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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A POP FILOSOFIA de MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO

 

A POP FILOSOFIA de MOISÉS MONTEIRO DE MELO NETO

Quando falamos em Pop Filosofia pensamos nisso também, como um traço da contracultura. São diversos os aspectos que parecem diferenciar a Pop Filosofia em cotejo com a filosofia acadêmica. Cada um deles poderia, entretanto, ser facilmente recuperado a partir da própria tradição filosófica, não tendo sido inventados na contemporaneidade, mas apenas rememorados, reapropriados ou reinventados, nesta reunião dos termos “pop”. E filosofia”. É pensar uma filosofia que esteja aberta a se “transfigurar”, em sentido emprestado da pop art de Andy Warhol, movendo-se de seu lugar historicamente encastelado nos meios acadêmicos e alienado da vida quotidiana. Diante do que parece um projeto organizado de apagamento da filosofia e do pensamento reflexivo em meio à indústria cultural, Daí o resgate do conceito deleuziano para propor uma renovação do fazer filosófico.



 Pop Filosofia, noção já presente em Deleuze, também, uma pop educação. O conceito de “Pop Filosofia” foi inventado por ele nos anos 70. Desde então, diversas iniciativas no Brasil e no mundo, cada uma à sua maneira, vêm sendo colocadas em prática inspiradas nesse projeto. Sua consequência mais perceptível é o enfraquecimento da rigidez do cânone de autores e questões tidas como importantes no ocidente. Aí a Pop Filosofia vem ocupando nesta feira simbólica das atividades acadêmicas um lugar de experimentação ou de vanguarda, o que na prática acaba se tornando um não lugar, entrelugar como se fosse apenas um fenômeno efêmero e irrelevante. Há quem desenvolva outras estratégias e em vez de combater a hegemonia do clássico, que tal hackeiam-no? E se aceitássemos a tese de que a história da filosofia é mesmo a melhor forma de acesso à filosofia ela mesmo, mas fôssemos capazes de pluralizá-la?  

A filosofia de Andy Warhol, central para o movimento Pop Art, transformou objetos de consumo de massa e celebridades em arte, questionando a fronteira entre cultura popular e "alta arte". Ele aborda a repetição, a beleza superficial, o consumo e o dinheiro com autoironia, antecipando a era das redes sociais. Aqui estão os pontos principais da Pop Filosofia de Warhol: a) Warhol revolucionou ao introduzir a arte colaborativa, criando um espaço de produção em massa que simulava uma linha de montagem, questionando o conceito de autoria única. b) Ao retratar latas de sopa, Coca-Cola ou ídolos (como Marilyn Monroe), Warhol destacou que o consumo iguala as pessoas, tornando a arte acessível e cotidiana. Ele defendia que a beleza retratada em fotos (bidimensional) é uma cópia inatingível, antecipando a lógica de imagem das redes sociais atuais. Diferente da filosofia clássica, a Pop filosofia é direta, superficial no sentido de focar na superfície das coisas, e profundamente conectada ao estilo de vida moderno e à sociedade de consumo. Sua filosofia foi consolidada na prática artística com serigrafias e textos que misturam pensamentos sobre sucesso, amor, tempo e morte de forma superficial e autoconsciente. 

O conceito também é abordado em obras contemporâneas, como o livro Pop Filosofia de Márcia Tiburi, que resgata a ideia de uma filosofia aberta, como que transfigurada pela estética warholiana, focada no cotidiano

Pop Filosofia gosta mais da cidade do que do campo. O adepto deve acostumar-se com o mundano, aprender a comer sozinho e aproveitar-se da experiência urbana ver que ser mulher é tão nada como ser homem. Entender que fazer sexo dá a sensação de ser natural, normal, gozando ou não. Somos o que pensamos e as câmeras não captam o que pensamos. Não faça dos seus problemas um Problema. Não reclame de uma coisa enquanto ela estiver acontecendo, espera que ela se conclua para apontar o culpado. Você pode ter maus modos, se soube se aproveitar disto.

