A POP
FILOSOFIA de MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO
Quando
falamos em Pop Filosofia pensamos nisso também, como um traço da contracultura.
São diversos os aspectos que parecem diferenciar a Pop Filosofia em cotejo com
a filosofia acadêmica. Cada um deles poderia, entretanto, ser facilmente
recuperado a partir da própria tradição filosófica, não tendo sido inventados
na contemporaneidade, mas apenas rememorados, reapropriados ou
reinventados, nesta reunião
dos termos “pop”. E filosofia”. É pensar uma filosofia que esteja
aberta a se “transfigurar”, em sentido emprestado da pop art de Andy Warhol,
movendo-se de seu lugar historicamente encastelado nos meios acadêmicos e
alienado da vida quotidiana. Diante do que parece um projeto organizado de
apagamento da filosofia e do pensamento reflexivo em meio à indústria cultural,
Daí o resgate do conceito deleuziano para propor uma renovação do fazer
filosófico.
Pop Filosofia, noção já presente em
Deleuze, também, uma pop educação. O conceito de “Pop
Filosofia” foi inventado por ele nos anos 70. Desde então, diversas iniciativas
no Brasil e no mundo, cada uma à sua maneira, vêm sendo colocadas em prática
inspiradas nesse projeto. Sua consequência mais perceptível é o enfraquecimento
da rigidez do cânone de autores e questões tidas como importantes no ocidente. Aí
a Pop Filosofia vem ocupando nesta feira simbólica das atividades
acadêmicas um lugar de experimentação ou de vanguarda, o que na prática acaba
se tornando um não lugar, entrelugar como se fosse apenas um fenômeno
efêmero e irrelevante. Há quem desenvolva outras estratégias e em vez de
combater a hegemonia do clássico, que tal hackeiam-no? E se aceitássemos a tese
de que a história da filosofia é mesmo a melhor forma de acesso à filosofia ela
mesmo, mas fôssemos capazes de pluralizá-la?
A filosofia de Andy
Warhol, central para o movimento Pop Art, transformou objetos de consumo de
massa e celebridades em arte, questionando a fronteira entre cultura popular e
"alta arte". Ele aborda a repetição, a beleza superficial, o consumo e
o dinheiro com autoironia, antecipando a era das redes sociais. Aqui estão os
pontos principais da Pop Filosofia de Warhol: a) Warhol revolucionou ao
introduzir a arte colaborativa, criando um espaço de produção em massa que
simulava uma linha de montagem, questionando o conceito de autoria única. b) Ao
retratar latas de sopa, Coca-Cola ou ídolos (como Marilyn Monroe), Warhol
destacou que o consumo iguala as pessoas, tornando a arte acessível e
cotidiana. Ele defendia que a beleza retratada em fotos (bidimensional) é uma
cópia inatingível, antecipando a lógica de imagem das redes sociais
atuais. Diferente da filosofia clássica, a Pop filosofia é direta,
superficial no sentido de focar na superfície das coisas, e profundamente
conectada ao estilo de vida moderno e à sociedade de consumo. Sua filosofia foi
consolidada na prática artística com serigrafias e textos que misturam
pensamentos sobre sucesso, amor, tempo e morte de forma superficial e
autoconsciente.
O conceito também é
abordado em obras contemporâneas, como o livro Pop
Filosofia de Márcia Tiburi, que resgata a ideia de uma
filosofia aberta, como que transfigurada pela estética warholiana,
focada no cotidiano
Pop Filosofia gosta mais da
cidade do que do campo. O adepto deve acostumar-se com o mundano, aprender a
comer sozinho e aproveitar-se da experiência urbana ver que ser mulher é tão
nada como ser homem. Entender que fazer sexo dá a sensação de ser natural,
normal, gozando ou não. Somos o que pensamos e as câmeras não captam o que
pensamos. Não faça dos seus problemas um Problema. Não reclame de uma coisa
enquanto ela estiver acontecendo, espera que ela se conclua para apontar o
culpado. Você pode ter maus modos, se soube se aproveitar disto.
