, a classe LGBT desfruta de direitos melhores que em épocas anteriores. Todavia, tais direitos ainda precisam de incentivo político para que sejam postos em prática no meio social, não somente para estar escrito em um papel legislativo. Devemos essa evolução da abordagem de tais temas que envolva sexo, sexualidade e afetividade, à coragem das numerosas figuras do passado que ousaram em trazer esses novos conteúdos para uma discussão mais ampla e social, atribuindo-lhes a devida importância.

A luta não acaba aqui. Em diversos países contemporâneos não existem leis defensoras da população gay, a homoafetividade ainda é condenada como anormal, até mesmo nos lugares que existem leis defensivas para esse grupo. Nesses locais, os índices de homicídio de pessoas LGBTs são extremamente altos. E com esses horizontes sombrios, onde os valores conservadores estão surgindo novamente, de forma espantosa, cabe à nova geração de ativistas LGBTs que lutem e continuem lutando por seus direitos, para que não retrocedam as épocas obscuras da história da comunidade humana.

1.2    Literatura brasileira: homoafetividade em foco

 

No meio literário do Brasil são raras as obras que narrem o afeto homoerótico, sobretudo nos séculos anteriores. Já na atualidade, com as conquistas da classe LGBT, essas obras passaram a se destacar consideravelmente. Ao investigar o acervo histórico da literatura brasileira, é possível encontrar produções de ilustres autores que descrevem laços homoafetivos/homoeróticos.

É evidente que os primeiros traços de uma produção literária dotada em fatos homoafetivos se dá no período Real-naturalista. No ano de 1888, Raul Pompeia publica seu único romance, O Ateneu, contemplando os acontecimentos de uma escola interna de rapazes. No decorrer da obra, é perceptível trechos que fazem alusão às relações homoafetivas mantidas pelo grupo discente, como fica compreensível na seguinte citação referente a um diálogo entre os personagens Sérgio e Rebelo:

 

Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente, provocando-me com surriadas.

“Viu aquele da frente, que gritou calouro? Se eu dissesse o que se conta dele... aqueles olhinhos úmidos de Senhora das Dores... Olhe; um conselho aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se.

“Isto é uma multidão; é preciso força de cotovelo para romper. Não sou criança, nem idiota; vivo só e vejo de longe; mas vejo. Não pode imaginar. Os gênios fazem aqui dois sexos, como se fosse uma escola mista. Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. Quando, em segredo dos pais, pensam que o colégio é a melhor das vidas, com o acolhimento do mais velhos, entre brejeiro e afetuoso, estão perdidos... Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admitir protetores. (POMPEIA, 2013, p. 40).

 

No diálogo, Rebelo orienta o novato Sérgio a ser um garoto forte pois, os que não conseguiam se proteger, se sentiam na obrigação de arranjar um protetor, consequentemente mais experiente nas vivencias do colégio. E que acabava por submeter o indefeso a seus caprichos, que no caso do referido romance, nos faz a alusão da submissão do mais fraco aos desejos eróticos do mais forte. “Mesmo as práticas sexuais não sendo narradas, as posições sociais dentro do espaço eram bem configuradas, o forte sempre seria considerado como macho, enquanto o fraco seria visto como um sujeito feminino. ” (CASTRO, 2017, p. 8-9).

Em O Cortiço (1890), do real-naturalista Aluísio Azevedo, o narrador traz o caso da prostituta Léonie que seduz Pombinha, uma moça virgem residente do cortiço. Mesmo se esquivando, Pombinha se entrega sexualmente, e ao abandonar seu noivo começa a viver com Léonie, passando a se prostituir também. No trecho abaixo é narrado o início da relação intima entre as duas personagens que transcorre durante uma visita de Pombinha à casa da prostituta.

 

Bem! Agora estavam perfeitamente a sós!

- Vem cá, minha flor!... disse-lhe, puxando-a contra si e deixando-se cair sobre um divã. Sabes? Eu te quero cada vez mais!... Estou louca por ti!

E adorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que sufocavam a menina, enchendo-a de espanto e de um intuitivo temor, cuja origem a pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era. (AZEVEDO, 2011, p. 127).

 

Mesmo com essas duas obras predecessoras, é em 1895 que chega ao acervo literário brasileiro o primeiro romance inteiramente voltado para a relação homoerótica, o Bom-Crioulo. Alguns estudiosos afirmam que a obra vem a se concretizar não só como o primeiro romance de caráter homoafetivo do Brasil, mas também, do Ocidente. Tendo como autor o cearense Adolfo Caminha, que bebeu da vertente Real-naturalista para todos os seus três romances, a história de Bom-Crioulo segue os personagens Amaro (apelidado de Bom-Crioulo) e Aleixo, que passam a viver uma relação amorosa em alto-mar na Marinha Imperial Brasileira.

No seu tempo de publicação o romance sofreu com forte censura da crítica literária vigente. Que além de trazer um tema tido como tabu e patologia humana, a relação sexual entre dois homens, indo contra as diretrizes dos ditos “bons costumes” que vigora na sociedade oitocentista, o fato de ter um negro (Amaro) ditando ordens à um jovem branco (Aleixo), veio contribuir para maior repreensão do livro no meio editorial, e de seu autor no meio social. Outros aspectos do livro, que se configura como objeto de estudo do referido trabalho, são desenvolvidos em especial na 4ª seção.

Green, em sua renomada obra  Além do Carnaval, discorre sobre uma figura que conseguiu almejar uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras, João do Rio. Bastante jovem quando adentrou os círculos literários de sua época, seu principal ramo era o jornalismo, entretanto, se aventurou pelos gêneros literários como o conto. Em suas produções, João menciona os pontos de prostituição masculina do Rio de Janeiro na primeira década dos anos 1900. Segundo Green, as explorações de João do Rio nessas localidades deixam marcada a sua sexualidade, além de outras menções feitas por outros autores e figuras do meio jornalístico às predileções sexuais de João.

 

A preferência sexual evidente de João do Rio por outros homens nos leva a especular a respeito dos sentidos múltiplos de sua celebração da arte de passear. Embora pouco se conheça dos detalhes de suas aventuras eróticas, suas andanças noturnas pelas ruas da capital à procura de materiais jornalísticos inovadores podem também ter-lhe proporcionado a oportunidade de desfrutar da companhia sexual de marinheiros, soldados e figuras comuns, que eram personagens de seus artigos e relatos. (GREEN, 2019, p. 107).

 

Desse modo, é possível inferir que João do Rio tenha se relacionado com tais indivíduos, uma vez que, nesses locais de prostituição masculina da então Capital brasileira, soldados e marinheiros eram assíduos frequentadores. Green (2019) ainda afirma, posteriormente, que Lima Barreto faz uma caricatura de João do Rio no personagem Raul de Gusmão, que contrata um fuzileiro naval para relações sexuais, em seu romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909).

Considerado como um dos maiores nomes do cânone literário do Brasil, se não o maior, Machado de Assis publica em 1906 uma coletânea de contos intitulada Relíquias da Casa Velha. Nessa compilação está o conto Pílades e Orestes, narrando a história de dois amigos homens, Quintanilha e Gonsalves, que vivem harmoniosamente juntos. No decorrer do texto, a forte relação entre os dois, que não passava despercebida dos olhos da sociedade é discutida de forma explicita: “A união dos dois era tal, que uma senhora chamava-lhes os “casadinhos de fresco”, e um letrado de Pílades e Orestes. ” (ASSIS, 1906).

O título do conto faz alusão à peça teatral Ifigénia entre os Tauros, do grego Eurípedes. Onde a dupla de amigos, Pílades e Orestes, compartilhava de sentimentos homoafetivos mutualmente, cuidando um do outro, e ao serem capturados e levados ao sacrifício, Pílades oferece sua vida no lugar da de Orestes. Vale também fazer menção que tal dupla já foi retratada na pintura e escultura, e aparecem agindo de forma afetuosa um com o outro. Assim, se dá o referencial, por parte do autor, da relação afetiva entre os indivíduos.

Adentrando o contexto literário do Modernismo encontramos um bom conjunto de obras que discutem a relação afetiva e sexual entre pessoas do mesmo sexo. A sexualidade de Mário de Andrade sempre foi bastante discutida, mesmo que o autor não tenha exposto as relações sexuais que matinha com outros homens, é algo que já foi afirmado por seus contemporâneos colegas escritores, e pesquisadores da sua vida e obra. Em seu conto Frederico Paciência, presente na coletânea Contos Novo (1947), publicada dois anos após sua morte, assim como no romance de Raul Pompeia, vem discorrer sobre uma amizade bastante afetuosa entre dois garotos, Frederico e Juca, que surge no colégio.

No decorrer da narrativa, Juca e Frederico passam a se envolver cada vez mais, mantendo-se juntos, defendendo e ajudando um ao outro. Bem como fazerem planos futuros de nunca se separarem, o que não ocorre. Vejamos um trecho da obra, com destaque à afetividade que envolviam os dois garotos:

 

Em um jogo de cabeças unidas quando sentávamos para estudar juntos, de mãos unidas sempre, e alguma vez mais rara, corpos enlaçados nos passeios noturnos. E foi aquele beijo que lhe dei no nariz depois, depois não, de repente no meio duma discussão [...] Dei o beijo, nem sei! [...] Frederico Paciência recuou, derrubando a cadeira. O barulho facilitou nosso fragor interno, ele avançou, me abraçou com ansiedade, me beijou com amargura, me beijou na cara em cheio dolorosamente. (ANDRADE, 2017, p. 104).

 

Na Primeira Fase Amadiana, ou Fase Proletária, com uma produção voltada para o meio socialista político do Brasil da década de 1930, Jorge Amado concebe o romance Capitães da Areia (1937). A trama gira entorno de um grupo de meninos moradores das ruas de Salvador, que faz do roubo seu único meio de sustento. Focando na extrema marginalização social a que eram submetidos e aos maus tratos, exercidos a eles, pelas instituições educacionais, policiais e clericais da época.

O título do romance nomeia esse grupo de garotos de rua exclusivamente composto de figuras masculinas, possuindo apenas como identidade feminina a personagem Dora, que sempre se entretinha nas atividades denominas “masculinas” do bando, como a capoeira. Na trama é mostrada a relação homoafetiva entre dois personagens integrantes desse espaço predominantemente homossocial, Almiro e Barandão.

