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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Filme INCENSO, de Marco Hanois

 

Marco Hanois, o diretor

 


 



Diretor, roteirista e artista plástico, Marco Hanois faleceu em de novembro de 2007, aos 42 anos. Como realizador de TV, Vídeo e Cinema, o artista tem no seu currículo mais de 10 curtas-metragens. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão: “Cassino Americano” (diálogos de Moisés Monteiro de Melo Neto), premiado no Festival de Vídeo de Tokyo, “Chega de Cangaço”, exibido pela TV Globo, “Objeto Abjeto”, vencedor do prêmio de roteiro do 45º Salão de Artes de Pernambuco e melhor documentário do VI Festival de Vídeo do Recife e o mais recente “Incenso”, que recebeu o prêmio de roteiro no Concurso Firmo Neto – Edição 2005, da Prefeitura da Cidade do Recife e foi contemplado com o 2º Edital do Programa de Fomento à Produção Audiovisual de Pernambuco/ 2009 para finalização.

 

 

Incenso na Escola aborda a obra de Ascenso Ferreira

 

Projeto foi contemplado no Sistema de Incentivo à Cultura de Pernambuco

 

Publicado em 16/05/2011, às 19h31

Do JC Online

Começou nesta segunda-feira (16/05), na cidade de Salgueiro, interior do Estado, o projeto Incenso na Escola, que visa o reconhecimento da literatura pernambucana, através da leitura cinematográfica de Marcos Hanois, cineasta que filmografou a poesia de Ascenso Ferreira no curta-metragem Incenso. O filme será exibido em escolas de dez cidades pernambucanas - Salgueiro, Exu, Santa Maria da Boa Vista, Floresta, Serra Talhada, Arcoverde, Nazaré da Mata, Palmares, Jaboatão dos Guararapes e Recife - e será seguido de palestra e debate com o pesquisador, doutor em Letras pela UFPE, dramaturgo e professor universitário  Moisés Monteiro de Melo Neto, que escreveu vários roteiros para cinema com Marco Hanois e fez a assistência de direção deste INCENSO, e performance poética da atriz Daniela Câmara.

Contemplado no Sistema de Incentivo à Cultura - SIC/PE, o Incenso na Escola ainda vai distribuir cinco mil cordéis inéditos para as Bibliotecas Públicas dos locais percorridos. O trabalho segue até o dia 9 de junho, quando o projeto chega a Recife, onde será realizado na Escola Estadual Ginásio Pernambucano. O Incenso na Escola é uma realização do Funcultura, Fundarpe e Secretaria de Educação/Governo de Pernambuco, com o apoio das Prefeituras Municipais/ Secretarias de Educação, da editora WMF Martins Fontes e da TV Pernambuco. 




 

 

 

SINOPSE

 

 

O diretor Marco Hanois e o assistente de direção Moisés Monteiro de Melo Neto do filme ao lado de parte da equipe

 

 

 

Numa imaginária cidade da Zona da Mata de Pernambuco, a vida, os costumes, as crenças, o jeito de ser, pensar e falar das pessoas comuns. O Coronel, o Padre, o Catimbozeiro, o Cachaceiro, a Beata e uma série de tipos que compõem um contexto cultural e humano. A voz do povo do Nordeste do Brasil, captada pelo poeta Ascenso Ferreira e adaptada para o cinema. O contraste entre o arcaico e o moderno, simbolizado pela Usina, pelo Cinema e o Zeppelin, uma sociedade dividida em classes, um povo emotivo, sentimental e místico, como os versos de Ascenso Ferreira, numa viagem ao coração da alma brasileira.

 

 

O diretor Marco Hanois e o assistente de direção Moisés Monteiro de Melo Neto do filme ao lado de parte da equipe

 

 

 Parte do roteiro de INCENSO:

 

A História se passa nos anos 30 do século 20

 

 

1 – Ext/Dia – P.G. Canavial, céu, vento balança as folhas das canas.

 

1a – Estrada de terra corta o canavial. Carro de boi carregado de cana passa pela estrada. Uma placa indica o caminho do Engenho Esperança.

 

1b – Usina de açúcar no meio da paisagem verde. Usina.

 

1c – O carro de boi segue na perspectiva da estrada.

 

1d – Canas Passam (P.V. do Carreiro).

 

2 – Ext/Dia – P.G. canavial, estrada, carro de boi visto de uma posição mais alta – correção – casa grande, o senhor de engenho observa o carro de boi que passa lá embaixo, depois vira-se  para alguém fora de quadro e grita, depois aproxima-se Zé Estribeiro.

 

Coronel – Ô Zé Estribeiro! Zé Estribeiro!

 

Zé (off) – Inhôôr!

 

Coronel – Quantos litros de leite deu a vaca cumbuca?

 

Zé (off) – 25, seu Curuné.

 

Coronel – E a vaca malhada?

 

  – 27 seu Curuné.

 

Coronel  – E a vaca Pedrês?

 

­­Zé – 35 seu curuné.

 

Coronel – Só?! Diabo, os meninos hoje não tem o que mamar.

 

3 – Ext/Dia – Mãos de menino com castanhas de caju.

 

3a – Estrada de terra do canavial. Na beira da estrada estão alguns meninos pobres que brincam de castanha. O carro de boi passa por eles.

 

3b – Um dos meninos vê algo e avisa para os outros.

 

Menino 1 – O arco-íris!

 

3c – (P.V. o Menino) Campo. Arco-íris no céu.

 

3d – Os meninos correm pelo campo. O menino 2 grita. (aproxima-se da câmera).

 

Menino 2  – Está bebendo água no riacho.

 

3e – (Contra Plano) Meninos correm na perspectiva por uma outra estrada. Uma placa indica o caminho do engenho “Estrela D`alva”.

 

Menino 3  – Vamos cercá-lo. Vamos cercá-lo!

 

3f – (Traveling de) Crianças correm e gritam uns para os outros. Passam pela estrada de terra.

 

Menino 1 – Vamos passar nele por baixo!

 

Menino 2  – Vamos passá-lo... Vamos passá-lo!

 

3g – (traveling para trás) Menino corre olhando para o horizonte, sorrindo e grita para os outros.

 

Menino 3  – Fugiu do Riacho... Subiu o Monte...

 

4 – Ext/Dia – Riacho, crianças correm até o riacho. Param de correr, cansados.

 

Menino 2  – Vamos pegá-lo... Vamos pegá-lo.

 

4a– P.P. dos meninos cansados, ofegantes (Pan).

 

4b – P.M. menino 1 salta no riacho.

 

4c – P.A. (câmera baixa) Menino 2 salta no rio.

 

4d – P.P. Água do rio sacudida pelo mergulho de menino.

 

4e – P.G. Riacho, menino 1 e 2 nadam na água do rio. Menino 3 mergulha no rio. Uma placa indica a direção para o engenho “Flor do Bosque”.

 

5 – Int/Dia – Menino estudante olha pela janela gradeada da sala de aula, ele observa os meninos brincando lá fora.

 

6 – Ext/Dia – Riacho, meninos, nadam. (P.V. do estudante).

 

7 – Int/Dia – Na sala de aula o estudante observa os meninos brincando. Quando ouve a voz do homem, o estudante vira-se assustado.

 

Professor (off)  – As armas e os barões assinalados.

 

7a – Sala de aula, diante de um quadro negro e atrás de um birô cheio de livros grossos empilhados, o professor, irritado com a distração do aluno, pergunta.

 

Professor  – Quantas orações?

 

7b – P.P. do estudante que hesita e não responde.

 

7c – P.A O professor fica impaciente e faz logo outra pergunta.

 

 

Professor – Qual é o maior rio da China?

 

7d – P.P.P. – Palmatória pendurada na parede.

 

7e – O professor risca com giz uma equação no quadro negro e vira-se para continuar a perguntar ao aluno.

 

Professor – A2 + 2AB igual a quanto?

 

7f – P.P. O estudante fica cada vez mais angustiado com as perguntas.

 

Professor (off) – Que é curvilíneo, convexo?

 

7g – P.M. Sala de aula, o professor acena para que o estudante se aproxime, o estudante obedece e aproxima-se temeroso.

 

Professor – Menino, vem dar sua lição de retórica.

 

7h – P.A. Estudante na frente do quadro negro fala decorado depois para o professor que faz uma expressão de aprovação.

 

Estudante – “Eu começo, atenienses, invocando a proteção dos deuses do Olimpo para os destinos da Grécia”.

 

Professor  – Muito bem! Isto é do grande Demóstenes. Agora a de francês.

 

7i – Detalhe das mãos nervosas do professor.

 

7j – (P.V. do professor – câmera alta) P.A. do estudante, nervoso, esforçando-se para não errar. Concentra-se e fala num francês com sotaque nordestino.

 

Estudante – “Quand le christianisme avait apparu sur la terre...”

 

7k – Plano detalhe da boca do professor.

 

Professor – Basta.

 

7l – (P.V. do Estudante – câmera baixa) P.A do professor ameaçador.

 

Professor  – Hoje temos sabatina... o argumento é a bolo! Qual é a distância da terra ao sol?

 

7m – Detalhe do rosto do estudante, suando, nervoso, não consegue lembrar, não consegue falar. Olho do estudante.

 

7n – (P.V. do estudante – câmera baixa) P.P. O professor está zangado e pega a palmatória da parede.

 

Professor – Não sabe? Passe a mão à palmatória.

 

7o – Detalhe da mão do estudante aberta, recebendo a palmada do professor.

 

7p – P.A. O professor ameaça o aluno, que tenta segurar o choro, soluçando. Ouve-se o sino encerrando a aula.

 

Professor – Bem, amanhã quero isso de cor.

 

 

8 – Int/Dia – Sino tocado pela secretária no corredor da escola. Alguns alunos passam.

 

9 – Ext/Dia – P.M. Rua, escola, alunos saem da escola para a rua. Algumas mães acompanham. O menino que apanhou passa acompanhado de uma velha. Câmera acompanha (traveling) a velha e o estudante até passarem por uma casa. Janela da casa onde se vê Dona Nina e a mulher.