Ser limpo é muito importante.
Beleza na sujeira é feia, mas beleza não tem muito a ver com sexo; deve-se
aceitar a autoimagem das pessoas do mesmo modo como recusamos os excessos
alimentares e pensar que é impossível todos terem dinheiro suficiente par viver
bem, pois a história certa no lugar certo pode colocar cada um em no alto por
meses ou anos. Nenhuma pessoa/ ator é completamente certa para incorporar um
personagem, mas o teatro do mundo está apresentação, sempre e negócio, aí, é a
melhor arte no conceito pop filosófico. Olhar todo o resto ao redor tem que
incluir o humor diante dos restos que, com o todo, deve ser reciclado. A Pop
Filosofia usa os restos, o que não significa se alimentar de restos, isto é
outra coisa. Alimento é sagrado, esta extravagância deve ser tolerável. Às
vezes somente um biscoito na hora do jantar pode ser o certo para evitar
excesso de peso.
Nascer é como ser sequestrado e
viver dá muito trabalho. Somos vendidos como escravizados. Tempo é, tempo era.
Quando encontramos alguém que não víamos há muito tempo, não devemos perguntar
sobre o que tem feito e sim prosseguirmos na ação presente, não xeretar sobre o
período de ausência entre ambos. Não é o tempo que modifica as coisas, somos
nós mesmos, mas não forcemos muito.
II
Os méritos de Hegel, ao
contrário de Schelling, incluemter desenvolvido uma história da filosofia que
serve como propedêutica “afirmativa”, ou seja, dar a conhecer como ela [a
própria filosofia] aparece sucessivamente no tempo. Com ele a filosofia se
torna histórica e a história da filosofia se torna filosófica. Infelizmente há
um preço a pagar pelo resgate da história da filosofia. Hegel constrói um
modelo rígido. Se por um lado ele abre espaço para os devires, por outro lado
os aprisiona sob as categorias de “processo” e “progresso”. Nesse modelo, o
desenvolvimento do começo ao fim da história da filosofia é fixo, inexorável e
até irresistível.
Além disso tudo que diz
respeito à finitude do pensar, ou seja, ao corpo, nos seus afetos, aos desejos,
mas também aos acidentes de percurso, às idiossincrasias das personalidades, ao
compasso ou ao descompasso entre vida e obra dos autores, é ignorado,
domesticado ou banido da estrutura do pensamento em nome de uma metafísica de
uma pureza conceitual. Esta concepção hegeliana de “história da filosofia”
vigora de forma não tematizada nos cursos de filosofia pelo Brasil. Podemos
reler esta tradição, pois ao desvelar as supostas “raízes clássicas” da Pop
Filosofia, quero na verdade apenas re-visibilizar ou revocalizar alguns
aspectos desprezados e silenciados.
Desde os primórdios temos
também aqueles modos de escrever e pensar mais abertos, na filosofia, às
atmosferas afetivas evocadas pelas diferentes sonoridades e coloridos das
palavras e, nem por isso, menos densos conceitualmente, tais como os poemas
(Sapho e Parmênides), os diálogos (Platão e Sade), as confissões (Agostinho e
Rousseau), as cartas (de Schiller), os pensamentos (Pascal), os aforismos
(Novalis e Nietzsche), os diários (Kierkegaard), os romances e contos (Sartre e
Camus), as performances (Preciado). Infelizmente a escolástica acadêmica
vigente tende apenas a se focar exaustivamente nos conteúdos dessas
experimentações literárias-filosóficas, sem dar muita atenção aos seus modos
singulares de se fazer, dissociando e hierarquizando aquilo que, ao contrário,
terá sempre acontecido em forma recíproca.
