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segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Ema Bovary, a Madame de Flaubert

 

Ema Bovary, a Madame de Flaubert

 

Prof. Dr. Moisés Monteiro de Melo Neto (Uneal/ Upe)[1]

Ana Maria Bastos Macena (Uneal)[2]

 

Falar da obra do escritor francês Gustave Flaubert  é não ter como fugir de Madame Bovary. Quem se aventurar nesta seara terá herdeiro de uma fortuna crítica impressionante. No mundo inteiro  esta persinagem é conhecida. Ela nunca foi gente, mas por tantos pontos a conhecemos, que ela lembra alguém com quem realmente nos frelacionamos, por amizade ou afinidade.  Muitos pensadores como Jean-Paul Sartre, nos fizefam íntimos de Flaubert. Lembrando que o livro de Sartre, chamado O idiota da família, Gustave Flaubert, tem cerca de duas mil páginas, e é importante para quem depois dele se debruça sobre a obra. Achamos que algumas ideias de Freud, sobre quem Sartre também escreveu importante e volumosa obra, seria adequado.


A crítica vem tratando também a questão do Mal na literatura, o que nos levou aos textos de Georges Bataille. Antonio Candido nos vem pelo respeito que temos por um crítico e professor notável. Que horizontes de expectativas tinha a época no qual o romance foi lançado? O que levou o autor a dizer que Ele era Madame Bovary? Há muito tempo isso nos provoca a pensar no comportamento. Madame Bovary, lançado em 1856, tem uma trama ambientada entre os anos 30  do século XIX. Quando encontramos Ema pela primeira vez, ela saiu da escola/ internato das freiras Ursulinas, já vivia com seu pai Monsieur Rouault, entediada. Há um quadro na parede da sala, ela pintou para o “querido papai”, uma representação de Minerva.



           
Assim, constituindo o lineamento do livro, a personagem Ema expõe a substância da vida, o que nela pareceria inverossímil, na literatura, no máximo seria incoerente.  A personagem é basicamente, uma composição verbal, uma síntese de palavras sugerindo certo tipo de realidade [...] sua fisionomia, sem modo de ser é fruto [...] da concatenação da sua existência no contexto (CANDIDO, 2011, p. 78).  Ema existe com maior integridade do que um ser vivo.

Estamos numa época onde a burguesia numa França imperialista tradicional. As regras eram rígidas, Ema as transgride de tal modo que até nós, seus leitores, poderíamos inocentá-la, como a maior parte o faz. Porque o narrador parece ao lado dela. É um narrador onisciente cheios de pensamentos próprios. As suas digressões fazem dele, também, um conhecido nosso. No inío do livros somos apresentados a ele, que está em primeira pessoa, um aluno d classe de Charles, considerado um novato idiota e sofrendo bullying da turmna na frente do professor, que o repreende e o coloca na bnca próximna ao seu birÔ. O pai do jovem fora de faixa na sala, o educara de modo péssimo, dando-lhe rum desde cedo e o ensinando a zombar das procissões, dentre outras coisas. Tal genirtor casqra-se por interesse.  E observemos que a mulher da época era a dona de casa perfeita, criada única e exclusivamente para o casamento e cuidados com a sua casa e com o marido. Ema vai romper, vai exibir sua filhinha Berta nuazinha na frente dos conviddos, mas quando flagramos Charles, o futuro Sr. Bovary, ele é apenas o idiota da família e da sociedade.

Sem querer comparar a vida do autor com sua obra, Flaubert era tão idiota quando tinha dez anos, que a mãe tinha certa vergonha dele. Os empregdos zombavam dele e diziam parfa ver se eles esgavam na esquina, ele ia, se levafrmos em consideração o que disse Sartre sobre ele. Mas Charles é de outro corte.  O homem da época, deveria ser o personagem central de tudo isso tendo direitos que eram negados às mulheres que não soubessem lidar bem  com este  quadro social.

Os romancistas da época, como Walter Scott, que é citado, quando Ema vai à opera, o narrador é também um cronista de uma apresentação de Lúcia de Lammermoor, adaptação do romance de Scott (sobre uma mulher que mata o marido) para ópera, por Donizetti. A montagem que ela vai assistir é com Edgar Lagardy. O marido da protagonista e Leon estão no mesmo teatro. O amnte e o marido, satisfeitos, até certo ponto. Aí Flaubert foi, como todos os leitores de hoje devem saber, o de incitar as donas de casa, as retirando de seu papel dentro do contexto da época.

Vemos aí o poderoso papel da literaura quen do ela atinge o público mais amplo. Intelectuais e simples leitores ficaram curiosos com o escãndalo e o livro virou sensaação. Quiseram desclassificar a obra,  torná-la obsoleta, no início até evitr o acesso a este  tipo de romance, que expunha a sociedade burguesa numa escrita tão refinada e simples.

O discurso amoroso, e aí pensamos nas ideias de Roland Barthes, nesgte romance se dá de modo audacioso, subliminar, subrfepticiamente, até. Ao romper com o modelo de  mulher do século XIX submissa, Ema é tão natural que esconde a obviedade da sua traição.  Num momento que se uma mulher fosse descoberta em adultério seria discriminada e julgada severamente pela sociedade. Foi somente em 1857 que a lei do divórcio foi aprovada, mesmo que os direitos entre os sexos fossem diferentes, pois, como antes citado a mulher não exercia tantos papéis influentes  na  época.

Certas coisas  do sexo feminino, que hoje conhecemos como marcas ideológicas, eram os tais aprendizados apenas de  atividades voltadas para o lar, impossibilitando que a mulher tivesse algum tipo de formação para o mercado de trabalho, já que não era bem visto uma mulher fora de casa, trabalhando e ganhando dinheiro pra casa, era um papel unicamente masculino.

Quanto a Charles, desde muito cedo sua mãe já tinha traçado seu destino profissional, seria médico. O rapaz que tivera educação escolar conturbada, um padre distraído, e para entrr na escola de medicina, após ser reprovado, embora fosse discenge sempre presente, emora não conseguisse entender o que os profesores diziam,foi reprovado, mas a mãe conseguiu-lhe nova oportunidade, ele decorou as respotas e passou. Teve sorte no primeiro caso, mas depois vai passar vexame na carreira.