 

10 – Int/Dia – Casa de D. Nina, sala, próximo à janela estão D. Nina e a mulher. Conversam. A mulher folheia uma revista e mostra à D. Nina, ao fundo, na rua algumas crianças passam, saindo da escola.

 

10a – Detalhe da revista que a mulher mostra para D. Nina. Fotos de filmes.

 

Mulher (off) – ... Mas D. Nina, aquilo que é o tal de cinema?

 

10b – A mulher segura a revista e fala em tom de censura para D. Nina que escuta atentamente, enquanto faz um trabalho manual (bordado, costura ou renda).

 

Mulher – O homem saiu atrás da moça, pega aqui, pega acolá, pega aqui, pega acolá, até que pegou-la.

 

10c – D. Nina espanta-se (pan – correção) para a mulher que continua o relato.

 

Mulher – Pegou-la e sustentou-la. Danou-lhe beijo, danou-lhe beijo, danou-lhe beijo.

 

(inclusão de uma cena de filme do ciclo do Recife, “A Filha do Advogado”)

 

10d – (close) da Mulher que continua a falar para D. Nina.

 

Mulher – ... Depois entraram pra dentro dum quarto! Fez-se aquela escuridão (...)

 

10e – Detalhe da boca da mulher falando.

 

Mulher – (...) e só se via o lençol bulindo...

 

10f – D. Nina escuta horrorizada o que a mulher está dizendo, faz uma expressão de desgosto, benze-se, pensa um pouco, olha pela janela e vê algo que não gosta.

 

Mulher (off) – Me diga uma coisa D. Nina. Isso presta pra moça ver?

 

11 – Ext/Dia – (P.V. de D. Nina) Na rua, Chiquinha conversa com alguns rapazes que cortejam-na, um deles toca-lhes os cabelos e fala coisas no ouvido dela que ri. O rapaz dá uma flor para Chiquinha.

 

D. Nina (off) – Entra pra dentro Chiquinha...

 

12 – Int/Dia – Da janela D. Nina grita para Chiquinha.

 

D. Nina – Entra pra dentro Chiquinha! No caminho que você vai você acaba prostituta.

 

13 – Ext/Dia – Rua, os rapazes afastam-se rindo, Chiquinha despede-se e caminha para casa. (aproxima-se da câmera)

 

Chiquinha – Deus te ouça, minha mãe... Deus te ouça.

 

13a – Ext/Dia – Na rua, Chiquinha passa em direção à casa, o cachaceiro observa-a e fala, não para ela, mas para o copo cheio de cachaça.

 

Cachaceiro – Branquinha, branquinha, é suco de cana caiana, pouquinho é rainha, muitão é tirana.

 

14 – Int/Dia – Copo d`água é colocado sobre a mesa. (câmera corrige revelando) o coronel que lê uma carta, um bilhete. O coronel acaba de ler, guarda o papel no envelope e deixa-o perto do copo, chama a mulher.

 

Coronel – Ô Maria! Maria! Cumpadre Cazuza vem almoçar amanhã aqui em casa (...)

 

14a – P.P.P. O coronel fala com a mulher.

 

Coronel – Que é que tu preparaste pra ele?

 

14b – Sala, Maria chega de outro cômodo, aproxima-se do marido e conversa com ele.

 

Maria ­– Eu matei uma galinha, matei um pato, matei um peru, mandei matar um cevado...

 

14c – close do coronel.

 

Coronel – Oxente, Mulher! Tú estás pensando que cumpadre Cazuza é pinto? Manda matar um boi!

 

15 – Int/Noite – Boi de brinquedo feito de barro, quarto de dormir. Na rede, o estudante é embalado pela velha.

 

Velha – ... Lindas histórias do reino da mãe d´água. ... Tomar a benção à lua nova...

 

16 – Ext/Noite – Casa Grande. Janela do quarto de dormir, luz fraca. (Câmera corrige para pátio, grupo de homens tomam café, fumam, conversam.

 

Peão – O avô de Zé Pinga-Fogo amanheceu morto na mata com o peito varado pela canela do Pé-de-Espeto.

 

16a – O vigia bebe café e conversa com os outros (depois correção para o Zé Estribeiro que também fala).

 

Vigia – O cachorro de Brabo-Manso levou, sexta-feira passada, uma surra das caiporas.

 

Zé Estribeiro – A Mula-de-Padre quis beber o sangue da mulher de Chico Lolão...

 

16b – Close de Zé Estribeiro que continua a história enquanto acende um cigarro de palha num lampeão.

 

Zé Estribeiro – ... Lá embaixo, a almanjarra, a rara almanjarra gemia e rangia, que o engenho Alegria é bom moedor...

 

17 – Ext/Dia – Pasto, bois e cavalos pastam. (pan). Bois passam tangidos por vaqueiro.

 

Vaqueiro (off) – Eh, andorinha! Eh, moça-branca! Eh, Beija-flor!

 

18 – Ext/Noite – Os homens escutam impressionados o relato de Zé Estribeiro que fala e gesticula.

 

Zé Estribeiro – ... Foi quando se deu a coisa esquisita: mordendo, rinchando e aos pulos, se pondo de pé...

 

18a – Close de Zé Estribeiro falando para os outros.

 

Zé Estribeiro – Com artes do cão, surgiu uma besta, sem ser dali não.

 

19 – Ext/Dia – Crepúsculo – Cavalos passam na contra-luz, silhuetas, patas galopando, corda é lançada, mão do vaqueiro puxa a corda, patas de cavalos, poeira.

 

Vaqueiro (off) – - Atalha a bicha, Baraúna!

- Sustenta o laço, maracanã!

 

20 – Ext/Noite – Zé Estribeiro continua o relato próximo do lampião.

 

Zé Estribeiro – ... E a besta agarrada entrou na almanjarra.

 

21 – Ext/Crepúsculo – Próximo ao engenho, homens aproximam-se com pedaços de pau, chicotes, galhos de árvores, tochas.

 

22 – Int/Noite – Tochas iluminam mãos com cacetes e chicotes. Mãos armadas com paus e galhos atacam, golpeiam. Escutam-se os ruídos dos golpes, o relinchar da besta e o bater dos cascos no chão. O sangue molha a almanjarra.

 

23 – Ext/Dia – Amanhece o dia, sol nascente. Escuta-se ainda os ruídos dos golpes e o relinchar da besta, cantar de galo.

 

24 – Ext/Noite – Close de Zé Estribeiro que toma café e continua o relato.

 

Zé Estribeiro – Depois que ela foi solta, entupiu no oco do mundo... num abrir e fechar de olhos, a maldita se encantou.

 

24a – Zé Estribeiro finaliza a narrativa, observado pelos outros dois. Detalhe do lampião. Fogo.

 

Zé Estribeiro – De tardinha, gente vinda da cidade trouxe a nova de que a ama do padre serrador amanhecera tão surrada que causava compaixão.

 

25 – Int/Dia – Chamas, velas acesas, o oratório, várias imagens de santos, corrige revelando casa do Padre. O padre com um tufo de algodão embebido em um remédio passa com cuidado o algodão nos ferimentos (escoriações e hematomas) que cobrem o corpo da ama. Ela está semi-despida com os pés dentro de uma bacia ou tina. A ama geme a cada toque do padre. Ouvem-se batidas na porta da frente. O padre interrompe o que está fazendo, cobre-a com um pano e vai atender a porta.

 

25a – Antes de abrir a porta, o padre olha por um buraco para ver quem são os visitantes.

 

26 – Ext/Dia – (P.V. do padre) Visão parcial (através do buraco). D. Nina e a mulher esperam que ele abra a porta.

 

27 – Int/Dia – Na sala, o padre fica entediado com a presença das duas e caminha na ponta dos pés para que elas não escutem  e desistam. As mulheres continuam a bater na porta, ouve-se a voz de D. Nina.

 

D. Nina (off) – Seu vigário!

 

28 – Ext/Dia – Na frente da casa do padre, D. Nina bate na porta e grita para dentro da casa. A mulher traz nas mãos uma galinha. A porta vai abrindo-se lentamente.

 

D. Nina – Está aqui esta galinha gorda que eu trouxe pro mártir São Sebastião!

 

Padre – Está falando com ele! Está falando com ele!

 

29 – Int/Dia – São Sebastião ocupa um lugar de destaque no meio das garrafas e outros produtos vendidos na bodega onde está o cachaceiro que toma outra lapada.

 

Cachaceiro – - Adeus, mamãe de Loanda!

- Adeus, meu filho Nogueira! O que tu viste na feira?

 

29a – Copo de cachaça é enchido (P.P.P.) Mão pega o copo e ergue-o.

 

Cachaceiro – Cair dez de cada banda.

 

29b – O cachaceiro contempla o copo de cachaça momentos antes de bebê-lo.

 

Cachaceiro – Simeão por terra bêbo, Rafael no chão deitado...

Minha mãe, venha mais branda

Que em jejum eu te arrecebo.

 

29c – Detalhe da mão segurando o copo e deixando pingar um pouquinho pro santo.

 

30 – Int/Noite – Água escorre (tilt down), mãos são lavadas. (Traveling para trás revelando) o coronel lavando as mãos, termina. Maria entrega-lhe uma toalha. O coronel comenta algo com ela e sai.

 

Coronel – Os olhos brilhantes de cocainômano parecem ter coisas para me contar.

 

30a – Ext/Int – No terraço está Pedro Velho olhando para o céu. Pela porta aparece o coronel que se aproxima de Pedro Velho e também olha para o céu.

 

Coronel – Pedro Velho, cadê o teu engenho?

 

30b – Primeiro plano de Pedro Velho, desolado, responde ao coronel sem tirar os olhos do horizonte.

 

Pedro Velho – A usina passou no papo.

 

30c – P.A. O coronel coloca a mão no ombro de Pedro Velho.

 

Coronel – E onde vais fundar safra este ano?

 

30d – Rosto de Pedro Velho, os olhos injetados, voz embargada.

 

Pedro Velho – Na barriga da mulher, na barriga da mulher.

 

30e – Pedro Velho fica olhando para o céu, o coronel se afasta, entra pela porta da sala.