A aparente ausência de estilo
nos textos acadêmicos atuais em Filosofia é, na verdade, a vitória hegemônica
de um estilo específico, o analítico/escolástico, que apresenta uma estrondosa
uniformidade estrutural e cuja linearidade entediante perpassa por todas as
produções da pesquisa, tanto nos artigos das revistas científicas, como nas
conferências nos congressos; tanto nos trabalhos de conclusão de curso, nas
dissertações de mestrado, como nas teses de doutorado. Mas o estilo vitorioso
da Filosofia acadêmica se finge de neutro, mas segue um código de regras muito
estrito, mais notadamente na exigência de conformidade aos seus aparatos
intermináveis de erudição, tais como as notas de rodapé, as referências
bibliográficas, os glossários e os índices onomásticos. Tudo se passa como se
só houvesse rigor na forma estrita do cálculo, da geometria e da arquitetura.
Inspirada em Nietzsche, que dizia que o rigor da Filosofia acadêmica era uma
espécie de rigor mortis, irrompe felizmente no cenário contemporâneo um contra-movimento
de reabilitação do corpo, dos afetos e das imagens na escrita filosófica. A
re-estetização dos conceitos permite que o pensamento faça outros tipos de
aliança, para que a Filosofia não se constitua apenas sobre, mas com ou até
mesmo enquanto arte.
A
Pop Filosofia é uma filosofia performativa que busca engajar o corpo nos
conceitos, afetos e pensamentos, ações teóricas e práticas. Talvez seja
possível afirmar que estamos vivendo uma espécie de performative turn na
filosofia do século XXI. Para mim, é claro que a dimensão performativa da
filosofia não é um vanguardismo, mas um classicismo, especialmente
característico da Grécia antiga. Todos os filósofos, sem exceção, sempre
misturaram filosofia e ação na vida cotidiana. Algumas dessas ações não foram
fortuitas ou involuntárias, foram gestos conceituais, ações filosóficas,
seguiam um “programa performativo”. Existem muitas situações emblemáticas
famosas, onde o filósofo engajou seu próprio corpo para intensificar suas
ideias. A famosa fotografia de Jules Bonnet que mostra Nietzsche e Paul Rée
puxando uma charrete com Lou Salomé nas rédeas e no chicote foi uma genial ação
performática encenada pelo próprio filósofo alemão em maio de 1882, uma cena
que até hoje alimenta diversas polêmicas. O próprio Sócrates, pouco antes de
tomar a cicuta, realizou um ritual performático, ao pedir que fosse sacrificado
um galo a Esculápio, deus da medicina e da cura. Um breve olhar sobre a
história do pensamento mostra que a nudez, esta que sempre de novo é alvo de
polêmicas por parte dos setores mais conservadores contra as artes, já foi
ativada como ação performativa e conceitual diversas vezes até mesmo na
hagiografia oficial. É notório, por exemplo, o modo como Francisco de Assis
marcou sua decisão de mudar sua vida em prol de um cristianismo mais atento às
questões sociais: em 1206, despojou-se até ficar nu diante do pai, do bispo e
de toda cidade. Corpo e pensamento em sintonia em prol de um voto de pobreza.
Na filosofia, quem ficou famoso pela nudez em espaços públicos foi Diógenes, o
cínico, considerado por Platão um “Sócrates que enlouqueceu”. Diógenes
defendia, contra Platão, que a virtude se exercia na ação e não apenas na
teoria. As ações performativas de Diógenes e de tantos outros renomados
pensadores, algumas consideradas obscenas, outras engraçadas e ainda outras
admiráveis, compõem um imenso acervo de “anedotas” da história da filosofia.
Sem sombra de dúvida a
obra de Diógenes Laertius constitui um dos pioneiros clássicos da Pop Filosofia.