Ema considera o marido um idiota e logo o casamento vira um jogo entediante para ela que vai buscar excitação com outros. Ela busca reescrever o seu presente e dar voz ao futuro utilizando a experiência para tentar modificar sua própria vida, mesmo rompendo com pressupostos éticos e morais. A própria vida desta personagem é como reflexo da sociedade em que vivia e que, para ela, era insuportável. Os estudos de gênero, hoje, têm tornado ainda mais vigoroso nosso olhar sobre as obras mais antigas, como Madame Bovary, por exemplo. Isso porque o atual estudo da literatura, hoje, vem se fortalecendo na Academia por este viés tão importante. Sim, somo um gênero seguindo ou não os nossos desejos, sufocando ou não as nossas paixões, muitos são iguais ao personagem Ema, não só as mulheres casadas, não só as nascidas fêmeas.  Se poderia ser politicamente incorreto analisar, em termos técnicos, uma literatura que tem apenas função politicamente correta, é outra questão. Existem outros aspectos literários (o aspecto social, o histórico e o cultural) que dão vazão à experiência humana.

Analisar os reflexos biográficos numa obra literária é iluminar o entrelaçamento da Literatura com a História, sabendo que elas só podem ser salvas por elas mesmas e que a fusão das duas pode ser, de certo modo, facilitadora do girar dos prazeres intelectuais (sem fetichizar a base teórica e a terminologia específica, nem a esquecer) de uma boa leitura, dando sentido à vida, o que parece uma tarefa cada vez mais necessária em meio a tanta coisa supérflua.

Ao atendendo o paciente, o sr. Rouault, Charles soube que a jovem Ema era órfã de mãe e única filha daquele senhor, que era um lavrador de posses. Havia o acidente com a perna deu-se na véspera, na festa de Reis, na casa de um vizinho. Era viúvo há dois anos. Vivia a nossa personagem central, que o ajudava no governo da casa. O médico frequentando, mais do que o necessário, aquele paciente, atraído por aquela jovem educada, bonita e solteira. Mas Héloise, então esposa de Charles, não gostava das frequentes visitas do marido pois sabia que na casa havia a tal jovem atraente. Desconfiada, Héloise reparou que Charles voltou àquela propriedade algumas vezes, mais do que era necessário. Ela pediu para que ele não voltasse a visitar o doente e o marido, obediente, aceitou, mas quando o pai de Héloise faleceu, e o advogado num golpe levou os bens da família dela e o casal começou a entrar em crise até que Héloise faleceu e após cinco meses sem visitar a jovem Ema, Charles conseguiu se aproximar da família dela. Os dois decidiram se casar e Charles pediu isto ao sogro, que aceitou.

 A esposa mais jovem,  não mudou muito o modo como ele se comportava com as  mulheres. Ao casar ele e arranjar tralho numa cidadezinha pequena,  ele se acomodou. Frustrando Ema que achava que com seu casamento seria um ser humano mais livre e feliz. Perdeu o gosto nisso, é notório. O texto artístico, aqui é muito bem trabalhado. A tessitura flaubertiana nos envolve numa malha cheia de deseseperos e atrativos. A arte é o absoluto mais possível e ela não tem que ser engajada. Mesmo em meio a esta época de certo desprezo à e esquecimento da alta cultura e da literatura, cabe suprir o que não é dito pelos outros textos. Ela não precisa mostrar o mundo e nem acrescentar algo a ele. O que a literatura pode é fazer saber que não há apenas uma verdade. As verdades são contradizentes e incertas.

Ao perder muito cedo a sua mãe, faltando-lhe aquela figura materna e feminina que algumas jovens possuem e na qual poderia até se inspirar, ter como modelo. Sobrou-lhe a figura paterna. O pai se dedicou aos cuidados a fazenda e ela, desde muito nova aprendeu a dominar e tomar decisões  de forma independente.

Aos treze anos  o seu pai a levou a cidade para o internato numa boa escola.O piano, a pintur, as letras e muito mais.  

Os livros que lia, falavam de amores, de amantes, damas perseguidas que desapareciam em pavilhões solitários, correios que morrem em todas as estações de troca, cavalos em disparadas em todas as páginas, florestas sombrias, problemas sentimentais, juramentos, soluços, lágrimas e beijos, barquinhos ao luar, rouxinóis nos bosques, cavalheiros valentes como leões, mansos como cordeiros, virtuosos como ninguém e, sempre de fortuna e ainda por cima chorões.” (FLAUBERT, 1999, pag. 41).

 

Ema era sonhadora ao ponto de imaginar que seu enamorado viria buscá- la de forma absolutamente romântica e galante, que ele sairia do fundo da floresta, exuberante em seu cavalo e a levaria para viver aventuras inesquecíveis, viveriam um romance cheio de prazeres, marcante, emocionante. Mas como sua realidade não foi a que  ela idealizou.

Ela até pensou que seria bom casar com Charles, logo se viu enganada enganada. Não teria ali a embriaguez do amor. No lar, na sociedade, no quarto, nada. O que faz uma esposa assim, hoje? Então nasceu sua filha.  Perdeu as esperanças. O marido nem quando morou em  Rouen, ia aos teatros ver os atores, cantores de Paris. Não sabia nadar, nem lutar, nem atirar de pistola; não sabia nada de arte, de literatura. Ela organiza tudo, toma as decisões, recebendo o dinheiro que lhes era pago pra Charles por suas consultas assumindo as rédeas do “lar”. Na relação conjugal dos Bovary, os papéis mulher-homem logo se invertem.

Assim sendo, ao investigarmos, interpretarmos criticamente a percepção de acontecimentos através das ações desta Madame, estamos, também, resgatando a memória da humanidade, ampliamos a compreensão da nossa condição humana, agora. E essa seleção relativa de dados do objeto gritante que é esta personagem, encadeamos percepções em aparente desordem. Poderíamos, se quiséssemos, também imaginar que estamos falando como as coisas podem vir a ser, de hoje em diante, a partir de um olhar sobre o passado. Numa espécie de história à prova de tempo, onde os fatos passam a não ter tanta importância quanto a vivência interior na tentativa de resgate do sentido e busca de um novo sentido. Atravessar a trajetória da existência de um personagem literário icônico, como se fosse um espírito pluralizante. Lembremos que uma das tarefas do historiador seria fazer o passado deixar de parecer uma coisa que se desdobra no presente, o presente desta personagem seria a indeterminação da sensibilidade. O empoderamento lhe vem sem grandes esforções e sua queda vai se dar mais pelo viés financeiro e com a proximidade do abismo entediante que sempre estava no seu horizonte de expectativa.