 

30f – Os olhos de Pedro Velho, brilhando.

 

31 – Ext/Noite – Lua Cheia.

 

32 – Int/Noite – Na sala, o coronel vai até um móvel, tira uma garrafa de Whisky escocês e dois copos, vai voltando para o terraço, passa por Maria que está tocando piano e comenta...

 

Coronel – Os olhos brilhantes parecem, agora, duas poças d`água tremendo ao luar.

 

33 – Ext/Noite – Lua cheia.

 

34 – Ext/Noite – Igreja, lá dentro, luzes acesas, vozes. Na porta, rapazes olham para dentro. O homem se aproxima dos rapazes que estão na porta e entra.

 

35 – Int/Noite Altar adornado.

 

Rapaz 1 – (voz off) Parece um ninho de noivado...

 

35a – (pan) Rapaz que está na porta comenta algo, o amigo ao lado inspira o cheiro que vem de dentro da igreja e comenta, um terceiro rapaz também fala.

 

Rapaz 1 – E a gente chega a interrogar se Nossa Senhora vai se casar...

 

Rapaz 2 – Hum... perfume de rosas no ar trescala.

 

Rapaz 3 – São as rosas de carne que há na sala.

 

35b – Moças rezam baixinho. Uma morena, uma loura e uma pálida.

 

35c – O homem que havia entrado observa o culto, benze-se.

 

35d – Close no rapaz 1 que fala baixo como se rezasse.

 

Rapaz 1 – Oh perfumosas e puras rosas pálidas como açucenas.

 

35e – Diante do altar, o padre dá prosseguimento ao culto.

 

Padre – Kirie eleison...

 

Todos (off) – Kirie eleison

 

35f – O homem observa atentamente o padre, depois muda a direção do olhar e muda a expressão para uma expressão de fascínio, emoção.

 

35g – (P.V. do homem) A mulher que está especialmente bonita, reza.

 

Mulher – Oh mãe castíssima! Oh vaso espiritual! Oh espelho da justiça.

 

35h – Rosto de Chiquinha que também reza.

 

Chiquinha – - Oh rainha concebida sem pecado original!

- Oh consolação dos aflitos

- Oh senhora dos infinitos.

 

35I – Moça 1 reza (pan). Moça 2 também reza.

 

Moça 1 – Oh torre de Davi! Oh estrela da manhã! Oh escada de Jacó!

 

Moça 2 – Oh rosa de sião! Oh lírio de Jericó! Oh rainha cristã! Oh...

 

35j – Moças rezam ao mesmo tempo.

 

Moças – Rogai por nós que recorremos a voz.

 

35k – No altar, o incenso queima.

 

35l – O homem comenta consigo mesmo.

 

Homem – O mês de maio vai terminar.

 

35m – As moças com “seus deliciosos braços nús, fazem o sinal da cruz”.

 

Moças – Amém.

 

35n – Ext/Noite - O homem acompanha com o olhar a mulher que vai saindo da igreja.

 

36 – Ext/Noite – Na frente da igreja, fiéis saem, rapazes flertam. D. Nina, Chiquinha e a mulher passam.

 

37 – Int/Noite – Tambor é percutido por mãos de homem negro. Ouve-se o batuque e vozes cantando.

 

Vozes (off) – Mestre Carlos, Rei dos Mestres, aprendeu sem se ensinar...

 

37a – Terreiro de Umbanda. Homens e mulheres dançam em círculo, sentado, mestre Carlos faz sinal para que o homem se aproxime. Ele chega e se ajoelha diante de mestre Carlos.

 

Todos (cantando) – Ele reina no fogo! Ele reina na água! Ele reina no ar!

 

37b – Mestre Carlos bate com uma folha de pinhão roxo na cabeça, nos ombros, faz um sinal da cruz na testa e no peito do homem que reza contrito. Depois mestre Carlos passa incenso ao redor do homem. Mestre Carlos sussurra no ouvido do homem que repete em voz alta.

 

Homem – Por isso, em minha amada acenderá a paixão que consome! Umedecerá sempre em sua lembrança o meu nome! Levar-lhe-á o perfume do incenso que vivo a lhe queimar.

 

37c – Close do homem falando concentrado.

 

Homem – E ela há de me amar... Há de me amar... Há de me amar...

 

37d – Mestre Carlos passando incenso interfere na oração.

 

Mestre Carlos – Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar.

 

37e – O homem cercado pela fumaça do incenso continua a prece sussurrada por mestre Carlos.

 

Homem – À luz do sete estrelo nós havemos de casar e há de ser bem perto. Há de ser tão certo como este mundo tem de se acabar...

 

37f – Mestre Carlos se aproxima do homem com uma garrafa de cachaça, dá ao homem que toma um grande gole e depois fala para mestre Carlos. A fumaça cobre tudo.

 

Homem – Foi a jurema de sua beleza que embriagou os meus sentidos! Eu vivo tão triste como os ventos perdidos que passam gritando na noite enorme...

 

38 – Int/Noite – Na cama entre lençóis, o corpo da mulher dormindo, tendo um sonho erótico, ela se acaricia. As mãos nos lábios, na pele, nos cabelos, nos seios. Tudo à “meia-luz”. Depois ela desperta suada, ofegante. A voz do homem e a voz da mulher misturam-se.

 

Homem (off) – Mulher(in) – Porque quero gozar o viço que no seu lábio estua, quero sentir sua carícia branda como um raio de lua, quero acordar a volúpia que no teu seio dorme.

 

39 – Int/Noite – Terreiro de umbanda, o homem continua o ritual.

 

39/0 – Mãos batem no tambor

 

Homem – E hei de tê-la, hei de vencê-la, ainda mesmo contra seu querer... Porque de mestre Carlos é grande o poder.

 

39a – Mãos batem nos tambores freneticamente.

 

39b – O homem fecha os olhos enquanto mestre Carlos incensa-o novamente.

 

Mestre Carlos – Pelas três Marias... Pelos três Reis Magos... Pelo Sete Estrelo...

 

39c – Rosto de mestre Carlos, sério, concentrado.

 

Mestre Carlos – Eu firmo esta intenção, bem no fundo do coração, e o signo de Salomão ponho como selo...

 

39d – Mestre Carlos anda ao redor do homem que está quase em transe.

 

Homem – E ela há de me amar... Há de me amar... Há de me amar...

 

Mestre Carlos – Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar.

 

39e – Terreiro, o homem levanta-se ao lado de mestre Carlos, as pessoas dançam em círculo cantando, com mais intensidade.

 

Todos – ... Mestre Carlos Rei dos Mestres. Reina no fogo... Reina na água... Reina no ar.

 

40 – Ext/Dia – Sol nasce, canavial.

 

Todos(off) – ... Ele aprendeu sem se ensinar.

 

41 – Ext/Dia – Rua da cidade. O cachaceiro está deitado no chão. Acorda-se, levanta-se, bebe no gargalo da garrafa. Cambaleia, apruma-se, arruma-se e caminha pela rua.

 

Cachaceiro – Em jejum eu te arrecebo cuma xarope dos bêbo... tu puxas eu arrepuxo, bates comigo no chão, bato contigo no bucho. Adeus mamãe de Luanda. Adeus meu filho Nogueira.

 

42 – Int/Dia – Diante de um espelho, no quarto, o coronel endireita o nó da gravata, a mulher também se apronta, borrifa perfume.

 

43 – Ext/Dia – Canavial, riacho, as crianças passam correndo. Placa “Engenho Bom Mirar”.

 

44 – Ext/Dia – Na frente da igreja, a secretária, o professor e o padre.

 

45 – Ext/Dia – Porta da frente da casa de D. Nina abre-se. A mulher está do lado de fora da casa aguardando D. Nina e Chiquinha que saem. As três caminham juntas.

 

46 – Ext/Dia – Na frente da casa grande todos esperam olhando para o céu. (Coronel, Maria, Zé Estribeiro, Peão, Vigia).

 

47 – Ext/Dia – Frente da Igreja. Pequena aglomeração.

 

47a – A secretária está cansada. O padre está suando e enxuga-se com um lenço.

 

48 – Ext/Dia na cidade. O bêbado passa e percebe que todos estão parados olhando para o céu.

 

48a – Todos ficam virados para a mesma direção e olham para o céu.

 

48b – Os rostos das pessoas olhando para o céu.

 

49 – Ext/Dia – Aéreas de canaviais, velho engenho, usina, paisagem aérea da zona da mata de Pernambuco.

 

Piloto (off) – WZ! KDKA! UZQP!

 

Voz Rádio (off) – Alô Zeppelín! Alô Zeppelín! Jequiá!

 

50 – Int/Dia – Estação de rádio. Operador de rádio tenta fazer contato com o Zeppelin ou outro operador de rádio.

 

Operador de Rádio – Usted me puede dar nuevas dez Zepelin?

 

50a – Close do operador de rádio.

 

Op. Rádio – Dove il Zeppelin?

 

51 – Ext/Dia – (pan) Nuvens, céu.

 

Op. Rádio (off) – Where is the Zepelling?

 

52 – Ext/Dia – Fotos aéreas de Fernando de Noronha.

 

Op. Rádio 2 (off) - Passou agorinha em Fernando de Noronha, ia fumaçando.

 

53 – Ext/Dia – (Arquivo – filme da época) Zeppelin no céu.

 

Op. Rádio 3 (off) – Chegou em Natal! Augusto Severo, acorda de teu sono bichão.

 

54 – Int/Dia – Close do operador de rádio.

 

Op. Rádio ­– Alô Zeppelin! Alô Zeppelín!

 

55 – Ext/Dia – (arquivo – filme de época) Zeppelin voando.

 

Piloto (off) – Rádio! Rádio! Rádio! QZQPQP. GQAA…

 

56 – Ext/Dia – (tilt down) Pessoas (D. Nina, a mulher, o cachaceiro, o padre, as crianças, etc...) que olham para o céu. Uma menina é a primeira que vê.

 

Menina – Apontou!

 

Padre – Parece uma baleia se movendo no mar!