 

O Sem Pernas notou que ele se dirigia para o outro extremo do trapiche, onde a areia era mais fina ainda. Foi então pelo outro lado e chegou a tempo de ver Barandão que se encontrava com um vulto. Logo o reconheceu: era Almiro, um do grupo, de doze anos, gordo e preguiçoso. Deitaram-se juntos, o negro acariciando Almiro. O Sem Pernas chegou a ouvir palavras. Um dizia: "meu filhinho", "meu filhinho". (AMADO, 1937, p. 61).

 

Os dois mantinham seus atos afetivos em segredo, longes do demais, que ao terem conhecimento do caso, o chefe do grupo, o então Pedro Bala, os proíbe de continuarem. Além dessa referida passagem do romance, existem outras que aludem a esse relacionamento homoerótico.

Seguindo essa linha de ralações que fogem da regra hegemônica heteronormativa, Guimarães Rosa em sua prestigiada obra Grande Sertão: Veredas (1956), resgata a situação do cenário árido do Nordeste brasileiro e seus contracenantes (vaqueiros, cangaceiros, jagunços etc.). Tido como um espaço majoritário da personificação dos papeis estritamente masculinos, o autor faz o uso de Diadorim, uma mulher travestida de homem, para construir a idealização total de um homem jagunço, dotado de qualidades exclusivamente direcionadas à indivíduos másculos, como a coragem. E que nutria sentimentos amorosos recíprocos, por seu companheiro, o também jagunço Riobaldo, que o considerava como um verdadeiro guerreiro.

Desse modo, o autor prestigia em seu romance, ao construir a personagem Diadorim e a afetividade enlaçada com Riobaldo, os “reflexos de uma masculinidade que foge aos padrões sociais, que questiona as fraquezas e as crises enfrentadas pelos homens ao lidarem com suas masculinidades ...” (CASTRO, 2017, p.10).

Já no meio da dramaturgia, Nelson Rodrigues se firma como um dos maiores nomes. O Beijo no Asfalto (1961), é uma de suas peças que vem discutir sobre os sentimentos homoafetivos. O drama gira entorno do beijo que o personagem Arandir dá em um homem que, ao ser atropelado pede por um beijo. Tal cena é presenciada por inúmeras pessoas e passa a ter enorme repercussão por meio dos jornais e da polícia que persegue Arandir para mais revelações acerca da situação que envolve os dois protagonistas do beijo. O desfecho se dá de forma surpreendente, ao ser revelado, por Aprígio (sogro de Arandir), seus sentimentos amorosos ao assassina-lo por ciúmes.

 

ARANDIR (atônito e quase sem voz) - O senhor me odeia porque. Deseja a própria filha. É paixão. Carne. Tem ciúmes de Selminha.

APRÍGIO (num berro) - De você! (estrangulando a voz) Não de minha filha. Ciúmes de você. Tenho! Sempre. Desde o teu namoro, que eu não digo o teu nome. Jurei a mim mesmo que só diria teu nome a teu cadáver. Quero que você morra sabendo. O meu ódio é amor. Por que beijaste um homem na boca? Mas eu direi o teu nome. Direi teu nome a teu cadáver. (Aprígio atira, a primeira vez. Arandir cai de joelhos. Na queda, puxa uma folha de jornal, que estava aberta na cama. Torcendo-se, abre o jornal, como uma espécie de escudo ou de bandeira. Aprígio atira, novamente, varando o papel impresso. Num espasmo de dor, Arandir rasga a folha. E tomba, enrolando-se no jornal. Assim morre)

APRÍGIO Arandir! (mais forte) Arandir! (um último canto) Arandir! (RODRIGUES, 2012, p. 58).

 

Até aqui, uma produção literária, voltada para o tema homoafetivo/homoerótico, é em certo grau significativa. Mesmo que, segundo alguns pesquisadores, é apenas no início dos anos 1980, que os estudos acerca de tais temáticas começam a serem discutidos no âmbito acadêmico. Adentrando diversas universidades do Brasil, ganhando espaço ao serem abordados por pesquisadores que seguiam os pensamentos de teóricos já consagrados, para analisar as representações de gênero, sexualidade e como se identificavam no meio social.

Era um tempo de efervescências políticas, com o iniciar do declínio do governo ditatorial, o estourar de diversos movimentos sociais por todo país, pedindo por melhores condições de trabalho, igualdade social e saneamento básico. As metrópoles brasileiras se viam com um crescente índice de pobreza, que obrigavam inúmeros membros das classes marginalizadas, que não conseguiam arranjar emprego, se prostituírem nas ruas, mesmo amedrontados com a AIDS, para conseguirem sua subsistência. Acabando por comercializar o sexo, possibilitando o encontrar fácil dos mais variados desejos sexuais e eróticos.

Tendo esse panorama da sociedade de 1980, o dramaturgo Zeno Wilde decide retratar, em sua peça Blue Jeans (1980), a classe dos prostitutos masculinos da noite carioca, e as situações sórdidas à que eram submetidos. Trazendo quatro personagens, michês (outra palavra para designar prostitutos), estigmatizados pelo drama da prostituição, e que juntos narram, quase que em uma única voz, suas vivências e os desafios encontrados nesse meio.

Como profissionais do sexo, esses personagens se dispunham a práticas tanto homoeróticas como heterossexuais. Entretanto, o autor traz em exclusividade a homoafetividade dessas figuras, tanto no travesti Gracinha, como nos demais (Marcos, Serginho e Reguintem). Que viam no sexo homo mais uma possibilidade de aumentar sua renda, como afirma o personagem Marcos, em uma das passagens da peça:

 

Mas quem é profissional não escolhe sexo. O que cair na rede, é peixe! Quer ver só? Se eu sair com um senhor, às sete, oito horas, e transar com ele numa só de passivo... se aparecer outro cliente, lá pelas madrugada, eu posso faturar com ele também... porque eu me poupei da primeira vez, não me gastei... Com mulher não dá... elas querem que a gente goze sempre... e com mulher só dá pra ser ativo. Aí eu acabo tendo prejuízo. (WILDE, 1980).

 

Perseguido pela Ditadura Militar, que perdurou de 1964 a 1985, Caio Fernando Abreu é um dos vários nomes da leva de autores contemporâneos. Com uma produção que abrange diversos gêneros literários, veio direcionar grande parte de suas obras às relações de cunho homoafetivo/homoerótico, fortemente prestigiada em seus inúmeros contos.

Morangos Mofados (1982), possivelmente sua antologia de contos mais famosa, traz um dos seus textos fortemente marcado pela revelação de uma sexualidade homoerótica, Sargento Garcia. Transcorrendo o encontro de desejo e intimidade sexual entre um militar, o então Sargento Garcia, e um adolescente que se apresenta ao exército. Os dois se dirigem à um motel, já conhecido pelo sargento, e se entregam aos seus devaneios eróticos.

 

Deitei de costas. Fechei os olhos. [...] Então um corpo pesado caiu sobre o meu e uma boca molhada, uma boca funda feito poço, uma língua ágil lambeu meu pescoço, entrou no ouvido, enfiou-se pela minha boca, um choque seco de dentes, ferro contra ferro, enquanto dedos hábeis desciam por minhas virilhas inventando um caminho novo. (ABREU, 2018, p. 373).

 

Já no conto Caçada, da coletânea Pedras de Calcutá (1977), é contada a violência e o preconceito direcionado às pessoas de inclinação homoerótica, e que mesmo integrantes da classe LGBT, por muitas vezes serem reprimidos em revelar seus desejos eróticos, acabam por direcionar sua fúria violenta aos que são assumidos publicamente.

 

Um mapeamento da homotextualidade na literatura brasileira passa pela identificação de categorias estéticas articuladoras, como o campo de estudos de gêneros literários, como cartas e diários, ou de obras que encenam mais direta ou enviesadamente elementos biográficos; pelos estudos de espaços, das instituições mais fechadas, totais, para usar o termo de Erving Goffman, como o internato e as forças armadas, dos lugares mais interditados, como pensões ou casas noturnas, ou dos lugares mais privados, como o quarto, até a conquista do espaço ao ar livre, das ruas da cidade, da expressão na esfera pública e da eventual ressignificação da casa para além da opressão familiar; pelos estudos de figuras (a ambiguidade do adolescente tímido, do travesti, da mulher masculinizada, do solteirão/solteirona, do bissexual, associados à construção do olhar e do desejo... (LOPES, 2002, p. 124)

 

Como afirma Lopes, na literatura brasileira, ao serem abordados o tema da homoafetividade/homoerotismo, maioria dos autores fazem o uso de cenários predominantemente tidos como masculinos como o meio militar (Bom-Crioulo e Sargento Garcia), o colégio (O Ateneu e Frederico Paciência). Além de outros espaços, evidenciando que a inclinação homo de indivíduos não está ligada única e exclusivamente à um determinado contexto, mas, que se estendem a todos compartimentos e épocas da sociedade.

Privilegiando uma literatura de aspecto biográfico, com uma relação homoerótica, temos o romance, baseado em fatos, O Terceiro Travesseiro (1997), de Nelson Luiz de Carvalho. Que se propõe a narrar a relação homoafetiva entre dois jovens da classe média paulista, e as intempéries, como o preconceito e sentimentos conturbados, à que são submetidos no decorrer da união homoafetiva dos dois e ao passarem para uma relação bissexual à três com uma garota.

São obras que se tornaram cânones ao demonstrar sua importância ao revelar fatos históricos e desenvolver como a homoafetividade/homoerotismo eram tidos em tempos variados. E mesmo nas épocas de forte reprimenda para os indivíduos de inclinação homoafetiva, eles sempre estavam ali, desde o alto patamar da sociedade até as classes inferiores. E que precisamos levar em consideração todo o caráter sócio-político que engloba a obra “... os sistemas de signos, significados linguísticos e culturais, as redes que abarcam as figurações de gênero e identidade, e também a função estética, para não perpetuarmos a valorização de obras apenas pelas nossas crenças e preconceitos. ” (CASTRO, 2017, p.8).

Ainda é um campo da literatura um tanto desafiador para o escritor se aventurar, em virtude da repreensão que o tema possui, mesmo após as conquistas da causa LGBT. Entretanto, nas primeiras décadas do século XXI, a produção de narrativas homoafetivas/homoeróticas de diversos autores nacionais e internacionais, passaram a ganhar mais destaque. Se estendendo além do meio literário, passando para o cinematográfico, o teatral e o televisivo.