Ema passa a ser a personalidade dominante e Charles, a dominada. Ela impunha o tom, ele obedecia-lhe as vontades, de início apenas em questões domésticas e logo em outros domínios: Ema, por exemplo, encarrega-se de cobrar as faturas dos pacientes, obtém um poder notarial para tomar as decisões e transforma-se no senhor e chefe da família. Consegue essa hierarquia quase sempre por bem, pois basta-lhe um pouco de astúcia, uns mimos, para transformar Charles num instrumento da vontade dela; mas se necessário não vacila em recorrer à força, como no momento em que põe o marido entre a cruz e a caldeirinha, fazendo com que escolha entre ela ou a sogra. (FLAUBERT, 1999, pág. 119).

Qual o propósito desta personagem, além de abraçar o que está ao seu alcance? Que espécie de vida ela estava enxergando/ projetando para o seu futuro? Freud, em O Mal-estar na Civilização comenta sobre o propósito da vida humana, questão levantada várias vezes sem resposta satisfatória:

[...] se fosse demonstrado que a vida “não” tem  propósito, esta perderia o valor [...]  temos o direito de descartar a questão [...] só a religião é capaz de resolve a questão de propôs da vida [...]  os homens querem  ter felicidade e assim  permanecer [...] eis o princípio do prazer.  Esse princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início (FREUD, 1996b, p. 83-84).

 

No meio desse romance tão insatisfatório com Charles, Emma acaba por engravidar de seu marido e mesmo com toda frustração que rodeava sua vida queria que, por fim, um de seus desejos fossem finalmente atendidos o seu bebê teria que ser um menino, já que em sua cabeça um homem seria livre e c capaz de aproveitar o mundo de maneira mais proveitosa, sem as travadas que lhes foram impostas por ser mulher. Mas, infelizmente para ela quando chega a hora de dar a luz, e logo depois, quando seu marido toma a criança em seus braços anuncia a esposa que era uma menina, e ela teve uma reação aterrorizante:

 

Deu à luz num domingo, cerca das seis da manhã

- É uma menina! Exclamou Charles. Emma virou o rosto para o lado e desmaiou. (BOVARY, 1857. pág.).

 

 

A decepção tomou conta de Emma, sua insatisfação ao saber que sua filha era uma menina, e pior, que poderia ser tão insatisfeita amargurada e frustrada como a mãe a deixou arrasada, chegando a desprezar sua filha, e logo mais foi mais cruel a deu para uma ama de leite, cujomirônico nome é Felicidade, que vai acopahá-la dali oor diane até a sua morte trágica. A empregada vivia em uma completa miséria.

Como alguns escritores transformaram história e vida comum em ficção literária? Esta experiência entre fundo e forma não implica na banalização da literatura nem em prejuízo à história, ao fato. Pensemos com Sartre, que passou anos estudando a vida de Gustave Flaubert e seu contexto social; Proust, na ânsia de revelar a sociedade à clef na sua Busca do Tempo perdido; Tolstói, com seu monumental Guerra e Paz (sobre as guerras napoleônicas na Rússia); ou Stendhal, com O Vermelho e o Negro (o autor colhia no mundo real, na veracidade, somando traços de sua personalidade e fatos que aconteceram na sua vida particular para constituição da personalidade de Julien Sorel) e lembremos que quando se trata da arte literária: falar é agir, toda coisa nomeada já não é exatamente a mesma. Agindo assim, poderíamos perguntar se o real se revelava à contemplação e transcrição em forma literária. O Flaubert usa seria mais como uma representação do seu país naquela época, uma pintura íntima de um tipo de mulher naturalmente ousada.

 Ema aos pouco foi perdendo todos os escrúpulos, não parece exatamente maldade, é algo como testar os limites da hipocrisia, encontrando a oportunidade num baile ao qual ela e o marido foram convidados.

Surgem oportunidades para amores arriscados cheios de paixão e sabor de coisa proibida, o que parece ao leitor que estuda a obra, que a chegada de Rodolfo e Léon à sua vida,  oferece um caramanchão de afetos. O gozo com a literatura, o amante recitava poemas, conversas interessantes e excitação juvenil, ela já esava ficando madura. Apareceram-lhe três fios de cabelo branco. Madame Bovary  logo ficou encantada pelo moço: “ Leon punha-se ao lado dela e juntos olhavam as gravuras e liam as legendas aos pés das páginas. Frequentemente Ema lhe pedia que dissesse versos, e Léon declamava com voz arrastada, que fazia morrer nas passagens de amor.” (FLAUBERT, 1857. Pág. 66-67).

Em certo momento a personagem até tenta sua redenção, mudar seu comportamento em casa, trata sua filha bem, busca ser virtuosa, mas sua natureza aventureira e desprendida não é facilemnte esquecida. O jovem Léon não sai da sua cabeça, ela sonha e devaneia aquele amor que não pode ter, enquanto se vê presa em uma vida que, por mais que ela chegue a tentar não consegue se acostumar. Nem um dos dois amntes vai ao seu enterro. O que é o Mal?

O mal é o sonho do bem?  A morte é a punição procurada?  Sentimos, através da narrativa um misto de percepções em relação a personagem – título. Toda a estrutura da narrativa parece-nos asséptica. Os refinados comentários do narrador fazem das suas digressões algo atraente e charmoso, ainda hoje, nos nossos tumultuados dias. Ema tem o caráter esfíngico dos que ousam, mesmo sem garantias. Há algo como uma estranha beatitude no seu perpétuo tormento, que atrai o leitor a um claro enigma: como romper a interdição? 

A lei não é denunciada em si mesma, mas o que ela interdita não é um domínio em que o homem não tem nada a fazer.  O domínio interdito é o domínio trágico [..] sagrado [...] a humanidade?  Exclui, mas para engrandecê-lo. Ele subordina este acesso a expiação – a morte –, mas o interdito nem por isso deixa de ser um convite, ao mesmo tempo que um obstáculo’ (BATAILLE, 1989, p. 18-19).