 

56a – (pan) Cachaceiro comenta, ao lado, Dona Nina benze-se e também comenta. Chiquinha também fala.

 

Cachaceiro  – Parece um navio avoando nos ares.

 

D. Nina – Credo, isso é invento do cão.

 

Chiquinha – Ó coisa bonita danada.

 

56b – Close do Cachaceiro.

 

Cachaceiro – Viva seu Zé Pelin!

 

56c – menina vibra.

 

Menina – Vivô!

 

57 – Ext/Dia – Zeppelin voando (imagens da época).

 

Piloto (off) – Deutschland uber Alles!

 

58 – Ext/Dia – O cachaceiro olhando para o Zeppelin que passa.

 

Cachaceiro – Olá, seu ferramenta, você sobe ou se arrebenta?

 

59 – Ext/Dia – (fotos da época) Zeppelin no solo pernambucano, oficiais alemães, populares. (foto do Zeppelin no jornal).

 

60 – Ext/Dia – (Fazenda, curral. Perto do curral, conversam Zé Estribeiro e meninos. Riem.

 

Zé Estribeiro  – O Coronel não gostava de apelido. Assim por volta das seis horas da tarde, ele estava sentado no terraço da Casa Grande, passeando prá lá e prá cá, quando aparece um sujeitinho...

 

61 – Ext/Noite – Campo, casa grande, o coronel na cadeira de balanço no terraço.

 

61a – O coronel avista alguma coisa.

 

61b – Um homem pobre aproxima-se da casa grande. Os cachorros latem. O coronel observa o homem pobre.

 

61c – Zé Estribeiro e depois mais dois peões vêem ver quem é.

 

61d – O homem pobre tira o chapéu respeitosamente, quando fica próximo à casa grande, pára e fala com o coronel.

 

Homem Pobre – Bom noite, seu curuné.

 

Coronel – Bom noite!

 

61e – Close do homem pobre.

 

Homem Pobre – Seu curuné, não tem um servicinho por aí pra mim não?

 

61f – (P.V. do homem pobre) P.A. o coronel conversa com o homem.

 

Coronel – Talvez se arrume, talvez se arrume. Como é que você se chama?

 

61g – O homem fala com o coronel, atrás estão Zé Estribeiro e outros peões observando.

 

Engole Cobra – Eu me chamo Engole Cobra.

 

Coronel – Engole Cobra?

 

61h – Na frente da casa grande o coronel chama a mulher.

 

Coronel – Engole cobra?... Ô Maria! Maria! Anda ver o homem que Engole Cobra.

 

62 – Ext/Dia. Fazenda, curral, Zé Estribeiro continua a contar a história.

 

Zé Estribeiro    Chamou a mulher que estava lá dentro. A mulher apareceu. Ele fez a apresentação e disse...

 

63 – Ext/Noite  - Casa Grande, o Coronel perto de Maria, fala ao Engole Cobre.

 

Coronel – Engole Cobra, meu nego, você vai morar aí naquele ranchinho pra você ficar.

 

64 – Ext/Dia – Fazenda, curral, Zé Estribeiro contando a história para os peões.

 

Zé Estribeiro – Passou-se sexta, sábado, no domingo o sujeito veio reclamar.

 

65 – Ext/Dia – Sol nasce, galo canta. O coronel está no terraço, Engole Cobra se aproxima tirando o chapéu.

 

65a – Engole Cobra fala com o coronel.

 

Engole Cobra – Seu curuné, não tem um servicinho pra mim, não?

 

Coronel – O que é que o senhor está reclamando, não recebeu suas férias?

 

Engole Cobra – Recebi, sim senhor.

 

65b – Close do coronel.

 

Coronel – Não se incomode. Logo aparece! Logo aparece!

 

66 – .Ext/Dia – Fazenda, curral, Zé Estribeiro continua a contar a história.

 

Zé Estribeiro  – Lá para o meio da outra semana, descobriram uma surucucu que não tinha mais prá onde crescer.

 

67 – Ext/Dia – Casa Grande, P.P., Coronel abre um sorriso e fala com Zé Estribeiro.

 

Coronel – Não bole com ela não, vai chamar ali seu Engole Cobra.

 

68 – Ext/Dia – Fazenda, curral, cocheira. Zé Estribeiro concluindo a história.

 

Zé Estribeiro – O Engole Cobra veio nas carreiras. Disse:

 

69 – Ext/Dia – Fazenda, curral, cocheira. Engole Cobra conversa com o coronel que lhe aponta uma coisa, Engole Cobra olha para onde o coronel apontou.

 

Coronel – Engole Cobra, meu nego, está aí um servicinho pra você!

 

70 – Ext/Dia - (P.P.) Coronel apontando o lugar.

 

Coronel – É só essa besteirinha pra você engolir.

 

71 – Ext/Dia – Num canto da cocheira, uma enorme cobra.

 

72 – Ext/Dia – (pan) Próximo a cocheira, Engole Cobra com riso amarelo. O coronel observa calado. Zé Estribeiro coça a cabeça prevendo que aquilo não vai acabar bem.

 

Engole Cobra – Está doido, seu curuné, eu nunca engoli cobra, isso é apelido.

 

72a – Close do coronel zangado.

 

Coronel – Ahh... é apelido? Vigia! Vigia! Dá uma surra neste homem, vigia! (Zé Estribeiro ri e Vigia se aproxima).

 

73 – Ext/Dia – Chaminé da usina.

 

74 – Ext/Dia – Canavial

 

75 – Ext/Dia – Almanjarra

 

76 – Ext/Dia – Canavial, carro-de-boi passa na estrada de terra. Crianças passam correndo.

 

77 – Ext/Dia – Rua da cidade. Placa numa casa indica o nome da rua. Rua do Rio. (plano seqüência). Na frente da casa um homem deficiente físico come alguma coisa que ele esconde na mão. Mastiga. Olha para os lados, desconfiado. Câmera desloca-se até outra casa seguindo D. Nina e a mulher que passam. Elas param para cumprimentar um pedreiro que organiza uma pilha de tijolos. Elas falam com ele que responde grosseiramente. Elas despedem-se e caminham comentando algo entre si. D. Nina vê alguma coisa que não gosta, benze-se e segura a mulher pelo braço para mudarem de caminho, saindo empertigadas, virando o rosto para não cruzarem com a preta Inês (a câmera acompanha a preta Inês). Inês que passa segurando algumas penas pretas na mão. Preta Inês aproxima-se cobrindo todo o quadro. (Cortina)

 

Voz (off) – No começo da rua morava agostinho, o aleijado, a quem o povo acusava de alimentar-se de coisas imundas: bichos mortos apanhados no fundo dos quintais!

 

Fronteiro à ele morava o pedreiro Manuel Belo, que por ter sido mordido de cachorro da moléstia, quando falava com a gente avançava como um cão.

 

No meio da rua morava a celebérrima preta Inês. Catimbozeira afamada sempre às voltas com sapos e urubus!

 

77a – Ext/Dia – (cortina) Rua do rio, Preta Inês descortina o quadro passando pela frente da casa onde na janela, está a mulata Filomena  que observa a rua e penteia os cabelos.

 

Voz (off) – Na outra ponta morava a mulata Filomena, a quem um jacaré acuou...

 

78 – Ext/Dia – Água, jacaré meio submerso observa.

 

Voz (off) – ...Dentro de um banheiro no rio.

 

79 – Ext/Dia – Estrada de terra no meio da floresta. A mulata Filomena, nua, corre assustada.

 

Filomena – Me acudam! Me acudam!

 

80 – Ext/Dia – Calçamento de pedra (traveling). Pedras ocupam todo o quadro.

 

81 – Ext/Noite – Calçamento de pedra (traveling).

 

Voz (off) – Mas nem tudo, na rua do rio, era infâmia, nojo, abominação!

 

82 – Ext/Noite – (traveling – câmera na mão). Casa, frente, lateral, fundos, quintal,  muro, outra casa, homem toca pífano, pára, acende um foguete e volta a tocar pífano, pára de tocar outra vez e acende outro foguete, voltando a tocar o pífano em seguida.

 

Voz (off) – ... Na outra ponta da rua, bem nos fundos do quintal da casa da minha mãe, morava o fogueteiro Lulu Higino, que, no silêncio das noites consteladas...

 

82a – Ext/Noite – Lulu Higino toca pífano.

 

Voz (off) – Arrancava da flauta uns acordes tão suaves, que até parecia...

 

83 – Ext/Noite – Céu estrelado. Fogos de artifício.

 

Voz (off) – ... Serem as estrelas lá no céu que estavam tocando.

 

 

 

FIM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A oralidade da poesia de Ascenso Ferreira em curta-metragem


A atriz Ivonete Melo, numa cena do filme INCENSO


 

Cineasta Marco Hanois começou a gravar Incenso, filme que presta homenagem ao poeta Ascenso Ferreira

O Engenho Massangana, no Cabo de Santo Agostinho, foi moradia do escritor e abolicionista Joaquim Nabuco até os oito anos e é uma das construções mais representativas do Pernambuco do século 19. O espaço, atualmente funcionando como centro cultural, emprestou suas particularidades históricas ao início das gravações do novo curta de Marco Hanois, Incenso, no último sábado.


Parte da equipe técnica, filmagens de INCENSO


O filme presta homenagem à obra de Ascenso Ferreira e busca, segundo o diretor e roteirista, “resgatar as peculiaridades orais do texto do poeta e reviver um período da história pernambucana, que ficou esquecido”: as primeiras décadas do século 20, com suas beatas, coronéis, crendices e o espanto diante da modernidade tardia que o Brasil começava a vivenciar. Uma das cenas de Incenso mostra a perplexidade dos personagens diante de um Zeppelin rasgando os céus de um Pernambuco ainda rural.

Apesar de Ascenso Ferreira ter nascido em Palmares, o curta de Hanois não se fecha numa cidade específica. Sua proposta é ter como cenário um interior arquetípico, que traga pormenores de todas as cidades pernambucanas do início do século passado sendo apresentadas ao espectador durante os 20 minutos da trama. Dessa forma, as filmagens, que se prolongam até o próximo mês, terão como cenário ainda os casarões antigos e ruas do Poço da Panela.