Infelizmente, embora seu trabalho tenha servido de fonte ininterrupta de
conhecimentos sobre o pensamento, a vida e o território de cada pensador,
constata-se na evolução da “história da história da filosofia”, ou seja, na
recepção desses conhecimentos, uma crescente purificação dos aspectos
biográficos, corporais, afetivos, em suma, das dimensões performativas
inerentes às obras dos grandes filósofos da antiguidade. Essa higienização do
pensamento, a desautorização das inevitáveis, ainda que misteriosas,
interseções entre o corpo e o corpus de cada filósofo, é infelizmente
sintetizada justamente por um dos maiores defensores da dimensão finita do
pensar, Martin Heidegger.
Heidegger disse, em um
curso sobre Aristóteles de 1924, que tudo que precisávamos saber sobre a vida
de um filósofo é que ele nasceu, pensou e morreu. Como diria Deleuze, é muito
difícil, até para Heidegger, ser coerente com o pensamento heideggeriano.
Nietzsche, ao contrário, no prefácio à sua pequena história da filosofia na era
trágica, em 1874, defendia a centralidade das anedotas para a compreensão do
pensamento:
Esta tentativa de contar
a história dos filósofos gregos mais antigos se distingue de outras tentativas
semelhantes pela sua concisão. Esta conseguiu-se porque, em cada filósofo, se
mencionou apenas um número muito limitado das suas teorias, em virtude,
portanto, de não apresentar uma imagem completa. Mas escolheram-se as doutrinas
em que ressoa com maior força a personalidade de cada filósofo, ao passo que
uma enumeração completa de todas as teses que nos foram transmitidas, como é
costume nos manuais, só leva a uma coisa: ao total emudecimento do que é
pessoal. É por isso que esses relatos são tão aborrecidos: pois em sistemas que
foram refutados só nos pode interessar a personalidade, uma vez que é a única
realidade eternamente irrefutável. Com três anedotas é possível dar a imagem de
um homem; vou tentar extrair três anedotas de cada sistema, e não me ocupo do
resto.
Nietzsche pode ser
considerado o catalisador da virada performativa da filosofia, pois sempre
defendeu e assumiu a dimensão autobiográfica na sua própria escrita, fez
experiências com novas mídias, tendo sido um dos primeiros usuários de máquina
de escrever do planeta e realizou diversas parcerias tanto com artistas
(atores, músicos, poetas, fotógrafos, etc.), como com cientistas (biólogos,
médicos, geógrafos, etc.). Nietzsche se autodenominava “Filho de Laêrtius” em
algumas de suas cartas, dedicou diversos estudos a ele na sua juventude e disse
que preferia ler Laêrtius do que a maioria dos historiadores da sua época, pois
“naquele pelo menos vive o espírito dos filósofos antigos; mas nestes não vivem
nem o antigo nem nenhum outro espírito”
Inspirado em Nietzsche,
Deleuze, Diógenes, Crátilo e Sócrates, patronos da Pop Filosofia, sentimos uma dimensão
performativa da filosofia vem sendo ignorada ou reduzida a meras anedotas
pela historiografia oficial da filosofia. Será preciso rever a noção de
“anedota”, sua relação com a história e a verdade em geral. Embora sejam
comumente definidas como histórias engraçadas e desimportantes, desde tempos
imemoriais elas cumprem o papel, enquanto “estórias secretas ou não transcritas
sobre o que não é dado”, de desestabilizar as compreensões hegemônicas da
realidade e estimular novas perspectivas. Levar a sério as anedotas da história
da filosofia ajudam não apenas a resgatar a sua dimensão performativa perdida,
mas ajuda também a enfraquecer o seu excessivo euro- e logocentrismo, já que a
tradição oral de contar histórias constitui fonte inesgotável de conhecimentos
e sabedorias na Ásia, África e na Ameríndia. Não basta ampliar os conteúdos do
cânone, será preciso reavaliar a excessiva centralidade dos conceitos e da
escrita em detrimento das imagens e da oralidade.