     Podemos concretizar que, as obras de cunho homoafetivo predecessoras ao nosso tempo são de suma importância. E que em sua maioria, tais produções podem se configurar como crítica social ao mostrarem o desprezo, o preconceito, a violência e ignorância à que os indivíduos homoafetivos estavam sujeitos, desde tempos longínquos. Contribuindo para a quebra das normas que sujeitavam a relação homo a patologia humana e levando o tema, menosprezado pelo meio editorial e social, à discussão.

 

 

 

2      Repercussão da literatura homoerótica

 

Nesta segunda seção, expomos o contexto sócio-histórico e o movimento literário onde veio surgir os primeiros indícios de uma produção dotada de caráter homoafetivo presente na literatura brasileira. No item 3.1 O Real-naturalismo brasileiro, é apresentada as características de duas escolas literárias, o Realismo e o Naturalismo, que são tratadas, por diversos teóricos, como uma só, o Real-naturalismo, por apresentarem traços semelhantes. Ressaltando suas divergências e os autores patronos que as vieram introduzir. Em 3.2 As aventuras de Adolfo Caminha por Sânzio de Azevedo, apresentamos uma biografia do cearense Adolfo Caminha, autor do primeiro romance inteiramente homoerótico do país que, também é considerado, por alguns estudiosos, como a primeira obra que narra as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo do Ocidente.

 

2.1    O Real-naturalismo brasileiro

 

Nos dois últimos decênios de 1800 é introduzido no meio literário brasileiro dois estilos literários, o Realismo e o Naturalismo. Nascidos na Europa, mais precisamente em uma França conturbada politicamente, ambos são movimentos que andaram de mãos dadas por apresentarem características convergentes, tanto que alguns críticos literários os analisam de forma conjunta, os nomeando de “Real-naturalismo”.

Entretanto, optamos por analisar alguns aspectos separadamente, mesmo que possuam, no Brasil, o mesmo contexto de estreia e período abrangente, apresentam traços divergentes como no caso de seus escritores patronos.

Fica a cargo da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880), do ilustre Machado de Assis, o grande expoente do Realismo no Brasil, que veio quebrar de vez com os vieses do Romantismo. Deixando de lado o retratar das marcas melancólicas e subjetivas do ser, para representar a sociedade em sua plena realidade.

O Naturalismo, além de fazer essa representação fiel da sociedade, pretende ir um pouco mais à fundo. Introduzido na literatura brasileira pelo maranhense Aluísio Azevedo, com sua obra O Mulato (1880), a vertente naturalista influenciada pelos ideais científicos e filosóficos como o positivismo e o darwinismo, passa a analisar os comportamentos do indivíduo influenciados por sua natureza animal e o meio ao qual está inserido.

Enquanto o Realismo objetivava-se em fazer uma representação da superfície da realidade social, demonstrando as vivencias rotineiras do humano, o Naturalismo se aprofundava mais. Além de retratar a realidade em sua plenitude, fazia uma análise detalhada daquilo que, costumeiramente, ficava nas beiradas ou no pano de fundo da sociedade, ou seja, os autores adeptos da corrente naturalista propunham-se a apresentar em suas obras os aspectos considerados sórdidos encontrados no meio social. Como relações inter-raciais, relações homoafetivas, questões de sexualidade, a miséria, a violência, a doença, adultério etc.

Em um período onde tais questões sociais eram duramente reprimidas pelos seus governantes e líderes religiosos, o Naturalismo demonstrava sem medo e sem dó a realidade banal da era oitocententista. Sem a preocupação do choque que suas obras provocavam na sociedade da época. Conquistando inúmeras críticas árduas à medida que ganhava repercussão no meio literário, e consequentemente virando uma literatura do meio marginal.

No Realismo o ser era demonstrado em sua carga humana simples, na ramificação naturalista o indivíduo é descrito em seu aspecto mais bestial, mais brutal. Descortinando a verdadeira essência do humano, sendo um animal regido pelo seu meio de convívio e as ditas “leis da natureza” e como tal, agia da forma que lhe convinha melhor, sem o pensar das consequências que podiam surgir mediante suas ações realizadas. Segundo Bosi (2017):

 

O Realismo se tingirá de naturalismo, no romance e no conto, sempre que fizer personagens e enredos submeterem-se ao destino cego das “leis naturais” que a ciência da época julgava ter codificado ... (BOSI, 2017, p. 178)

 

Assim, é perceptível as diferenças encontradas nas duas escolas literárias. Mesmo que por diversas vezes venham a serem tratadas de forma conjunta, nomeada de escola ou período Real-naturalista, é de suma importância trazer em discussão as particularidades de cada uma, ressaltando o viés mais científico e a descrição das patologias humanas, encontradas nas produções de cunho naturalista. Todavia, concordamos com o pensamento teórico de prestigiar ambos estilos literários em conjunto pois, nasceram no mesmo contexto sócio-histórico brasileiro, com a mútua preocupação em fazer uma pintura fiel da realidade.

Sucessor do Romantismo, a era Real-naturalista surgiu de grandes efervescências políticas e sociais brasileiras, que foram as grandes responsáveis pela ruptura entre os estilos. Trazendo em cena a preocupação das classes sociais inferiores a monarquia, que reivindicavam um governo democrata e pedia o fim do sistema escravocrata.

 

... acelera-se a decadência da economia açucareira; o deslocar-se do eixo de prestígio para o Sul e os anseios das classes médias urbanas compunham um quadro novo para a nação, propício ao fermento de ideias liberais, abolicionistas e republicanas. (BOSI, 2017, p. 173)

 

Nutridos desses campos ideológicos em proclamar a República e a aniquilação da escravidão do território brasileiro, emerge uma grande gama de autores defensores de tais ideais. Os disseminando por meio de grupos intelectuais, revistas, jornais, periódicos etc., fundados pelos mesmos, que por diversas vezes alfinetavam a monarquia e seus apoiadores. Dos quais podemos destacar Aluísio Azevedo e Adolfo Caminha.

A ânsia de rebeldia presente no espirito do jovem, com a pretensão de desconstruir as idealizações arcaicas sem comprovações concretas, vem se fazer presente na alma dos escritores naturalistas. Pois, esses escritores começaram sua carreira em plena juventude, procurando construir um mundo com percepções futurísticas de formas governamentais inovadoras e abandonar as imposições da realeza e do clero.

 

Escritores como o paulista Julio (sic) Ribeiro, o maranhense Aluísio Azevedo e o cearense Adolfo Caminha entendiam, como Zola, que a política do romance naturalista só poderia ser republicana. Todos eles eram homens de imprensa e, como tais, combatiam pelas causas da liberdade e da República nos jornais das cidades, especialmente no Rio de Janeiro, num trabalho intenso de construção de um dissenso político, moral e estético que corria paralelo (e de muitos modos de maneira independente) à construção do republicanismo ligado aos cafeicultores do oeste paulista. (MENDES e CATHARINA, 2009, p. 115 – 116)

 

Predominantemente nordestinos, os adeptos naturalistas vinham da província para tentar levar a vida na corte. Encontrando, por diversas vezes, dificuldades em se sustentar financeiramente, fazendo de sua produção literária o meio pelo qual passavam a sobreviver de forma limitada. Destinando a pouca renda que obtinham para manterem o tom de vida boêmio. Como discorre os já citados Mendes e Catharina (2009, p. 119 – 120):

 

Os boêmios garantiam a sobrevivência com um trabalho irregular nos jornais do Rio. A renda, magra e intermitente, mal dava para pagar o aluguel.

(...)

Embora não fizessem parte dos desvalidos e excluídos da sociedade carioca do final do século XIX, os boêmios (naturalistas, parnasianos ou de outras denominações) às vezes compartilhavam com eles a fome e a penúria, trocando versos, crônicas e artigos de fundo por comida.

 

No Brasil de 1880, pluralizado etnicamente, os romancistas, contistas, cronistas etc., do período Real-naturalista, construíam um panorama da realidade social brasileira mostrada por meio de um olhar periférico, ou seja, “viabilizou o ingresso na literatura de uma população considerada (...) indigna de representação social e literária: negros, pobres, mulatos, capoeiras, desocupados, gays e lésbicas. ” (BUENO, 1992 apud MENDES 2008, p. 200).

Com uma narrativa que buscava prestigiar os oprimidos, retratar as mazelas e patologias humanas, mostrar a veracidade de fatos comprovados cientificamente através das teorias desenvolvidas por renomados pesquisadores, e afirmar a ilegalidade do Império, os real-naturalistas conseguem a atenção da massa populacional e provoca o grupo clerical, a família real e a alta burguesia. Ganhando a perseguição e crítica de assíduos defensores de tais instituições.

Essa escrita se mostra adequada à um período reboliço onde maioria da sociedade procurava se libertar das amarras opressivas das classes dominantes, buscando almejar a igualdade e maior participação nas escolhas governamentais. Se tornando uma literatura populacional por tratar de temas banais do cotidiano, ganhando grande apresso das páginas dos meios de divulgação ao construir situações escandalosas que envolviam o mundo burguês.

  Adolfo Caminha e Aluísio Azevedo sãos dois grandes exemplos da literatura Real-naturalista que, ao descortinar o estilo de vida dos prestigiados pelo sistema político-social das últimas décadas dos anos 1800, revelava que esses defensores dos ditos “bons costumes” da sociedade também os transgredia e mantinham ligações um tanto sórdidas.

Na obra A Normalista (1893), do senhor Caminha, o narrador expõe a relação incestuosa entre João da Mata e Maria do Carmo, sua afilhada, e acaba a engravidando. Deixando claro as subversões escandalosas que ocorriam por baixos dos panos da sociedade provinciana do Ceará. Já em O Cortiço (1890), de Aluísio, as entrelinhas nos trazem o tema do adultério na figura de Estela, que traía seu marido o Barão Miranda com um homem bem mais jovem.

Os romances da trajetória real-naturalista brasileira se apresentam como uma produção ligada à representação da classe marginalizada socialmente. Com a autoria de figuras nordestinas que, mesmo após a desvalorização da região, com a transição da produção agrícola voltada para o sul do país, conseguiram feitios marcantes em suas terras natais e se entretiveram a se aventurarem pela corte para proliferarem suas ideias no ponto central da sociedade para onde todas as coisas convergiam.