O primeiro dia de filmagens de Incenso registrou os diálogos entre os atores Alexandre Zachia e Tuca Andrada. Zachia interpreta um personagem chamado apenas de Coronel, que funciona como uma espécie de “alter ego” do próprio Ascenso. O poeta costumava dizer que um dos seus sonhos era ter sido coronel de engenho, figura das mais representativas do imaginário nordestino. Tuca vive Zé Estribeiro, que serve como elo das várias tramas do curta.

Amigo de longa data de Hanois, Tuca explicou que, por pouco, ficou de fora do elenco de Incenso devido à sua apertada agenda, que divide espaço entre a novela Cidadão brasileiro e a turnê da peça Orlando Silva, o cantor das multidões. “Eu queria muito fazer esse curta, tanto por minha amizade com Hanois quanto pela homenagem que ele faz à obra de Ascenso, um poeta importantíssimo. Foi um verdadeiro milagre que neste fim de semana eu tenha conseguido participar das gravações”, explicou o ator, durante uma das pausas da filmagem.

Incenso tem um elenco numeroso com mais de 30 atores, que conta ainda com nomes como Bruno Garcia, Aramis Trindade e com as cantoras Lia de Itamaracá e Mônica Feijó. No caso de Mônica, que atualmente participa do elenco de Páginas da vida, ela volta a Pernambuco nas próximas semanas especialmente para gravar sua participação em Incenso. A assistência de direção fica a cargo de Moisés Neto. A atriz Patrícia França foi um nome cotado para atuar no curta, mas acabou ficando de fora por problemas na sua agenda. Patricia, nos anos 80, trabalhou em projetos teatrais de Hanois.

Todos os diálogos de Incenso são permeados por fragmentos de textos de Ascenso. O título do curta faz referência ao poema Mês de maio: “O incenso queima diante do altar,/ o mês de maio vai terminar.../ Com seus deliciosos braços nus,/ as rosas fazem o sinal-da-cruz.../ Amém...” - presente no livro Catimbó, de 1927. Ao fragmentar diversos textos de Ascenso, segundo o diretor, o curta resgata para toda uma nova geração a oralidade típica da obra do poeta.

O roteiro do curta foi vencedor do prêmio Ary Severo-Firmo Neto, concedido pela Prefeitura do Recife no ano passado, e foi orçado em R$ 80 mil. Durante a fase de gravação, o filme está contando ainda com apoio de, entre outras instituições, Chesf e Fundação Joaquim Nabuco, que cedeu gratuitamente a utilização do Engenho Massangana. No entanto, a equipe ainda procura recursos para a etapa de pós-produção.

Marco Hanois chega a Incenso depois de trabalhos bem-sucedidos como Objeto abjeto e Cassino Americano, que recebeu Menção Honrosa no festival Internacional de Vídeo promovido pela JVC em Tóquio. Sua homenagem a Ascenso será lançada no primeiro semestre de 2007. “Ainda não sei se a estréia será no Festival de Cinema do Recife, mas quero muito que ele faça parte da programação do evento”, afirmou o diretor.

 

Ascenso Ferreira

 

 

 

O VII Festival de Vídeo de Pernambuco divulgou os vencedores de 2005 em cerimônia realizada nesta quinta-feira, 15 de dezembro, no Teatro Arraial, na Rua da Aurora. Este ano, foram inscritos 73 vídeos, dos quais 38 foram selecionados para a Mostra Competitiva, ocorrida esta semana no Teatro do Parque.

Os prêmios do Júri Popular foram os primeiros a serem entregues. Na Categoria Documentário ganhou Daniel Barros, com Mais Um Domingo; Dando Crédito, de Rafael Infa levou em Ficção; Plínio Uchôa e Marcos Buccini em Experimental com A Morte do Rei de Barro e Ireny, de Gabriel Mascaro e Daniel Aragão venceu na categoria Vídeo Clip.

A Comissão Julgadora, composta pelas jornalistas Clara Angélica e Carol Almeida, pelo programador visual Fernando Vasconcelos, pelo produtor Osmar Barbalho e pela cineasta Kátia Mesel, premiou nove vídeos em três categorias e decidiu também premiar cinco vídeos com Menções Honrosas, atribuindo a cada um o valor de R$ 1.000,00, equivalente a um terceiro lugar.

Já o Concurso de Roteiros Firmo Neto/Ary Severo teve, este ano, 47 projetos inscritos, que foram analisados pelo jornalista Ernesto Barros, pelo pesquisador Lula Cardoso Ayres, pelos cineastas Osman Godoy e Fernando Monteiro e pelo fotógrafo Roberto Santos Filhos.

O Prêmio Ary Severo, pago pelo Governo do Estado de Pernambuco, foi para Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro e o Prêmio Firmo Neto, pago pela Prefeitura do Recife, escolheu  Incenso, de Marco Hanois (assistência de direção Moisés Moisés Monteiro de Melo Neto). Cada um receberá R$ 80 mil para produzirem um curta-metragem de 15 minutos. Ambos os vencedores ganham pela primeira vez o concurso público.

 

 

Quinta-feira, 5 de agosto de 2010

INCENSO DE MARCOS HANOIS PERFUMOU A TÃO AGUARADADA ESTREIA DO NOVO PROJETOR DO CINE THEATRO GUARANY

                                                                 Por Lucivaldo Ferreira

Foi assim, sem nenhum alarde, sem pronunciamentos oficiais e casa praticamente vazia que o Cine Theatro Guarany viu a máquina de mais de 50 mil dólares lançar oficialmente sobre a grande tela seus primeiros feixes de luz.
Talvez o pequeno publico ali presente sequer houvesse se apercebido, mas viviam naquele instante, exatamente às 17:39h da tarde do dia 04 de agosto de 2010, um momento histórico. Ali, depois de tantos anos o Cine Theatro Guarany dava um talvez pequeno, porém importante passo em seu renascimento. Rodava em seu projetor o curta-metragem do cineasta pernambucano Marcos Hanois, “Incenso”.
O curta 35mm pintou a tela da despercebida festa com a oralidade e a poesia do grande poeta Ascenso Ferreira e trouxe ao baile de cores e sensações beatas, coronéis, crendices e memórias de um Pernambuco esquecido nas prateleiras das bibliotecas.
De repente um Zeppelin rasga o céu do filme e seus personagens de olhos arregalados se espantam diante da bela “espaçonave” e toda sua modernidade naquele Pernambuco rural. E ali na sessão das cinco outro grande Zeppelin irrompia a escuridão com suas fotografias correndo um após a outra. Fotografias do nosso povo, fotografias de mim, de quem ali esteve vendo a “história” passar.

O PROJETOR

Na manhã da terça-feira, dia 22 de setembro de 2009 teve fim uma longa espera. O Cine Theatro Guarany finalmete recebeu o seu tão aguardado projetor.
O equipamento de última geração vindo diretamente de Miami (FL USA), custou mais de 50 mil dólares e opera nos sistemas analógico e digital.
A montagem do novo equipamento foi feita pelo Sr. Zé Hildo, o único técnico responsável pela montagem dos cinemas em Pernambuco e pelo engenheiro Sr. Claudiney , que veio diretamente de São Paulo para executar a tarefa de instalar o projetor. Ambos foram auxiliados pelos triunfenses Sandro Martins e Serginho.
O projetor da marca Christie é um dos poucos do país. Segundo o Sr. Zé Hildo, o novo equipamento é o que há de mais moderno em se tratando de projeção, e no Brasil só existem três além do nosso: um fica em Aracaju/SE, outro em Natal/RN e o outro em São Paulo/SP.

(Capturado em 30 de julho de 2012  in  http://www.triunfob.com/2010/08/incenso-marcos-hanois-perfumou-tao.html)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ascenso era um humanista
Publicado em 08.05.2008

Viúva queixa-se do descaso com a memória do poeta. D. Lourdes rejeita rótulo de que ele era comunista e lembra a amizade com Arraes



Bastidores do filme INCENSO: Os professores universitários Liliane Jamir (FAFIRE) e Moisés Monteiro de Melo Neto (UPE/ UNEAL) com a saudosa dona Lourdes, viúva de Ascenso Ferreira a filha deles e o filho adotivo, no lançamento da obra completa do poeta de Palmares

Dona Lourdes mora numa casa no bairro de Campo Grande. Tem um cachorro e 23 gatos. Mas seu sonho é criar cavalo. Não só um, mas muitos. “O bicho que eu mais gosto é cavalo, mas não dá para ter um cavalo dentro de casa”, justifica cheia de dó. Mas tantos animais não dão trabalho? “Se não fossem por esses gatos, não haveria trabalho nessa casa”, diz e aponta para uma cadeira de balanço que comprou para um dos seus gatos, o mais novo deles. “Só quem senta é ele.”

D. Lourdes vive também cercada por imagens do poeta e ex-companheiro Ascenso. O corredor que dá para o seu quarto tem a placa “R. Ascenso Ferreira”. Ela pede para o caseiro colocar uma fita VHS com um documentário de imagens do poeta. “Olhem ele”, aponta para uma foto de Ascenso que aparece na TV.

Ela diz que nem se lembra quantos anos morou com o poeta – “Parece que foi a vida inteira.” Tanto foi/é a vida inteira que “parece que ele está vivo, que nunca foi embora”. Após a morte de Ascenso, D. Lourdes saiu de Pernambuco. “Tive de ir embora porque as pessoas achavam que eu era comunista. Mas nunca fui comunista, nem eu nem Ascenso. As pessoas achavam isso dele porque era um homem que falava com todo mundo, tinha uma personalidade bastante forte. Ascenso não era comunista, era humanista”.

D. Lourdes tem na ponta da língua as razões do esquecimento em torno do nome do seu marido. “Primeiro porque ele foi muito amigo de Miguel Arraes, diziam que Miguel Arraes era comunista, mas nunca foi comunista. Ele foi um grande amigo da gente, um amigo de verdade, um pai de família linha dura. A outra, é que as pessoas tinham inveja da personalidade dele”, destaca. “As pessoas esquecem de tudo com o tempo, o tempo corrói tudo. Tanta gente importante e ninguém lembra”, reflete D. Lourdes.