Por uma “Pop história da
Filosofia” intima a filosofia acadêmica a ter força de suportar os paradoxos e
as ambiguidades da existência, mas também a resistir e questionar as ideologias
hegemônicas. Não se abandona o rigor, mas sim a excessiva formalidade. É
necessário, por exemplo, se perguntar se a sala de aula, o texto linear, as
aulas expositivas, as longas palestras em congressos, são ainda os formatos
mais adequados para se fazer filosofia no século XXI. Será imprescindível
reativar os corpos dos filósofos, sentados eternamente, seja nas cadeiras da
escrivaninha ou nas cátedras da academia. Será preciso, finalmente, rever a
própria noção de “cânone”, derivava do grego kanon, que significa vara
de medir. Será preciso realizar uma genealogia de como foi construído o cânone
de autores e questões da história da filosofia e combater a desatenção
deliberada contra os territórios, os corpos, os gestos e os estilos em
contraste com apenas o que eles disseram ou escreveram.
A filosofia no Brasil vem
felizmente se deixando cada vez mais ser invadida e contaminada pela complexa
diversidade da própria sociedade brasileira, mas ainda é um escândalo que não
haja ainda, algo muito dedicado às questões que envolvam cultura brasileira e
não apenas história da filosofia brasileira. Precisamos abrir cada vez mais
espaços para a participação das mulheres, dos afrodescendentes, dos
remanescentes dos povos indígenas na filosofia do Brasil. Não é necessário para
isso abandonar completamente as tradições europeias. Temos muito ainda a
aprender com os autores clássicos, a saber, sobre como se proteger “nas” suas
sombras, mas também “das” suas sombras, buscando outras e melhores luzes.
Antes de
concordarmos ou não com o que possa vir a ser Pop Filosofia, temos que saber
que ela se tornou um fenômeno que merece cuidado filosófico, como qualquer tema
ligado à cultura. Não podemos nos negar à reflexão sobre o tema, o que
significa, sem preconceitos, prestar atenção nele tendo em vista justamente o
que nos incomoda. O preconceito não será incomum. Mas mesmo em certos contextos
do campo acadêmico, berço dos preconceitos intelectuais, a seriedade da
investigação, substituindo a crítica abstrata, faz da Pop Filosofia um objeto
de estudos como outro qualquer. Há várias pessoas estudando seriamente a Pop
Filosofia. Não será possível compreender o que vem sendo chamado de Pop
Filosofia se não estivermos atentos para uma armadilha na qual a filosofia,
como qualquer área, cai com facilidade. Trata-se da armadilha da “distinção”,
no sentido de Pierre Bordieu, relativamente à “nobreza acadêmica”. Quanto a
isso, podemos dizer que a necessidade que o campo filosófico tem da distinção
da filosofia em relação a outras áreas atrapalha, de certo modo, o avanço da
própria filosofia.
Mas a questão da distinção nos coloca diante de outros problemas profundos e
pouco levados a sério. Um deles diz respeito às fontes implicado diretamente na
questão da nobreza.
Pop Filosofia é um modo de pensar
filosófico, ou seja, um método, que se faz questionando a necessidade da
nobreza das fontes. Em outras palavras, se a filosofia tradicional é feita a
partir dos textos de filósofos de uma determinada tradição, a Pop Filosofia é
aquela que, em um sentido muito simples, se realiza a partir de outros textos,
não apenas da tradição greco-latina. Ela tem relação direta com a filosofia
crítica enquanto está atenta aos conteúdos obscuros de sua época, enquanto eles
são culturais. A Pop Filosofia é uma filosofia da cultura atenta aos conteúdos
desprezados de um tempo. Em nossa época, estamos obrigados a pensar na questão
da indústria cultural. Podemos dizer que a Pop Filosofia é a filosofia crítica
da indústria cultural que assume o padrão de produção da cultura de nossa época
para compreendê-lo. Na Pop Filosofia, prepondera o método. À pergunta “como
fazer filosofia?”, ela responde a partir de fontes não usuais e dos conteúdos
do seu próprio tempo. Em termos bem simples, a Pop Filosofia é uma filosofia do
contemporâneo com alto teor de experimentação dialógica com outras áreas de
pesquisa, com as artes, com outras fontes, com outros métodos. A Pop Filosofia
se faz a partir da vida em seu sentido político e cultural. Com a Pop Filosofia
está em jogo o que a filosofia pode e deve pensar, o que pode se tornar
“assunto filosófico”.