 

O romance naturalista brasileiro, que também vem do nordeste, do mesmo modo se apresenta como um romance sem Deus. O romance naturalista era então a ficção de um grupo emergente no país: aqueles que não acreditavam em Deus, aqueles que achavam a monarquia e o imperador ilegítimos, aqueles que não eram da Corte, aqueles que tinham que trabalhar para viver. (MENDES, 2008, p. 201)

 

Como Mendes (2008) afirma, os romancistas real-naturalistas abdicavam da autoridade religiosa da época, que era fortemente enraizada na população, e sustentavam seus pensamentos com o alicerce do cientificismo e da filosofia, que passava a ganhar prestigio e valorização por todo o mundo. Enfrentando a reprimenda do meio editorial da época e suas críticas ásperas esses autores conseguiram se firmar como um dos principais meios revolucionários da época, procurando transgredir com os valores vigentes do período oitocentista.

Dessa forma o Real-naturalismo rebuliu com os pilares do Brasil Imperialista, contribuindo para a disseminação dos ideais republicanos e abolicionistas. É notório que contribuiu para direcionar a nação ao caminho do pensamento cientifico e filosófico, trazido da Europa, adentrando o país à uma nova era de liberdade e amplitude democrática.

 

2.2    As aventuras de Adolfo Caminha por Sânzio de Azevedo

 

Para este tópico, acerca dos aspectos da vida e produção literária de Adolfo Caminha, é seguido como aporte teórico Sânzio de Azevedo (1999). O qual dedicou uma obra completa unicamente para discorrer sobre esse autor Real-naturalista do Ceará.

No dia 29 de maio de 1867 nasce na cidade de Aracati, no Ceará, Adolfo Caminha, que viria se firmar como um dos autores canonizados da literatura brasileira, em especial do movimento Real-naturalista. Adolfo, assim como seus irmãos, eram frutos de uma relação avuncular, ou seja, a união entre tios (as) e sobrinhas (os).

Com a morte de sua mãe, a Dona Maria Firmina Caminha, Adolfo é mandado para a capital cearense aos cuidados de alguns parentes. Ao completar 13 anos é enviado junto com seu irmão Abdon para o Rio de Janeiro, onde passa a ser responsabilidade de Álvaro Caminha, que compartilhava laços parentescos peculiares com os meninos, pois era tio pelo lado materno e primo pelo lado paterno.

A sua formação educacional de cunho militar adquirida na Escola da Marinha marcaria sua vida pessoal e profissional. Uma vez que, o cotidiano abordo de embarcações e o árduo treinamento das normas vigentes da Marinha Brasileira Imperial, rodeiam grande parte de suas obras e tematiza o seu romance de maior sucesso, Bom-Crioulo (1895).

Segundo Azevedo (1999), Adolfo Caminha era um aluno de temperamento difícil, preferindo os estudos a companhia dos amigos. E desde cedo demostrava apoio a Abolição da Escravatura e a República, como é percebido no trecho:

 

Ainda como aluno da Escola de Marinha, em junho de 1885 – e não em 1884, como registram Sabóia Ribeiro e Lúcia Miguel-Pereira -, numa sessão solene em homenagem a Victor Hugo, falecido um mês antes, Adolfo Caminha, representando a Fênix Literária, faz um discurso na Escola, na presença dos colegas, de pessoas da sociedade carioca, do Diretor, Almirante Fortunato Foster Vidal, e até do Imperador D. Pedro II. É então que, ao lamentar o desaparecimento do grande poeta e romancista francês, exclama, a certa altura: “Ah, não poder ele assistir à nossa marcha triunfal para a Abolição e a República! ” (AZEVEDO, 1999, p. 22)

 

A referida Fênix Literária era um grupo cultural da Escola da Marinha, que elaborava uma revista de mesmo nome, para a publicação de textos de autoria dos alunos. É nessa revista que Adolfo começa a escrever seus primeiros textos. No mesmo ano do discurso a favor da Abolição que Caminha pronunciou na presença do próprio D. Pedro II, Adolfo revolta-se contra o castigo da chibata, que vigorava em toda a Marinha da época, chegando a produzir um manifesto publicado em um jornal de grande amplitude, o Gazeta de Notícias. Causando grande desconforto no diretor da escola, que o ameaçou de expulsão, porém sem realizar tal punição.

Em 1887 são concebidos ao público seus primeiros livros nomeados Vôos Incertos (conjunto de poesias) e Judite e Lágrimas de Um Crente (novela romântica). São livros raríssimos, que se perderam no decorrer do tempo e nunca chegaram a ser reeditados para a contemporaneidade. Sobre a coletânea de poesias reunidas em Vôos Incertos, Azevedo (1999, p.28) opina o seguinte:

 

O problema é que Adolfo Caminha, cuja verdadeira vocação seria o romance, se nos versos que ainda haveria de compor, na década de 1890, jamais se alçaria à condição de poeta apreciável, muito menos nesses poemas da juventude.

 

As produções poéticas de Adolfo, tanto da fase jovem como da adulta, nunca conseguiram firmar o nome do autor no meio literário da poesia. Em Judite e Lágrimas de um Crente são narrados dois contos distintos. Judite discorre sobre uma jovem que é forçada pelo seu irmão, de nome Alberto, a se casar com um comendador, que já se encontra na fase da velhice. Certo dia, o velho comendador é induzido a sair de casa para resolver um conflito entre seus escravos. Nesse interim, Alberto convida seu amigo Edmundo à casa, pelo qual Judite acaba se apaixonando perdidamente. Ao regressar para casa, o comendador encontra a moça aos beijos com Edmundo e dispara o revolver, Judite se estatela no chão e Edmundo consegue fugir. Judite sobrevive, sendo expulsa da casa junto com Alberto, e passam a viver com um padre. Já Edmundo embarca para os Estados Unidos.

Lágrimas de um Crente vem abordar a história de um homem que no hospital começa a discorrer sobre sua infância, ao ser adotado por uma prostitua, a qual amou como uma verdadeira mãe. Relatando sua decepção amorosa por uma moça, filha de família rica, da qual é impedido a manter relações por ser um rapaz desprovido de riquezas. Triste, para mostrar seu valor, parte para a Guerra do Paraguai, da qual, ao voltar todo dilacerado, é notificado de que seu amor havia se tornado freira e falecido.

Com 21 anos, Adolfo é promovido a segundo tenente, e em 1888, ao alegar motivos de saúde perante a Marinha, consegue uma transferência para Fortaleza. Ao chegar à capital cearense começa a participar, junto com alguns amigos, do Centro Republicano. Nesse momento, Adolfo começa a manter relações com uma mulher de um oficial do exército, provocando polêmica entre militares e civis, que viria complicar sua vida. Sendo convocado uma vez a prestar presença ao Ministro da Marinha, no tempo da monarquia, e outra vez perante o novo Ministro da Marinha, já na República, que pretendiam separar Caminha de sua amada, que atendia pelo nome de Isabel Jataí de Paula Barros. Enfurecido pelas medidas implementadas por seus superiores, Adolfo Caminha pede demissão da Marinha e é designado como manuseador da Tesouraria da Fazenda em Fortaleza.

                                                                                         

GUILHERME Studart, ao tratar do ano de 1891 no tocante ao jornalismo, diz, a respeito de um periódico que circulou nesse ano: “Revista Moderna” – publicação mensal, fundada em Fortaleza no mês de janeiro por Adolfo Caminha. (AZEVEDO, 1999, p. 39)

 

Caminha ao fundar esse periódico pretendia criticar obras de caráter literário no Ceará, pois ele jugava que ainda não existia uma crítica especializada em determinados assuntos. Essa revista foi palco de uma acalorada polêmica entre Adolfo e Antônio Sales, que ao redigir artigos criticando o livro de poesias de Sales, intitulado Versos Diversos, rendeu uma série de repostas e trepicas entre ambos os autores.

Algum tempo depois, mais precisamente um ano após essa polêmica, Antônio Sales convida Caminha para fazer parte de um grupo relacionado aos temas das Letras e das Artes, batizado como Padaria Espiritual. Curiosamente, os aspectos que regiam a organização desta instituição seriam concebidos por seus idealizadores como as funções trabalhistas exercidas dentro de uma padaria por cada um de seus componentes, assim opina Sânzio de Azevedo:

 

[...] a Padaria Espiritual se destinava, como é dito no seu Programa de Instalação, a “fornecer pão de espírito aos sócios em particular e aos povos em geral”; os sócios eram chamados de “padeiros”, sendo “amassadores” os demais componentes da sociedade. As sessões se chamavam “fornadas” e se realizavam naturalmente no “Forno”. O jornal dessa alegre “sociedade de rapazes de Letras e Artes” seria batizado, coerentemente, de O Pão. (AZEVEDO, 1999, p. 59)

 

Adolfo foi expulso em definitivo dessa organização ao falar que o grupo teria se desgastado e consequentemente se tornado decadente.

Decidido a voltar de vez para o Rio de Janeiro no ano de 1892, Caminha ainda é um funcionário público da República, e decide nortear sua vida através da literatura. Fazendo sua grande estreia no pilar romanesco da literatura brasileira ao publicar em 1893 o seu primeiro romance A Normalista. Que chamaria atenção dos grandes críticos literário da época, onde muitos viram uma retratação indecente da cidade de Fortaleza. Caminha se inteira totalmente do Naturalismo para abordar os aspectos considerados imorais contidos na obra. Ao ser feita sua leitura notamos como a estética naturalista contribui para a exposição aprofundada dos costumes tidos como “vulgares” dos personagens. A exemplo do principal desfecho da trama que é a relação quase que incestuosa, que resulta em uma gravidez, entre os personagens João da Mata e Maria do Carmo, esta última sendo afilhada de João da Mata.

Escrito anteriormente que A Normalista, entretanto editado no Rio de Janeiro somente em 1894 como afirma Azevedo (1999), No País dos Ianques é um relato da viagem que Adolfo Caminha realizou abordo do cruzador Almirante Barroso em 1886. O autor, nessa obra quase como um diário de bordo, objetiva-se em narrar os acontecimentos e as localidades visitadas durante o percurso da viagem que teria como ponto final os Estados Unidos.