E se a Pop Filosofia não fosse um fenômeno contemporâneo, mas apenas um outro nome, um nome aparentemente novo, mas que se refere a práticas antigas que se perderam com o advento da filosofia profissional e institucionalizada? Para demonstrar que a Pop Filosofia faz parte da tradição não é preciso conferir uma roupagem conceitual que lhe dê o tom apropriado para ser aceita como uma atividade “séria” de pesquisa. Ao contrário, basta furar o modus operandi homogêneo/ reducionista pelo qual a história da filosofia vem sendo abordada na maioria dos cursos de graduação e pós-graduação do país. Basta mostrar que há aspectos “pop” na história da filosofia, que vêm sendo contínua e estrategicamente ignorados, silenciados ou expurgados.

Ser limpo é muito importante. Beleza na sujeira é feia, mas beleza não tem muito a ver com sexo; deve-se aceitar a autoimagem das pessoas do mesmo modo como recusamos os excessos alimentares e pensar que é impossível todos terem dinheiro suficiente par viver bem, pois a história certa no lugar certo pode colocar cada um em no alto por meses ou anos. Nenhuma pessoa/ ator é completamente certa para incorporar um personagem, mas o teatro do mundo está apresentação, sempre e negócio, aí, é a melhor arte no conceito pop filosófico. Olhar todo o resto ao redor tem que incluir o humor diante dos restos que, com o todo, deve ser reciclado. A Pop Filosofia usa os restos, o que não significa se alimentar de restos, isto é outra coisa. Alimento é sagrado, esta extravagância deve ser tolerável. Às vezes somente um biscoito na hora do jantar pode ser o certo para evitar excesso de peso.

Nascer é como ser sequestrado e viver dá muito trabalho. Somos vendidos como escravizados. Tempo é, tempo era. Quando encontramos alguém que não víamos há muito tempo, não devemos perguntar sobre o que tem feito e sim prosseguirmos na ação presente, não xeretar sobre o período de ausência entre ambos. Não é o tempo que modifica as coisas, somos nós mesmos, mas não forcemos muito.

 

II

A história da filosofia tal como a conhecemos e a praticamos foi uma genial invenção hegeliana, com alguns efeitos colaterais drásticos. Desde Aristóteles, no tratado Metafísica, houve várias tentativas por parte dos próprios filósofos de descrever a ordem cronológica das várias filosofias precedentes, mas em geral de forma crítica e depreciativa. Por exemplo, quando Schelling planejou seu curso sobre a história da filosofia moderna, em Munique por volta de 1828, três anos antes da morte de Hegel, o plano era oferecer a seus alunos uma propedêutica histórica “negativa” à filosofia. Embora ele, Schelling também visse a filosofia como um desenvolvimento constante no tempo, sua “História da Filosofia” é apenas um relato das tentativas malsucedidas dos filósofos de chegar à verdade. As formas de filosofia do passado têm seu valor, de acordo com as observações preliminares de Schelling às lições, funcionem apenas como um contraste ou como um exemplo inferior em relação ao pensamento autêntico (o de Schelling mesmo): “Se, para aprender a apreciar e julgar a verdade, é finalmente necessário saber também o erro, então tal apresentação é provavelmente a maneira melhor e mais gentil de mostrar ao iniciante o erro a ser superado”, dizia.

Os méritos de Hegel, ao contrário de Schelling, incluemter desenvolvido uma história da filosofia que serve como propedêutica “afirmativa”, ou seja, dar a conhecer como ela [a própria filosofia] aparece sucessivamente no tempo. Com ele a filosofia se torna histórica e a história da filosofia se torna filosófica. Infelizmente há um preço a pagar pelo resgate da história da filosofia. Hegel constrói um modelo rígido. Se por um lado ele abre espaço para os devires, por outro lado os aprisiona sob as categorias de “processo” e “progresso”. Nesse modelo, o desenvolvimento do começo ao fim da história da filosofia é fixo, inexorável e até irresistível.