As aventuras de Ema não poderiam suportar o mundo racional dos cálculos.  Ela rompe com o interesse comum, com seus movimentos impulsivos, preferência pelo instante presente a afastar da maturidade.

O narrador nos mostra um lado um tanto ingênuo na posição de Ema para sua relação com o amor, ela possui uma arrogância e petulância diante dos homens que passam por sua vida, esperando de forma infantil que eles possam vir a suprir seu vazio, de modo que nem ela mesma sabe o que quer de verdade, pois não consegue sossegar com homem algum, e sempre quer algo que nem ela mesma sabe o que e, infantilidade sem tamanho. Temos acesso ao pensamento de Rodolfo quando Ema cai nos seus braços. Ele pensa em como, depois de se satisfazer, vai se livrar dela. Dái surgiu o termo bovarismo para explicar este tipo de gente que se sente muito importante, quando está sendo apenas tola.

 

Sem dúvida ela deve estar cansada dele. O homem tem unhas sujas e uma barba de três dias. Enquanto ele vai ver os doentes, ela fica a remendar meias. Deve ser aborrecido! Ela gostaria de morar na cidade, dançar polca todas as noites! Coitadinha! Ela sonha com o amor, como o peixe sonha com a água numa mesa de cozinha. Com três meses de galantaria, adoraria qualquer um, tenho certeza! Seria ótimo... encantador! Sim, mas como livrar-se dela, depois? (FLAUBERT, 1999, 92).

 

Ele olhava para Ema e via destacado em seus olhos o quanto ela era infeliz e sonhava com uma vida que seu marido não poderia oferecer, em meio aquela cidadezinha, pois nem ao menos sabia que a esposa era infeliz. O narrador vai como que saboreando os comentários e introspecções das personagens. Charles é mostrado quase como um completo ignorante para com os sentimentos de Ema. Ainda por cima agtendeu mal um cliente e este teve que amputar a perna, o que fez crescer a fama de incompeente, principalmente diante da esposa.  

Ao aguçar a apreensão da realidade, a literatura conduz o leitor à reflexão. A linguagem flaubertiana faz com que a língua crescida e projetada faz com que Madame Bovary nos expresse o grito mudo que só o sufocamento pode produzir. Percebemos nela um desmoronamento das últimas barreiras do ser “si mesmo”, quando toda memória, a lembrança dos bons momentos, dela torna-se insatisfatória e as palavras parecem apenas cascas das coisas que passaram, matéria e linguagem, células de inutilidade ou de utilidade incompreensível na fração circular de cada segundo. Resta-nos o trabalho de linguagem de outro tipo, dizer o que ainda não foi dito, dizer menos sobre nosso luto e nossa revolta, neste monte de inutilidades que temos que limpar, no papel ou no aparelho digital, saber que até isso é uma dízima, neste mundo atafulhado, isto é, cheio até transbordar.

Já na representação de Rodolfo, o narrador mostra sua capacidade de planejar; mas os seus pensamentos em relação a Ema são mais carnais, o que poderia  deixar o leitor contra ele. Mas o autor criou um narrador com uma peculiar polifonia: deixa ao leitor uma atitude diante do seu modo de ver as coisas na sociedade. A personagem Ema é manipulada, ele a fascina, como satisfazer a esposa de Charles, que tem seus momentos de triunfo, também. Mas o tom que impera na relação dos dois é assim, como este monólogo interior dele

 

[...] passarei por lá algumas vezes, mandarei presentes, animais caçados; tomarei sangrias, se for preciso; tornar-nos-emos amigos, convidá-los-ei para virem à minha propriedade... Ah, e daqui a pouco será época da feira, ela irá e eu a verei. Começarei a agir com astucia; é mais seguro. (FLAUBERT, 1999, p. 95).

 

Nem tão impiedoso e de uma crueldade sem grandes pretensões, ele evita pensar nos sentimentos dela. Quis tê-la em seus braços, da forma que pudesse e bem entendesse. O marido não desconfiaria de nada. Ema, com o seu desejo parcialmente saciado, em breve percebe que continua vazia, querendo mais.

Charles só descobriu a vida secreta da esposa querida muito depois que ela se suicidara. Ficando viúvo, ele herdou a série de dívidas que a esposa fizera com suas aventuras extraconjugais, as quais ele desconhecia. Assim, aquele incompetente médico de província precisou abrir mão do seu patrimônio. Charles cheio desgosto, tornou-se alcoólatra, decadente, terminou por falecer de modo prematuro, deixando a filha do casal, Berta, ainda muito jovem, a cargo da mãe dele. Mas com o passar do tempo a avó também morreu e a menina ficou sob responsabilidade de uma tia muito pobre, que a enviou para trabalhar numa fábrica de algodão. Mais uma ironia do autor, espécie de estocada final numa sociedade que observou com curiosidade aquele livro.

Sabemos que, se por um lado a literatura é paz e êxtase, por outro é dor extrema, perdição e redenção num caminho longo para quem pensa estar só na vida e busca neste tipo de escrita uma potencial euforia para suprir um desejo não correspondido. O gosto do tema me toca pelo lado estético e até pelos desdobramentos éticos. Para literatura, o que é fato ou ficção quando trata de memórias de décadas atrás? Verdade reinventada mesmo que seja ao nível até mais básico da linguagem, para soar de maneira dramática, trágica ou até mesmo... cômica, jogando com a noção de realidade de modo subjetivo. Duas pessoas não dariam exatamente a mesma versão de um acontecimento, haveria o “punctun” barthesiano agindo sobre o olhar de cada uma delas.

A insatisfação de Ema, que teve este desfecho trágico, independe de gênero, classe.  Parece-nos universal e atemporal. O romance de Flaubert é um enigma que persiste. É literatura imortal, técnica, mundividência e cristalização abordando nossas mais profundas angústias que, expressam assim em alta cultura, mostram à nossa humanidade. O adultério e suicídio de Ema foram meticulosamente trabalhados pelo autor que levou cerca de cinco anos para finalizar sua obra-prima, carregada com uma toxicidade cujas consequências, ao exibir o desregramento frenético de uma personagem ninfomaníaca e que se entregou à fuga da realidade, foram alvo de muitos comentários, para dizer o mínimo.      