A Pop Filosofia é aquela que se deixou afetar pelo pop. De que pop falamos? Há
pelo menos dois tipos de pop. Conforme a classificação de Charles Feitosa,
autor de um texto seminal sobre a questão, a Pop Filosofia está ligada ao campo cultural do
pop, relacionado também à Pop Art e interessa enquanto maneira de fazer
filosofia, já o Pop está ligado ao sucesso puro e simples, e não interessaria
como maneira de fazer filosofia, mas o que chamamos hoje de Pop Filosofia tem
também uma pré-história.
A Pop Filosofia pode ser
considerada a herdeira histórica da área da estética filosófica, aquela que se
ocupou de certos conteúdos desprezados pela razão e pela teorização
tradicionais, a saber, o corpo e a arte. De todas as subáreas da filosofia, a
estética é a mais interdisciplinar, aquela que mais se relaciona com outras
teorias e que permite as investigações e a criação das metodologias mais ricas,
o que acontece em conjunto com a ética, a política, a epistemologia, a
filosofia da linguagem e, não é exagero dizer, também com áreas tão novas como
a filosofia multicultural. Para além da história da filosofia, sem esquecer
dela, a filosofia experimenta hoje uma autotransformação importante. Essa
transformação a aproxima das formas da cultura e da vida cotidiana, tanto mais
vazias de pensamento, quanto mais a filosofia se esquece delas. A Pop Filosofia
é a proposição altamente filosófica de um diálogo da filosofia com seu tempo,
tendo em vista as formas de viver e pensar das pessoas que constroem seu tempo.
III
Mesmo sendo a intenção da Pop Filosofia
devolver o pensamento das pessoas para que elas possam integrá-la às suas vidas.
Vejamos um lado assustador, para muito desta filosofia: a Pop Filosofia traz
estranheza e perplexidade, também; traz certo conhecimento secreto, toca nas
raízes do nosso nada que pode ser a vida e como não incorporar os problemas dos
outros. Nos faz lembrar que conseguimos melhor aas coisas quando não as
desejamos ansiosamente, a ponto de nos perturbar e nos atiçar em relação ao
ponto de chegarmos às raias do limite da loucura sem colher nem um fruto disso.
Um exemplo é a relação sexual: dormir, transar, fazer carinho: o que fazer
quando estamos deitados ao lado de quem desejamos: a Pop Filosofia aconselha
que o mais excitante é, certas vezes, o não-fazer. Aí amor e sexo podem ser
negócio, é fantasiar.
Às crianças deveríamos ensinar os
mecanismos e o nada do sexo, de modo a não se entediar até a velhice. Os
conceitos sobre tais coisas não podem ser fixos. Acima de tudo deve haver
simplicidade. O que se faz a dois na hora do amor deve fugir de algo como dois
passarinhos numa gaiola. Não adianta enchera a cabeça com sexo não adianta
comprar as pessoas como se fossem coisas, mas o amor pode ser comprado e
vendido. Perceber que sexo é fantasia por sexo. Violência não é sexy. Tem gente
frígida que sabe fingir prazer e qualquer um atinge a satisfação. Vejam: se um
homem bonito tem aquilo pequeno ou uma mulher tem um seio maior que o outro?
Eles podem ter uma boa conversa e omitir/ eclipsar esta imperfeição boba.
Deve-se omitir defeitos porque isto não faz parte do que queremos ser e todos,
afinal, devemos, ao atravessar períodos de impopularidade, resistir.
Pop Filosofia é para todos e
todas.

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