Além disso tudo que diz respeito à finitude do pensar, ou seja, ao corpo, nos seus afetos, aos desejos, mas também aos acidentes de percurso, às idiossincrasias das personalidades, ao compasso ou ao descompasso entre vida e obra dos autores, é ignorado, domesticado ou banido da estrutura do pensamento em nome de uma metafísica de uma pureza conceitual. Esta concepção hegeliana de “história da filosofia” vigora de forma não tematizada nos cursos de filosofia pelo Brasil. Podemos reler esta tradição, pois ao desvelar as supostas “raízes clássicas” da Pop Filosofia, quero na verdade apenas re-visibilizar ou revocalizar alguns aspectos desprezados e silenciados.

São diversos os aspectos que parecem destacar a Pop Filosofia em contraste com a filosofia acadêmica. Cada um deles poderia ser facilmente recuperado a partir da própria tradição, não tendo sido inventados na contemporaneidade, mas apenas rememorados, reapropriados e reatualizados. Para uma futura “história pop da filosofia”, observemos uma pequena seleção destes aspectos: a importância da conexão com o local (a cultura brasileira); a experimentação com estilos de expressão; a ênfase na dimensão/ visão performativa do pensamento. Como: a importância da conexão com o local: a cultura brasileira e vamos sugerir, pop filosoficamente, parte da luta pela expansão do cânone clássico de autores e de temas recolocar constantemente a pergunta sobre o que significa fazer filosofia nesse lugar específico em que estamos, no Brasil do século XXI. Hoje essa tendência para uma abordagem localizada está se tornado cada vez mais difundida, mas já foi, pensemos, bastante incomum e muitos passarm por algumas situações inusitadas. Importante pensar no livro seminal de Roberto Gomes, Crítica da Razão Tupiniquim (1994), checar a expressão “jeitinho brasileiro”, um assunto já bastante debatido na sociologia e na antropologia nacionais, mas completamente ausente do cenário da filosofia. Ver as semelhanças e diferenças entre o jeitinho e a “gambiarra”. Roberto Gomes fala sobre o jeitinho, mas nada sobre a “gambiarra”, que é um misto de saber técnico, imaginação e insubordinação, fundamental para resolver emergências.

Desde os primórdios temos também aqueles modos de escrever e pensar mais abertos, na filosofia, às atmosferas afetivas evocadas pelas diferentes sonoridades e coloridos das palavras e, nem por isso, menos densos conceitualmente, tais como os poemas (Sapho e Parmênides), os diálogos (Platão e Sade), as confissões (Agostinho e Rousseau), as cartas (de Schiller), os pensamentos (Pascal), os aforismos (Novalis e Nietzsche), os diários (Kierkegaard), os romances e contos (Sartre e Camus), as performances (Preciado). Infelizmente a escolástica acadêmica vigente tende apenas a se focar exaustivamente nos conteúdos dessas experimentações literárias-filosóficas, sem dar muita atenção aos seus modos singulares de se fazer, dissociando e hierarquizando aquilo que, ao contrário, terá sempre acontecido em forma recíproca.

