Com o mestre Thiago de Mello, num encontro que não esqueço.
Moisés Monteiro de MELO Neto com o mestre Thiago de Mello
num encontro inesquecível
POEMAS DE Thiago de Mello
Mormaço de primavera Entre chuva e chuva, o mormaço. A luz que nos entrega o dia não dá ainda para distinguir o sujo do encardido, o fugaz, do provisório. A própria luz é molhada. De tão baça, não me deixa sequer enxergar o fundo dos olhos claros da mulher amada.
Mas é com esta luz mesmo, difusa e dolorida, que é preciso encontrar as cores certas para poder trabalhar a Primavera.
PARA OS QUE VIRÃO Como sei pouco, e sou pouco, faço o pouco que me cabe me dando inteiro. Sabendo que não vou ver o homem que quero ser.
Já sofri o suficiente para não enganar a ninguém: principalmente aos que sofrem na própria vida, a garra da opressão, e nem sabem.
Não tenho o sol escondido no meu bolso de palavras. Sou simplesmente um homem para quem já a primeira e desolada pessoa do singular – foi deixando, devagar, sofridamente de ser, para transformar-se — muito mais sofridamente — na primeira e profunda pessoa do plural.
Não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada com quem vai no mesmo rumo, mesmo que longe ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar.
É tempo sobretudo de deixar de ser apenas a solitária vanguarda de nós mesmos. Se trata de ir ao encontro. (Dura no peito, arde a límpida verdade dos nossos erros) Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo, e saber serão, lutando.
QUANDO A VERDADE FOR FLAMA As colunas da injustiça sei que só vão desabar quando o meu povo, sabendo que existe, souber achar dentro da vida o caminho que leva à libertação. Vai tardar, mas saberá que esse caminho começa na dor que acende uma estrela no centro da servidão. De quem já sabe, o dever (luz repartida) é dizer. Quando a verdade for flama nos olhos da multidão, o que em nós hoje é palavra no povo vai ser ação.
Aprendizagem no vento O vendaval findou. Agora é só o vento soprando a sua ferocidade mais fria do que a pele enrijecida e azulada dos operários fuzilados.
O vendaval findou. Agora é só o vento cotidiano, implacavelmente morno, hálito podre. É com ele que se tem de aprender a lição do revés, vida vivida.
Dos tantos que saíram, poucos, muito poucos, se reencontrarão um dia, tomara, naquilo que foram ou quenão puderam ser. Por enquanto, a cordilheira transposta, o que se alteia é o desvario da boca, é cada vez mais o muro entre a boca e a mão.
Aos que sonhavam mesmo, vendo o claro, e que puderam permanecer no coração ardente da sombra, cabe o labor maior da aprendizagem. É aprender com tudo o que foi feito e também com tudo que deixou de ser feito, como rasgar o caminho da esperança que lateja, que lateja, na frágua da paciência operária.
O vendaval findou. Telhados ocos não poderão servir de abrigo a pássaros.
O SILÊNCIO DA FLORESTA Tem consistência física, espessamente doce, o silêncio noturno da floresta. Não é como o do vento e vastidão, cujos dentes de neve morderam a minha solidão. Nem como o silêncio aterrador (no seu âmago o tempo brilha imóvel) do deserto chileno de Atacama, onde, um entardecer, estirado entre areia e pedras, escutei cheio de assombro o latir do meu próprio coração.
O silêncio da floresta é sonoro: os cânticos dos pássaros da noite fazem parte dele, nascem dele, são a sua voz aconchegante.
Sozinho no centro da noite amazônica, escuto o poder mágico do silêncio, agora quando os pássaros conversam com as estrelas, e recito silenciosamente o nome lindo da mulher que eu amo.
Não aprendo a lição A lição de conviver, senão de sobreviver no mundo feroz dos homens, me ensina que não convém permitir que o tempo injusto e a vida iníqua me impeçam de dormir tranquilamente. Pois sucede que não durmo.
Frente à verdade ferida pelos guardiães da injustiça, ao escárnio da opulência e o poderio dourado cujo esplendor se alimenta da fome dos humilhados, o melhor é acostumar-se, o mundo foi sempre assim. Contudo, não me acostumo.
A lição persiste sábia: convém cabeça, cuidado, que as engrenagens esmagam o sonho que não se submete. E que a razão prevaleça vigilante e não conceda espaços para a emoção. Perante a vida ofendida não vale a indignação. Complexas são as causas do desamparo do povo. Mas não aprendo a lição. Concedo que me comovo.
O PÃO DE CADA DIA Que o pão encontre na boca o abraço de uma canção construída no trabalho. Não a fome fatigada de um suor que corre em vão.
Que o pão do dia não chegue sabendo a travo de luta e a troféu de humilhação. Que seja a bênção da flor festivamente colhida por quem deu ajuda ao chão.
Mais do que flor, seja fruto que maduro se oferece, sempre ao alcance da mão. Da minha e da tua mão.
Faz escuro mas eu canto Faz escuro mas eu canto, porque a manhã vai chegar. Vem ver comigo, companheiro, a cor do mundo mudar. Vale a pena não dormir para esperar a cor do mundo mudar. Já é madrugada, vem o sol, quero alegria, que é para esquecer o que eu sofria. Quem sofre fica acordado defendendo o coração. Vamos juntos, multidão, trabalhar pela alegria, amanhã é um novo dia.
CANÇÃO DO AMOR ARMADO Vinha a manhã no vento do verão, e de repente aconteceu. Melhor é não contar quem foi nem como foi, porque outra história vem, que vai ficar. Foi hoje e foi aqui, no chão da pátria, onde o voto, secreto como o beijo no começo do amor, e universal como o pássaro voando — sempre o voto era um direito e era um dever sagrado.
De repente deixou de ser sagrado, de repente deixou de ser direito, de repente deixou de ser, o voto. Deixou de ser completamente tudo. Deixou de ser encontro e ser caminho, deixou de ser dever e de ser cívico, deixou de ser apaixonado e belo e deixou de ser arma — de ser a arma, porque o voto deixou de ser do povo.
Deixou de ser do povo e não sucede, e não sucedeu nada, porém nada?
De repente não sucede. Ninguém sabe nunca o tempo que o povo tem de cantar. Mas canta mesmo é no fim. Só porque não tem mais voto, o povo não é por isso que vai deixar de cantar, nem vai deixar de ser povo.
Pode ter perdido o voto, que era sua arma e poder. Mas não perdeu seu dever nem seu direito de povo, que é o de ter sempre sua arma, sempre ao alcance da mão.
De canto e de paz é o povo, quando tem arma que guarda a alegria do seu pão. Se não é mais a do voto, que foi tirada à traição, outra há de ser, e qual seja não custa o povo a saber, ninguém nunca sabe o tempo que o povo tem de chegar.
O povo sabe, eu não sei. Sei somente que é um dever, somente sei que é um direito. Agora sim que é sagrado: cada qual tenha sua arma para quando a vez chegar de defender, mais que a vida, a canção dentro da vida, para defender a chama de liberdade acendida no fundo do coração.
Cada qual que tenha a sua, qualquer arma, nem que seja algo assim leve e inocente como este poema em que canta voz de povo — um simples canto de amor. Mas de amor armado.
Que é o mesmo amor. Só que agora que não tem voto, amor canta no tom que seja preciso sempre que for na defesa do seu direito de amar.
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