Como já foi visto anteriormente, Adolfo se aventurou na poesia, no conto e estreado no romance. Todavia, cria uma nova polêmica ao adentrar mais uma vez na crítica, agora com um livro titulado Cartas Literárias, publicado em 1895. Que reunia artigos do autor comentando favoravelmente ou contraditoriamente acerca de outros escritores. Dentre as principais críticas, destaca-se a opinião de Caminha sobre os adeptos do Simbolismo, o taxando como um movimento estranho e vago.

No mesmo ano de Cartas Literárias, Caminha traz à tona a obra que se consagraria como a sua principal e uma das mais importantes do movimento Real-naturalista, nomeada Bom-Crioulo. Rodeada de polêmicas e alvo de críticas maliciosas, foi etiquetada como literatura “nojenta” e pornográfica, por ter como tema norteador a homoafetividade entre dois seres masculinos. Embora o contexto de práticas homoafetivas já tinham sido tratadas anteriormente em obras brasileiras, dentre os principais exemplos vale citar O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, e O Ateneu (1888), de Raul Pompeia. Um dos motivos para maior tom de alarde da sociedade recém pós-abolicionista da época, foi mostrar uma relação inter-racial, apresentando um negro no papel de ativo, que tinha como objeto de desejo um jovem branco, que exercia o lugar de passivo.

Com a má recepção que o romance recebeu, através das críticas feitas por renomadas personalidades da época, recaiu sobre o autor a afirmação de que ele compartilhava das predileções sexuais dos personagens principais, Amaro e Aleixo. E que também nos reporta a hipótese de que Adolfo estava narrando fatos presenciados por ele no seu período de trabalho na Marinha Imperialista pois, os dois personagens começam a manter a relação homoafetiva no ambiente de uma corveta em alto mar.

Um ano após a publicação de Bom-Crioulo, começa a circular no Rio de Janeiro a Revista Moderna, com direção exclusiva de Adolfo Caminha. A revista durou por um curto período, mantendo-se ativa por nove meses. Em 1897, nessa mesma cidade, no primeiro dia do mês de janeiro, vem a falecer esse ilustre escritor com apenas 29 anos de idade, acometido pela tuberculose, doença que contagiou e levou à morte vários outros nomes da literatura, não só brasileira como mundial.

Depois de sua morte, começa a circular seu último romance Tentação, mesmo sendo datado de 1896 e não 1897. Nessa última obra, como diversos estudiosos opinam, o autor deixa o Naturalismo um pouco de lado, e investe no Realismo. A narrativa circula em torno de um casal, Evaristo de Holanda e Adelaide, que vivem em Coqueiros na província e sentem o desejo de começarem uma nova vida na Corte. Por intermédio de um amigo de Evaristo, o então Luís Furtado, eles se mudam para a capital do então Império de D. Pedro II, passando a viver na casa de Luís.

Decorrendo a história, Evaristo arranja um emprego, e Adelaide passa o tempo com a esposa de Luís Furtado, ainda na casa deste último. Evaristo sente apatia pela monarquia, e começa a frequentar um grupo pró-república (Seria um traço característico do próprio autor? Que também era pré-republicano?). Ambos os casais, Evaristo Holanda e Adelaide; e Luís Furtado e D. Branca, vivem juntos durante um bom tempo. Determinado dia, ao irem passear pelo Jardim Botânico, Luís Furtado e Adelaide ficam para trás, e se beijam, vale lembrar que Luís Furtado já vinha seduzindo Adelaide desde o momento que esta passa a morar em sua casa. O romance termina com Adelaide sentindo alguns males e assim, seu marido, que não tem conhecimento do ocorrido, decide retornar à Província.

Adolfo Caminha teve uma vida curta, obras que não receberam a devida atenção na época de publicação e críticas fervorosas, tanto sobre sua vida pessoal como profissional. Com um caráter bem rebelde, para os padrões de seu tempo, posicionou-se contra as diretrizes da Marinha e da Monarquia. Inúmeras de suas produções, que variavam entre contos, poesias e romances nunca chegaram aos nossos dias, se perdendo no infinito túnel do tempo. Mesmo assim, conseguiu se consagrar como um dos grandes nomes da nossa literatura. E hoje, suas obras acessíveis, configuram como um valoroso objeto de estudo.

 

 

 

 

 

 

3      Do erotismo humano

 

Neste terceiro capítulo, buscamos refletir sobre o erotismo humano como um todo, que abarca as mais diversas predileções eróticas. Mostrando o aderir de consciência do instinto erótico do ser humano, que conseguiu distinguir o lado prazeroso da relação sexual, do lado unicamente reprodutor. Em 4.1 O erotismo segundo a ótica Batailliana, é seguido os pressupostos teóricos de Georges Bataille sobre a erotização humana, transcorrendo desde sua evolução do passado animal da espécie, onde o sexo ocorria de forma livre, à construção dos interditos que levaram a repreensão da sexualidade. No item 4.2 Sobre o erotismo sagrado, discorremos sobre as convulsões da carne, que se configura como das características marcantes do erotismo, e a interligação do sacrifício das oferendas sagradas ao momento de cópula sexual do Homem. Já no tópico 4.3 O Homoerotismo/Homoafetividade, discutimos os termos inovadores que vieram desvincular a carga pejorativa embutida na palavra homossexualismo, para se referir às relações entre indivíduos do mesmo sexo. Mostrando o caráter erótico e afetivo envolvidos na relação homo e sua construção sociocultural como uma das mais variadas formas de erotização humana.

 

3.1    O erotismo segundo a ótica Batailliana

 

A questão do jogo erótico que enlaça as pessoas da vida real ou personagens fictícios da literatura, cinematografia ou qualquer outro tipo de meio artístico, vem quebrando fronteiras, ganhando espaço entre os estudos acadêmicos que envolvem tal tema, considerado por diversos, como algo polêmico.

Bataille em sua célebre obra O Erotismo vem conceber esse aspecto presente em todos os seres humanos como uma manifestação cultural, variável no tempo e no espaço. Abordando como esse jogo de sensações passa a ganhar diversos significados nos mais diversos momentos, seja ele sagrado, corporal ou do coração. Mostrando também sua evolução desde os remotos tempos do homem das cavernas ao período que o homem ganhou consciência de si e do que o circunda como um todo.

Vários estudiosos comentam que o homem primitivo/animal deixou sua animalidade de lado no momento que começou a fabricar ferramentas que garantiam sua subsistência, evoluindo com o decorrer do tempo, para realizar finalidades simples. E logicamente atribuíram o contexto do trabalho, onde os utensílios produzidos por esses homens, facilitavam as atividades rotineiras atribuídas a eles. Bataille nos revela que ao idealizar o trabalho, ao possuir consciência da morte e de sua sexualidade, o homem forjou os chamados interditos, em uma linguagem mais simples, proibições. “Esses interditos recaíram essencialmente – e certamente – sobre a atitude para com os mortos. É provável que tenham tocado ao mesmo tempo – ou à mesma época – a atividade sexual. ” (BATAILLE, 2017, p. 54).

O referido autor, explica que o erotismo humano decorreu desse momento de transição de animalidade humana para o ser humano consciente. Pois, ele emergiu do ambiente animalesco com a “sexualidade envergonhada”, ou seja, começando a cobrir suas genitálias. Estabelecendo um iniciar para os interditos no instante em que os homens primitivos passaram a tratar seus mortos de modo particular, os atribuindo interdições, ao começar a sepulta-los como forma de protege-los da violência dilaceradora dos animais carniceiros e da violação por outros humanos, que figura como um interdito para com esses mortos. No caso, passa a ocorrer a proibição em violar o corpo do morto.

Ao estabelecer a prática trabalhista, que veio se configurar como forma de interdito contra a violência humana que predominava no tempo livre dos homes, onde estes passariam a gastar seu tempo trabalhando para conseguir alimentos e abrigos, deixando de adquirir esses recursos através da força física imposta a outros.

Nesse momento, o homem passou a reprimir sua sexualidade, concretizando o interdito da liberdade sexual. Tendo em vista que a total autonomia de uma vida sexual desprovida de reprimendas, onde a prática poderia ser realizada a qualquer momento e lugar, passaria a atrapalhar sua vida trabalhista. Assim, os humanos começaram a procurar por momentos e locais propícios para acasalarem.

Mais tarde, no tempo de dominação da religião cristã, como sabemos, a prática sexual humana, sem a pura finalidade de reprodução, foi proibida pelo cristianismo. E como consequência, inúmeros casais tiveram complicações em sua união conjugal, uma vez que o prazer de um ou de outro não era levado em questão. Acarretando, muitas vezes, na satisfação sexual de apenas um indivíduo, que geralmente acabava sendo o homem. Que via sua esposa somente como fonte geradora de seus filhos, e por ser o ativo da relação, daria por encerrado o coito sexual, assim que derramasse seu sêmen, sem se preocupar com a satisfação prazerosa da mulher.

 

Mas, de qualquer maneira que se a tome, a sexualidade humana só é admitida dentro de limites para além dos quais ela é interdita. Há, finalmente, em todos os lugares, um movimento da sexualidade em que a sordidez entra em jogo. A partir de então, não se trata de sexualidade benéfica “desejada por Deus”, mas sim de maldição e de morte. (BTAILLE, 2017, p. 257).

 

Para punir as pessoas que se desviavam do “caminho virtuoso” da sexualidade “desejada por Deus”, aquela que tem como único objetivo a reprodução, o cristianismo instaurou uma série de interditos. Esses interditos que normatizavam a atividade sexual, detalhava como e com quem era permitido manter relações sexuais. Logo, práticas homoafetivas, monogamia, orgias e sexo antes ou fora do casamento foram rigorosamente proibidas. Sendo uma questão religiosa, essas interdições serviram para a religião cristã punir diversas religiões que mantinham costumes diferentes. Assim, esse sexo normatizado, é concebido como o dos animais, que copulam unicamente para a sustentação da espécie.

 

O erotismo em seu conjunto é infração à regra dos interditos: é uma atividade humana. Mas ainda que ele comece onde termina o animal, a animalidade não deixa de ser seu fundamento. (BATAILLE, 2017, p. 118).

 

O homem sentiu fascinação ao transgredir os interditos de cunho sexual, passando a sentir nessa transgressão mais prazer por estar infligindo algo altamente proibido. Isso nos leva a imaginar a possível origem para nossa tendência por relacionamentos proibidos. Também evidencia que somente pela transgressão, principalmente quando essas práticas concebidas como sórdidas começaram a ser realizadas mais explicitamente, certos tabus caíram por água a baixo.