A ilusão de liberdade do “eu”, a alta ansiedade, faz-nos ver nesta personagem certo tipo de anti-heroína. Ela é paradoxalmente. Flaubert fez-nos observar o mundo com os olhos dela, autodecepcionada com a falsificação da vida. Assim, com um tom irônico, o narrador conclui o seu retrato. 

 

 

 

 

 

 

 

Referências

 

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro:  Francisco Alves, 1991, p. 70

BATAILLE, Georges. A literatura e o mal. Porto Alegre: L&PM, 1989.

CANDIDO, Antonio. A personagem de ficção. São Paulo: perspectiva, 2011.

FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary.11. ed. Rio de Janeiro: Ediouro 1999

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão e outros trabalhos, 1927-1931. Rio de Janeiro: Imago, 1996a.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização e outros trabalhos, 1927-1931. Rio de Janeiro: Imago, 1996b.

FREUD, Sigmund. Totem e Tabu e outros trabalhos (1913-1914).  Rio de Janeiro: Imago, 1996c.

LLOSA, Mário Vargas. A orgia perpetua: Flaubert e Madame Bovary. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

SARTRE, Jean-Paul.  O idiota da família. Gustavo Flaubert de 1821 a 1857. Vol. 1.  Porto Alegre, RS.  L&PM, 2015.

 



[1] Moisés Monteiro de Melo Neto é Doutor em Letras pela UFPE e atua na Graduação e na Pós-Graduação da Universidade de Pernambuco e na Universidade Estadual de Alagoas. Tem vários livros e artigos publicados. Muitas das suas peças teatrais foram encenadas com sucesso.

 

[2] Ana Maria Bastos Macena é graduanda em Letras na Universidade Estadual de Alagoas (Uneal)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

MÁRIO DE ANDRADE ESCREVE A MANUEL BANDEIRA... a famosa carta... a correspondência...

 

“— [...] Está claro que eu nunca falei a você sobre o que se fala de mim e não desminto. Mas em que podia ajuntar em grandeza ou melhoria pra nós ambos, pra você, ou pra mim, comentarmos e elucidar você sobre a minha tão falada (pelos outros) homossexualidade? Em nada. Valia de alguma coisa eu mostrar o muito de exagero nessas contínuas conversas sociais? Não adiantava nada pra você que não é indivíduo de intrigas sociais. Pra você me defender dos outros? Não adiantava nada pra mim porque em toda vida tem duas vidas, a social e a particular, na particular isso só interessa a mim e na social você não conseguia evitar a socialização absolutamente desprezível duma verdade inicial. [...] Quanto a mim pessoalmente, num caso tão decisivo pra minha vida particular como isso é, creio que você está seguro que um indivíduo estudioso e observador como eu há de tê-lo bem catalogado e especificado, há de ter tudo normalizado em si, si é que posso me servir de “normalizar” neste caso.[...] Mas si agora toco nesse assunto em que me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua (veja como eu tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão) e si saio com alguém é porque esse alguém me convida, si toco no assunto é porque se poderia tirar dele um argumento pra explicar minhas amizades platônicas, só minhas.[...] Eis aí uns pensamentos jogados no papel sem conclusão nem sequencia, faça deles o que quiser.”

 


domingo, 26 de dezembro de 2021

O Conto popular e o cordel: possíveis intersecções e entrelaçamentos em suas origens

 

                                  PROF. DR. MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO                                                                               

RESUMO

Destrinchando certos aspectos no conto Ala´uddin e a Lâmpada Mágica, traduzido do árabe por Mamede Mustafa Jarouche, buscaremos trabalhar que elementos se refletem, coincidentemente ou não, na construção do cordel Romance ou História do Pavão Misterioso e que estratégias estão aí embutidas. Como são representadas nestas obras, por exemplo, as mulheres. Como se dá o trânsito dos personagens nestes mirabolantes enredos e que linhas ético-morais empolgam estas histórias. Nosso cotejo busca a compreensão de como aí se dá o uso do coloquial, dos localismos, da dimensão universal e como estão representados os seres humanos em movimento. Como ambas as obras exemplificam que textos literários nunca estão completos nem são estáveis? Como são tratadas aí as questões de deslocamento e entrelugar, ou não-lugar, trânsito e das manifestações sócio-culturais?

 

Palavras-chave: Cordel, Literatura árabe, Orientalismo, Literatura de viagem

 

 

1.      INTRODUÇÃO

Não é de hoje que são percebidas intersecções entre a cultura árabe e algumas manifestações da cultura do Nordeste do Brasil. Especificamente aqui destrincharemos certos aspectos presentes no conto Ala´uddin e a Lâmpada Mágica (utilizamos para nossa análise a tradução feita diretamente do árabe por Mamede Mustafá Jarouche, no Livro das Mil e Uma Noites, volume 4. São Paulo: Globo, 2012); buscaremos neste espaço também trabalhar que elementos se refletem, coincidentemente ou não, na construção do cordel Romance ou História do Pavão Misterioso (do paraibano José Camelo de Melo Rezende; em 2013, este símbolo maior da literatura de cordel completou noventa anos de publicação) e que estratégias estão aí embutidas, também de que modo os cordelistas imaginavam o Oriente, geralmente com estereótipos sugeridos desde obras como As mil e uma noites, amplamente difundidas pelo mundo através de várias mídias. 