A aparente ausência de estilo nos textos acadêmicos atuais em Filosofia é, na verdade, a vitória hegemônica de um estilo específico, o analítico/escolástico, que apresenta uma estrondosa uniformidade estrutural e cuja linearidade entediante perpassa por todas as produções da pesquisa, tanto nos artigos das revistas científicas, como nas conferências nos congressos; tanto nos trabalhos de conclusão de curso, nas dissertações de mestrado, como nas teses de doutorado. Mas o estilo vitorioso da Filosofia acadêmica se finge de neutro, mas segue um código de regras muito estrito, mais notadamente na exigência de conformidade aos seus aparatos intermináveis de erudição, tais como as notas de rodapé, as referências bibliográficas, os glossários e os índices onomásticos. Tudo se passa como se só houvesse rigor na forma estrita do cálculo, da geometria e da arquitetura. Inspirada em Nietzsche, que dizia que o rigor da Filosofia acadêmica era uma espécie de rigor mortis, irrompe felizmente no cenário contemporâneo um contra-movimento de reabilitação do corpo, dos afetos e das imagens na escrita filosófica. A re-estetização dos conceitos permite que o pensamento faça outros tipos de aliança, para que a Filosofia não se constitua apenas sobre, mas com ou até mesmo enquanto arte.

O Pensar Perform-ativo na Pop Filosofia“surge´” no ano de 2012, na Europa uma iniciativa internacional de instauração de um novo campo de conhecimento denominado de performance philosophy [filosofia performativa], que reúne de forma organizada e consistente as práticas criativas das performances e o trabalho conceitual da filosofia. A filosofia performativa vê, portanto, a performance enquanto pensamento e produz pensamento enquanto performance. A ideia de uma filosofia performativa é um desdobramento coerente com meu próprio projeto de uma Pop Filosofia aliado às artes cênicas. Desde 2013, venho tentando, na teoria e na prática, desenvolver caminhos para sua implementação no Brasil. Dentro desse fluxo, comecei a realizar palestras e cursos sobre o tema e, ao mesmo tempo, experimentar formas de fazer filosofia que envolvessem cada vez mais meu corpo, minha imaginação e meus afetos.

A Pop Filosofia é uma filosofia performativa que busca engajar o corpo nos conceitos, afetos e pensamentos, ações teóricas e práticas. Talvez seja possível afirmar que estamos vivendo uma espécie de performative turn na filosofia do século XXI. Para mim, é claro que a dimensão performativa da filosofia não é um vanguardismo, mas um classicismo, especialmente característico da Grécia antiga. Todos os filósofos, sem exceção, sempre misturaram filosofia e ação na vida cotidiana. Algumas dessas ações não foram fortuitas ou involuntárias, foram gestos conceituais, ações filosóficas, seguiam um “programa performativo”. Existem muitas situações emblemáticas famosas, onde o filósofo engajou seu próprio corpo para intensificar suas ideias. A famosa fotografia de Jules Bonnet que mostra Nietzsche e Paul Rée puxando uma charrete com Lou Salomé nas rédeas e no chicote foi uma genial ação performática encenada pelo próprio filósofo alemão em maio de 1882, uma cena que até hoje alimenta diversas polêmicas. O próprio Sócrates, pouco antes de tomar a cicuta, realizou um ritual performático, ao pedir que fosse sacrificado um galo a Esculápio, deus da medicina e da cura. Um breve olhar sobre a história do pensamento mostra que a nudez, esta que sempre de novo é alvo de polêmicas por parte dos setores mais conservadores contra as artes, já foi ativada como ação performativa e conceitual diversas vezes até mesmo na hagiografia oficial. É notório, por exemplo, o modo como Francisco de Assis marcou sua decisão de mudar sua vida em prol de um cristianismo mais atento às questões sociais: em 1206, despojou-se até ficar nu diante do pai, do bispo e de toda cidade. Corpo e pensamento em sintonia em prol de um voto de pobreza. Na filosofia, quem ficou famoso pela nudez em espaços públicos foi Diógenes, o cínico, considerado por Platão um “Sócrates que enlouqueceu”. Diógenes defendia, contra Platão, que a virtude se exercia na ação e não apenas na teoria. As ações performativas de Diógenes e de tantos outros renomados pensadores, algumas consideradas obscenas, outras engraçadas e ainda outras admiráveis, compõem um imenso acervo de “anedotas” da história da filosofia.