O ser humano, como o único animal consciente que conseguiu fazer da sua sexualidade algo erótico, ligou o erotismo a consciência do ser que deseja satisfazer sua necessidade voluptuosa de chegar ao orgasmo, necessidade que não está presente nos animais inconscientes. Em seu conceito mais puro, os indivíduos conscientes em uma rede erótica, pretendem atingir o prazer de ambas as partes por intermédio da relação sexual. Nesse coito sexual, que conscientemente não visa a reprodução de uma espécie, os pilares que a regem estão presentes na crise do ser, que correspondem a continuidade e descontinuidade.

A continuidade e a descontinuidade sendo dois dos pilares que regem o erotismo, encontrados mais precisamente na crise do ser, correspondem da seguinte maneira: o ser descontinuo é aquele que se encontra sozinho, e o ser continuo é a fusão resultante entre dois seres descontínuos. Para exemplificar imaginemos nas células reprodutoras, o espermatozoide e o óvulo, sozinhos eles são descontínuos, todavia, ao se fundirem, eles deixam de existir e dão origem a algo novo, pois estarão dando continuidade a uma nova forma de vida.

Entretanto, no que tange à uma relação sexual que não tem como finalidade a reprodução da espécie ou sua continuidade, tendo como puro objetivo a sensação de prazer, os seres descontínuos tornam-se contínuos no momento de cópula sexual, na trama de possuir e ser possuído. Passando a ocorrer a dissolução do eu, que diz respeito a um único indivíduo se juntar sexualmente com outro, para que assim deixem de serem partes independentes e individuais, se tornando uma única parte envolvida em uma sensação propensa a atingir o gozo sexual recíproco. E ao se separarem do corpo um do outro, tonam-se novamente descontínuos.

Segundo Bataille (2017, p. 41) “Toda a operação erótica tem por princípio uma destruição da estrutura do ser fechado que é, no estado normal, um parceiro do jogo. ” Antes de se conectarem um ao outro sexualmente, o desnudamento é a porta primordial que se abre para esse momento de fusão, onde o ato de tirar a roupa seria como está disposto a mostrar seu eu interior a esse alguém para em seguida ser preenchido por ele, deixando de ser um ser fechado para se abrir ao outro.

O ato em si de possuir o outro se concretiza com um certo grau de violência. Uma violência ligada a convulsão das carnes, favorecida pela busca do prazer que exclui a personalidade sã dos indivíduos, dando lugar a uma nova que procura incontrolavelmente pelo gozo prazeroso. Essa violência prazerosa associada a convulsão das carnes provoca uma desordem, que por sua vez é correlacionada com a violência da morte. Salientando que experimentar do desfalecimento recorrente do chegar ao clímax do coito sexual, é relativamente igual a experimentar do último suspiro de vida. Bataille define esse conceito da seguinte forma:

 

A atividade erótica não tem sempre abertamente esse aspecto nefasto, não é sempre essa fissura; mas, profundamente, secretamente, essa fissura, sendo aquilo que é próprio à sensualidade humana, é a fonte do prazer. O que, na apreensão da morte, retira o fôlego, de alguma maneira, no momento supremo, deve cortar a respiração. (BATAILLE, 2017, p. 129).

 

Essa fissura se representa justamente o momento de corte de fôlego da morte e o do chegar ao clímax do gozo sexual. Daí o paradoxo entre morte e erotismo, que corresponde ao cessar da respiração no auge dos dois momentos. E nos permite fazer a hipótese, que em nossos devaneios eróticos, toda vez que atingimos o deleite prazeroso do ato sexual, experimentamos um pouco da morte. Pois, essa fonte prazerosa decorreria do cessar o fôlego no momento voluptuoso do gozo.

Entretanto, como se apresenta a estrutura de um ser que se propõe ou é alvo do desejo de outro? Nas regras que tangem o erotismo, o objeto de desejo ou objeto desejável são termos que nomeiam esse ser, que se caracteriza como o condutor do nascer de uma ação erótica. Pois, sem esse objeto, o erotismo não existiria. Ao falar no objeto de desejo, ligeiramente nos induzimos a pensar que esse ser é dotado de uma beleza excedente. Todavia, o que seria a beleza para você e um ele? Bataille concebe a beleza como algo subjetivo, variável de um para outro. O que pode ser bonito para você, pode ser feio para um outro e vice e versa.

Os objetos de desejo procedem como “objeto desejável” e “objeto que se propõe ao desejo de outro”. O objeto desejável seria aquele que cativou a atenção e suscitou o desejo de alguém sem se exibir explicitamente, conseguindo chamar a atenção desse outro sem o uso de ornamentos que o deixaria mais desejável. Já o objeto que se propõe ao desejo é caracterizado pelo uso desses ornamentos para torna-se mais desejável. Desse modo, tentando minuciosamente a seduzir o outro, transformando-se no objeto de desejo deste.

 

[...] a nudez de um ser definido, mesmo se essa nudez anuncia o instante em que seu orgulho dará lugar ao monturo indistinto da convulsão erótica. Inicialmente, dessa nudez, é a beleza possível e o charme individual que se revelam. É, numa palavra, a diferença objetiva, o valor de um objeto comparável a outro. (BATAILLE, 2017, p. 155)

 

Mesmo com o uso de adereços para despertar o desejo em alguém, o que prevalece em quentão é o corpo. Ao entregar-se a nudez, despojando-se desses artigos de beleza utilizados, restará somente o corpo, que agora passa a ser o centro do desejo, fascinando o outro com o seu valor subjetivo que o difere dos demais como objeto de desejo desse outro.

Despertado o desejo do outro, esse objeto passa ser alvo de investidas para ser conquistado pelo sujeito desejante, ou seja, aquele que deseja. E caso as investidas não surtam efeito, acontecendo a renegação do sujeito desejante pelo objeto desejo, pode acarretar em uma paixão violenta, que Bataille nomeia como “erotismo do coração”.

Geralmente, no erotismo do coração ocorre uma paixão tão ardente, tão excessiva, que a renegação pelo indivíduo gerador dessa paixão, desperta no outro uma tristeza que pode virar ódio. Ódio pelo fato de não poder possuir seu ser amado e preferir mata-lo do que perde-lo para outro. “Se o amante não pode possuir o ser amado, pensa em matá-lo: muitas vezes preferiria mata-lo a perde-lo. Deseja em outros casos sua própria morte” (BATAILLE, 2017).

Desenvolvido esses conceitos que englobam o erotismo em si, concebido como erotismo do corpo, que corresponde a prática sexual dos seres envolvidos no deleito sexual, e o erotismo do coração, comumente relacionado a paixão avassaladora. É cabível fazer algumas considerações sobre um outro determinado tipo de erotismo que está ligado ao mundo religioso ou sagrado. Que se estabelece por uma inter-relação entre o mundo do divino e do nefasto, com as características que regem o erotismo em si como um todo.

 

3.2    Algumas palavras sobre o erotismo sagrado    (Pensando em remover toda a parte grifada em amarelo)

 

O erotismo como manifestação sagrada nos reporta ao sacrifício religioso, que o assassinato sendo um interdito/proibição severa, encontrava nesse meio uma brecha pela qual era permitida. Comumente as oferendas para o rito sacrifical eram animais, não tão obstante, os humanos já foram. Esses seres escolhidos para o rito eram ovacionados, pois, ao ser selecionado, a população os adoravam como o objeto escolhido por um deus a uma causa maior.

No momento de destruição da vida dessa vítima, enquanto os demais estão envoltos nessa cerimônia, há a revelação do sagrado. Mostrado no instante em que a oferenda deixa a vida terrena para adentrar ao mundo divino. Nesse momento ela deixa para trás sua descontinuidade, representada pela sua existência mortal no mundo dos humanos, para adentrar a continuidade imortal do mundo divino.

 

O sagrado é justamente a continuidade do ser revelada aos que fixam sua atenção, num rito solene, sobre a morte de um ser descontínuo. Há, em decorrência da morte violenta, ruptura da descontinuidade de um ser: o que subsiste e que, no silêncio que cai, experimentam espíritos ansiosos, é a continuidade do ser, a que a vítima é devolvida. (BATAILLE, 2017, p. 45).

 

Estabelecendo essa conexão com os conceitos de continuidade e descontinuidade do erotismo de cunho sexual, remetendo a relação existente nas definições de deixar de ser descontinuo pela convulsão das carnes, que ocorre no ritual sacrifical pela violência infringida ao destruir o corpo da vítima, e a consequência dessa convulsão das carnes da vítima deixando seu corpo terreno para trás, resulta no adentrar do espirito da oferenda ao mundo divino, conquistando a continuidade do ser no meio eterno.

As orgias possuem sua ramificação originária dentro desse meio do erotismo sagrado, que ao serem realizadas, eram atribuídas ou oferecidas a divindades. Acarretando a rotulação, por intermédio do poderio da religião cristã, como cultos a Satã e bruxaria. Seu percurso parte de duas perspectivas, a dos Sabás (ligados aos rituais considerados pagãos) e de festivais agrários (ligados aos povos arcaicos).

Nos festivais agrários, a orgia, se configura como um estilo de dança pelos movimentos exercidos pelo corpo, seria como uma grande festa organizada pelos camponeses de determinado local. Julgando que essa “dança” que contagiava as pessoas com seus gracejos e seus movimentos, e as levava ao ato sexual que simboliza o crescimento da espécie humana, também era capaz de enlaçar a natureza e incentiva-la ao crescimento tal qual o correlacionado a reprodução humana.

Ao serem demonizadas pela igreja cristã e concebidas como bruxaria, essas orgias passaram ser chamadas de Sabás. O foco no prazer mútuo de um amontoado de pessoas, acarretou por uma reprimenda maior do meio eclesiástico, lembrando que a igreja se opunha fortemente a qualquer manifestação erótica. Assim, foram designados, pelo meio religioso, juízes que se encarregaram de investigar essas práticas e punir seus envolvidos.

No que tange o erotismo em si, as orgias mantêm seu teor erótico por apresentarem a perca da consciência sã do indivíduo para chegar ao momento de volúpia do clímax sexual, porém em um excesso demasiado acarretando no envolvimento de várias pessoas, que consequentemente leva a uma violência exacerbada.  Onde seu contágio explosivo ameaça indistintamente todas as possibilidades de vida (BATAILLE, 2017).