Outra frustração de D. Lourdes é o filme Incenso, de Marco Hanois, que está parado. “O diretor faleceu ano passado mas não teve dinheiro para terminar o projeto”, reclama. O filme coloca em imagens os poemas de Ascenso, com um elenco formado por nomes como Aramis Trindade e Bruno Garcia. “São todos atores da Globo e tem um personagem que faz Ascenso, ele é igual a Ascenso, igual. Parece que você está vendo ele”.

Quando Marco Hanois faleceu em novembro passado, deixou o filme montado. Falta apenas a finalização. “Colocamos no concurso de audiovisual da Fundarpe, mas ele não foi aprovado. Isso é incrível, sobretudo se lembramos a importância da obra de Ascenso Ferreira e a própria carreira de Hanois, que teve filmes premiados no exterior”, destaca o produtor de Incenso, Pedro Celso, que diz que o projeto precisa reunir ainda R$ 50 mil. “Como é que deixam parado um projeto desses, o filme é emocionante”, diz D. Lourdes.

Enquanto o filme não fica pronto, é o Ascenso poeta que chega ao público com a cuidadosa edição da Martins Fontes. E desta vez é importante que apareça o poeta e não o homem. “Uma das coisas que chamam a atenção de quem se propõe a estudar a poesia de Ascenso Ferreira é o contraste entre a escassez de textos críticos e a abundância do anedotário a seu respeito. Com efeito, nas escassas publicações sobre Ascenso Ferreira, os comentadores centram-se sobremodo na sua figura ‘descomunal’, na espirituosidade, nas atitudes pouco convencionais, no vozeirão e no modo único de recitar suas próprias poesias”, explica Valéria Torres Costa e Silva.

ANIVERSÁRIO

O aniversário de 113 anos de Ascenso Ferreira, que acontece amanhã, é duplamente comemorado. Às 18h30, a Livraria Cultura recebe o lançamento da edição que reúne Catimbó, Cana caiana e Xenhenhéim. Haverá encenação de poesia com as participações de Geninha da Rosa Borges e Adriano Cabral e uma mesa-redonda com Nagib Jorge Neto, Fernando da Mota Lima, Juareiz Correya e a própria Valéria. Às 22h, haverá recital da poesia de Ascenso no bar Casa da Moeda, com nomes como Jomard Muniz de Brito e Cida Pedrosa. (S.C.)

Prefeitura entrega novo túmulo de Ascenso Ferreira



Um dos nomes mais importantes do Modernismo no Brasil, o poeta pernambucano Ascenso Ferreira recebe uma homenagem nesta segunda-feira, quando a Prefeitura do Recife entrega à viúva do escritor, Lurdes Ascenso, o novo túmulo do poeta, no Cemitério de Santo Amaro. Na ocasião, às 10h, alguns poemas do autor pernambucano serão recitados e o toque de silêncio será executado pelos clarins da Polícia Militar.

Todo em granito, o túmulo ocupa um terreno de 3m2, doado pelo Governo Municipal. Na lápide, foi reproduzido o poema “Noturno”, em que Ascenso Ferreira alude a ícones da capital pernambucana, como as ruas do Bairro do Recife e o rio Capibaribe.

A cerimônia também marca os 43 anos da morte do poeta, que aconteceu em 05 de maio de 1965. Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira nasceu, no ano de 1895, na cidade de Palmares. Em 1920, mudou-se para o Recife, onde foi colaborador de alguns jornais locais e deu início a sua carreira literária. Ele se voltou para temas regionais que foram reunidos em livros, como "Catimbó" (1927), "Cana caiana" (1939), "Poemas 1922-1951" (1951), entre outros.

 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Ema Bovary, a Madame de Flaubert

 

Ema Bovary, a Madame de Flaubert

 

Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto (Uneal/ Upe)[1]

Ana Maria Bastos Macena (Uneal)[2]

 

Falar da obra do escritor francês Gustave Flaubert  é não ter como fugir de Madame Bovary. Quem se aventurar nesta seara terá herdeiro de uma fortuna crítica impressionante. No mundo inteiro  esta persinagem é conhecida. Ela nunca foi gente, mas por tantos pontos a conhecemos, que ela lembra alguém com quem realmente nos frelacionamos, por amizade ou afinidade.  Muitos pensadores como Jean-Paul Sartre, nos fizefam íntimos de Flaubert. Lembrando que o livro de Sartre, chamado O idiota da família, Gustave Flaubert, tem cerca de duas mil páginas, e é importante para quem depois dele se debruça sobre a obra. Achamos que algumas ideias de Freud, sobre quem Sartre também escreveu importante e volumosa obra, seria adequado.


A crítica vem tratando também a questão do Mal na literatura, o que nos levou aos textos de Georges Bataille. Antonio Candido nos vem pelo respeito que temos por um crítico e professor notável. Que horizontes de expectativas tinha a época no qual o romance foi lançado? O que levou o autor a dizer que Ele era Madame Bovary? Há muito tempo isso nos provoca a pensar no comportamento. Madame Bovary, lançado em 1856, tem uma trama ambientada entre os anos 30  do século XIX. Quando encontramos Ema pela primeira vez, ela saiu da escola/ internato das freiras Ursulinas, já vivia com seu pai Monsieur Rouault, entediada. Há um quadro na parede da sala, ela pintou para o “querido papai”, uma representação de Minerva.



           
Assim, constituindo o lineamento do livro, a personagem Ema expõe a substância da vida, o que nela pareceria inverossímil, na literatura, no máximo seria incoerente.  A personagem é basicamente, uma composição verbal, uma síntese de palavras sugerindo certo tipo de realidade [...] sua fisionomia, sem modo de ser é fruto [...] da concatenação da sua existência no contexto (CANDIDO, 2011, p. 78).  Ema existe com maior integridade do que um ser vivo.

Estamos numa época onde a burguesia numa França imperialista tradicional. As regras eram rígidas, Ema as transgride de tal modo que até nós, seus leitores, poderíamos inocentá-la, como a maior parte o faz. Porque o narrador parece ao lado dela. É um narrador onisciente cheios de pensamentos próprios. As suas digressões fazem dele, também, um conhecido nosso. No inío do livros somos apresentados a ele, que está em primeira pessoa, um aluno d classe de Charles, considerado um novato idiota e sofrendo bullying da turmna na frente do professor, que o repreende e o coloca na bnca próximna ao seu birÔ. O pai do jovem fora de faixa na sala, o educara de modo péssimo, dando-lhe rum desde cedo e o ensinando a zombar das procissões, dentre outras coisas. Tal genirtor casqra-se por interesse.  E observemos que a mulher da época era a dona de casa perfeita, criada única e exclusivamente para o casamento e cuidados com a sua casa e com o marido. Ema vai romper, vai exibir sua filhinha Berta nuazinha na frente dos conviddos, mas quando flagramos Charles, o futuro Sr. Bovary, ele é apenas o idiota da família e da sociedade.

Sem querer comparar a vida do autor com sua obra, Flaubert era tão idiota quando tinha dez anos, que a mãe tinha certa vergonha dele. Os empregdos zombavam dele e diziam parfa ver se eles esgavam na esquina, ele ia, se levafrmos em consideração o que disse Sartre sobre ele. Mas Charles é de outro corte.  O homem da época, deveria ser o personagem central de tudo isso tendo direitos que eram negados às mulheres que não soubessem lidar bem  com este  quadro social.

Os romancistas da época, como Walter Scott, que é citado, quando Ema vai à opera, o narrador é também um cronista de uma apresentação de Lúcia de Lammermoor, adaptação do romance de Scott (sobre uma mulher que mata o marido) para ópera, por Donizetti. A montagem que ela vai assistir é com Edgar Lagardy. O marido da protagonista e Leon estão no mesmo teatro. O amnte e o marido, satisfeitos, até certo ponto. Aí Flaubert foi, como todos os leitores de hoje devem saber, o de incitar as donas de casa, as retirando de seu papel dentro do contexto da época.

Vemos aí o poderoso papel da literaura quen do ela atinge o público mais amplo. Intelectuais e simples leitores ficaram curiosos com o escãndalo e o livro virou sensaação. Quiseram desclassificar a obra,  torná-la obsoleta, no início até evitr o acesso a este  tipo de romance, que expunha a sociedade burguesa numa escrita tão refinada e simples.

O discurso amoroso, e aí pensamos nas ideias de Roland Barthes, nesgte romance se dá de modo audacioso, subliminar, subrfepticiamente, até. Ao romper com o modelo de  mulher do século XIX submissa, Ema é tão natural que esconde a obviedade da sua traição.  Num momento que se uma mulher fosse descoberta em adultério seria discriminada e julgada severamente pela sociedade. Foi somente em 1857 que a lei do divórcio foi aprovada, mesmo que os direitos entre os sexos fossem diferentes, pois, como antes citado a mulher não exercia tantos papéis influentes  na  época.

Certas coisas  do sexo feminino, que hoje conhecemos como marcas ideológicas, eram os tais aprendizados apenas de  atividades voltadas para o lar, impossibilitando que a mulher tivesse algum tipo de formação para o mercado de trabalho, já que não era bem visto uma mulher fora de casa, trabalhando e ganhando dinheiro pra casa, era um papel unicamente masculino.

Quanto a Charles, desde muito cedo sua mãe já tinha traçado seu destino profissional, seria médico. O rapaz que tivera educação escolar conturbada, um padre distraído, e para entrr na escola de medicina, após ser reprovado, embora fosse discenge sempre presente, emora não conseguisse entender o que os profesores diziam,foi reprovado, mas a mãe conseguiu-lhe nova oportunidade, ele decorou as respotas e passou. Teve sorte no primeiro caso, mas depois vai passar vexame na carreira.