Sem sombra de dúvida a obra de Diógenes Laertius constitui um dos pioneiros clássicos da Pop Filosofia. Infelizmente, embora seu trabalho tenha servido de fonte ininterrupta de conhecimentos sobre o pensamento, a vida e o território de cada pensador, constata-se na evolução da “história da história da filosofia”, ou seja, na recepção desses conhecimentos, uma crescente purificação dos aspectos biográficos, corporais, afetivos, em suma, das dimensões performativas inerentes às obras dos grandes filósofos da antiguidade. Essa higienização do pensamento, a desautorização das inevitáveis, ainda que misteriosas, interseções entre o corpo e o corpus de cada filósofo, é infelizmente sintetizada justamente por um dos maiores defensores da dimensão finita do pensar, Martin Heidegger.

Heidegger disse, em um curso sobre Aristóteles de 1924, que tudo que precisávamos saber sobre a vida de um filósofo é que ele nasceu, pensou e morreu. Como diria Deleuze, é muito difícil, até para Heidegger, ser coerente com o pensamento heideggeriano. Nietzsche, ao contrário, no prefácio à sua pequena história da filosofia na era trágica, em 1874, defendia a centralidade das anedotas para a compreensão do pensamento:

Esta tentativa de contar a história dos filósofos gregos mais antigos se distingue de outras tentativas semelhantes pela sua concisão. Esta conseguiu-se porque, em cada filósofo, se mencionou apenas um número muito limitado das suas teorias, em virtude, portanto, de não apresentar uma imagem completa. Mas escolheram-se as doutrinas em que ressoa com maior força a personalidade de cada filósofo, ao passo que uma enumeração completa de todas as teses que nos foram transmitidas, como é costume nos manuais, só leva a uma coisa: ao total emudecimento do que é pessoal. É por isso que esses relatos são tão aborrecidos: pois em sistemas que foram refutados só nos pode interessar a personalidade, uma vez que é a única realidade eternamente irrefutável. Com três anedotas é possível dar a imagem de um homem; vou tentar extrair três anedotas de cada sistema, e não me ocupo do resto.

Nietzsche pode ser considerado o catalisador da virada performativa da filosofia, pois sempre defendeu e assumiu a dimensão autobiográfica na sua própria escrita, fez experiências com novas mídias, tendo sido um dos primeiros usuários de máquina de escrever do planeta e realizou diversas parcerias tanto com artistas (atores, músicos, poetas, fotógrafos, etc.), como com cientistas (biólogos, médicos, geógrafos, etc.). Nietzsche se autodenominava “Filho de Laêrtius” em algumas de suas cartas, dedicou diversos estudos a ele na sua juventude e disse que preferia ler Laêrtius do que a maioria dos historiadores da sua época, pois “naquele pelo menos vive o espírito dos filósofos antigos; mas nestes não vivem nem o antigo nem nenhum outro espírito”

Inspirado em Nietzsche, Deleuze, Diógenes, Crátilo e Sócrates, patronos da Pop Filosofia, sentimos uma dimensão performativa da filosofia vem sendo ignorada ou reduzida a meras anedotas pela historiografia oficial da filosofia. Será preciso rever a noção de “anedota”, sua relação com a história e a verdade em geral. Embora sejam comumente definidas como histórias engraçadas e desimportantes, desde tempos imemoriais elas cumprem o papel, enquanto “estórias secretas ou não transcritas sobre o que não é dado”, de desestabilizar as compreensões hegemônicas da realidade e estimular novas perspectivas. Levar a sério as anedotas da história da filosofia ajudam não apenas a resgatar a sua dimensão performativa perdida, mas ajuda também a enfraquecer o seu excessivo euro- e logocentrismo, já que a tradição oral de contar histórias constitui fonte inesgotável de conhecimentos e sabedorias na Ásia, África e na Ameríndia. Não basta ampliar os conteúdos do cânone, será preciso reavaliar a excessiva centralidade dos conceitos e da escrita em detrimento das imagens e da oralidade. 