Os conceitos de erotismo sagrado e erotismo sexual ou do corpo, juntos complementam-se para entendermos como essa aptidão exclusiva da espécie humana se transforma no tempo e no espaço. Permitindo suas diversas interpretações em cada aspecto cultural humano existente.

 

3.3    O Homoerotismo/Homoafetividade

 

Em uma época um tanto obscura da espécie humana, a relação entre pessoas do mesmo sexo, como visto anteriormente, foi alcunhada como perversão e crime hediondo contra as doutrinas sagradas do cristianismo, passando a ser nomeada, por volta do século XIX, como homossexualismo. Fundando cientificamente a caricatura do ser homossexual, e este passa a receber toda uma carga psicológica que o concluía como indivíduo portador de traços doentios que o desviava da heterossexualidade.

Com o caminhar da carruagem do tempo, e devido as inúmeras conquistas almejadas por esse grupo marginalizado na sociedade global, as expressões “homossexualismo” e “homossexual” estão tendendo a cair em desuso. Sobretudo, pelos estudos acadêmicos inovadores que enlaçam esses temas, começando os nomear como “relações homoafetivas”, “homoafetividade” ou ainda os revolucionários termos “homoerotismo” e “homoerótico”.

Para Costa (1992), “Homoerotismo é um termo usado por Sandor Ferenczi, psicanalista húngaro, contemporâneo de Freud, para discutir o tema da homossexualidade. ” O autor discorre que o termo “homoerotismo” é preferível a homossexualidade, ao conseguir ganhar um embarcamento maior, desrotulando toda a carga pejorativa, desenvolvida na sociedade oitocentista, embutida na expressão homossexualidade, mostrando a relação homoafetiva como algo natural da espécie humana. Principalmente quando visa estudos literários de obras homoeróticas, onde o erotismo circundante no interior da obra, muitas vezes, se configura como recurso estético.

Já Lopes (2002), prefere designar a relação homo, como “homoafetividade”, o relacionando não somente com a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo, mas com as relações de amizade existentes dentro das entidades homossociais, ou seja, organizações inteiramente compostas por indivíduos de um único sexo. Os interligando da seguinte maneira:

 

Uma política da homoafetividade busca alianças para desconstruir espaços de homosociabilidade homofobicos ou heterofóbicos, ao mesmo tempo que pensa, num mesmo espaço, as diversas relações entre homens (ou mulheres), como entre pai e filho, entre irmãos, entre amigos, entre amantes. (LOPES, 2002, p.38).

 

Ao discutir sobre homoafetividade, não estamos explanando unicamente a prática do sexo “gay”, mas analisando um campo bem maior, que enlaça reações afetivas/sentimentais entre pessoas de um mesmo sexo. E ao ser bem desenvolvido e compreendido, contribui para desconstruir a noção dominante de que as relações afetivas sem o intuito sexual entre seres humanos de um mesmo sexo, principalmente o masculino, são inexistentes ou que não possuem certo grau de sentimentalidade. Algo que sempre foi estruturado pelo conservadorismo da sociedade patriarcal, de que para ser portador de um “verdadeiro caráter másculo”, o indivíduo masculino, em hipótese alguma deveria nutrir laços afetivos com outro.

Todavia, como opina Souza (2010), o termo homoerotismo também engloba a designação proposta por Lopes, tendo em vista que, “erotismo” vem do mito grego de Eros, o deus da erotização e do amor. “Eros é o impulso que leva o homem a unir-se a outra pessoa, não só sexualmente ou por outras modalidades de amor, mas nele excitando a ânsia do conhecimento, impelindo apaixonadamente a procurar a união com a verdade”. (MAY, 1978, p. 86 apud SOUZA, 2010, p. 46).

Dentro dessa visão, da figura grega de Eros, a relação homoerótica não é algo unicamente sexual, podendo ser associada entre as noções de sentimentalismos que não visam o coito sexual, como a relação entre amigos, a afetividade mantida entre pai e filho etc. “Provavelmente, uma eventual rejeição ao termo pode estar associada ao fato de que o erotismo, no senso comum, é fortemente relacionado a questões sexuais. (SOUZA, 2010, p. 46). ” Assim, o uso dos termos homoafetividade e homoerotismo, neste trabalho, se dá de forma sinônima. Ambos, podem ser utilizados para se referir a relação sexual ou afetuosa, que envolvem pessoas de um mesmo sexo.

Localidades homossociais como colégios internos ou quarteis militares/policiais, mesmo encobertos por uma paisagem estritamente heterossexual, sempre favoreceram o florescer de relações homoafetivas. A exemplo, das obras literárias citadas na primeira seção deste trabalho, Sargento Garcia e O Ateneu. Dentro desses cenários, vemos o desenvolver de uma relação de homossociabilidade ou no popular “camaradagem”, que influenciaram a prática de prejulgamentos contra minorias, resultando nos crimes de ódio, em especial a homofobia.

O indivíduo que se assume total ou parcialmente homoeróticamente inclinado, a sociedade sempre o taxou de não possuir masculinidade suficiente para se construir no meio social como “indenitário de homem”. Mesmo para aqueles que se assumem bissexuais, capazes de manter atividade sexual com os dois sexos, sempre restou o mesmo olhar perverso e preconceituoso da maioria das pessoas de não ser merecedor dos atributos referenciativos masculinos. Explicando o motivo pelo qual inúmeros sujeitos mantem sua sexualidade reprimida, principalmente nos ambientes exclusivamente homossociais preconceituosos.

 

[...] a prática do homoerotismo é incompatível com as relações heteroeróticas. Ou seja, faz-se coincidir todas as possibilidades de expressão homoerótica com uma de suas figuras, qual seja, a do homem cuja atração por outro homem exclui a capacidade de manter relações sexuais com mulheres. Isso entretanto é uma caricatura. Não é verdade que todos os homens com aptidão para se relacionar homoeróticamente sejam incapazes de se relacionar sexualmente com mulheres. (COSTA, 1992, p. 26).

 

Ao conceber o homoerotismo, não é desenvolvido unicamente as relações de cunho sexual ou afetivo entre indivíduos de um mesmo sexo, e sim a habilidade que o ser humano possui em sentir desejo erótico pelos dois sexos. Pois, temos o conhecimento da capacidade de um homem ou uma mulher em manter relações bissexuais. Determinando o desejo erótico como algo transitório de corpo para corpo, e não possuidor de marcas estereotipadas que designam o que é ser um indivíduo homoafetivo. E ao criar o interdito na relação sexual entre pessoas do mesmo sexo, os grupos dominantes das diferentes épocas de nosso passado, objetivavam-se na repreensão do desejo erótico humano como fonte de prazer.

Ao investigar, historicamente, as relações homoafetivas, encontramos o modelo de práticas homoeróticas presente na sociedade grega clássica, atribuído como um estilo particular de educação. Consistindo em um homem mais velho, nomeado de erastes, em escolher um jovem, conhecido por erômenos, para educa-lo nos moldes vigentes da época, e por consequência, introduzi-lo na iniciação sexual, como afirma Andrade (2017):

 

Na Grécia Antiga, era comum um homem adulto ter relações sexuais com um jovem. Nessa concepção, Dover (2007) apresenta o filósofo grego Sócrates, o qual era adepto ao amor homossexual e afirmava que o coito anal correspondia a melhor forma de inspiração. A visão do filósofo quanto ao sexo heterossexual, era a de que servia apenas para procriar. Para a educação dos jovens atenienses, esperava-se que os adolescentes aceitassem a amizade e os laços de amor com homens mais velhos, para absorver suas virtudes e seus conhecimentos de filosofia. (ANDRADE, 2017, p.59).

 

Essa relação só era aceita desde que o mais jovem se relacionasse unicamente com um homem mais rico, detentor de posses significativas, este exercendo, unicamente o papel de ativo, e o outro de passivo, ambos membros livres da sociedade grega. Caso o jovem relaciona-se com um homem pobre, sem poder aquisitivo, a relação decaia aos baixos níveis da sordidade. Segundo Costa (1992), esse método veio cair em desuso após valores religiosos pagãos e cristãos crescerem de forma fervorosa e começarem a exercer forte influência na vida social, passando a reestruturar e rever os valores anteriormente erguidos.

Diante desses aspectos históricos e teóricos abordados sobre o homoerotismo e a visão de George Bataille acerca do erotismo como um movimento de sensação exclusiva da espécie humana, é determinante concluir que o homoerotismo é apenas mais uma manifestação erótica do desejo humano. Com a junção de dois seres descontínuos, enlaçados em um devaneio de sensações, tornando-se contínuos, e ao atingirem o gozo sexual de ambas as partes, tornem-se novamente descontínuo.

 Caracterizando o objeto de desejo como a escolha marcada pela subjetividade do indivíduo desejante. Nessa perspectiva, é válido concretizar que a atração sexual por pessoas do mesmo sexo não é algo degenerado, como afirmaram e ainda afirmam alguns, e sim apenas uma forma de atração que cada homem ou mulher desenvolve no seu eu interno de se juntar a um outro. Uma vez que, “o sentido do erotismo é a fusão, a supressão dos limites. ” (Bataille, 2018, p. ..)

No que tange as características que a sociedade atribui ao ser homoeróticamente inclinado do sexo masculino, geralmente considerados como efeminizados ou sem portes másculos, é um todo errado. Visto que, é evidente a existência de pessoas homoafetivas que se portam inteiramente com as diretrizes estabelecidas pelo meio social cabíveis a um homem heterossexual. Não tão obstante, nos deparamos com casos particulares de indivíduos homoeróticamente inclinados que exercem funções trabalhistas comumente associadas a exclusividade dos dotes masculinos como soldado, policial, bombeiro, jogador de futebol, etc. E vemos toda uma jornada por onde essas entidades passam para se manterem firme dentro de um desse ambientes, normalmente escondendo sua inclinação sexual por medo de ser alvo de preconceito por parte de seus colegas ou superiores.