Ema considera o marido um idiota e logo o casamento vira um jogo entediante para ela que vai buscar excitação com outros. Ela busca reescrever o seu presente e dar voz ao futuro utilizando a experiência para tentar modificar sua própria vida, mesmo rompendo com pressupostos éticos e morais. A própria vida desta personagem é como reflexo da sociedade em que vivia e que, para ela, era insuportável. Os estudos de gênero, hoje, têm tornado ainda mais vigoroso nosso olhar sobre as obras mais antigas, como Madame Bovary, por exemplo. Isso porque o atual estudo da literatura, hoje, vem se fortalecendo na Academia por este viés tão importante. Sim, somo um gênero seguindo ou não os nossos desejos, sufocando ou não as nossas paixões, muitos são iguais ao personagem Ema, não só as mulheres casadas, não só as nascidas fêmeas.  Se poderia ser politicamente incorreto analisar, em termos técnicos, uma literatura que tem apenas função politicamente correta, é outra questão. Existem outros aspectos literários (o aspecto social, o histórico e o cultural) que dão vazão à experiência humana.

Analisar os reflexos biográficos numa obra literária é iluminar o entrelaçamento da Literatura com a História, sabendo que elas só podem ser salvas por elas mesmas e que a fusão das duas pode ser, de certo modo, facilitadora do girar dos prazeres intelectuais (sem fetichizar a base teórica e a terminologia específica, nem a esquecer) de uma boa leitura, dando sentido à vida, o que parece uma tarefa cada vez mais necessária em meio a tanta coisa supérflua.

Ao atendendo o paciente, o sr. Rouault, Charles soube que a jovem Ema era órfã de mãe e única filha daquele senhor, que era um lavrador de posses. Havia o acidente com a perna deu-se na véspera, na festa de Reis, na casa de um vizinho. Era viúvo há dois anos. Vivia a nossa personagem central, que o ajudava no governo da casa. O médico frequentando, mais do que o necessário, aquele paciente, atraído por aquela jovem educada, bonita e solteira. Mas Héloise, então esposa de Charles, não gostava das frequentes visitas do marido pois sabia que na casa havia a tal jovem atraente. Desconfiada, Héloise reparou que Charles voltou àquela propriedade algumas vezes, mais do que era necessário. Ela pediu para que ele não voltasse a visitar o doente e o marido, obediente, aceitou, mas quando o pai de Héloise faleceu, e o advogado num golpe levou os bens da família dela e o casal começou a entrar em crise até que Héloise faleceu e após cinco meses sem visitar a jovem Ema, Charles conseguiu se aproximar da família dela. Os dois decidiram se casar e Charles pediu isto ao sogro, que aceitou.

 A esposa mais jovem,  não mudou muito o modo como ele se comportava com as  mulheres. Ao casar ele e arranjar tralho numa cidadezinha pequena,  ele se acomodou. Frustrando Ema que achava que com seu casamento seria um ser humano mais livre e feliz. Perdeu o gosto nisso, é notório. O texto artístico, aqui é muito bem trabalhado. A tessitura flaubertiana nos envolve numa malha cheia de deseseperos e atrativos. A arte é o absoluto mais possível e ela não tem que ser engajada. Mesmo em meio a esta época de certo desprezo à e esquecimento da alta cultura e da literatura, cabe suprir o que não é dito pelos outros textos. Ela não precisa mostrar o mundo e nem acrescentar algo a ele. O que a literatura pode é fazer saber que não há apenas uma verdade. As verdades são contradizentes e incertas.

Ao perder muito cedo a sua mãe, faltando-lhe aquela figura materna e feminina que algumas jovens possuem e na qual poderia até se inspirar, ter como modelo. Sobrou-lhe a figura paterna. O pai se dedicou aos cuidados a fazenda e ela, desde muito nova aprendeu a dominar e tomar decisões  de forma independente.

Aos treze anos  o seu pai a levou a cidade para o internato numa boa escola.O piano, a pintur, as letras e muito mais.  

Os livros que lia, falavam de amores, de amantes, damas perseguidas que desapareciam em pavilhões solitários, correios que morrem em todas as estações de troca, cavalos em disparadas em todas as páginas, florestas sombrias, problemas sentimentais, juramentos, soluços, lágrimas e beijos, barquinhos ao luar, rouxinóis nos bosques, cavalheiros valentes como leões, mansos como cordeiros, virtuosos como ninguém e, sempre de fortuna e ainda por cima chorões.” (FLAUBERT, 1999, pag. 41).

 

Ema era sonhadora ao ponto de imaginar que seu enamorado viria buscá- la de forma absolutamente romântica e galante, que ele sairia do fundo da floresta, exuberante em seu cavalo e a levaria para viver aventuras inesquecíveis, viveriam um romance cheio de prazeres, marcante, emocionante. Mas como sua realidade não foi a que  ela idealizou.

Ela até pensou que seria bom casar com Charles, logo se viu enganada enganada. Não teria ali a embriaguez do amor. No lar, na sociedade, no quarto, nada. O que faz uma esposa assim, hoje? Então nasceu sua filha.  Perdeu as esperanças. O marido nem quando morou em  Rouen, ia aos teatros ver os atores, cantores de Paris. Não sabia nadar, nem lutar, nem atirar de pistola; não sabia nada de arte, de literatura. Ela organiza tudo, toma as decisões, recebendo o dinheiro que lhes era pago pra Charles por suas consultas assumindo as rédeas do “lar”. Na relação conjugal dos Bovary, os papéis mulher-homem logo se invertem.

Assim sendo, ao investigarmos, interpretarmos criticamente a percepção de acontecimentos através das ações desta Madame, estamos, também, resgatando a memória da humanidade, ampliamos a compreensão da nossa condição humana, agora. E essa seleção relativa de dados do objeto gritante que é esta personagem, encadeamos percepções em aparente desordem. Poderíamos, se quiséssemos, também imaginar que estamos falando como as coisas podem vir a ser, de hoje em diante, a partir de um olhar sobre o passado. Numa espécie de história à prova de tempo, onde os fatos passam a não ter tanta importância quanto a vivência interior na tentativa de resgate do sentido e busca de um novo sentido. Atravessar a trajetória da existência de um personagem literário icônico, como se fosse um espírito pluralizante. Lembremos que uma das tarefas do historiador seria fazer o passado deixar de parecer uma coisa que se desdobra no presente, o presente desta personagem seria a indeterminação da sensibilidade. O empoderamento lhe vem sem grandes esforções e sua queda vai se dar mais pelo viés financeiro e com a proximidade do abismo entediante que sempre estava no seu horizonte de expectativa.

Ema passa a ser a personalidade dominante e Charles, a dominada. Ela impunha o tom, ele obedecia-lhe as vontades, de início apenas em questões domésticas e logo em outros domínios: Ema, por exemplo, encarrega-se de cobrar as faturas dos pacientes, obtém um poder notarial para tomar as decisões e transforma-se no senhor e chefe da família. Consegue essa hierarquia quase sempre por bem, pois basta-lhe um pouco de astúcia, uns mimos, para transformar Charles num instrumento da vontade dela; mas se necessário não vacila em recorrer à força, como no momento em que põe o marido entre a cruz e a caldeirinha, fazendo com que escolha entre ela ou a sogra. (FLAUBERT, 1999, pág. 119).

Qual o propósito desta personagem, além de abraçar o que está ao seu alcance? Que espécie de vida ela estava enxergando/ projetando para o seu futuro? Freud, em O Mal-estar na Civilização comenta sobre o propósito da vida humana, questão levantada várias vezes sem resposta satisfatória:

[...] se fosse demonstrado que a vida “não” tem  propósito, esta perderia o valor [...]  temos o direito de descartar a questão [...] só a religião é capaz de resolve a questão de propôs da vida [...]  os homens querem  ter felicidade e assim  permanecer [...] eis o princípio do prazer.  Esse princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início (FREUD, 1996b, p. 83-84).

 

No meio desse romance tão insatisfatório com Charles, Emma acaba por engravidar de seu marido e mesmo com toda frustração que rodeava sua vida queria que, por fim, um de seus desejos fossem finalmente atendidos o seu bebê teria que ser um menino, já que em sua cabeça um homem seria livre e c capaz de aproveitar o mundo de maneira mais proveitosa, sem as travadas que lhes foram impostas por ser mulher. Mas, infelizmente para ela quando chega a hora de dar a luz, e logo depois, quando seu marido toma a criança em seus braços anuncia a esposa que era uma menina, e ela teve uma reação aterrorizante:

 

Deu à luz num domingo, cerca das seis da manhã

- É uma menina! Exclamou Charles. Emma virou o rosto para o lado e desmaiou. (BOVARY, 1857. pág.).

 

 

A decepção tomou conta de Emma, sua insatisfação ao saber que sua filha era uma menina, e pior, que poderia ser tão insatisfeita amargurada e frustrada como a mãe a deixou arrasada, chegando a desprezar sua filha, e logo mais foi mais cruel a deu para uma ama de leite, cujomirônico nome é Felicidade, que vai acopahá-la dali oor diane até a sua morte trágica. A empregada vivia em uma completa miséria.

Como alguns escritores transformaram história e vida comum em ficção literária? Esta experiência entre fundo e forma não implica na banalização da literatura nem em prejuízo à história, ao fato. Pensemos com Sartre, que passou anos estudando a vida de Gustave Flaubert e seu contexto social; Proust, na ânsia de revelar a sociedade à clef na sua Busca do Tempo perdido; Tolstói, com seu monumental Guerra e Paz (sobre as guerras napoleônicas na Rússia); ou Stendhal, com O Vermelho e o Negro (o autor colhia no mundo real, na veracidade, somando traços de sua personalidade e fatos que aconteceram na sua vida particular para constituição da personalidade de Julien Sorel) e lembremos que quando se trata da arte literária: falar é agir, toda coisa nomeada já não é exatamente a mesma. Agindo assim, poderíamos perguntar se o real se revelava à contemplação e transcrição em forma literária. O Flaubert usa seria mais como uma representação do seu país naquela época, uma pintura íntima de um tipo de mulher naturalmente ousada.

 Ema aos pouco foi perdendo todos os escrúpulos, não parece exatamente maldade, é algo como testar os limites da hipocrisia, encontrando a oportunidade num baile ao qual ela e o marido foram convidados.