Por uma “Pop história da Filosofia” intima a filosofia acadêmica a ter força de suportar os paradoxos e as ambiguidades da existência, mas também a resistir e questionar as ideologias hegemônicas. Não se abandona o rigor, mas sim a excessiva formalidade. É necessário, por exemplo, se perguntar se a sala de aula, o texto linear, as aulas expositivas, as longas palestras em congressos, são ainda os formatos mais adequados para se fazer filosofia no século XXI. Será imprescindível reativar os corpos dos filósofos, sentados eternamente, seja nas cadeiras da escrivaninha ou nas cátedras da academia. Será preciso, finalmente, rever a própria noção de “cânone”, derivava do grego kanon, que significa vara de medir. Será preciso realizar uma genealogia de como foi construído o cânone de autores e questões da história da filosofia e combater a desatenção deliberada contra os territórios, os corpos, os gestos e os estilos em contraste com apenas o que eles disseram ou escreveram.

A filosofia no Brasil vem felizmente se deixando cada vez mais ser invadida e contaminada pela complexa diversidade da própria sociedade brasileira, mas ainda é um escândalo que não haja ainda, algo muito dedicado às questões que envolvam cultura brasileira e não apenas história da filosofia brasileira. Precisamos abrir cada vez mais espaços para a participação das mulheres, dos afrodescendentes, dos remanescentes dos povos indígenas na filosofia do Brasil. Não é necessário para isso abandonar completamente as tradições europeias. Temos muito ainda a aprender com os autores clássicos, a saber, sobre como se proteger “nas” suas sombras, mas também “das” suas sombras, buscando outras e melhores luzes.

Antes de concordarmos ou não com o que possa vir a ser Pop Filosofia, temos que saber que ela se tornou um fenômeno que merece cuidado filosófico, como qualquer tema ligado à cultura. Não podemos nos negar à reflexão sobre o tema, o que significa, sem preconceitos, prestar atenção nele tendo em vista justamente o que nos incomoda. O preconceito não será incomum. Mas mesmo em certos contextos do campo acadêmico, berço dos preconceitos intelectuais, a seriedade da investigação, substituindo a crítica abstrata, faz da Pop Filosofia um objeto de estudos como outro qualquer. Há várias pessoas estudando seriamente a Pop Filosofia. Não será possível compreender o que vem sendo chamado de Pop Filosofia se não estivermos atentos para uma armadilha na qual a filosofia, como qualquer área, cai com facilidade. Trata-se da armadilha da “distinção”, no sentido de Pierre Bordieu, relativamente à “nobreza acadêmica”. Quanto a isso, podemos dizer que a necessidade que o campo filosófico tem da distinção da filosofia em relação a outras áreas atrapalha, de certo modo, o avanço da própria filosofia.
Mas a questão da distinção nos coloca diante de outros problemas profundos e pouco levados a sério. Um deles diz respeito às fontes implicado diretamente na questão da nobreza.