 

PROF. DR. MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO

2.      ENCRUZILHADAS ENTRE O PAVÃO MISTERIOSO E ALA´UDDIN: FICÇÕES EM TRÂNSITO

Como são representadas em alguns cordéis e na literatura árabe, por exemplo, outras etnias e como se resolvem as questões de gênero? Vamos ao nosso recorte: No Romance do Pavão Misterioso e no conto Ala´uddin e a Lâmpada Mágica, tanto Creusa, do Pavão, filha de um conde, quanto a filha do sultão, a jovem dama Badrulbudur, de Ala´uddin, são idealizadas como nobres donzelas, cujos encantos atraem a cobiça de dois jovens subitamente por elas enamorados, conhecendo-lhes apenas a beleza física, e do mesmo modo: vistas de longe, numa foto, inicialmente pelo viajante do Pavão, ou num cortejo, por Ala´uddin, que por este amor também ficará em trânsito por universos outros. Colocando estas obras em cotejo e analisando como se dá este trânsito dos personagens nos mirabolantes enredos narrados tanto para o assim chamado “vulgo”, pessoas não ligadas aos meios eruditos, quanto para os intelectuais, percebemos que no caso de Ala´uddin ainda se torna mais complexa uma pergunta: que relações aí se estabelecem entre o divino e o maligno? Ora, a tradução de Jarouche, enfatiza o poder da fé muçulmana apesar da trama original contrapor a feitiçaria à magia, ambas distantes dos ditames do Alcorão. Já no Pavão Misterioso, paradoxalmente, e escrito mais de mil anos depois dos contos árabes, tem-se uma solução científica (máquina voadora etc.) para a magia lírica se desenvolver com tanta propriedade, lembremo-nos que o pavão simboliza fogo, beleza, transmutação, a paz, prosperidade, fertilidade, imortalidade. Tanto uma obra quanto a outra narram histórias de viagens. Os personagens estão em trânsito, entre África, Grécia, China, Japão e outros lugares tidos por alguns como exóticos e aí é também interessante notar como teria se dado o trabalho dos copistas através do tempo ao descrever tais espaços. No caso de Zé Camelo e João Melquíades Ferreira da Silva (outro grande poeta, mas tido por alguns como “plagiador” do Pavão) criou-se uma celeuma terrível, levando o primeiro à depressão, mas o Pavão ainda inspirou muitas releituras, do mesmo modo que o conto/novela Ala´uddin vem inspirando escritores.

As viagens propostas por Sahrazad através dos seus véus narrativos no conto árabe trabalham com o deslocamento, na ruptura com a realidade utilizando-se de recursos que tanto agradam a um espírito aventureiro quanto a um moralismo familiar, caseiro.  Os personagens vão até onde as linhas ético-morais que empolgam estas histórias permitirem. São jovens audaciosos que desnudam o recato de duas virgens ricas e bem protegidas. O prazer sensual lateja à primeira vista neste nosso cotejo. Se observarmos a estrutura vertical destas duas obras, numa amostragem paradigmática, notamos que o motor, e moto contínuo delas é a realização de um desejo juvenil de encontrar uma parceira, visto que em ambas fala mais alto o jovem macho arrebatador, que chega para obter seu objeto de desejo: donzelas que serão “ameaçadas” por um fogo muito especial, o fogo da atração carnal, mesmo que “perfumada” de poesia e encantamento. Evangelista penetrando o quarto da amada e Ala´uddin teletransportando para o seu quartinho pobre a garota rica que ele deseja, numa quebra de hierarquia social e no caso do Pavão, o intercurso se faz entre o capital e a nobreza.

Ao desconstruir os elementos embutidos e explícitos tanto no cordel quanto no conto árabe, percebemos que o uso do da linguagem coloquial, a oralidade latente nos textos e os localismos, não excluem uma dimensão universal (naquele ponto em que lida com arquétipos humanos) e não é muito difícil também perceber os toques que provocam o humor, através da ironia, grotesco, patético e até do macabro, como na conclusão do conto Ala´uddin, quando o gênio revela uma face mais demoníaca (ao ameaçar seu “amo”) e seu poder de destruição torna-se perceptível. A representação destes dois heróis em movimento, através da mágica de um gênio, ou do gênio de um cientista, faz tanto de Evangelista quanto de Ala´uddin viajantes que adentram outras culturas e comunidades de fala sem que isto sirva de empecilho às suas ambições. Pelo seu poder de inspirar recriações, ambas as obras exemplificam que textos literários nunca estão completos nem são estáveis, quando geram inquietações, revisões, cópias com pequenas ou radicais mudanças. Neles as questões de deslocamento e entrelugar, ou não-lugar, trânsito e retrato das manifestações culturais variam de acordo com as adaptações. Em Ala´uddin, nesta versão que abordamos aqui, por exemplo, os judeus são representados enfaticamente como desonestos e traidores da pior espécie, principalmente quando se trata de um incauto muçulmano. Os judeus seriam “mais maliciosos que os demônios”, trapaceiros. Já as mulheres teriam pouco juízo, seriam falsas, assassinas, mentirosas.  Nas duas obras são submissas ao poder masculino.

Apesar de vencer através da magia numa sociedade islâmica (“temente a Deus”, p. 98), Ala´uddin é poupado de maiores questionamentos sobre seu modus operandi e o jogo entre o divino e o maligno (“louvado seja Deus contra os demônios”) se dá de modo que o que apontaríamos como legalidade cotidiana, é preservada, embora as situações sejam absurdas, inclusive quando se trata de locomoção. Em certo momento, o pavão metálico de Evangelista esconde-se numa palmeira; já em Ala´uddin, cujas viagens se dão num passe de mágica, um palácio com milhões de requintes surge do dia para noite sem que haja um estranhamento maior, a não ser por parte do “vilão”, o vizir que quer seu filho casado com a nobre que Ala´uddin corteja.

Entre o mágico e o estranho seria desnecessário aqui questionarmos se a ambiguidade ou o trânsito entre o real e o fictício estaria mais em tais narrativas ou no leitor, mas podemos notar que as rasuras nas fronteiras entre as delicadas relações do “real” com o puramente “imaginário” apontam para uma influência do Orientalismo na construção do Pavão, cuja máquina equivale a um tapete voador. Os pontos em comum nos textos estão presentes também nas linhas ético-morais que empolgam estas histórias.  O real possível é amalgamado com o onírico, o absurdo, o simbólico, e desorganiza-se a ordem através da ruptura com o habitual/convencional contrapondo-a ao mundo do maravilhoso e fascinante, do grotesco, do terrível, também, e do inconsciente, de modo surreal  se opondo a um falso “realismo” (que supõe que literatura pode ser completamente realista).  Este jogo literário, mais do que afrontar o senso da realidade, faz-nos ampliar nossa imaginação até o limite. São narrativas dubiamente não-racionalistas, não-realistas, onde as situações inusitadas misturam-se com o real cotidiano. O Pavão Misterioso é um artefato de invenção fantástica, geradora de espanto, metamórfico bicho-máquina. Já a história das mil e uma noites tem encantado leitores/ ouvintes aqui no Brasil e exemplifica algumas técnicas e temas, como estas viagens “mágicas” do conto árabe.