Assim, a normatização de uma identidade masculina estabelecida pelos modos conservadores entra em colapso. Pois ao se assumir homoeróticamente inclinado, o indivíduo não está abandonando seus portes físicos ou características masculinas. Apenas afirmando que seu objeto de desejo sexual é distinto da maioria que se assume heterossexual e que veio se estabelecer, durante um longo período, como a “normal”. E que a “normalidade” ou “natural” são aspectos que mudam conforme o tempo e o local, com é compreensível ao se estudar a prática homoafetiva em diversas culturas e eras.

 

4      Bom-Crioulo: um romance homoerótico

 

4.1    Descortinando o enredo de Bom-Crioulo

 

Publicado em 1895, o romance Bom-Crioulo, com autoria do cearense Adolfo Caminha, está inserido no movimento literário Real-naturalista iniciado em 1880. Ao ser descrita uma relação homoafetiva entre dois homens, chamou bastante atenção da população e do meio literário crítico da época de publicação.

Sua narrativa gira entorno dos personagens Amaro (Bom-Crioulo), Aleixo e Dona Carolina. Com as ações desenvolvendo-se principalmente nos cenários do alto-mar, abordo de uma corveta, e na pensão de Dona Carolina, situada na Rua da Misericórdia, subúrbio do Rio de Janeiro, então capital do Império Brasileiro durante o reinado de D. Pedro II. Além de outros ambientes secundários, como o hospital onde Amaro chega a ser internado e flashbacks do seu passado.

A obra inicia-se com a descrição da corveta cortando o mar, apresentando-se decadente, sem o seu esplendor de outrora. Agora encontrando-se gasta pelo tempo “singrando águas da pátria, quase lúgubre na sua marcha vagarosa; ela aí vinha, não já como uma enorme garça branca flechando a líquida planície, mas lenta, pesada, como se fora um grande morcego apocalíptico ...” (CAMINHA, 2012, p. 13).

Os marinheiros circulavam livremente pela embarcação, até que ao toque da trombeta, convidando a todos, o capitão ordena que tragam os presos para receberem a devida punição, na época, ministrada em chibatadas. Herculano que, ao ser pego pelo Sant` Ana se masturbando, se envolvem em uma briga. E Bom-Crioulo que violentou impiedosamente um dos seus companheiros marinheiros que tinha ofendido o seu estimado Aleixo.

Bom-Crioulo, era um ex-escravo que conseguira sua alforria ao entrar à Marinha Imperial Brasileira, preferindo as punições exercidas neste ambiente do que na fazenda onde era servo. Desenvolvia seus atributos como marinheiro de forma satisfatória, tanto que ganhara o apelido de Bom-Crioulo, seu verdadeiro nome era Amaro. Entretanto, ficava demasiadamente violento quando exagerava em bebidas alcoólicas, metendo medo em qualquer um que o ousasse enfrentar. Principalmente por portar um físico avantajado, consequência dos trabalhos braçais de sua profissão que exigia o constante manusear de objetos pesados.

 

A bordo todos o estimavam como na fortaleza, e a primeira vez que o viram, nu, uma bela manhã, depois da baldeação, refestelando-se num banho salgado – foi um clamor! Não havia osso naquele corpo de gigante: o peito largo e rijo, os braços, o ventre, os quadris, as pernas, formavam um conjunto respeitável de músculos, dando uma ideia de força física sobre-humana, dominando a maruja, que sorria boquiaberta diante do negro. Desde então Bom-Crioulo passou ser considerado um “homem perigoso”. (CAMINHA, 2012, p. 27).

 

Já Aleixo era um rapaz de 15 anos que entrara para o corpo naval quando a corveta navegava pelas águas marítimas da província de Santa Catarina. A partir do momento que Amaro põe os olhos no jovem, começa a sentir um forte impulso de desejo sexual que nunca sentirá em sua vida por nenhum outro ser.

 

Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho. (CAMINHA, 2012, p. 29).

 

Desse momento em diante, Amaro passou a orientar o rapaz nos afazeres do cotidiano da embarcação e a defende-lo das brincadeiras de mal gosto dos demais companheiro. E após resistir fortemente ao castigo de 150 chibatas, Aleixo começa a desenvolver traços afetivos por Bom-Crioulo, se entregando aos poucos aos desejos deste.

Decorrido o primeiro contato sexual entre os dois, ainda em alto-mar, Amaro planeja uma vida juntos quando aportarem no Rio de Janeiro. Ao ancorar da corveta, alugam um quartinho na pensão de D. Carolina, uma portuguesa, velha conhecida de Amaro, situada na Rua da Misericórdia. Passando a viverem em uma exclusiva relação homoafetiva, ora realizando os serviços na embarcação, ora em terra firme na pensão. Essa convivência durou por um ano inteiro, até que Bom-Crioulo é designado a outra embarcação e passa a se desencontrar com Aleixo, pois os horários de serviço de ambos não conhecidiam.

Nesse momento, sem a presença de Amaro, D. Carolina, mesmo tendo conhecimento da relação homoerótica que envolvia os dois marinheiros, já vinha sentindo um desejo pelo jovem Aleixo, e começa a seduzi-lo até o conquistar para si.

 

Era uma esquisitice como qualquer outra: estava cansada de aturar marmanjos. Queria agora experimentar um meninote, um criançola sem barba, que lhe fizesse todas as vontades. Nenhuma melhor que Aleixo, cuja beleza impressionara-a desde a primeira vez que se tinha visto. Aleixo estava mesmo a calhar: bonito, forte, virgem talvez... (CAMINHA, 2012, p. 60).

 

Bom-crioulo desolado por não manter mais contato com seu amado, fica bêbado e se envolve em uma briga, sendo punido severamente por seu atual comandante e chega a ser mandado ao hospital em decorrência das mutilações sofrera na punição. Nesse interim, Aleixo passa a viver uma relação heterossexual, bastante acalorada, com D. Carolina na pensão. Esquecendo dos sentimentos que dividia com seu antigo companheiro.

No hospital, Amaro, enfermo, começa a entrar em desespero, imaginando o motivo pelo qual Aleixo não o procurou. Fantasiando ideias em que o seu amado esteja se relacionando com outras pessoas. Até que, ao ser surpreendido pelo Herculano, antigo companheiro da primeira embarcação em que prestara serviço, suas hipóteses acabam por ser confirmadas. Vindo a seu conhecimento a relação amorosa entre Aleixo e uma determinada mulher.

Conseguindo fugir do hospital durante à noite, Bom-Crioulo encaminha-se para a pensão que outrora fora seu lar com Aleixo. Lá acaba por concluir que, a tal amante de seu estimado grumete, era a portuguesa D. Carolina. Amaro se depara com seu ex-companheiro, “Aleixo ia saindo porta fora, tranquilamente, apertado na sua roupa azul e branca de marinheiro, a camisa decotada, a caça justa. ” (CAMINHA, 2012, p. 107). E enraivecido, com uma profunda dose colérica de ciúmes “... esbarrando com o grumete, fintou-o pelo braço. ” (CAMINHA, 2012, p. 107).  acabando por assassiná-lo com um corte de navalha no pescoço.

Mesmo publicado após a abolição da escravatura, Bom-Crioulo (1895), do senhor Caminha, conseguiu chocar uma população ainda adaptada e sustentada pelos moldes do capitalismo escravocrata. Tornando-se algo bastante avançado para os idealismos de tal período.

O referido romance ao tratar de uma relação de poderio entre branco e negro que ocorre controversamente, onde Amaro é o ativo da relação e Aleixo o passivo, aquele submetendo este aos seus caprichos sexuais, vem colaborar junto com o seu tema homoafetivo/homoerótico para dar status a essa obra real/naturalista como algo transgressor e revolucionário para o seu tempo de escrita. Logo Aleixo, branco e de olhos azuis (um verdadeiro exemplo da personalidade colonizadora europeia da época), é submisso aos caprichos do negro Amaro (o indivíduo colonizado e marginalizado na sociedade).

Para afirmar tal recepção é de suma relevância destacar o comentário do crítico José Veríssimo sobre a obra:

 

Bom-Crioulo é pior do que mal livro: é uma ação detestável, literatura à parte. Se fosse um professor de composição literária, fazendo abstração do tema escolhido, que era “baixamente repugnante”, aplaudiria certas partes pelo estilo vigoroso e claro, embora por vezes incorreto, e lhe daria uma nota de progresso. Teria aconselhado o autor, contudo a destruir o livro porque o sentimento popular atribui às obras uma semelhança com seu autor. Como quer o Sr. Adolfo Caminha que seja respeitado e estimado um homem que, sem utilidade alguma social, passou longos dias ocupados em analisar e discutir a psicologia improvável de nauseantes crimes contra a natureza e tente depois com isso despertar em nós o arrepio da curiosidade impura e mórbida? ” (VERÍSSIMO, 1895 apud HOWES, 2005, p.174).

 

Nesse fragmento da crítica feita é perceptível que ela não está apenas direcionada a obra em si, mas também ao seu escritor. Que por escrever um romance centralizado em um tema considerado como tabu para os padrões da época, não é digno de receber o respeito que um verdadeiro escritor. Vemos também que o crítico se refere à relação homoafetiva dos personagens como “baixamente repugnante”, enfatizando a não normalidade de tal relação, a classificando como algo que vai contra o natural do ser humano.

Mesmo que Caminha não tenha sido condenado à prisão, ele sofreu com a não aceitação e banalização, não só dessa obra como de outras, no meio literário. Pois, centrava em revelar os acontecimentos sórdidos que ocorriam nas beiradas da sociedade, característica não só de suas obras como de todos os outros autores de sua escola literária. Sem dúvidas, Caminha é um autor de temperamento desafiador e inovador para as diretrizes presente em sua época.

 

4.2    Homoerotismo em evidência

 

A questão do erotismo é um jogo de emoções que afeta todos os indivíduos conscientes de si mesmo e do próximo, como discutido na seção três. Desestabilizando o estigma da relação sexual vista somente como forma de reprodução da espécie, onde está passa agora a ser uma das ações para o indivíduo conseguir almejar o orgasmo voluptuoso e consequentemente o ápice do prazer sexual.

Em toda situação erótica há um objeto de desejo, responsável pelo despertar do desejo erótico do indivíduo desejante, que passa a exercer investidas para o conquistar seu tão estimado ser desejável. Na referida obra, que aqui se apresenta como objeto de estudo, notamos o despertar do desejo avassalador de Amaro por Aleixo no seguinte trecho:   (Para finalizar)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5      Conclusão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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