Pop Filosofia é um modo de pensar filosófico, ou seja, um método, que se faz questionando a necessidade da nobreza das fontes. Em outras palavras, se a filosofia tradicional é feita a partir dos textos de filósofos de uma determinada tradição, a Pop Filosofia é aquela que, em um sentido muito simples, se realiza a partir de outros textos, não apenas da tradição greco-latina. Ela tem relação direta com a filosofia crítica enquanto está atenta aos conteúdos obscuros de sua época, enquanto eles são culturais. A Pop Filosofia é uma filosofia da cultura atenta aos conteúdos desprezados de um tempo. Em nossa época, estamos obrigados a pensar na questão da indústria cultural. Podemos dizer que a Pop Filosofia é a filosofia crítica da indústria cultural que assume o padrão de produção da cultura de nossa época para compreendê-lo. Na Pop Filosofia, prepondera o método. À pergunta “como fazer filosofia?”, ela responde a partir de fontes não usuais e dos conteúdos do seu próprio tempo. Em termos bem simples, a Pop Filosofia é uma filosofia do contemporâneo com alto teor de experimentação dialógica com outras áreas de pesquisa, com as artes, com outras fontes, com outros métodos. A Pop Filosofia se faz a partir da vida em seu sentido político e cultural. Com a Pop Filosofia está em jogo o que a filosofia pode e deve pensar, o que pode se tornar “assunto filosófico”.
A Pop Filosofia é aquela que se deixou afetar pelo pop. De que pop falamos? Há pelo menos dois tipos de pop. Conforme a classificação de Charles Feitosa, autor de um texto seminal sobre a questão, a  Pop Filosofia está ligada ao campo cultural do pop, relacionado também à Pop Art e interessa enquanto maneira de fazer filosofia, já o Pop está ligado ao sucesso puro e simples, e não interessaria como maneira de fazer filosofia, mas o que chamamos hoje de Pop Filosofia tem também uma pré-história.

A Pop Filosofia pode ser considerada a herdeira histórica da área da estética filosófica, aquela que se ocupou de certos conteúdos desprezados pela razão e pela teorização tradicionais, a saber, o corpo e a arte. De todas as subáreas da filosofia, a estética é a mais interdisciplinar, aquela que mais se relaciona com outras teorias e que permite as investigações e a criação das metodologias mais ricas, o que acontece em conjunto com a ética, a política, a epistemologia, a filosofia da linguagem e, não é exagero dizer, também com áreas tão novas como a filosofia multicultural. Para além da história da filosofia, sem esquecer dela, a filosofia experimenta hoje uma autotransformação importante. Essa transformação a aproxima das formas da cultura e da vida cotidiana, tanto mais vazias de pensamento, quanto mais a filosofia se esquece delas. A Pop Filosofia é a proposição altamente filosófica de um diálogo da filosofia com seu tempo, tendo em vista as formas de viver e pensar das pessoas que constroem seu tempo.

 

III

 Mesmo sendo a intenção da Pop Filosofia devolver o pensamento das pessoas para que elas possam integrá-la às suas vidas. Vejamos um lado assustador, para muito desta filosofia: a Pop Filosofia traz estranheza e perplexidade, também; traz certo conhecimento secreto, toca nas raízes do nosso nada que pode ser a vida e como não incorporar os problemas dos outros. Nos faz lembrar que conseguimos melhor aas coisas quando não as desejamos ansiosamente, a ponto de nos perturbar e nos atiçar em relação ao ponto de chegarmos às raias do limite da loucura sem colher nem um fruto disso. Um exemplo é a relação sexual: dormir, transar, fazer carinho: o que fazer quando estamos deitados ao lado de quem desejamos: a Pop Filosofia aconselha que o mais excitante é, certas vezes, o não-fazer. Aí amor e sexo podem ser negócio, é fantasiar.

Às crianças deveríamos ensinar os mecanismos e o nada do sexo, de modo a não se entediar até a velhice. Os conceitos sobre tais coisas não podem ser fixos. Acima de tudo deve haver simplicidade. O que se faz a dois na hora do amor deve fugir de algo como dois passarinhos numa gaiola. Não adianta enchera a cabeça com sexo não adianta comprar as pessoas como se fossem coisas, mas o amor pode ser comprado e vendido. Perceber que sexo é fantasia por sexo. Violência não é sexy. Tem gente frígida que sabe fingir prazer e qualquer um atinge a satisfação. Vejam: se um homem bonito tem aquilo pequeno ou uma mulher tem um seio maior que o outro? Eles podem ter uma boa conversa e omitir/ eclipsar esta imperfeição boba. Deve-se omitir defeitos porque isto não faz parte do que queremos ser e todos, afinal, devemos, ao atravessar períodos de impopularidade, resistir.

Pop Filosofia é para todos e todas.

 

 

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