 

3.      OURO DE TOLO

Há parcialmente uma eliminação de certos vernizes moralistas principalmente no trato de imagens simbólicas e identidades fragmentárias, e o que percebemos tanto no cordel quanto no referido conto árabe são encenações de fantasias em intensidade muito maior do que qualquer tom de denúncia social, no caso da posição da mulher na sociedade árabe, por exemplo, ou da doxa, o discurso da divisão de classes; favorece-se nos dois textos, isto sim, o “inter” como o entrelugar onde o hibridismo se articula num processo de tradução e negociação. O simbolismo do ouro, é de certo modo a grande força motriz das duas narrativas, quer seja gerando possibilidade de locomoção ou mesmo como símbolo de poder e triunfo, mesmo que aparentemente esteja mais destacada a força do amor (atração física?) e do empreendedorismo. O aparelho estatal do funcionalismo público representado pelo sultão e pelo vizir do conto Ala’uddin e a lâmpada mágica faz-nos refletir que nesta obra cada um vale pelo ouro que possui. É o caso, sutilmente oculto no Pavão Misterioso, de Evangelista e seu irmão mais velho João Batista, filhos de próspero capitalista turco. Mas parece que tal moeda de troca não passa de mias um dos recursos que Sahrazad, a narradora de Ala´uddin, lança mão com sua astúcia, criando um mundo fantástico que engrandece a si mesma aos olhos dos seus interlocutores (e dos seus leitores) sedentos de curiosidade que ela só excita com suas histórias entrecruzadas. Assim podemos abrir um leque de possibilidades para interpretar tais textos, observando neste discurso sempre uma camada de significação suplementar, o entrecruzamento de várias vozes, uma pluralidade, de outros discursos superpostos, que provoca o descentramento, usando dentre outros recurso imagens oníricas. Lembremos que no sonho o espírito afasta-se da sociedade, mas na realidade, a percepção vem impregnada de lembranças e que o grande instrumento socializador da memória é a linguagem. Amalgamando o que ela extraiu da experiência dela ou (re)contando o que obteve por outros, tal narradora torna tal experiência como sendo também, a partir dali, daqueles que ouvem a sua história.

Já a viagem fantástica proporcionada no eixo narrativo que impulsiona o amante do Romance do pavão misterioso, dá-se em versos provocantes, permeados de um otimismo do mesmo modo que a narrativa árabe, só que composto por sextilhas em redondilha maior. Vamos aos pontos em comum na sua trama com a história de Ala’uddin. Por exemplo: a maneira como o jovem se introduz no quarto da amada, o susto dela, comparam-se ao artifício usado n’ As mil e uma noites. Já a maneira como se tece história dos irmãos João Batista e Evangelista, filhos de um capitalista turco (Batista viaja para o Japão e Grécia), assemelha-se ao artifício do enredo de Ala’uddin (que se teletransporta para o Norte da África). Ao ver uma moça proibida, que saía raramente e ninguém poderia sequer falar com ela, filha de um poderoso tirano. Batista consegue uma foto de Creusa e entrega ao irmão, Evangelista (na Turquia) e este se apaixona pela figura da dama, vai até a Grécia para tentar conquistá-la a qualquer custo. Lá, ele entrega sua fortuna a um engenheiro e obtém sua máquina fantástica um Pavão de Alumínio capaz de voar ao quarto da amada, no alto do palácio do Conde, pai dela. O fantástico se desenvolve a partir daí numa história que poderia integrar As mil e uma noites. O aeroplano misterioso tem, através do zoomorfismo, participação fundamental na trama rocambolesca (que não dispensa rendas, sedas, olhares fascinantes e um lenço com poderoso narcótico). Se o suspense sherazadiano mantém o leitor preso pela oralidade do texto como num torpor, isso aqui também acontece com a história de Evangelista e seu pavão, o “monstro de alumínio”. Depois de muita peleja a moça confessa (“descobriu-se” subitamente assim) que é reprimida pelo pai e se entrega ao amor de Evangelista que, raptando-a, leva-a a Turquia e com a morte do pai dela, a sogra dele posteriormente, abençoa a união.

É claro que quanto à narrativa e seu estofo fantástico, temos, no caso do Pavão, vários artifícios tipicamente ligados à literatura do Nordeste do Brasil em forma de Cordel (como o intrincado problema a ser resolvido pela astúcia do herói fiel ao seu amor em meio a confusões, mas com relações sociais bem hierarquizadas, num universo que lembra o da nobreza europeia dos condes, duques, castelos etc.), mas há também a reafirmação da mulher como objeto de beleza e quase como mercadoria a ser adquirida, levada para casa, do pai para a do seu novo senhor: o marido. O mesmo tipo de garota, os mesmos problemas, quase o mesmo tipo de pai, o patriarcado se entrelaçando ao sutil jogo social machista. Com o real subjugado pelo onírico em cenário de Oriente árabe, dá-se o rapto da nobre donzela. Estes textos, ao sugerir a impossibilidade de uma verdade única, instalam-se como um meio de acesso a uma nova visão cultural, mesmo que de forma fantástica. Rompem com as relações solitárias de sujeito com a verdade imposta, poetizando a experiência do viajante, enlaçando contradições e “coincidências”, abalando “certezas” universais e/ ou transcendentais, autorizando as diferenças, negociando entre os polos, em contraposição às conveniências e aparências que regem o jogo social. Catalisando misteriosos detalhes secretos sabendo que tais detalhes da vida só adquirem existência quando encontram palavras e gestos com que expressar (numa determinação literária poética) os anseios, desejos, sofrimentos e gozos. Dirigem-se ao sujeito/ leitor a partir de um outro lugar, diferente do lugar-comum dos discursos de autoridade e oferecem-se como experiência cultural em trânsito, em fusão, compartilhada de forte interpenetração imaginária, ao mesmo tempo em que interpela diretamente o indivíduo leitor em seu isolamento, instaurando-se como ruptura, apóstrofe, apelo aos sujeitos sugerindo universos paralelos.