Surgem oportunidades para amores arriscados cheios de paixão e sabor de coisa proibida, o que parece ao leitor que estuda a obra, que a chegada de Rodolfo e Léon à sua vida,  oferece um caramanchão de afetos. O gozo com a literatura, o amante recitava poemas, conversas interessantes e excitação juvenil, ela já esava ficando madura. Apareceram-lhe três fios de cabelo branco. Madame Bovary  logo ficou encantada pelo moço: “ Leon punha-se ao lado dela e juntos olhavam as gravuras e liam as legendas aos pés das páginas. Frequentemente Ema lhe pedia que dissesse versos, e Léon declamava com voz arrastada, que fazia morrer nas passagens de amor.” (FLAUBERT, 1857. Pág. 66-67).

Em certo momento a personagem até tenta sua redenção, mudar seu comportamento em casa, trata sua filha bem, busca ser virtuosa, mas sua natureza aventureira e desprendida não é facilemnte esquecida. O jovem Léon não sai da sua cabeça, ela sonha e devaneia aquele amor que não pode ter, enquanto se vê presa em uma vida que, por mais que ela chegue a tentar não consegue se acostumar. Nem um dos dois amntes vai ao seu enterro. O que é o Mal?

O mal é o sonho do bem?  A morte é a punição procurada?  Sentimos, através da narrativa um misto de percepções em relação a personagem – título. Toda a estrutura da narrativa parece-nos asséptica. Os refinados comentários do narrador fazem das suas digressões algo atraente e charmoso, ainda hoje, nos nossos tumultuados dias. Ema tem o caráter esfíngico dos que ousam, mesmo sem garantias. Há algo como uma estranha beatitude no seu perpétuo tormento, que atrai o leitor a um claro enigma: como romper a interdição? 

A lei não é denunciada em si mesma, mas o que ela interdita não é um domínio em que o homem não tem nada a fazer.  O domínio interdito é o domínio trágico [..] sagrado [...] a humanidade?  Exclui, mas para engrandecê-lo. Ele subordina este acesso a expiação – a morte –, mas o interdito nem por isso deixa de ser um convite, ao mesmo tempo que um obstáculo’ (BATAILLE, 1989, p. 18-19).

As aventuras de Ema não poderiam suportar o mundo racional dos cálculos.  Ela rompe com o interesse comum, com seus movimentos impulsivos, preferência pelo instante presente a afastar da maturidade.

O narrador nos mostra um lado um tanto ingênuo na posição de Ema para sua relação com o amor, ela possui uma arrogância e petulância diante dos homens que passam por sua vida, esperando de forma infantil que eles possam vir a suprir seu vazio, de modo que nem ela mesma sabe o que quer de verdade, pois não consegue sossegar com homem algum, e sempre quer algo que nem ela mesma sabe o que e, infantilidade sem tamanho. Temos acesso ao pensamento de Rodolfo quando Ema cai nos seus braços. Ele pensa em como, depois de se satisfazer, vai se livrar dela. Dái surgiu o termo bovarismo para explicar este tipo de gente que se sente muito importante, quando está sendo apenas tola.

 

Sem dúvida ela deve estar cansada dele. O homem tem unhas sujas e uma barba de três dias. Enquanto ele vai ver os doentes, ela fica a remendar meias. Deve ser aborrecido! Ela gostaria de morar na cidade, dançar polca todas as noites! Coitadinha! Ela sonha com o amor, como o peixe sonha com a água numa mesa de cozinha. Com três meses de galantaria, adoraria qualquer um, tenho certeza! Seria ótimo... encantador! Sim, mas como livrar-se dela, depois? (FLAUBERT, 1999, 92).

 

Ele olhava para Ema e via destacado em seus olhos o quanto ela era infeliz e sonhava com uma vida que seu marido não poderia oferecer, em meio aquela cidadezinha, pois nem ao menos sabia que a esposa era infeliz. O narrador vai como que saboreando os comentários e introspecções das personagens. Charles é mostrado quase como um completo ignorante para com os sentimentos de Ema. Ainda por cima agtendeu mal um cliente e este teve que amputar a perna, o que fez crescer a fama de incompeente, principalmente diante da esposa.  

Ao aguçar a apreensão da realidade, a literatura conduz o leitor à reflexão. A linguagem flaubertiana faz com que a língua crescida e projetada faz com que Madame Bovary nos expresse o grito mudo que só o sufocamento pode produzir. Percebemos nela um desmoronamento das últimas barreiras do ser “si mesmo”, quando toda memória, a lembrança dos bons momentos, dela torna-se insatisfatória e as palavras parecem apenas cascas das coisas que passaram, matéria e linguagem, células de inutilidade ou de utilidade incompreensível na fração circular de cada segundo. Resta-nos o trabalho de linguagem de outro tipo, dizer o que ainda não foi dito, dizer menos sobre nosso luto e nossa revolta, neste monte de inutilidades que temos que limpar, no papel ou no aparelho digital, saber que até isso é uma dízima, neste mundo atafulhado, isto é, cheio até transbordar.

Já na representação de Rodolfo, o narrador mostra sua capacidade de planejar; mas os seus pensamentos em relação a Ema são mais carnais, o que poderia  deixar o leitor contra ele. Mas o autor criou um narrador com uma peculiar polifonia: deixa ao leitor uma atitude diante do seu modo de ver as coisas na sociedade. A personagem Ema é manipulada, ele a fascina, como satisfazer a esposa de Charles, que tem seus momentos de triunfo, também. Mas o tom que impera na relação dos dois é assim, como este monólogo interior dele

 

[...] passarei por lá algumas vezes, mandarei presentes, animais caçados; tomarei sangrias, se for preciso; tornar-nos-emos amigos, convidá-los-ei para virem à minha propriedade... Ah, e daqui a pouco será época da feira, ela irá e eu a verei. Começarei a agir com astucia; é mais seguro. (FLAUBERT, 1999, p. 95).

 

Nem tão impiedoso e de uma crueldade sem grandes pretensões, ele evita pensar nos sentimentos dela. Quis tê-la em seus braços, da forma que pudesse e bem entendesse. O marido não desconfiaria de nada. Ema, com o seu desejo parcialmente saciado, em breve percebe que continua vazia, querendo mais.

Charles só descobriu a vida secreta da esposa querida muito depois que ela se suicidara. Ficando viúvo, ele herdou a série de dívidas que a esposa fizera com suas aventuras extraconjugais, as quais ele desconhecia. Assim, aquele incompetente médico de província precisou abrir mão do seu patrimônio. Charles cheio desgosto, tornou-se alcoólatra, decadente, terminou por falecer de modo prematuro, deixando a filha do casal, Berta, ainda muito jovem, a cargo da mãe dele. Mas com o passar do tempo a avó também morreu e a menina ficou sob responsabilidade de uma tia muito pobre, que a enviou para trabalhar numa fábrica de algodão. Mais uma ironia do autor, espécie de estocada final numa sociedade que observou com curiosidade aquele livro.

Sabemos que, se por um lado a literatura é paz e êxtase, por outro é dor extrema, perdição e redenção num caminho longo para quem pensa estar só na vida e busca neste tipo de escrita uma potencial euforia para suprir um desejo não correspondido. O gosto do tema me toca pelo lado estético e até pelos desdobramentos éticos. Para literatura, o que é fato ou ficção quando trata de memórias de décadas atrás? Verdade reinventada mesmo que seja ao nível até mais básico da linguagem, para soar de maneira dramática, trágica ou até mesmo... cômica, jogando com a noção de realidade de modo subjetivo. Duas pessoas não dariam exatamente a mesma versão de um acontecimento, haveria o “punctun” barthesiano agindo sobre o olhar de cada uma delas.

A insatisfação de Ema, que teve este desfecho trágico, independe de gênero, classe.  Parece-nos universal e atemporal. O romance de Flaubert é um enigma que persiste. É literatura imortal, técnica, mundividência e cristalização abordando nossas mais profundas angústias que, expressam assim em alta cultura, mostram à nossa humanidade. O adultério e suicídio de Ema foram meticulosamente trabalhados pelo autor que levou cerca de cinco anos para finalizar sua obra-prima, carregada com uma toxicidade cujas consequências, ao exibir o desregramento frenético de uma personagem ninfomaníaca e que se entregou à fuga da realidade, foram alvo de muitos comentários, para dizer o mínimo.      

A ilusão de liberdade do “eu”, a alta ansiedade, faz-nos ver nesta personagem certo tipo de anti-heroína. Ela é paradoxalmente. Flaubert fez-nos observar o mundo com os olhos dela, autodecepcionada com a falsificação da vida. Assim, com um tom irônico, o narrador conclui o seu retrato. 

 

 

 

 

 

 

 

Referências

 

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro:  Francisco Alves, 1991, p. 70

BATAILLE, Georges. A literatura e o mal. Porto Alegre: L&PM, 1989.

CANDIDO, Antonio. A personagem de ficção. São Paulo: perspectiva, 2011.

FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary.11. ed. Rio de Janeiro: Ediouro 1999

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão e outros trabalhos, 1927-1931. Rio de Janeiro: Imago, 1996a.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização e outros trabalhos, 1927-1931. Rio de Janeiro: Imago, 1996b.

FREUD, Sigmund. Totem e Tabu e outros trabalhos (1913-1914).  Rio de Janeiro: Imago, 1996c.

LLOSA, Mário Vargas. A orgia perpetua: Flaubert e Madame Bovary. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

SARTRE, Jean-Paul.  O idiota da família. Gustavo Flaubert de 1821 a 1857. Vol. 1.  Porto Alegre, RS.  L&PM, 2015.

 



[1] Moisés Monteiro de Melo Neto é Doutor em Letras pela UFPE e atua na Graduação e na Pós-Graduação da Universidade de Pernambuco e na Universidade Estadual de Alagoas. Tem vários livros e artigos publicados. Muitas das suas peças teatrais foram encenadas com sucesso.

 

[2] Ana Maria Bastos Macena é graduanda em Letras na Universidade Estadual de Alagoas (Uneal)