O coletivo e a invenção individual vão sendo re-elaborados continuamente num sistema de oposições e correlações que quer ser espelho de uma situação em que muitas representações e processos, encontrem seu lugar. E nestas vivências de diversidade e de ruptura e outras tendências, tanto o citado cordel quanto o conto árabe articulam o seu caminho por entre as frágeis malhas da rede de informações que lhe chegam através de outros textos e desta rede de interlocuções provém uma escrita que interroga a falência dos enunciados de verdade, que faz do Outro um reflexo, ou uma construção incapaz de oferecer qualquer garantia. Descentraliza a verdade reconstruindo sua significação, questionando, usando a linguagem contra a tirania do Um, sem ocupar um lugar de autoridade e buscando a interlocução, transformando poesia em tática, busca legitimação simbólica sem a pretensão a fundar uma exceção perversa.

Há em Alau´ddin ideias que compõem o orientalismo, a cada página reforçado. O politicamente incorreto passa por sedução de menor, cárcere privado, corrupção generalizada, mesclados ao sobrenatural e ao fantástico. O texto árabe utiliza a narradora apenas como exercício para o salto, atira-se num vaivém estonteante entre piedade e perversidade ao tratar da história de Alau´ddin, (que em árabe significa: “elevação da fé”, “enfeitiçado”), filho de um alfaiate pobre na China, rota árabe, garoto sustentado pela mãe, pícaro apaixonado por rica donzela, anti-herói que assumirá caráter principesco através do sobrenatural, introduzido ao fantástico pelo personagem do feiticeiro Magrebe (do Norte da África) que se passou pelo seu tio e seduziu-o para conseguir a lâmpada mágica. Temos da quingentésima décima quarta noite (514ª) à sexentésima vigésima quarta (624ª) noite árabe um jogo de vale tudo, com direito a teletransporte, palácios, árvores, frutos etc. feitos em ouro e pedras preciosas, exércitos e haréns tirados do nada só para o deleite do jovem Ala´uddin e dos seus, a isso se mistura o alcorão (JAROUCHE, 2012, p.23) tudo em tom coloquial. A jovem dama Badrulbudur, filha do sultão e que poderia ser matriz da personagem Creusa, do Romance do Pavão misterioso; surge num clima fantástico reforçado por comparações hiperbólicas: “erguem o véu, seu rosto cintilou como se fosse sol brilhante ou pérola resplandecente”, “mágica no olhar”, “flores nas bochechas” etc. (JAROUCHE, 2012, p.48). O clima fantástico inclui o teletransporte. Não há um tapete voador nem pavão metálico, mas um colchão é usado com tal função (JAROUCHE, 2012, p.63) e é sobre ele que a virgem será entregue a Ala´uddin, intacta, mesmo já casada com o filho do (“invejoso”) Vizir.

4.      CONCLUSÃO

Todas as incoerências das duas tramas são abafadas por um clima da mais completa naturalidade. Dezenas de pessoas bem vestidas saindo subitamente do casebre de Ala´uddin e sua mãe, onde mal cabiam duas pessoas, “corcéis que não existem no mundo”, eunucos, “criados e criadas cuja beleza deixaria pasmado qualquer vivente” (JAROUCHE, 2012, p.79) não espantam a população, muito menos o leitor/ouvinte, já preso aristotelicamente por uma coerência interna habilmente traçada. Ambas as obras apresentam noites que nem Alexandre, o grande, viveu iguais em “melhores tempos” tudo na força da magia e da técnica. No final, a corte e o povo adoram Alau´ddin, que é conhecido pela imensa generosidade e nobreza (antes era malandro): “Deus no céu e Ala’uddin na terra” (JAROUCHE, 2012, p. 90). Ele é um autêntico muçulmano que, dentre outras características, para no rio para “abluir-se”, fazer “prece matinal” etc. (JAROUCHE, 2012, p. 99), mesmo tendo feito um pacto com seu gênio e estar pronto a cometer crimes. O final do texto envolve o leitor ainda mais no clima fantástico: um pássaro chamado roque, capaz de carregar “camelos e elefantes entre as unhas, e voa com eles graças ao seu tamanho” (JAROUCHE, 2012, p.111) seria invocado por capricho do casal real (Ala´uddin e a sua esposa), por malícia do irmão do feiticeiro que Ala´uddin assassinou e que busca mais poder e vingança, só que tal ave era algoz dos gênios, mas tudo se resolve a contento e a narradora diz “isso não é nada comparado ao que irei contar na próxima noite, se eu viver” (JAROUCHE, 2012, p.115).  Ao interseccionar várias realidades, ela vai lembrando e contando, fugindo do esvaziamento e da desvalorização nesse processo. Esta narradora tem seu lócus instalado numa espécie de vórtice do tempo, em meio a lutas pela sobrevivência e o desejo de inebriar os que prestam atenção à sua narrativa num tom coloquial / sensual dá sabor ao texto e o faz fluir.  Já na trama do Pavão Misterioso, Evangelista depois de mirabolantes reviravoltas traz sua amada ao seu país, a Turquia, raptando-a, o pai dela morre, do mesmo modo que o pai da noiva árabe termina aceitando com naturalidade a riqueza do genro. São os casamentos entre ricos de berço, novos ricos e nobres. Resta aos leitores além do deleite com as obras, a riqueza da reflexão transtemporal, do gênio que sai obediente da lâmpada à viagem no pavão misterioso: ficções em trânsito, não importando tanto se o leitor é conduzido num colchão voador árabe ou nas asas de um pavão criado na Paraíba. O enigma da linguagem é um dos mais excitantes da humanidade. O local da diferença é também lócus para desenvolver projeções de amor e ódio fazendo o apreciador de uma obra artística deslizar constantemente de uma posição a outra, provocando o colapso da certeza. Ala´uddin e o Pavão Misterioso são textos que tentam (re)construir narrativas do imaginário social de dois povos, o árabe e o do nordeste do Brasil. Nada que seja estático é do povo, pois este é instável, inclusive na sua significação cultural; se a história é pedagogia a cultura do povo é antes de tudo performática, moldada no momento em que se expressa. Tal urgência exige muita (re)negociação de tempo, termos e tradições.

 

 

Referências Bibliográficas

CAMELO DE MELO, José. História do Pavão Misterioso, 3ª edição. Campina Grande: Memorial do Cordel, 2003.

JAROUCHE, Mamede Mustafá.  Livro das Mil e Uma Noites, volume 4. São Paulo: Globo, 2012.